Enfim, o que é a Esquerda?

Texto escrito pelo blogueiro Luciano Ayan, em 2010. Para ler o texto original clique aqui. Para ler as postagens atuais do seu blog, clique aqui.

Várias vezes neo ateus se opõem ao que escrevo de forma indignada, dizendo algo como “O Luciano quer dizer que nós somos de esquerda, mas eu não sou marxista”.

Por isso, já passou do tempo de esclarecer bem a questão da esquerda, e EXATAMENTE o que trato quando cito a esquerda.

Uma forma melhor de tratar a esquerda, como um todo, seria como sistema humanista de governo.

O humanismo, naturalmente, não nos diz como gerir economicamente um país, mas dá uma base para todas as ideologias da esquerda.

O humanismo é a crença na idéia de que o homem, por sua ação, poderá criar um mundo perfeito, isento “de males”.

Daí, os sistemas de governo da esquerda traziam a idéia: “Então vamos inchar o estado para fingir que lutamos por esse mundo”. Simples assim.

Muitos religiosos duvidam do paradigma humanista, pois simplesmente acreditam que o ser humano é falível. Digamos que para o religioso o ser humano é um pecador em potencial.

Para chegar à essa constatação, não precisamos nem da religião, pois até alguns filósofos ateus concordam exatamente com a mesma proposição. Como exemplo, John Gray e Arthur Schopenhauer.

Para John Gray, a idéia de que o homem poderá criar um paraíso em Terra através “da ciência” não passa de uma ilusão, um ranço que vem dos tempos do positivismo. E John Gray usa em sua teoria apenas a teoria da evolução. (Por isso, nem todo ateu é humanista, mas quase todo humanista é um esquerdista, e o neo ateu é um humanista radical)

Qualquer conservador, em essência, duvida de qualquer sistema de governo humanista. Portanto, por tabela duvida de qualquer sistema da esquerda.

Marxismo, liberalismo social e social democracia são as três principais alternativas para um sistema de governo de esquerda. E todos são derivados logicamente do humanismo.

O marxismo promete o mundo sem divisões sociais através da luta armada. Já a social democracia promete o mesmo mundo, mas obtido a partir de uma luta democrática. O liberalismo social é o mais facilmente vendável, e hoje atinge o PSDB no Brasil e o governo Obama nos Estados Unidos (lá eles atendem pelo nome de “Democratas” ou “Liberais”), e foca na luta por um mundo sem fronteiras, com “justiça social” e o blábláblá de sempre.

O neo ateísmo é uma vertente liberal de anti-religiosidade, surgida com o fim de aumentar o poder político dos “seculares”, uma “tropa de elite” de humanistas seculares mais agressivos, sempre com o viés globalista, mania de todo liberal. (Não vamos confundir com liberalismo social, dos “liberais” da esquerda, com o liberalismo econômico, dos conservadores)

Em um post que que fiz em 15 de setembro, Brasil: Game Over OU O Começo da Ditadura Formal, Licorne Negro fez algumas perguntas extremamente relevantes:

Gostaria de saber qual a origem desse delírio esquerdista de achar que todo partido que está na situação é de direita, não importa que seja de esquerda e aja com uma agenda de esquerda, adaptando apenas pontos mínimos (geralmente na economia) devido à necessidade de agir de forma minimamente realista. Isso viria da época de Dom Pedro, em que se dizia que não há nada mais conservador que um liberal no poder? Ou isso faz parte da estratégia gramsciana? Também gostaria de saber porque no Brasil tratamos o PSDB como direita? E porque muita gente diz que nos Estados Unidos só há partidos de direita, mesmo que os Democratas tenham se mostrado esquerdistas em todo seu modo de agir?

Excelente questão, diga-se.

Os fatos são os seguintes.

O PSDB é de esquerda (da linha do liberalismo social) e o PT também (da linha marxista).

É importante notar que o fato do PT ser de linha marxista não implica em que eles tenham que usar a política soviética exatamente como foi feita por lá.

Pelo contrário. De acordo com a estratégia gramsciana, eles podem até utilizar preceitos liberais, uma política de mercado para alguns setores e até aliança com mega-empresários (Eike Batista, Abílio Diniz, Silvio Santos), tudo em nome da obtenção do poder.

Já o PSDB que aparenta ser de “direita” (somente no discurso dos marxistas puristas), no final das contas defende a mesma coisa, só que fez algumas privatizações.

Mas todas as privatizações feitas pelo PSDB foram insuficientes diante do inchadíssimo estado brasileiro.

É aí que temos o cerne da esquerda, da qual ambos fazem parte. Toda a esquerda tem como pilar o estado inchado.

Pois o estado inchado será o “meio” através do qual esses auto-declarados “iluminados” fariam a “justiça social”.

Mas toda essa idéia de que PSDB é de “direita” é derrubada com uma análise de debates recentes dos dois candidatos à presidência.

Dilma Rouseff ataca José Serra dizendo que ele é um “privatizador, que vai privatizar a Petrobrás”. Serra responde que não vai “privatizar a Petrobrás e nem o Banco do Brasil de jeito nenhum”.

Isso é sinal de que temos dois esquerdistas debatendo.

Alguém de direita já diria algo do tipo: “Sim, eu sou a favor de privatizar a Petrobrás, e também o Banco do Brasil, para que o estado receba impostos de ambos, agora como empresas privadas, empresas estas que não poderão mais serem usadas como cabide de emprego para partidos políticos. Em resumo, em um governo meu, as oportunidades de aparelhamento de estado cairiam ao mínimo, pois nas empresas privadas vocês não podem fazer a mesma bandalheira que fazem em empresas estatais”.

Qualquer resposta com um tom menor que este não é de direita.

Quem é de direita simplesmente NÃO CONFIA nas propostas humanistas, que geraram as ideologias da esquerda.

Quem é de direita NÃO CONFIA na Petrobrás nas mãos do estado, pois sabemos que eles utilizarão a empresa como máquina de cargos distribuídos para militantes.

Para alguém de esquerda, é normal a noção de que uma empresa desse porte fique nas mãos do estado. Pois o militante esquerdista tem a CRENÇA de que alguns homens (seriam os “anjos” em Terra, como diria Friedman) estão na missão de levar a “justiça social” através de sua ação, usando para isso “o Estado”.

Assim, não há como confundir esquerda ou direita.

E quando um petralha diz que “PSDB é de direita”, ele está simplesmente executando a Estratégia das Tesouras, de Stalin.

Olavo de Carvalho nos dá mais detalhes, conforme visto em seu texto “A Mão de Stálin está sobre nós”:

A articulação dos dois socialismos era chamada por Stalin de “estratégia das tesouras”: consiste em fazer com que a ala aparentemente inofensiva do movimento apareça como única alternativa à revolução marxista, ocupando o espaço da direita de modo que esta, picotada entre duas lâminas, acabe por desaparecer. A oposição tradicional de direita e esquerda é então substituída pela divisão interna da esquerda, de modo que a completa homogeneinização socialista da opinião pública é obtida sem nenhuma ruptura aparente da normalidade. A discussão da esquerda com a própria esquerda, sendo a única que resta, torna-se um simulacro verossímil da competição democrática e é exibida como prova de que tudo está na mais perfeita ordem.

Resumindo: quando tratamos o PSDB como “de direita”, já caímos na fase em que a estratégia das tesouras está bem desenvolvida em nosso país.

Aqui, no máximo o DEM poderia ser quase um partido de direita.

Mas as declarações de Índio da Costa no mês de agosto, dizendo que “é de esquerda”, causam algum desânimo. E o partido quase inexiste politicamente.

Quer dizer, direita não existe. Temos uma QUASE direita com o minúsculo DEM.

E a partir dali, é tudo esquerda, e isso inclui PSDB, PMDB, PV, PT, PCdoB, PSOL e todo tipo de porcaria.

A pergunta que resta é: como pudemos chegar à esse estágio de dominação esquerdista?

Simples: estratégia gramsciana.

Em raros países a estratégia gramsciana foi executada de forma tão coordenada, utilizando-se inclusive de unidades especializadas de doutrinação em grandes universidades, como a USP.

O senso comum da população brasileira, mesmo que seja um povo inerentemente conservador, está “formatado” para ir pensando de acordo com as ideologias da esquerda.

Tanto que nesse novo universo mental, até mesmo diante de diferentes sistemas de esquerda se convencionou chamar um deles de “direita” e outra de “esquerda”.

Por isso, chegamos à esse estágio de declínio cultural em que grande parte da população sequer consegue saber o que “direita” significa.

Ser de direita significa ser conservador, um adepto do livre mercado, do estado enxuto, da meritocracia, de uma moral objetiva (e não uma “moral fluida” ou “moral discutida”), etc.

Tanto PSDB como PT não tem absolutamente nada do que se esperaria em um partido de direita.

Nos Estados Unidos, os Democratas são um partido de esquerda, e os Republicanos são um partido de direita.

Vemos isso claramente na obsessão pelo estado inchado dos Democratas, como com o “Obama Healthcare”. E a rejeição ao estado inchado é base das manifestações republicanas.

Enfim, a diferença entre direita e esquerda nos Estados Unidos é claríssima.

Quando um petralha diz que “nos Estados Unidos só há partidos de direita”, ele mente no mínimo duas vezes.

Primeiro, por que na verdade, nos Estados Unidos há direita e esquerda, e isso é visto na diferença radical entre as duas propostas.

Segundo, por que no Brasil, o máximo de “direita” que temos são partidos iguais aos Democratas norte-americanos, portanto não faz sentido chamar qualquer grande partido nacional de “esquerda”.

Enfim, aqui vão duas regras básicas para facilitar a classificação:

  • Se alguém defende o estado inchado, inclusive com manutenção de estatais como Banco do Brasil e Petrobrás na alçada do governo, é de esquerda; se defender a manutenção apenas do básico absoluto com o Estado (como a segurança pública), é de direita;
  • Se vier com conversinhas como “nós lutamos pela justiça social”, é de esquerda, pois qualquer esquerdista tenta “se vender” fingindo que luta por todos, quando na verdade é só busca de autoridade; quem é de direita geralmente diz que “quem trabalha mais, merece mais”, o que pode parecer menos demagógico,  mas é mais realista.

Aplicando essas duas regras, que podem ser sustentadas por qualquer investigação na literatura dos autores de esquerda, vemos que nem PSDB e nem PT são de direita.

Aliás, no Brasil, não há direita.

E precisamos de uma direita ativa para fazer a oposição à esquerda.

Até por que os ideólogos da esquerda estão na espiral da bobagem, até por que é difícil encontrar bobagem maior do que dizer que o PSDB é de “direita”.

Se daqui uns 15 ou 20 anos, tivermos uma elite conservadora para fazer contraposição aos ideólogos da esquerda, talvez deixem de falar tanta bobagem.

A importância de manter-se firme aos seus princípios – Mises e seu crescente legado

Artigo de Gary North publicado no Instituto Ludwig von Mises e traduzido no Instituto Ludwig von Mises Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Um indivíduo que sistematicamente discipline sua vida em torno do objetivo de aprimorar as vidas daqueles que o rodeiam irá deixar um legado.  Este legado pode ser positivo ou negativo.  Existem aqueles que estão apenas em busca de poder e que, por isso, irão tentar influenciar a vida de outras pessoas por meio do engano e da adulação.  Seu objetivo é mudar corações, mentes e o comportamento daqueles que o cercam.  Seu legado tende a ser negativo.

Mas há também aqueles que se esforçam ao máximo para transformar as vidas de terceiros de uma forma positiva.  Eles invariavelmente seguem um estilo de vida específico, o qual governa suas ideias e seu comportamento.  Eles sistematicamente tentam estruturar suas próprias vidas de tal maneira que eles próprios se tornam demonstrações empíricas da própria visão de mundo que defendem.

Qualquer pessoa que tenha como o objetivo de sua vida mudar as opiniões de outras pessoas tem de estar comprometida com dois princípios: fazer sempre aquilo que defende e apoiar (de qualquer maneira possível) causas que estejam de acordo com o que defendem.

Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que a maioria das pessoas não quer mudar sua opinião em relação a nada.  Mudar uma única opinião significa que o indivíduo tem de mudar suas opiniões a respeito de vários tópicos.  Aquela velha regra é válida: “Você não pode mudar apenas uma coisa”.  Portanto, há um alto custo ao se repensar aquelas opiniões que você mais aprecia e valoriza.  Pessoas tendem a evitar empreitadas que envolvam altos custos.

Quando alguém é confrontado com uma nova opinião, se esta opinião está relacionada a como as pessoas devem agir, uma das primeiras autodefesas que o ouvinte irá levantar é esta: “A pessoa que está recomendando esta nova ideia vive consistentemente em termos desta ideia?”  Se é algo óbvio para o ouvinte que esta pessoa não faz o que diz defender, então fica claro que o próprio defensor da ideia não leva a sério a verdade e a efetividade daquilo que ele diz defender.  Isto dá ao ouvinte uma maneira fácil de escapar da conversa.  A ideia defendida não vingará.

Ludwig von Mises

Meu único encontro pessoal com Mises ocorreu no segundo semestre de 1971.  Eu havia sido contratado pelaFoundation for Economic Education.  Naquela data, eu havia sido convidado para uma cerimônia especial.  F.A. Harper havia editado uma segunda coleção de ensaios honrando Mises.  O primeiro livro de ensaios havia sido editado pela esposa de Hans Sennholz, Mary Sennholz, e foi publicado em 1956.

A cerimônia ocorreu em um hotel em Nova York.  Após a cerimônia, tive a oportunidade de conversar com Mises sobre vários assuntos, inclusive sua ligação com o sociólogo alemão Max Weber.  Weber havia se referido ao ensaio de Mises, O cálculo econômico sob o socialismo, em uma nota de rodapé em um livro que Weber não chegou a completar.  Ele morreu em 1920.  Mises me disse que ele havia enviado seu ensaio para Weber.

Mises deixou um legado que, desde sua morte em 1973, vem crescendo continuamente.  Ele foi um daqueles raros homens que teve duas fases em sua carreira.  A primeira fase, que começou em 1912 e terminou após a publicação da Teoria Geral (1936) de John Maynard Keynes, estabeleceu sua reputação de grande teórico econômico.  Seu livro de 1912 sobre moeda e sistema bancário, seu livro de 1922 sobre o socialismo, e seus vários artigos sobre tópicos específicos de teoria econômica o comprovaram um grande teórico.  Mas sua inflexível oposição a todas as formas de moeda fiduciária estatal de curso forçado garantiu a ele a reputação de um Neandertal do século XIX em um mundo de moedas estatais de curso forçado, o qual começou com a abolição do padrão-ouro no início da Primeira Guerra Mundial, em 1914.  Sua hostilidade ao socialismo também contribuiu para seu status de pária.  Ele estava vigorosamente resistindo a tudo aquilo que os círculos acadêmicos consideravam ser a onda do futuro.  Acadêmicos sempre querem seguir modismos.  Mises não era assim.

O triunfo do keynesianismo após 1936, em conjunto com a erupção da Segunda Guerra Mundial em 1939, trouxe um eclipse à carreira de Mises.  Na primeira metade da década de 1930, a influência do nazismo na Áustria crescia sombriamente.  Sendo um liberal da velha guarda e um judeu, Mises sabia que seus dias estavam contados.  Ele temia que os nazistas tomassem o controle da Áustria, e ele estava correto.  Sendo um economista defensor do livre mercado — conhecido pela esquerda como o mais implacável oponente do intervencionismo econômico — e um judeu, ele não teria sobrevivido na Áustria.

Sentindo que tais eventos eram apenas uma questão de tempo, Mises aceitou um cargo em Genebra e para lá se mudou em 1934, aceitando um dramático corte salarial.  Sua noiva o acompanhou e lá se casaram, não sem antes ele tê-la avisado que, embora escrevesse bastante sobre o assunto, ele nunca teria muito dinheiro.

Mises ficou em Genebra por seis anos, obrigado a deixar para trás sua adorada Viena e tendo de ver, impotente, a civilização sendo despedaçada.  Quando os nazistas anexaram a Áustria em 1938, eles saquearam seu apartamento em Viena e roubaram todos os seus livros e monografias.  Ele passou a viver uma existência nômade, sem ter a mínima ideia de qual seria seu próximo emprego.  E foi assim que ele viveu o auge de sua vida: já estava com 57 anos e era praticamente um sem-teto.

Mas nada disso abalou Mises.  Ele seguia concentrado em seu trabalho.  Durante seus seis anos em Genebra, ele continuou se dedicando à pesquisa econômica e às escritas.  O resultado foi sua até então obra magna, um enorme tratado de economia chamado Nationalökonomie (o precursor de Ação Humana).  Em 1940, ele completou o livro, o qual foi publicado por uma pequena editora e com edição extremamente limitada.  Mas quão intensa poderia ser, naquela época, a demanda por um livro sobre liberdade econômica escrito em alemão?  Certamente não seria nenhum bestseller.  E Mises certamente sabia disso enquanto o escrevia.  Mas escreveu assim mesmo.

No entanto, em vez de celebrações e noite de autógrafos, Mises naquele ano se deparou com outro evento que mudaria (novamente) sua vida.  Ele foi avisado por seus patrocinadores em Genebra que havia um problema.  Vários judeus estavam se refugiando na Suíça.  Ele foi alertado de que deveria procurar outro lar.  Os Estados Unidos eram o novo porto seguro.

Mises então começou a escrever cartas pedindo por posições universitárias nos EUA, mas tente imaginar o que isso significava.  Ele só falava alemão.  Suas habilidades em inglês se resumiam à leitura.  Ele teria de aprender o idioma ao ponto de se tornar exímio o bastante para poder dar aulas.  Ele havia perdido todos os seus arquivos, monografias e livros.  Ele não tinha nenhum dinheiro.  E ele não conhecia ninguém influente nos EUA.

E havia um sério problema ideológico também nos EUA.  O país estava completamente dominado e fascinado pela economia keynesiana.  A profissão de economista havia sofrido um vendaval.  Praticamente não mais existiam economistas pró-livre mercado nos EUA, e não havia nenhum acadêmico defendendo esta causa.  No final, Mises se mudou para os EUA sem ter nenhuma garantia de nada.  E já estava com quase 60 anos.

Quando ele chegou aos EUA em 1940 como um judeu refugiado, ele era praticamente um desconhecido no país.  Ele não tinha nenhum cargo assalariado de professor.  Ele já tinha 59 anos.  Ele jamais havia estado nos EUA.  Mas ele teve uma grande sorte: havia um jornalista nos EUA que não apenas conhecia sua obra, como também havia se tornado um defensor dela em suas colunas de jornal.  Seu nome era Henry Hazlitt.  Foi Hazlitt quem estimulou alguns empreendedores, como Lawrence Fertig, a fazer doações recorrentes a Mises.

Mises então passou a depender exclusivamente das doações destes poucos amigos e de alguns artigos que eram ocasionalmente encomendados por algumas revistas especializadas, a pedido destes amigos.

Durante os 30 anos seguintes, Mises foi uma voz solitária e sem recursos em defesa do livre mercado, lutando contra a vastidão keynesiana que dominava a paisagem mundial.  Ele criou um seminário na New York University (NYU) para estudantes universitários, o qual durou 25 anos.  Murray Rothbard era um dos frequentadores assíduos, embora apenas como ouvinte.  Mises nunca recebeu salário da universidade, a qual o relegou ao status de professor visitante.  Ele recebia ajuda de doadores.  No entanto, não há hoje nenhum professor do departamento de economia da NYU que seja lembrado.  Todos foram pessoas sem importância e não deixaram nenhum legado.

A publicação de seu livro Ação Humana, pela Yale University Press em 1949, começou a estabelecer sua reputação nos EUA.  O livro vendeu muito mais do que havia sido inicialmente previsto.  Este livro foi o primeiro a conter uma teoria abrangente e integrada da economia de livre mercado.  Até então, nada remotamente parecido havia sido publicado.  Foram muito poucas as pessoas que se deram conta disso em 1949, mas qualquer um que já tenha estudado a história do pensamento econômico sabe que é neste livro que se encontra a primeira aplicação abrangente da teoria econômica para toda uma economia de mercado.  A análise é integrada em termos da defesa econômica austríaca da teoria do valor subjetivo e do individualismo metodológico.

Ele continuou escrevendo após 1949.  Seus livros foram vendidos pela Foundation for Economic Education (FEE), a qual fez com que ele ganhasse a atenção de leitores que defendiam o livre mercado.  Seus artigos começaram a aparecer na revista publicada pela FEE, The Freeman.  A revista não era de ampla circulação nos meios acadêmicos, mas era bastante lida pela direita.

Eu comprei uma cópia de Ação Humana em 1960.  Naquela época, eu já estava a par da importância de Mises para a história do pensamento econômico, mas, em minha universidade, eu provavelmente era o único estudante que o conhecia.

Mises sempre foi um obstinado em sua dedicação aos princípios do livre mercado.  Provavelmente mais do que qualquer outro grande intelectual do século XX, ele era conhecido entre seus pares como alguém inflexível, que não fazia concessões àquilo em que acreditava.  Pelos economistas da Escola de Chicago ele foi chamado de ideólogo.  E eles estavam certos.  Por causa de sua consistência na aplicação do princípio do não-intervencionismo em cada setor da economia e, acima de tudo, por causa de sua oposição a bancos centrais e à manipulação estatal da moeda, os economistas o consideravam excêntrico.  “Excêntrico”, para eles, era sinônimo de “rigorosamente consistente”.

Assim como os nazistas, os soviéticos também sabiam quem era Mises.  Após a queda do nazismo, os soviéticos confiscaram as obras de Mises então em posse dos nazistas e as enviaram a Moscou.  Suas obras roubadas ficaram em Moscou e nunca foram descobertas por nenhum economista ocidental até a década de 1980.  O que foi uma grande ironia: economistas ocidentais não sabiam quem era Mises, mas os economistas soviéticos sim.  Isto se tornou ainda mais verdadeiro em meados da década de 1980, quando a economia soviética começou a se desintegrar, exatamente como Mises havia previsto que aconteceria.

A grande vantagem de Mises sobre praticamente todos os seus colegas era esta: ele escrevia claramente.  Todos os outros economistas, além de escreverem da maneira convoluta e repleta de jargões, enchem seus escritos de equações.  Mises não utilizava equações e nem recorria a jargões.  Ele escrevia seus parágrafos utilizando sentenças que eram desenvolvidas de maneira sucessiva.  Você pode começar pela primeira página de qualquer um de seus livros e, se prestar atenção, chegará ao fim sem se tornar confuso em momento algum.

Isto era uma grande vantagem, pois as pessoas comuns que se interessavam por economia conseguiam seguir sua lógica.  Sua reputação se espalhou no final de década de 1950 e por toda a década de 1960 por causa de seus artigos na The Freeman.  Esta revista chegou a ter uma circulação de 40 mil exemplares em alguns anos.  Não eram muitos os economistas que conseguiam, naquela época, atingir um público tão amplo e tão variado.

Mises realmente se manteve firme aos seus princípios durante todo o seu tempo de vida.  Ele se manteve firme de maneira tão tenaz e obstinada que, por décadas, ele não teve influência alguma sobre a comunidade acadêmica.  Todos os economistas o desprezavam ou ignoravam.  Porém, após sua morte em 1973, sua influência começou a crescer.  Em 1974, seu discípulo F.A. Hayek ganhou o Prêmio Nobel de Economia.  Pouco a pouco, a reputação de Mises foi se espraiando.  Hoje, há vários Institutos Mises ao redor do mundo — todos surgidos voluntária e espontaneamente, sem nenhum financiamento centralizado —, e seu nome é atualmente mais conhecido do que o de quase todos os outros economistas de sua geração, tanto os de antes da Primeira Guerra Mundial quanto os de depois da Segunda Guerra Mundial.  O cidadão comum certamente não está familiarizado com os nomes da maioria dos economistas da primeira metade do século XX, e certamente é incapaz de ler e compreender as obras de praticamente qualquer economista da segunda metade.

Portanto, exatamente porque Mises nunca se mostrou disposto a fazer concessões, especialmente na área de metodologia, seu legado tem sido muito maior do que o da maioria de seus finados colegas.  O legado de Mises só cresce; o deles, praticamente não existe.

Conclusão

O mundo vive hoje mais uma era de planejamento econômico, e estamos vendo os economistas se dividirem em dois lados.  A esmagadora maioria se limita a dizer exatamente aquilo que os regimes querem ouvir.  Afastar-se muito da ideologia dominante é um risco que poucos estão dispostos a correr.  As recompensas materiais são quase nulas, e há muito a perder.

Ser um economista íntegro significa não se furtar a dizer coisas que as pessoas não querem ouvir; significa, principalmente, dizer coisas que o regime não quer ouvir.  Para ser um bom economista, é necessário bem mais do que apenas conhecimento técnico.  É necessário ter coragem moral.  E, no mercado atual, tal atitude está ainda mais escassa do que a lógica econômica.

Assim como Mises necessitou da ajuda de Hazlitt e Fertig, economistas com coragem moral necessitam de apoiadores e de instituições que os suportem e deem voz a eles.  Este é um fardo que tem de ser encarado.  Como o próprio Mises dizia, a única maneira de se combater ideias ruins é com ideias boas.  E, no final, ninguém estará a salvo se a civilização for destruída em consequência do predomínio das ideias ruins.

A tênue linha entre Liberdade e Escravidão

É muito comum, hoje em dia, entre o meio libertário, que se pregue a total extinção do Estado, a total extinção de uma coerção realizada pelos meios estatais. Dizem que apenas assim seríamos totalmente livres, prontos para realizar nosso potencial. Extremamente sedutora essa tese, àqueles que aspiram ser livres. Mas tal proposta não podia ser mais absurda, a feita pelos anarco-capitalistas, os auto-proclamados arautos da liberdade.

Bandeira do Anarco-Capitalismo

Sua doutrina, de um modo geral, se sustenta sobre o princípio da não iniciação da agressão. E que, partindo dessa premissa, a própria existência do Estado seria imoral, já que este precisa recolher tributos para existir, frutos de agressão. Considerando um panorama geral, é de princípios logicamente válidos. Mas a questão é: Como seria a vida em sociedade sob uma organização totalmente espontânea, sem a menor interferência estatal? Aí começa o problema, pois se suas premissas eram logicamente impecáveis, suas soluções passam a envolver suposições de como os seres humanos passariam a se organizar, mas com a certeza de que iriam.

Alguns dizem que eles são liberais radicais. Nada mais equívoco. Não pode ser liberal alguém que nega a existência de direitos inalienáveis. “Direito não é aquilo que deve ser concedido, mas sim aquilo que não pode ser retirado”, é o que dizem ao mesmo tempo que propõe um modelo em que esses supostos direitos não são garantidos a ninguém. Defendem uma sociedade onde seria perfeitamente possível a imposição de um sobre o outro, mesmo negando a imposição como uma liberdade.

Dizem eles que os indivíduos se organizariam de forma espontânea. A segurança, por exemplo, seria terceirizada e paga por indivíduos que escolheriam um ente privado para defender sua região. Fica clara a inexistência de um direito à propriedade ou a ter a integridade física respeitada. Só tem direitos aquele que pode pagar por ela.

Quando questionados à respeito de como seria tratado um transgressor, dizem que a legislação existiria, mas seria privada. Tribunais arbitrais privados criando direito. Não existe jurisdição definida possível com esse modelo. O bandido escolheria o tribunal no qual seria julgado? Seria julgado na câmara mais barata? Dizem alguns que as câmaras entrariam em consenso à respeito do território regulado. Cria-se assim uma estrutura idêntica à do Estado: o monopólio da força sobre um território por alguns poucos indivíduos; a diferença é que este teria como objetivo o lucro, o que supostamente o tornaria legítimo. Esquecem que a vacância sempre desperta nos mais atentos o senso de oportunidade de se impor sobre os demais.

A liberdade não é possível sem a existência de uma ordem, dada a natureza humana. Apenas na medida em que os seres humanos são protegidos é que podem exercer completamente sua liberdade. Não protegidos de si mesmos, como tenta fazer o Estado atual, agigantado e burocrático. Protegidos de terceiros. E para a existência de uma ordem na qual os indivíduos possam viver em sociedade, é necessário algum sacrifício. É necessário um ente, cuja formação é inevitável, que tenha como objetivo proteger os direitos básicos clamados pelos liberais clássicos. Um Estado em que a constituição tenha valor e limite o poder do governo de forma eficiente. E uma população disposta a lutar pela conservação da ordem e da coesão social.