FHC, PSDB e a diferença entre a Social-Democracia e a Direita

Os dois maiores partidos políticos do Brasil atualmente são o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). Não por acaso, os cinco últimos mandatos de presidente da república foram exercidos por candidatos dos dois partidos: FHC (PSDB), Lula e Dilma Rousseff (PT). Não por acaso também, esses dois partidos apresentam grande rivalidade na política brasileira. Natural. Em qualquer lugar onde existem “grandes”, existe também uma grande rivalidade.

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O Fascismo nasce da Esquerda

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

LEIA ANTES DE PROSSEGUIR: Esta resenha foi escrita e publicada por Erwin Robertson, um historiador chileno pró-fascista em uma revista de igual alinhamento ideológico e, portanto, NÃO REPRESENTA a opinião do blog Direitas Já! e de seus articulistas.

O autor do livro objeto da resenha, Zeev Sternhell, judeu polaco nacionalizado israelense, é uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o fascismo e portanto publicamos este material para que seja de conhecimento público o que é o fascismo, como ele surgiu e qual é a sua relação histórica e ideológica com a esquerda política.

Que Mussolini foi membro do partido socialista é um fato conhecido. Fato problemático, em especial para uma das interpretações dominantes do fascismo; a saber, que este foi a reação alentada ou dirigida pelo grande capital contra o avanço do proletariado. Em tal evento, aquele fato e sua evolução consecutiva deviam ser entendidos como oportunismo, incoerência ou, no melhor dos casos, como uma questão de conversão que não deixa marcas no passado de um homem. A obra de Zeev Sternhell – professor na Universidade Hebraica de Jerusalém – e seus colaboradores colocou toda esta matéria sob outro ângulo. Em sua interpretação, a compreensão histórica do fascismo não pode dissociar esta ideologia de suas origens de esquerda.

Desde o princípio, toda uma plêiade de historiadores e filósofos abordou já há tempo o problema do fascismo: cada um segundo suas orientações espirituais particulares, com seus próprios pontos de vista e seus preconceitos pessoais, mas não sem altura: Ernst Nolte, Renzo de Felice, James A. Gregor, Stanley Payne, Giorgio Locchi e “last but not least”, o jovem pesquisador hispano-sueco Erik Norling, entre outros. Não que a “vulgaris opinio” aludida acima goze hoje de autoridade intelectual. Mas Sternhell vem a aportar a valorização de fontes até aqui descuidadas e, com elas, a nova interpretação que é objeto deste comentário. Estudioso em particular do nacionalismo francês (são suas as obras “Maurice Barrés et le nationalisme français”, “La droite revolutionarie” e “Ni droite ni gauche, L’ideologie fasciste en France”), o professor israelita não se preocupa com os critérios do politicamente correto. É notável ler sobre o tema páginas em que está ausente a edificação moral, nas quais não se há estimado oportuno advertir ao leitor que está adentrando terrenos perigosos; nos quais não há, em suma, demonização ou pressa de meter polemicamente à esquerda uma vizinhança incômoda.

O que é, então, o fascismo na interpretação de Sternhell? Nem anomalia na história contemporânea, nem “infecção” (Croce), nem resultado da crise de 1914-1918, nem reflexo ou reação contra o marxismo (Nolte). O fascismo é um fenômeno político e cultural que goza de plena autonomia intelectual (p.19); ou seja, que pode ser estudado em si mesmo, não como produto de outra coisa ou epifenômeno. Por certo, e logo de início, para Sternhell é preciso distinguir o fascismo do nacional-socialismo (Sternhell diz “nazismo”, acomodando-se ao uso contra o qual, no entanto, se rebela honestamente um Nolte). Com todos os aspectos que um e outro tem em comum, a pedra de toque está no determinismo biológico: um marxista pode converter-se ao nacional-socialismo, mas não um judeu (por outro lado, existiram fascistas judeus). O racismo não é um elemento essencial do fascismo, ainda que contribua à ideologia fascista. E algumas páginas mais adiante o autor aponta que um dos elementos constitutivos do fascismo é o nacionalismo tribal; isto é, um nacionalismo baseado no sentido de pertencimento, a “terra e os mortos” de Barrés, o “sangue e solo” do nacional-socialismo. Este sentido organicista é compartilhado com os nacionalismos de finais do século XIX, germânicos e latinos, Maurras e Corradini, Vacher de Lapouge e Treitschke. O próprio Sternhell debilita assim a distinção que acaba de fazer (reparemos, de passagem, na delicadeza do adjetivo “tribal”: seria pouco oportuno de nossa parte lembrar que uma tradução de “tribal” é “gentil”, de “gentio”?)

O fascismo então é uma síntese deste nacionalismo “tribal” ou “orgânico” e de uma revisão anti-marxista do marxismo. Sternhell se estende explicando que a finais do século XIX as previsões de Marx não se haviam cumprido: o capitalismo não parece cair, nem o empobrecimento é o sinal característico da população, enquanto o proletariado se integra política e culturalmente nas sociedades capitalistas ocidentais. Daí a aparição do “revisionismo”. Seguindo o exemplo do SPD, o partido social-democrata alemão, o conjunto do socialismo ocidental se faz reformista; isto é, sem renunciar aos princípios teóricos do marxismo, aceita os valores do liberalismo político, e em consequência, tacitamente, a ordem vigente. Mas uma minoria de marxistas irá recusar o compromisso e irá querer permanecer fiel à ortodoxia – cada um a seu modo; são os Rudolf Hilferding e os Otto Bauer, os Rosa Luxemburgo e os Karl Liebknecht, os Lenin e os Trotsky, todos da Europa Oriental.

Ao mesmo tempo, na França e logo na Itália surgem aqueles que, de dentro do marxismo, empreenderão sua revisão em sentido não materialista nem racionalista, sem discutir a propriedade privada ou a economia de mercado, mas conservando o objetivo da derrubada violenta da ordem burguesa: são os sorelianos, os discípulos de Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário e autor das célebres “Reflexões sobre a violência”.

As diferenças entre os dois setores revolucionários são grandes. Os primeiros, quase todos membros da “intelligentsia” judaica, destaca Sternhell, mantém o determinismo econômico de Marx, a ideia da necessidade histórica, o racionalismo e o materialismo, enquanto os sorelianos começam por uma crítica à economia marxiana que chega a esvaziar o marxismo de grande parte do seu conteúdo, reduzindo-o fundamentalmente a uma teoria da ação. Os primeiros pensam em termos de uma revolução internacional, têm “um horror a esse nacionalismo tribal que florece ao longo da Europa, tanto no campo subdesenvolvido do leste como nos grandes centros industriais do oeste… Não se ajoelham jamais ante a coletividade nacional e sua torrão, seu fervor religioso, suas tradições, sua cultura popular, seus cemitérios, seus mitos, suas glórias e animosidades” (p.48). Os segundos, comprovando que o proletariado já não é uma força revolucionária, o substituirão pela Nação como mito em uma luta contra a decadência burguesa e assim confluirão finalmente no movimento nacionalista.

Tal é a tese fundamental de Sternhell. No desenvolvimento de “O nascimento da ideologia fascista”, o capítulo I está dedicado à análise da obra de Sorel: talvez não propriamente um filósofo nem autor de um corpus ideológico fechado, sua verdadeira originalidade, assinala Sternhell, reside em ter constituído uma espécie de “lago vivente”, receptor e fonte de ideias na gestação das novas sínteses ideológicas do século XX. Nietzsche, Bergson e William James o marcaram sem dúvida mais profundamente que Marx, com ânimo de julgar o que considerava um sistema inacabado.

O autor de “Reflexões sobre a violência”, de “As ilusões do progresso”, de “Materiais de uma teoria do proletariado”, etc., se sublevava contra o marxismo vulgar (que enfatiza o determinismo econômico) e sustentava que o socialismo era uma “questão moral”, no sentido de uma “transvaloração de todos os valores”. A luta de classes era para ele questão principal e, por extensão, saber mobilizar o proletariado na guerra contra a ordem burguesa.

Em um contexto social em que os operários mostram um alto grau de militância sindical (1906, o ano de edição de “Reflexões sobre a violência”, marca também na França o recorde de greves que frequentemente supõem enfrentamentos sangrentos com as forças da ordem), mas também onde uma economia em crescimento permite à classe dirigente fazer concessões que reduzem a combatividade operária, não bastam a análise econômica nem a previsão do curso racional dos acontecimentos.

Sorel descobre então a noção do “mito social”, esta imagem que põe em jogo sentimentos e instintos coletivos, capaz de suscitar energias sempre novas na luta cujos resultados não chegam a divisar-se. Como o mito do apocalipse para os primeiros cristãos, o mito da greve geral revolucionária será para o proletariado esta imagem mobilizadora e fonte de energias. Com fervor análogo ao das ordens religiosas do passado, com um sentimento parecido ao do amor à glória dos exércitos napoleônicos, os sindicatos revolucionários, armados do mito, se lançarão à luta contra a ordem burguesa.

Assim, à mentalidade racionalista, que o socialismo reformista compartilha com a burguesia liberal, Sorel opõe a mentalidade mítica, até mesmo religiosa. Sua crítica ao racionalismo que remonta a Descartes e Sócrates e, contra os valores democráticos e pacificistas, reivindica os valores guerreiros e heróicos. De boa vontade reivindica também o pessimismo dos gregos e dos primeiros cristãos, porque só o pessimismo suscita as grandes forças históricas, as grandes virtudes humanas: heroísmo, ascetismo, espírito de sacrifício.

Sorel vê na violência um valor moral, um meio de regenerar a civilização, já que a luta, a guerra por causas altruístas, permite ao homem alcançar o sublime. A violência não é a brutalidade nem a ferocidade, não é o terrorismo; Sorel não sente nenhum respeito pela Revolução Francesa e seus “provedores de guilhotinas”. É, em suma e no fundo, contra a decadência da civilização que Sorel dirige seu combate; decadência na qual a burguesia arrasta atrás de si o proletariado. E não será surpreendente encontrar aos discípulos de Sorel reunidos com os nacionalistas de Charles Maurras no “Círculo Proudhon”, que leva o nome do grande socialista francês anterior a Marx. Tampouco será estranho que em seus últimos anos Sorel lance seu alegado “Pro Lenin”, desejando ver a humilhação das “democracias burguesas”, ao mesmo tempo que reconhecia que os fascistas italianos invocavam suas próprias idéias sobre a violência.

A síntese Nacional e Social

Estes discípulos são também estudados por Sternhell (capítulo II). São os “revisionistas revolucionários”, a “nouvelle école” que tentou tornar operacional uma síntese nacional e social, não sem tropeços e desilusões. Ali está Edouard Berth, que junto a Georges Valois, militante maurrasiano (futuro fundador do primeiro movimento fascista francês, morto em um campo de concentração alemão), deu vida ao “Círculo Proudhon”, órgão de colaboração entre sindicalistas revolucionários e nacionalistas radicais nos anos anteriores a 1914.

Aventada esta experiência pela guerra européia, Berth passará pelo comunismo antes de voltar ao sorelismo. Está também Hubert Lagardelle, editor da revista “Mouvement Socialiste”, homem de luta no interior do partido socialista, onde se esforçou por fazer triunfar as teses do sindicalismo revolucionário (pelo contrário, em 1902 triunfaram as teses de Jaurés, que apresentam o socialismo como complemento da Declaração dos Direitos do Homem). Ante a colaboração sorelista-nacionalista, Lagardelle se recolhe a posições mais convencionais; mas no pós-guerra o encontraremos na redação da revista “Plans”, expressão de certo fascismo “técnico” e vanguardista – nela colaborarão nada menos que Marinetti e Le Corbusier – e, durante a guerra, terminará sua carreira como titular do ministério do trabalho do regime de Vichy.

Trejetórias em aparência confusas mas que revelam a busca sincera do “novo”. Da Alemanha vem a eles o reforço do socialista Robert Michels, quem, à espera de construir sua obra prima “Os partidos políticos”, anuncia o fracasso do SPD, o partido de Engels, Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Michels observará também que só o egoísmo econômico de classe não basta para alcançar fins revolucionários; daí a discussão sobre se o socialismo pode ser independente do proletariado.

O ideal sindical não implica forçosamente a abdicação nacional, nem o ideal nacionalista comporta necessariamente um programa de paz social (julgado conformista), explica por sua vez Berth, quem espera um despertar conjunto dos sentimentos guerreiros e revolucionários, nacionais e operários, o fim da “era dourada”. Em fim, a “nova escola” desenvolve as ideias de Sorel, por exemplo, na fundamental distinção entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Resume Sternhell sua contribuição: “… a esta revolta nacional e social contra a ordem democrática e liberal que eclode na França (antes de 1914, é bom lembrar) não falta nenhum dos atributos clássicos do fascismo mais extremo, nem sequer o anti-semitismo” (p.231). Nem a concepção de um Estado autoritário e guerreiro.

No entanto, no geral, os revisionistas revolucionários franceses foram teóricos, sem experiência real com movimentos de massa. De outro modo ocorre com o sindicalismo revolucionário na Itália (capítulos III e IV da obra de Sternhell). Ali Arturo Labriola encabeça desde 1902 a ala radical do partido socialista; com Enrico Leone e Paolo Orano levam adiante a luta contra o reformismo, o qual acusam de apoiar-se exclusivamente nos operários industriais do norte, em desfeita ao sul camponês, e pelo triunfo de sua tese de que a revolução socialista só seria possível por meio de sindicatos de combate.

De Sorel tomam essencialmente o imperativo ético e o mito da greve geral revolucionária. A experiência da greve geral de 1904, das greves camponesas de 1907 e 1908, inflamam os dirigentes sindicalistas revolucionários, entre os quais a nova geração de Michele Bianchi, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. À margem do Partido Socialista Italiano e de sua central sindical a CGL – ancorados em posições reformistas, os radicais formam a USI (União Sindical Italiana), que chegará a contar com 100.000 membros em 1913.

Por sua vez, os sindicalistas revolucionários animam jornais e revistas. Labriola e Leone empreendem a revisão da teoria econômica marxiana, especialmente a teoria do valor, seguindo ao economista austríaco Böhm-Bawerk; daí, diz Sznajder, o aspecto mais original da contribuição italiana à teoria do sindicalismo revolucionário. Aí se encontra também a noção de “produtores” (potencialmente todos os produtores), contraposta à classe “parasitária” dos que não contribuem ao processo de produção. Por fim a tradição antimilitarista e internacionalista, cara à toda a esquerda européia, não será mais unanimemente compartilhada pelos sindicatos revolucionários. Em 1911, a guerra da Itália contra o Império Otomano pela posse da Líbia produzirá uma crise no sindicalismo revolucionário: alguns dirigentes (Leone, De Ambris, Corridoni), fiéis à tradição socialista, se opõem energicamente a esta empresa – por mais que lhes desagrade estar junto aos socialistas reformistas; outros (Labriola, Olivetti, Orano) estão pela guerra, tanto por razões morais (a guerra é uma escola de heroísmo) como por razões econômicas (a nova colônia contribuirá para a elevação do proletariado italiano), e assim coincidem com os nacionalistas de Enrico Corradini, a quem já se haviam aproximado pela crítica ao liberalismo político.

Mas em agosto de 1914 ainda aqueles que – no seio do sindicalismo revolucionário – haviam militado contra a guerra da Líbia, estão a favor da intervenção no conflito europeu ao lado da França e contra a Alemanha e a Áustria; o combate contra o feudalismo e o militarismo alemão se agrega à possibilidade de completar graças à guerra a integração nacional italiana e de forjar uma nova elite proletária que substituirá a burguesia no poder. Em outubro de 1914, um manifesto do recém fundado Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, assinado pelos principais dirigentes sindicalistas revolucionários, proclama: “… Não é possível ir mais além dos limites das revoluções nacionais sem primeiro passar pela etapa da própria revolução nacional… Ali onde cada povo não vive no quadro de suas próprias fronteiras, formadas pela língua e pela raça, ali onde a questão nacional não foi resolvida, o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal do movimento de classe não pode existir…” Nação, Guerra e Revolução… já não serão mais idéias contraditórias.

Até o final da guerra o sindicalismo revolucionário deve ser considerado já um nacional-sindicalismo, enquanto a Nação figura para eles em primeiro plano. Seja como for, os nacional-sindicalistas aceitam que a guerra há de trazer transformações internas: desde 1917 De Ambris lançou a consigna “Terra dos Camponeses”; e em seguida elabora um programa de “expropriação parcial” tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que se dirige ex proposito contra o capital especulativo e em benefício dos camponeses e operários que deram seu sangue pela Itália. Se trata também de manter e estimular a produção.

O “produtivismo” é um dos fatores que leva os sindicalistas revolucionários a opor-se à revolução bolchevique, que julgam destrutiva e caótica. Frente à ocupação de fábricas do biennio rosso de 1920-1921, Labriola, que chegou a ser Ministro do Trabalho no governo do liberal Giolitti, apresenta um projeto que reconhece aos operários o direito de participar na gestão das empresas. Parlamento com representação corporativa, “classes orgânicas” que enquadrem a população, um Estado que seja responsável por assignar aos proprietários capazes de produzir o direito de usar os meios de produção, são, por outra parte, as bases do programa do “sindicalismo integral” que propõe Panunzio em 1919. Por fim, o sindicalismo revolucionário vibra com a aventura do comandante Gabriele D’Annunzio em Fiume (1920-1921). De Ambris participa na redação da “Carta de Carnaro”, este fascinante documento literário que é a constituição que o poeta e herói de guerra outorga à Regência de Fiume. É um projeto político que, coerente ao ideal do sindicalismo revolucionário, quer resolver de uma vez a questão nacional e a questão social.

Nestas lutas do imediato pós-guerra, os sindicalistas revolucionários coincidiram com os fascistas. Mas a tomada do poder pelo fascismo acarretára a dissolução do sindicalismo revolucionário. De Ambris e seu grupo passarão à oposição; o primeiro terminará exilando-se. Labriola também partirá para o exílio, e só na guerra da Etiópia se reconciliará com o regime. Por outro lado, Bianchi aparece em 1922 como um dos quadrumviri que organiza a Marcha sobre Roma, Panunzio se apresenta junto a Gentile como um dos intelectuais oficiais do fascismo, Orano (que era judeu), alcança altos postos no partido fascista, enquanto Michels, antigo membro do SPD, professor na Universidade de Perusa, se inscreve como afiliado no PNF (Partido Nacional Fascista).

A Encruzilhada Mussoliniana

Assinala Sternhell que sempre se tendeu a subestimar o papel central que Mussolini desempenhou entre todos os revolucionários italianos. O futuro Duce “aporta à dissidência esquerdista e nacionalista italiana o que sempre faltou a seus homólogos franceses: um chefe”. Um homem de ação, um líder carismático, mas ao mesmo tempo um intelectual capaz de lidar com intelectuais e ganhar o respeito de homens como Marinetti, o fundador do futurismo, Michels, o antigo militante do SPD alemão tornado um dos clássicos da ciência político, ou ainda Croce, representante oficial da cultura italiana sob o fascismo. E Mussolini é toda uma evolução intelectual, não o achado repentino de uma verdade, nem o oportunismo, nem sequer a conjuntura do pós-guerra.

Mussolini é antes de mais nada um militante socialista, mesmo como líder dos fascistas. Quando jovem se tem evidentemente por marxista, de um marxismo revisto por Leone e, sobretudo, por Sorel, em quem vê um antídoto contra a perversão social-democrata alemã do socialismo. Outra influência decisiva é Wilfredo Pareto e sua teoria de circulação das elites (por outro lado, Sternhell não destaca a influência de Nietzsche, a quem Mussolini leu prematuramente na Suíça). O jovem socialista se situa portanto na órbita do sindicalismo revolucionário, ainda quando discrepa das táticas: duvida da virtude das organizações econômicas por si e vê no Partido um instrumento revolucionário.

O jovem Mussolini é o líder indiscutível que se opõe à greve geral contra a intervenção na Líbia, pois crê que a tentativa burguesa de desencadear uma guerra pode gerar uma situação revolucionária. Em 1912 é o principal líder do partido socialista, impondo-se sobre os reformistas e fazendo-se com a direção do seu jornal oficial “Avanti!” o líder indiscutido de toda a esquerda revolucionária italiana, mas ao mesmo tempo o mais forte crítico da ortodoxia marxista.

Mussolini publica desde as páginas do “Avanti!” sua profunda decepção com a atitude da classe operária para “moldar a história” e valoriza a idéia de Nação: “Não há um evangelho socialista único ao qual todas as nações devam conformar-se sob pena de excomunhão”. A finais de 1913 Mussolini lança a revista “Utopia”, com a intenção de propôr uma “revisão revolucionária do socialismo”. Ali reúne a futuros comunistas como Bordiga, Tasca e Liebknecht; futuros fascistas como Panunzio, futuros dissidentes do fascismo como seu velho professor Labriola.

Em junho de 1914 Mussolini crê que é chegado o momento da insurreição, comprometendo-se na settimana rossa contra a opinião do congresso do Partido Socialista Italiano. Quando eclode a guerra européia, as dissidências são já tão palpáveis que Mussolini é desautorizado oficialmente pelo partido, e não hesita em romper com seus antigos companheiros para unir-se aos sindicalistas revolucionários na campanha a favor da entrada da Itália na guerra.

Sternhell assinal que o nacionalismo de Mussolini não é o nacionalismo clássico da direita. Ocorre que ante as novas realidades nacionais e sociais a análise marxista demonstrou-se falha, pois as classes operárias na Alemanha, França e Inglaterra marcham alegremente para a guerra. Mussolini não renuncia ao socialismo, mas o seu é um socialismo nacionalista, obra dos combatentes do front: “Os milhões de trabalhadores que regressarão aos sulcos dos campos depois de ter vivido nos campos das trincheiras darão lugar à síntese da antítese classe e nação”, escreve em 1917.

E não será a revolução bolchevique a levar Mussolini à direita, dado que o essencial do seu pensamento se forjou antes de 1917: idéias de hierarquia, de disciplina, de colaboração das classes como condição da produção… Os Fasci Italiani di Combattimento, fundados em março de 1919, recolhem todas as idéias do sindicalismo revolucionário e se situam inclusive à esquerda do partido socialista (defendem sufrágio universal para ambos os sexos, abolição do senado, constituição de uma Milícia Nacional, conselhos corporativos com funções legislativas, jornada laboral de 8 horas, confisco de espólios de guerra, etc). Mas com o biennio rosso as filas fascistas se transbordam com a afluência das classes médias, especialmente de jovens oficiais desmobilizados.

O Partido Nacional Fascista, organizado como tal em 1921, conhecerá um sucesso (eleitoral incluso) vetado aos primitivos “Fascis”. “Esta mutação não deixa de recordar-nos a dos partidos socialistas no início do século: a virada à direita constitui o preço habitual do sucesso” (p.400). Mussolini, homem de realidades que antepõe a prática à teoria, viu fracassar a ocupação “vermelha” de fábricas como a gesta nacionalista de Fiume, e decide levar a cabo a revolução possível. Assim, na perspectiva de Sternhell, a captura do poder pelo chefe fascista não é tanto o resultado de um golpe de Estado como de um processo; é a simpatia de uma ampla parte da massa política, dos meios intelectuais, dos centros de poder, o que permite a Mussolini instalar-se e sustentar-se no governo. Para Sternhell é sintomática a atitude do senador Croce que, ainda em junho de 1924, deu seu voto de confiança ao primeiro ministro quando o caso Mateotti pôs em crise o governo e Mussolini estava a ponto de ser deposto pelo rei, porque, pensava Croce, “havia de dar tempo ao fascismo para completar sua evolução rumo à normalização”.

A idéia de Estado, que parece ser característica só do fascismo é, entretanto, o último elemento que toma forma na ideologia fascista. Em todo caso assinala Sternhell que toda a ideologia fascista estava elaborada antes da tomada do poder: “A ação política de Mussolini não é o resultado de um pragmatismo grosseiro ou de um oportunismo vulgar mais do que foi a de Lenin.”(p.410)

O jurista Alfredo Rocco, proveniente das filas nacionalistas, “codificou” e traduziu em leis e instituições os princípios fascistas e nacionalistas (visão mítica e orgânica da nação, afirmação da primazia da coletividade sobre o indivíduo, recusa total e sem paliativos da democracia liberal). Mas é um Estado que, ao mesmo tempo, se quer reduzido somente a sua expressão jurídica e política; que quer renunciar a toda forma de gestão econômica ou de estatização, como anunciava Mussolini desde 1921. Não é, portanto, ou não ainda, o Estado totalitário.

O fascismo no poder, em suma, não se assemelha ao fascismo de 1919, menos ainda ao sindicalismo revolucionário de 1910. Mas, pergunta Sternhell: “o bolchevismo no poder reflete exatamente as idéias que, dez anos antes da tomada do Palácio de Inverno, animavam a Plekhanov, Trotsky ou Lenin?” Houve uma grande evolução, sem dúvida. E contudo – conclui o autor -, o regime mussoliniano dos anos 30 está muito mais próximo do sindicalismo revolucionário ou do “Círculo Proudhon” que o regime estalinista está dos fundamentos do marxismo.

O encanto secreto do Fascismo

Como conclusão, Sternhell lança um olhar sobre as relações entre o fascismo e as correntes estéticas de vanguarda no século XX. O futurismo, desde cedo (futuristas e fascistas lutaram juntos pelo “intervencionismo”, e Marinetti é um dos fundadores dos Fasci), mas também o vorticismo, lançado em Londres por Ezra Pound, que é em certo modo uma réplica ao futurismo, ainda que compartilhe com ele alguns traços essenciais. “Os dois atacam de frente a decadência, o academicismo, o esteticismo imóvel, o morno, a moleza geral… tem uma mesma voz de ordem: energia, e um mesmo objetivo: curar a Itália e a Inglaterra de sua languidez” (p.424). De Pound conhecemos de sobra sua opção política.

Sternhell destaca também o papel de Thomas Edward Hulme, antirromântico, antidemocrata em política, tradutor ao inglês de Sorel. “Revolucionário antidemocrata, absolutista em ética, que fala com desprezo do modernismo e do progresso e utiliza conceitos como da honra sem o menor toque de irrealidade”(p.429). Hulme é, portanto, para o autor, um representante desta rebelião cultural que brota por toda parte, antirracionalista, antiutilitarista, antihedonista, antiliberal, classicista e nacionalista e que precede a rebelião política.

As gerações dos anos 20 e 30, que já conhecem a experiência fascista, refazem o caminho do inconformismo. Assim um Henri de Man, em 1938 presidente do partido socialista belga, um dos grandes teóricos do socialismo na época, menor somente que Gramsci e Lukacs, reemprende sua própria revisão do marxismo e não será ilógico que, quando seu país capitule ante a Alemanha em 1940 convide os militantes socialistas belgas a aceitar a nova situação como um ponto de partida para construir uma nova ordem: “O caminho está livre para as duas causas que resumem as aspirações do povo: a paz europeia e a justiça social.” Não muito diferente é na França no caso de Doriot.

Como pôde surgir o fascismo na história européia e mundial? A explicação conjuntural não pode senão desembarcar em trivialidades. Deve-se compreender o fascismo primeiro como um fenômeno cultural. É, de início, uma rejeição à mentalidade liberal, democrática e marxista; rejeição da visão mecanicista e utilitarista da sociedade. Mas expressa também “a vontade de ver a instauração de uma civilização heróica sobre as ruínas de uma civilização baixa e materialista. O fascismo quer moldar um novo homem, ativista e dinâmico.” Apesar de apresentar esta vertente tradicionalista, este movimento contém em suas origens um caráter moderno muito pronunciado, e sua estética futurista foi o melhor cartel para a captura de intelectuais, de uma juventude que se sente submetida às baixezas da burguesia.

O elitismo, no sentido de que uma elite não é uma categoria social definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, senão um estado de espírito, é outro componente maior desta força de atração. O mito, como chave de interpretação do mundo; o corporativismo, como ideal social que dá a amplas camadas da população o sentimento de que há novas oportunidades de crescimento e participação, constituem também parte do segredo do fascismo, porque o fascismo reduz os problemas econômicos e sociais a questões sobretudo de ordem psicológica. E, sobretudo, “servir à coletividade formando um corpo com ela, identificar os próprios interesses aos da pátria, comungar no mesmo culto os valores heróicos, com uma intensidade que toma o lugar do boletim de voto na urna”.

É por tudo isto que o estilo político desempenha um papel tão essencial no fascismo. O fascismo veio a provar que existe uma cultura não fundamentada nos privilégios do dinheiro ou do nascismento, senão sobre o espírito de grupo, de camaradagem, de comunidade orgânica, de “Bund”, como se dizia na Alemanha da época.

Estes valores presentes no fascismo tocam a sensibilidade de muitos europeus. É pouco conhecido que em 1933 Sigmund Freud saudava a Mussolini como um “herói da cultura”. Se fosse mesmo, porque Croce teria votado contra ele em 1924, porque Pirandello teria recusado o assento que o Duce lhe ofereceu na Academia Italiana? As realidades dos países europeus entre as duas guerras não são de uma mesma peça: a cultura italiana está representada por Marinetti, Gentili e por Pirandello não menos que por Croce, e por Croce senador não menos que por Croce antifascista, do mesmo modo que pela cultura alemã podem falar tanto Spengler, Heidegger ou Moeller van der Bruck como os irmãos Mann, e a cultura francesa é tanto Gide, Sartre o Camus como Drieu la Rochelle, Brasillach ou Céline…

Assim, “O nascismento da Ideologia Fascista” outorga a seu objeto uma dignidade que nem sempre se encontra nos variados estudos sobre o tema. Isto só pode ser saudável para a história das idéias. Façamos por nosso lado algumas observações. Primeiro, que, como é evidente, Sternhell trata na sua obra do fascismo latino, isto é, das correntes inconformistas surgidas na França e na Itália. Um tema de discussão é ver se o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão são coisas totalmente diferentes (esta é a tese de De Felice), ou se o nacional-socialismo é uma espécie dentro do fascismo genérico (tese de Payne e Nolte). Do nacional-socialismo se discutiu se foi “antimoderno” ou se apresentava traços de uma modernidade radical, dado que é inegável que o movimento desenvolveu um radicalismo antiburguês operativamente muito atrativo para os militantes comunistas.

O fascismo nasce à esquerda, a partir de uma revisão do marxismo. Este revisionismo se desenvolve e se constitui em uma corrente intelectual e política independente à qual concorrem outras tendências que cohabitam com o socialismo: Nietzsche, Bergson, James, e o nacionalismo integral. A respeito é interessante comparar as diferentes evoluções do marxismo que seguiu sendo tal e as diferentes ramificações “apóstatas”. O fascismo em uma revisão do marxismo descobriu que todos os partidos socialistas consideravam o marxismo uma herança a qual deviam permanecer fiéis. Entretanto, em sua evolução recente todos estes partidos renunciaram à herança de Marx, acomodando-se à economia neoliberal. Seguem apegados, desde sempre, à matriz iluminista, materialista e igualitária. Ao contrário, os fascistas, animados de outra cultura, mantiveram sempre o espírito revolucionário de ruptura com a ordem burguesa.

Sternhell insiste permanentemente no respeito dos sindicalistas revolucionários, dos socialistas nacionais e dos fascistas pela propriedade privada e pelo capitalismo. Não haveria que distinguir entre propriedade privada e capitalismo que, no fim das contas, historicamente não se identificam? Todos os fascismos sublinharam sempre a diferença entre a propriedade ligada ao homem e a propriedade ligado ao grande capital financeiro; entre o trabalho produtivo e a servidão ao interesse do dinheiro (G. Feder). Não parece adequado ignorar isto. Talvez Payne tenha sido o autor mais justo neste sentido.

Finalmente, é verdade que uma coisa é reconhecer o componente irracional da vida humana e outra fazer do antirracionalismo uma política. Sternhell, que durante toda sua obra se mantém distanciado de qualquer afeição moralizante, ao final nos adverte do perigo do irracionalismo: “Quando o antirracionalismo se converte em um instrumento político, um meio de mobilização das massas e uma máquina de guerra contra o liberalismo, e marxismo e a democracia; quando se associa a um intenso pessimismo cultural a par de um culto pronunciado pela violência, então o pensamento fascista fatalmente toma forma.”(p.451). A questão seria se só os valores políticos do iluminismo e do liberalismo são legítimos; se só o plano otimismo hedonista pode passar por perspectiva cultural, se as massas só devem ser mobilizadas em nome do esporte.

Aqui, obviamente, a ciência não pode dizer nada: estamos no campo da opção política.


Algumas obras citadas no artigo (em ordem de aparição):

Outras obras e documentos de interesse:

Leia também

A gestão do PSDB entre 1994 e 2002 e as razões da direita para escolher os social-democratas nessas eleições

Este texto também pode ser encontrado no blog “Mundo Analista“. Clique aqui para ver.

Aécio

Até onde sei, FHC e seu partido, o PSDB, governaram o Brasil em uma época complicada economicamente. O país já vinha quebrado com uma hiperinflação que perdurava desde a época da ditadura e com diversas empresas públicas prestando maus serviços, gerando déficits ou não lucrando o esperado. De quebra, aquele Brasil ainda viria a sofrer com os reflexos de crises internacionais que afetariam principalmente os países emergentes. Ou seja, a economia tupiniquim não vivia dias muito tranquilos.

É claro que existiam muitos outros problemas que afligiam os brasileiros. E é claro que, para o cidadão comum, economia não é algo muito interessante. O que ele quer é ver resultados práticos em sua vida. Práticos e rápidos. Mas é preciso dizer que a economia, essa coisa abstrata, difícil e chata, é um dos principais pilares para resolver os problemas de um país (senão o principal, já que tem outros pilares, como a formação do caráter de um filho, por exemplo, que cabem ao cidadão e não ao Estado). Somente quando acertamos os principais problemas da economia de um país, temos condição de começar a resolver outros problemas.

Pois bem, foi isso o que FHC e o PSDB se esforçaram para fazer em seu governo: dar um jeito na economia. E os resultados foram positivos. O plano real estabilizou a moeda, acabando com a hiperinflação e as privatizações de algumas empresas problemáticas fizeram com que os serviços melhorassem bastante, os lucros aumentassem (gerando mais receita para o governo sem onerar o cidadão) e o crescimento das mesmas, à longo prazo, gerasse mais empregos. O serviço de telefonia é o exemplo que mais se destaca, pois era realmente muito ruim e caro. Hoje qualquer um pode ter um celular.

O governo da época também procurou facilitar a entrada de empresas estrangeiras no país como uma forma de estimular a concorrência e diminuir preços de alguns produtos. Criou ainda a lei de responsabilidade fiscal, a fim de limitar um pouco a má gestão do orçamento público em estados e municípios.

Não podemos dizer que foi um governo perfeito e que todos os problemas econômicos foram sanados. Entretanto, as medidas econômicas tomadas deram ao Brasil a estabilidade necessária para começar a pensar na resolução de outros problemas. E nisso o PSDB, como um legítimo representante da social-democracia, também procurou fazer, ao criar programas sociais como o Bolsa Escola, o Vale Gás e o FIES.

O panorama, portanto, que o PT encontra no Brasil quando assume a gerência do país é o de uma economia centenas de vezes melhor do que quando o PSDB assumiu e com vários programas sociais que poderiam continuados (e, de fato, foram. O Bolsa Escola, o Vale Gás e outros programas acabaram sendo reunidos no Bolsa Família pelo PT, que, vale lembrar, não concordava com a existência deles, chamando-os de esmola). Em outras palavras, o PT entra com a faca e o queijo na mão, já não necessitando focar tanto na questão econômica, mas podendo pensar na resolução de outros problemas.

Do meu ponto de vista, a gestão do PSDB foi positiva. Em primeiro lugar, porque os problemas econômicos do Brasil eram bem graves e o contexto não ajudava nem um pouco. Ainda assim, a gestão os atacou com eficiência. Em segundo lugar, porque nenhum governo é capaz sanar todos os problemas de um país enorme como o Brasil em apenas oito anos de gestão. Pensar que o governo FHC conseguiria, além de resolver problemas econômicos graves, resolver completamente os problemas de saúde, educação, segurança pública, miséria, infraestrutura e etc. do Brasil em oito anos é exigir o impossível. Não estamos falando de um país com o tamanho de uma Suíça.

Assim, não vejo sentido em julgar o governo do PSDB como um governo que deveria ter feito mais e sim como um governo que preparou um bom terreno para o governo que o sucedeu. Não vejo sentido em ver a gestão de FHC como uma gestão que falhou em resolver outros problemas além da economia e sim como uma gestão que deixou as coisas mais arrumadas para o governo seguinte. Isso não significa dizer que a gestão foi perfeita, que não tomou decisões ruins e que foi isenta de erros, mas é apenas reconhecer que ela fez muito pelo Brasil em uma época complicada e que o saldo final foi positivo.

Quaisquer que sejam as comparações entre os governos PT e PSDB, portanto, precisam levar em conta elementos básicos como o contexto nacional e internacional em que cada gestão assumiu o Brasil, os problemas prioritários que precisavam ser resolvidos em cada época e os resultados conquistados em relação um ao outro e em relação ao seu contexto. Esse tipo de comparação é mais complexa, demanda mais tempo e paciência, porém é mais justa.

Das análises que tenho feito, tenho chegado à conclusão de que o governo PSDB foi superior ao do PT e que, assumindo em um contexto econômico mais tranquilo em comparação ao de outrora, tem boas chances de atuar bem em muitas das áreas às quais, naquela época, não era possível fazer grandes coisas e/ou não foram dadas tanta atenção.

Não obstante, deve-se ter em mente que isso não quer dizer que uma nova gestão do PSDB irá acabar com os problemas na saúde, educação, segurança pública e etc. Primeiro, porque, como já dito, não se muda grandes problemas em alguns poucos anos. Segundo, porque, o PSDB não é um partido de direita. Ele é de esquerda moderada. Oscila entre esquerda e centro. Como um legítimo representante da social-democracia, sabe o valor do capitalismo, mas não abre mão dos cacoetes esquerdistas de querer domar a economia como um cavalo adestrado e de enxergar o Estado como uma mãezona que deve educar seus filhos. O primeiro cacoete inviabiliza o surgimento de novas ideias que integrem a iniciativa privada às resoluções de problemas sociais. Um governo assim, por mais que abra algumas concessões ao livre mercado para que a economia cresça e respire, sempre continuará crendo que pode abraçar o mundo e resolver a maioria das coisas através da ação direta do Estado, o que sempre acaba gerando má administração, corrupção e autoritarismo.

O segundo cacoete inviabiliza a criação de leis penais mais rígidas, melhores sistemas de fiscalização e o respeito às leis. Um governo assim, dificilmente conseguirá combater com eficiência a corrupção (seja nos altos ou nos baixos escalões), o sentimento de impunidade, o desrespeito à autoridade, a reincidência de crimes que poderiam ser evitados e etc.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, com um péssimo passado econômico, um horroroso histórico de corrupção e uma sucessão de governos autoritários, isso tudo desde que passou a existir como país independente, é praticamente impossível que um governo social-democrata consiga transformá-lo em uma Suécia, por exemplo, que o que é hoje justamente porque tem uma história oposta a do Brasil em tudo o que acabei de falar.

Meu voto nesse segundo turno (como foi no primeiro) vai para o Aécio Neves, do PSDB, não porque eu pense que ele dará jeito em tudo (nem se ele fosse de direita eu acharia isso, aliás), mas porque a social-democracia está mais próxima daquilo que eu acho que seria o melhor para o Brasil. Meu voto vai para o Aécio porque não acredito em governos de esquerda e, na falta de um candidato e um partido de direita, o melhor é votar em social-democratas.

Há quem diga que esse tipo de voto é voto pelas elites, que não ser de esquerda é ser contra o pobre. Mas não é verdade. Ser de direita é simplesmente entender que dá para sentar e pensar em maneiras mais eficientes de cuidar do país e dos pobres sem precisar fazer do Estado uma mãezona. Para quem gosta de programas sociais, não é sequer necessário abandoná-los. Convido-o a pensar, por exemplo, em um governo que em vez de gastar rios de dinheiro com escolas públicas, transferisse aos poucos os alunos para bons colégios privados, financiando a mensalidade de cada um e dando aos pais a oportunidade de transferir o aluno de colégio se achar necessário? É difícil? Há possíveis problemas? Pode ser, pode ser. Mas como eu falei, é necessário pensar. Sentar e pensar.

No mais, qualquer pessoa sensata sabe que se um país estimula a iniciativa privada e a concorrência, os produtos tendem a ficar mais baratos e melhores, mais empresas tendem a surgir e, com isso, mais empregos. Isso, à longo prazo, é o melhor tipo de programa social existente.

Qualquer pessoa sensata sabe também que violência e corrupção só podem ser controladas com leis rígidas, que imponham respeito ao criminoso, ou que, no mínimo, o mantenha impossibilitado de cometê-lo novamente contra o cidadão honesto. A taxa de cinquenta mil assassinatos anuais no Brasil só irá diminuir se o sujeito que matar uma vez não puder matar de novo. E para isso é necessário haver leis rígidas.

Ser de direita é simplesmente tentar melhorar as coisas sem depositar confiança em esperanças utópicas como um governo repleto de homens de ótimo caráter e perfeita noção de administração. É tentar melhorar as coisas reconhecendo que ninguém é perfeito, que alguns são corruptos, que outros são maus gestores e que é preciso criar mecanismos inteligentes para limitar ao máximo os prejuízos que a imperfeição humana causa a nós mesmos.

Aqui ficam expostas, portanto, as minhas razões para votar no candidato e no partido social-democrata. Em suma, eles são os que, atualmente, mais se aproximam do que julgo ser bom para o Brasil. Mas também há motivos para simplesmente não votar no PT, tais como o fato de este ser um partido de origem/orientação marxista (ideologia que só causou genocídios, miséria e perseguição nos países onde tentou ser implantada), de ter ajudado a criar no início dos anos 90 (e fazer parte até hoje) do Foro de São Paulo – uma organização que reúne vários partidos de esquerda da América Latina, juntamente com organizações terroristas e narcotraficantes como as FARC -, de não apresentar qualquer preocupação com os 50 mil mortos assassinados no Brasil anualmente, de defender terroristas islâmicos, de aparelhar empresas estatais, de ser a favor de um Estado altamente interventor e eteceteras.

Além de tudo isso, há o fator democracia. Não é bom para a democracia que um partido fique eternamente no poder. É perigoso. Está na hora de mudar. Entrando, porém, o PSDB na gestão brasileira, certamente não cessarei de fazer minhas críticas, tampouco considerarei ideal que social-democratas estejam no poder. Esta é a minha posição.

Quem foi que inventou o Brasil?

Texto de Olavo de Carvalho no Jornal Zero Hora, em 11 de Junho de 2006. Disponível em Mídia Sem Máscara.

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Se todos os meios de produção são estatizados, não há mercado. Sem mercado, os produtos não têm preços. Sem preços, não se pode fazer cálculo de preços. Sem cálculo de preços, não há planejamento econômico. Sem planejamento, não há economia estatizada. “Comunismo” é apenas uma construção hipotética destituída de materialidade, um nome sem coisa nenhuma dentro, um formalismo universal abstrato que não escapa ileso à navalha de Occam. Não existiu nem existirá jamais uma economia comunista, apenas uma economia capitalista camuflada ou pervertida, boa somente para sustentar uma gangue de sanguessugas politicamente lindinhos.

Desde que Ludwig von Mises explicou essas obviedades em 1922, muitas conseqüências se seguiram.

Os líderes comunistas, por mais burros que fossem, entenderam imediatamente que o sábio austríaco tinha razão, mas não podiam, em público, dar o braço a torcer. Tolerando doses cada vez maiores de capitalismo legal ou clandestino nos territórios que dominavam, continuaram teimando em buscar algum arranjo que maquiasse o inevitável. Eduard Kardelij, ministro da Economia da Iugoslávia, chegou mesmo a imaginar que seria possível uma comissão de planejadores iluminados determinar um a um, por decreto, os preços de milhões de artigos, desde aviões supersônicos até agulhas de costura. A idéia jamais foi levada à prática, porque se assemelhava demasiado ao método português de matar baratas jogando uma bolinha de naftalina em cada uma. Os soviéticos permitiram que o capitalismo oficialmente banido continuasse prosperando na sombra e respondesse por quase cinqüenta por cento da economia da URSS. Daí o enxame de milionários que emergiram da toca, da noite para o dia, quando da queda do Estado soviético: eles jamais teriam podido existir num regime de proibição efetiva da propriedade privada.

Alguns grandes capitalistas ocidentais tiraram da demonstração de von Mises algumas conclusões mais agradáveis (para eles próprios). Se a economia comunista era impossível, todos os esforços destinados nominalmente a criá-la acabariam gerando alguma outra coisa. Essa outra coisa só poderia ser um capitalismo oculto, como na URSS, ou um socialismo meia-bomba, uma simbiose entre o poder do Estado e os grupos econômicos mais poderosos, um oligopólio, em suma. As duas hipóteses prometiam lucros formidáveis, aquela pela absoluta ausência de impostos, esta pela garantia estatal oferecida aos amigos do governo contra os concorrentes menos dotados. Se a primeira ainda comportava alguns riscos menores (extorsão, vinganças pessoais de funcionários públicos mal subornados), a segunda era absolutamente segura. Foi então que um grupo de bilionários criou o plano estratégico mais maquiavélico da história econômica mundial — inventaram a fórmula assim resumida ironicamente pela colunista Edith Kermit Roosevelt (neta de Theodore Roosevelt): “A melhor maneira de combater o comunismo seria uma Nova Ordem socialista governada por ‘especialistas’ como eles próprios.” Essa idéia espalhou-se como fogo entre os membros do CFR, Council on Foreign Relations, o poderoso think tank novaiorquino. A política adotada desde então por todos os governos americanos (exceto Reagan) para com o Terceiro Mundo, na base de combater a “extrema esquerda” mediante o apoio dado à “esquerda moderada”, foi criada diretamente pelo CFR. O esquema era infalível: se os “moderados” vencessem a parada, estaria instaurado o monopolismo; se os comunistas subissem ao poder, entraria automaticamente em ação o Plano B, o capitalismo clandestino. A “extrema esquerda”, apresentada como “o” inimigo, não era na verdade o alvo visado, era apenas a mão esquerda do plano. O verdadeiro alvo era o livre mercado, que deveria perecer sob o duplo ataque de seus inimigos e de seus “defensores” os quais, usando o espantalho da revolução comunista, o induziam a fazer concessões cada vez maiores ao socialismo alegadamente profilático da esquerda “boazinha”.

Reduzir o leque das opções políticas a uma disputa entre comunistas e socialdemocratas tem sido há meio século o objetivo constante dos bilionários inventores da Nova Ordem global. O Brasil de hoje é o laboratório dos seus sonhos.

O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de Direita?

Texto meu (Davi Caldas) publicado também no blog “Mundo Analista”. Para ler o texto original, clique aqui.

Hitler e Stálin – Líderes do Nacional Socialismo e do Socialismo Marxista, respectivamente

A esquerda nos diz que Hitler e o seu movimento Nacional Socialista eram de direita ou, para ser mais exato, de extrema-direita. Um dos argumentos mais frequentemente utilizados para sustentar esta alegação é o fato de que Hitler (e, por conseqüência, o Nacional Socialismo) era antimarxista. Ora, poderíamos descartar o argumento logo de início, pois o mesmo parte do falso pressuposto de que o marxismo é a única doutrina de esquerda que existe e que, portanto, qualquer que seja contrário a ela é, automaticamente, de direita. Tal pressuposto é falso porque, desde seu surgimento, a esquerda sempre contou com doutrinas políticas que não intentavam implantar o comunismo. Os jacobinos da época da revolução francesa (pré-marxistas, pode-se dizer) e os democratas americanos a partir dos 1920 são apenas alguns exemplos de esquerdistas que não podem ser chamados de marxistas, ainda que encontremos em suas doutrinas algumas semelhanças com a ideologia do pensador alemão.

Na realidade, contanto que uma pessoa preserve traços esquerdistas básicos (como, por exemplo, a crença de que o governo deve multiplicar suas funções e impostos, a fim de fazer “justiça social”) é perfeitamente possível que essa pessoa seja esquerdista e, ao mesmo tempo, uma opositora ferrenha do marxismo. Como? Vejamos. Eu, por exemplo, acredito que a teoria de Marx é impossível de se realizar na prática, tal como ele havia pensado. Ele imaginava uma espécie de “ditadura democrática”, na qual todo o proletário iria governar, e que seria temporária, dando lugar ao posterior comunismo. Para mim, é óbvio que isso não daria certo em hipótese alguma, porque o homem tende a abusar do poder e uma ditadura do proletariado certamente se tornaria uma ditadura de líderes que se dizem “representantes” do proletariado.

Assim, mesmo que eu fosse esquerdista (como, de fato, já fui, embora não o soubesse) provavelmente seria veementemente contrário ao marxismo, dada a minha crença na impossibilidade prática do mesmo. Ainda assim, eu poderia crer na capacidade do Estado de fazer justiça social, votar em candidatos trabalhistas, ser contrário ao livre mercado, querer mais intervenção governamental, lutar por mais empresas e serviços públicos e etc. De fato, a maioria dos esquerdistas atuais tem esse perfil. Não querem destruir o capitalismo. Querem apenas “domá-lo”.

Então, apontar Hitler e o Nazismo como antimarxistas em nada prova que eles eram de direita e não de esquerda. É preciso cavar mais fundo na questão. E eu acredito que uma boa forma de começar a cavar é indo até o livro em que Adolf Hitler expõe seus ideais nazistas, o Mein Kampf (Minha Luta). O que será que ele diz sobre o marxismo? Será que o livro deixa claro que Hitler era contra o marxismo, justamente porque era de direita? Vamos ver.

Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.

Esse primeiro trecho é interessante porque dá a tônica para o restante do livro de Hitler. Conforme veremos, Adolf Hitler enxergava uma relação entre o movimento marxista, o movimento social-democrata (que, na época, era uma variante menos radical do marxismo) e o povo judeu. Ao longo do livro ele vai explicando esse ponto de vista e mostrando como chegou a essa conclusão.

[…] a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado – como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora – pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico […].

Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.

Aqui Adolf Hitler afirma que em sua juventude, ele não tinha nada contra o movimento social-democrata (a não ser o fato de que eles não eram nacionalistas) e que não conhecia o marxismo. Mas prepara o terreno para mostrar que sua concepção logo mudaria. É interessante ressaltar como ele mostra uma inclinação à esquerda julgar positiva a preocupação social-democrata com o proletariado. Não que a preocupação com trabalhadores seja monopólio esquerdista, mas um direitista jamais iria admirar a “preocupação” da esquerda com os mesmos, já que a “preocupação” esquerdista com os trabalhadores implica em ser contrário ao livre mercado e a favor do intervencionismo estatal. Então, já aqui começa a ficar claro que Hitler não se tornaria antimarxista por ser favorável às doutrinas econômicas de direita. Em outro ponto, Hitler afirma:

Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória, mas arrastará a humanidade à ruína. Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida. Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.

A relação que Adolf Hitler trava entre marxismo, social-democracia e o povo judeu começa a ficar mais explícita neste ponto. Perceba que Hitler fala em “propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia”, o que quer dizer que o líder nazista era adepto de uma teoria da conspiração. Ele achava que a social-democracia, bem como o marxismo escondiam seus verdadeiros objetivos que estavam ligados, de alguma forma, a objetivos também escondidos do povo judeu. Ele continua em outra parte:

Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.

Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.

Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do “povo escolhido”, quer se tratasse de membros do “Reichscrat”, de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória. Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão.

Só então compreendi quais eram os corruptores do povo. Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.

É preciso entender o raciocínio de Hitler dentro de seu contexto. Em sua época, os judeus estavam espalhados por toda a Europa. Havia realmente muitos judeus e nas mais diversas camadas sociais. Isso incomodava muitos europeus, que preservavam um espírito um pouco xenófobo. Deste modo, o pensamento anti-semita não era incomum e nem recente, mas vinha se desenvolvendo havia algumas décadas.

Não sabemos ao certo se havia algo mais que fazia Hitler odiar os judeus, mas é neste contexto de diversos judeus espalhados pela Europa e de xenofobia crescente, que Hitler começa a crer que existia um enorme plano maquiavélico judaico para dominar o mundo. A presença de judeus em diversas profissões e camadas sociais seria parte do plano. Cada qual estaria estrategicamente posicionado, infiltrando na cultura suas idéias, enriquecendo e tomando conta de espaços e trabalhos. Desta forma, social-democracia e marxismo seriam apenas dois instrumentos nas mãos dos judeus para alcançar sua meta suprema. Por isso, ele alerta:

Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter. A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio. Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

Fica evidente que Hitler enxergava o marxismo e todas as suas variações como braços do plano judaico de dominação mundial. Era isso que o fazia ser contrário ao marxismo. E para ele, a sua conclusão era fruto de muito estudo, conforme afirma em outro ponto:

Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Conforme vai chegando ao fim do livro, Hitler vai se tornando cada vez mais enfático quanto a relação entre marxismo e judaísmo. Diz:

O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão.

Sua concepção do assunto englobava tudo. Ele acreditava ter descoberto todos os enlaces do suposto plano judaico de dominação mundial. Ele fala, por exemplo, da questão econômica:

Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital” – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.

O entendimento de Hitler sobre a economia marxista era mais ou menos assim: o judeu encenava que estava lutando a favor do proletariado e que colocaria a economia em suas mãos. Ao mesmo tempo desprezava nacionalidades, criando uma mentalidade internacionalista. A idéia era quebrar as fronteiras entre países para que quando o judeu, em qualquer país, dominasse a economia, tivesse facilidade de dominar a economia de outras partes do mundo, já que não nacionalidades não mais importam e a economia marxista deve ser uma só. A isso Adolf Hitler denominava “capitalismo internacional judaico”. Vejamos:

O que a chamada imprensa liberal fez antes da guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus.

Em outro trecho, Hitler repete a dose:

Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.

Ainda em outro trecho é possível ler:

Se a fúria dos aproveitadores internacionais em Versalhes se dirigia contra o antigo exército alemão é que este era o último reduto das nossas liberdades na luta contra o capitalismo internacional. Não fosse essa força ameaçadora, a Intenção de Versalhes se teria realizado muito antes. O que o povo alemão deve ao exército pode-se resumir nesta palavra: tudo.

Hitler também fala em seu livro sobre como entendia a atuação dos judeus na imprensa. O seu raciocínio, embora fantasioso, não deixa de ser interessante. Ele cria que os judeus criavam uma aparência de luta entre burgueses e proletários, a fim de sempre ter a imprensa em suas mãos. Assim, se qualquer das classes, por algum motivo, perdesse uma batalha política, isso não iria afetar o plano judaico, pois na derrota de uma a outra permanecia. Ele escreve:

A conduta dos representantes do governo [alemão] falhou […]. De quando em vez, quando gravemente ofendidos, eles punham no xadrez algumas víboras jornalísticas [marxistas] por algumas semanas, ou mesmo meses, mas deixavam sempre o seu ninho em paz.

Tudo isso era a conseqüência, por um lado, da tática astuciosa dos judeus e, por outro, da conselheira estupidez ou da ingenuidade do mundo oficial. O judeu era esperto bastante para não consentir que toda a sua imprensa fosse, ao mesmo tempo, manietada. Uma parte da mesma estava sempre livre para acobertar a outra. Enquanto os jornais marxistas, da maneira mais baixa, combatiam o que de mais sagrado poderia parecer aos homens, investiam, pelos processos mais infames contra o governo e açulavam grandes setores da população uns contra os outros, as folhas democrático-burguesas dos judeus davam a aparência da mais notável preocupação com esses fatos, concentravam todas as suas forças, sabendo exatamente que os imbecis só sabem julgar pelas aparências, e jamais são capazes de penetrar no âmago das coisas. É a essa fraqueza humana que os judeus devem a consideração em que são tidos.

Um trecho interessante que mais uma vez demonstra o viés esquerdista de Hitler, mesmo sendo antimarxista, é quando ele começa a falar sobre como acreditava que se deveria agir contra a imprensa judaica. Afirma:

Um dia virá em que o judeu gritará bem alto nos seus jornais, quando sentir que uma mão forte está disposta a pôr fim a esse vergonhoso uso da imprensa, pondo esse instrumento de educação a serviço do Estado, retirando-o das mãos de estrangeiros e inimigos da nação. Acredito que essa empresa, para nós jovens, será menos incômoda do que o foi aos nossos pais. Uma granada de trinta centímetros fala mais alto do que mil víboras da imprensa judaica.

Neste trecho, o esquerdismo de Hitler é latente. Seu pensamento segue o molde de todas as doutrinas de esquerda. A esquerda se define pelo pressuposto básico de que o homem é capaz de resolver a crueldade e as injustiças sociais através de alguma ferramenta. Essa ferramenta quase sempre é o governo, que deve receber o máximo de funções possíveis, a fim de conquistar essa meta. A crueldade e as injustiças, por sua vez, são sempre causadas por inimigos que precisam ser combatidos. Assim, em todo governo esquerdista, sempre há uma luta apocalíptica entre o governo e os “inimigos” do bem-estar social.

O que difere as várias doutrinas esquerdistas uma das outras é a visão que cada uma delas possui sobre quem são os inimigos do bem-estar social. Para marxistas, os inimigos são os burgueses, os líderes religiosos e os conservadores. Para Adolf Hitler, no entanto, os inimigos eram os judeus, os estrangeiros que residiam na Alemanha, os negros, os deficientes e todos os que se afastavam do “perfil ariano”.

Então, perceba que Hitler define os inimigos do bem estar social, apresenta a mão forte do governo como a grande solução para o problema e afirma que a nova imprensa estaria a serviço do Estado, o que nada mais é do que intervencionismo estatal, controle de empresas privadas e oposição ao livre mercado. Tudo isso “em prol” do bem estar social. Ora, isso é economia de esquerda pura!

A coisa vai ficando mais interessante na medida em que Hitler começa a apontar o socialismo pregado pelo marxismo como algo falso, que, na realidade, pretende fazer exatamente o inverso do que prega: fortalecer o capitalismo. Torna-se claro que Hilter é um socialista que deseja implantar o que ele julga ser o verdadeiro socialismo. Ele diz:

Doravante, só resta ao operário a tarefa de pelejar pelo futuro do povo judeu. Sem se aperceber, entra a serviço da potência que ele tem a ilusão de combater. Com a aparência de deixá-la atacar o capital, é que se pode melhor fazê-la lutar pelo mesmo. Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa e a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional.

O processo aí empregado pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

Apresentando-a inseparavelmente ligada a toda uma série de exigências sociais bem legítimas, vai ele favorecendo sua propaganda e, por outro lado, despertando a aversão da humanidade bem intencionada em satisfazer aquelas exigências, que, expostas da maneira por que o são, aparecem desde o inicio, como injustas, e mesmo de impossível realização.

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores.

Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de “doutrina”. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.

Essa doutrina pode ser julgada justamente pelos seus desvarios em matéria econômica e política. Todos os que, de fato, são inteligentes hesitam em entrar no seu séquito, e os outros, a quem falta suficiente atividade intelectual ou preparo econômico, precipitam-se ao seu encontro. O judeu, dentro de suas próprias fileiras, “sacrifica” o elemento inteligente ao movimento, pois mesmo semelhante movimento não se pode manter sem inteligência. Assim cria-se um verdadeiro movimento trabalhista, sob a chefia de judeus. Aparentam visar à melhora das condições dos operários, tendo na mente, porém, em verdade, a escravização e o aniquilamento de todos os povos que não são judeus.

Impressionante esse trecho! Hitler deixa claro que não critica o marxismo tanto por seu conteúdo, mas por sua mentira. Ou seja, Hitler está querendo dizer que concorda com as propostas sociais marxistas, mas que se opõe ao marxismo porque, segundo ele, tudo não passa de um embuste judaico para escravizar as nações. É como se Hitler estivesse dizendo: “Ei! Vocês não são socialistas de verdade! São exploradores do povo!”. Para Hitler era claro que o “socialismo” marxista não passava de capitalismo judeu. A análise que ele faz do panorama mundial da época leva em conta essa concepção.

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional.

Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos.

As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça.

Que Hitler era anticapitalista fica claro aqui. Ele não pretendia destruir todo o sistema capitalista, é verdade. Mas para ser anticapitalista não é necessário ter essa intenção. Basta encarar o capitalismo em seu estado puro como algo ruim e procurar domá-lo através do governo, intervindo intensamente na economia e engessando o livre mercado e a livre concorrência. É aquela velha retórica esquerdista de controlar o “capitalismo selvagem” em prol da sociedade.

Também fica claro aqui que a briga entre marxistas e nacional socialistas era, na verdade, uma disputa entre duas doutrinas de esquerda que almejavam o status de “verdadeiro socialismo”, acusando-se um ao outro de “capitalista”. Esse tipo de disputa dentro do próprio pensamento de esquerda sempre foi muito comum. Revolucionários franceses dividiram-se em jacobinos e girondinos; revolucionários russos dividiram-se em bolcheviques e mencheviques; revolucionários bolcheviques dividiram-se em stalinistas e trotskistas; stalinistas também passaram a fazer oposição aos fascistas (que tinham profundas raízes marxistas). E por aí vai. Nenhuma dessas disputas, contudo, mudou o fato de que todas essas visões são de esquerda.

Hitler continua a acusar o marxismo de ser um socialismo de fachada:

De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas, mas, em verdade, constituem um bloco único: o movimento dos políticos e o dos sindicatos. Esse último é um trabalho de aliciamento. Na dura luta pela existência, que o operário tem que enfrentar, devido à ganância e à miopia de muitos patrões, o movimento lhe propõe ajuda e proteção e a possibilidade de combater por uma melhora nas suas condições de vida. […].

Na mesma proporção, a chamada burguesia nacional, cega pelo dinheiro, põe os maiores obstáculos a essa luta pela vida, opondo-se contra todas as tentativas de abreviação do horário de trabalho, desumanamente longo, supressão do trabalho infantil, segurança e proteção da mulher, melhoramento das condições sanitárias em oficinas e moradias, etc.

O judeu, mais inteligente, toma a defesa dos oprimidos. Aos poucos, torna-se o chefe do movimento social. Isso lhe é fácil, pois não se trata, na realidade, de combater com boa intenção as chagas sociais, mas somente de selecionar uma tropa de combate, nos meios proletários, que lhe seja cegamente devotada na campanha de destruição da independência econômica do país. Enquanto a chefia de uma sã política social não aceitar firmemente estas duas diretrizes: conservação da saúde do povo e segurança de uma independência nacional no terreno econômico, o judeu na sua luta não só descurará completamente esses dois problemas, como fará de sua supressão uma verdadeira finalidade. Não deseja ele a conservação de uma economia nacional independente, mas, ao contrário, o seu aniquilamento.

Em conseqüência, não há escrúpulos de consciência que possam demovê-lo, como chefe do movimento proletário, de fazer exigências, não só exorbitantes, como praticamente irrealizáveis e próprias a acarretar a ruína da economia nacional. Não cogita ele de ver uma geração sadia e robusta, deseja somente um rebanho contaminado e apto a ser subjugado. Com esse desideratum, faz exigências tão destituídas de senso que sua realização (ele não o ignora) se torna impossível e não pode provocar nenhuma modificação do estado de coisas existente. Serve apenas para excitar a massa popular até ao desvario. Isso, porém, é o que ele quer e não a modificação para melhor da situação do proletariado.

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é como Hitler se coloca como um genuíno socialista em suas descrições, em oposição aos marxistas, que seriam, segundo ele, embusteiros. O segundo é como Hitler liga cuidadosamente um ponto ao outro. Enquanto ele monta um perfil do inimigo supremo da sociedade (o judeu), dando crédito as suas palavras através de uma análise minuciosa dos mecanismos de engano supostamente usados por este povo, prepara o campo para suas idéias de governo. O parágrafo subseqüente diz:

A chefia do judeu na questão social se manterá até o dia em que uma campanha enorme em prol do esclarecimento das massas populares se exerça instruindo-as sobre sua miséria infinita, ou até que o Estado aniquile tanto o judeu como sua obra. É claro que, enquanto durar a falta de perspicácia do povo, e o Estado se conservar indiferente como o tem sido até hoje, as massas seguirão sempre de preferência aquele, cujas promessas, de ordem econômica, forem as mais audaciosas. Nisso, aliás, o judeu leva a palma, pois nenhum escrúpulo moral entrava a sua ação.

Mais uma vez o esquerdismo de Hitler é patente aqui. Ele invoca o poder do Estado mais uma vez para esclarecer às massas sobre suas misérias e para aniquilar o judeu. O Estado não pode “se conservar indiferente como o tem sido até hoje”. A partir daí, Hitler começa a investir pesado na “justificação” de seu racismo. E ele vai tão longe que afirma que o objetivo do Estado é preservar a raça pura. Diz:

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais, Ela vê, no Estado, em princípio, apenas um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme à eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos.

O Estado como ferramenta para o novo mundo e a luta entre raças nos oferece o tom de esquerdismo do nacional socialismo. No marxismo temos classes sociais. No nazismo temos raças. Mas, no fim das contas, temos em ambas as visões de mundo uma polarização da sociedade e um conflito que deve ser travado para que se alcance uma sociedade reformada. Neste momento que entra a função do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães:

Mas a organização de uma concepção do mundo só pode efetuar-se duradouramente sobre a base de uma fórmula definida e clara. Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a Religião. Por isso, a concepção racista do mundo tem de tornar-se um instrumento que permita ao Partido as devidas possibilidades de luta, tal como a organização partidária marxista abre o caminho para o internacionalismo. Esse fim visa o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Estava demorando! Depois de fazer toda a análise do problema da sociedade, Hitler vem com a solução, claro! A solução estava em um partido forte, regido por princípios quase religiosos, que iria transformar o Estado em um verdadeiro Estado socialista. Não há nada original neste ponto. O elogio ao fascismo italiano segue os moldes do pensamento esquerdista:

[…] a perseguição da imprensa internacionalista, assim como o constante combate ao marxismo internacional, por outro lado a constante consolidação da doutrina fascista, habilitarão, no curso dos anos, o governo italiano a, cada vez mais, poder servir aos interesses do seu povo, sem receio da hidra judaica.

Veja o raciocínio de Hitler: lutar contra os marxistas era possibilitar o governo a servir aos interesses do povo. Por quê? Porque o marxismo era apenas socialismo de fachada, uma doutrina político-econômica judaica de dominação mundial. A análise de Hitler é extensa. Ele não cita apenas a Itália, mas vários países europeus, explicando que em cada país os judeus agiam de uma maneira diferente para conseguir seus objetivos, sempre de acordo com as características do país. Então, cita a Rússia, falando sobre o perigo do bolchevismo russo para o mundo. Conclui:

Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser.

Acredito que estes textos deixam bem claro que o antimarxismo de Adolf Hitler nem chega perto de colocá-lo na posição de direitista. A verdade é que Hitler era um esquerdista fervoroso, que considerava o Nazismo como o verdadeiro socialismo e o marxismo como uma doutrina judaica de dominação mundial, a qual ele freqüentemente denominava como capitalismo judaico internacional.

Um pequeno adendo           

Achei por bem colocar um adendo no fim desse artigo. Há pessoas que podem continuar insistindo que Hitler era antimarxista por ser direitista, baseando-se em alguns trechos de Mein Kempf que são apontados por esquerdistas como prova de que Hitler comungava de idéias básicas da direita. Eu gostaria de analisar pelo menos dois desses trechos, a fim de não deixar dúvidas sobre o esquerdismo de Hitler. Os dois trechos que escolhi me parecem ser os mais contundentes e acredito que a análise deles poderá servir de base para a análise de outros que o leitor poderá fazer por si próprio, quando ler o livro. O primeiro trecho é esse:

A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.

Alegam os esquerdistas que esse trecho é uma prova de que Hitler era de direita por três motivos. Em primeiro lugar, porque ele defende o “princípio aristocrático da natureza”, que seria um princípio no qual a direita acredita e a esquerda repele. Em segundo lugar, porque exalta o individualismo, criticando o marxismo por sua noção coletivista de sociedade. E, em terceiro lugar, porque exalta nacionalidades e raças, que é algo considerado conservador por quem é de esquerda.

Todos esses pontos, contudo, são falhos. Vamos começar pelo tal “princípio aristocrático da natureza”. O que viria a ser isso? Bem, para Hitler esse princípio tinha a ver com a alegação de que existem raças diferentes de homens e que algumas raças são superiores às outras. O pensamento fundamental de direita, no entanto, jamais defendeu uma sandice dessas. Embora seja verdade que muitos direitistas, ao longo da história, tenham sido racistas, tais concepções não passavam de opiniões pessoais que nada tinham a ver com a visão de mundo da direita. Até porque, ser racista independe de posição política. Pode-se ser tanto um direitista racista como um esquerdista racista.

O que a esquerda faz aqui é, na verdade, uma grande confusão. Ela confunde o “princípio aristocrático da natureza”, de Hitler, com o “princípio da diversidade natural”, este sim, defendido pelo pensamento de direita. Segundo tal princípio, os seres humanos nascem com diferenças de habilidades e, dentro dessas habilidades, há ainda quem seja melhor do que o outro. Isso é óbvio e não há preconceito nesta idéia. Por exemplo, em uma sala de aula nem todos são bons em química. Talvez, de 30 alunos, apenas 10 se dêem bem nesta matéria. E dentro destes 10, certamente há um ou dois que é melhor do que os outros. Isso vale para qualquer habilidade. É por isso que existem hierarquias, divisões de funções e até mesmo uma divisão desigual de riquezas. Não obstante, acreditar nisso não significa acreditar em raças naturalmente inferiores ou superiores.

Ironicamente, a idéia de usar o racismo dentro da política para criar grupos de conflito no mundo é uma idéia que encontra maior aporte na esquerda. Afinal, a direita rechaça a idéia de ver o mundo como uma enorme luta entre classes, ao passo que a esquerda se baseia nisso. Burgueses x Proletários; Religiosos x Ateus; Conservadores x Radicais; Brancos x Negros; Heterossexuais x Homossexuais; Machistas x Feministas; Pró-vida x Pró-escolha e etc. O mundo esquerdista é polarizado. Tem que haver um grupo oprimido, que precisa se proteger e se vingar, e um grupo opressor, que precisa ser combatido. O mundo direitista não tem grupos. Só indivíduos. Assim, o princípio de Hitler é apenas uma variação da mentalidade grupal (ou classista) da esquerda.

Quanto à questão da exaltação do individualismo, feita por Hitler, há aqui um paradoxo. Todos reconhecem que o Nacional Socialismo não foi uma doutrina que defendeu a liberdade individual. O simples fato de criar um objetivo único para todos é uma prova de que o regime não tinha a intenção de dar autonomia de pensamento ao indivíduo, mas pretendia controlar sua vida através do Estado. Então, o que será que Hitler quis dizer quando criticou o marxismo por negar o valor do indivíduo?

A explicação é simples. Hitler havia reparado que a doutrina marxista criava uma enorme massa amorfa de pessoas através da mistura de nacionalidades e culturas diferentes. Tudo se perdia nessa mistura, pois a doutrina enxergava a todos como apenas proletários. Raça, cultura, língua, hábitos e nacionalidade eram engolidos por essa massa proletária. Como Hitler era essencialmente nacionalista e racista, ele precisava fazer seus leitores se sentirem desconfortáveis em relação à maneira como o marxismo via as pessoas. O que ele faz? Primeiro, ele mostra como que o indivíduo não tem valor no marxismo, pois é apenas mais um proletário. Depois define o indivíduo em termos de nacionalidade, raça, cultura, língua e hábitos (tudo o que a massa amorfa do marxismo não levava em conta). Por fim, apresenta o nazismo como uma ideologia que valorizava o indivíduo, já que levava em conta o que o definia.

A mágica estava feita. Com essa retórica, Hitler conseguiu fazer as pessoas se sentirem valorizadas dentro do nazismo. Como, de fato, existe um senso muito maior de aproximação entre pessoas de mesma nacionalidade, cultura e etc., elas não se sentiam dentro de uma massa amorfa, mas dentro de uma grande família. Contudo, o suposto individualismo de Adolf Hitler é refutado em seu próprio texto. Observe esse trecho:

O Estado nacionalista racista tem que cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, em tudo em que reconhecer o valor da personalidade, e, assim, introduzir, em todos os campos de atividade, aquela produtiva capacidade de direção que só ao indivíduo é concedida.

Veja a contradição: Hitler fala em valorizar a personalidade, o indivíduo, mas deixa claro que isso é obrigação do Estado, bem como é sua obrigação cuidar do bem-estar dos cidadãos. Sabemos o que eles quer dizer com essas palavras. Sua intenção é se intrometer na vida dos cidadãos, através do governo, ditando aquilo que o Estado acha que é bom para o indivíduo. Isso nada mais é do que coletivismo! Individualismo é o Estado deixar o indivíduo por si próprio.

Com relação à defesa de nacionalidades e raças feitas por Hitler, mais uma vez, isso não é doutrina de direita. A direita acredita em diferenças de habilidades entre as pessoas (o que leva à existência de hierarquia) e no patriotismo, que é bem diferente de nacionalismo. O patriotismo é o amor pela nação, enquanto o nacionalismo é a criação de uma classe política nacional que se opõe às outras nações. E eu torno a dizer que tal visão classista é uma variante da mentalidade classista comum à esquerda.

O segundo trecho que quero analisar é este:

A ação destruidora do judaísmo em vários aspectos da vida do povo, deve ser vista como um esforço constante para minar a importância da personalidade nas nações que os acolhem e substituí-la pela vontade das massas.

Os esquerdistas alegam aqui que a esquerda sempre prega que o poder seja dado ao povo, ao passo que Hitler abominava isso. Seria esta uma prova de que ele não era de esquerda, mas de direita. Verdade seja dita, Hitler não pregava que o povo tomasse o poder. Mas isso, no máximo, fazia dele um esquerdista mais sincero que os outros neste ponto. Afinal, todos os líderes esquerdistas que prometeram dar o poder ao povo, se tornaram ditadores. Eles não se consideraram ditadores, claro. Eram “representantes” do povo. Mas o fato é que jamais se viu o próprio povo governar. E certamente todo líder sabe que, ao fim de uma revolução, alguém vai ter que tomar as rédeas do governo e receber poderes despóticos. Hitler apenas não fingiu que isso não ocorreria. Foi direto ao ponto: tem que haver um líder.

Isso só reforça seu esquerdismo. Para a direita, a idéia de colocar todo o poder nas mãos do governo, seja por meio de uma só pessoa ou de um só partido, é ridícula, extremamente ridícula. Lembremo-nos dos pais fundadores dos EUA, conservadores até os cabelos. Eles tinham um medo terrível do despotismo. Por isso projetaram uma nação federalista e com um governo central bem limitado. Lógico que os EUA não são mais assim há tempos! Mas eram. E eram porque seus fundadores eram direitistas.

Então, se um homem pretende dar ao Estado um poder ilimitado e se tornar o grande líder da nação, a fim de mudar os problemas do mundo, isso certamente não é nem um pouco conservador. Na verdade, é progressista. O conservador tem medo desse tipo de revolução insana e prefere sempre a prudência.

Enfim, o que é a Esquerda?

Texto escrito pelo blogueiro Luciano Ayan, em 2010. Para ler o texto original clique aqui. Para ler as postagens atuais do seu blog, clique aqui.

Várias vezes neo ateus se opõem ao que escrevo de forma indignada, dizendo algo como “O Luciano quer dizer que nós somos de esquerda, mas eu não sou marxista”.

Por isso, já passou do tempo de esclarecer bem a questão da esquerda, e EXATAMENTE o que trato quando cito a esquerda.

Uma forma melhor de tratar a esquerda, como um todo, seria como sistema humanista de governo.

O humanismo, naturalmente, não nos diz como gerir economicamente um país, mas dá uma base para todas as ideologias da esquerda.

O humanismo é a crença na idéia de que o homem, por sua ação, poderá criar um mundo perfeito, isento “de males”.

Daí, os sistemas de governo da esquerda traziam a idéia: “Então vamos inchar o estado para fingir que lutamos por esse mundo”. Simples assim.

Muitos religiosos duvidam do paradigma humanista, pois simplesmente acreditam que o ser humano é falível. Digamos que para o religioso o ser humano é um pecador em potencial.

Para chegar à essa constatação, não precisamos nem da religião, pois até alguns filósofos ateus concordam exatamente com a mesma proposição. Como exemplo, John Gray e Arthur Schopenhauer.

Para John Gray, a idéia de que o homem poderá criar um paraíso em Terra através “da ciência” não passa de uma ilusão, um ranço que vem dos tempos do positivismo. E John Gray usa em sua teoria apenas a teoria da evolução. (Por isso, nem todo ateu é humanista, mas quase todo humanista é um esquerdista, e o neo ateu é um humanista radical)

Qualquer conservador, em essência, duvida de qualquer sistema de governo humanista. Portanto, por tabela duvida de qualquer sistema da esquerda.

Marxismo, liberalismo social e social democracia são as três principais alternativas para um sistema de governo de esquerda. E todos são derivados logicamente do humanismo.

O marxismo promete o mundo sem divisões sociais através da luta armada. Já a social democracia promete o mesmo mundo, mas obtido a partir de uma luta democrática. O liberalismo social é o mais facilmente vendável, e hoje atinge o PSDB no Brasil e o governo Obama nos Estados Unidos (lá eles atendem pelo nome de “Democratas” ou “Liberais”), e foca na luta por um mundo sem fronteiras, com “justiça social” e o blábláblá de sempre.

O neo ateísmo é uma vertente liberal de anti-religiosidade, surgida com o fim de aumentar o poder político dos “seculares”, uma “tropa de elite” de humanistas seculares mais agressivos, sempre com o viés globalista, mania de todo liberal. (Não vamos confundir com liberalismo social, dos “liberais” da esquerda, com o liberalismo econômico, dos conservadores)

Em um post que que fiz em 15 de setembro, Brasil: Game Over OU O Começo da Ditadura Formal, Licorne Negro fez algumas perguntas extremamente relevantes:

Gostaria de saber qual a origem desse delírio esquerdista de achar que todo partido que está na situação é de direita, não importa que seja de esquerda e aja com uma agenda de esquerda, adaptando apenas pontos mínimos (geralmente na economia) devido à necessidade de agir de forma minimamente realista. Isso viria da época de Dom Pedro, em que se dizia que não há nada mais conservador que um liberal no poder? Ou isso faz parte da estratégia gramsciana? Também gostaria de saber porque no Brasil tratamos o PSDB como direita? E porque muita gente diz que nos Estados Unidos só há partidos de direita, mesmo que os Democratas tenham se mostrado esquerdistas em todo seu modo de agir?

Excelente questão, diga-se.

Os fatos são os seguintes.

O PSDB é de esquerda (da linha do liberalismo social) e o PT também (da linha marxista).

É importante notar que o fato do PT ser de linha marxista não implica em que eles tenham que usar a política soviética exatamente como foi feita por lá.

Pelo contrário. De acordo com a estratégia gramsciana, eles podem até utilizar preceitos liberais, uma política de mercado para alguns setores e até aliança com mega-empresários (Eike Batista, Abílio Diniz, Silvio Santos), tudo em nome da obtenção do poder.

Já o PSDB que aparenta ser de “direita” (somente no discurso dos marxistas puristas), no final das contas defende a mesma coisa, só que fez algumas privatizações.

Mas todas as privatizações feitas pelo PSDB foram insuficientes diante do inchadíssimo estado brasileiro.

É aí que temos o cerne da esquerda, da qual ambos fazem parte. Toda a esquerda tem como pilar o estado inchado.

Pois o estado inchado será o “meio” através do qual esses auto-declarados “iluminados” fariam a “justiça social”.

Mas toda essa idéia de que PSDB é de “direita” é derrubada com uma análise de debates recentes dos dois candidatos à presidência.

Dilma Rouseff ataca José Serra dizendo que ele é um “privatizador, que vai privatizar a Petrobrás”. Serra responde que não vai “privatizar a Petrobrás e nem o Banco do Brasil de jeito nenhum”.

Isso é sinal de que temos dois esquerdistas debatendo.

Alguém de direita já diria algo do tipo: “Sim, eu sou a favor de privatizar a Petrobrás, e também o Banco do Brasil, para que o estado receba impostos de ambos, agora como empresas privadas, empresas estas que não poderão mais serem usadas como cabide de emprego para partidos políticos. Em resumo, em um governo meu, as oportunidades de aparelhamento de estado cairiam ao mínimo, pois nas empresas privadas vocês não podem fazer a mesma bandalheira que fazem em empresas estatais”.

Qualquer resposta com um tom menor que este não é de direita.

Quem é de direita simplesmente NÃO CONFIA nas propostas humanistas, que geraram as ideologias da esquerda.

Quem é de direita NÃO CONFIA na Petrobrás nas mãos do estado, pois sabemos que eles utilizarão a empresa como máquina de cargos distribuídos para militantes.

Para alguém de esquerda, é normal a noção de que uma empresa desse porte fique nas mãos do estado. Pois o militante esquerdista tem a CRENÇA de que alguns homens (seriam os “anjos” em Terra, como diria Friedman) estão na missão de levar a “justiça social” através de sua ação, usando para isso “o Estado”.

Assim, não há como confundir esquerda ou direita.

E quando um petralha diz que “PSDB é de direita”, ele está simplesmente executando a Estratégia das Tesouras, de Stalin.

Olavo de Carvalho nos dá mais detalhes, conforme visto em seu texto “A Mão de Stálin está sobre nós”:

A articulação dos dois socialismos era chamada por Stalin de “estratégia das tesouras”: consiste em fazer com que a ala aparentemente inofensiva do movimento apareça como única alternativa à revolução marxista, ocupando o espaço da direita de modo que esta, picotada entre duas lâminas, acabe por desaparecer. A oposição tradicional de direita e esquerda é então substituída pela divisão interna da esquerda, de modo que a completa homogeneinização socialista da opinião pública é obtida sem nenhuma ruptura aparente da normalidade. A discussão da esquerda com a própria esquerda, sendo a única que resta, torna-se um simulacro verossímil da competição democrática e é exibida como prova de que tudo está na mais perfeita ordem.

Resumindo: quando tratamos o PSDB como “de direita”, já caímos na fase em que a estratégia das tesouras está bem desenvolvida em nosso país.

Aqui, no máximo o DEM poderia ser quase um partido de direita.

Mas as declarações de Índio da Costa no mês de agosto, dizendo que “é de esquerda”, causam algum desânimo. E o partido quase inexiste politicamente.

Quer dizer, direita não existe. Temos uma QUASE direita com o minúsculo DEM.

E a partir dali, é tudo esquerda, e isso inclui PSDB, PMDB, PV, PT, PCdoB, PSOL e todo tipo de porcaria.

A pergunta que resta é: como pudemos chegar à esse estágio de dominação esquerdista?

Simples: estratégia gramsciana.

Em raros países a estratégia gramsciana foi executada de forma tão coordenada, utilizando-se inclusive de unidades especializadas de doutrinação em grandes universidades, como a USP.

O senso comum da população brasileira, mesmo que seja um povo inerentemente conservador, está “formatado” para ir pensando de acordo com as ideologias da esquerda.

Tanto que nesse novo universo mental, até mesmo diante de diferentes sistemas de esquerda se convencionou chamar um deles de “direita” e outra de “esquerda”.

Por isso, chegamos à esse estágio de declínio cultural em que grande parte da população sequer consegue saber o que “direita” significa.

Ser de direita significa ser conservador, um adepto do livre mercado, do estado enxuto, da meritocracia, de uma moral objetiva (e não uma “moral fluida” ou “moral discutida”), etc.

Tanto PSDB como PT não tem absolutamente nada do que se esperaria em um partido de direita.

Nos Estados Unidos, os Democratas são um partido de esquerda, e os Republicanos são um partido de direita.

Vemos isso claramente na obsessão pelo estado inchado dos Democratas, como com o “Obama Healthcare”. E a rejeição ao estado inchado é base das manifestações republicanas.

Enfim, a diferença entre direita e esquerda nos Estados Unidos é claríssima.

Quando um petralha diz que “nos Estados Unidos só há partidos de direita”, ele mente no mínimo duas vezes.

Primeiro, por que na verdade, nos Estados Unidos há direita e esquerda, e isso é visto na diferença radical entre as duas propostas.

Segundo, por que no Brasil, o máximo de “direita” que temos são partidos iguais aos Democratas norte-americanos, portanto não faz sentido chamar qualquer grande partido nacional de “esquerda”.

Enfim, aqui vão duas regras básicas para facilitar a classificação:

  • Se alguém defende o estado inchado, inclusive com manutenção de estatais como Banco do Brasil e Petrobrás na alçada do governo, é de esquerda; se defender a manutenção apenas do básico absoluto com o Estado (como a segurança pública), é de direita;
  • Se vier com conversinhas como “nós lutamos pela justiça social”, é de esquerda, pois qualquer esquerdista tenta “se vender” fingindo que luta por todos, quando na verdade é só busca de autoridade; quem é de direita geralmente diz que “quem trabalha mais, merece mais”, o que pode parecer menos demagógico,  mas é mais realista.

Aplicando essas duas regras, que podem ser sustentadas por qualquer investigação na literatura dos autores de esquerda, vemos que nem PSDB e nem PT são de direita.

Aliás, no Brasil, não há direita.

E precisamos de uma direita ativa para fazer a oposição à esquerda.

Até por que os ideólogos da esquerda estão na espiral da bobagem, até por que é difícil encontrar bobagem maior do que dizer que o PSDB é de “direita”.

Se daqui uns 15 ou 20 anos, tivermos uma elite conservadora para fazer contraposição aos ideólogos da esquerda, talvez deixem de falar tanta bobagem.

Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?

Autor: ALEXANDRE BORGES *

Uma das maldições da segunda-feira é o Roda Viva da TV Cultura, em quase todas as edições um convescote de esquerdistas que atestam a debilidade da alta cultura e do jornalismo no país. Há duas semanas, o convidado foi o ex-presidente e imortal Fernando Henrique Cardoso, que estufa o peito e se autodeclara “progressista”, um intelectual iluminista acima das ideologias que busca apenas o bem comum.

Não é de hoje que o progressismo é a bandeira dos que entendem a história como uma locomotiva que segue em direção a um futuro glorioso, racional, em que as ideologias são superadas, assim como as religiões, o nacionalismo, e uma sociedade próxima da perfeição emerge. Quem se coloca contra essa visão progressista da vida é um inimigo do futuro, um obstáculo a ser removido, uma pedra no caminho, uma inquietante voz do passado a ser calada. Quando FHC diz no Roda Viva que progressista é quem “olha para frente”, meus caros, é isso que ele quer dizer.

O progressismo pode ser entendido como um fenômeno típico do final do século XIX até os anos 30 do século XX, mesmo que suas raízes possam ser traçadas nas décadas e até séculos anteriores e muitos esquerdistas até hoje, como FHC, prefiram se apresentar assim.

Muitos enxergam no progressismo também um desdobramento do socialismo fabiano, a vertente criada pelo grupo britânico fundado há 130 anos que contou com intelectuais como H.G. Wells, Bertrand Russell e George Bernard Shaw, e que defendia que o socialismo seria uma evolução natural e inexorável do capitalismo e que, portanto, não seria necessário pegar em armas para que seu tempo chegasse. Para os fabianos, reformas graduais seriam o caminho indicado para a implementação do socialismo – como, por exemplo, a esterilização dos “povos inferiores” para não se ter que matá-los, já que bastava impedir que se reproduzissem.

Mesmo tendo um parentesco próximo com a social-democracia européia, o progressismo americano trazia a ideia do encantamento arrogante e quase religioso com a razão, com a ciência e o deslumbramento com a tecnologia, embalado pela época que traz descobertas como as do telefone (1876), do fonógrafo (1877), da lâmpada elétrica (1879), do gramofone (1887), do cinematógrafo (1895), do avião (1906), entre outros. Em 1889, comemorando o centenário da revolução francesa, acontece também a Exposição Universal de Paris, visitada por 28 milhões de pessoas e que construiu nada menos que a Torre Eiffel para a entrada.

O termo progressismo é entendido hoje como um contraponto ao conservadorismo, mas é, para todos os efeitos, um descendente legítimo do Positivismo “original”, aquele da escola de pensamento fundada pelo inventor da sociologia, o francês Augusto Comte (1798-1857), que traz a ideia do “governo científico” liderado por uma aristocracia intelectual que possui todas as respostas do mundo e que pode cuidar de tudo enquanto você, pobre mortal, vai tocando sua vida bovina e ruminante, obedecendo o grande plano traçado pelos guardiões da sociedade, sem questionar nada para que o governo não tenha que se livrar de você.

A ideia de um governo de reis-filósofos pode ser encontrada em tempos tão remotos quanto em “A República” de Platão (427-347 a.C.), que imagina a “cidade ideal”, uma pretensa sociedade justa e saudável em que o estado provê as necessidades básicas do cidadão enquanto ele é destinado a realizar tarefas simples baseadas nas suas habilidades. O indivíduo abre mão da sua liberdade e aceita ser parte integrante de um plano maior estatal, desenhado e gerenciado por uma aristocracia de notáveis. Sedutor para alguns na teoria, é na prática um regime totalitário.

Mais prisões políticas que Mussolini

Um dos mais poderosos e influentes políticos “progressistas” da história, abertamente entusiasta da visão política de que “seres superiores” deveriam governar sem limites em nome do bem estar social, foi Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA de 1913 a 1921, um dos políticos que, quanto mais você conhece, mais se assusta com o fato de que alguém como ele tenha ocupado a Casa Branca. Um presidente americano que encarcerou mais inimigos políticos por delito de opinião que Benito Mussolini merece atenção.

Wilson foi uma criança disléxica que só aos 10 anos de idade aprendeu a ler mas que viria a ser um ensaísta, autor de livros políticos influentes, além de um acadêmico que se tornou reitor da Universidade de Princeton e o primeiro PhD a chegar a presidência dos EUA. Em resumo, o primeiro intelectual a comandar o país.

Woodrow Wilson era, como os fascistas, assumidamente racista e comprometido intelectualmente com teses de supremacia branca e eugenia. Criado num lar de pais sulistas e confederados que pegaram em armas em defesa dos escravistas contra Abraham Lincoln, o voto dos negros para ele foi “o pior mal que aconteceu na história do país”. Ele era um defensor, por exemplo, da “purificação darwiniana das raças inferiores”.

Os pais fundadores da nação e a Constituição, para ele, eram motivo de chacota e desprezo por serem “antiquados”. A Declaração da Independência e o Bill of Rights eram recheados de “nonsense” e um eco do século XVIII que precisava ser superado. Para ele, nada deveria limitar os poderes do presidente, apenas sua própria capacidade e vontade. A própria divisão da república em três poderes seria um anacronismo incômodo, já que o Congresso não deveria atrapalhar o caminho inexorável para o futuro que o presidente representaria. “Se você não é um progressista, é melhor você tomar cuidado”, ameaçou Wilson já no seu discurso de posse.

Este intelectual também acreditava, como comunistas e fascistas, que havia povos atrasados que mereciam ser subjugados e ter seus territórios invadidos para que sociedades “adultas” pudessem cuidar destes que estavam na “infância” do desenvolvimento. Como presidente, invadiu a Nicarágua, o México, o Panamá e o Haiti e foi o comandante-em-chefe do país na Primeira Guerra Mundial.

Sua visão do povo era tão autoritária quanto possível e quase inimaginável para um presidente americano. Chegou a afirmar que a população, para um verdadeiro líder, era uma “ferramenta do estado”, numa simbiose perfeita que fazia do governo um organismo vivo e inseparável na nação, entre outras ideias típicas de um rei absolutista. Dizia também, quando presidente, que sua gestão representava a “mão de Deus” e que ser contra ele, portanto, era não só ser contra o estado mas ser contra Deus.

Segundo ele, que enquanto presidente montou uma das maiores máquinas de propaganda política que se tem notícia, o povo não precisava saber de toda verdade, com todas as visões e lados da questão, que isso confundiria o cidadão comum. Uma meia verdade, que mais apelasse para a emoção do que para a razão, e que motivasse o povo a seguir o caminho traçado pelo governo, era o mais recomendável. Seu ídolo e líder inspirador era ninguém menos que Otto von Bismarck.

Do positivismo ao progressismo e, depois, fascismo.

Poucos termos são tão desgastados quando “fascista”, que hoje em dia virou nada mais que um xingamento. Mesmo assim, o entendimento do fenômeno fascista ainda desafia os historiadores: o que é, afinal, esse tal de fascismo?

Mesmo com diferenças pontuais, é possível traçar como características comuns dos regimes fascistas italiano e alemão:

  1. A identificação clara de inimigos internos e externos do estado, que deveriam ser perseguidos, calados, presos e, em última instância, eliminados.
  2. A criação ou fomento de mitos que encarnassem os “valores nacionais” e que simbolizassem o orgulho da nação.
  3. Um projeto de reeducação da sociedade, que deveria aceitar um novo conjunto de valores culturais e morais impostos pelo estado.
  4. Liderança política exercida de forma carismática e personalista, com forte apelo ao culto à autoridade maior do regime.
  5. Militarização da sociedade, com a criação de milícias apartadas das forças armadas tradicionais do país e comandadas diretamente pelo líder do regime.

Em maior ou menor grau, diversos ditadores além de Mussolini e Hitler poderiam ser classificados como fascistas – ou como você definiria, por exemplo, o Getúlio Vargas do Estado Novo, o general argentino Leopoldo Galtieri ou o coronel Hugo Chávez? Mas colocar essa pecha num governo americano, do Partido Democrata, é ser politicamente incorreto, mesmo que essa seja totalmente defensável.

Woodrow Wilson não entrou para a história como um fascista (em parte, um erro resgatado por Jonah Goldberg em “Liberal Fascism”), mas seu governo puxou a democracia americana até o limite e além, quase duas décadas antes de Mussolini e Hitler chegarem ao poder.

Para resumir o que esse progressista fez na Casa Branca, ele foi o primeiro presidente americano a:

  • Ridicularizar os pais fundadores e a Constituição, lutando ferozmente para apagar o legado de ambos.
  • Criar um departamento estatal de propaganda política e controle da imprensa
  • Prender opositores por crime de opinião como em qualquer estado policial
  • Criar milícias para espionar cidadãos comuns e descobrir “traidores da nação” (quase 200 mil americanos foram presos por acusações de traição)
  • Inaugurar uma política de intervenção e controle estatal da economia e controle de preços
  • Instituir a famigerada Lei Seca
  • Last but not least, idealizou o conteúdo do que viria a ser o Tratado de Versailles, que humilhou a Alemanha no final da Primeira Guerra e que, em última instância, causou a Segunda Guerra Mundial.

Em 1933, o ex-ministro de Wilson, Franklin Delano Roosevelt, devolve a presidência ao Partido Democrata depois de três gestões republicanas seguidas. Com FDR, parte do kit fascista é reeditado, especialmente no cenário econômico caótico do que viria a ser a Grande Depressão, que afundou a economia americana até o final dos anos 30 e deu aos anticapitalistas Mussolini e Hitler o discurso que precisavam para demonizar a economia de mercado e subir ao poder.

Os regimes fascistas de Mussolini e Hitler, a despeito do governo de Woodrow Wilson, foram devidamente condenados pelo tribunal da história. Tanto a Alemanha quanto a Itália aprenderam tão duramente a lição que é difícil imaginar que políticos com as mesmas características consigam novamente densidade eleitoral. Mas os EUA, aprenderam com a sua própria experiência fascista?

É possível garantir que hoje o povo americano está livre para sempre de aventuras que incluam presidentes festejados em cultos populistas à personalidade em regimes que demonização adversários, têm relações promíscuas com a imprensa, constroem de grandes aparatos de espionagem e controle dos cidadãos com forte intervenção e regulação estatal da economia?

Respostas para a Avenida Pensilvania, 1600.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

A Dog Whistle To The Left