Mentalidades Coletivistas II

Em um artigo em março deste ano, identifiquei mentalidades coletivistas de acordo com a relação que elas estabelecem entre os coletivos abstratos que idealizam. Os tipos identificados foram os supremacistas, os igualitaristas e os vitimistas.

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O artigo de hoje aborda a mentalidade coletivista desde uma outra perspectiva: o tipo de coletivo abstrato que ele idealiza. Coletivos abstratos só podem ser idealizados a partir de características individuais partilhadas entre várias pessoas, real ou imaginariamente. A raça, por exemplo, foi um coletivo abstrato idealizado com forte presença no imaginário popular, em sua literatura e política. Este coletivo não raro é idealizado em torno de meras características físicas consideradas peculiares e distintivas, como a cor da pele.

Porém, nenhum coletivo abstrato idealizado pode ser aplicado no mundo real: no mundo real existem pessoas reais e elas não se encaixam em nenhum padrão ideal porque, bem, é por isso que o chamamos “ideal”. Entre os negros, por exemplo, existe uma infinidade de combinações de tons de pele ou traços físicos como o formato e largura do nariz ou do rosto, ou culturais como a língua. Se eles não se miscigenassem já seria impossível colocá-los todos num mesmo grupo: um pigmeu, um igbo, um hauçá e um iorubá certamente não tem entre si a sensação de identidade e comunidade que tem, por exemplo, um negro brasileiro com os outros negros brasileiros. Se há miscigenação e grupos mestiços emergem, então, a situação fica incontornável. Mesmo coletivos aparentemente mais heterogêneos e simples como o do gênero podem levantar problemas bem cabeludos: um transgênero, a que gênero pertence? Ao que equivale o seu comportamento ou ao que equivale o seu corpo? Não pode uma lésbica aderir ao código de conduta e comportamento masculino e pertencer ao gênero masculino ainda que seu sexo permaneça inalterado? Poderíamos discutir aqui muitos casos, mas você já entendeu o meu ponto.

Vamos ao que interessa. Em matéria da natureza dos coletivos abstratos idealizados, que tipos podemos encontrar nas mentalidades coletivistas?

Racialismo – O racialismo fundamenta-se sobre coletivos abstratos que idealizam a raça ou etnia, os traços físicos e genéticos como cor da pele, pureza genética e Urheimat (terra primitiva: a África para os negros, a Europa para os brancos, etc.)
Exemplos: supremacismo branco, separatismo negro, pan-germanismo, etc.

Sexualismo – Fundamenta-se sobre coletivos abstratos que idealizam o sexo ou gênero: valores, atributos, comportamentos e traços físicos identificáveis com um determinado modelo de gênero. Exemplos: femismo, machismo, etc.

Classismo – Fundamenta-se sobre coletivos abstratos que idealizam classes ou estratos econômicos ou sociais. Exemplos típicos: a associação entre nobreza enquanto classe sócio-econômica e nobreza de espírito, a associação imediata e errônea entre pobreza e humildade. Doutrinas como o positivismo comteano e o socialismo marxista são exemplos clássicos.

Sectarismo – Fundamenta-se sobre coletivos abstratos que idealizam uma seita, religião ou grupo político-ideológico. Exemplos típicos: supremacismo cristão, supremacismo islâmico, antirreligião (supremacismo ateu).

Não é raro nos depararmos com mentalidades coletivistas. Muitas pessoas pensam que se pode corrigir erros do passado apenas revertendo papéis num jogo maniqueísta de opressor-oprimido, passando do supremacismo branco para o supremacismo mestiço ou negro, do machismo para o femismo, do fanatismo cristão para a antirreligião, da adulação da nobreza para a romantização da pobreza e assim por diante. É necessário estar sempre atento para não cometer o mesmo erro duas vezes, especialmente se ele vem com uma desculpa nova.


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A Não-Identidade

Os movimentos de esquerda fazem questão de mesclar todas as minorias numa só massa amorfa para obter sua força política através do número e usar do conflito interno para paralisar minorias dissidentes. Resumidamente ela pega um negro, um gay, um ateu e uma mulher, mutila suas identidades e molda-os naquilo que ela quer: o não-branco, o não-hétero, o não-cristão e o não-homem. Ela os valoriza não pelo que eles são, mas pelo que eles não são.

O que há em comum entre um imigrante latino nos EUA e um negro? São não-brancos. Entre um gay e uma mulher? São ambos a negação de um homem hétero. Nenhum deles tem, de fato, valor identitário para a esquerda. Seu valor é utilitário. É um meio para um fim. Um negro, um gay, um ateu, uma mulher que não é militante socialista não tem valor algum.

Isto é facilmente verificável. Qualquer negro que se declare, por exemplo, liberal ou conservador, será ostracizado como um alienado. Para usar um termo mais racista que já ouvi, será chamado de Kinder Ovo (negro por fora e branco por dentro). Se for gay então, será considerado algum tipo de aberração em serviço da sociedade que o oprime, como o foram Clodovil e Andy Warhol. Se for uma mulher, bastará levantar uma simples crítica à histeria do feminismo revolucionário para ser tachada de machista. Se for ateu, será acusado de “criptocristianismo” se não engolir sem reclamar a histeria anticlericalista que desrespeita não só a liberdade de culto e chega ao ponto de invadir propriedade alheia.

Mas Renan, o que você está querendo dizer com isso? Estou querendo dizer que as pessoas devem se preparar para resistir aos discursos identitários que nos separam usando como padrão qualquer coisa que não seja as idéias e os valores. Coloquemos os princípios no seu lugar, que é o princípio, o ponto de partida de todos nossos julgamentos, escolhas e decisões.

A liberdade individual é a única coisa que garante que você continue vivendo em paz sendo você mesmo em vez do “não-outro”.


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Mentalidades Coletivistas

O maior desafio de um individualista ao tentar esclarecer as pessoas sobre os benefícios de uma sociedade mais livre é tentar, primeiramente, livrá-las dos cacoetes mentais coletivistas que povoam suas cabeças. Não é tarefa fácil: as pessoas são treinadas, educadas e adestradas para pensar e comunicar-se sempre em “coletivês” de modo que parece as vezes até impossível pensar de modo diferente.

Desta mentalidade coletivista brotam jargões do tipo “Brasil para os brasileiros”, “dívida histórica/social”, “luta de classes” e outros absurdos. Eu arriscaria dizer que a mentalidade coletivista é a mãe de todos os preconceitos, do racismo ao sexismo passando pela xenofobia e pelo preconceito de classe. O artigo de hoje propõe uma divisão “taxonômica” da mentalidade coletivista.

Supremacismo
É a mentalidade coletivista que hierarquiza os coletivos humanos (gêneros, etnias, classes, nacionalidades, grupos religiosos) e declara abertamente a supremacia de um sobre os demais. Este que fica no topo tem o direito de dominação sobre os demais. Os exemplos mais claros são o racismo e suas variantes (supremacismo branco, supremacismo negro, etc.), mas também se aplica ao ultranacionalismo, ao sexismo (machismo, femismo) e ao sectarismo religioso.

A contraparte do supremacismo é o submissivismo que reconhece a si e ao coletivo com que se identifica como uma parte da hierarquia que está abaixo daquela dominante. Um submissivista, por exemplo, seria como um racialista negro que acredita que os negros são cidadãos de segunda classe e que deveriam se espelhar e imitar os brancos para melhorar sua condição.

Igualitarismo
É a mentalidade coletivista que reconhece os diferentes coletivos humanos mas propõe que a relação de valor entre eles é a de igualdade, ainda que as características naturais ou sociais deles não sejam. Do igualitarismo também vem a noção de igualdade formal, embora prejudicada pela sua impossibilidade de conceber os seus membros como indivíduos transcendentes que ora estão em um grupo, ora em outro, ou mesmo em mais de um grupo ao mesmo tempo. A relação de igualdade entre os grupos, sem o reconhecimento do indivíduo como ente primário e necessário, força a incorporação arbitrária deste a um grupo.

Vitimismo
É a mentalidade coletivista que identifica nos coletivos humanos uma relação conflitiva entre explorados e exploradores, da qual não raro brota o revanchismo histórico (“dívida social”, “dívida histórica”) ou o irredentismo. O vitimista que se crê parte do coletivo “explorado” demanda políticas compensatórias das quais é beneficiário. Exemplos claros são o protecionismo (vitimismo econômico), a xenofobia (vitimismo nacionalista), o racismo (vitimismo étnico), o feminismo (vitimismo sexista), etc.

Por uma nova revolução sexual

A primeira revolução sexual ocorreu na Terra há centenas de milhões de anos, tendo à sua frente os invertebrados artrópodes, que passaram dezenas de milhões de anos sendo oprimidos por um ambiente hostil, preconceituoso e assexonormativo.

Celenterados: os contrarrevolucionários.

A revolução foi fortemente rechaçada, rejeitada pelos setores mais conservadores da sociedade – como os celenterados. Os revoltosos foram taxados pejorativamente de ‘sexuados’ (nome que acabou pegando). Os setores mais reacionários, maioria absoluta, já adiava a revolução a milhões de anos, negando ao restante da população terráquea seus direitos reprodutivos. Diziam que o sexo era coisa de depravados, e que levaria à degeneração da espécie por causa da imprevisibilidade da miscigenação. Poderíamos estar criando monstros, diziam. O decoroso era a divisão celular, o brotamento, etc. Não esta sem-vergonhice de sair por aí fertilizando os outros.

Entre os cavalos-marinhos, são os machos que engravidam. Sem dúvida o animal mais progressista do mundo, será o navio quebra-gelo da revolução sexual.

Felizmente a revolução deu certo e hoje garantimos os direitos reprodutivos para inúmeros terráqueos que não teriam a oportunidade de nascer e ter uma evolução digna. Mas ainda há muito o que fazer, pois ainda vivemos numa sociedade machista onde as fêmeas são obrigadas a gestar – o que é vergonhoso, além de desigual. Mas a próxima revolução sexual já está se levantando contra os setores reacionários, sendo encabeçada pelos cavalos-marinhos – a espécie mais progressista do planeta. Hasta la Victoria!

Bandeira do Movimento

A Filosofia do Dr. King

Martin Luther King Jr. é uma figura pop hoje. E como toda figura pop ele acaba virando mais um símbolo nas mãos da juventude que fica completamente vazio de significado. Pouquíssima gente de fato compreende a obra, o pensamento e a vida de Martin Luther King Jr. O homem que lutou pela igualdade para brancos e negros perante a lei, que pregava a paz e que era enfático na defesa da reconciliação acaba as vezes sendo usado por grupos radicais, violentos e sectários como um símbolo de sua luta escusa. Mas hoje vamos clarear algumas mentes e colocar a filosofia do Dr. King em pratos limpos para que todos entendam.

Para começar vamos a alguns fatos: King era evangélico da tradição batista, criado numa família tradicional. Era reverendo, filho de reverendo e neto de reverendo. Bem versado em teologia, toda a filosofia de King é centrada em concepções cristãs como o amor ao próximo, o sacrifício, o perdão, a reconciliação. King, um Republicano, também recusa a visão racista e classista de mundo, sendo taxativo com relação a sua concepção de justiça e igualdade dos homens perante ela.

Isto compreendido, vamos aos fundamentos da filosofia do Dr. King, de acordo com as informações disponíveis no The King Center:

I. Os Três Males

A tríade do mal pobreza, racismo e militarismo são formas de violência que existem num ciclo vicioso. Elas são interrelacionadas e funcionam como barreiras para a Amada Comunidade. Quando trabalhamos para remediar um mal, afetamos todos eles. Para trabalhar contra os Três Males, é necessário desenvolver uma mentalidade não-violenta como a descrita nos “Seis Princípios da Não-violência” e usar o modelo kinguiano para ação social como proposto nos “Seis Passos para Mudança Social Não-violenta”.

Alguns exemplos contemporâneos dos Três Males são listados abaixo:

a) Pobreza – desemprego, indigência, fome, desnutrição, analfabetismo, mortalidade infantil, favelas…

“Não há nada de novo na pobreza. O que é novo, entretanto, é que agora temos os recursos para acabar com ela. Já é chegada a hora de uma guerra mundial contra a pobreza… os que estão bem e em segurança tem frenquentemente tornado-se indiferentes à pobreza e a privação em seu meio. Certamente, uma grande nação é uma nação compassiva. Nenhum indivíduo ou nação pode ser grande se não se preocupa com os mais necessitados.”

b) Racismo – preconceito, apartheid, conflitos étnicos, anti-semitismo, sexismo, colonialismo, estereótipos…

“O racismo é uma filosofia baseada no desprezo pela vida. É a afirmação arrogante de que uma raça é o valor e o objeto de devoção, diante do qual todas as outras raças devem ajoelhar-se em submissão.  É o dogma absurdo de que uma raça é responsável por todo o progresso da história e sozinha pode assegurar o progresso do futuro. O racismo é uma alienação total. Separa não só corpos, mas mentes e espíritos. Inevitavelmente acaba por infligir um homicídio físico e espiritual sobre os grupos.”

c) Militarismo – guerra, imperialismo, violência doméstica, estupro, terrorismo, tráfico de pessoas, drogas, abuso infantil, crimes violentos…

“Uma verdadeira revolução de valores colocará suas mãos sobre o mundo e dizer, com relação à guerra: ‘Este modo de resolver as diferenças não é justo.’ Este modo de queimar humanos com napalm, de encher os lares da nação com órfãos e viúvas, de injetar drogas venesosas de ódio nas veias de pessoas, de enviar para casa homens saídos de sangrentos campos de batalha já fisicamente e psicologicamente destruídos, não pode ser reconciliado com sabedoria, justiça e amor. Uma nação que continua ano após ano a gastar mais dinheiro em defesa militar do que em programas sociais está aproximando-se da morte espiritual.”

Fonte: “Where Do We Go From Here: Chaos or Community?” por Dr. Martin Luther King, Jr.; Boston: Beacon Press, 1967. 

II. Os seis princípios da não-violência

Os princípios basilares da filosofia de não-violência do Dr. King são descritos em seu primeiro livro, Stride Toward Freedom. Os seis princípios incluem:

  1. A não-violência é um modo de vida para pessoas corajosas. É uma força positiva confrontando as forças da injustiça, e utiliza a indignação legítima e as capacidades espirituais, emocionais e intelectuais das pessoas como uma força vital para a mudança e a reconciliação.
  2. A Amada Comunidade é o alicerce do futuro. O conceito de não-violência é um esforço geral para atingir um mundo de reconciliação aumentando o nível de relações entre as pessoas até um ponto onde a justiça prevalece e as pessoas atingem a plenitude do seu potencial humano.
  3. Ataque as forças do mal, não as pessoas que fazem o mal. A abordagem não-violenta ajuda a pessoa a analisar as condições, políticas e práticas fundamentais do conflito em vez de reagir aos oponentes ou suas personalidades.
  4. Aceite o sofrimento sem retaliação pelo bem da causa para atingir um objetivo. A escolha do sofrimento é uma forma de redenção e ajuda o movimento a crescer em uma dimensão espiritual e humanitária. A autoridade moral do sofrimento voluntário por um objetivo comunica a preocupação para os amigos e a comunidade, assim como para o oponente.
  5. Evite a violência interna do espírito assim como a violência física externa. A atitude não-violenta permeia todos os aspectos da campanha. Ela provê um reflexo da realidade das condições do oponente e da comunidade como um todo. Atividades específicas devem ser desenhadas para ajudar a manter um alto nível de espírito e moral durante uma campanha não-violenta.
  6. O universo está do lado da justiça. A verdade é universal, a sociedade humana e todo ser humano é orientado para o justo sentido da ordem do universo. Os valores fundamentais de todas as grandes religiões do mundo incluem o conceito de que o arco moral do universo se curva para o lado da justiça. Para o praticante da não-violência, a não-violência introduz um novo contexto moral no qual a não-violência é tanto um meio quanto um fim.

III. Seis passos para a mudança social não-violenta

Um processo sequencial de resolução não-violenta de conflitos e mudança social baseado nos ensinamentos do Dr. King. Os seis passos da não-violência desenvolvidos pelo The King Center incluem:

  1. Coleta de informação – O modo como você determina os fatos, as opções de mudança e o tempo sob pressão para trazer à tona o problema é um processo coletivo.
  2. Educação – O processo para desenvolver líderes articulados, que conhecem os problemas. É dirigido para a comunidade através de todas as formas de mídia e sobre todos os problemas reais e consequências humanas de uma situação injusta.
  3. Comprometimento pessoalSignifica buscar o seu envolvimento interno e exeterno na campanha não-violenta e o seu preparo para a ação de longo prazo ou de curto prazo.
  4. Negociação – É a arte de colocar lado a lado a sua visão e a visão do seu oponente para chegar a uma conclusão justa e clarificar os problemas não-resolvidos, no ponto em que o conflito é formalizado.
  5. Ação direta – Ocorre quando as negociações foram interrompidas ou falharam em produzir uma resposta justa às condições e problemas contestados.
  6. Reconciliação – É o passo final e obrigatório de uma campanha, quando oponentes e proponentes celebram a vitória e promovem uma liderança conjunta para implementar a mudança.

Frequentemente se vê os Seis Passos como fases ou ciclos de uma campanha em vez de passos, porque cada um deles incorpora uma série de atividades relacionadas a cada um dos outros cinco elementos.

IV. A Amada Comunidade

“A Amada Comunidade” (Beloved Community) é um termo cunhado primeiramente no século XX pelo filósofo-teólogo Josiah Royce, que fundou a Fellowship of Reconciliation (Sociedade da Reconciliação). Entretanto, foi o Dr. Martin Luther King Jr., também membro da Fellowship of Reconciliation, quem popularizou o termo e o investiu do significado mais profundo que ele capturou da imaginação do povo sobre a boa vontade ao redor do mundo.

Para o Dr. King, a Amada Comunidade não era um objetivo utópico que se confundia com a imagem do Reino da Paz, no qual leões e cordeiros coexistem em harmonia idílica. Em vez disso, a Amada Comunidade para ele era um objetivo realista e factível que poderia ser atingido por uma massa crítica de pessoas comprometidas e treinadas na filosofia e nos métodos da não-violência.

A Amada Comunidade de Dr. King é uma visão global, na qual todas as pessoas podem compartilhar as riquezas da terra. Na Amada Comunidade, a miséria, a fome a ausência de um lar não serão toleradas porque os padrões morais de decência humana não permitirão. Racismo e todas as formas de discriminação, intolerância e preconceito serão substituídos por um espírito inclusivo de irmandade. Na Amada Comunidade, disputas internacionais serão resolvidas através de uma resolução pacífica de conflitos e pela reconciliação de adversários, em vez de poder militar. Amor e confiança triunfarão sobre o medo e o ódio. Paz com justiça prevalecerá sobre a guerra e o conflito militar.

A Amada Comunidade do Dr. King não ignora o conflito interpessoal, intergrupal ou internacional. Em vez disso ela reconhece que o conflito é uma parte inevitável da experiência humana. Mas ele acreditava que os conflitos poderiam ser resolvidos pacificamente e adversários poderiam ser reconciliados através do comprometimento mútuo e determinado com a não-violência. Nenhum conflito, acreditava ele, necessariamente resultava em violência. E todos os conflitos na Amada Comunidade terminariam em reconciliação de adversários cooperando juntos num espírito de amizade e boa vontade.

Já em 1956, Dr. King falava da Amada Comunidade como o objetivo final dos boicotes não-violentos. Como ele disse num discurso num comício da vitória que se seguiu ao anúncio de uma decisão favorável da Suprema Corte com relação à dessegregação dos bancos nos ônibus de Montgomery, “o fim é a reconciliação; o fim é a redenção; o fim é a criação de uma Amada Comunidade. É este tipo de espírito e este tipo de amor que pode transformar oponentes em amigos. É este tipo de boa vontade compreensiva que vai transformar a melancolia dos velhos tempos num brilho exuberante de uma nova era. É este amor que operará milagres nos corações dos homens.”

Um estudante ardente dos ensinamentos de Mohandas K. Gandhi, Dr. King impressionou-se com a capacidade de Mahatma em fazer amizade com seus adversários, a maioria dos quais professava profunda admiração pela coragem e inteligência de Gandhi. Dr. King acreditava que a velha tradição de odiar seus oponentes não só era imoral como era uma péssima estratégia que perpetuava o ciclo de vingança e retaliação. Somente a não-violência, ele acreditava, tinha o poder de quebrar o ciclo de violência punitiva e criar uma paz duradoura através da reconciliação.

Num discurso de 1957, Birth of A New Nation, Dr. King disse, “A consequência da não-violência é a criação de uma Amada Comunidade. A consequência da não-violência é a redenção. A consequência da não-violência é a reconciliação. A consequência da violência é o vazio e a amargura.” Um ano depois, em seu primeiro livro Stride Toward Freedom, Dr. King reiterou a importância da não-violência é atingir a Amada Comunidade. Em outras palavras, nosso objetivo último é a integração, que é uma vida genuinamente interpessoal e intergrupal. Somente através da não-violência se pode atingir este objetivo, pois a consquência da não-violência é a reconciliação e a criação da Amada Comunidade.

Em seu sermão Sermon on Gandhi, de 1959, Dr. King elaborou mais sobre os resultados de escolher a não-violência em vez da violência: “A consequência da não violência é a criação da Amada Comunidade, de modo que quando a batalha está vencida, uma nova relação passa a existir entre o oprimido e o opressor.”  No mesmo sermão, ele expõe o contraste a resistência violenta e a resistência não-violenta à opressão. “O caminho da submissão leva ao suicídio moral e espirital. O caminho da violência leva à amargura aos sobreviventes e brutalidade aos destruidores. Mas o caminho da não-violência leva à redenção e à criação da Amada Comunidade.”

O valor central da cruzada de Dr. King pela Amada Comunidade era o amor ágape. Dr. King distinguia três tipos de amor: eros, “um tipo de amor estético e romântico”; philia “afeição entre amigos” e ágape, que ele descrevia como “compreensão e boa vontade para todos”, um “um amor que transborda, que é puramente espontâneo, desmotivado, infundado e criativo”… “o amor de Deus operando no coração humano”. Ele dizia que “ágape não começa pela distinção de pessoas valiosas ou sem valor… começa pelo amor aos outros pelo simples amar” e “não faz distinção entre um amigo e um inimigo; é dirigido a ambos… ágape é o amor que busca preservar e criar comunidade.”

Em seu sermão de 1963, Loving Your Enemies, publicado em seu livro, Strength to Love, Dr. King abordava o papel do amor incondicional na luta pela Amada Comunidade. “Com cada grama de nossa energia devemos continuar a limpar esta nação do pesadelo da segregação. Mas durante o processo não devemos abandonar o nosso privilégio e nossa obrigação de amar. Enquanto abominamos a segregação, devemos amar o segregacionista. Este é o único caminho para criar a Amada Comunidade.”

Uma expressão do amor ágape na Amada Comunidade de Dr. King é a justiça, não para um grupo oprimido qualquer, mas para todas as pessoas. Como Dr. King disse muitas vezes, “injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. Ele sentia que a justiça não poderia ser parcelada entre indivíduos ou grupos, mas era um direito intrínseco a todo humano dentro da Amada Comunidade. “Eu tenho lutado a muito tempo contra acomodações públicas segregadas para acabar segregando minhas preocupações morais”, ele disse. “A Justiça é indivisível”.

Em um artigo publicado em 13 de julho de 1966 na Christian Century Magazine, Dr. King afirmou o objetivo final inerente à sua missão pela Amada Comunidade: “Eu não penso no poder político como um fim. Nem penso no poder econômico como um fim. Eles são ingredientes nos objetivos que buscamos na nossa vida. E eu penso que o fim deste objetivo é uma verdadeira sociedade de irmãos, a criação de uma Amada Comunidade.”

Mais informações no The King Center.