Vestibular Vermelho

Vestibular de inverno Mackenzie (São Paulo) (2007)

59. “O que é meridianamente claro é que a ditadura deixa uma herança arrasadora. Desorganização, miséria, cinismo político, corrupção institucional, inflação de três dígitos e recessão, uma dívida interna e externa calamitosa e combinada ao controle imperialista, programado por dentro da nossa economia e da nossa política econômica, uma burguesia desmoralizada pela aventura contra-revolucionária, um Estado minado por doutrinas e práticas autocráticas, um regime de partidos montado para pulverizar as forças sociais ativas na sociedade civil e, especialmente, para fortalecer o sistema como núcleo de militarização do poder político estatal.” (Florestan Fernandes – Eleições diretas e democracia).

O texto acima, do eminente sociólogo brasileiro, aponta traços de uma “herança arrasadora” legada

a) pelos longos anos do Estado oligárquico, dominado pelos cafeicultores de São Paulo e Minas Gerais, entre 1890 e 1930.

b) pela década e meia do governo conduzido autoritariamente por Getúlio Vargas, após o triunfo do movimento político de 1930.

c) pelos governos populistas de Juscelino Kubitschek e João Goulart, entre 1946 e 1964.

d) pelo regime militar, durante o qual se sucederam cinco presidentes generais, entre 1964 e 1985.

e) pelos desastrosos anos dos governos de Fernando Collor e Itamar Franco, de 1990 a 1995.

Gabarito: d)

Comentários: O viés ideológico se manifesta já na escolha do autor: Florestan Fernandes, socialista notório, ícone da esquerda, ex-membro do PT. O texto menciona aspectos negativos do Brasil no fim da ditadura militar, como se antes desta existisse um país de maravilhas que os militares destruíram. Falar de miséria como característica específica do governo militar é falso, pois a miséria existe há séculos em nosso país e foi justamente o milagre econômico da ditadura militar que mais tirou brasileiros da miséria. Culpar os militares pela disseminação da corrupção é fato que não encontra lastro histórico. Basta lembrar que Jânio Quadros ganhou as eleições presidenciais de 1960 prometendo combater a corrupção. É bom lembrar também que a dívida interna não era um grande problema ao fim dos governos militares e que a dívida externa só se tornou gigantesca em razão das duas crises do petróleo ocorridas nos anos 1970. A ditadura pode e deve ser criticada; mas com objetividade e isenção.

Esquerdopatia no vestibular da UFRGS
Vocês sabem que destaco sempre a esquerdopatia vigente nos vestibulares país afora, especialmente nas universidades públicas. Pois bem: leiam a questão 24 da prova de história da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (em vermelho):

Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas do texto abaixo, na ordem em que aparecem.

A América Latina ocupa posição periférica na economia mundial. Os países da região ora adotam políticas que reforçam esta sua posição, ora defendem propostas alternativas em relação às economias centrais. Uma das políticas das economias centrais para manter a posição periférica dos demais países é a ………..; e um projeto internacional destinado a inibir as iniciativas de autonomia e integração dos países latino-americanos é ……..

Aí a questão oferece as seguintes alternativas:

(A) neoliberal – o Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA)
(B) liberal – a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL)
(C) populista – o Mercado Comum do Cone Sul (MERCOSUL)
(D) socialista – a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC)
(E) nacionalista – a Organização dos Estados Americanos (OEA)

O candidato, é claro, deve assinalar a altrnativa “A” se quiser “acertar”. O que dizer? Isso não é uma prova de conhecimento, mas um teste ideológico. A rigor, inexiste resposta correta para a formulação, ela mesma uma estupidez ditada pela tolice esquerdista a mais prosaica.

Quem elaborou a pergunta? Desafio o “doutor” a escrever um texto neste blog demonstrando quais foram os instrumentos empregados pelas economias centrais para obrigar os “países periféricos” a adotar esta ou aquela políticas. Não precisamos ir longe. O “antineoliberal” PT, por exemplo, antecipou uma parcela do pagamento ao FMI — e não precisava fazê-lo — quando o câmbio estava em depreciação. Tivesse pagado a sua dívida no prazo certo, teria desembolsado bem menos reais em razão da queda do dólar. Quem foi o “neoliberal” que obrigou o Brasil a fazer essa besteira?

Leia o que vai em azul no jornal gaúcho Zero Hora:

Apesar das críticas, o teste é considerado correto por professores de cursinhos pré-vestibular da Capital. Para o professor de história do Unificado José Carlos Tamanquevis, não há o que discutir:

— A questão não tem um fundo ideológico, mas sim realista. Do ponto devista da história, ela está totalmente certa.

Conforme o professor de história do Universitário Gilberto Kaplan, o conteúdo do teste reflete a realidade e foi exposto de forma objetiva. Para ele, mesmo os alunos menos preparados teriam condições de acertar a questão ao eliminar as alternativas incorretas.

— É natural que quem defenda essa postura (neoliberal) se manifeste contrariamente. Mas o fato é que a questão traduz um momento histórico — argumentou Kaplan.

De mesma opinião, o professor de geografia do Unificado Saul Chervenski Gonçalves Filho, que também atua na área de história, afirma que o teste não merece reparações. Segundo ele, o governo brasileiro recuou do acordo para ingressar na Alca justamente porque perderia competitividade e abriria as portas para o domínio dos Estados Unidos. Apesar disso, Saul reconhece que a questão apresenta um “discurso de esquerda”.

— Embora a questão esteja certa, aqueles que são favoráveis ao neoliberalismo certamente ficaram descontentes, pois acreditam que o Estado mínimo e a abertura de mercado ao capital externo são positivos — pondera o professor.

Comento
Não há novidade na reação dos professores de cursinho, eles próprios, com raras exceções, os maiores agentes do esquerdismo burro que grassa nas escolas de segundo grau, cursos pré-vestibular e universidades. Vejam lá o que diz o tal Saul Chervenski Gonçalves Filho. É de uma ignorância oceânica, coitado! O pior é que deve dizer aquela bobagem em sala de aula.

Antes que o Brasil resistisse à Alca, os Estados Unidos já haviam caído fora. E a razão é simples: o país chegou à conclusão de que lhe era bem mais vantajoso, como está sendo, fazer acordos bilaterais com os países. O Brasil não queria a Alca por tacanhice ideológica; os EUA, como sempre, por pragmatismo. Pobres idiotas! Depois se pergunta por aí por que o país amarga os últimos lugares em provas internacionais.

O DEM protestou e levou a polêmica a seu site. Deixo aqui uma sugestão ao partido, que se tem mostrado bastante vigilante: é preciso criar uma secretaria, ligada à chamada ala jovem, para acompanhar casos assim, inclusive com assessoria jurídica. Está na hora de combater a Al Qaeda esquerdopata nas universidades, um braço bem mais importante da vagabundice ideológica do que se supõe.

Universidade do Lula: Brasil, ame-o ou deixe-o
Já expus aqui mais de uma vez o filtro ideológico que passou a vigorar no processo de seleção para ingresso nas universidades públicas brasileiras. Exige-se do aluno que demonstre o seu, como é mesmo?, “compromisso com as questões sociais”. Dito assim, parece bacana. Ocorre que esse tal “compromisso” não é, como sabem, um valor absoluto. Exige-se a sua adequação a um corte ideológico — de esquerda — e a uma agenda: a do PT. Pois bem, estão atingindo o estado da arte na manipulação e na vigarice. A prova de redação do vestibular da Universidade Federal do Pará é um escândalo sob muitos pontos de vista. Supostamente inspirados num texto de Cecília Meireles —A Arte de ser feliz—, para o qual se formulam questões (energúmenas, diga-se) de interpretação, os examinadores elaboraram a seguinte prova de redação:
A vida é marcada por acontecimentos que são fonte de satisfação, contentamento, prazer e por acontecimentos que são fonte de desânimo e angústia. O brasileiro, por exemplo, convive com a desigualdade social, com inúmeras formas de carência, com atos de violência, no entanto tem também motivos para felicidade. Escreva um texto em prosa em que você exponha um dos motivos pelos quais se sente feliz por ser brasileiro, apresentando argumentos consistentes que justifiquem seu sentimento de felicidade
Vamos lá
Sugiro que a Universidade Federal do Pará adote Marcelo Coelho, colunista da Folha, como patrono. Dia desses, ele esculhambou a mim e a três outros colunistas, dois deles da própria Folha, acusando-nos de “pessimistas” e “sombrios”. Em posts do seu blog, acabou fazendo uma defesa oblíqua do petismo. Como vocês percebem, estamos diante de uma mentalidade, que caracteriza uma época.Comecemos pelo aspecto moral, individual e existencial da prova:

A – é possível ser feliz sem que isso tenha qualquer relação com o Brasil;
B – é possível ser feliz, APESAR de ser brasileiro;
C – é possível que alguém considere que a felicidade, dados os fatores apresentados na própria formulação, é inviável;
D – é possível que existam pessoas infelizes sem que isso tenha qualquer relação com o Brasil e suas dificuldades;
E – é possível haver quem nunca tenha pensado no assunto.

Se é de felicidade pessoal que se está falando, como é que o examinador pode impor ao candidato um ponto de vista? E se ele considerar que ser brasileiro é mesmo uma porcaria? Não pode? Convenhamos: ser brasileiro não é como ser corintiano. Não é uma questão de gosto, de opção. Pode ser uma fatalidade. Pois é. Então chegamos ao aspecto perverso da coisa e ao óbvio viés ideológico da prova. A formulação induz o candidato a falar sobre os motivos que “o brasileiro” tem para ser feliz. E a referência aos problemas sociais ali fornece uma pista. Quem, devidamente afinado com estes tempos, afirmar que se sente feliz porque, finalmente, há um governo ocupado das questões sociais já está com pelo menos dois pés na vaga… E, claro, haverá os incrédulos que saberão jogar as regras do jogo: “Querem elogio? Então tomem elogio; eu quero é passar.” E pobre de quem não encontrar motivos para felicidade e resolver ser sincero. Vai levar zero. A prova já fornece a tese: “Você tem motivos para ser feliz; queremos saber se são os motivos certos”. Sim, isto mesmo: assim como Marcelo Coelho não quer “pessimistas sombrios” escrevendo em jornais, blogs e revistas, a Universidade Federal do Pará não quer saber de pessoas infelizes. Por lá, parece, todo mundo deve ter aquela exuberante alegria da família Carepa… Deus meu! Universidade Federal do Pará… A casa de Benedito Nunes, um patrimônio da inteligência nacional, amigo e melhor crítico de Mário Faustino.

Nem durante a ditadura se viu coisa assim — não em exames oficiais. Havia, claro, os propagandistas meio apalhaçados do regime, como a dupla Dom e Ravel. A música “Eu te amo, meu Brasil” virou uma febre nacional. Até a nossa mulher tinha mais amor:

As praias do Brasil ensolaradas
O chão onde o país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui tem muito mais amor

O céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil

As praias do Brasil ensolaradas
O chão onde o país se elevou
A mão de Deus abençoou
Mulher que nasce aqui tem muito mais amor

O céu do meu Brasil tem mais estrelas
O sol do meu país mais esplendor
A mão de Deus abençoou
Em terras brasileiras vou plantar amor

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil
Eu te amo, meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil, Brasil

Questão de tempo
Anotem aí: é uma questão de tempo Lula fazer um discurso convidando os “pessimistas sombrios” de Marcelo Coelho a deixar o país. É só a crise se agravar um pouquinho. Voltaremos ao “Ame-o ou deixe-o”.

Como sabemos, a infelicidade é uma expressão da falta de patriotismo…

Texto de Reinaldo Azevedo publicado originalmente aqui.
Universidade de Brasília (2008)
A Universidade de Brasília vai merecer, um dia, um estudo de caso. Em nenhuma outra instituição de ensino a esquerdização bocó foi tão longe. Basta lembrar que é o território de uma estrovenga chamada “O Direito Achado na Rua”. Quem não sabe o que é deve procurar no arquivo do blog. Em síntese, é uma corrente de pensamento do direito que, na prática, manda a lei às favas em nome daquilo que os valentes consideram ser o justo e o legítimo. A UnB fez vestibular. Trata-se de uma prova toda moderninha — e, com efeito, nada mais velho do que aquilo. Do candidato é cobrado o esforço supremo de dizer se as proposições estão certas (e, então, ele marca “C”) ou erradas (“E”). Na página 12, o aluno é convidado a ler um texto. Em seguida, há oito questões (da 100 à 107) de interpretação.
Acompanhem. A prova segue em vermelho, interrompida por observações minhas, em azul.
O ano de 1979 pode ser tomado como marco da construção de uma nova ordem econômica mundial. Na seqüência, os governos de Thatcher e Reagan adotaram políticas neoliberais — privatização, desregulamentação e desmantelamento das conquistas sociais que estiveram na base do crescimento econômico com distribuição de renda que caracterizou os países do centro nos primeiros trinta anos do pós-guerra. E, com o fim do mundo socialista, elas tenderam a adquirir um âmbito efetivamente mundial. As políticas neoliberais abriram espaço para mudanças muito importantes que deram início a uma nova etapa de internacionalização do sistema capitalista, a fase do capitalismo mundializado.
Brasilio Salloum Jr. In: A condição periférica: o Brasil nos quadros do capitalismo mundial (1945-2000). Carlos Guilherme Mota (org.), op. cit., p.423-24 (com adaptações).

Julgue os itens que se seguem, tendo o texto acima como referência inicial.

100) Na linha 9, o pronome “elas” retoma a idéia de “políticas neoliberais” (R.4).
O aluno deve marcar C se quiser provar que não é um débil mental ou analfabeto. Não há ideologia nesse caso, só estupidez.

101) Depreende-se do texto que a “nova ordem econômica mundial”, que, como referido, teve no ano de 1979 seu marco inicial, reforçou as bases do Estado de bem-estar social surgido no pós-Segunda Guerra, ampliando-as de maneira global.
O texto não é explícito, mas arreganhado, na afirmação de que a “tal nova ordem” desmantelou as conquistas sociais. O coitado do aluno deve marcar “E”. De novo, é um teste de leitura ginasiano, ainda que o candidato ignore o assunto. O mais estupidamente divertido é a afirmação de que as políticas neoliberais só se expandiram com “o fim do mundo socialista” — logo, o mundo capitalista anterior, que o autor parecia até apreciar (aquele do “crescimento e da distribuição de renda”) eram também, vejam só, conquistas indiretas do… socialismo!!!

102) A China representa uma exceção ao “fim do mundo socialista” ao manter, ainda, seu regime de governo e sua economia alheia à possibilidade de investimentos externos.
Deve ser “E”, né, leitor amigo?, já que, como sabemos, a China é chegadita num investimento externo. E aqui surge um outro aspecto problemático da prova. Observem que a questão anterior busca verificar se o aluno entendeu o sentido do que está escrito. Feito isso, ele é conduzido, então, a uma espécie de armadilha, já que o texto de Salloum, por inepto, ignora a realidade chinesa.

103) A fase do denominado “capitalismo mundializado”, referido no texto, tem, entre seus fatores de expansão, o desenvolvimento da tecnologia da informação, que propicia, por exemplo, o aumento na circulação de capitais.
É Cêêêêêêê. Adoraria que a UnB definisse num livrinho o que entende, por exemplo, por “circulação de capitais”. A tecnologia da informação não nos trouxe nada além dessa facilidade conferida aos capitalistas cúpidos e desalmados?

104) No âmbito das mudanças decorrentes do que foi referido no texto como “nova etapa de internacionalização do sistema capitalista”, observa-se a diminuição das disparidades socioeconômicas entre os países.
É a mais dolosa de todas as questões. O aluno tem de responder “E” — ou seja, tem de asseverar que a afirmação está errada quando ela, de fato, está CERTA. A disparidade entre os países diminuiu brutalmente. A China saiu da fome para se tornar uma das maiores economias do mundo, aquela que mais cresce hoje. A Coréia do Sul se tornou uma potência econômica e exemplo de eficiência em educação e saúde. A Índia é uma das estrelas do mercado global. Só aí já estamos falando de um terço da humanidade.

105) No Brasil, o governo Collor deu início às reformas neoliberais, concluídas nos anos do governo Fernando Henrique Cardoso com as privatizações da Vale do Rio Doce e da Petrobrás.
Pegadinha vagabunda. De fato, essa gente acha que Collor e FHC tocaram o projeto neoliberal no Brasil. Isso está em tudo o que é livro didático; isso é afirmado nos cursinhos de maneira obsessiva. Há dias, assistimos a uma campanha dos esquerdopatas para reestatizar a Vale do Rio Doce. Onde está o truque? A Petrobrás não foi privatizada. E só por isso o examinador cobra que o aluno marque “E”, embora torça para ele marcar “C”…

106 Antecipando-se em cerca de uma década ao denominado socialismo do século XXI, do venezuelano Hugo Chávez, os governos de Menem (Argentina) e de Fujimori (Peru) adotaram ideais bolivarianos e teses socialistas.
Está errado, claro! O aluno, aqui, tem de saber que Menem e Fujimori são dois porcos reacionários de direita, que nada têm a ver com o “grande” Hugo Chávez e seus “ideais bolivarianos e teses socialistas”. A propósito: o que essa questão tem a ver com o texto?

107) A dificuldade material de acompanhar os EUA com seu milionário projeto Guerra nas Estrelas, lançado por Reagan, foi fator significativo para a explicitação da crise que levou ao desmantelamento da União Soviética.
Que vontade de chorar ou de pegar o chicote! O aluno tem de marcar C, tem de dizer que essa porcaria está certa, embora seja uma mentira tosca, bisonha.
a – o projeto de Reagan não era milionário — pode-se dizer que era, sim, trilionário;
b – nunca existiu nada parecido com “Guerra nas Estrelas”. Isso foi um termo criado pela imprensa anti-Reagan para dar um caráter delirante a um projeto de defesa;
c – de fato, o projeto original, bastante ambicioso, nunca saiu do papel;
d – o regime soviético já estava em crise, tanto que deu início à abertura, com Gorbatchev, e isso nada teve a ver com o tal Guerra nas Estrelas.

Por que o Brasil dá vexame em tudo o que é prova internacional? A resposta está no que vai acima. É a Universidade de Brasília, a mais petista das universidades brasileiras.

Publicado por Reinaldo Azevedo aqui.
Quer saber mais? Acesse o site Escola Sem Partido.

Ronald Reagan, de ator para presidente.

Ronald Regan foi com certeza uma das figuras políticas mais importantes dos últimos tempos, conservador, guiou os Estados Unidos da América em plena Guerra Fria e teve participação direta no seu fim. Os dircusos de Reagan, que era bastante carismático, eram marcados por uma forte crítica ao comunismo e frequentemente, abordava o tema com humor contando piadas e fazendo ironias. Além desta grande aversão ao comunismo, Reagan defendia um estado pequeno e pouco interventor. Até hoje, Reagan é venerado e respeitado pela maioria dos Norte-Americanos, conservadores ou não, pelos seus feitos.

Biografia

O comunismo foi a pior maldição do século XX. O nazismo durou doze anos, o fascismo italiano vinte anos, e o comunismo soviético setenta e quatro anos. Estima-se que o líder soviético Joseph Stálin tenha matado três vezes mais pessoas do que Hitler, e a quantidade total de mortes do comunismo está estimada em mais de 150 milhões de pessoas. Os soviéticos escravizaram milhões de pessoas no leste europeu após a Segunda Guerra Mundial, roubaram segredos americanos para construir armas nucleares e instalaram milhares de mísseis nucleares apontados para os Estados Unidos, alguns até mesmo em Cuba – e os EUA não teriam como interceptar um único míssil, fora lançado intencional ou acidentalmente. Durante os anos 70, os soviéticos trabalharam na expansão de sua influência na Ásia, na África e nas Américas.

Enquanto isso, os Estados Unidos e outros países ocidentais pareciam estar em declínio. A inflação e as taxas de juros atingiam dois dígitos, e o desemprego permanecia alto. Os intelectuais rendiam-se à inevitabilidade da ascensão soviética e do declínio do Ocidente. John Kenneth Galbraith, professor de Economia, escreveu em The New Yorker (1984): “O sistema russo tem sucesso porque, em contraste com as economias industriais ocidentais, ele faz pleno uso do seu poderio humano”. Paul A. Samuelson afirmou em Economics, seu influente livro didático, que “não se pode duvidar do fato de que os sistemas de planejamento soviético têm sido um motor poderoso para o crescimento econômico”. O professor de Economia Lester Thurow saudou em 1989 “a notável performance da União Soviética”. E o historiador Arthur M. Schlesinger Jr. dizia o seguinte: “Aqueles nos EUA que pensam que a União Soviética esteja à beira de um colapso econômico e social… [estão] apenas enganando-se a si próprios”.

O Presidente Ronald Reagan provou que todos eles estavam errados. Ele fez muito para reviver os ânimos americanos e mudar os termos do debate sobre políticas públicas. Ele insistiu que o livre mercado funciona melhor que os burocratas, e que o individualismo americano e a liberdade são coisas de que se orgulhar. Em vez de incentivar o Federal Reserve [o Banco Central americano] a imprimir dinheiro, como seu predecessor Jimmy Carter, Reagan apoiou os esforços do FED para frear a oferta monetária; em dois anos, a inflação havia deixado de ser uma questão nacional. Reagan reduziu e fixou um teto para a alíquota do imposto de renda, incentivando um crescimento econômico que, com exceção dos nove meses de recessão nos dois anos após deixar o cargo, continuaram no milênio seguinte, e o desemprego crônico deixou de ser uma questão de interesse nacional. Reagan acabou com as agressões soviéticas em curso e intensificou as pressões sobre a União Soviética, contribuindo para seu atordoante colapso. Como disse a Primeira-Ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher, “Ronald Reagan venceu a Guerra Fria sem disparar um tiro”.

Reagan despontou como grande defensor da paz. Apoiou o desenvolvimento de um sistema de defesa focado na interceptação de mísseis nucleares disparados contra os Estados Unidos, e se dispôs a compartilhar a tecnologia de sua Iniciativa de Defesa Estratégica, uma vez que se provasse eficaz, para que os riscos de uma guerra nuclear fossem reduzidos. Presidentes anteriores haviam buscado a estratégia SALT (Strategic Arms Limitation Talks) [“Diálogos para a limitação de armamentos estratégicos”] para reduzir o número de armas nucleares instaladas. Seu governo negociou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, o primeiro a mencionar a eliminação de toda uma categoria de armas nucleares.

Muitos dos críticos de Reagan afirmaram que já que a economia soviética demonstrou estar em piores condições do que se imaginava, suas políticas tiveram pouca ou nenhuma influência no colapso. No passado, entretanto, regimes como o da China Imperial e o Império Otomano (“Homem doente da Europa”) se seguraram por décadas. Além do mais, os comunistas ainda dão as cartas em países miseravelmente pobres, como China, Cuba e Coréia do Norte.

O ex-Secretário de Estado Henry Kissinger observou, “A performance de Reagan foi surpreendente – e quase incompreensível para os observadores acadêmicos… Um presidente com uma base acadêmica altamente superficial iria desenvolver uma política externa de extraordinária relevância e coerência. Reagan pode muito bem ter tido apenas algumas idéias básicas, mas essas acabaram por tornar-se as questões centrais de política externa do seu tempo, o que demonstra que senso de direção e convicções fortes são ingredientes-chave para a liderança”.

O analista de políticas públicas Martin Anderson escreveu nos anos 80 que “quando você encontra Ronald Reagan, a primeira coisa que você nota é como ele é grande. Tem 15 centímetros a mais que a maioria das pessoas, pesa quase 90 quilos, é esguio e forte. Ainda guarda os movimentos e a aparência do salva-vidas que foi por sete anos durante os anos 20, quando salvou 77 pessoas de afogar-se no Illinois Rock River.

Reagan tornou-se especialmente querido pelo público americano após sua recuperação da tentativa de assassinato sofrida do lado de fora do Washington Hilton Hotel em 30 de março de 1981. Uma bala disparada por John Hinckley Jr. Parou a menos de uma polegada do coração de Reagan, mas do hospital da George Washington University vieram gracejos cômicos que fizeram com que todos soubessem que ele ficaria bem.

Teantiva de Assasinato à Ronald Reagan em 1981, apenas 69 dias após assumir a presidência. Reagan e mais 3 pessoas foram alvejadas por John Hinckley, Jr em Washington D.C.

“Nós estávamos especialmente conscientes da coragem de Ronald Reagan”, afirmou Thatcher. “Era fácil para seus contemporâneos ignorarem isso; ele sempre parecia tão calmo e relaxado, com um charme natural, uma confiança espontânea e um incansável bom humor … Ronald Reagan apareceu para desafiar tudo o que a elite política de esquerda americana aceitava e pretendia difundir. Eles acreditavam que a América estava fadada ao declínio; ele acreditava que estava destinada a uma grandeza ainda maior. Eles imaginavam que cedo ou tarde haveria uma convergência entre o sistema ocidental e o sistema socialista oriental, e que algum tipo de resultado social democrático seria inevitável. Ele, em contraste, considerava o socialismo um grande fracasso que deveria ser relegado à lata de lixo da História. Eles pensavam que o problema da América eram os americanos, ainda que não gostassem de dizê-lo abertamente. Ele pensava que o problema da América era o governo americano, e deixou isso bem claro”.

Ronald Wilson Reagan nasceu em 6 de fevereiro de 1911, em um apartamento na sobreloja de um banco em Tampico, Illinois. Seu pai, John Edward Reagan, um vendedor de sapatos cujos antepassados haviam vindo da Irlanda, se tornou o bêbado da cidade. Nelle Wilson, a mãe de Ronald, cujos antepassados eram anglo-escoceses, irradiava otimismo.

Ronald Reagan com seus pais, Jack e Nelle Reagan e seu irmão, Neil Reagan.

Muito cedo, Reagan aproveitou oportunidades para aprender a falar em público, no rádio e a atuar. Durante a transmissão de um evento esportivo na Califórnia, conseguiu um contrato como ator com a Warner Brothers. Ele ascendeu de filmes B para participar de filmes como Knute Rockne – All-American , no qual interpretou o falecido herói do futebol americano George Gipp. Reagan foi eleito presidente da Screen Actors Guild [Sindicato de Atores de Cinema] por cinco vezes e aprendeu a ser um negociador duro com os grandes estúdios.

Após o seu divórcio de Jane Wyman, Reagan conheceu a atriz Nancy Davis, que compartilhava de muitas das suas idéias. Casaram-se em 4 de março de 1952, e tiveram dois filhos, Patricia Ann (1952) e Ronald Jr. (1958).

Durante os anos 1950, Reagan trabalhou como apresentador no General Eletric Theater, programa que foi ao ar durante oito anos na televisão. Ele deu palestras sobre os problemas do governo e os benefícios da livre-empresa nas instalações da GE em trinta e nove estados. Como viria a fazer por anos, escrevia seus discursos à mão em blocos de papel amarelo e depois os transcrevia para cartões de 10cm X 15cm, usando letras de fôrma e o seu próprio sistema de taquigrafia. Esta técnica lhe permitia captar o conteúdo de cada cartão em uma olhada e manter contato visual com a audiência.

Para ajudar Barry Goldwater, candidato Republicano à presidência, Reagan gravou um discurso de trinta minutos para a televisão que foi ao ar em 27 de outubro de 1964, e subsequentemente mostrado em eventos de arrecadação de fundos, gerando US$8 milhões para a campanha de Goldwater. Após a derrota de Goldwater para Lyndon Johnson, Reagan entrou na corrida pelo governo da Califórnia contra o então governador Democrata Pat Brown. Os comerciais de TV da campanha de Brown comparavam Reagan com o ator John Wilkes Booth, o assassino de Abraham Lincoln, mas Reagan venceu com 58% dos votos. Durante seu mandato, ele elevou impostos para cobrir os déficits deixados por Brown e, quando o orçamento do estado chegava a um superávit, devolvia dinheiro aos pagadores de impostos – o que aconteceu em quatro ocasiões.

Reagan ganhou a presidência em sua segunda tentativa, em 1980. O então presidente Jimmy Carter havia herdado uma inflação crescente e decidiu pressionar o FED para que expandisse a oferta monetária, o que tornou a inflação ainda pior. Quando ele impôs controles de preços para manter o preço da gasolina abaixo dos níveis do mercado, os resultados foram escassez crônica e filas irritantes nos postos de gasolinas. Carter foi duro com governos pró-Ocidente sobre violações de direitos humanos, mas ignorou a opressão muito pior dos regimes comunistas. Seu dúbio conselho ao Xá do Irã, um autocrata pró-Ocidente, contribuiu para a queda deste. Milícias islâmicas anti-ocidentais invadiram a embaixada americana em Teerã e mantiveram cinquenta e dois americanos reféns por um ano.

Ronald Reagan, já presidente em 1981.

Reagan, em contraste, concentrou-se em algumas poucas prioridades. Acabou com as filas nos postos de combustível ao abolir os controles sobre os preços de petróleo e gasolina, já que o aumento de curto prazo nos preços atraiu novos fornecedores ao mercado, ao mesmo tempo em que encorajou os consumidores a economizarem. A maior questão era a inflação, que havia levado a taxa de juros para 21,5%, supostamente o nível mais alto desde a Guerra Civil. Reagan apoiou as políticas do presidente do FED Paul Volcker para frear a oferta monetária, e a inflação caiu dramaticamente. Ao mesmo tempo, Reagan estava determinado a reviver a economia. Sua reforma tributária de 1981 foi um projeto de três anos que reduzia o imposto de renda de pessoa física em 10% no primeiro ano, outros 10% no segundo, e 5% mais no terceiro ano. Na época, as alíquotas de impostos eram indexadas para que evitar que a inflação empurrasse as pessoas para categorias mais altas de impostos. A legislação tributária de 1986 de Reagan eliminou todas as alíquotas de imposto de renda federal exceto duas, 15% e 28%.

Reagan, entretanto, não cortou os gastos do governo federal. Os Democratas controlavam o Congresso, e Tip O’Neill, presidente da Câmara, rejeitou os cortes porque gastos federais são o modo primordial de retribuição a eleitores importantes e doadores de campanha. Em 1983, Reagan concordou em acabar com isenções fiscais no valor de US$98 bilhões se os Democratas aprovassem um corte de US$280 bilhões nos gastos, mas eles recusaram. A maioria dos Republicanos se opunha aos cortes de gastos, também, já que eles tinham de responder a seus próprios eleitores. Seria ideal se Reagan houvesse concentrado seus amplos poderes de persuasão nos cortes de gastos, mas não havia apoio político.

O crescimento e as agressões soviéticas permaneceram uma questão importante. “Como assunto fundamental da minha política externa”, Reagan explicou, “eu decidi que tínhamos que mandar aos russos uma mensagem o mais forte possível demonstrando que não iríamos mais ficar parados enquanto eles armavam e financiavam terroristas e subvertiam governos democráticos … Se não houvéssemos começado a nos modernizar, os negociadores soviéticos saberiam que estávamos blefando sem cartas boas, porque eles sabem as cartas que temos tanto quanto nós sabemos o que eles têm em mão”. Reagan fez um apelo moral ao povo americano: em um discurso em 8 de março de 1983, ele chamou a União Soviética de “um império do mal”, epíteto que ecoou por todo o mundo.

Reagan ignorou a doutrina predominante de destruição mútua assegurada (MAD) – de que a paz estaria melhor protegida com ambos os lados armados com mísseis nucleares mortais. A teoria dissuadiria um lançamento internacional de mísseis contanto que os dois lados acreditassem que não poderiam vencer uma guerra nuclear. Mas há indícios de que alguns generais soviéticos acreditavam que poderiam vencer uma guerra nuclear, e de qualquer maneira a MAD não protegia contra um lançamento acidental de mísseis nucleares. Apesar dos bilhões pagos em forma de tributos pelos americanos para a defesa nacional, eles estavam desamparados. Os soviéticos tinham 6 mil ogivas, e os EUA tinham outros 2 mil; quanto maior a quantidade de mísseis, maior era o risco de que oficiais mal-treinados ou despreparados pudessem lançar um míssil, sem chances de voltar atrás. Um míssil soviético poderia atingir Washington, DC, em cerca de trinta minutos. Neste sentido, Reagan buscou desenvolver um sistema de defesa que interceptaria mísseis lançados intencional ou acidentalmente.

Em 23 de março de 1983, fez um discurso em busca de apoio para o sua Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI). “Deixem-me compartilhar com vocês uma visão do futuro que ofereça esperança”, disse ele. “Voltemo-nos à força tecnológica que gerou a nossa grandiosa base industrial e tem nos dado a qualidade de vida de que desfrutamos hoje. (…) A tecnologia atual alcançou um nível tal de sofisticação que é razoável que iniciemos este esforço. Vai levar anos, provavelmente décadas de esforços em diversas frentes. Haverá fracassos e contratempos, assim como haverá sucessos e avanços. (…) Mas não é válido todo investimento necessário para livrar o mundo da ameaça de uma guerra nuclear?”.

No salão oval, Reagan se prepara para o dircurso sobre o SDI – Iniciativa Estratégica de Defesa em português.

A União Soviética condenou a proposta. O dirigente soviético Yuri Andropov, que havia chefiado a polícia secreta, chamou a SDI de “insana”. Muitos americanos não acreditaram na viabilidade do projeto e ridicularizaram-no como “Guerra nas Estrelas”. Quando alguns críticos avisaram que a SDI iria provocar os soviéticos a expandir seu próprio sistema de defesa antimísseis ou mesmo a lançar um primeiro ataque preventivo contra os Estados Unidos, Reagan se dispôs a compartilhar tecnologias de defesa antimísseis com os soviéticos.

Conforme o biógrafo Dinesh D’Souza explicou, “a SDI teve duas consequências políticas não antecipadas pelos críticos de Reagan. Ela destruiu a base do movimento de não-proliferação, pois Reagan se mostrou mais comprometido do que sua liderança em reduzir o perigo representado pelo arsenal nuclear soviético para os americanos. Reagan parecia ter encontrado uma maneira mais criativa para que os EUA se aproximassem unilateralmente da eliminação da ameaça nuclear. A SDI era o desarmamento por meio da tecnologia em vez da diplomacia. Além disso, para o completo espanto do establishment em defesa do controle de armas, o mero conceito de SDI realizou exatamente o que Reagan disse que faria: trouxe a União Soviética de volta à mesa de negociações”. Os soviéticos temiam que não pudessem acompanhar o desenvolvimento americano de um sistema de defesa antimísseis.

Os eventos mudaram de rumo em 31 de agosto de 1983, quando os soviéticos abateram um avião comercial sul-coreano que havia adentrado o espaço aéreo soviético. O número de mortos foi de 269, incluindo 61 americanos. Reagan condenou o incidente como “um ato de barbarismo”. Mikhail Gorbachev, atuando em lugar do Secretário Geral Andropov, afirmou que o avião sul-coreano era um avião espião, e a imprensa soviética comparou Reagan a Hitler. Reagan refletiu: “Se, como algumas pessoas especularam, os pilotos soviéticos simplesmente se enganaram, pensando que um avião de passageiros fosse um avião militar, não seria difícil imaginar um militar soviético com seu dedo próximo de um botão de ativação de uma bomba nuclear cometendo um erro ainda mais trágico. (…) Ainda, se alguém cometesse tal erro – ou se um louco estivesse em posse de um míssil nuclear – nós estaríamos indefesos. Uma vez que um míssil nuclear fosse lançado, não se poderia voltar atrás, e até que tivéssemos a Iniciativa de Defesa Estratégica operando, o mundo estaria indefeso contra mísseis nucleares”. Enquanto isso, Reagan pressionou pela instalação de mísseis Perishing II de médio-alcance e Tomahawk na Europa, e eles foram aceitos pela Grã-Bretanha, pela Itália e pela Alemanha Ocidental para contrabalancear os mísseis soviéticos SS-20 apontados para cidades da Europa Ocidental.

Reagan jurou ajudar pessoas dispostas a resistir à União Soviética – democratas na Polônia e Tchecoslováquia, fundamentalistas islâmicos no Afeganistão, autocratas tribais em Angola, direitistas na Nicarágua. Alguns destes não eram verdadeiramente amigos da liberdade, mas a estratégia de Reagan inegavelmente pressionou os soviéticos, fazendo com que eles abandonassem posições conquistadas nos anos 1970. O sucesso mais dramático veio após Reagan ter fornecido mísseis antiaéreos Stinger às guerrilhas afegãs. Conforme o ex-Secretário de Estado George P. Schultz explicou, “Os Stingers, mesmo quando divididos com cuidado, fizeram uma diferença enorme, quiçá decisiva. Os soviéticos não mais dominavam áreas usando helicópteros ou por meio dos bombardeios precisos de aviões de vôo baixo. Bombardeiros de alto nível não funcionavam contra as forças dos guerreiros da liberdade afegães, móveis e dispersas”. Os soviéticos saíram do Afeganistão em 1989. O Vietnã saiu do Camboja em 1990. Naquele ano, os sandinistas, apoiados pelos soviéticos, concordaram em realizar eleições na Nicarágua, e perderam. As forças cubanas deixaram Angola em 1991.

O único equívoco sério da administração Reagan em política externa foi o escândalo Irã-contra – a venda de US$30 milhões em armamentos ao Irã para garantir a libertação dos reféns americanos mantidos por terroristas pró-Irã no Líbano, violando uma política de longa data contrária ao pagamento de resgate por reféns. Os ganhos deste negócio foram canalizados aos contras que lutavam contra o regime comunista na Nicarágua, e que haviam recebido vários bilhões de dólares em armamentos soviéticos. A ajuda aos contras violou a Emenda Boland de 1984, um esforço do Congresso dominado pelos Democratas para restringir a política externa de Reagan. O promotor independente Lawrence E. Walsh não encontrou evidências de que Reagan houvesse violado a lei, e as condenações de pessoas envolvidas foram reformadas, mas o governo havia posto em risco prudentes impedimentos constitucionais.

O sucessor de Andropov, Konstantin Chernenko, morreu em março de 1985, e os figurões soviéticos aparentemente perceberam que necessitavam de alguém que fosse melhor em lidar com Reagan. Escolheram Mikhail Gorbachev, de cinquenta e quatro anos. O biógrafo Lou Cannon creditou melhores habilidades analíticas a Gorbachev que a Reagan, ainda que ele pensasse que o principal problema no comunismo fosse a corrupção e não a coerção. Ele pensava que o problema central fosse o alcoolismo generalizado. Ele aumentou os gastos governamentais em maquinário e indústria pesada, como Stalin havia feito, mas isso agravou a escassez de bens de consumo. Então ele lançou sua reforma chamada perestroika, mas, como o historiador Martin Malia explicou em The Soviet Tragedy [“A tragédia soviética”] (1994), “não havia mercado nacional, preços reais ou agricultura livre; ademais, 90% da economia permaneceu nacionalizada e diretamente gerenciada por órgãos estatais sob a supervisão do Partido”. Gorbachev cobriu déficits orçamentários imprimindo dinheiro, o que levou à inflação incontrolável. Ele lamentou que “a ciência econômica ainda não tenha oferecido um plano detalhado de como realizar a transição para uma economia dinâmica e altamente eficiente”. Gorbachev parecia ignorar a existência de A riqueza das nações, de Adam Smith, que havia oferecido justamente este plano dois séculos antes. Ele era igualmente ignorante da vasta literatura que documentava que pessoas livres são muito mais produtivas do que burocratas.

Reagan encontrou Gorbachev em sua cúpula em Genebra, em novembro de 1985. Gorbachev defendeu a agressão soviética ao Afeganistão, mas Reagan, que havia visto fotos de crianças afegãs mutiladas pelos bombardeios soviéticos, condenou a agressão. Gorbachev afirmou que a SDI tornaria a guerra mais provável. Reagan atacou a doutrina MAD, que dizia que a esperança de paz era ter as superpotências apontando mísseis uma para a outra. Gorbachev concordou em visitar a América, e Reagan concordou em visitar a União Soviética. O jornalista Robert G. Kaiser noticiou que Gorbachev e seu ministro de relações exteriores, Eduard Shevardnadze, de certa maneira “decidiram que Reagan não era terrivelmente inteligente ou versado sobre assuntos específicos – eles poderiam lidar com ele”.

Ronald Reagan e Gorbachev em Genebra, 1985.

Então, conforme o jornalista Peter Sweizer noticiou, os assessores de Reagan encorajaram a Arábia Saudita a aumentar sua produção diária de petróleo, e eles o fizeram – de 2 milhões de barris para 9 milhões. Os preços do petróleo cru mergulharam de trinta dólares por barril para doze dólares em meados de 1986. Isto foi catastrófico para a União Soviética, já que 80% de seus ganhos em moeda forte vinham do petróleo. O dinheiro era desesperadoramente necessário para comprar comida e tecnologia. Os sauditas estavam produzindo tanto petróleo que lucravam mais do que antes, mas outros produtores de petróleo, como Irã, Iraque e Líbia foram severamente pressionados, tendo de cortar suas compras de armamentos soviéticos, uma grande fonte de renda para a União Soviética.

A explosão na usina Nuclear de Chernobyl, Ucrânia, em abril de 1986, deu razões para que pessoas por todo o mundo desconfiassem de Gorbachev. Embora tenha propagandeado a glasnost – um grau limitado de abertura – , ele escondeu a verdade. Quando os europeus ocidentais detectaram uma nuvem radioativa vinda da União Soviética, Gorbachev bloqueou informações. Sessenta e sete horas após a explosão, os soviéticos emitiram uma nota. Uma nuvem radioativa chegou ao Japão em 3 de maio. Então, em 14 de maio, em meio a imensas críticas, Gorbachev vociferou contra uma “campanha de irrestrita propaganda anti-soviética”.

Em outubro de 1986, Reagan e Gorbachev realizaram um encontro em Reykjavik, Islândia. Após os dois homens oferecerem dramáticas reduções armamentistas, Gorbachev exigiu que Reagan abandonasse a SDI, e Reagan deixou o diálogo. A imprensa americana condenou-o por recusar-se a negociar, mas Reagan insistiu. “Não havia como eu pudesse dizer ao nosso povo que o seu governo não o protegeria de uma destruição nuclear”. Os soviéticos ficaram chocados.

Gorbachev desistiu de tentar impedir a SDI. Em dezembro de 1987, foi a Washington e assinou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, que estabelecia que os dois países deveriam destruir os mísseis nucleares de alcance intermediário. Os soviéticos concordaram em destruir quatro vezes mais armas nucleares do que os Estados Unidos. Reagan citou um provérbio russo: Dovorey no provorey – “confie, mas verifique”.

Reagan manteve a pressão. Seu momento mais dramático ocorreu em Berlim. O governo comunista da Alemanha Oriental havia começado a construir o Muro de Berlim em um domingo, 13 de agosto de 1961, para impedir que as pessoas fugissem do comunismo. Muitos alemães orientais foram baleados tentando quebrar o muro, cavando túneis por baixo dele ou voando por cima. Em junho de 1987, Reagan fez um discurso no Muro de Berlim perto do Portão de Brandemburgo. Disse: “Secretário Geral Gorbachev, se você quer a paz, se você quer prosperidade para a União Soviética e para a Europa Oriental, se você quer liberalização: venha a este portão! Senhor Gorbachev, abra este portão! Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. Posteriormente, viajou a Moscou para mais conversas com Gorbachev. Em 31 de maio de 1988, disse aos estudantes da Universidade Estatal de Moscou: “A chave é a liberdade – liberdade de pensamento, liberdade de informação, liberdade de comunicação. … Povos não fazem guerras; governos fazem. E nenhuma mãe jamais vai estar disposta a sacrificar seus filhos por ganhos territoriais, por vantagem econômica, por ideologia. Um povo livre para escolher sempre escolherá a paz”. Dusko Doder e Louise Branson, biógrafos de Gorbachev, noticiaram que os discursos de Reagan aos estudantes russos “foram talvez suas performances mais espetaculares e tocaram profundamente a psique russa. (…) Os russos amaram-no”.

Gorbachev anunciou em 7 de dezembro de 1988 que a União Soviética, em sérios apertos financeiros, iria reduzir suas forças armadas em 10 mil tanques e 500 mil soldados, e indicou que não tentaria semear regimes comunistas em nenhum outro lugar. Em 9 de novembro de 1989, a Alemanha Oriental começou a derrubar o Muro de Berlim, um evento eletrizante que inspirou revoluções de sucesso contra os odiados opressores comunistas por toda a Europa Oriental.

Gorbachev, entretanto, continuou defendendo o monopólio político do Partido Comunista. Insistiu em manter o Plano Quinquenal, e não gostou da idéia de uma eleição presidencial, já que ele perderia, e então rejeitou as demandas russas por soberania. Mas em 25 de dezembro de 1991 a bandeira soviética foi abaixada no Kremlin, e a URSS deixou de existir. Incrivelmente, a revista Time escolheu Gorbachev como o Homem do Ano, e ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz, embora Reagan tenha prevalecido.

“O que ocorreu”, escreveu Martin Malia, “foi uma revolução de consciência, e não apenas no ex-bloco soviético, mas por todo o mundo. De repente havia um consenso geral de que o mercado, a propriedade privada e a democracia formavam um todo orgânico; que não se podia ter Estado de direito, direitos humanos, governo constitucional e pluralismo político sem uma ‘base’ material para a sociedade civil na propriedade pessoal e na liberdade de escolha econômica” – tudo o que Reagan havia defendido.

Ronald e Nancy foram celebrados por milhares quando fizeram um tour triunfal pela Europa Oriental: visitaram o que havia sobrado do Muro de Berlim e trabalharam nele com um formão. Ele discursou no parlamento polonês em Varsóvia e para estivadores poloneses em Gdansk, e foi saudado entusiasticamente em Moscou.

Após dircurso, Ronald e Nancy Reagan acenam para a platéia no Muro de Berlim em 1987.

Ironicamente, a SDI caiu nas preferências assim que grupos de interesse relacionados à defesa batalharam por verbas do Congresso. O presidente Bill Clinton presumiu que o colapso do império soviético significava que a SDI não era mais necessária, embora alguma pesquisa continuasse em menor escala, conhecida como National Missile Defense [“Defesa Nacional contra Mísseis”]. Mas o General Lee Butler, do Comando Aéreo Estratégico, avisou: “O comando russo e o sistema de aviso de aproximação de mísseis estão em estado de declínio. … Eles têm alarmes falsos de maneira rotineira, e eu estremeço ao pensar sobre a moral e a disciplina de suas forças encarregadas de foguetes”. Em janeiro de 1995, por exemplo, oficiais militares russos estiveram perto de lançar um ataque nuclear contra os Estados Unidos por pensarem que um míssil americano estaria vindo em sua direção; descobriu-se que era um foguete norueguês lançando um satélite meteorológico. Além disso, muitas bombas russas foram supostamente vendidas para países que não acatam as leis internacionais. Acredita-se que cerca de vinte países possuam mísseis de alcance intercontinental. Há uma crescente preocupação em relação à Coréia do Norte e à China, especialmente após comunistas chineses terem roubado segredos militares dos EUA; em 1999 o Congresso votou pelo avanço no desenvolvimento de um sistema de defesa anti-míssil.

Assim, a experiência ressaltou a sabedoria de Reagan. Ele demonstrou a visão e a coragem para ajudar a fazer deste um mundo mais livre e pacífico.

Artigo publicado originalmente no site Ordem Livre.

Bem-vindos à Direita!

Uma universitária cursava o sexto semestre da Faculdade. Como era comum no meio universitário, pensava que era de esquerda e estava a favor da distribuição da riqueza.

Tinha vergonha de seu pai, que era de direita e portanto contrário aos programas socialistas e seus projetos de lei que davam benefícios aos que nada faziam em troca e cobravam impostos mais altos para os que tinham maiores ingressos de dinheiro. A maioria dos professores, obviamente, afirmavam que esta filosofia era equivocada.

Por tudo isso, um dia, ela decidiu enfrentar o pai. Falou com ele sobre o “materialismo histórico” e a “dialética” de Marx, procurando mostrar ao pai que ele estava errado ao defender um sistema tão injusto como o da direita.

No meio da conversa, o pai perguntou:
– Como vão as aulas?

– Vão bem.
Ela respondeu. E continuou:

– A média das minhas notas é 9, mas tenho que estudar muito para conseguí-las. Não tenho vida social, durmo pouco. Mas vou em frente.

O pai prosseguiu:
– E sua amiga Sônia, como vai?

Ela respondeu com muita segurança:
– Muito mal. Sua média é 3. Ela estuda pouco e algumas vezes nem sequer vai às aulas. Com certeza, repetirá o semestre.

O pai, olhando nos olhos da filha, aconselhou:
Que tal se você sugerisse aos professores ou ao coordenador de curso para que sejam transferidos 3 pontos das suas notas para as da Sônia? Com isso, vocês duas teriam a mesma média. Não seria um bom resultado para você. Mas convenhamos, seria uma boa e democrática distribuição de notas para permitir a futura aprovação de vocês duas.

A filha indignada retrucou:
Por quê!? Eu estudei muito para conseguir as notas que tive, enquanto a Sônia fazia tudo do jeito mais fácil. Não acho justo que todo o meu trabalho seja simplesmente dado a outra pessoa!

Seu pai então abraçou-a e carinhosamente disse:
– Seja bem-vinda à direita política!

Por quê temos o direito de ter mais que os outros? Oras, porque nos esforçamos mais que os outros!

Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.
Fernando Sabino