O processo eleitoral e seus entraves: as teorias conspiratórias e seus fortes poderes de convencimento

[…] quando acontece na sociedade algo de ‘mau’, algo de que não gostamos, como guerra, pobreza, desemprego, isto é o resultado de um propósito perverso, de uma má vontade, de um golpe criminoso, alguém o fez propositadamente e naturalmente todos tiram proveito. Esta opinião filosófica caracteriza a teoria de conspiração da sociedade. Esta teoria pode ser criticada e, em minha opinião, prova que é falsa: em todas as sociedades acontecem várias coisas indesejáveis que são consequências, não premeditadas nem previstas, da nossa própria atuação.

A teoria da conspiração da sociedade faz parte das várias concepções filosóficas não críticas que tornam necessária uma investigação crítica. A existência destas concepções constitui a justificação de ser filósofo. Estas falsas filosofias são muito influentes e é importante que alguém as discuta e as submeta à crítica.

Karl Popper, O Racionalismo Crítico na Política, entrevista radiofônica a Bryan Magee em 1971.

Essas palavras de Popper, apesar de terem sido ditas há 47 anos, refletem muito do que vivemos em nosso país nesta segunda metade de década. De um lado estamos nós, defensores de um regime democrático pleno e transparente. Procurando ver não apenas os erros dos agentes públicos, mas também seus acertos; prezando pelo cumprimento da lei e pela preservação da liberdade. Nesse escopo, por mais que aqueles envolvidos em ilicitudes sejam até pessoas que admiramos, continuamos a reforçar a necessidade de que ninguém está acima da lei e a reconhecer a legitimidade que as nossas instituições têm de intervir nesse contexto. Essa postura é cada vez mais importante, sobretudo em tempos em que a operação Lava Jato evidencia uma corrupção sistêmica que levou o nosso país a uma grande hecatombe. Para dar um exemplo bem presente nos noticiários: chegamos a mais de 13 milhões de desempregados. Um número que somado aos de desalentados realmente chega a nos assustar.

De outro lado, estão aqueles que desacreditaram não apenas do nosso cenário político. Acreditam que por mais que apostemos na renovação dos nossos representantes, nada podemos fazer no período eleitoral, pois todos, mais cedo ou mais tarde, irão se corromper, segundo eles. Assumem radicalmente a máxima de que “ninguém presta”. Não é difícil encontrarmos pessoas assim, ainda mais atualmente, quando a Internet tem grande papel no debate político. Entre as mais e as menos escolarizadas a impotência política está presente. Além disso, e de forma mais perigosa, há aquelas que estão consideravelmente no Poder e afrontam a legitimidade da Justiça e de nossas outras instituições democráticas. Eles se auto afirmam ou dizem que seus líderes fizeram grandes coisas pelo Brasil e que o fato de serem investigados por alguma prática delituosa é fruto de uma conspiração de algum outro grupo que também está no Poder, ou da mídia ou de organizações internacionais, como a CIA. Atiram para vários lados, inclusive para atribuir a culpa a alguém pelos problemas sociais que enfrentamos, mas não reconhecem que podem errar, ou, voltando ao que Popper disse, que podem agir e suas ações podem ter consequências não premeditadas.

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Em todo esse choque de posições, aproxima-se o pleito. A eleição a nível estadual e federal servirá como boa oportunidade tanto para aqueles que têm um bom projeto e visam ao bem coletivo tanto para aqueles que utilizam a política, e isso muito nos prejudica, para atender apenas a interesses pessoais ou de alguma corporação. Alguns defendem medidas gradualistas para o enfrentamento da atual crise, estou entre eles; outros defendem medidas imediatistas ou mesmo uma total revolução. Teorias conspiratórias muito embasam essa última postura. Vejamos um pouco mais detalhadamente.

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O nazismo e o fascismo no espectro político

Texto publicado também no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

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Já escrevi alguns textos sobre a relação entre nazismo, fascismo, direita e esquerda [1]. Como está na moda da semana, resolvi sintetizar aqui o que sei. Antes de começar, julgo importante explicar algo. Muitas pessoas tem dito que é inútil discutir qual é a posição do fascismo e do nazismo no espectro, pois cada lado diz uma coisa, não há consenso, tampouco utilidade prática em buscar uma resposta final. Mas na verdade a discussão é importante sim. Não pelo rótulo, mas pelo mapeamento das ideias.

Pouco importa os nomes que fascismo e nazismo receberão, mas é muito relevante descobrir de onde suas ideias se originaram, a fim de que possamos evitar o surgimento de movimentos semelhantes. A classificação é possível mediante modelos baseados no diagrama de Nolan, no qual há quatro quadrantes, dividindo os dois lados do espectro em pelo menos dois grandes grupos. Dito isso, começo a elencar os pontos principais.

Pontos principais sobre nazismo e fascismo

1. A teoria nazista, exposta por Adolf Hitler em sua obra Mein Kampf, faz parte da tradição de ideologias seculares redentoras que se iniciou a partir do iluminismo e teve seu ponto alto no século XX. Essas ideologias possuem em comum os seguintes pressupostos: (A) a sociedade precisa ser redimida do mal e reestruturada; (B) há um inimigo que perpetra esse mal, mantendo uma velha estrutura social; (C) o ser humano pode redimir o mal da sociedade e reestruturá-la através de um bom projeto de governo nesse sentido e governantes capazes de representar fielmente os anseios do povo; (D) esse governo redentor deve ter grande poder político, econômico e cultural para emplacar esse grande projeto. Em suma, a ação política salvará o mundo.

Fizeram/fazem parte dessa tradição o jacobinismo, os diversos tipos de socialismo, o positivismo, o marxismo, o darwinismo social, o sindicalismo revolucionário, a socialdemocracia original, o fascismo italiano, o nazismo e outras correntes. Todas elas podem ser conceituadas como religiões políticas.

2. Ainda conforme as ideias expostas em Mein Kampf, os judeus pretendiam subordinar todas as nações ao que Hitler chamava de “Capitalismo Internacional Judaico”. Ou seja, para o nazismo hitlerista havia um plano judaico de dominação mundial. Hitler chega a essa conclusão baseado no fato de que os judeus estavam espalhados por toda a Europa, ocupando posições importantes como donos de jornais, banqueiros, políticos, sindicalistas, etc. Então, era um povo gigante fora de sua terra de origem, sugando as riquezas de outros povos e ocupando todas as posições.

3. Segundo a doutrina nazista, o marxismo e a socialdemocracia eram dois movimentos mentirosos, criados por judeus para dar uma falsa impressão de luta contra o capitalismo é a favor do proletariado. A intenção, contudo, era a mesma dos judeus burgueses: subordinar o mundo ao grande capital internacional judaico. A prova disso, conforme a explicação dada em Mein Kampf, era justamente o fato de que as lideranças desses movimentos todos tinham raízes judaicas. Karl Marx, aliás, era de família judia, o que só reforçava o mito criado por Hitler.

4. A oposição da doutrina nazista em relação ao marxismo e a socialdemocracia, portanto, não se dava pelos princípios proclamados de luta contra a desigualdade ou da defesa de uma economia planificada, do controle governamental sobre o empresariado e da construção de uma nova sociedade (mais justa). A oposição se dava, conforme explicado detalhadamente em Mein Kampf, por esses dois movimentos serem falsos, ferramentas judaicas para engano do povo. Daí a conclusão de que o único socialismo verdadeiro era o nacional socialismo (nazismo).

5. O nazismo se colocava como o socialismo verdadeiro porque lutava de verdade contra o capitalismo mundial. Combater de fato esse sistema global era, para o movimento, se opor ao internacionalismo, que atendia aos interesses dos capitalistas imperialistas, desejosos de um mundo sem fronteiras dominado por meio de seus escritórios. Combater de fato esse sistema global era atacar os principais capitalistas imperialistas do mundo: os judeus. Combater o capitalismo realmente era se opor à farsa do marxismo e da socialdemocracia, que de socialistas não tinham nada, pois defendiam o internacionalismo, dando assim o poder nas mãos do imperialismo judaico.

6. A doutrina nazista, à semelhança da marxista, buscava se firmar “cientificamente” também. Para Marx, o comunismo não era uma ideia. Já que ideias, para Marx, apenas justificavam as condições materiais de determinado tempo. O comunismo era uma ciência, uma ciência exata, a observação dos fatos como eles são. Essa definição está clara no Manifesto do Partido Comunista e também é uma tradição iniciada no iluminismo. Cada autor procurava dar à sua ideologia de redenção um status de ciência exata. Isso pode ser visto claramente, por exemplo, no positivismo, de Comte, e no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Rousseau.

Seguindo a tradição, o nazismo se fiou no darwinismo social. Para a doutrina, o ser humano era composto por raças mais evoluídas e menos evoluídas. A raça ariana, da qual fazia parte os alemães, era o supra sumo da humanidade em inteligência, moralidade, força, beleza, etc. A raça judaica, por sua vez, era a pior das raças, a mais depravada. Talvez por isso tenham se tornado capitalistas. O nazismo, portanto, combatia não apenas um sistema econômico com sanha imperialista, mas um sistema econômico usado por uma raça vil e ordinária.

7. O projeto econômico nazista era de cunho antiliberal. O livre mercado era um mal. Apenas o forte controle do Estado poderia impedir distorções sociais, manter a ordem e usar empresários e empregados para o bem da sociedade.

8. O fascismo italiano, proposto por Benito Mussolini, mantinha pelo menos uma grande diferença em relação ao nazismo de Hitler: não focava nos judeus como o grande mal do mundo. Pelo menos não em sua origem. A visão fascista de combate era mais generalista: o capitalismo internacional é o monstro. E contra esse grande monstro as armas eram o socialismo e o nacionalismo.

9. Para entender o socialismo fascista é preciso entender o processo de mutação pelo qual passou o pensamento de Benito Mussolini. O ditador italiano foi um marxista ortodoxo e militante durante toda a juventude, fazendo parte do PSI (Partido Socialista Italiano) e editando jornais socialistas. No entanto, influenciado por ideais revolucionários mais pragmáticos, como o “sindicalismo revolucionário”, de Georges Sorel, ele passou a defender conceitos que se distanciavam do marxismo ortodoxo. A expulsão de Mussolini do PSI se deu após sua forte adesão à participação da Itália na Primeira Guerra Mundial. Para o partido, aquela guerra era capitalista e a Itália não deveria se intrometer. Para Mussolini, contudo, a participação poderia trazer benefícios à Itália.

10. O pragmatismo adotado por Mussolini o levou a desenvolver um novo tipo de socialismo, menos utópico e mais realista. Na nova doutrina, concebia-se o Estado como uma entidade insuperável, em oposição ao mito utilizado por marxistas de que o Estado se desfaria naturalmente após a ditadura do proletariado. Ele percebeu que isso era mentira e que o objetivo do socialismo é (e sempre foi) o poder supremo do Estado.

Pelo pragmatismo soreliano, Mussolini moldou sua visão sobre o uso de mitos políticos como força motriz para a condução das massas. Para Sorel, que foi um sindicalista revolucionário e marxista heterodoxo, o mito político era um conjunto de imagens com capacidade para gerar reações antes de qualquer análise refletida. Em outras palavras, não importava que uma ideia fosse mentirosa. Desde que ela servisse para impulsionar as massas, isso era suficiente para os fins desejados pelo socialismo. Mussolini captou essa ideia e, por esta razão, passou a se utilizar das ideias de religião, pátria e raça, que evocavam sentimentos fortes e capazes de unir a sociedade italiana em prol do projeto político fascista.

11. Na visão econômica, o fascismo italiano entendeu que se o Estado concentrava tudo em suas mãos, não havia necessidade de uma estatização direta da economia. Um controle corporativista se mostrava mais simples, eficiente e gerava uma aparência aceitável para o empresariado. Tanto o fascismo italiano, quanto o nazismo alemão perceberam que a manutenção de empresas privadas na sociedade não só evitaria uma difícil e custosa luta contra grandes empresários, como também abriria a possibilidade de o Estado se beneficiar do dinheiro, da organização, do poder e do apoio desses grandes empresários para os fins do regime. Para isso, bastaria garantir seus lucros e a proteção contra a concorrência, o que uma economia planificada faz muito bem.

12. A visão econômica proposta pelo fascismo e o nazismo são exatamente a mesma de outros tipos de socialismo e do marxismo em seu estágio intermediário. Todo socialismo propõe uma intervenção cada vez maior e mais ampla do governo na economia até o estágio de uma economia planificada. O marxismo, o mais extremo dos socialismos na área econômica, sustenta não só a escalada até uma economia planificada, mas até uma economia totalmente estatizada. O que difere cada tipo de socialismo, na área econômica, é apenas o grau de intervenção e o objetivo final. Isso implica que o natural de uma economia marxista é que ela passe por estágios corporativistas.

Na verdade, essa é a lógica inescapável da planificação da economia. Na medida em que o governo intervém mais com impostos, regulações, burocracias, agências reguladoras, expansão de crédito, etc., mais dificulta a atividade empresarial no geral, o que torna o empreendedorismo uma atividade restrita à poucos grandes homens com boas relações com o governo. Estes darão ao governo apoio moral e financeiro. Receberão do governo a garantia de que nenhuma outra grande corporação aparecerá para tirar seus lucros. Sem o governo, essas grandes corporações não existem, pois é a relação com o governo que decide quem sobrevive. Então, elas se tornam sustentáculos do regime. Aqui já se encontra a planificação da economia. Lenin chamava esse estágio de capitalismo de Estado e o definia como o estágio anterior ao socialismo. As relações entre a planificação da economia e os diversos tipos de socialismo é lógica e perceptível.

Considerações sobre os pontos elencados

No lado direito do Diagrama de Nolan há o quadrante dos conservadores e o quadrante dos liberais. Os conservadores se definem historicamente por ser contrários à ideologias políticas redentoras, revoluções sanguinárias como métodos eficientes para reestruturar a sociedade e qualquer projeto que intente resolver problemas sociais destruindo pilares da sociedade, tais como a família, a religião e a moral judaico-cristã. A política conservadora é a política da prudência, da forte orientação pelos ensinamentos do passado e das reformas necessárias sempre baseadas na conservação dos pilares sociais.

Uma leitura nos escritos de Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Eric Voegelin, Erik von Kuehnelt-Leddihn, José Ortega Y Gasset, Raymond Aron e Russell Kirk, grandes nomes do conservadorismo, deixam claro esse espírito de prudência e anti utopia presente nessa posição política. Um mergulho em escritos políticos de filósofos cristãos anteriores ao iluminismo também demonstram a inexistência de um ideal de redenção política, já que para a visão judaico-cristã, o mundo sempre terá problemas, a redenção plena vem apenas de Deus e o paraíso não será erguido por nós. É nesta visão judaico-cristã cética e prudente em relação ao ser humano e o mundo que o conservadorismo mantém suas raízes. O conservadorismo, em suma, é a política do possível.

Ante o exposto, parece bastante claro que nazismo e fascismo não se enquadrariam jamais no quadrante conservador do lado direito. Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno faria, certamente, as mesmas criticas que fez à Revolução Francesa em relação a esses movimentos que, aliás, descendem de uma mesma tradição de políticas redentoras surgidas no iluminismo. Winston Churchill, primeiro ministro britânico entre os anos de 1940-1945 e 1951-1955, é a maior prova de que, na prática, o conservadorismo rechaçava o nazismo e o fascismo. Um dos maiores nomes do conservadorismo, Churchill lutou vorazmente contra os dois movimentos e como governante se limitou a fazer a política do possível.

O fato de o nazismo e o fascismo terem flertado com algumas (poucas) posições e discursos geralmente defendidas por conservadores não faz desses movimentos conservadores, já que as principais características que definem o conservadorismo político eram rechaçadas pelas duas ideologias. Não só o discurso e as ações propostas, mas o próprio modus operandi do nazismo e do fascismo eram revolucionários. Eram dois movimentos baseados na rebelião das massas, algo típico da Revolução Francesa e das rebeliões socialistas, atitudes nada conservadoras.

Ainda no lado direito, há também os liberais. Historicamente, esse grupo sempre se definiu por ser contra uma forte intervenção do governo na economia. A economia deveria ser o mais livre quanto possível, a fim de gerar maior competição, um dos fatores responsáveis pelo surgimento de mais empregos, melhores produtos e serviços, avanços tecnológicos e maiores salários. Os liberais também perceberam, com o tempo, que governos antiliberais não só atrasavam o desenvolvimento econômico da sociedade, como se tornavam autoritários. Não demorou para que o liberalismo econômico entendesse que quanto mais poder econômico tinha o Estado, mais poder político ele também o tinha. E isso certamente descambaria em tirania estatal. Aliás, todos os projetos redentores de governo propunham exatamente isso: tirania estatal para salvar o mundo. Uma leitura nos escritos de Adam Smith, Frederic Bastiat, Carl Menger, Eugen Von Bohn Bawerk, Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek, grandes nomes do liberalismo econômico, demonstra como esta corrente sempre defendeu um estado pequeno e uma economia livre.

Então, fica claro que também é impossível incluir o nazismo e o fascismo no quadrante liberal da direita, já que esses regimes eram absolutamente contrários ao livre mercado e um Estado pequeno. Todo o pensamento nazista e fascista está baseado em um altíssimo grau de controle estatal da economia e da sociedade, e na visão de que o capitalismo liberal é o grande mal do mundo. Mises e Hayek, que viveram à época do nazismo e do fascismo, destacaram o antliberalismo desses movimentos e como esse tipo de política econômica altamente interventora sempre gera autoritarismo e despotismo políticos.

O fato de, vez ou outra, o nazismo e o fascismo terem se utilizado de algumas decisões mais liberais não torna esses movimentos liberais, já que no quadro geral a economia não tem liberdade. Governos intervencionistas usam um pouco de pragmatismo econômico sempre que necessário, já que economias planificadas não se sustentam por muito tempo. Uma privatização aqui para reduzir gastos e contar com a melhor organização do setor privado ou uma redução de impostos sobre um setor ali para criar incentivo são atos que podem ser colocados em prática de modo bem controlado, quando for preciso. O próprio Lenin retrocedeu um pouco ao capitalismo após a revolução russa através da NEP (Nova Política Econômica), já que a estatização radical gerou uma crise.

Pequenas concessões à práticas do liberalismo econômico são aceitáveis pelo socialismo quando controláveis. Desde que o poder continue firme nas mãos do estado, não há problema. Daí os novos governos marxistas pós-URSS não mais pregarem a estatização completa da economia e a destruição do empresariado, mas uma sociedade em que o governo “faça justiça social com a ajuda de empresários responsáveis”, o que na prática significa um amplo controle sobre a economia de modo indireto. Na prática, em suma, corporativismo, o mesmo modelo adotado pelo fascismo e pelo nazismo. O fato inescapável é que todos os governos de esquerda são, em maior ou menor grau, corporativistas. E no corporativismo, os mais sórdidos ditadores, políticos e empresários saem ganhando. Só quem perde é o povo.

Ora, se nazismo e fascismo não se encaixam em nenhum dos dois quadrantes da direita, devem se encaixar em algum dos dois quadrantes da esquerda. Bom, há o quadrante comunitário (ou autoritário) e o quadrante liberal/libertário. Os libertários de esquerda são aqueles que se dedicam hoje mais ao discurso de defesa de minorias e questões culturais do que aos discursos econômicos. É a nova esquerda, germinada por autores como Lukacs e Gramsci, e concebida por homens como Marcuse, Adorno e Foucault. É a esquerda que toma o lugar dos comunistas de discurso mais ortodoxo e economicista, passando a focar mais em temas como feminismo, aborto, divórcio, revolução sexual, homossexualidade, liberação das drogas, religiões alternativas, etc. A intenção é moldar a cultura da sociedade, forjar uma aparência de defesa das minorias, da democracia e da liberdade, ganhar apoio popular por meio de jovens libertários e ascender ao poder através de um discurso mais ameno. Quando no poder, colocarão em prática o mesmo tipo de planificação da economia.

Obviamente, por ser um fenômeno mais moderno, nazismo e fascismo não se enquadram nesse grupo. Como também não se enquadra o comunismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Nenhum desses regimes se preocupou com aparência democrática, guerra cultural e o discurso de defesa de minorias. O discurso era radical. Lênin, por exemplo, entendia que o poder deveria ser tomado pela força, tão logo uma vanguarda revolucionária se formasse e tivesse condições de empurrar a população nessa direção. Nesses regimes, houve perseguição aberta de judeus, homossexuais e etnias religiosas. O tipo de discurso moldado pela nova esquerda ainda não existia. Ele nasceria a partir do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, quando a própria esquerda contestaria a eficácia do modus operandi dos regimes comunistas mais velhos. Assim, todos os movimentos de redenção anteriores, incluindo aí o fascismo e o nazismo, não se enquadram na nova esquerda.

Sobra, por fim, o quadrante comunitário/autoritário do lado esquerdo do diagrama. Os movimentos presentes nesse quadrante se caracterizam pelo viés mais coletivista e radical de seu discurso e ação. Não se fala muito em direitos em individuais, mas sempre na luta coletiva contra o sistema capitalista. O foco não são minorias, mas o povo trabalhador no geral. Essa é a massa a ser defendida pelo discurso. Aqui a mudança não vem pela cultura. A cultura só é realmente importante depois que o partido ascende ao poder, pois o regime controlará a vida cultural. Assim o discurso é mais autoritário e despudorado. A mudança vem pela força, pela ruptura radical com a política e a economia atuais, com um governo que se oponha fisicamente aos que não desejam a mudança. Não há verniz democrático para disfarçar o regime autoritário, nem antes do poder, nem durante. O golpe de força não está descartado como forma de se alcançar o governo absoluto.

Nesse quadrante se encontram os comunismos descritos há pouco: leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Uma frase de Engels sintetiza o tipo de discurso e ação presentes nesse grupo: “A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado” [2]. Pois é exatamente nesse quadrante que o nazismo e o fascismo melhor se enquadram. O quadrante revolucionário e abertamente autoritário, que enxerga a sociedade apenas de maneira coletiva, e não procura esconder seus objetivos totalitários. O quadrante da economia extremamente planificada, seja de modo direto ou indireto. O quadrante que vende o discurso utópico de uma sociedade ideal. O quadrante da tradição iluminista de ideologias redentoras, da religião política, da salvação pelo Estado. O quadrante antiliberal e anticonservador por excelência. Esse quadrante está na esquerda e não há como negar isso.

Assim, o nazismo e o fascismo se originam a partir do ninho de projetos diferentes das mais diversas esquerdas para redimir a sociedade do caos. Não há, nesses movimentos, nada realmente basilar que venha da direita. Não há o compromisso conservador com os pilares, com a prudência, com a política do possível. Não há o compromisso liberal econômico com um Estado pequeno e uma economia livre. São projetos absolutamente revolucionários e estatistas. Qualquer comparação destes movimentos com ideias de direita é superficial. Quando, por exemplo, Donald Trump ou governos de países como Polônia, Hungria e República Tcheca tomam decisões pela soberania de seus países (tidas como nacionalistas), não o fazem por alguma ideologia de supremacia étnica ou por uma luta contra o capitalismo mundial. Trata-se apenas de defesa contra políticas diretamente prejudiciais às suas nações. E isso é o que se espera de todos os governantes: que zelem por suas nações. Não há nada de fascista ou nazista nisso.

O conhecimento das origens do fascismo e do nazismo, como já dito na introdução desse texto, nos ajuda na missão de evitar o aparecimento de regimes semelhantes. Fica claro, após essa análise, que os responsáveis pela concepção desses movimentos foram ideais utópicos de sociedade, rebeliões das massas, estatismo, intervencionismo exagerado, etc. Pois são contra essas ideias que devemos lutar. Nazismo e fascismo surgiram das ideias da esquerda. São de esquerda. Embora hoje, felizmente, esquerdistas não defendam esses movimentos, defendem regimes autoritários originados das mesmas bases. Por isso a discussão não é inútil. As ideias não surgem num vácuo. Elas possuem lastro. Elas possuem origem. Devemos estar sempre atentos a isso.

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Referências:

1. Publiquei os seguintes textos sobre o tema:

2. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 101.

A Violência Política é um jogo que Direita não pode ganhar

Por David Hines, publicado originalmente na revista Jacobite. Traduzido, resumido e adaptado para o português por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original em inglês, clique aqui.


Se há uma coisa na qual os direitistas acreditam, é que eles podem ganhar dos esquerdistas em uma briga.

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Só nesta foto você está vendo a coordenação de protestos de um partido político, dois sindicatos e uma associação de estudantes. Qual foi a última vez que você viu algo assim na direita?

Esta atitude se reflete a com tanta frequência que provavelmente já está arraigada na mente da direita. Virjões otakus morando na garagem dos pais contra a máquina mortífera da estratégia? Pfff, eles não tem a menor chance. Vejam, os direitistas tem as armas, a polícia e o exército do seu lado. Se algum dia a chapa esquentar, os direitistas simplesmente se organizarão por trás de uma liderança militar, coordenarão suas ações com os militares da ativa, atirarão todos os esquerdistas de helicópteros e viverão felizes para sempre, correto?

Era isso aí que os russos pensavam dos bolcheviques, e olha só no que deu.

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Por que me tornei de direita? – Parte 1

Este texto foi originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler na página original, clique aqui.

L Death NoteResolvi expor aqui as razões pelas quais eu me tornei de direita (ou conservador político, reacionário, coxinha… O que vocês preferirem). Vou fazer isso porque algumas pessoas não entendem a minha posição política e não poucas acham que eu me tornei de direita por mera modinha, sem ter qualquer base razoável para isso, mas apenas baseado em bordões, frases de efeito e ideias estereotipadas. Espero com este texto possa sanar algumas dúvidas e deixar claro para todos a minha posição.

Sobre a organização do texto, uma vez que ele ficou bem maior do que eu pensava que ficaria, resolvi dividi-lo em duas partes. Além disso, ele é subdividido em oito capítulos breves, que vão revelando aos poucos o passo a passo da minha transformação política, e uma conclusão. Vamos começar.

Capítulo 1: Como era o meu pensamento?

Até os meus 17 anos de idade eu não tinha o menor interesse em política. Minha visão sobre o assunto era a visão comum à maioria dos brasileiros. Ela se resumia no seguinte conjunto de ideias:

(1) só existem dois tipos de políticos: os honestos e os desonestos. No Brasil, os  desonestos são a maioria;

(2) os desonestos são aqueles que desviam verbas para encher os próprios bolsos e enriquecerem. Os honestos são aqueles que querem beneficiar o povão com coisas públicas;

Em outras palavras, eu acreditava que para o Brasil mudar apenas precisávamos de políticos honestos. Mais nada. Afinal, políticos honestos não roubariam dinheiro, mas, em vez disso, iriam criar e ampliar um monte de coisas públicas, beneficiando as pessoas pobres. Simples assim! “Se isso não acontece no Brasil”, pensava eu, “é porque há muita corrupção”.

A partir desses dois pensamentos acríticos eu concluía quase inconscientemente:

(3) que a raiz de todos os problemas do Brasil é, indiscutivelmente, a corrupção;

(4) que quem luta por coisas públicas é honesto e a favor dos pobres;

(5) que um governo bom é o que faz muitas coisas públicas;

(6) que qualquer manifestação de pessoas pobres contra pessoas ricas e/ou a   favor de coisas públicas é sempre algo bom, pois parte de gente honesta;

(7) que grandes empresários são o pior tipo de gente que pode existir (junto com   os políticos corruptos). Afinal, eles são donos de grandes riquezas privadas, e o   privado é ruim, o público é que é legal;

(8) que privatização é algo muito ruim;

(9) que o capitalismo é algo ruim;

(10) que os EUA são o pior inimigo do mundo;

(11) que o governo FHC não foi bom, pois privatizou empresas;

(12) e que o comunismo, embora tenha dado alguns “pequenos problemas” (mas “nada” tão grave e horrendo, como foram o nazismo, a ditadura militar brasileira ou as guerras feitas pelos norte-americanos), ele tem muitos princípios bons que podem ser usados no capitalismo para ajudar os pobres. Assim, ser marxista é algo bom; e só empresários e políticos corruptos são antimarxistas.

Pois bem. Essa era minha visão até os 17 anos de idade. E é válido ressaltar que eu achava política uma chatice. Quando alguém dizia a palavra política, geralmente me vinha à mente a visão de esquemas de corrupção revelados pelo “Fantástico”, na Rede Globo, ou de propagandas partidárias. Ou seja, eu era um prisioneiro do “senso comum”, da opinião medíocre, da unanimidade. Minhas crenças faziam parte de um saco de crenças que todo mundo que não entende e não tem interesse em política compartilha com alegria, achando-se muito inteligente.

Capítulo 2: Como e quando minha visão começou a mudar?

As coisas começaram a mudar quando eu estava no 3° ano do ensino médio. Eu me preparava para o vestibular e contraí uma preocupação: o atual ambiente acadêmico costuma a ser hostil ao cristianismo e aos cristãos. Como eu não queria ter embates com professores e alunos sobre minha fé sem que ter como responder racionalmente, passei a estudar sobre o assunto. Acabei descobrindo a apologética, um ramo da teologia que se ocupa em explicar, embasar e defender o teísmo e o cristianismo de maneira racional, baseando-se em campos de estudo como: filosofia, lógica, ciências naturais, história, arqueologia, literatura, filologia, princípios interpretativos básicos e etc.

Naquele momento, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos. Eu percebi que, embora a maior parte das pessoas não saiba (mesmo os cristãos), há milhares de sites e livros que tratam de temas apologéticos, respondendo com tranquilidade todas as críticas lançadas por acadêmicos antirreligiosos ao teísmo e ao cristianismo; críticas essas que são tolamente alardeadas pelas grandes mídias, a fim de vilipendiar a religião, causar polêmicas e ganhar audiência. Os livros apologéticos que descobri, aliás, são de autores renomados em suas faculdades, com títulos de doutorado e pós-doutorado nas mais diversas áreas de estudo.

O interesse que ganhei pela área apologética dura até hoje. Eu passaria os dois anos seguintes àquela descoberta em intenso estudo individual. Ora, seria justamente este estudo que me introduziria também à política. Como? Vamos ver.

Os três sites que eu mais lia sobre apologética eram “Quebrando o encanto do neoateísmo”, “Luciano Ayan” e “Teísmo”. Os três sites tinham como objetivo não só apresentar argumentos racionais para o cristianismo, mas atacar argumentos falhos e desonestos de neoateus.

Quem são os neoateus? Peço muita atenção do leitor agora. Neoateus são ateus antirreligiosos e militantes. Eles não apenas descreem de Deus, mas também odeiam a religião, são hostis aos religiosos e passam a maior parte de seu tempo livre tentando “desconverter” pessoas e lançando ofensas diversas contra crentes, crenças e símbolos religiosos. Para eles, todas as religiões são nocivas e precisam ser extintas da terra. E eles lutam diariamente por isso.

O problema dos neoateus não é só a agressividade e o desrespeito à liberdade religiosa. Além disso, eles também são desonestos intelectualmente. Eles não estudam nada do que dizem renomados intelectuais religiosos, lançam argumentos falaciosos e mentiras, fazem interpretações absurdas da Bíblia (a fim de forçar contradições) e põem na conta das religiões todos os males do mundo.

Se o leitor é ateu, mas não se sente representado por este tipo de gente, não é necessário ficar chateado comigo. Há uma diferença grande (ou melhor, enorme) entre um ateu e um neoateu. Um ateu é aquele cara que simplesmente não acredita em Deus, mas que não se importa se outras pessoas acreditam. Desde que a crença das outras pessoas não interfira na sua vida, ele não vê problema na existência de religiões. Ele até consegue ver bons ensinamentos em cada uma delas e apenas condena fanatismos. Um ateu às vezes até se esquece de que é ateu. Isso é algo que não ocupa muito a sua mente, assim como uma pessoa que não acredita em alienígenas não costuma a se ocupar muito pensando nesse fato.

Pois bem, os três sites do qual eu falava criticavam radicalmente neoateus apenas, e não meros ateus. Para os autores desses sites, os neoateus não eram sequer considerados dignos de respeito, em função de sua postura suja; eram tratados como desonestos e picaretas intelectuais, e ninguém deveria se ocupar em convertê-los, mas em desmascará-los diante daqueles que pretendiam enganar com suas mentiras.

Ora, não demorou muito para que os autores desses três sites (que mantinham uma boa correspondência entre si) começassem a perceber que o neoateísmo estava fortemente relacionado a doutrinas políticas de esquerda, como o marxismo, o humanismo social, o anticlericalismo revolucionário, o globalismo, os diversos socialismos, o feminismo radical, o gayzismo e etc. Como se dá essa relação? Vamos entender.

A esquerda política, desde seu surgimento, sempre pregou uma visão otimista do ser humano, na qual ou ele é bom por natureza (tendo sido corrompido por fatores sociais), ou ele é moralmente perfectível (isto é, que é capaz de caminhar para a perfeição ou algo bem próximo disso). Daí decorre a crença esquerdista de que o ser humano é plenamente capaz de transformar o mundo, através da destruição dos fatores sociais que causam a crueldade, a injustiça e a exploração, e, em última instancia, da própria sociedade hoje existente, a fim de se construir outra. E como fazer isso? Ora, colocando as pessoas certas no governo, dando muito poder a essas pessoas e destruindo os grupos inimigos que impedem a ação desse governo iluminado. Essa é a receita de todas as revoluções de esquerda desde a revolução francesa, mãe de todas.

O neoateísmo tem muitas ideias semelhantes ao pensamento revolucionário de esquerda. Ele não entende a natureza do homem como a principal culpada pelos males do mundo, mas acredita que a crença em Deus é a responsável por criar injustiças, guerras e crueldades. Ele também enxerga o homem como um ser perfectível, que pode mudar o mundo se destruir todas as religiões.

Finalmente, pelo fato de negar a Deus, o neoateísmo tende a substituir Deus por outra autoridade (ou mais de uma), e a substituir a esperança da vida eterna no paraíso pela esperança de um paraíso efêmero aqui na terra. Por estas semelhanças, muitos neoateus acabam por aderir a doutrinas da esquerda política, passando a usar sua fúria antirreligiosa a favor do esquerdismo. Seu objetivo pessoal é conseguir formar um governo de esquerda antirreligioso que destrua a religião e crie o paraíso ateu desejado.

Por outro lado, a esquerda sempre teve muita influencia do pensamento ateísta e do pensamento antirreligioso. Não que todo o esquerdista seja ateu, porém quanto mais uma pessoa se torna esquerdista, mais ela tende a se afastar da religião. Afinal, para o esquerdista radical, não há espaço para um paraíso que não seja aqui na terra, nem para uma autoridade maior que o seu partido, seus líderes revolucionários e seu ideal de justiça social.

Assim, muitos esquerdistas acabam se tornando ateístas, e logo adiante, neoateus, associando a crença em Deus a um dos fatores que oprimem a sociedade. Aliás, os criadores do comunismo, Marx e Engels, afirmavam que a religião era uma das ilusões criadas pelo cenário econômico de exploração. A religião era, portanto, um ópio para as classes exploradas, bem como um mecanismo de manobra de massas utilizado pelas classes exploradoras.

Ademais, devemos ressaltar que tanto esquerdistas radicais, quanto neoateus, estão muito interessados em criar uma cultura onde a liberdade sexual sem limites seja vista como normal, saudável, bela e aceitável por todos. Ou seja, eles não querem só ter liberdade para fazer o que quiserem em matéria de sexo, mas querem destruir o direito de qualquer pessoa achar errado aquilo que fazem. Essa é uma das razões pelas quais esquerdistas radicais e neoateus odeiam a moral judaico-cristã. Há outras também.

Capítulo 3: Tonando-me um antirrevolucionário

Quando entendi essa relação íntima entre neoateísmo e esquerdismo, comecei a perceber que política não se resumia apenas a “honestos x desonestos”. Ela envolvia um conflito de visões de mundo também; visões estas que permanecem bem vivas hoje e que fazem muita diferença na prática.

Foi ali que eu compreendi o que estava em jogo na política e qual era o meu papel naquilo tudo. Eu não poderia votar em um partido ou um indivíduo que acreditasse na ideia de que o ser humano é bom por natureza e capaz de transformar o mundo. Essa é uma ideia ridícula. Há milênios o ser humano tem se mostrado incapaz de erradicar a injustiça e a maldade. E isso ocorre por um motivo simples: todos são, em maior ou menor grau, imperfeitos. Assim, todo aquele que se levanta para tentar erradicar a injustiça, tende também a cometer injustiças.

Desde a idade mais tenra, já nos vemos contando mentirinhas aos nossos pais, brigando com o coleguinha, desejando o que não é nosso, fazendo pirraça, não querendo limites, fazendo vingançazinhas. Não somos uma tábua rasa. Nascemos inclinados à imperfeição. Isso pode ser atestado tanto por meio da observação do nosso cotidiano e dos exemplos da história, como pela ciência. A ciência reconhece que o ser humano compartilha com os animais uma série de instintos. Esses instintos naturais não são morais e podem facilmente se transformar em atos cruéis. O instinto sexual, o instinto de bando, o instinto gregário e outros são exemplos de inerências que nos impelem a fazer coisas erradas.

A diferença entre homens e animais é que os primeiros apresentam razão, podendo refletir sobre seus atos e fazer escolhas. Mas isso não é um motivo para crermos em sua perfectibilidade. Ao contrário, a razão faz do homem um ser muito mais cruel e perigoso do que os animais, pois com ela o mesmo pode avaliar o prazer que o mal pode lhe proporcionar e maquinar o mal contra a sua própria espécie. Do ponto de vista da ciência, somos tão animais como os animais irracionais, o que significa que a selvageria está em nós e isso não pode ser mudado.

Do ponto de vista da Bíblia, o ser humano sempre foi visto como pecador. Ou seja, o homem passou a ser inclinado à imperfeição por natureza após sua raça ter escolhido cometer o primeiro pecado. A sua obrigação desde então é se esforçar individualmente para não fazer o mal e, a nível político, criar leis que tornem mais difícil a propagação do mal. Mas esse mal não tem como ser extinto.

Ainda que o mal não fosse algo natural, mas social, isso não prova que o homem é capaz de se descorromper socialmente para poder descorromper a outros. A história evidencia que isso não é possível. E a própria lógica também. Para descorromper a outros, uma pessoa deveria se descorromper totalmente primeiro. Se você não consegue se descorromper nem a si mesmo, como ajudará os outros?

Portanto, a ideia esquerdista de encher alguns homens de poder para mudar a sociedade e destruir supostos inimigos é totalmente utópica e perigosa. Dar muito poder a homens é pedir para fazer deles pessoas mais cruéis e autoritárias. É dar ao Estado o aval para administrar mal, roubar verba pública, perseguir dissidentes e causar enormes genocídios. Até Montesquieu, que não acreditava que o homem fosse naturalmente inclinado ao mal, sabia que o poder corrompe. Ele diz em um de seus livros que: “Todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”. Isso é algo lógico! Qualquer pessoa de bom senso entende isso. Eu jamais poderia, então, endossar a crença no homem.

A partir daquele ponto, através de leituras e mais leituras, minha atenção foi sendo chamada para os problemas que regimes baseados nessas ideias causaram em diversos países. Era lógico sendo provado na prática! Em todo lugar em que muito poder foi colocado nas mãos do Estado, a fim de que este mudasse a sociedade, o que aconteceu foi uma série de desgraças.

Os males do comunismo eram os que mais saltavam aos olhos. Tanto na URSS, como na China, no Camboja, na Coréia do Norte, no Vietnã, em Cuba e etc., o regime comunista gerou grotescas ditaduras, genocídios por repressão, inanição forçada e desastres econômicos. Pela primeira vez tive acesso à informação de que os regimes comunistas pelo mundo geraram mais de 100 milhões de mortos. Pela primeira vez eu fiquei sabendo sobre o genocídio de Holodomor, na Ucrânia, entre 1930 e 1932, e do genocídio chinês, entre 1956 e 1962, e do genocídio cambojano, em 1975 (este último matando um quarto da população!). Qualquer pessoa honesta e com um mínimo de senso das proporções conseguiria perceber que o comunismo foi um mal tão ruim ou até pior que o nazismo.

Não obstante, observei que os esquerdistas se agarravam tanto a suas crenças que não sentiam qualquer embaraço ao elogiar e se guiar pelas ideias de Marx. E mesmo aqueles que não eram comunistas, permaneciam defendendo a maioria das ideias de Marx, disseminando ódio entre classes, lutando para formar um Estado cheio de poder, atacando religião e religiosos, simpatizando com ditadores de esquerda, defendendo os antigos regimes comunistas, militando contra a liberdade de expressão de conservadores, colocando sua fé em líderes revolucionários, orientando suas ações em prol de futuro utópico imaginado por eles e etc.

Em vista disso tudo me tornei anticomunista, antimarxista, antirrevolucionário e totalmente contrário a governos que pretendem inchar o Estado com enormes poderes políticos e econômicos. Se eu era de direita? Ainda não. Eu apenas era um cético da esquerda e do pensamento revolucionário. O direitismo ainda viria posteriormente.

Capítulo 4: Adesão ao liberalismo econômico

Embora eu tivesse entendido o tamanho do mal que representava a crença no homem propagada pela esquerda, eu não sabia bem o que defendia a direita, tampouco tinha noção do que um governo deveria fazer na prática para administrar um país, estado ou cidade. Nessa parte, curiosamente, eu ainda estava bastante preso a muito senso comum. Eu ainda achava que privatizações eram ruins, não sabia fazer distinção entre um governo de direita e um de esquerda moderada, e tinha aquela visão distorcida de que a direita é a favor de ditaduras (desde que não sejam comunistas).

Meu pensamento sobre a direita poderia ser resumido assim: “Se ser de direita é concordar e desejar uma ditadura militar, definitivamente não sou de direita. E se a extrema direita é o nazismo, então prefiro me distanciar dessa posição. Sou de centro”.

Ocorre que minha opinião não era baseada no que os autores de direita diziam, mas apenas em senso comum. Eu não conhecia nenhum autor de direita. Simplesmente não sabia o que a direita defendia. Na medida em que entendi isso e tive mais contato com direitistas, passei a ler os autores de direita. E isso fez toda a diferença!

Comecei entendendo mais sobre a economia. Pela primeira vez soube qual era a versão direitista sobre as privatizações. Longe de ser uma defesa dos milionários e um ataque aos pobres que não tem dinheiro para pagar coisas privadas, as privatizações pretendem sanar dificuldades inerentes ao setor público e melhorar a condição de toda a sociedade. Como? Vamos analisar os problemas do setor público.

Empresas públicas não precisam se preocupar com o risco de ir à falência ou com a competição para estar entre as maiores empresas. Sua situação é estável, pois seu dinheiro é público, nunca acaba. Aliás, se uma empresa pública contrai muitas dívidas, quem paga somos nós. Se uma empresa pública vai mal, ela é beneficiada com mais dinheiro do governo. Isso cria uma tendência, tanto de seus administradores como de seus funcionários de se acomodarem, não fazendo um bom trabalho ou não dando o melhor de si. A estabilidade dos funcionários públicos apenas reforça isso. Além do mais, o governo não tem capacidade para gerir tantas empresas e mais os problemas do país. Desta forma, é comum que os serviços públicos sejam inferiores aos privados e que deem muitos déficits públicos.

O resultado é que o povo não é bem atendido pelos serviços públicos e ainda é obrigado a pagar altos impostos para manter essas empresas. Como se não bastasse, as empresas públicas deficitárias também geram inflação de moeda. A inflação é um modo que o governo tem de saldar suas dívidas injetando mais dinheiro no mercado. Para o governo é bom, para o povo não, pois só os primeiros a utilizarem o novo dinheiro criado se beneficiam. Quando o dinheiro chega ao povo, todos os preços já aumentaram para equilibrar a nova quantidade de dinheiro na economia. Mas as empresas privadas e o povo em geral continuam recebendo os mesmos salários. Então, se você ganhava R$ 1.000,00 por mês e comprava carne por R$ 15,00, continua a ganhar R$ 1.000,00 por mês, mas agora compra carne por R$ 20,00.

Serviços públicos ruins, impostos, inflação… Como se já não fosse muito, quanto mais empresas públicas se têm, mais a estrutura pública se torna grande e complexa de ser administrada e mais dinheiro vai para as mãos do governo. Isso aumenta a dificuldade de fiscalização, as chances de desvios ou gastos desnecessários, esquemas de corrupção e o pior: o poder do governo. Um governo com muito dinheiro e que tem tentáculos em tudo quanto é setor, se torna mais poderoso. O risco de ele se tornar totalitário e ditatorial, tanto econômica como politicamente, é muito grande.

É claro que isso não quer dizer que nada possa ser público ou que uma empresa pública não possa ser relativamente bem gerida. Mas a tendência é o setor público ser inferior. Os riscos de um país ter esses problemas quando possui muita coisa pública são bem grandes e os exemplos da história comprovam que (para ser claro) geralmente isso dá merda!

Agora, empresas privadas não possuem esses problemas. Uma empresa privada, precisa estar constantemente preocupada em não falir e ficar bem na concorrência entre as outras empresas. Se não fizer isso, ela não terá dinheiro público (ou, pelo menos não deveria ter) para resolver a situação. O dinheiro das empresas privadas é finito. Assim, tanto administração como os funcionários são instados a trabalharem bem. Quanto mais concorrência há, mais as empresas tendem a buscar melhoras nos serviços, agilidade e maneiras de diminuir preços. Isso é óbvio!

Que o setor privado também tem problemas isso é evidente! Mas são problemas muito menores e mais facilmente contornados. A regra geral é que o setor privado tende a ser mais eficiente e menos perigoso. E o que o Estado pode fazer para permitir esse cenário de maior eficiência? Basicamente reduzir dificuldades burocráticas e financeiras para que as pessoas abram, mantenham e desenvolvam empresas. Fazendo isso, muitas empresas surgem e se desenvolvem, gerando empregos e concorrência. A concorrência tende a sufocar a manutenção perpétua de monopólios, fazendo com que a luta por maior eficiência seja maior. O resultado é que o povo tem mais empregos, melhores serviços, preços mais baixos, menos impostos, menos inflação.

Isso não ocorre da noite para o dia. Uma economia, para se dinamizar, demora muitos anos. É por isso que trabalhistas odeiam o setor privado, o livre mercado, os baixos impostos e a pouca burocracia estatal. Por que tudo isso leva a um vagaroso e penoso desenvolvimento econômico. Sobretudo se o país em que isso for implantado não apresentar uma boa industrialização.

É neste ínterim que entendemos como a privatização é um processo que só demonstra resultados em longo prazo. No início, uma empresa privatizada pode gerar cortes de funcionários e até mesmo aumento no valor dos produtos. Isso ocorre porque os resultados negativos da má gestão pública precisam ser equilibrados. A empresa privada não dispõe mais do dinheiro eterno que a empresa pública dispunha. Mas em longo prazo, se (e somente se) o governo abrir o mercado e incentivar a competição, a empresa privatizada equilibrará o orçamento e lutará para ser mais eficiente, gerando o cenário que já comentei.

Vê-se, portanto, que apenas a privatização não é suficiente. O governo precisa garantir o surgimento de concorrência. No princípio eu não percebi isso. Achava que bastava privatizar era o suficiente. Com mais leitura eu entenderia posteriormente que a abertura do mercado e o incentivo máximo a competição são essenciais para que o processo de privatização seja positivo. Se o governo não incentiva a concorrência, vão surgir os monopólios privados, que são tão nocivos quanto os monopólios públicos

É importante salientar que hoje eu acho aceitável a manutenção de uma ou outra empresa pública, contanto que ela não seja um monopólio no ramo em que atua, podendo ser comparada a concorrentes privadas, e que não haja a estabilidade empregatícia. Isso diminui consideravelmente os problemas que podem ser causados pela empresa por ser pública.

Mas voltando à questão do setor privado, quando compreendi a verdade de que a privatização sozinha não é o suficiente, aí entendi como que o intervencionismo estatal na economia é um dos maiores responsáveis por monopólios privados. Quando o governo dificulta a vida das empresas privadas, apenas as empresas mais ricas e poderosas conseguirão permanecer lá no alto da competição. As empresas menores ou não terão chances de crescer e galgar os primeiros lugares, ou desaparecerão.

Isso significa que a grandes empresas ficam protegidas dentro de um governo intervencionista. Elas aceitam pagar altos impostos e lidar com grande burocracia porque, em contrapartida, vão continuar no topo para sempre. É por isso que o Olavo de Carvalho afirma que apenas os pequenos e médios empresários desejam o livre mercado, isto é, o capitalismo mais puro. Os grandes, os mega, aqueles que já construíram um império e estão sólidos, estes querem mais um governo interventor, a fim de não precisar lidar com uma concorrência constante. Por mais irônico que pareça, os grandes capitalistas atuais são anticapitalistas.

O governo intervencionista, por sua vez, aceita que essas empresas continuem no alto porque fecham conchavos com elas, tanto para que as mesmas financiem suas campanhas políticas, quanto para que juntos eles possam desviar verbas. Além disso, um governo que detém seus empresários privados nas mãos é tão poderoso quanto um governo que tem muitas empresas públicas. O leitor compreende?

Aqui aprendi algo importante. Quem defende o livre comércio? A direita. Quem defende o intervencionismo estatal? A esquerda. Então, pelo menos economicamente, o fascismo e o nazismo pertencem a qual espectro? Exatamente, leitor: essas doutrinas pregam aquilo que a esquerda prega em matéria de economia. Elas falam em forte controle do Estado sobre as empresas privadas, usando o discurso de “reestruturar a sociedade”. Mas na prática esse intervencionismo é um casamento entre grandes empresas e o governo. E o livre mercado não defende isso. Nunca defendeu. O nome já diz: “livre” mercado. Se você coloca o governo na equação e tira a concorrência da jogada, isso não é liberdade de mercado.

Ora, o nazismo alemão era um socialismo. E agiu estendendo seus tentáculos por todo o setor privado. O criador do fascismo italiano, Mussolini, era um tinha sido um marxista que entendeu que o Estado nunca seria superado e que ele precisava ser mais pragmático para mudar a sociedade. Sua frase síntese do fascismo era “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”; e isso é rigorosamente a mesma coisa que a ditadura socialista do proletariado propunha (só que dizendo que isso era um estágio “temporário”). Então, compreendi que, chamar essas doutrinas de direitistas é uma tolice sem tamanho. Pelo menos no aspecto econômico. O mesmo se poderia dizer da ditadura militar brasileira, extremamente intervencionista.

Em suma, entendi que a direita defende uma economia mais livre e que a mesma é muito superior às economias intervencionistas. Descobri neste ponto também que há alguns rankings anuais interessantes que indicam o grau de liberdade econômica de um país, a facilidade de se fazer negócios e a competitividade empresarial. São, por assim dizer, medidores de capitalismo. E invariavelmente os países mais bem colocados nos tais rankings são os que oferecem maior qualidade de vida para o povo. E os piores colocados são os países mais injustos, antidemocráticos e pobres. Coincidência? Claro que não! Em outras palavras, o capitalismo não era, então, o monstro que pintavam!

Capítulo 5: Adesão ao conservadorismo político

Quando alguém percebe como o capitalismo foi um dos responsáveis, em longo prazo, pela melhora na qualidade de vida de muitos países, existe uma tendência a enxergá-lo com otimismo demasiado. Foi assim com o Adam Smith (que merece ser desculpado, pois o capitalismo ainda estava surgindo) e é assim até hoje com diversos direitistas. Não foi muito diferente comigo, embora eu não tenha chegado a me tornar um extremista.

Dentro da direita, assim como na esquerda, existem graduações no que tange o pensamento econômico. Eu vejo quatro tipos na direita: os conservadores políticos, os liberais econômicos, os libertários e os anarco-capitalistas. O que os diferencia é o nível de ceticismo/confiança em relação ao livre mercado.

Os conservadores geralmente são adeptos da liberdade econômica, mas reconhecem que ela tem muitas limitações e que gera muitos problemas se não andar de mãos dadas com uma boa base moral, espiritual e cultural na sociedade, um respeito pelo o que o passado nos ensina, pelas tradições e instituições milenares e pela dignidade do ser humano e, finalmente, um bom conjunto de leis democráticas e não tirânicas. O liberalismo econômico não deve suprimir essas coisas em hipótese nenhuma, pois o princípio da revolução é justamente esse: destruir tudo o que levou tempo para construir e colocar o destino da sociedade nas mãos de um futuro que não conhecemos, desprezando as lições do passado.

Os liberais econômicos já pensam mais na liberdade econômica do que nessas outras questões, tendendo a ignorá-las ou reduzir sua importância. Acreditam que só o livre mercado já é capaz de resolver quase todos os problemas causados pelo estatismo da esquerda. Sustentam também que a liberdade é o bem mais importante que existe e deve ser colocado em um pedestal. O liberal extremo é um libertário. E o libertário extremo é um anarco-capitalista. Um anarco-capitalista acredita tanto no livre mercado que acha possível criar uma sociedade sem estado, apenas baseada nas leis que já vimos de competição econômica. Nesse cenário, tudo seria privado e competiria entre si. Até mesmo (pasmem!) a polícia e a justiça. Não haveria governo e impostos.

Quando descobri isso, entendi que essa é a verdadeira “extrema-direita”. E aí comecei a analisar um pouco do pensamento conservador. O conservadorismo, a meu ver, é muito mais sensato que o mero liberalismo, pois ele não cai no mesmo otimismo no homem e idealismo utópico que as revoluções de esquerda. Ao contrário, mantendo o ceticismo em relação a um mundo perfeito, ele leva o conservador a aprender as lições do passado e daquilo que precisa ser conservado (como a família, a moral, as tradições, as instituições milenares, a hierarquia, o Estado, a educação familiar e individual, a espiritualidade, a dignidade humana e a visão realista do ser humano como um ser inclinado ao mal e imperfeito). Isso impede que o conservador deposite confiança em projetos mirabolantes e idealismos utópicos.

Para o conservador, a mudança é boa, mas deve ocorrer de modo muito pensado, geralmente gradual e respeitando os limites da realidade. Destruir a sociedade como conhecemos para construir outra, totalmente distinta, é algo que nunca dá certo. Todos os movimentos revolucionários como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, o Stalinismo, o Nazismo, o Fascismo, o Maoísmo e etc. geraram apenas destruição, crueldades, miséria, violência, abuso de poder e genocídios.

A premissa básica de toda a revolução é esta: destruir esta sociedade, com seus maiores inimigos (sejam burgueses, ou negros, ou judeus, ou gays, ou cristãos, ou religiosos, ou a moral, ou uma cultura, ou um sistema e etc.) e construir outra no lugar, com novas regras, crenças, moral, cultura, religião e heróis revolucionários. Todo o sistema que se propõe a fazer isso pisa no passado e põe sua confiança em um futuro idealizado. E isso é algo totalmente contrário ao pensamento conservador.

O comunismo tal como apresentado em “Manifesto do Partido Comunista”

Texto de Davi Caldas publicado também em seu blog “Mundo Analista“.

Karl Marx e Friedrich Engels

Comunismo, ditadura e autoritarismo

O comunismo até hoje é visto como uma teoria político-econômica bem intencionada que só não deu certo porque foi deturpada. A ditadura e o autoritarismo dos governos comunistas ao longo do século XX sempre foram maquiados pelos marxistas com o rótulo de regimes legitimamente representantes do povo, de modo que, suas ações aparentemente autoritárias eram da vontade do proletariado e, portanto, democráticas. Na medida em que esta maquiagem foi se tornando cada vez mais insustentável, muitos marxistas passaram a sustentar que estes regimes comunistas autoritários não foram comunistas de verdade; eles deturparam o verdadeiro marxismo.

Mas a verdade é que o comunismo é autoritário e ditatorial por natureza. Não houve uma deturpação. Ele se tornou, na prática, o que foi projetado para ser na teoria. A obra marxista mais famosa do mundo (“Manifesto do Partido Comunista”), que apresenta um passo a passo bem objetivo do que os comunistas pretendiam fazer, comprova isso. Analisemos alguns trechos:

Vimos acima que o primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia. O proletariado utilizará seu domínio político para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível a massa das forças produtivas.

Isso naturalmente só poderá ser realizado, no princípio, por uma intervenção despótica no direito de propriedade e nas relações burguesas de produção, isto é, por medidas que parecem economicamente insuficientes e insustentáveis, mas que, no curso do movimento, ultrapassam a si mesmas e são inevitáveis para revolucionar todo o meio de produção. [1].

Esse texto começa traçando um objetivo: dar ao proletariado o poder político, de modo que ele se torne classe dominante. Mas é óbvio que Marx e Engels, ao escreverem isso, não achavam que cada um dos proletários existentes iria receber literalmente uma parte do poder político. É claro que nenhum marxista achava que todos os proletários em cada país iriam se tornar políticos e se reunirem todos os dias, aos milhões, em uma câmara maior que dez estádios do maracanã para discutir propostas políticas e econômicas. Isso é inviável! Da mesma forma, seria inviável que cada país comunista adotasse um modelo federalista e descentralizado de Estado, a fim de que em cada pequena região do país todos os proletários pudessem participar ativamente das decisões políticas. Afinal, o comunismo tinha que seguir um único rumo para vigorar.

Então, o que o texto na verdade pressupõe é que o proletariado alcançará poder político de modo indireto, através da ascensão de uma parte dele, isto é, de alguns representantes da classe, que terão a incumbência de fazer a sua vontade. Esses representantes formam o partido. E é evidente que o partido terá um líder, que fatalmente acabará se tornando o líder da nação quando o partido alcançar a hegemonia política. Em resumo: o poder político concentrado nas mãos do proletariado significa o poder político concentrado nas mãos do partido político, da sua cúpula central e, sobretudo, do seu líder.

Marx e Engels não eram idiotas. Sabiam disso. Só que eles acreditavam (ou fingiam acreditar) que um partido proletário, uma vez no poder, iria inevitavelmente fazer a vontade de sua classe. É por isso que eles diziam que isso era democracia: se o partido faria a vontade do povo, o povo estaria no poder.

Se você entendeu essa relação, então agora entende que quando Marx e Engels dizem que o proletário tiraria pouco a pouco o capital da burguesia, centralizaria os meios de produção nas mãos do Estado, aumentaria a massa das forças produtivas, interviria de maneira despótica e tomaria medidas que “parecem” economicamente insuficientes, estão dizendo, de maneira velada, que o sujeito de todas essas ações é o partido. Tenho para mim que o nome da obra “Manifesto do Partido Comunista” é uma evidência disso. Por que não “Manifesto do Proletariado Comunista”?

Em seguida, o documento começa a enumerar as ações autoritárias que colocaria em prática gradualmente, quando o partido estivesse no poder, até conseguir estatizar toda a economia. Vejamos o passo a passo por partes [2]:

1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado.

2. Imposto fortemente progressivo.

A expropriação de terras dos ricos já é, por si só, um roubo. O fato de um proprietário ser rico não dá direito ao Estado de tomar aquilo que lhe pertence. Mas ainda que nós concordemos, para o bem do argumento, que esta ação se justifica, pois visa o bem estar dos pobres, perceba que o governo pretendia usar a renda das terras nas despesas gerais do Estado e taxar, progressivamente, os trabalhadores. Ou seja, o trabalhador, no fim das contas, seria marionete do Estado, que é o partido.

Os países em que estas duas medidas foram aplicadas de maneira mais rigorosa foram a Ucrânia, entre 1931 e 1933, a China, entre 1958 e 1960 e o Camboja, em 1975. O resultado foi aterrador: cerca de 36 milhões de pessoas morreram vítimas de repressão, fome forçada, miséria causada pela ineficiência do sistema.

3. Abolição do direito de herança.

4. Confisco da propriedade de todos os emigrados e rebeldes.

Olhe que legal: você não tem mais direito de deixar o que conquistou na vida para quem você ama. Se você morre, seus bens vão para o Estado, que é o partido. Isso se você conseguir juntar alguma coisa em um regime comunista, o que é bem difícil, diga-se de passagem. O estrangeiro também sai perdendo, é evidente. Mas o que me impressiona mais aqui é o confisco da propriedade dos chamados “rebeldes”. Neste ponto, Marx e Engels estão dizendo o seguinte: se você discordar do regime, o Estado vai tirar tudo o que você tiver. Amigos, se isso não é a total legitimação da opressão estatal, então eu sou o Napoleão Bonaparte e tomei vinho com Platão ontem, no Planalto Central.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.

Quando chegamos neste momento, percebemos que o proletário já não tem para onde fugir da presença do Estado. Ele trabalha para manter os custos do governo, é taxado de maneira cada vez mais forte e o pouco dinheiro que lhe resta fica em um banco estatal, que pode, evidentemente, usurpar seu salário na hora que bem entender.

6. Centralização dos meios de transporte nas mãos do Estado.

7. Multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos de produção; cultivo e melhoramento das terras segundo um plano comum.

Quando Marx e Engels disseram que as medidas tomadas pelo governo pareceriam economicamente insuficientes e insustentáveis, eles sabiam muito bem do que estavam falando. É preciso muita confiança na capacidade administrativa do governo para crer que o Estado pode gerir todas as empresas e setores da sociedade, conduzindo milhares de segmentos segundo um único e gigantesco plano administrativo. É a mesma coisa que acreditar que uma única dona de casa seria capaz de administrar todas as cozinhas e cozinheiras da cidade de São Paulo ou que o presidente da Google poderia chefiar sozinho todos os setores e funcionários de sua multinacional. Isso é loucura!

Pedagogia Infantil Comunista

Pulo para o passo número 10 para mudar um pouco de assunto e falar sobre a pedagogia infantil comunista. Observe o que Marx e Engels afirmam:

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas em sua forma atual. Combinação da educação com a produção material, etc.

Na edição que tenho de “Manifesto do Partido Comunista”, há alguns anexos interessantes na obra. Um deles é o texto “Os princípios do comunismo”, escrito por Engels no final de outubro de 1847 em uma reunião da Liga dos Comunistas, onde se discutia um projeto de “Confissão de fé comunista”. Sobre a educação pública para as crianças, Engels afirma que ela deveria ocorrer “a partir do instante em que [as crianças] possam prescindir dos cuidados maternos, em estabelecimentos nacionais e a cargo do Estado” [3]. Em outras palavras, elas deveriam ser doutrinadas pelo Estado desde bem pequenas.

Um trecho interessante de “O Manifesto” afirma o seguinte sobre a doutrinação das crianças pelo Estado:

Mas dizeis que abolimos as mais sublimes relações ao substituirmos a educação doméstica pela educação social. E vossa educação, não é ela também determinada pela sociedade? […] Os comunistas não inventaram a influência da sociedade sobre a educação; procuram apenas transformar o seu caráter, arrancando a educação da influência da classe dominante [4].

Quer dizer: a educação estatal é importantíssima para o comunismo, nem tanto por uma preocupação com o acesso das crianças aos estudos, mas muito porque o Estado comunista precisa se certificar que você não estará dando uma educação burguesa ao seu filho. Então, você não tem o direito de educar seu filho em casa, mas deve deixá-lo aos cuidados do Estado desde a mais tenra idade.

Não é à toa que O Manifesto também afirma que uma das medidas básicas do regime seria instituir o trabalho obrigatório igual para todos. Ou seja, a mãe não tinha a opção de só ficar em casa, educando o filho. Ela deveria trabalhar como qualquer outra pessoa e o filho, assim que desmamasse, deveria ser introduzido à educação estatal. Isso é curioso, porque logo em seguida Marx e Engels criticam a burguesia por romperem os laços familiares dos proletários através da exploração que empunham aos mesmos (sobretudo às crianças). O que se está propondo aqui, portanto, é substituir seis por meia dúzia.

A verdade é que Marx e Engels estavam pensando mais em uma estratégia para manter o regime comunista do que nas relações familiares. Então, pouco importava se o regime comunista acabaria mantendo os pais tão longe dos filhos quanto no capitalismo (ou até mais). A questão principal não era resolver este problema. A questão principal era que as crianças precisavam ser doutrinadas pelo Estado desde pequenas.

E o que as crianças aprenderiam na educação estatal obrigatória dos comunistas? Bom, elas iriam aprender principalmente a ter uma concepção materialista da história. Afinal, os comunistas sabiam que os maiores empecilhos para que o próprio proletariado aceitasse o comunismo eram as ideias provenientes dos questionamentos filosóficos e religiosos. Essa era a “educação burguesa” que os comunistas não queriam que o proletariado passasse para seus filhos. Veja o que Marx e Engels dizem:

As acusações contra o comunismo feitas de pontos de vista religiosos, filosóficos e ideológicos em geral, não merecem uma discussão pormenorizada. Será necessária uma profunda inteligência para compreender que, com a modificação das condições de vida dos homens, das suas relações sociais, da sua existência social, também se modificam suas representações, suas concepções e seus conceitos, numa palavra, sua consciência? O que demonstra a história das ideias se não que a produção intelectual se transforma com a produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram apenas as ideias dominantes da classe dominante [5].

Aqui Marx e Engels querem que compremos as seguintes ideias:

(1) objeções religiosas e filosóficas são tão idiotas e desprezíveis que não precisam ser avaliadas pelos seus leitores;

(2) o homem não é um ser inclinado ao mal por natureza. Sua consciência é moldada de acordo as condições materiais da sociedade;

(3) o materialismo é uma obviedade tão grande que seus leitores também não precisam avaliar e que é inadmissível que alguém discorde. A pessoa que o faz é um imbecil;

(4) as ideias filosóficas e religiosas são pura e simplesmente expressões das relações materiais existentes no interior da luta entre as classes. Por isso, não valem a atenção do leitor.

A dupla continua:

Fala-se de ideias que revolucionam uma sociedade inteira; com tais palavras exprime-se apenas o fato de que, no interior da velha sociedade, formam-se os elementos de uma sociedade nova e a dissolução das velhas ideias acompanha a dissolução das velhas condições de existência [6].

Se as ideias não têm valor, antes são apenas meras abstrações que expressam a condição material da sociedade e as relações opressor/oprimido, sendo dissolvidas cada vez que alguma coisa muda no contexto material, então questionamentos filosóficos e religiosos não podem jamais fazer frente ao comunismo. Como se torna claro, a importância do materialismo residia nisso: em destruir argumentos contrários.

O leitor atento vai perguntar: “Ora, mas o comunismo também não era uma ideia? A crítica ao valor das ideias é um tiro no pé”. Ah, mas Marx e Engels sabiam disso. E é por isso que eles fazem questão de dizer:

As proposições teóricas dos comunistas não se baseiam de forma alguma em ideias, em princípios inventados ou descobertos por esse ou aquele reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições efetivas de uma luta de classes já existente, de um movimento histórico que se desenrola sob nossos olhos [7].

Notou a estratégia? Nossos amigos pregavam que o comunismo não era uma ideia, nem era composto por elas. O comunismo era como uma ciência exata, para Marx e Engels; algo como “2 + 2 = 4”. Era uma doutrina baseada em fatos brutos e concretos, que poderiam ser perfeitamente conhecidos através do empirismo.

Marx e Engels ensinavam que o comunismo era um “socialismo científico”. Isso significa que com as lentes do comunismo você conseguiria olhar claramente para a história do mundo, observar “fatos incontestáveis” da história e prever “cientificamente” o que exatamente iria acontecer (da mesma forma como, por exemplo, um cientista observa objetos distintos caindo milhares de vezes, em tempos e lugares diferentes, e conclui que há uma força que puxa os objetos para baixo, e que, se ele jogar uma pedra agora do quinto andar de seu prédio, ela também será puxada para baixo por essa força).

Com essa estratégia, a dupla podia criticar todas as ideias contrárias ao comunismo, taxando-as de expressão material e, ao mesmo tempo, afirmar o comunismo como uma ciência exata, e a revolução proletária como uma inevitabilidade. O comunismo, assim, tornava-se uma profecia e todas as outras ideias, heresias da burguesia.

Eram essas coisas que Marx e Engels desejavam que todas as crianças aprendessem na escola. A preocupação com a educação estatal para crianças pequenas se justificava por um fato incômodo: muitos proletários tinham crenças e hábitos que se constituíam empecilhos para a aceitação plena do comunismo. Essas crenças e hábitos encontravam-se, por vezes, arraigadas naqueles que passaram décadas de sua vida aprendendo-os, reproduzindo-os e cultivando-os.

A crença na religião cristã, por exemplo, fazia com que o proletário visse o ser humano como um ser pecador, o paraíso como uma esperança extraterrena e Deus como sendo mais importante do que o partido, o Estado e a revolução. E o que dizer das restrições morais, do maior apego à família do que a sindicatos, do respeito à autoridades eclesiásticas, da visão espiritual da história mundial e etc.

Esses hábitos e crenças travavam o comunismo, que via o ser humano como um ser perfectível, o paraíso como uma inevitável realização terrena, o partido, o Estado e a revolução como o sentido máximo da vida, a moral como subordinada aos interesses da revolução, a vida como fruto de materialismos históricos e dialéticos. É por isso que Marx e Engels afirmavam, por exemplo, que a religião é o ópio do povo. Eles sabiam que se não convencessem os proletários de que a religião era um ópio com que o povo se drogava para agüentar a pressão da vida, teriam dificuldades de pôr em prática um regime comunista.

A doutrinação estatal para crianças, portanto, era algo primordial para que o comunismo lograsse algum êxito. O que Marx e Engels não conseguiram perceber é que essa doutrinação deveria começar antes mesmo do partido subir ao poder. Mas o que eles não perceberam no século XIX, ideólogos como Antônio Gramsci, Herbert Marcuse e Theodor Adorno perceberiam no século XX, entre os anos 20 e 60. Eles seriam os precursores de uma nova estratégia comunista: a “Guerra Cultural”. Tal estratégia pretendia doutrinar crianças e jovens dentro das escolas e faculdades de modo sorrateiro, com linguagem simples e cotidiana, introduzindo no senso comum ideias que pudessem corroer a imagem do cristianismo, da moral judaico-cristã, da vida familiar, da cultura tradicional do ocidente e tudo o mais que pudesse afastar as pessoas do comunismo.

Marx e Engels podem não ter enxergado tão longe no que se refere à doutrinação de crianças e jovens, mas enxergaram muito bem. Eles entenderam que era preciso criar uma cultura comunista nas crianças, para que as novas gerações de proletários não se prendessem a nenhum tipo de crença conflitante com os interesses do Partido/Estado.

Em suma, no regime comunista que Marx e Engels projetavam, seu filho aprenderia na escola que Deus não existe, que todas as grandes religiões são histórias da carochinha, que objeções filosóficas ao comunismo são indignas de crédito, que ideias são fruto das relações materiais, que muito da nossa moral e cultura são invenções burguesas, que o comunismo é uma ciência exata, que o ser humano é perfectível, que o mundo pode ser transformado em um paraíso, que isso efetivamente irá acontecer, que o sentido máximo e único da vida é buscar esse paraíso terreno, que isso inevitavelmente irá acontecer, que o Partido/Estado é o representante supremo do nosso sentido da vida e que devemos apoiá-lo incondicionalmente na transformação do mundo. Tudo isso seria obrigatório na educação estatal.

A destruição da sociedade

Aqueles que acreditam que o comunismo pretendia apenas mudar o sistema econômico do mundo e, consequentemente, a vida econômica das pessoas, ainda não entenderam nada sobre o comunismo. Esta doutrina, na verdade, jamais objetivou tão-somente fazer uma reforma econômica. Seu objetivo era destruir todas as bases dessa sociedade que conhecemos e construir uma sociedade inteiramente nova e diferente. Há pouco nós líamos sobre o que Marx e Engels achavam das “ideias”. A continuação daquele texto desemboca no objetivo comunista de destruir tudo. Eles começam descrevendo uma acusação pertinente feita ao comunismo já àquela época:

Sem dúvida”, dir-se-á, “as ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., modificaram-se no curso do movimento histórico. Entretanto, a religião, a moral, a filosofia, a política e o direito sempre sobreviveram a essas mudanças. Além disso, existem verdades eternas, como liberdade, justiça, etc., que são comuns a todas as condições sociais. O comunismo, porém, acaba com as verdades eternas, acaba com a religião e a moral, ao invés de lhes dar uma nova forma, e isso contradiz todos os desenvolvimentos históricos anteriores [8].

Exposta esta acusação, a dupla inicia uma resposta baseada na concepção da luta de classes, uma resposta que se torna aterradora conforme chegamos ao seu final:

A que se resume essa acusação? A história de toda a sociedade até os nossos dias movimentou-se através de antagonismos de classe, que assumiram formas diferentes nas diferentes épocas. Mas qualquer que tenha sido a forma assumida por esses antagonismos, a exploração de uma parte da sociedade por outra é um fato comum a todos os séculos passados. Portanto, não é de se espantar que a consciência social de todos os séculos, a despeito de sua multiplicidade e variedade, tenha-se movido sempre dentro de certas formas de consciência que só poderão se dissolver completamente com o completo desaparecimento dos antagonismos de classe [9].

Deixe-me ver se entendi. Quer dizer que as formas de consciência social comuns a todos os séculos, que englobam a religião, a moral, as noções de liberdade e justiça e etc., se dissolverão completamente quando a revolução comunista alcançar seu objetivo supremo? Vamos continuar lendo para ver se é isso mesmo:

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não é de espantar que no curso de seu desenvolvimento ela rompa da maneira mais radical com as ideias tradicionais. [10].

Incrível! Marx e Engels realmente estavam dizendo que as ideias mais tradicionais sobre a moral, a religião, a justiça e etc., iriam ser destruídas pela revolução juntamente com a propriedade privada! O mais incrível é que depois de dizer isso descaradamente, a dupla dinâmica ainda acrescenta a frase: “Mas deixemos de lado as objeções da burguesia ao comunismo”. Como se o que eles acabassem de falar fosse uma objeção bobinha e que dizia respeito apenas aos interesses de uma pequena parcela da sociedade!

A corrosão das ideias tradicionais de moral, religião e justiça não poderia ter resultado em outra coisa que não opressão, perseguição e genocídios décadas mais tarde. Vários livros dão conta das atrocidades que foram infligidas ao mundo pelo comunismo. Um dos melhores e mais completos é “O Livro Negro do Comunismo”, que indico ao leitor para mostrar o resultado prático (e inevitável) dessas ideias loucas de Marx e Engels.

A destruição da religião

A destruição da religião merece um tópico à parte. Certa vez ouvi uma professora dizer que Marx não tivera muito interesse em falar contra a religião na sua vida. Quando ouvi isso pela primeira vez, achei que, para ele e seu amigo Engels, a religião era algo indiferente, que eles apenas não acreditavam, mas respeitavam. Assim, as perseguições religiosas infligidas pelos comunistas teriam sido uma deturpação do marxismo.

Acabei descobrindo mais tarde que não foi bem assim. Já vimos que as crenças e hábitos da religião eram obstáculos para o comunismo, que eles eram tidos como frutos das relações materiais exploratórias e que Marx e Engels pretendiam que eles fossem suprimidos com a revolução. Isso já seria o suficiente para termos certeza de que a religião não seria bem tratada em um regime comunista. Mas na edição que tenho em casa de “Manifesto do Partido Comunista”, há uma informação suplementar. No “Projeto de confissão de fé comunista”, sobre a relação dos comunistas ante as religiões existentes, é dito:

Todas as religiões até agora foram a expressão de estágios do desenvolvimento histórico de povos singulares ou de grupos de povos. O comunismo, porém, é o estágio de desenvolvimento que torna supérfluas todas as religiões existentes e as suprime [11].

Exatamente como pensava, por exemplo, o ditador comunista chinês Mao Tsé Tung, que criou e desenvolveu a Revolução Cultural Chinesa, e oprimiu duramente milhares de religiosos, destruindo seus templos e símbolos e condenando-os a penas civis.

Mais autoritarismo

A leitura dos documentos da Liga dos Comunistas é ótima para tornar ainda mais claro como o autoritarismo estava no DNA comunista. No “Estatuto da Liga dos Comunistas”, na seção I, artigo 2, existe uma série de condições para que uma pessoa entrasse na Liga. Entre elas encontravam-se duas bem interessantes: “Profissão de fé comunista” e “Submissão às resoluções da Liga”. Ao fim há a seguinte frase: “Quem não preencher mais essas condições será excluído”. Até aqui, nada demais. Mas vejamos o que é dito adiante, na seção VIII, artigos 41 e 42:

41. O comitê do círculo julga os delitos contra a Liga e assegura a execução da sentença.

42. Os indivíduos suspensos ou expulsos, bem como todos os suspeitos, devem ser vigiados em nome da Liga e postos em situação de não poderem causar danos. As intrigas de tais pessoas devem ser imediatamente denunciadas à respectiva comuna [ênfase acrescentada] [12].

O que essas palavras querem dizer? Ou melhor: o que essas palavras poderiam vir a significar em cada situação? É exagero dizer que elas dão margem para todo o tipo de ação contra pessoas que causavam problemas à Liga Comunista? Antes que o leitor responda, vamos ler um trecho do documento “Princípios do Comunismo”, de Engels. Esse trecho responde a seguinte pergunta: “Será possível a abolição da propriedade privada por via pacífica?”. Engels responde:

Seria desejável que isso pudesse ocorrer e os comunistas seriam, com toda a certeza, os últimos a isso se oporem. Os comunistas sabem muito bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, mas até mesmo prejudiciais. […] Mas vêem também que o desenvolvimento do proletariado é reprimido com violência em quase todos os países civilizados e que, com isso, os adversários dos comunistas nada mais fazem do que trabalhar com todas as forças para uma revolução. E se, nessas condições, o proletariado oprimido for finalmente impelido para uma revolução, nós, comunistas, defenderemos a causa do proletariado com a ação, do mesmo modo como agora a defendemos com a palavra [13].

Em outro trecho, respondendo a outra pergunta, Engels ressalta:

A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado [14].

As medidas das quais Engels fala aqui são aquelas medidas despóticas listadas em “Manifesto do Partido Comunista”, que nós analisamos há pouco. Ele volta a listá-las em “Os Princípios do Comunismo”. Ou seja, a democracia dos comunistas é inútil se não for uma ditadura que tome uma série de ações despóticas, supostamente em nome da vontade do povo. Prévias desse despotismo são expressas na própria confissão dos comunistas de que a força poderia ser usada para alcançar seus objetivos políticos e na atitude em relação aos suspensos, expulsos ou suspeitos da Liga dos Comunistas, de vigiá-los e colocá-los “em situação de não poderem causar danos”.

Considerações finais

Qualquer pessoa que se proponha a ser honesta perceberá que não houve exageros ou distorções nessas análises. Limitei-me a descrever o pensamento comunista de expresso em “Manifesto do Partido Comunista” e em documentos da Liga e destacar os pontos autoritários de sua teoria, mostrando como esses pontos formam a essência mesma do comunismo. A conclusão é que o comunismo não se tornou ditatorial e opressivo nos países que se instaurou por uma série de acidentes históricos ou por uma enorme distorção da teoria. Ele se tornou ditatorial e opressivo porque foi projetado para ser uma ditadura. Ainda que Karl Marx e Friedrich Engels acreditassem que essa ditadura seria democrática (por fazer aquilo que o povo queria) e benéfica (se é que realmente criam nisso…), isso não muda em nada o fato de que o comunismo fora inteiramente projetado para ser uma ditadura.

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Referências:

  1. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 65 e 66.
  2. IBDEM, p. 67-68.
  3. IBDEM, p. 102.
  4. IBDEM, p. 62.
  5. IBDEM, p. 64.
  6. IBDEM, p. 64.
  7. IBDEM, p. 57.
  8. IBDEM, p. 65.
  9. IBDEM, p. 65.
  10. IBDEM, p. 65.
  11. IBDEM, p. 154.
  12. IBDEM, p. 115.
  13. IBDEM, p. 99-100.
  14. IBDEM, p. 101.

O Conservador e a Verdadeira Revolução

Vivemos um momento em que, lentamente, mais e mais pessoas se declaram conservadoras, ou, o que está em voga, conservadoras liberais. Como a única maneira de avançar um pensamento é através do embate direto, é necessário dizer que é preocupante o caráter desse reacionarismo. Preocupante pois não difere em muito do que “está aí”. É tão materialista quanto, e via de regra é um reacionarismo que se sustenta sobre uma espécie de fetichismo de mercado. Um reacionarismo sem alma, frio, calculista e utilitário. É um reacionarismo, via de regra, importado grosseiramente, sem a devida contextualização: essa solução pronta para ser aplicada em uma localidade é exatamente aquilo que não é conservador, mesmo quando reconhecemos que não há um só conservadorismo (na verdade, é justamente por isso, por olhar para o próprio contexto e às próprias raízes, que o pensamento conservador se traduz em medidas práticas bastante diversas em diferentes locais). Por fim, é uma espécie de reacionarismo que é, em verdade, exclusivamente liberal; um “reacionarismo não reacionário”.

Utilizamos muito de nosso tempo pensando o Estado, a sociedade, os outros. A política é, sim, um campo importantíssimo da vida em sociedade, merecendo nossas atenções e profundo estudo, mas não é o único. Passamos horas lamentando como a economia vai mal, e como poderia estar melhor se tal ou tal medida fosse ou não adotada, ou como seríamos plenamente desenvolvidos caso o Estado fosse um pouco menor. Garantir que o ser humano desfrute daquilo que produz, que possa exercer sua ocupação e trabalho com dignidade e não sofra pesadas interferências arbitrárias de uma entidade que hoje é elevada a semi-deusa – O Estado – é, sim, uma preocupação digna. Mas, também, não é a única. E a tendência do debate conservador tem girado em torno, principalmente, desse segundo aspecto, e de forma totalmente fetichista. O debate autoproclamado conservador tem sido, em realidade, liberal, ignorando os embates históricos entre essas duas vertentes que são praticamente inconciliáveis, demonstrando uma verdadeira fobia ao Estado, se tornando uma versão oposta àquela caricatura que hoje chamamos de esquerda (que, também, paradoxalmente, endeusa o Estado, sendo que em sua gênese tinha como objetivo destruí-lo). É apenas parte desse louco cenário de pensamento binário, 0 ou 1, sim ou não, mas que ao mesmo tempo não se diferencia tanto entre os opostos, já que são opostos e oponentes apenas dentro da mesma concepção e partindo das mesmas bases.

A educação conservadora (e a consequente sedimentação dessa visão de mundo na sociedade) foge ao padrão massificante que se criou como mero modelo de formar profissionais, e que vê o conhecimento como mero instrumento para atingir um fim material (emprego, salários, tecnologia). Pouco tratarei aqui sobre esse assunto, que merece um livro só para si, mas é essencial lembrar que, no atual cenário, a educação conservadora é radicalmente oposta ao que existe e é chamado de educação. O foco da educação conservadora está na formação da consciência pessoal, no aprender a pensar. Mas não no aprender a pensar “à partir do zero”, e sim à partir de todo um legado que a nós foi transmitido e confiado, em outras palavras (realmente, apenas outras palavras), à partir da tradição. No ponto em que houve a primeira grande ruptura (Iluminismo), que se pretendeu ignorar tudo o que já havia existido, o legado já superava 2000 anos. Felizmente, aos poucos se percebe a riqueza daquilo que se queria deixar para trás. Esperemos, então, que a disposição de estudar e procurar entender com sinceridade tudo o que o Ocidente e, porque não, outras civilizações produziram dure por bastante tempo, buscando um intercâmbio entre nossa era e outras. E que o surgimento de uma educação nesses moldes nos leve sempre a nos questionarmos se andamos, “progredimos”, no caminho certo. Somente grande humildade é capaz de reconhecer quando se escolheu o caminho errado, no caso o da ruptura, e olhar para o passado numa tentativa de religar-se àquilo que foi deixado para trás simplesmente porque era antigo e não podia sobreviver.

E é por a educação visar a formação de uma consciência pessoal (que resulta numa consequente diversidade no pensamento), que o conservadorismo exige algo de diferente, e que não está a ocorrer: essa formação exige um olhar para si, um pensar e refletir a própria condição. Não basta um Estado estruturado de forma correta sem pessoas corretas na sociedade, que entendam que o problema da sociedade atual vai muito além da carga tributária ou das leis trabalhistas que seriam muito rígidas. Temos uma sociedade apressada, hedonista, materialista e consumista que esquece daquilo que o transcende em muito, e isso não é algo a ser contestado pelo liberalismo e seu “fetichismo livre-mercadista”. Essa sociedade, assim como o livre-mercado (me restrinjo a este pois estou propondo um debate interno; dizer que a esquerda não vê nada disso é chover no molhado), não vê valores como a compaixão, a honra, o cavalheirismo, a caridade, o amor. Muitos rodeios são feitos para tentar mostrar como menos Estado faria com que as pessoas automaticamente estariam mais propensas a valores como os citados, ou mesmo à religião. Mas não é tão simples, esses valores precisam ser cultivados e difundidos por pessoas, que só encontram esses valores quando olham para si e depois para o outro, quando param para refletir. É no dia a dia que esses valores percorrem a sociedade, independentemente do tamanho do Estado e de suas políticas: só é corrompido aquele que o quer ser. É na espontaneidade do cotidiano que florescem os resultados desses valores, sim, mas eles devem ser cuidados a todo o tempo. Devemos sempre lembrar a nós mesmos que existe algo que é superior a toda essa loucura, independentemente daquilo que se tome por superior. Mesmo um ateu há de convir que nem tudo o que existe é o material. Deus é a figura central, mas há outros valores que podem ser cultivados independentemente de crença particular. Só assim recriamos um significado para nossos tempos que vai para além de um existir mecânico que, apesar de não ser obrigatório, exige do sujeito uma grande força de vontade caso queira encontrar para si um propósito distinto e conservar valores mesmo em meio a uma sociedade que não os encara mais como desejáveis já de forma inconsciente.

E é aí que mora a Revolução Conservadora, a Verdadeira Revolução, que busca ligar-se novamente ao legado que a nós foi transferido, mas que irresponsáveis tentaram com ele romper. Só assim existe uma verdadeira mudança, que é em realidade restauração, e não pela imposição imediata. Mudança penosa, dolorosa, lenta, mas duradoura e real. Diferentemente daquela revolta irracional que destrói o que existe mas com a mesma velocidade repete porcamente aquilo que existia antes da revolução, que cria instabilidade e infinitas injustiças, que banha a terra em sangue inocente. É simplesmente reconhecer que para mudar o ambiente que nos cerca devemos primeiramente mudar a nós mesmos.

O que é a Direita?

Muito tempo se gasta atacando a esquerda, especulando rumos políticos, e em atividades afins. Pouco tempo se gasta tentando entender o que somos. A direita, após duas décadas de democracia representativa, encontra-se praticamente morta no Brasil, dando pequenos sinais de existência apenas quando se manifesta contrariamente à esquerda. Mas não faz sentido tal existência, não há porque ser a parte fraca da dicotomia – a mera negação – quando a direita era, em seu princípio, a parte formada por conteúdo, enquanto a esquerda era a negação. Darei então minha humilde opinião acerca do que é a Direita Política.

Primeiramente, ser de Direita é ser pela continuidade. Se entre a ruptura e a mera estática existir outro caminho – o que comumente há -, esse é o caminho a ser seguido. A revolução é o caminho da injustiça, o mais autoritário dos meios de se fazer uma mudança. O caminho que substitui um sistema que já passou por diversas correções por uma ideia, mas que nascerá dotada de grandes imperfeições (algumas já corrigidas pelo sistema anterior) e que necessitarão também da ação do tempo para que sofram as devidas correções. A revolução é, em suma, o caminho do imediatismo, da impaciência, ao menos como entendido em sua concepção comum (há outra concepção, que talvez seja abordada em outro texto). A atitude reformista, por outro lado, é uma atitude que procura as soluções dentro do próprio sistema, garantindo a todos a segurança e ordem necessários ao exercício da liberdade, ao mesmo tempo que lida com os problemas. É uma atitude que reconhece a imperfeição do ser humano, a impossibilidade de criar um paraíso terrestre, e que toda mudança e todo suposto progresso trazem consigo duas facetas: a mudança é como um cobertor curto. Além disso, é reconhecer que a estrutura do poder independe de seu conteúdo, e que a revolução nunca, historicamente, alterou a substância do poder, mas apenas sua forma. A atitude reformista, em suma, é o exercício da paciência, da prudência, da temperança, da visão de longo prazo, sempre em respeito às atitudes dos antepassados.

Em seguida, deve-se abordar o materialismo. Talvez esse seja o aspecto mais importante da Direita Política, a rejeição a doutrinas meramente economicistas ou materialistas. Ser de Direita é reconhecer que há valores além da economia, que estão, quando não no mesmo patamar, em patamares acima. Diferente do que se prega, inclusive por alguns supostos direitistas, estar nesse lado do espectro político não é realizar um culto ao dinheiro. E, também diferentemente daqueles que glorificam o capitalismo simplesmente por o fazer, o direitista não exalta o ser humano como mera máquina de consumo. Para a direita, o ser humano é um ser dotado de alma, e sustenta essa visão não apenas sobre uma base cristã, mas também sobre bases clássicas constantes em Platão e Aristóteles. Como direitistas, reconhecemos que valores como a caridade, a honra, a coragem, o heroísmo, a bondade, a beleza e a tradição são mais importantes que a mera economia. Além disso tudo, crê em um código moral duradouro que mantém a sociedade.

Por fim, algo que deve estar presente em toda e qualquer corrente de direita é o respeito pela tradição. Não a glorificação irrestrita, impensada, mas o respeito. Entender sua função na sociedade é essencial. É importante à Direita entender que a mera quebra da tradição, por si só, não é motivo para uma mudança, como advogam os progressistas e liberais mais radicais, para os quais a tradição aprisiona. A tradição, na verdade, possui um importante papel unificador, reforça o sentimento de pertencimento de uma pessoa a um povo. Torna a todos, ao menos como seres que partilham dos mesmos costumes, iguais, apesar de todas as diferenças do mundo material, o que deixa as pessoas mais propensas à caridade. A tradição traz às relações a pessoalidade, valor perdido a tempos pelo mundo ocidental.

Como em outros textos do gênero, é óbvio que não pretendo esgotar o assunto, mas apenas dar uma pincelada acerca do que acredito que deve fazer parte de qualquer corrente que pretenda colocar a si mesma na Direita. Esses três aspectos, a meu ver, são essenciais. Por isso, deixo minha contribuição, com as portas abertas a críticas e visões diferentes. Lembrem-se que podem também enviar seus textos para serem publicados.