Republicanos e Federalistas

Assim como na América do Norte, na América do Sul os movimentos republicanos tinham divergências com relação a organização política nacional. De um lado estavam os centralistas, do outro os federalistas.

Os centralistas, também chamados unitários ou simplesmente republicanos, eram aqueles que propunham uma República administrada por um governo central. Os federalistas defendiam que cada estado, província ou departamento deveria ter um governo autônomo. Além de debates, esta dualidade muitas vezes levou a guerras na região do Prata e no Sul do Brasil.

O conflito mais conhecido desta natureza, no Brasil, é a Revolução Federalista de 1893-1895 que opôs o Partido Federalista do Rio Grande do Sul ao Partido Republicano Rio-grandense. Uma segunda Revolução Federalista ocorreria em 1923 após uma tentativa federalista de chegar ao poder por meio do voto.

NOTA: Os desinteressados em História podem pular as seções II e IV.

I. Os dois lados do conflito
O Partido Federalista do Rio Grande do Sul, fundado em 1892 por Gaspar da Silveira Martins, defendia um sistema federalista e parlamentar de governo, pretendendo a revisão da Constituição republicana em vigor no estado do Rio Grande do Sul desde 1891. Esta Constituição era presidencialista e inspirada pelo positivismo comtiano de acordo com as idéias do chefe do Partido Republicano Rio-grandense, ninguém menos que Júlio de Castilhos.

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Em função do nome do chefe do Partido Federalista, os federalistas também receberam a alcunha de gasparistas, mas ficaram populares mesmo com o nome de maragatos. Os seguidores do Partido Republicano, por sua vez, seriam chamados de castilhistas ou pica-paus. O termo “chimangos” seria usado no século XX para descrever este grupo, já então sob liderança de Borges de Medeiros.

Assim consolida-se a oposição entre “maragatos”(federalistas) e “chimangos”(unitários), simbolizados respectivamente pelas cores de seus lenços: vermelho e branco. Esta rivalidade histórica, protagonista de duas guerras civis no Rio Grande do Sul, hoje se resume a referências culturais em centros tradicionalistas gaúchos (CTGs) e letras de música gaúcha. A imagem típica do gaúcho, com bombacha larga, chapéu e lenço vermelho, é baseada no estereótipo maragato.

Esta identificação de cores de lenço e bandeira, branca para os unitários e vermelha para os federalistas é a mesma na Argentina: os unitarios são brancos e os federales são vermelhos. No Uruguai, o contrário: os blancos são os federalistas e os colorados (vermelhos) são os unitários.

II. A Primeira Revolução Federalista (1893-1895)
A Revolução Federalista ocorreu no sul do Brasil logo após a Proclamação da República. Com a mudança de governo central, Floriano Peixoto havia assumido a República no lugar de Deodoro da Fonseca e houveram mudanças nos quadros políticos e deposição de todos nos nomes ligados ao ex-presidente. Essa mesma ação foi estendida à esfera estadual, onde os governadores “pró-Deodoro” foram substituídos por representantes simpáticos ao novo governo. No caso do Rio Grande do Sul, o novo governador “pró-Floriano” era Júlio de Castilhos.

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À esquerda: Gaspar Silveira Martins, líder dos federalistas. À direita: Júlio Prates de Castilhos, líder dos republicanos.

Os federalistas se revoltaram contra esta situação. Sua pretensão era mudar a forma de governo republicano, de presidencialista a parlamentar, e garantir mais autonomia para os governos estaduais. Isto não era possível com um republicano positivista como Júlio de Castilhos no poder.

Avanço Federalista
Primeiramente, federalistas concentraram tropas em campos da Carpintaria (Uruguai), próximo à cidade de Bagé, primeira cidade a ser tomada. Também o coronel Gumercindo Saraiva dispunha de tropas nas cercanias da fronteira Brasil-Uruguai. Saraiva era irmão de Aparício Saraiva, caudilho do Partido Nacional (blanco) uruguaio, também de inspiração federalista, o qual lhe apoiou.

Dominando a fronteira, os federalistas exigiram a deposição de Júlio de Castilhos e a realização de um plebiscito para determinar o sistema de governo (presidencialista ou parlamentarista). Os federalistas contavam com algum apoio uruguaio e argentino, especialmente da província de Corrientes, o que lhes permitiu obter armamento através da fronteira, praticar incursões táticas em território estrangeiro afim de fugir de perseguições, bem como refugiar-se nos países vizinhos.

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Ameaçando a estabilidade do governo rio-grandense e o regime republicano em todo país, o presidente Floriano Peixoto enviou tropas do governo federal em socorro do governo estadual. Estas tropas, chamadas legalistas, foram divididas em três zonas (norte, capital e centro) e foram apoiadas pela polícia estadual do Rio Grande do Sul.

Virada Republicana
A primeira vitória federalista foi em maio de 1893 em Alegrete. Deste conflito participou, ao lado dos republicanos, o senador Pinheiro Machado, que organizou e liderou a divisão norte durante todo o conflito.

As tropas federalistas comandadas por Gumercindo Saraiva continuaram avançando até Dom Pedrito e de lá iniciaram uma série de ataques rápidos contra várias posições republicanas. Em seguida, rumaram para o norte avançando sobre Santa Catarina e chegando ao Paraná, sendo detidas na cidade da Lapa, a sessenta quilômetros de Curitiba. Receberam o apoio das tropas de Custódio de Melo, líder da Revolta da Armada contra Floriano Peixoto, que se uniu aos federalistas e ocupou Desterro (atual Florianópolis), partindo daí para Curitiba ao encontro de Gumercindo Saraiva e suas tropas federalistas. Ocorre aí o Cerco da Lapa, já fevereiro do ano de 1894, ocasião em que morreu o coronel republicano Antônio Ernesto Gomes Carneiro sem entregar suas posições. Esta resistência republicana na Lapa frustrou o avanço dos federalistas até a capital da República, o Rio de Janeiro.

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Com o avanço detido no Paraná, as tropas federalistas recuam para o Rio Grande do Sul. O líder federalista Gumercindo Saraiva é morto na véspera da Batalha de Carovi por um tiro à traição. As derradeiras oportunidades de apoio aos federalistas esvaíram-se quando o almirante Custódio de Melo não conseguiu tomar o porto de Rio Grande, a 6 de abril de 1894. Os republicanos avançariam até o Rio Grande do Sul derrotando, sob comando de João Francisco Pereira de Souza (vulgo a Hiena do Cati), as tropas federalistas no Combate de Campo Osório.

O fim da guerra civil
O conflito teve fim em 24 de junho de 1895 quando no campo de Osório o federalista Saldanha da Gama lutou até a morte com os últimos quatrocentos homens remanescentes em suas tropas, em uma batalha que durou aproximadamente três horas.

Para evitar outros possíveis conflitos, um acordo de paz foi assinado em 23 agosto de 1895, concedendo anistia a todos os participantes do conflito.

Em termos regionais, a Revolução Federalista dividiu os gaúchos em presidencialistas e parlamentaristas. Para a História do Brasil, fica a Revolução entre ideários distintos que tentou implementar o parlamentarismo no Brasil no início do período republicano.

III. Vitória armada republicana, reação federalista nas urnas
O positivismo republicano continuou em vigência, dada a derrota federalista e a aliança entre o governo central da República Velha, o Exército (fortemente influenciado pelo positivismo) e o governo regional de Júlio de Castilhos, que permaneceu no poder até 1898 e foi sucedido por outro republicano, Borges de Medeiros. Este permaneceu no governo até 1908 e governou novamente de 1913 a 1928.

É neste segundo governo borgista (1913-1928) que explode a Revolução de 1923, novamente opondo republicanos a federalistas. Desta vez, os federalistas conseguem uma ampla aliança com diversos setores da sociedade e lançam um candidato à oposição: Joaquim Francisco de Assis Brasil. A divisão entre borgistas e assisistas espelhava a velha rivalidade entre pica-paus (agora chimangos) e maragatos, ou seja, republicanos e federalistas.

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À esquerda, Borges de Medeiros, o presidente republicano em atuação no RS. À direita, Francisco de Assis Brasil, candidato da oposição federalista.

A campanha eleitoral se dá sob clima de repressão e violência. Os opositores são presos, espancados e até mortos, seus locais de reunião são fechados e depredados pela polícia. Quando se anuncia a previsível vitória fraudulenta de Borges de Medeiros, a revolta é geral. A disputa nas urnas transforma-se em conflito armado.

IV. A Segunda Revolução Federalista ou Revolução de 1923
Os combates iniciaram ao final de janeiro. As cidades de Passo Fundo e Palmeira das Missões foram atacadas pelos maragatos, mas encontraram forte resistência.

A expectativa de Assis Brasil e seus aliados era a de que o Presidente da República Arthur Bernardes decretasse intervenção federal no Rio Grande do Sul. Mas Borges se aproximou de Bernardes e frustrou as expectativas de seus opositores.

A desvantagem dos maragatos era clara: não estavam devidamente organizados para enfrentar as forças governistas, não tinham objetivos militares bem definidos e a esperada intervenção federal não viria. A continuidade da luta dependeu de ações isoladas de caudilhos como Honório Lemes e José Antônio Matos Neto, o “Zeca Netto”. Suas operações militares ficaram restritas a regiões distantes da capital do estado (Porto Alegre) e não conseguiram causar dano à superioridade dos borgistas. Para Assis Brasil e seus aliados mais lúcidos ficou claro que não havia possibilidade de vitória militar, e por isso manifestaram disposição de negociar.

Zeca Netto, oposto a qualquer acordo com Borges, imaginou que se atacasse e tomasse uma cidade importante, poderia intimidar os borgistas. Em 29 de outubro atacou Pelotas, a maior cidade do interior gaúcho na época, e a manteve sob seu controle. Porém, este controle durou apenas seis horas: as forças governistas conseguiram se rearticular e receber reforços. Na iminência de ser atacado por forças superiores, o velho caudilho de 72 anos de idade retirou suas tropas.

Depois deste episódio, os maragatos não tinham condições de seguir lutando e submeteram-se às negociações comandadas pelo governo federal. Em dezembro de 1923, pacificou-se a revolução no Pacto de Pedras Altas. Borges de Medeiros permaneceu no poder até o final do mandato em 1928. O federalismo estava mais uma vez derrotado frente ao centralismo republicano.

V. Federalismo hoje
Ao longo da história, o poder no Brasil oscilou entre formas mais centralizadas e formas mais descentralizadas, sem jamais atingir um nível de autonomia regional minimamente aceitável em comparação com outras Repúblicas Federativas. Houveram períodos críticos de centralização como durante o Estado Novo de Getúlio Vargas e o Regime Militar. Ainda hoje, quem quer que ouse defender mais autonomia para os governos estaduais corre o risco de ser acusado de separatista.

O federalismo tem muito o que fazer pelo Brasil e pelos brasileiros hoje. Ele pode:

  • Eliminar o excesso de transferências de recursos entre União, Estados Federados e Municípios, reduzindo os custos produzidos pela burocracia e pela corrupção, incentivando a administração responsável e local dos recursos de cada região.
  • Aumentar a pluralidade e participatividade da política através do pluripartidarismo livre, que permite a prática político-associativa em qualquer âmbito territorial da Federação, não só o nacional como ocorre hoje.
  • Estimular o processo democrático de consulta popular, de referendo e plebiscito para questões de interesse estadual ou municipal, incluindo decisões sobre cargos municipais e estaduais e sua remuneração, por exemplo.
  • Vedação da tributação ou restrições sobre comércio interestadual, fomentando a cooperação entre as UFs e gerando desenvolvimento e empregos.
  • Redução da intervenção do Governo da União em assuntos que interessam exclusivamente o Governo do Estado ou do Município, permitindo que ele se foque em suas atribuições legítimas.
  • Dar ao governo estadual o poder de legislar sobre matérias de direito civil, penal, tributário, previdenciário e trabalhista, levando em consideração as necessidades, os recursos e o interesse da população local.

O Brasil é um ambiente inóspito para quem defende idéias federalistas, seja no Sul, no Sudeste ou no Nordeste. No entanto, não devemos desanimar: toda idéia, por melhor que seja, encontra resistência. Especialmente se afronta um poder onímodo e onipresente como o do governo federal sediado em Brasília (não sem razão, no meio do país e bem longe da população). Uma federação deve ser uma organização baseada no respeito mútuo e na cooperação, não no clientelismo e na subordinação. São os princípios humanos e universais do federalismo que devem ser valorizados e difundidos, não a oposição ao centralismo baseada em um bairrismo caricato.

VI. Federalismo sempre
É muito diferente do ufanismo tradicionalista a defesa da autonomia regional. É um erro bem típico daqueles que advogam maior autonomia para uma ou outra região ou estado atrelar esta luta a um particularismo cultural destas regiões. Neste caso, a confusão com o separatismo e o nacionalismo é realmente difícil de evitar.

Também os baianos e cariocas deveriam desfilar por aí com lenços vermelhos, ainda que metaforicamente. Também eles deveriam ser maragatos. Não porque devam assimilar nossa cultura e tradição, mas porque deveriam interessar-se pela sua autonomia tanto quanto nós um dia o fizemos. Ou é isso ou submeter-se ao chimanguismo, ao centralismo, ao unitarismo: reina a pluralidade cultural em liberdade no âmbito privado e uma servidão monolítica e uniforme no âmbito público.


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O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.