Ocidente Inerte: Parte I

Algo que tem me causado profunda preocupação é a aparente incapacidade do Ocidente de se reinventar, principalmente quando comparamos a atualidade com épocas passadas. O resultado disso é que, diferentemente dos tempos remotos, a probabilidade de o socialismo triunfar é alta, e ele triunfa diante de nossos olhos, mas sob uma roupagem elegante. A esquerda hoje se veste bem e tem a barba feita.

O socialismo, em sua gênese, sempre foi um movimento revolucionário. Seu objetivo sempre foi o de uma engenharia social abrupta, de uma profunda mudança nas instituições e modo de se comportar da sociedade. A esquerda era sempre conhecida como radical, um grupo que propunha impor a igualdade com todos os custos que isso fosse importar. Esse custo é por nós muito conhecido: corpos e sangue. Podemos visualizar esse comportamento nas revoluções do início ao meio do século XX. O saldo de mortos em nome de uma causa nunca havia sido tão alto na história, e provavelmente jamais será superado. A civilização ocidental, após conhecer das barbáries, imediatamente condenou os métodos da esquerda e, após a queda do muro de Berlim, comemorou a vitória da democracia liberal sobre o totalitarismo igualitário. Após esse evento tudo parecia resolvido, e o fim da história com a ascensão do liberalismo se mostrou aparentemente real, como havia previsto Hegel. Mas, em realidade, foi nesse momento que o ocidente chegou a seus momentos derradeiros, após um século terrível.

O século XX foi, em sua totalidade, determinante para o declínio que vivenciamos nos dias de hoje. Temos alguns fatores que vejo como principais: as grandes guerras, que transformaram a Europa em destroços (de modo a jamais recuperar sua glória) e a ascensão, nessa mesma Europa, de um socialismo novo, diferente, mais amigável.

As grandes guerras tiveram um papel evidente. A Europa é inegavelmente o centro do Ocidente. Seu berço se deu lá, e sua influência projetou sua cultura para o mundo. O problema é que após a queda da Europa decorrente da Segunda Guerra Mundial (desfecho inevitável da primeira grande guerra), os Estados Unidos assumiram o posto de grande potência e centro cultural do ocidente. Isso não é um problema por um prisma supostamente antiamericano. O que ocorre como resultado dessa “virada copernicana” do centro do ocidente é que, apesar de serem notáveis cientistas, a produção filosófica americana nunca foi das mais brilhantes. Enquanto o socialismo se reinventava, se apropriava de conceitos ocidentais, o ocidente nada fez para ganhar uma nova cara: continuou repetindo os cada vez mais estigmatizados (porém jamais refutados) conceitos dos séculos XVIII e XIX. Nada fez para combater a nova subversão, que passou a vir de todos os lados: originou-se na, agora quase marginal Europa, e passou a reproduzir-se no novo centro da Civilização, alastrando-se nas fileiras de ambos os principais partidos daquele que era, até então, o grande baluarte da civilização ocidental.

Já o novo socialismo tem seu embrião na Sociedade Fabiana inglesa. Sua proposta de socialismo gradual aos poucos se alastrou, e na Alemanha ganhou um forte corpo teórico. O principal golpe que sofremos foi com o nascimento da Escola de Frankfurt. Pois em Marx o Ocidente evoluiria para o socialismo: Em sua fase mais jovem, dizia que através da revolução sangrenta; em sua fase mais madura, dizia que o capitalismo destruiria a si mesmo dando lugar ao comunismo. Mas o que os socialistas do início do século XX perceberam (e assim deram o embasamento necessário à escola de Frankfurt) foi que a destruição do Ocidente como o conhecemos é necessário à implantação do socialismo e, posteriormente, do comunismo. Crentes de que a doutrina de Marx se mostraria infalível com uma Grande Guerra, situação em que os operários finalmente se revoltariam ao redor do planeta, viram que o sentimento nacional uniu os “proletários” aos “burgueses” na defesa de suas terras. Foi então que Rosa Luxemburgo percebeu aquilo que era o alicerce da civilização ocidental (e apontada por Marx no Manifesto Comunista) que deveria ser destruído: a família tradicional. Mudaram, então seu campo de atuação. Agora não eram mais revolucionários, mas sim subversivos.

Hoje vivemos o resultado disso. As instituições políticas estão descreditadas, o meio acadêmico serve exclusivamente à causa da esquerda, a família encontra-se cada vez mais fragilizada pelos constantes bombardeios midiáticos e contestadores ao modelo tradicional, a economia é cada vez mais induzida a um beco sem saída em negociatas obscuras e expansões artificiais (e um frequente inchaço governamental). O Ocidente encontra-se à beira do colapso. E o grande problema é: a academia, que antes formava grandes pensadores (que a tempo combatiam o pensamento socialista ao longo da história), agora forma meros robôs repetidores de clichês sinistros. Quando a Civilização possuía suas instituições intactas, tinha plena capacidade de se reinventar. Hoje se mostra inerte.

A inexistente Idade das Trevas

No ensaio “História do Humanismo e das Renascenças”, Otto Maria Carpeaux prova, por A mais B, que considerar a Idade Média como uma “Idade das Trevas” não passa de preconceito caipira. (T.S. Eliot chamaria isto de “provincianismo temporal”, coisa de quem se isola em seu próprio tempo e se torna cego para outras épocas.)

Leia trecho do referido ensaio:


O aspecto sentimental das ruínas romanas levou os humanistas a criarem o esquema tripartido da História Universal: Antiguidade, “séculos escuros” da Idade Média, Época Moderna, começando com o renascimento das letras clássicas pelos próprios humanistas. O êxito completo deste conceito historiográfico explica-se, em parte, pela admiração que já os eruditos medievais tinham à civilização romana: já o abade Servantus Lupus de Ferrières (+ 862) se congratula com o renascimento dos estudos latinos em sua época; o cluniacense Bernardus de Morlas, no seu poema didático De contemptu mundi (c. 1140), lamenta a falta de cultura do seu tempo, lembrando a civilização dos antigos romanos; entre muitos outros, Johannes de Garlandia (+ 1258) reconhece a superioridade intelectual dos pagãos da Antiguidade. Daí vai só um passo para o grito de júbilo do humanista: “O saeculum! o litterae! Iuvat vivere etsi quiescere nondum iuvat, Billlibalde, vigent studia, florent ingenia! Heu tu accipe laqueum barbaries, exilium prospice!” (Ulricus de Hutten, em carta a Willibald Pirkheimer, de 25 de outubro de 1518); essa consciência de ter saído enfim de um período de trevas decidiu o êxito do esquema tripartido da História Universal. Ao orgulho dos intelectuais juntaram-se outros motivos, de origem emocional: durante toda a “Idade Média”, a forte reação contra a corrupção moral do clero levou a comparações menos lisonjeiras com a pureza da Igreja primitiva e às esperanças heréticas de uma “renovatio“, de uma “Terceira Igreja”, puramente espiritual: assim aconteceu com os franciscanos espiritualistas e joaquimistas dos séculos XIII e XIV. Enquanto os humanistas, buscando sempre as “fontes”, estiveram interessados em questões religiosas, aprofundaram a comparação com a Igreja primitiva, de Poggio Bracciolini, no seu De miseria humanae conditionis, até Erasmo, com as suas edições do Novo Testamento e dos Padres da Igreja. A Reforma pensou ter vencido a “noite do Papado” (expressão de Lutero), e o esquema tripartido, com o seu duplo fundamento literário e religioso, sobreviveu ao humanismo e zelo reformador, gerando ainda no século XVIII a expressão “Dark Ages” (William Robertson), e dominando até hoje os manuais e a linguagem. Até no abismo absoluto que Oswald Spengler cavou entre a Antiguidade e a civilização moderna, reconhecem-se os vestígios da velha retórica.

A historiografia atual já não admite esse conceito; não existe cisão absoluta entre a Antiguidade e os séculos seguintes, e sim uma evolução contínua. Os historiadores dos séculos passados fixaram o “Fim da Antiguidade” em datas diferentes: em 375, pretenso começo das grandes migrações dos bárbaros, que, no entanto, haviam começado já muito antes; ou então em 476, ano do pretenso fim do Império Romano, que, no entanto, continuava no seu novo centro, Bizâncio. A análise imparcial dos fatos revela, ao contrário, uma solidificação das instituições e resíduos culturais da Antiguidade, no século VI. Com efeito, um cataclismo, uma catástrofe, nunca pode servir de data para o começo de uma nova era. A época pós-antiga do mundo cristão-ocidental começa com uma data de valor positivo: com a elaboração, no século VI, dos três grandes Códigos, nos quais a herança se cristalizou.

Tomás de Aquino, um dos grandes expoentes da escolástica e o sintetizador da filosofia aristotélica com o cristianismo.

O século VI é a época das grandes codificações. Até mesmo o judaísmo termina então o imenso trabalho da codificação das suas leis pós-mosaicas tradicionais: o Talmude. A igreja ocidental, possuindo já um texto latino autêntico da Bíblia, a Vulgata de São Jerônimo, começa a organizar um corpo de escritos autentificados dos chamados Padres da Igreja: em 496 (a data não é certa), o Papa Gelásio I promulga a Epistola decretalis de recipiendis libris, na qual autentifica os opuscula de Cipriano, Gregório Nazianzeno, Basílio, Hilário de Poitiers, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Próspero Aquitanense, constituindo assim o corpo patrístico que significa o aproveitamento da filosofia e da literatura greco-romanas a serviço da teologia cristã. Já por volta de 400, sob a influência de Ambrósio, conceitos cristãos tinham penetrado no direito romano (Collatio legum mosaicarum et romanarum); agora, o imperador Justiniano termina esse processo com a grande codificação que é principalmente obra do seu conselheiro jurídico Triboniano: o Corpus Jurisé de 529 e a segunda edição, que inclui as Instituiones e os Digesta seu Pandectae, de 534; o conjunto é a criação literária mais poderosa do espírito romano – é o fundamento institucional do humanismo europeu.

Essas codificações marcam uma data e, ao mesmo tempo, uma delimitação. Religião judaico-cristã, ciência grega, direito romano: eis a herança da Antiguidade, lançando os fundamentos da civilização ocidental. As regiões e nações que não receberam aquela herança ficaram excluídas da comunidade ocidental, entrando nela somente século depois e em circunstâncias bem diferentes. E todas as outras influências alheias, que o Ocidente recebeu mais tarde, já não se incorporaram bem na nossa civilização; tornaram-se influências “exóticas”. Nem os elementos de pintura chinesa que, trazidos pelos viajantes do século XIII, influíram em Giotto; nem as riquezas ornamentais da Índia que a arquitetura da época dos descobrimentos imitou; nem a abundância fantástica das Mil e uma Noites arábicas nem a pacífica sabedoria chinesa de que o Rococó gostava; nem o budismo que os pessimistas do século XIX apregoaram – nada disso entrou realmente em nossa civilização; continuou sempre “exotismo”. A sorte dos documentos literários do Ocidente entre nós confirma a distinção entre o “exotismo” greco-romano, que faz parte da nossa cultura, e o “exotismo” oriental, que ficou fora dela. Há certas obras da Antiguidade clássica que ninguém conseguiu traduzir bem para as línguas modernas, como as de Píndaro; contudo Píndaro é uma das maiores e mais persistentes influências nas nossas literaturas. Das literaturas orientais recebemos e conservamos definitivamente apenas algumas poucas obras, traduzidas (se é lícita a expressão) de maneira antes inexata, razão por que se tornaram obras nossas. Hafiz é, para nós, um nome; as traduções exatas apenas servem de ajuda de leitura ao especialista; mas o Westoestlicher Diwan, de Goethe, só ligeiramente inspirado no poeta persa, é uma das grande obras líricas da literatura ocidental. Omar Khajjam é, para nós, menos do que um nome; as traduções literais só constituem a delícia dos bibliófilos; mas a tradução libérrima de Edward Fitzgerald, quase obra independente, é obra “clássica” da língua inglesa. E que mais? As grande coleções orientais de fábulas e contos, das quais as literaturas medieval e renascentista se aproveitaram, forneceram apenas matéria-prima novelística. As traduções de Li Tai Po que d’Hervey-Saint-Denys e Hans Bethge popularizaram, na França e na Alemanha, são belas poesias neo-românticas, nas quais os sinólogos são incapazes de reconhecer os originais. O que não provém daquela herança antiga, continua inassimilável; e com isso o conceito “Literatura do Ocidente” está justificado.

(…)

Dante Alighieri, um renascentista medieval?

Renascença como marco decisivo da civilização ocidental: este conceito enquadra-se bem no esquema tripartido da História Universal, na qual deveria haver duas cesuras, a queda do Império Romano e a renascença de Atenas e Roma pelo esforço dos humanistas. Mas, que é a Renascença? O uso da expressão pelos historiadores foi inaugurado por Michelet e Burckhardt; o conceito, porém, é mais antigo. Os historiadores das artes plásticas no século XVIII tinham em consideração especial aqueles poucos artistas modernos – Leonardo, Miguel Ângelo, Rafael, Correggio, Ticiano – que pareciam dignos de participar das glórias da Antiguidade clássica. Os românticos gostavam de acrescentar o nome de Dürer, e até de alguns artistas posteriores, como Rubens, Van Dyck, e Claude Lorrain. São estes, mais ou menos, os nomes que definem o gosto artístico de Goethe. Segundo a opinião dos classicistas ortodoxos, a humanidade moderna é, em geral, incapaz de atingir o esplendor da arte antiga; contudo, a imitação assídua das obras de arte greco-romanas, durante o século XVI, teria produzido aqueles poucos artistas sobremaneira geniais, dignos de ser venerados no Panteão da arte clássica. Ao mesmo tempo, a historiografia literária dos românticos fez renascer as “literatures du Midi de l’Europe”(Sismondi): Ariosto e Tasso, Camões e Cervantes. Fortaleceu-se a opinião segundo a qual o século XVI teria sido época de uma prosperidade excepcional da civilização humana, já liberta das cadeias medievais pelo heroísmo geográfico de Colombo, pelo heroísmo religioso de Lutero e pelo heroísmo científico dos Copérnicos e Galileus; e tudo isto se devia ao estudo da Antiguidade pelos humanistas! No famoso livro de Jacob Burckhardt, porém a ênfase já é dada ao século XV. Com efeito, o trabalho principal dos humanistas pertencem a este século; e os italianizantes ingleses da época, os pré-rafaelistas, já tinham descoberto o esplendor maior das artes plásticas “antes de Rafael”: Brunelleschi, Ghiberti, Donatello, Masaccio, Fra Filippo Lippi, Bellini, Mantegna, Botticelli e Perugino. O “Cinquecento” foi substituído, na admiração geral, pelo “Quattrocento”. Mas o recuo do conceito historiográfico não parou aqui. Já na exposição de Burckhardt aparece, como “primeiro homem moderno”, Francesco Petrarca, que nasceu em 1304: e começaram a celebrar, como pai da arte moderna, o grande Giotto, que nasceu em 1267, dois anos depois de Dante, considerado até então como o maior espírito da Idade Média, ser nomeado inaugurador da Renascença. O único obstáculo foi a questão religiosa: os homens da Renascença passaram por libertadores, enquanto que Dante foi o poeta máximo do cristianismo medieval, o poeta do tomismo; e a aversão à escolástica era muito forte. Mas já se havia chamado a atenção para as energias religiosas no movimento renascentista, mesmo em Erasmo; Thode explicou os elementos de espírito novo em Dante e Giotto pela influência da reforma religiosa de São Francisco; e Burdach construiu uma nova linha de evolução: “Humanismo – Renascença – Reforma”, com o apogeu do humanismo no século XIV, em Petrarca e Cola di Rienzo, e com as raízes do movimento inteiro na religiosidade franciscana. Quase ao mesmo tempo, Duhem fez a descoberta surpreendente de que os conceitos da astronomia e da física modernas já se encontravam em nominalistas como Johannes Buridanus, Nicolaus Oresmius e outros escolásticos menos ortodoxos do século XIV. Desde então, o conceito “renascença medieval” já não parecia paradoxo. Afinal, Aristóteles é um dos espíritos mais poderosos da Antiguidade grega – e a assimilação da sua filosofia, no século XIII, por São Tomás e a sua escola, não teria sido uma renascença? A palavra já aparece com o artigo indefinido e no plural. Até uma época bem anterior revela ao estudioso conhecimentos tão amplos da Antiguidade clássica, que se fala de uma “renascença do século XII”. A “Idade Média”, considerada antigamente como época estática de ortodoxia petrificada, perdeu esse aspecto: apresenta-se com a nova característica de época de intensas lutas espirituais, com renovações periódicas, das quais a primeira foi a renovação dos estudos clássicos na corte de Carlos Magno: a “renascença carolíngia” do século IX. É possível continuar essa série de renascenças, para trás e para frente. A renovação do espírito romano no século VI, pela atividade legislativa do Imperador Justiniano, pela regra dos monges de São Bento, pelo governo autenticamente romano do Papa Gregório, o Grande, é uma renascença. Até na Roma do imperador Augusto, a revivificação da poesia grega por Horácio, Virgílio, e pelos poetas elegíacos, é uma renascença. São renascenças, posteriormente, o classicismo francês do “siècle de Louis le Grand”, o classicismo alemão de Weimar, e até a ressurreição da “Antiguidade dionisíaca”, em Nietzsche. Agora, já não é possível confundir atuação do espírito greco-romano no Ocidente com a conservação estática da herança antiga no islamismo: a história espiritual do Ocidente, segundo Mandonnet, é uma seqüência de renascenças.

Essas renascenças consecutivas constituem um fenômeno inquietante: tentativas sempre repetidas de apoderar-se da substância da civilização antiga; sempre repetidas, porque talvez sempre malogradas. Afirma-se a influência imensa das letras greco-romanas nas literaturas medievais e modernas. Parece, porém, que todas as épocas souberam escolher na Antiguidade apenas o que lhes era afim: cada época logrou somente criar uma imagem da Antiguidade segundo a sua própria imagem, de modo que já a época seguinte ficava na obrigação de abandonar o erro e incidir em novo erro. “Erros férteis”, no sentido do pragmatismo. No fundo, a Antiguidade não influiu realmente nas literaturas modernas; só agiu como medida, como critério, e fato de, durante treze séculos, o critério da nossa civilização não ser imanente, mas encontrar-se fora, numa outra civilização, alheia e já passada, é a marca mais característica da cultura ocidental.


Artigo escrito originalmente no Digestivo Cultural por Yuri Vieira. Para ler o artigo original, clique aqui.

Um Novo Renascimento – Parte I: Renascentismo

A Civilização Ocidental como conhecemos possui três importantes pilares: a Moral Cristã, o Filosofia Clássica (Grega, principalmente) e o Direito Romano. Não uma simples combinação entre eles, já que a mescla entre eles gerou uma mudança considerável no entendimento dos três. Não cabe a esse artigo realizar uma profunda análise da formação ocidental (de que maneira se deu; quem sabe futuramente), mas olhar para o ponto em que o ocidente começou a se definir como aquele que conhecemos hoje. Esse momento foi o que, após um início tímido na medievalidade, resgatou a filosofia clássica e impregnou o pensamento com Humanismo e Racionalismo. Esse período foi o da renascença.

Durante a medievalidade, existia uma composição estável entre os governos seculares, herdeiros da cultura “bárbara” europeia, de um resquício do Império Romano e da ascensão do cristianismo. De maneira geral, o sistema era simples e claramente hierarquizado: o território era propriedade de um Rei, legitimado pela Igreja, e partes dessa propriedade eram delegadas a vassalos. Estes prestavam conta ao rei, e dividiam a terra entre os camponeses, que trabalhavam na terra e pagavam pesados tributos (parte da produção, e parte em dinheiro), divididos entre os aristocratas, o senhor das terras, o rei e a Igreja.

Mas um fenômeno começou a desestabilizar essa estrutura: O surgimento das cidades. Esse fenômeno permitiu que pessoas não ligadas à aristocracia começassem a enriquecer. O acontecimento pode ser explicado pelo fato de que as cidades permitiram um aumento populacional que aumentou a demanda por comida, aumentando seu preço e enriquecendo inclusive os camponeses. Isso fazia com que estes pudessem comprar os terrenos em que trabalhavam e não mais precisassem cumprir para com certas obrigações.

Como não mais eram protegidos por seus senhores feudais, passaram a migrar para os burgos (cidades). Isso causou o declínio do poder não apenas do Rei, mas também daqueles que mantinham uma forte relação com o mesmo. Resultou na diminuição do poder da Igreja, que controlava de forma agressiva aquilo que poderia ser ou não ensinado. Começou a ser resgatada, daí, a filosofia clássica, cuja interpretação era limitada pelos ensinamentos do clero, restritos aos monges (intelectuais da época). É claro que esse movimento gerou uma contrapartida, que resultou no movimento barroco, mas este é matéria de outro artigo.

1. Mudanças Religiosas

Se houve um grande ataque à Igreja Católica, maior que sua perda natural de influência resultante do surgimento das cidades, foi a Reforma Protestante. Martim Lutero, principal representante do movimento, posicionou-se, por motivos religiosos, políticos e sociais contra a Igreja Católica. O marco, aqui, foram as 95 teses de Lutero.

Os conflitos entre alguns reis e o Papa, a condenação pelos católicos da usura (o que deixava os burgueses desconfortáveis), o desejo de certos nobres de deixar de pagar os tributos papais foram algumas das motivações. Combateu também a avareza da Igreja, e a acusou de paganismo.

Martim Lutero, expoente da reforma protestante

2. Mudanças Estruturais

O surgimento das cidades fortaleceu o comércio com o Oriente e incentivou a migração de inúmeras pessoas. Isso alterou a relação entre oferta e demanda de alimentos, o que os encareceu e permitiu que os camponeses comprassem as terras em que trabalhavam. Livres de suas obrigações, mas ameaçados pela falta de proteção, passaram a migrar para as cidades, alterando cada vez mais a relação explicitada anteriormente. Fica claro o efeito bola de neve que isso causou, levando o feudalismo a um forte declínio na maioria das regiões, principalmente aquelas em que a reforma protestante foi bem sucedida.

A ascensão dos burgos afetaram gravemente a estrutura feudal
Exemplo de Feudo

3. Mudanças Econômicas

Como resultado das duas mudanças anteriores, uma alteração profunda nas relações econômicas aconteceu. Com o fortalecimento do protestantismo, que era dotado de certa característica determinista, auxiliou, juntamente com o surgimento das cidades, o capitalismo a aflorar. Essa análise foi realizada por Weber, em “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. O capitalismo, com sua visão de meritocracia, era inerentemente incompatível com a noção de privilégios, vigente no sistema aristocrata feudal.

4. Mudanças Filosóficas

Aqui começam as mais determinantes mudanças para a evolução do pensamento e seu desencadeamento no período romântico (este marcado pelo pensamento iluminista). O resgate da filosofia clássica retirou Deus do centro das relações sociais e colocou o homem, criando uma filosofia humanista, antropocentrista, e em certa medida, já individualista (apesar de essa característica ser mais notada posteriormente). A filosofia clássica já era estudada na medievalidade, mas os estudos eram restritos aos escolásticos, e com uma influência mais platonista (Aristóteles foi um pouco, acredito que propositalmente, esquecido, sendo pouco lembrado por Tomás de Aquino), já que a filosofia platônica era mais compatível com a filosofia cristã. É claro que essa mudança se deu, primeiramente, de forma mais intensa nas cidades, já que a estratificação do modelo feudal ainda era justificada pela filosofia da Igreja, ainda dominante. Os principais nomes dessa mudança foram Francesco Petrarca, Dante Alighieri e Boccaccio. Apesar de tudo isso, o que prevaleceu foi um neoplatonismo.

Dante Alighieri

5. Movimentos Artísticos

O período renascentista ficou marcado pelo nascimento do classicismo, que era fortemente influenciado pela arte grega. As artes sofreram uma alteração de paradigma, tendo, em geral, um apelo maior ao rigor estético e sobriedade. Na literatura, Camões foi um grande representante. A música renascentista não se desenvolveu de imediato ao classicismo, mas criou a noção de contraponto, essencial na música barroca (curiosamente, o movimento de contrarreforma). Nesse momento começou a se moldar aquilo que conhecemos como a arte clássica ocidental, rigorosa esteticamente, e de forte apelo ideológico e filosófico. A arte deixou de glorificar apenas a Deus, e passou a contemplar aquilo que era construído pelo homem. A referência à religião ainda era dominante, mas outros temas passaram a ser abordados. Algumas obras ilustres, além das apresentadas abaixo, foram a Mona Lisa e A Última Ceia, ambas de Da Vinci.

Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli – Fica evidente a influência da mitologia antiga – romana no caso.
Escola de Atenas, de Rafael Sanzio

5. Ciência

A ciência, como a conhecemos, passou a existir e ser desenvolvida no renascimento. A intelectualidade, aqui, explodiu e causou grande furor principalmente na Igreja, já que acabava por ter sua visão contestada. O nome mais conhecido é do ilustre inventor Leonardo da Vinci: além de pintor, engenheiro, matemático, anatomista. Apesar de não ter se desenvolvido à maneira contemporânea, abriu espaço para que filósofos como Descartes desenvolvessem o método científico e dessem início à Revolução Científica.

O movimento renascentista abriu caminho para dois importantíssimos movimentos culturais e filosóficos: o barroco e o romântico. Serão abordados, respectivamente, nos próximos artigos.

Um Novo Renascimento – Parte Introdutória

A cultura ocidental corre sérios riscos. Se o século XX teve o último suspiro daquilo que o ocidente produziu de nobre, o futuro guarda um caminho tortuoso, tenebroso, após um século XXI que marca a sedimentação de uma cultura viciada. A produção cultural de hoje é o retrato do que se tornou a nossa civilização: subvertida, em frangalhos. O que se tem, hoje, por erudito, é uma desconstrução de nossa própria cultura. A resultante do movimento modernista e contemporâneo, por exemplo, nada mais é do que a zombaria para com as tradições que produziram o auge do ocidente. O último prego no caixão de um movimento que, debilmente, tentou dar seus últimos suspiros e implorou para que fosse salvo do eterno esquecimento.

A Criação de Adão, uma das obras mais famosas do renascimento

Com esse cenário em vista, venho a trazer uma série remontando à alta cultura ocidental. Pretendo, semanalmente, elaborar um artigo sobre um período que moldou o ocidente como foi em seu auge. E o primeiro, de forma simbólica, será o do Renascimento. Quem sabe assim paramos para olhar ao passado e o tenhamos com respeito e como influência. Quem sabe assim atentamos mais às tentativas de destruir essa grande civilização ao destruir suas instituições e suas culturas, dando a devida atenção àquilo que é essencial. A luta contra a esquerda não se resume a discussões econômicas. A questão mais importante é, sem dúvida, a cultural. Todo o resto é resultado.

Johann Sebastian Bach – O nome mais influente do período barroco, e um dos mais influentes da história