MENTIRAM PARA VOCÊ SOBRE A EDUCAÇÃO FÍSICA NO REGIME MILITAR

Por: Alessandro Barreta Garcia; Eduardo Francisco Clementino. Professores de educação física

É patente à maioria da sociedade que há uma doutrinação ideológica na educação brasileira, mas são raras as menções das táticas e estratégias usadas pelos professores de educação física para doutrinarem seus alunos. O presente texto dispõe-se a trazer à tona tais manobras.

É patente à maioria da sociedade que há uma doutrinação ideológica na educação brasileira, mas são raras as menções das táticas e estratégias usadas pelos professores de educação física para doutrinarem seus alunos. Tal doutrinação, de viés esquerdista, ocorre no âmbito da história da educação física e chega às escolas, por exemplo, com o discurso de demonização da técnica e do esporte tradicional.

A partir do fim do regime militar em 1985 (Garcia, 2015), tivemos novas discussões concernentes à forma à qual a educação física dever-se-ia apresentar-se na educação básica. Ondas marxistas e neomarxistas vicejavam a educação brasileira e o resultado foi à entrada incisiva do marxismo cultural no esporte (marxismo cultural é a mudança do marxismo clássico que pegava em armas para um marxismo ideológico que substituiu as armas pela infiltração de intelectuais orgânicos em todas as esferas da sociedade).

A teoria crítica surgiu opondo-se ao que os autores chamam de educação mecânica, vista como uma espécie de ferramenta de controle ideológico, sendo implantada pelos militares no período do regime militar. Na lógica dos autores, como todo bom marxista acredita que toda análise histórica pode ser vista pela ótica econômica, és o que Marx e Engels chamavam de determinismo econômico, ou seja, a interpretação da história da sociedade a partir do aspecto material.

Frequentemente os autores correlacionam a educação técnica com os meios de produção, sendo o tecnicismo um meio para produzir cidadãos passivos e escravos do capitalismo. Quando se fala em didática da educação física, autores como Taborda de Oliveira, entre outros, sempre tendem a atrasar os fatos, quando não, os ignora.

Taborda de Oliveira (2003), afirma que o primeiro texto subsidiando a prática profissional da educação física escolar, surge em 1971, denominado “Programa de Educação por Temporada”; conforme o autor, este texto surge devido à necessidade do banimento da improvisação (aulas não sistematizadas, sem sequenciamento pedagógico).

O programa de Educação Física por Temporada empresta sua denominação das competições esportivas. Refere-se a uma forma de organização do trabalho pedagógico de Educação Física em que cada período de tempo (mês, bimestre, trimestre ou outros) se desenvolve determinada modalidade esportiva. Daí resultou a tradicional forma de organização da Educação Física escolar. (Taborda de Oliveira, 2003, p. 173)

Entretanto, conforme Faria Junior (2014), o programa por temporada surge para o professor de educação física na década de 60, tendo como idealizador Julio Mazzei no qual publica em 1960, o livro “Novas Concepções do Programa por Temporada”, que volta a ser publicado junto a uma coleção em 1967, coleção denominada de “Cultura, Educação, Educação Física, Esportes e Recreação”. Como continuidade do programa por temporada, surge sob o comando do professor Alfredo Gomes de Faria Junior a ideia de programa por unidades didáticas.

No período de 1975 a 1978, foi concebido o documento denominado “Segundo Plano de Educação”, nesse documento se estabeleciam os núcleos comunitários — instituições educacionais regidas por três estruturas integradas de ensino: a unidade de educação, a unidade de saúde e a unidade social (Henklein; Silva, 2012).

Segundo Henklein e Silva (2012), “neste documento pode-se notar uma política educacional mais ampla, que pretendia abarcar também a comunidade”.

Assim como Taborda de Oliveira, Henklein e Silva também atrasam os fatos, campeonatos estudantis já existiam pelo menos desde 1941, se isto não é integrar a comunidade, não sei mais o que é (Campeonato Intercolegial de Educação Física, 1941).

Após a queda de o governo militar fez-se necessário uma “renovação” da educação física escolar; podemos notar o erro inicial da renovação, conforme Henklein e Silva (2012), os profissionais de educação física não foram convocados a participar do novo referencial, mas sim pedagogos que nada entendem de motricidade humana. Para Ulrich Celeste (1977): “A Educação Física encontra-se nos movimentos planejados de um indivíduo; movimentos que são estruturados quanto à forma, sensação e resultado”.

Convocar pedagogos para debater sobre o destino educacional da educação física parece-me que as aulas desta área de conhecimento eram consideradas uma ocasião de juntar certo número de alunos, a qual qualquer adulto pode mantê-los afastados de travessuras. Desconfio que ainda sejam assim consideradas, haja vista que algumas escolas particulares optam por pedagogos ministrarem as aulas de educação física.

Ainda segundo Henklein e Silva (2012), nesse novo documento datado entre os anos de 1975 e 1985, é possível constatar uma “nova” proposta na educação básica o chamado programa de educação física por temporada.

As autoras do artigo aqui exposto enaltecem a superioridade deste novo texto em relação ao anterior salientando que é “uma sofisticação do papel da escola, que não se restringiu somente ao aluno, mas também ao meio em que estava inserido” (Henklein; Silva, 2012).

É possível notar uma grande falácia nesta argumentação, pois o programa por temporada desenvolvido por Julio Mazzei (Faria Junior, 2014) já propunha a partir da divisão do ano letivo em temporadas, ou seja, por esportes. O programa por temporada propiciava a prática dos esportes mais tradicionais do país, assim valorizando a cultura do aluno. Este programa tinha um teor mais esportivo, mas não somente esportivo, nota-se a sua superioridade em relação ao atual programa, pois o mesmo compreendia que o processo de aprendizagem é complexo e lento, “não sendo possível assim, do “nada saber” aos domínios das habilidades desejadas com uma aula, por mais “magistral” que esta tenha sido” (Faria Junior, 1969, p.206).

Em 1975 surge o “Programa de Educação Física e Recreação Orientada”, material que fora reunido por profissionais da educação física, tornou-se uma espécie de tratado da educação física, propondo um plano que abrangia todo o estado de Curitiba. Henklein e Silva (2012), afirmam que este programa teria um viés biológico, incorporado às ideias de meritocracia, da hierarquia, do individualismo, da ordem, que são características típicas do esporte, mas para as autoras isto parece ser algo nocivo no meio escolar.

Outro ponto enaltecido por Henklein e Silva (2012) é a metodologia aplicada no programa, uma formação pautada na pedagogia tecnicista dos profissionais de educação física da época refletia na escolha do melhor método a ser utilizado no processo de ensino-aprendizagem. As autoras mencionam o nome que fora atribuído ao programa “A BÍBLIA”, com certo tom de jocosidade, como se o cristianismo, assim como a pedagogia tecnicista a elas fosse um meio de controle social.

O programa por temporada, proposto por Julio Mazzei, propiciou a difusão do desporto no âmbito escolar. O programa por temporada evoluiu para o trabalho por unidades didáticas mais de acordo com a filosofia do humanismo (Faria Junior, 2014).

Mas, mesmo sendo o idealizador do programa por temporada, o nome de Julio Mazzei não é mencionado uma vez sequer no trabalho de Henklein e Silva; é uma absoluta falta de compromisso com a verdade. Uma tentativa descarada de omitir a verdade.

Segundo Faria Junior (2014), “No Programa por Temporada predominavam os desportos, enquanto que no Trabalho por Unidades Didáticas ao desporto somavam-se outras unidades, como as Danças, à Ginástica Feminina Moderna, o Folclore”.

Desta forma podemos notar que a valorização da cultura do discente, a diversidade de práticas corporais e o respeito às limitações dos alunos já estavam presentes na educação física desde a década de 60, período que antecede o regime militar.

Logo, é uma falácia pregar um evolucionismo da educação física da escola nova da década de 80, Henklein e Silva tentam atribuir qualidades de uma nova abordagem da educação física que na verdade não tem nada de novo.

REFERÊNCIAS

CAMPEONATO INTERCOLEGIAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Departamento de Educação: Departamento de Educação Física — Prefeitura Municipal de Santos, 1941.

CARVALHO, O. Do marxismo cultural. O Globo, 8 de junho de 2002. Disponível em:<http://www.olavodecarvalho.org/do-marxismo-cultural/> Acesso em: 10 dez. 2017.

FARIA JUNIOR, A. G. DE. Os currículos de educação física e o ensino por unidades didáticas. Corpus Sci, Rio de Janeiro, v. 10, n.2, p. 16–32, jun/dez. 2014.

GARCIA, A. B. Educação física e regime militar: uma guerra contra o marxismo. Jundiaí: Paco Editorial, 2015.

HENKLEIN, A. P, et al. Do tecnicismo ao discurso crítico: a educação física nos documentos da rede municipal de ensino de Curitiba (1968–1997). Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, v. 10, n. 2, 2012.

ULRICH, C. O. D. Educação Física: manual de princípios para estudantes de educação física. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1977.

FARIA JUNIOR, Alfredo Gomes de. Introdução a Didática de Educação Física. Brasília, DF: MEC, 1969.

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A SUPOSTA UTILIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA COMO FERRAMENTA DE CONTROLE IDEOLÓGICO PELOS MILITARES (1964-1985)

RESUMO
Entre os anos de 1964 e 1985, segundo as correntes ditas “humanistas”, a educação física focava seu desenvolvimento educacional para fortalecer as ideias difundidas pelos governos militares. Nesse período, o chamado binômio “Desenvolvimento com Segurança” era associado às práticas desportivas na escola. Constatada essa perspectiva crítica, o objetivo deste artigo foi averiguar se essa crítica se justifica, levando-se em consideração alguns dos principais documentos internacionais divulgados pelos governos militares. Para isso optamos pelo método documental. A partir desses documentos, em um total de cinco, constatamos uma enorme preocupação pedagógica e nenhuma relação com o âmbito da “Segurança Nacional”. Nesse sentido, não se confirma, segundo os documentos estudados, que a educação física estava a serviço dos militares

Link do artigo:

http://arquivos.cruzeirodosuleducacional.edu.br/principal/old/revista_educacao/pdf/volume_9_2/educacao_02_2015_148-160.pdf

BALANÇO DAS OLIMPÍADAS DO RIO: ALEGRIA, CIDADANIA, ATLETAS MILITARES

Ricardo Vélez-Rodríguez

Mestre em Filosofia (PUC/RJ). Doutor em Filosofia (UGF). Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”. Coordenador do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Professor Emérito na Escola de Comando e Estado Maior do Exército.

As Olimpíadas do Rio chegam ao fim e é hora de fazer um balanço. Queria destacar três aspectos: 1 – De um lado, a alegria das medalhas conquistadas, notadamente do ouro no futebol e no vôlei, que simbolizou o clima popular que prevaleceu na grande festa. 2 –  O contraste dessa alegria com a falta de civilidade do público brasileiro em alguns eventos. 3 – Em terceiro lugar, a contribuição dada pelas Forças Armadas nos resultados positivos do magno evento, em termos de medalhas conquistadas pelos nossos esportistas.

1 –  A alegria das medalhas conquistadas e as festas de abertura e encerramento. O espírito olímpico é, antes de tudo, de congraçamento alegre entre as Nações. Esse clima prevaleceu ao longo da grande festa, em que pese incidentes dolorosos  no terreno da segurança pública, ensejados pela crônica criminalidade. A máxima manifestação do clima de alegria pôde ser observada na animada torcida de aproximadamente um milhão de pessoas, que ocupou o Boulevard Olímpico na tarde e na noite do sábado 20 de Agosto, quando do jogo decisivo entre a Alemanha e o Brasil, que terminou conferindo à nossa seleção o almejado ouro olímpico. Essa alegria acompanhou, também, as belíssimas cerimônias de abertura e encerramento dos jogos. O Brasil deu mais uma vez, perante o mundo, prova de que é craque na produção de grandes eventos. A nossa imagem reluziu no cenário internacional das festas populares.
A alegria das grandes massas que acompanham os Jogos Olímpicos, essa foi a herança que os modernos organizadores tiraram da antiga tradição grega. Na Antiguidade clássica, suspendiam-se as guerras entre as cidades-estado, a fim de que as Olimpíadas possibilitassem uma festa em que cada grupo expunha perante os outros o valor da força, da disciplina e da habilidade corporal, num contexto em que o que valia era a competição honesta entre os esportistas, sem esperar mais reconhecimento do que a admiração dos concidadãos e a perpetuação da memória dos heróis olímpicos, simbolizada na coroa de louro com que eram agraciados os vencedores.
Nesses eventos se colocava de relevo o valor da amizade e da lealdade entre os contendores e os assistentes, numa espécie de antítese à ferocidade das guerras muito frequentes entre as várias cidades da península helênica e das suas ilhas. Os Jogos constituíam, assim,  um oásis de diálogo amistoso e de negociação entre as cidades guerreiras. O valor supremo da “paideia” ou educação para a cidadania, era o binômio “kalós kaí agathós” (beleza e coragem) que, na antiga Atenas, sedimentava o espírito de defesa da Cidade, após as reformas de Clístenes ocorridas por volta do ano 500 a.C.
Ora, os Jogos eram como uma espécie de projeção artística daquilo que havia de mais perdurável na lide desportiva: a beleza dos corpos e a habilidade nas várias provas. Os Romanos sintetizaram no trinômio famoso: “citius, “fortius”, “altius” (“mais rápido, mais forte, mais alto”) esse espírito de competição e de progressiva superação dos jovens atletas.
A tradicional hospitalidade do povo carioca e, em geral, dos brasileiros, reluziu nas festas olímpicas. O bom humor das pessoas ajudou a mitigar as deficiências administrativas nos transportes e na alimentação. A festa foi, em termos gerais, maravilhosa, contagiando os nossos visitantes que, certamente, quererão voltar. Essa é uma prova do nosso soft power que, livre de manipulações populistas, é um ativo importante neste mundo globalizado refém do terrorismo.
2 – O contraste da alegria olímpica com a falta de civilidade do público brasileiro em alguns eventos. A torcida é inerente aos grandes eventos esportivos. Pesquisas realizadas por arqueólogos americanos e gregos revelam que nos Jogos antigos da cidade de Olímpia havia torcidas organizadas. O que não significa que as vaias contra as equipes adversárias pudessem se sobrepor ao espírito olímpico.
Infelizmente as vaias sobrepuseram-se ao espírito olímpico em alguns momentos da Olimpíada do Rio. As provas de atletismo viram-se prejudicadas por manifestações dessa natureza. Os organizadores falharam ao não terem desenvolvido campanha publicitária adequada, a fim de que se preservasse a compostura para que não fossem prejudicadas provas em que é primordial o silêncio que garanta a concentração dos atletas. Essa falha insere-se, a meu ver, na mais larga carência que o Brasil hodierno sente em relação à educação para a cidadania.
Os nossos períodos democráticos são confundidos com espírito de vale-tudo, como se não fosse essencial a manutenção de condutas condizentes com os valores cidadãos. No ciclo militar, o ensino básico cuidava para que os alunos recebessem noções básicas de cidadania e da preservação de valores que dizem relação ao nosso convívio coletivo. Eram conhecidas disciplinas como “Educação Moral e Cívica”, ministradas ao longo dos níveis fundamental e secundário. Na Universidade, era ministrada a disciplina “Estudo de Problemas Brasileiros”, em que eram discutidas as grandes questões que, do ângulo comportamental, dificultavam o desenvolvimento.
Chegado o período da redemocratização, após o fim do regime militar, tudo isso foi jogado no lixo da história como “entulho autoritário”, sem que se cuidasse da educação para a cidadania num contexto democrático. A bem da verdade, as únicas instituições de ensino que passaram a desenvolver uma reflexão nesse ponto foram as Academias Militares das três Armas, que cuidaram de preparar o pessoal militar, tanto de oficiais quanto de suboficiais e praças, para a adequada atuação das Forças Armadas num contexto democrático.
Resultado: hoje elas representam uma instituição respeitável e afinada com a nossa democracia. Ao longo dos agitados anos do regime lulopetista que conseguiu pôr em xeque as instituições republicanas, em nenhum momento as nossas Forças Armadas colocaram como saída opções diferentes das consagradas na Constituição de 1988. Ora, não se pode dizer o mesmo da totalidade da nossa sociedade civil, em cujo seio  políticos, sindicalistas e militantes de várias siglas da esquerda apregoam soluções de fato, acusando os seus oponentes de um “golpe” que, paradoxalmente, forma parte do seu próprio cardápio.
3 – A contribuição dada pelas Forças Armadas nos resultados positivos do magno evento, em termos de medalhas conquistadas pelos nossos esportistas. O positivo resultado conquistado pelos nossos atletas nestas Olimpíadas foi evidentemente superior ao alcançado em certames anteriores. A razão funda-se na política adotada pelo Ministério da Defesa desde 2008, no que tange à realização, pelas Forças Armadas, de programas de treinamento de alto rendimento de jovens participantes dos quadros militares, com vistas a melhorar a performance brasileira no terreno esportivo. Inicialmente foram visadas as Olimpíadas Militares realizadas no Brasil em 2011 (quando o nosso país ficou em 1º lugar), tendo ficado em 2º, quatro anos depois.
É um programa que deve continuar, junto com o chamado de “Força no Esporte”, do qual participam 21 mil crianças, que têm acesso regular à prática supervisionada de esportes em unidades militares em todo o país. Os jovens suboficiais que venceram provas nas várias modalidades, do atletismo às provas de remo, honraram a memória das Forças Armadas às quais pertencem, adotando a posição de sentido na hora de receber as medalhas conquistadas. Bela manifestação de patriotismo nestes tempos empanados pela corrupção generalizada. Os jornais noticiaram com ressalvas esses fatos. Alguns afoitos criticaram a atitude dos nossos atletas militares. Divirjo veementemente dessa posição. Acho que foi muito positiva a atitude dos que receberam com a saudação militar as suas honrarias esportivas. Afinal, o número deles foi significativo: da Olimpíada que ora se encerra os militares constituíram 33% dos atletas brasileiros, com 81% das medalhas conquistadas. Um sucesso retumbante!

O mundo precisa saber que as Forças Armadas Brasileiras preparam a nossa juventude para a prática sadia do esporte de alto rendimento. Esta é, aliás, a ponta do iceberg. Na base, sabemos que há muita dedicação e competência na gestão acadêmica das Escolas Militares. O professor Alessandro Barreta García, em obra recente (Educação física e Regime Militar, Jundiaí: Paço Editora, 2015, apresentação de minha autoria), destacou esses aspectos.

Um pequeno exemplo: as únicas instituições de ensino que fazem avaliação de docentes no Brasil, de forma sistemática e seriamente planejada,  são as pertencentes às Forças Armadas, tanto nos níveis de ensino médio (Colégios Militares) quanto na graduação e na pós-graduação. Sou, com muita  honra, professor emérito da ECEME e posso dar este testemunho a partir da própria experiência. Colaboro com o Exército desde 1983 na preparação de oficiais em nível de pós-graduação, tanto nessa instituição quanto no Centro de Estudos de Pessoal, no Rio de Janeiro. Também colaboro com o Clube da Aeronáutica, no Rio, nos cursos de Pensamento Brasileiro organizados ali em nível de pós-graduação. Nas minhas atividades docentes nas Escolas Militares sempre fui avaliado de forma séria e regular, coisa que não tenho experimentado nas Universidades públicas nas quais trabalhei desde a minha chegada ao Brasil em 1979. Nestas, as políticas de avaliação acomodaram-se aos interesses do sindicalismo petista que deformou totalmente o caráter de seriedade acadêmica que deveria presidir esse tipo de análise do desempenho docente.

Poucas são as Universidades que no Brasil têm programas continuados de educação física e de prática esportiva abertos à comunidade. A Universidade Gama Filho foi exemplo que se destacou nesse campo. Infelizmente, foi clausurada pelo MEC, numa decisão atabalhoada e pouco transparente, sob a regência do ex-ministro Aloísio Mercadante.

Fonte: http://pensadordelamancha.blogspot.com.br/2016/08/balanco-das-olimpiadas-do-rio-alegria.html

O conservador, a prudência e a reforma agrária

Texto publicado também no blog “Mundo Analista“. Para ler por lá, clique aqui.

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Uma das maiores virtudes do conservador político é a prudência. Ser prudente, entre outras coisas, é ver além do óbvio, além do aqui e agora; é avaliar os possíveis desdobramentos de uma ação antes de realizá-la, usando a lógica, a moral e experiência.

Para exemplificar, vamos pegar um tema concreto. Reforma Agrária. Quando eu era pequeno ouvia falar nessa reforma com muitos louvores. E, nos meios universitários, isso é visto como inquestionavelmente bom. A ideia, como vocês sabem, é expropriar (arrancar, tirar) terras de grandes latifundiários para redistribuir aos sem terra e pessoas pobres. Se haverá indenização ao latifundiário por parte do Estado, não importa para esta definição, pois a medida não deixa de ser expropriação e uma imposição por parte do Estado. Na cabeça de quem defende, três atos de justiça: punir o rico, ajudar o pobre e criar igualdade.

Para o conservador, essa ideia é absurda. Por quê?

Em primeiro lugar, ela é um roubo. Ser rico e ter muitas terras não é um crime. A não ser que se prove que aquela pessoa enriqueceu ilicitamente.

Apelar para o passado não adianta aqui. Não podemos punir alguém hoje por erros cometidos por seus antepassados. Isso implicaria ter de investigar minuciosamente a vida dos antepassados de cada indivíduo da sociedade para saber se houve alguma injustiça que gerou favorecimento para a pessoa.

Essa investigação teria de alcançar todas as gerações até os primórdios do mundo e precisaria lidar com dificuldades de deslocamentos entre nações e continentes. Impossível, claro. Mas, mesmo que isso fosse possível, resultaria em ter de colocar funcionários do governo para entrar nas casas de todo o tipo de pessoa para arrancar bens, o que não incluiria só ricos, mas qualquer que tenha um benefício advindo de uma injustiça cometida por um antepassado. Será que todos estariam dispostos a isso?

Ademais, a ideia ainda esbarra na questão da culpa: que culpa um indivíduo tem dos erros cometidos por seus antepassados?

Então, não, não se pode fazer esse acerto de contas retroativo. O que vale é o que cada pessoa faz em sua própria vida. Isso nos leva a concluir que expropriar as terras de um rico só porque ele é rico é roubo. E, obviamente, qualquer rico tem direito de achar isso ruim e errado.

Em segundo lugar, mesmo que aceitemos, à título de argumentação, que é justificável roubar ricos para ajudar pobres, que o ato é válido porque visa o bem maior da igualdade social, pense nas implicações disso. Dar a um governo e ao Estado o poder de tomar propriedades de uns para dar a outros é algo muito perigoso. Um governo e um Estado que podem expropriar terras podem fazer qualquer coisa. Esse poder absurdamente grande escancara  portas para outras ações autoritárias como a expropriação de lojas, fábricas, empresas em geral, casas, prédios, poupança bancária, móveis e bens. Escancara portas também para prisões arbitrárias, perseguição à dissidentes do governo, cassação dos mandatos de políticos opositores e o uso crescente das forças policiais e militares para reprimir o cidadão. E se tudo isso se origina de uma luta pelo bem comum, e por isso é legitimado, o governo terá prerrogativa para fazer o que julgar necessário para alcançar esse bem.

Daí decorre que o governo poderá intervir em diversos aspectos da economia e da vida individual, a fim de acabar com desigualdades e garantir a manutenção das reformas (bem como estendê-las). Ações como aumentar impostos de grandes empresas, proibir demissões, impor admissões, tabelar preços são algumas das políticas que serão usadas. E quando isso acabar falindo diversas empresas, aumentar os impostos de todos os cidadãos para ajudar as empresas em apuros será a regra, claro.

Aqui é interessante ressaltar: quando é dado ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum, ele poderá expropriar o que achar necessário e de quem achar necessário. Isso inclui também os pobres. O governo poderá fazer isso através de aumento dos impostos (e vai fazer) ou de maneira direta, quando um pobre estiver, de algum modo, atrapalhando seus planos. E na medida em que a economia entrar em colapso, o número de ricos diminuir e o número de pobres aumentar, só sobrará mesmo os pobres para expropriar. Em suma, se o governo antes tirava dos ricos para dar aos pobres, agora tirará dos pobres para dar a alguns ricos, a fim de salvar a economia.

Em terceiro lugar, há que se diferenciar governo de Estado. O governo é formado pelo conjunto de governantes de uma determinada época e lugar. O Estado é formado pelo corpo de leis que, além de delimitar uma sociedade, prescreve os direitos e deveres dos governantes e governados da mesma sociedade. Ora, os governos mudam na medida em que mudam os governantes. Mas o Estado pode permanecer o mesmo por décadas, séculos, milênios. Por que é importante saber disso? Porque ainda que um governo conduza a reforma agrária (ou alguma outra reforma de cunho totalitário) e não se torne tão poderoso e opressor como descrevi, esse governo um dia será substituído. Sobretudo se for um governo democrático de um Estado democrático, onde há constante troca de governantes. Então, quando um governo dá ao Estado qualquer poder, não está dando poder apenas para si, mas para governos que virão; está criando um sistema novo, que poderá ser usado de maneira mais intensa e extrema por governos futuros.

Em quarto lugar, um governo que aumente seu poder dessa maneira inevitavelmente viverá com medo de levantes, revoltas e oposição. Isso o conduzirá a criar um estado policial e a restringir a liberdade de seus cidadãos (pobres e ricos). Algumas dessas restrições provavelmente serão: desarmamento da população, imposição do ensino formal às crianças, proibição de saída do país e, no futuro, proibição de greves e manifestações. Uma característica interessante do totalitarismo é que ele só pode ser sustentando com cada vez mais totalitarismo. A tendência, então, são as restrições só aumentarem.

Em quinto lugar, dar ao estado o direito de expropriar em prol do bem comum o coloca acima da lei, criando instabilidade jurídica e dando margem para o surgimento de déspotas e de governantes irresponsáveis. Além disso, o direito à propriedade privada é solapado e deixa de fazer sentido. Não há mais qualquer garantia de que o que é seu é seu. Na verdade, tudo pertence ao Estado e você só usufrui enquanto o Estado lhe permite. Aliás, isso já é algo bem próximo do comunismo, não?

Em sexto lugar, dar ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum vai gerar, inevitavelmente, agitação social e conflitos entre grupos. Afinal, interesses opostos estarão em jogo e o uso da força será usado. E, para completar, o governo não se privará de usar e incentivar o ódio entre classes, a fim de evitar o foco do povo nas suas ações totalitárias e garantir apoio de uma classe. Em outras palavras, o governo alimentará, por um tempo, a agitação social, o conflito e o ódio entre grupos.

Reformas sociais que se baseiam em ódio entre grupos, conflitos físicos, agitações populares, extorsão de propriedade privada, autoritarismo, violência civil, desprezo das leis, sentimento de revanche e ações abruptas e impensadas dificilmente terão como efeito uma sociedade pacífica, estável, respeitadora da lei, com um Estado que garante o direito individual e governos que não excedem os limites do poder. Os efeitos das reformas mencionadas acima geralmente são o sentimento generalizado de desconfiança, a instabilidade das instituições, a falta de disciplina do povo, o autoritarismo estatal e o risco sempre alto de golpes de Estado e brigas ilícitas pelo poder. Foi o que aconteceu após a Revolução Francesa. E também a Russa.

Em sétimo lugar, o empreendedorismo e o lucro passam a ser desestimulados entre empresários e cidadãos comuns. Como o governo pode tirar tudo o que um indivíduo tem, quase ninguém quer correr o risco de investir. Nem os de dentro da nação, nem os de fora. Esse desestímulo ao investimento cria a necessidade do governo fazer algo para garantir a saúde da economia antes que ela entre em colapso. Dessa necessidade quase sempre surge uma relação promiscua entre o governo e alguns grandes empresários que começam a ser protegidos pelos governantes em troca de ajudá-los a gerir a economia. O resultado é a consolidação de um mercado pouco competitivo e  alguns grandes monopólios privados que irão extorquir o cidadão com preços altos e produtos/serviços de péssima qualidade.

Outras ações desse tipo de governo para tentar evitar um futuro colapso na economia seriam: criar diversas empresas estatais, estatizar empresas que considera estratégicas, implementar inúmeras obras públicas, aumentar os gastos do governo e reduzir de modo artificial as taxas de juros através da inflação de moeda. As bases que orientam essas ações são: (1) Se o meio privado não está criando empregos suficientes, o governo pode e deve criá-los. Fará isso através da instituição de empresas estatais, de obras públicas e do aumento de gastos do governo. Tudo isso gerará empregos. (2) O governo tem muita aptidão para administrar empresas, inclusive mais aptidão do que o meio privado, que é ganancioso e irresponsável. Portanto, é bom que o governo crie estatais e que estatize empresas privadas de ramos considerados estratégicos. (3) A derrubada de juros irá criar incentivo para que o meio privado invista, o que o fará respirar.

Essas três ideias possuem graves problemas. A primeira, por exemplo, ignora que para o governo manter qualquer empresa estatal, implementar obras públicas e aumentar gastos do governo, ele precisa arrumar dinheiro. E qual é a única fonte de dinheiro de qualquer governo? O dinheiro do povo; os impostos. Ou seja, para criar os tais empregos, o governo precisa tirar dinheiro das pessoas (o que inclui os pobres). E quanto mais ele se meter na economia, mais impostos ele precisará cobrar do trabalhador. Procedendo assim, o governo dá empregos para uns arrancando o dinheiro de outros. Nisso, o setor privado é muito mais justo, pois cria empregos com capital privado e se mantém com o dinheiro daqueles que escolhem, por conta própria, comprar seus produtos/serviços.

A segunda ideia ignora que a gestão pública tende a ser menos eficiente que a gestão privada. Por várias razões. Para começar, empresas públicas não vão à falência quando dão prejuízos (como é o caso das empresas privadas). Elas recebem mais dinheiro do governo para cobrir seus déficits. Isso não apenas torna mais custoso para o cidadão o serviço prestado pela empresa, como premia a ineficiência. Não importa o quão ruim seja a empresa, ela continuará recebendo dinheiro. Sem risco de falência e sem precisar concorrer com outras empresas para se manter à frente, é comum que tanto os gestores, como os funcionários de empresas públicas, não se esforcem tanto para obter bons resultados como nas empresas privadas. Alguns sequer se esforçarão.

O relaxamento e a falta de cuidado com os gastos também sempre tenderá a ser maior nas empresas públicas, já que o dinheiro vem do governo e é ilimitado. Costumamos a cuidar mais dos gastos e do que compramos quando o dinheiro é limitado e, sobretudo, quando o dinheiro é nosso. Afinal, sabemos o quão duro foi conseguir nosso dinheiro e como ele pode acabar rápido se não formos responsáveis. Não se tem essas noções nas empresas públicas.

Outra razão é que na coisa pública é mais fácil ocorrer corrupção. Obras podem ser superfaturadas, empresas podem servir como cabides de emprego, verbas podem ser desviadas. No setor privado isso é mais difícil, pois os gestores e donos tomam todos os cuidados possíveis para não permitir roubos no interior da empresa, o que colocaria em risco a vida da instituição. Como esses riscos não existem na coisa pública, tampouco a coisa pública tem donos específicos, a fiscalização é bem mais frágil. Do ponto de vista do governo, aliás, é muito difícil fiscalizar todos os agentes que fazem parte de cada instituição pública. A estrutura pública é muito grande e complexa, o que permite que diversos desvios éticos sejam perpetrados em cada ponto distante dessa enorme teia de pessoas, cargos, lugares e funções.

Conta-se que quando o Regime Militar brasileiro reuniu sua cúpula para decidir sobre a instituição do AI-5 (que pretendia aumentar os poderes do presidente), o civil Pedro Aleixo, vice-presidente do General Costa e Silva, se colocou contra. Alguns na sala perguntaram se Aleixo desconfiava da integridade do General. Ele teria respondido o seguinte: “Não desconfio da integridade e das boas intenções do Sr. Presidente, mas tenho desconfiança do guarda da esquina”. O princípio é claro. Por mais que um regime realmente tenha boas intenções, quando ele aumenta seu poder político ou o tamanho do aparato estatal, cria brecha para que diversas pessoas que tem alguma participação na coisa pública, cometam desvios éticos. E isso é praticamente incontrolável.

A terceira ideia, por fim, ignora que derrubar juros expandindo moeda gera inflação de preços. Embora, num primeiro momento, a derrubada artificial de juros pode gerar um efeito positivo na economia, incentivando o investimento, a inflação acabará aparecendo e destruindo a vida do cidadão comum e dos próprios empresários. Não obstante, para um governo interventor, expandir moeda sempre parecerá uma medida tentadora e, de certa forma, inevitável. Uma das razões para isso é que, quando o governo já não tem como arcar com as dívidas criadas pela má gestão pública e pela corrupção, imprimir dinheiro resolve temporariamente o seu problema: as dívidas são pagas. Resultado: a hiperinflação será cada vez mais comum na medida em que o Estado aumentar a sua máquina pública.

O conservador como profeta político

Ao perceber a inviabilidade moral da reforma agrária (o exemplo que usamos nesse texto) e todos os seus efeitos desagradáveis, o conservador se torna um profeta político. Ancorado na lógica e, muitas vezes, no que ele já viu acontecer em outras partes do mundo e/ou em outras épocas, ele se torna capaz de prever o futuro e avisar aos seus conterrâneos e contemporâneos da desgraça iminente.

Aqui está a grande virtude do conservador: ele vê além do óbvio. Muitas vezes o que, inicialmente, pode parecer uma ideia, acaba se mostrando imoral e extremamente perigosa. São estas nuances, estes detalhes e efeitos não visíveis em um primeiro momento, que um conservador observa, antes de defender uma reforma.

Apresentei o exemplo da reforma agrária, do qual queria falar há algum tempo, mas o mesmo tipo de análise pode (e deve) ser aplicada sobre qualquer reforma ou ação governamental. E é por essa razão que conservadores geralmente são avessos à políticas baseadas em estatismo e intervenção governamental. As consequências desse tipo de política quase sempre são os mesmos que elencamos nesse texto.

A socialização de analfabetos motores

Alessandro Barreta Garcia*

Antes de falar sobre o aprendizado motor, vou expor algumas considerações sobre alfabetização no Brasil. Uma frase muito usada pelos construtivistas que ensinam o ler e o escrever é: “ninguém ensina ninguém, o aluno constrói o seu próprio conhecimento”. Observo que estes termos se aplicam a um universo comum de construtivistas de carteirinha, e nesse sentido, apresentam essa ideia como uma verdade incontestável. Quase que religiosa.

Para o construtivismo: “Os demais níveis de organização da linguagem que subjazem à semântica – tais como o nível fonológico, ortográfico, morfológico, sintático – simplesmente não seriam considerados importantes” (OLIVEIRA, 2002, p. 10). Como resultado, segundo Sebra e Dias (2011), o construtivismo endossa uma educação pela incompetência. Para estas autoras, este movimento “pedagógico” é um dos principais responsáveis pelos baixos níveis educacionais nos testes internacionais. Destacam ainda, que o movimento construtivista é rejeitado pelos principais países no mundo.

Para uma alfabetização desejável, é necessário o reconhecimento dos grafemas e fonemas. O método fônico, por exemplo, ensina a correspondência entre letras e sons de forma a desenvolver uma maior e melhor consciência no aprendizado da linguagem. Para tanto, é necessário um grande empenho no aprendizado dos fundamentos de nossa língua.

Em relação ao aprendizado motor, a lógica é a mesma, não se ensina a dançar, sem antes, se ensinar a andar. O grafema do aprendizado motor é a técnica, e sem esta, não se aprende. Dar significado aos movimentos ou pensar sobre eles, não implica em aprendizado, pois para isso é necessário o aprendizado das técnicas por meio da prática. Tal procedimento era comum nos anos do regime militar brasileiro, mas com o fim deste ciclo virtuoso, a educação, bem como, a educação física brasileira, se despreza a técnica como se despreza a escrita, como resultado desse desprezo, nós estamos entre os piores do mundo (GARCIA, 2015).

Como nos informa Rebollo (2003): “O sentido de techné é o de uma orientação prática, um sistema de regras e categorias que possui uma base teórica sólida, capaz de produzir efeitos previstos por suas regras e apresentar a razão (logos) do processo e das causas. A techné, assim definida, é uma ciência indutiva e prática, na qual a experiência (empeiría) é o seu fundamento” (REBOLLO, 2003, p. 281). Dessa forma, todos os movimentos são orientados por técnicas, das mais simples as mais complexas, o homem é um ser técnico por natureza. O que nos faz humano é a técnica, sem ela nos parecemos muito com os animais irracionais. Ser contrário a técnica é ser contrário a nossa própria humanidade. Será você, um anti-humano.

Sobre o corpo e o movimento técnico, Marcel Mauss foi muito preciso: “Chamo de técnica um ato tradicional eficaz (e vejam que isso não difere do ato mágico, religioso, simbólico) Ele precisa ser tradicional e eficaz. Não há técnica e não há transmissão se não houver tradição. Eis em quê o homem se distingue antes de tudo dos animais: pela transmissão de suas técnicas e muito provavelmente por sua transmissão oral” (MAUSS, 1974, p. 407).

O ato é eficaz porque dá certo, porque é bom, e por isso se torna tradicional. Criada a tradição, o movimento técnico é repetido e aperfeiçoado na história, por quê? Porque ele funciona. Os animais inferiores não criam técnicas, eles vivem conforme o seu sistema orgânico fechado, o animal racional, que é intelectivo na definição de Aristóteles, é fruto de um sistema orgânico aberto, por isso, criador de técnicas.

Definições, classificações ou categorias, são as partes que dão forma ao todo, e devem ser transferidas da teoria para a prática por meio das técnicas. Isto é, são caracteres essenciais para o aprendizado motor, são dessas definições, classificações ou categorias que organizamos os movimentos, das potências aos atos, estes, tão importantes para o desenvolvimento do homem dentro da sociedade. Sem isso, formamos analfabetos motores, sem um mínimo de domínio técnico sobre seu corpo. Tratando-se da alfabetização, sabemos que o Brasil é sempre um dos últimos nos testes internacionais, quanto à educação física, não há dados comparativos, assim, sequer sabemos o quanto estamos e somos ineficientes no aprendizado motor.

*Alessandro Barreta Garcia é mestre em Educação pela Universidade Nove de Julho. Possui Licenciatura e Bacharelado em Educação Física pela Universidade Nove de Julho. É autor dos livros: Educação grega e jogos olímpicos, Aristóteles nos manuais de história da educação e Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural.  Suas pesquisas relacionam conhecimentos da Antropologia, História do Brasil, História da Educação, Filosofia e História da Educação Física.

Leia também a coluna do, Rodrigo Constantino, sobre meu livro “Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural”, Clique aqui.

REFERÊNCIAS

GARCIA, A. B. Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural. Jundiaí, Paco Editorial: 2015.

MAUSS, M. As técnicas corporais. In. Sociologia e Antropologia. São Paulo, EPU/EDUSP, 1974.

OLIVEIRA, J. B. A. Construtivismo e alfabetização: um casamento que não deu certo.  Ensaio, vol. 10, p. 161-200. Rio de Janeiro. 2002.

REBOLLO, R. A. Considerações sobre o estabelecimento da medicina no tratado hipocrático Sobre a arte médica. Sci. stud. vol.1 n.3 São Paulo July/Sept. 2003.

SEBRA, A. G, DIAS, N. M. Métodos de alfabetização: delimitação de procedimentos e considerações para uma prática eficaz. Rev. Psicopedagogia, 28 (87) 306-320, 2011.

A importância do esporte na formação do caráter do indivíduo

Reproduzo o texto do Rodrigo Constantino a respeito do meu livro:

24/05/2015

às 13:05 \

Conversava com um amigo, que é um empresário muito bem-sucedido do setor financeiro, sobre como melhorar a situação de nosso estado. Eu lhe apresentava os projetos do Instituto Liberal, em busca de apoio. Ele, que é bastante discreto, mas mesmo assim não consegue fugir do assédio de políticos e ONGs devido à sua fortuna, confessou-me que a “menina dos seus olhos” que ajuda a financiar é uma instituição voltada para o fomento dos esportes nas comunidades carentes. Afirmou que, apesar de ter estudado em boas escolas, o que realmente fez diferença em sua vida foram os esportes, que lhe ensinaram a importância da determinação, da disciplina, do esforço, do mérito. Queria ajudar os mais pobres por meio da prática esportiva.

Lembrei dessa conversa ao ler Educação Física e Regime Militar: Uma guerra contra o Marxismo Cultural, de Alessandro Barreta Garcia. Com uma bela apresentação escrita pelo professor Ricardo Vélez-Rodríguez sobre Aristóteles, o livro procura resgatar a importância da educação física nas escolas, especialmente durante o regime militar, sempre com base nas tradições que vêm desde os gregos. Segundo o autor, que é mestre em Educação pela Universidade Nove de julho, a esquerda radical, seguindo o marxismo cultural inspirado em Gramsci e na Escola de Frankfurt, tem difamado e destruído esse legado fundamental para incutir valores nos mais jovens.

“Durante os anos do regime militar brasileiro que ocorreram de 1964 a 1985″, escreve Alessandro logo no começo, “a educação física vivenciou seus grandes momentos através da ordem, disciplina, rigor, ética, técnico, rendimento e fair play“. Os autores marxistas não reconhecem isso, e tentam transformar a prática esportiva escolar da era militar em simples instrumento de alienação, o que o autor julga absurdo. Se os comunistas clássicos viam nos esportes um instrumento de propaganda do regime, como em Cuba, na Coreia do Norte, na União Soviética ou na China, os comunistas modernos preferem a tática de desconstruir o esporte, visto como instrumento burguês de alienação.

Para tanto, e seguindo suas receitas nas demais áreas, é importante modificar sua estrutura, rejeitar a ordem, a disciplina, o comando, a hierarquia, a técnica, a moral. O desporto de rendimento também passa a ser visto como inimigo, pois expõe atletas melhores e piores, o que vai contra o total relativismo da esquerda radical, para quem ninguém é melhor do que ninguém. Para ela, o caos é o grande objetivo, e seria nele que poderíamos encontrar alguma “ordem”. Essa seria a “nova ordem mundial”, uma que enaltece o caos, a desordem, o relativismo. A prática esportiva tradicional vai contra tudo isso, e precisa, então, ser condenada como instrumento da burguesia opressora.

A crítica dos seguidores de Gramsci e da Escola de Frankfurt será voltada, portanto, para a condenação das principais instituições que impedem esse caos social, tais como as tradições, as religiões (especialmente o judaísmo e o cristianismo), as famílias, as Forças Armadas. Alessandro inclui nesse rol de alvos da esquerda a educação física, justamente porque significava a transmissão de valores como a ordem, a disciplina, o respeito na escola. Tal postura não é compatível com o clima de total rebeldia permanente que essa esquerda deseja adotar nas salas de aula, onde o professor precisa perder qualquer senso de hierarquia em relação aos alunos. Hey, teachers, leave them kids alone!

Alessandro busca em Aristóteles a receita do equilíbrio, do “meio termo”, que deveria ser adotado na educação física. Nem recreação pura, nem busca de alto rendimento, como fazem os regimes comunistas que enxergam os indivíduos como meros meios sacrificáveis para seus fins mais “nobres”. “Formar o cidadão para o esporte é cultivar os frutos de uma civilização de qualidade”, diz o autor, que prossegue: “Os valores morais são bem claros e a formação educacional do aluno frente ao esporte é fundamental para o desenvolvimento da unidade nacional”. Ou seja, ajuda a criar um indivíduo para o convívio coletivo, sem endossar um coletivismo nacionalista.

O praticante de esporte bem treinado e educado aprende a respeitar as regras, ser disciplinado, o que não é um mal como alega a esquerda, mas uma virtude. A cooperação também é estimulada nas aulas de educação física tradicionais. Honestidade e respeito, grandes virtudes da vida, podem fazer parte do universo desportivo, e era esse o verdadeiro espírito do ensino na era militar, segundo o autor. Não por acaso as escolas militares estão entre as melhores do país. “A vitória não pode se sobrepor ao espírito olímpico, ao fair play“, explica. Não é o esporte como instrumento de alienação ou de propaganda do estado que essa esquerda marxista condena, e sim aquele moralizante e civilizatório. O conteúdo do Manifesto sobre o Fair-Play deixa mais claro o que está em jogo e sendo atacado pelos marxistas:

O fair-play é uma “forma de ser” baseada no respeito a si próprio e que implica em: honestidade, lealdade e atitude firme e digna diante de um comportamento desleal; respeito ao companheiro; respeito ao adversário, vitorioso ou vencido, com a consciência de que é o companheiro indispensável, ao qual se une pela camaradagem desportiva; respeito ao árbitro e respeito positivo, traduzido por um constante esforço de colaboração com o mesmo.

Ou seja, praticamente um código de cavalheirismo para um típico gentleman britânico. Saber ganhar e saber perder, não tripudiar do adversário, não apelar para práticas desleais, respeitar sempre as regras do jogo, o império das leis, saber ser digno. “Quem se vinga depois da vitória é indigno de vencer”, escreveu Voltaire. O esporte bem praticado ensina tudo isso, além de deixar claro que não há vitória sem esforço e mérito, que de nada adianta a vitimização, ficar sempre culpando os astros ou os outros por seus fracassos e falhas. Essa é a receita certa para permanecer um perdedor.

“Ensinar a não violar os regulamentos é uma das essências do desporto moderno, principalmente do educacional. É preciso, por isso, desviar-se da deslealdade e da brutalidade. É esse o grande exemplo de um desportista”, escreve o autor, que conclui, contra a alegação da esquerda de que a educação física e o esporte são usados como instrumentos de alienação: “Falta-nos um sistema educacional de valor, a longo prazo, independente de ideologias ou de políticas deletérias. O esporte é tradição, é justiça, ética, respeito, coragem e virtude. O esporte é vida, é equilíbrio, é educação de qualidade”.

Concordo. Quando jogava algum jogo com minha filha, ainda pequena, nada me tirava mais do sério do que ela não saber perder, querer desistir no meio porque via que seria derrotada. Eu levava muito a sério aquela lição: ela precisava entender que tal atitude era uma completa falta de respeito com o oponente. O mesmo sobre qualquer tentativa de trapaça: impensável. A vitória não tem valor se for desleal. São ensinamentos ligados ao esporte tradicional. São valores muito em falta em nossas escolas hoje, dominadas pelo marxismo cultural.

Rodrigo Constantino

Fonte: http://www.alessandrogarcia.org/news/a-importancia-do-esporte-na-formacao-do-carater-do-individuo/

Link do livro: http://www.pacolivros.com.br/Educacao-Fisica-e-Regime-Militar/prod-3756664/

Apresentação do livro – Educação Física e Regime Militar: Uma Guerra Contra o Marxismo Cultural

Uma Guerra Contra o Marxismo Cultural

Ricardo Vélez Rodríguez

Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, da UFJF. Membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Professor Emérito da ECEME.

A obra do professor Alessandro Barreta Garcia intitulada: Educação física e regime militar: Uma guerra contra o marxismo cultural chega às livrarias em bom momento para os leitores brasileiros. Esta obra, efetivamente, constitui uma crítica contra a monocórdia propaganda gramsciana que, nestes onze anos de dominação lulopetista, tomou conta do cenário cultural brasileiro, deformando totalmente o conceito de educação e substituindo-o pelo de doutrinação ideológica.

O autor, com rara coragem, não duvida em destacar os aspectos niilistas da proposta oficial no terreno da educação, que se tem traduzido em inúmeros fracassos nos programas educacionais apresentados pelo PT, quer no ciclo básico, quer no ensino secundário e no plano universitário. No terreno da educação física, que constitui a especialidade do autor, as coisas não foram diferentes. Os técnicos do governo e os intelectuais associados à visão chapa-branca tentam, por todos os meios, desacreditar os programas educacionais vigentes antes da era lulopetista, como pertencentes a propostas que visavam a manutenção da exploração capitalista sobre as massas ignaras.

Em face dessa tentativa de falseamento da história, o autor mostra, na sua obra, que a proposta de educação física posta em prática durante o ciclo militar obedecia a uma concepção enraizada na melhor tradição humanística do Ocidente. Tal proposta se inseria, segundo o autor, no contexto mais amplo da educação para a cidadania e considerava a educação física e o esporte como meios de grande peso na sedimentação dos valores fundantes da cidadania.

Alessandro Barreta Garcia tenta, na sua obra, resgatar essa tradição educacional e, para tanto, retoma a melhor tradição filosófico-educacional do Ocidente, aquela surgida ao redor da filosofia de Aristóteles. Estes conceitos aparecem claramente no seguinte trecho da obra que ora apresentamos:

Durante o regime militar brasileiro a pedagogia e a psicologia são fundamentais para esse processo. Formar o cidadão para o esporte é cultivar os frutos de uma civilização de qualidade. Os valores morais são bem claros e a formação educacional do aluno frente ao esporte é fundamental para o desenvolvimento da unidade nacional. Respeitar as regras, ser disciplinado não é um mal, pelo contrário, uma virtude. Ainda nessa perspectiva a cooperação também foi um fator observado nas aulas de educação física. Para os gregos na Antiguidade, a formação moral também era essencial para o cidadão se tornar virtuoso.

Em relação ao conceito de esporte-educacional vigente no ciclo militar, o autor afirma:

O esporte-educacional, como aquele observado nos anos de 1964 a 1985, aparece claramente com o notável intuito de formar a juventude brasileira por meio de valores supremos. A honestidade nos jogos é um valor moral que já observávamos entre os gregos antigos. Pierre de Coubertin, inspirado nesse espírito grego, tentou revigorar na modernidade as mesmas características desejadas nos anos do militarismo brasileiro.

O autor, na conclusão da obra, enfatiza o papel que o Exército Brasileiro ainda pode desempenhar no terreno da educação física para a renovação do espírito que a deve animar. A propósito, frisa:

Destacamos, ainda, que o Exército contribuiu, e muito tem a contribuir coma educação física brasileira. Hoje mais do que nunca precisamos de ordem, disciplina e respeito na escola. Uma educação de qualidade caracteriza-se por ser responsável, técnica, conceitual, racional e empírica. Entre as melhores escolas do país estão as militares, e certamente uma das opções honrosas de um ensino de qualidade é a instituição militar. Se um dia quisermos nos tornar uma potência esportiva, devemos voltar às origens, à caserna, que é aprender com quem cuidou muito bem de nossa educação física, com quantidade e qualidade, com amor, dedicação ao corpo e à alma de uma nação.

Levando em consideração a escolha teórica do autor para fundamentar a sua análise crítica da educação física brasileira, gostaria, nesta apresentação, destacar o que do ângulo da educação física pode ser haurido da obra de Aristóteles, centrando a minha atenção no conceito da ética e da sua aplicação ao processo educacional.

A ética do Estagirita tem por objetivo o domínio da ação humana, em tanto que alicerçada numa decisão e a política é o terreno da sua aplicação social. Distingue-se a ética da filosofia teorética, que se dirige ao imutável e eterno. Por natureza, segundo Aristóteles, todo ser tende a um bem que lhe é próprio e no qual encontrará a sua realização. O bem humano é a atividade da alma conforme à razão. Nessa atividade, o homem descobre a felicidade (eudemonía), que é independente das circunstâncias exteriores, como objetivo final das suas aspirações. Como frisa Aristóteles na sua Ética a Nicômaco, “O bem do homem consiste numa atividade da alma conforme à virtude”.

Aristóteles distingue entre virtudes dianoéticas (que se manifestam no exercício da razão) e virtudes éticas (que são transmitidas pela ordem estabelecida na sociedade e na Polis) sendo que elas recebem a sua validade da tradição e do consentimento universal. A virtude dianoética fundamental é a prudência (frónesis), que leva o homem a reconhecer os meios e os caminhos justos que conduzem ao bem. À luz dessa virtude o homem desenvolve a atitude ética, que se formata mediante a prática das virtudes (através do exercício, o hábito e a aprendizagem).

No que tange ao conteúdo, a virtude ética é definida como o justo meio (mesótes) entre dois extremos contrários. Assim, por exemplo: a coragem ocupa o lugar intermediário entre a covardia e a temeridade. A moderação é um intermédio entre a apatia e a excessiva vontade e a generosidade é o equilíbrio entre a avarícia e a prodigalidade.

A justiça (dikaiosune), para Aristóteles, é a virtude mais importante para a vida em comum. Em tanto que distributiva, ela cuida de distribuir os bens justamente; em tanto que corretiva, ela compensa os danos ou os prejuízos sofridos por alguém. Uma virtude essencial é, também, a amizade. Graças a ela, o homem experimenta a passagem dos interesses individuais àqueles que constituem a comunidade.

A ética aristotélica, contrariamente à platônica, é uma moral concreta da liberdade e da diferença entre os homens da cidade. Ela define um espaço de discussão, que deve permitir chegar a um bem soberano, que não é transcendente (como em Platão), nem imposto desde cima por algum sábio. O bem soberano aristotélico nasce exclusivamente do contato entre os homens livres.

No que tange à ordem política, diferentemente de Platão (que privilegiava o modelo aristocrático), ela é variada, para Aristóteles, podendo ser de três tipos: realeza (cuja degeneração é a tirania), aristocracia (cuja corrupção é a oligarquia) e politéia ou governo do povo, (cuja degeneração é constituída pela democracia). Contrariamente a Platão, que no relativo ao conhecimento racional da realidade política dava prelação à Ideia sobre os conhecimentos empíricos, Aristóteles privilegia estes últimos. Nesse terreno, o filósofo de Estagira realizou estudos comparados, tendo chegado a identificar 158 formas de organização ou de constituição política. Desses estudos somente nos restou o escrito intitulado: Constituição de Atenas.

Platão concebia uma visão ideal da política, ao passo que Aristóteles concebe uma ideia possível. Ele é partidário de um realismo político. Na obra Política, frisa o Estagirita: “Deve-se, efetivamente, examinar não somente o melhor regime político, mas também aquele que é simplesmente possível”. Contrariamente a Platão, para quem os homens ingressavam no Estado em decorrência das suas fraquezas, Aristóteles considera que os homens procuram a ordem política, movidos pela sua natureza sociável. A respeito escreve: “O homem é por natureza um animal político”: anthopos fusei zoon politikon.

A linguagem é um signo de que o homem não está destinado unicamente à simples sobrevivência, mas a viver numa comunidade que deve chegar a acordos acerca do útil, do bom e do justo. Como Platão, Aristóteles considera que a tarefa do Estado consiste em possibilitar a realização ética dos cidadãos. No entanto, enquanto o mestre de Aristóteles, Platão, considerava que a questão ética consistia em partir para um processo de catarse, a fim de o homem voltar à contemplação pura das Ideias no reino do Sumo Bem, para o Estagirita essa realização consiste em algo muito mais singelo e terreno: o amor da vida feliz e boa. É somente no seio do Estado que se pode desenvolver perfeitamente a virtude do indivíduo.

O Estado, para Aristóteles, se forma a partir de um conjunto de comunidades que vão se alargando. A propósito, frisa: “Na origem, existe a comunidade de duas pessoas (homem e mulher, pai e filho, amo e servo). Estes, juntos, constituem a família, a partir da qual, a seguir, constitui-se a aldeia e por fim a cidade (polis), que é o reagrupamento de várias aldeias”. É somente a partir da cidade que é garantida a autarquia (ou seja, o fato de se garantir, a si próprio, a independência e a autossuficiência).

O princípio formal da polis, para Aristóteles, é a constituição. A respeito frisa Aristóteles: “A cidade é uma espécie de comunidade e uma participação comum dos cidadãos no governo”. O filósofo divide as formas de constituição em três “tipos justos” (realeza, aristocracia, politéia). O critério de classificação é o número dos que participam do poder político: um, alguns, todos.

É boa a forma de governo que serve ao bem-estar geral; é ruim aquela que somente persegue os interesses dos que mandam. Aristóteles, não prefere, de entrada, uma das três formas de organização da polis mencionadas. Considera, contudo, que a mais realizável e a mais estável é a politéia (ou democracia moderada). É uma forma que mistura as vantagens das outras constituições e que realiza o princípio formulado na Ética, da virtude como justo meio entre os extremos. A propósito, Aristóteles escreve: “A melhor comunidade política é aquela que constitui a classe média (…). O seu predomínio restabelece o equilíbrio da balança e impede a aparição dos excessos contrários”.

Da análise histórica Aristóteles conclui que a melhor forma política, em cada caso, é aquela que melhor convém ao país e às necessidades dos cidadãos. Em relação à questão da ordem interior do Estado, Aristóteles considera que é necessário preservar a família e a propriedade privada. Segundo Aristóteles, a família é ainda mais elementar que a aldeia e esta é mais elementar que o Estado ou a polis.  A família deve ser privilegiada em tanto que base da ordem natural da sociedade, mesmo se o Estado joga um papel essencial na educação da juventude. Em relação à propriedade privada, Aristóteles considera que “a propriedade deve ser privada, mas o seu uso deve ser comum”. Nestes aspectos, certamente, o Estagirita se distancia dos ensinamentos do seu mestre Platão.

No que tange à estrutura interna da sociedade, Aristóteles reconhece, além da escravatura, a desigualdade natural entre homens e mulheres. Tanto uma quanto outra são “condições naturais” da vida humana. Mas, entre os homens livres, deve reinar a igualdade. Seria necessária, contudo, a influência do Cristianismo sobre o pensamento grego para que esta visão se ampliasse até levar em consideração todos os seres humanos, não apenas os pertencentes à sociedade ateniense.

Em boa hora Alessandro Barreta Garcia retoma a obra de Aristóteles para fundamentar, nela, a prática da educação física. Aristóteles, efetivamente, enriquecido pela tradição judaico-cristã, passou a ser referência nas filosofias da educação desde a Idade Média, sendo a síntese efetivada por São Tomás de Aquino, no século XIII, manifestação dessa riqueza doutrinária, ensejando uma tradição humanística que vem até os dias de hoje. A volta a essa tradição humanística é o marco assinalado pelo autor na sua obra e pode, no conturbado mundo de hoje, ser fonte de renovação para o ensino da educação física, retomando um elo esquecido pelas esquerdas brasileiras nas últimas décadas.

Londrina, 31 de Agosto de 2013

Ficha Técnica

ISBN:9788581487441
Autor:Alessandro Barreta Garcia
Editora:Paco Editorial
Edição:1ª Edição
Área:Educação Física
Idioma:Português
Data de Publicação:Março/2015
Número de Páginas:116 Páginas
Acabamento:Brochura
Tamanho:14x21cm

Link do livro: http://www.pacolivros.com.br/Educacao-Fisica-e-Regime-Militar/prod-3756664/

Alessandro Barreta Garcia é mestre em Educação pela Universidade Nove de Julho. Possui Licenciatura e Bacharelado em Educação Física pela Universidade Nove de Julho. É autor dos livros: Educação grega e jogos olímpicos e Aristóteles nos manuais de história da educação.  Suas pesquisas relacionam conhecimentos da Antropologia, História do Brasil, História da Educação, Filosofia e História da Educação Física.

Página oficial do livro:

Educação Física e Regime Militar: Uma Guerra Contra o Marxismo Cultural

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