50 tons de pensamentos políticos

Formulei essa tabela com cinqüenta idéias e modos de pensar da direita e da esquerda, a fim de auxiliar o leitor a definir melhor o que é esquerda e o que é direita na política. Abaixo da tabela, há algumas dicas e apontamentos sobre a tabela.

A tabela

Esquerda

Direita

Aspectos Políticos e Econômicos

1. Coletivismo/classismo 1. Individualismo
2. Governo expansivo 2. Governo limitado
3. Alta carga tributária 3. Baixa carga tributária
4. Muita intervenção 4. Pouca intervenção
5. Radicalismo 5. Conservadorismo
6. Desigualdade perante as leis 6. Igualdade perante as leis
7. Igualdade Social 7. Desigualdade Social
8. Centralização do poder (Unitarismo) 8. Descentralização do poder (Federalismo)
9. Proibição do porte de armas 9. Livre porte de armas
10. Leis amenas contra criminosos 10. Leis rigorosas contra criminosos
11. Muito assistencialismo 11. Pouco assistencialismo
12. Presença de Salário Mínimo 12. Ausência de Salário Mínimo
13. Serviço Militar Obrigatório 13. Serviço Militar Opcional
14. Estado anti-religião tradicional e pró-secularismo e/ou sincretismo 14. Estado Laico e conservador da cultura religiosa tradicional do lugar
15. Desincentivo às multinacionais 15. Incentivo às multinacionais
16. Protecionismo 16. Economia de livre mercado
17. Mercado bem regulado 17. Laissez-faire
18. Estatização e criação de empresas estatais 18. Privatização e incentivo à iniciativa privada
19. Regimes Antiliberais 19. Regimes Liberais
20. Hostilidade à propriedade privada 20. Proteção e valorização da propriedade privada
21. Alto número de parcerias público-Privadas 21. Baixo número de parcerias público-privadas
22. Muitas empresas estatais 22. Poucas empresas estatais
23. Estado Inchado, grande, com muitas funções 23. Estado Enxuto, mínimo, com poucas funções
24. Controle da Mídia pelo Estado 24. Liberdade de Expressão
25. Incentivo aos monopólios estatais 25. Incentivo à concorrência dentro do setor privado

Aspectos Culturais e Filosóficos

26. Crente no ser humano 26. Descrente no ser humano
27. A favor do aborto 27. Contrária ao aborto
28. Defensora da valorização de novos conceitos de família 28. Defensora da valorização da família tradicional e natural
29. Relativismo moral e/ou criação de novos tipos de moral 29. Conservadorismo e valorização dos bons costumes
30. Desvalorização e/ou militância contra a religião tradicional 30. Tolerância às religiões e valorização da religião tradicional
31. Presença de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está em alguma classe inimiga (burgueses, religiosos, opositores…). 31. Ausência de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está no indivíduo e na espécie humana em geral, não em uma classe específica.
32. A ciência pode provar qualquer coisa em qualquer área do conhecimento humano. 32. Ciência é importante, mas não pode provar tudo. Ela deve se limitar a sua área.
33. Desvalorização da tradição 33. Valorização da tradição
34. O indivíduo deve ser julgado como produto de seu meio 34. O indivíduo deve ser julgado como responsável pelos seus atos
35. Os fins podem justificar todo e qualquer meio utilizado 35. Os fins não podem justificar os meios utilizados
36. A sociedade deve ser totalmente remodelada e tornar-se um paraíso. Com as pessoas certas, isso é possível. 36. A sociedade deve ser melhorada na medida do possível e do alcançável. No entanto, ela nunca será perfeita.
37. Liberdade e ditadura não se opõem se há igualdade social entre o povo. Pode-se ser livre em um governo totalitário. 37. Liberdade e ditadura são coisas opostas e que jamais podem ser conciliadas. Não se pode ser livre em uma ditadura.
38. A cultura pode e deve se opor à conduta moral. Afinal, a moral é relativa. 38. A cultura, por mais importante que seja, jamais deve se opor à conduta moral
39. Crença em um governo “Messias” 39. Ceticismo quanto a um governo “Messias”
40. Discriminação contra quem faz parte da classe “opressora” 40. Contra qualquer preconceito, discriminação e racismo
41. Cabe ao Estado suprir todas as necessidades individuais (estatismo). O Estado deve ser como uma mãe para o povo. 41. Não cabe a ele suprir todas as necessidades individuais. A função básica do Estado é ser o protetor da ordem social.
42. Os políticos devem agir e serem encarados como pais para o povo (populismo). 42. Os políticos devem agir e serem encarados como funcionários da população.
43. Mudar é importante e o alvo de toda mudança deve ser alcançar a perfeição social. Por isso, mudar deve ser algo que se faz a todo o custo e as bases da sociedade não só podem como devem ser destruídas, a fim de que se funde uma nova ordem social. 43. Mudar é importante, mas deve ser algo refletido e não deve destruir bases da sociedade, como a moral, a família, a hierarquia, a religião, a propriedade privada, os direitos individuais, as instituições tradicionais e etc.
44. A liberdade do indivíduo deve estar subordinada àquilo que o governo julga ser bom para toda a sociedade. 44. A liberdade do indivíduo deve ser respeitada sempre, à exceção de quando essa liberdade afeta diretamente a dos outros.
45. O governo deve ser humano e solidário e me ajudar a ensinar os meus filhos a agirem dessa forma 45. Eu devo ser humano e solidário e ensinar meus filhos a serem dessa forma
46. O Estado deve estar do lado das classes oprimidas. 46. O Estado deve estar do lado do indivíduo.
47. A punição e a compensação para os que já morreram devem ser feitas aos indivíduos hoje vivos que compõem a classe. Isso porque a ênfase está na classe, de modo que compensações e penas podem ser transferidas. 47. Não se pode punir maldades e compensar opressões cujos atores já morreram há séculos, pois a ênfase está no indivíduo e não na classe a qual ele pertence, de modo que compensações e penas são intransferíveis.
48. A história do mundo se resume à luta entre classes. 48. A história do mundo se resume à luta entre indivíduos.
49. Não há problema em cultuar grandes líderes revolucionários, como Mao Tsé Tung, Stálin, Lênin, Pol Pot, Fidel Castro e Che Guevara. Mesmo que eles tenham sido responsáveis por matar muita gente e cometerem atrocidades, o fizeram em prol de um mundo melhor. 49. Todas as pessoas são falhas e não devem ser cultuadas. Líderes do governo não são nossos pais e não são heróis da nação. São apenas funcionários do povo, que devem ser regularmente substituídos e que devem ser julgados pelos seus crimes como qualquer pessoa.
50. Provérbio: “Quem não arrisca não petisca”. 50. Provérbio: “A prudência é a maior das virtudes”.

Dicas e Apontamentos

1) A tabela não diz respeito à esquerdistas e direitistas, mas sim à esquerda e a direita como posicionamentos políticos. Há diferença nisso? Há sim. Nem todo o direitista irá concordar com todos os pensamentos de direita e nem todo o esquerdista irá concordar com todos os pensamentos de esquerda. O que vai definir se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de esquerda ou direita é o quanto de idéias de cada lado do espectro é defendido. Por exemplo, se defendo 45 idéias de direita, e só 5 de esquerda, é evidente que sou de direita.

2) Embora seja composta por apenas dois pólos antagônicos, esta tabela serve perfeitamente para nos indicar se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de centro, centro-esquerda ou centro-direita. Afinal, pode-se ficar entre os dois pólos, não sendo nem  de um, nem de outro, mas ficando mais ou menos no meio.

3) Podemos usar as seguintes regras para as definições:

– De 50 a 36 idéias de direita = o objeto estudado é de direita.

– De 35 a 29 idéias de direita = o objeto é de centro-direita.

– De 28 a 22 idéias de direita = o objeto é de centro.

– De 21 a 15 idéias de direita = o objeto é de centro-esquerda.

– De 14 a 0 idéias de direita = o objeto é de esquerda.

P.S.: A doutrina anarquista, tanto de extrema-esquerda como o de extrema direita (o chamado Anarco-Capitalismo) não se enquadram nessa tabela, que leva em conta apenas as idéias pautadas em regime que se dá no interior de um Estado. Como o anarquismo é a negação do Estado, o enquadramento aqui não é viável.

4) As regras acima não são inflexíveis, pois em alguns casos será necessário levar em conta a relevância de determinado pensamento para um pólo. Por exemplo, imagine que uma pessoa tenha 30 idéias de esquerda, sendo classificada como centro-esquerda. Mas como ela defende alguns pensamentos muito relevantes para a esquerda, como a hostilidade à propriedade privada, um governo antiliberal e o radicalismo, ela pode ser classificada como esquerdista.

5) Evidentemente a tabela não esgota o número de idéias de cada pólo. Minha intenção foi selecionar os pensamentos mais importantes de cada lado para montar um panorama geral.

O Socialista que não É

O que é um socialista, em última instância? Um socialista é uma pessoa que crê que o Estado tem o poder e o dever de organizar a vida em sociedade em praticamente todos os seus aspectos, inclusive os seus pormenores econômicos como a produção e a distribuição de alimentos, roupas, habitações, etc. Qualquer um que recuse esta premissa não é um socialista. O termo “anarco-socialismo”, por exemplo, é uma contradição em termos: se há anarquia não há Estado e se não há Estado não há socialismo.

O fundador teórico do socialismo foi o pensador católico Tomas Morus, que o descreveu em sua obra Utopia, mas o socialismo enquanto prática da vida política já era aplicado em algumas sociedades, como a dos incas. Distintas formas de socialismo surgiriam posteriormente, e a vertente marxista é somente uma delas, embora seu nome tenha virado praticamente sinônimo de socialismo. Quando marxistas afirmam que o nacional-socialismo não é socialista, querem dizer que ele não é marxista, portanto.

Como já foi dito, qualquer um que recuse a premissa de que o Estado tem o poder e o dever de organizar a vida em sociedade não é um socialista. E um dos exemplos notórios de pessoas que não são socialistas mas são comumente descritas como tal é o atual presidente do Uruguai, José Pepe Mujica.

Conhecido pela sua vida simples, Mujica vive em um pequeno sítio com a esposa, dirige um fusca e doa a maior parte do seu salário para a caridade. A modéstia icônica do sujeito poderia servir para um “meme”: o esquerdista coerente. É o tipo de pessoa que faz falta na esquerda política brasileira, certamente, mas há de se fazer uma ressalva com relação a suas posições políticas.

Nota-se, em suas entrevistas, um verdadeiro desdém pelo Estado planificador e pela sanha coletivista, sobretudo a nacionalista. Sobre nacionalismo, perguntado sobre o papel de vilão que os EUA costumam desempenhar no teatro político sul-americano, afirmou com todas as letras que este foi apenas cúmplice “por que a maioria das vezes foram os oligarcas ou militares criollos que abriram as portas aos marines, à CIA e às companhias mineradoras e frutículas”. E continua: “não compartilho a visão de vilão do filme porque com estas classificações nada se resolve. Aliás, seria injusto meter no mesmo saco um líder da estatura de Marin Luther King com um autêntico desastre como George W. Bush.”

Quando lhe perguntaram se reconhecia que o capitalismo havia derrotado a revolução, respondeu:
“faço uma distinção entre o capitalismo selvagem do salve-se quem puder e o liberalismo de tradição humana que postal o fair play como regra básica nas relações econômicas. Direi algo que talvez te surpreenda: a nós uruguaios, o velho liberalismo inglês tratou muito bem.”

Sem radicalismos, afirmou a El País que “O homem tem um lado conservador e um lado de mudança; é parte da condição humana. O homem viverá com esta contradição. O lado conservador, que tem suas razões muito sérias, porque não se pode viver mudando todos os dias, quando se torna crônico e demasiado fechado, deixa de ser conservador e se torna reacionário. O lado de esquerda, quando é tremendamente radical, se torna infantil.”

Afirma que “Há duas forças que estão na cabeça humana, o egoísmo e a solidariedade. A afirmação do indivíduo e a afirmação do coletivo. Só a cultura pode fazer primar a solidariedade.” Moderado, afirma que “não fizemos nenhum governo revolucionário nos últimos anos”.

Em entrevista à BBC, afirmou que: “[…] a revolução liberal e os valores que trouxe não podem ser jogados no lixo nem podem ser um recurso de ocasião. Haverá uma humanidade melhor a partir de afirmar e respeitar isso.”

Sobre a economia, sua visão parece muito mais próxima dos social-democratas: “A grande diferença da esquerda para a direita é que a esquerda entende que há que forçar a repartição na sociedade e basicamente todos os homens tem direito a uma vida digna. Mas por outro lado há que desenvolver as forças produtivas e não se pode repartir o que não se tem”.

Pepe Mujica é indubitavelmente de esquerda. Mas, pelo que até agora se percebe, não é socialista. É um esquerdista pragmático. No máximo, um social-democrata e no mínimo um social-liberal. Sorte dos uruguaios que, enquanto não caírem sob a loucura socialista como venezuelanos e argentinos, continuarão gozando de uma sociedade de paz, justiça e liberdade.


Referências:

Confusões clássicas sobre Direita e Esquerda

Contribuição espontânea do nosso leitor Davi Caldas, publicado originalmente no seu blog Mundo Analista. Para ler o artigo original, clique aqui.

Em qualquer site ou livro de história geral que o leitor for procurar informações sobre a origem da esquerda e da direita política, o resultado será o mesmo: esquerda e direita são dois termos que surgiram na época da revolução francesa (1789-1799) para distinguir posições conservadoras (direita) das posições radicais (esquerda), no âmbito da política. Essas informações não estão erradas. Eu mesmo as ofereço na postagem “Definição de Direita e Esquerda”. Contudo, é necessário desfazer algumas confusões clássicas que costumam obscurecer o entendimento do que os dois termos, de fato, significam.

A primeira confusão que precisamos desfazer é a seguinte: o que surgiu na época da revolução francesa não foram as definições do que é direita e esquerda, mas somente os termos direita e esquerda. Existe uma diferença abissal entre uma definição de algo e o termo usado para nomear esse algo. Por exemplo, existe um tipo de transporte público que é cumprido, retangular, tem vários assentos e anda no asfalto. Essa é a definição do objeto (do “algo”). O termo que é usado para nomear esse objeto é ônibus.

Perceba que o termo não é a mesma coisa que a definição. E note que a definição do objeto pode surgir antes do termo que o nomeia. Na verdade, isso é o que geralmente acontece, sobretudo, no campo das idéias. Quando o capitalismo surgiu, não tinha esse nome. Foi Marx que passou a designá-lo assim depois de tê-lo observado e entendido a sua definição. O cristianismo, quando surgiu, também não tinha esse nome. O termo só começou a ser utilizado posteriormente.

A coisa não é diferente quando tratamos do espectro político. Direita e esquerda são ideologias que já vinham se desenvolvendo muito antes dos franceses distinguirem suas posições ideológicas pelos assentos que ocupavam, designando assim tais termos para uso político.

No entanto, a maioria esmagadora das pessoas não percebe esse pequeno detalhe e acabam acreditando que tanto as definições como os termos do espectro político foram criados na revolução francesa. O resultado dessa confusão são explicações incoerentes como essa:

Direita e esquerda surgiram na revolução francesa quando o rei absolutista da França convocou os estados gerais para uma assembléia. Aqueles que eram favoráveis à conservação do poder absoluto do rei e dos privilégios da nobreza ficavam à direita do rei, enquanto que aqueles que queriam a derrubada do poder absoluto e dos privilégios da nobreza sentavam-se à esquerda. Assim, passou-se a denominar de direita quem é a favor da conservação dos poderes e privilégios da elite e de esquerda quem é contra essa conservação.

Não, não, não! Está tudo errado. Aqueles que eram a favor da conservação do poder absoluto do rei e dos privilégios da nobreza eram partidários não do pensamento de direita, mas do pensamento do antigo regime absolutista. Dizer que a direita era uma ideologia que apoiava esse antigo regime é a mesma coisa que dizer que a direita existe desde os primórdios da humanidade. Afinal, desde o início existiram reis com poderes absolutos e uma nobreza com privilégios.

Mas assumir que a direita existe desde os primórdios da humanidade não apenas contradiz a própria explicação de que ela surgiu na revolução francesa como contradiz a idéia de que ela ainda existe hoje. Ora, o antigo regime absolutista já foi derrubado em todos os países. Ainda há muitas ditaduras, por certo, mas não se tratam das monarquias absolutistas antigas. Se considerarmos, ainda, que a direita se caracteriza por ser elitista, então devemos considerar que os próprios governos comunistas que existiram no mundo foram de direita, pois havia em todos eles uma elite do governo que tinha seus salários garantidos, que não passava fome (como parte do povo passava), que não abria mão de seus poderes, que não ia à guerra e etc. Isso não é um governo elitista?

A verdade é que todo o governo é, por definição, elitista. Mesmo o governo mais esquerdista. Afinal, de contas o governo é formado por políticos que jamais passarão o que o povo passa. A esquerdíssima Dilma Rousseff, atual presidente do Brasil, por exemplo, não vai ficar desempregada, não vai receber salário baixo, não vai passar fome, não vai ser presa injustamente, não vai ser assaltada na rua, não vai ter sua casa roubada, não vai precisar esperar em fila de hospital público. Jamais. Se uma epidemia de alguma doença grave atingir qualquer país, os políticos serão todos vacinados. Se houver uma guerra, eles não serão convocados para batalhar. Se a guerra causar fome generalizada, tenha certeza que nenhum político morrerá por não ter o que comer. Ser político garante privilégios que o povo não tem. Isso caracteriza elitismo.

Então, fica claro que é incoerente dizer que os defensores do antigo regime eram de direita ou que a direita é o posicionamento que defende o elitismo. São idéias que não fazem nenhum sentido lógico. Da mesma maneira, é incoerente dizer que esquerda é a oposição ao antigo regime ou que é o posicionamento que ataca o elitismo.

A pergunta que pode surgir agora é: “Mas, então, o que eram os defensores do antigo regime e os contrários a ele?”. Bem, os defensores do antigo regime absolutista eram simplesmente os defensores do antigo regime absolutista. Não eram de esquerda, nem de direita, nem de centro. Eram absolutistas.

O antigo regime monárquico, sobretudo o absolutista, era um regime baseado em premissas que hoje nos são estranhas. O rei era rei e era absoluto porque ou Deus assim queria (apelo à religião), ou porque ele conquistou esse poder com seus exércitos (apelo à força) ou porque “sempre foi assim e deve continuar sendo assim, não importando se é bom ou ruim” (apelo à tradição) ou mesmo por todos esses motivos juntos. Nesse tipo de regime, não havia ideologias ou propostas de mudanças. Não havia livre discussão de idéias dentro lei. Não havia um plano de governo ou um objetivo político. Não havia partidos. Não havia direita. Não havia esquerda.

Direita e esquerda são modos de pensar que não fazem sentido dentro do antigo regime absolutista. São ideologias que se desenvolveram para existir dentro de um novo regime político. A discussão entre direita e esquerda não é e jamais foi uma discussão entre o novo e o antigo regime. Tanto direita como esquerda já são parte do (e só fazem sentido no) novo regime.

Quanto aos que eram contrários ao antigo regime e, portanto, favoráveis ao novo, eles poderiam ter uma orientação tanto de direita como de esquerda. Não há contradição aqui, porque direita e esquerda eram, ambas, de um novo regime que lutava para vencer o absolutismo. No caso da revolução francesa, a grande maioria dos revolucionários era de orientação esquerdista.

Os motivos da adoção dos termos

Certo. Entendemos que os termos direita e esquerda surgiram na revolução da França, mas não as definições. Entretanto, alguém pode levantar uma objeção, dizendo que um termo só surge quando a definição já está pronta. Ou seja, se os partidários do antigo regime foram chamados de direita e os opositores foram chamados de esquerda é porque as definições eram essas mesmas. Mas isso está errado. Direita e esquerda eram, no início, apenas as alas da assembléia onde os franceses sentavam. Nesse sentido, sim, os partidários do antigo regime eram da direita (a ala direita) e os opositores eram da esquerda (a ala esquerda).

A adoção dessas palavras como termos que designavam ideologias políticas só ocorreu posteriormente e necessitaram se adaptar às definições reais de cada uma dessas ideologias. A base, é claro, ficou. A direita é a ideologia mais conservadora e a esquerda é a ideologia mais radical. Mas, afora essa idéia básica que os termos carregavam desde a revolução francesa, não há nada do contexto da revolução que sirva para definir cada uma dessas ideologias.

Vamos ver alguns exemplos. Todo mundo sabe que a revolução francesa foi uma revolução burguesa. A burguesia, na época, era uma classe ainda em ascensão e que era muito atrapalhada pelos privilégios da nobreza e o amplo poder do rei. Ora, se formos considerar que a definição de esquerda e de direita surgiu na revolução francesa, então devemos concluir que a esquerda deveria ter sido sempre favorável à burguesia. Porém, o marxismo, que é a mais importante doutrina da esquerda, se opõe à burguesia. Seria o marxismo de direita, então?

Da mesma maneira, todo mundo sabe que os partidários do antigo regime eram totalmente contrários à limitação do poder do Estado (representado pelo rei). Se formos considerar, então, que a definição de esquerda e de direita surgiu na revolução francesa, devemos concluir que a direita deveria ter sido sempre contrária à limitação do poder do Estado. Porém, o partido republicano dos EUA, que é de direita, por exemplo, jamais teve tal postura. Pelo contrário, seus políticos costumam defender um Estado que não se meta muito na vida do cidadão e das empresas, a fim de que o poder do governamental não aumente. Seria o partido republicano de esquerda, então?

Os exemplos não deixam dúvidas de que para definir direita e esquerda nós não devemos olhar para a revolução francesa. A revolução francesa apenas serve como base para nomear definições já existentes; definições que já vinham se desenvolvendo desde muito tempo.

O desenvolvimento das ideologias

Chegamos, enfim, ao ponto em que cabe perguntar: “Quando foi que surgiram as ideologias de direita e esquerda?”. Bem, acredito que utilizar a palavra “surgiram” não reflete muito aquilo que realmente aconteceu. “Surgiram” dá a impressão de que elas passaram a existir de repente, do nada. Mas a verdade é que as ideologias que viriam a ser chamadas de direita e esquerda foram se desenvolvendo gradualmente ao longo dos anos até estarem bem definidas e poderem receber os nomes que hoje conhecemos.

Podemos entender esse processo da seguinte maneira: o antigo regime começou a se tornar alvo de muitas críticas entre os séculos XVII e XVIII. Pensadores passaram a formular teorias políticas em que esse sistema absolutista seria abolido e daria lugar a algum sistema mais igualitário e justo. Entre os intelectuais, o antigo regime começou a perder muitos adeptos. A nova leva de pensadores tinha um pensamento em comum: o sistema político deveria ser mudado. Da forma como estava não dava.

Esse é o ponto de partida. Os novos pensadores concordavam que deveria haver uma mudança no sistema. Mas como seria o novo sistema? Quais seriam as funções do governo? Como se poderia evitar que os governantes se tornassem déspotas? Qual era o limite de atuação do Estado? Como o Estado poderia resolver os principais problemas que a sociedade passava? Quais seriam os métodos utilizados? Quais eram as melhores propostas de governo? Como encarar as novas mudanças que surgiam, como a criação de indústrias, o crescimento do comércio e as novas tecnologias?

Foi a partir desses questionamentos que os novos pensadores que iam surgindo passaram a ter divergências entre si. Afinal, cada um tinha uma proposta diferente. Cada um enxergava a sociedade de uma maneira distinta um do outro. Entretanto, as diversas idéias diferentes que surgiram na época sobre como deveria ser o novo sistema podem ser divididas em dois grandes grupos: o grupo humanista e o grupo pessimista.

Como já vimos nas últimas postagens, os humanistas eram aqueles que achavam que o ser humano tinha plena capacidade de remodelar toda a sociedade, tornando-a um paraíso. Muitos dos humanistas eram deístas, agnósticos e ateus. Então, isso facilitava o antropocentrismo. O homem tinha suas qualidades elevadas e passava a ocupar o lugar do próprio Deus, tornando-se capaz de redimir a humanidade.

Já os pessimistas eram aqueles que achavam que o ser humano é da forma como tem sido desde sempre e isso nunca vai mudar. Essa visão não estava relacionada com a religião, mas sim com a observação de como o mundo sempre foi e de como o homem costuma a agir. Paixões infames, inclinações ao mal, tendência ao egoísmo… Mesmo alguns pensadores ateus, agnósticos e deístas não tinham dificuldade de ver que essa era a natureza do ser humano. Assim, embora tais pensadores defendessem a criação de um novo regime, mais justo e não-despótico, não acreditavam muito na bondade do homem e em uma transformação tão ampla da sociedade.

Há também um meio termo nessa história. Muitos pensadores se dividiam entre idéias de ambos os grandes grupos, ficando no centro desse espectro. É no interior desse espectro que as noções de direita e esquerda começam a surgir (embora não com esses nomes ainda). Pensadores como Adam Smith, David Ricardo, Edmund Burke, Thomas Jefferson, John Locke e Voltaire foram muito importantes para o desenvolvimento das idéias da direita. Já pensadores como Rousseau, Robert Owen, Saint-Simon, Charles Fourier, Robespierre, Danton e Marat foram muito importantes para o desenvolvimento das idéias de esquerda. No centro do espectro, podemos colocar Montesquieu, já que ele teve idéias que foram cooptadas tanto pela direita como pela esquerda.

O desenvolvimento das ideologias continua mesmo depois da revolução francesa, ganhando novos pensadores como Comte, Proudhon, Bakunin, Marx e Engels para esquerda, bem como Tocqueville, Hume, Mill e Popper para a direita. Caso o leitor tenha algum conhecimento sobre esses autores, pode perceber que todos eles seguem as mesmas duas linhas de raciocínio que foram desenvolvidas no século XVII e XVIII: a humanista e a pessimista, que deram origem, respectivamente à esquerda e à direita.

Por que esclarecer esses pontos?

O leitor pode estar se perguntando a razão de se esclarecer esses pontos. Qual é o problema de se confundir o aparecimento das palavras direita e esquerda como termos políticos com o surgimento das ideologias e definições em si? No fim das contas não dá no mesmo? Não, não dá.

Entender como essas duas ideologias distintas e opostas se desenvolveram é algo essencial para que possamos defini-las corretamente. Por exemplo, movimentos como o fascismo italiano e o nazismo alemão tem sido rotineiramente chamados de movimentos de extrema-direita. Mas isso não faz sentido. Afinal, a direita prega, desde seu início, o individualismo, o Estado pouco interventor, a prudência política e um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano e a qualquer projeto de remodelação radical deste mundo. Assim, um regime de extrema-direita deveria ser um regime que levasse esses princípios ao extremo.

Contudo, o que vemos em regimes como o fascismo e o nazismo é justamente o contrário. Foram regimes coletivistas, fortemente interventores, adeptos de um terrível radicalismo político, defensores da perfectibilidade do homem de sua “raça” e crentes em uma remodelação completa da sociedade através da mão do Estado. Curiosamente, características que fazem parte justamente da esquerda, embora extremadas.

A pergunta é: o que há no fascismo e no nazismo que se assemelha com o que a direita defende? Não há nada. As justificativas para que tais regimes sejam colocados no campo da direita são sempre confusões como as que abordamos nessa postagem. Diz-se que a direita é elitista porque se classifica o antigo regime como direita. Assim, nazismo e fascismo passam a ser de direita.

Diz-se que a esquerda é contrária ao elitismo porque se ignora que todo governo é elitista por definição e que os governos mais esquerdistas que existiram no mundo (os comunistas) foram também os mais elitistas. Assim, o comunismo é visto como um regime realmente igualitário, em oposição ao nazismo e ao fascismo.

Diz-se que ser de esquerda é, necessariamente, ser comunista. Assim, nazismo e fascismo, que eram anticomunistas, passam a ser tão de direita quanto os governos dos EUA e da Inglaterra da época da segunda guerra mundial.

Por fim, definições errôneas que só existem e persistem porque não se faz uma distinção entre o surgimento de termo e definição. Esta é a razão pela qual é importante esclarecer esses pontos para o leitor. Esse foi o objetivo dessa postagem. E o leitor que for honesto consigo mesmo, verá que em momento algum tentei fazer um revisionismo histórico (no sentido pejorativo da palavra), mas apenas resolver as inconsistências que existem nas definições populares de direita e esquerda, que são baseadas nessa confusão entre termo e definição

A eterna revolução

por G. K. Chesterton. Cap. VII de Ortodoxia, tradução de Gustavo Corção.


Ora, é aqui que se situa o colapso ou a imensa estupidificação de nossa época. Misturamos duas coisas diferentes, duas coisas opostas. O progresso deveria significar a constante mudança que impomos ao mundo para afeiçoá-lo a uma definida visão: na verdade significa (hoje) uma constante mudança de visão. O progresso deveria significar o lento mas seguro aumento de justiça e piedade que trazemos aos homens: significa a mobilidade com que passamos a duvidar de que a piedade e a justiça sejam desejáveis. Uma página desvairada de algum sofista prussiano leva os homens a tais dúvidas. O progresso deveria significar nossa constante marcha em direção à Nova Jerusalém: na verdade significa que a Nova Jerusalém está sempre se afastando de nós. Não modificamos o real para adaptá-lo ao ideal; modificamos o ideal — é mais fácil.

Os exemplos meio doidos são às vezes os mais elucidativos. Imaginemos um homem que aspirasse a uma peculiar espécie de mundo: digamos um mundo azul. Ele não teria razão de se preocupar com a lentidão maior ou menor da tarefa. Poderia extenuar-se (sob todos os pontos-de-vista) até conseguir que tudo se tornasse azul. Viveria momentos heróicos ao dar os últimos retoques num tigre azul: teria sonhos feéricos como o de um luar azul. Mas se trabalhasse com firme determinação, nosso inspirado reformador legaria (sob seu ponto-de-vista) um mundo melhor, isto é, um mundo mais azul do que encontrara. Se em cada dia de trabalho trouxesse à sua cor favorita algumas folhas de grama, ele avançaria lentamente. mas se em cada dia modificasse sua cor favorita, então jamais avançaria. Sim, se depois de ler o último filósofo ele se pusesse a pintar tudo de vermelho ou de amarelo, seu trabalho seria perdido: só lhe restaria para mostrar aos pósteros alguns tigres azuis, errantes nas selvas, espécimes comprometedores de uma superada moda.

Esta é, exatamente, a posição do pensador moderno. Hão de dizer que dei um exemplo manifestamente absurdo, mas é isto, literalmente, o que os fatos da história recente nos mostram. As grandes e graves mudanças ocorridas em nossa civilização política pertenceram todas ao começo e não ao fim do século XIX, isto é, pertenceram à época do preto e do branco, em que os homens creram firmemente no Torismo, no Protestantismo, no Calvinismo e muitas vezes na Revolução.  E qualquer que fosse a crença, cada um se apegava à sua sem ceticismos. Houve uma época em que a Igreja oficial poderia cair, e em que a Câmara dos Lordes também quase tombou, porque os Radicais tiveram sabedoria bastante para serem constantes e consistentes, ou melhor, porque os Radicais tiveram a sabedoria de serem Conservadores. Na atmosfera  de nossos dias o Radicalismo não tem passado e tradição para ser capaz de derrubar qualquer coisa. Há boa parte de verdade na sugestão de Lord Hugh Cecil (feita num belo discurso) de que passou a era da mudança e estamos numa era de conservação e repouso. Mas Lord Hugh Cecil provavelmente ficaria muito penalizado (o que certamente acontece) se compreendesse que nossa época só é uma época de conservação por ser uma época de completa descrença. Se quisermos que as instituições permaneçam imutáveis façamos que as crenças se enfraqueçam rapidamente. Quanto mais se transtorna e se confunde a vida do espírito mais fica entregue a si mesmo o mecanismo da matéria. O resultado líquido de todas as nossas novidades políticas — Coletivismo, Tolstoísmo, Neo-feudalismo, Comunismo, Anarquia, Burocracia Científica — o melhor fruto de tudo isto está na consolidação da Monarquia e da Casa dos Lordes. O resultado líquido de todas as novas religiões está aí: a Igreja Anglicana continua oficial, sabe Deus até quando. Foi Carlos Marx, foram Nietzsche, Tolstói, Cunningham, Bernard Shaw e Auberon Herbert que uniram seus gigantescos ombros encurvados para sustentar o trono do Arcebispo da Cantuária.

Nós podemos dizer com plena convicção que o livre-pensamento é a melhor de todas as proteções contra a liberdade. Confeccionada no estilo da moda, a emancipação do espírito do escravo é o melhor preventivo da emancipação do escravo. Ensinem-no a se atormentar com a idéia de querer ser livre, e verão que ele não se libertará. Poderá o leitor dizer que ainda este exemplo é remoto ou exagerado, mas nem por isso é menos exatamente verdadeiro para todos os que cruzam conosco pelas ruas. É verdade que o escravo negro, sendo um bárbaro desenraizado, terá provavelmente ou uma inclinação humana para a fidelidade ou uma inclinação humana para a liberdade. Mas o homem que vemos todos os dias — o trabalhador da fábrica do Sr. Gradgrind, ou o pequeno funcionário nos escritórios do Sr. Gradgrind — esse está mentalmente fatigado demais para crer na liberdade. A literatura revolucionária o traz de rédeas curtas. Ele é amansado, e mantido em seu lugar por uma constante sucessão de desvairadas filosofias. É marxista num dia, Nietzscheano no outro dia, super-homem (provavelmente) no dia seguinte, e escravo todos os dias. A única coisa que sobrevive a todas as filosofias é a fábrica. O único beneficiário de todas aquelas filosofias é o Sr. Gradgrind, que terá todo o interesse em manter na sua casa comercial núcleos sempre abastecidos de literatura cética. E por falar nisto lembremos que o Sr. Gradgrind é famoso por seus donativos para bibliotecas. Ele prova seu descortino: sabe instintivamente que todos os livros modernos lhe são favoráveis.

Enquanto a visão do céu mudar todos os dias a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal durará o bastante para ser realizado, ao menos em parte. O moderno jovem jamais mudará as estruturas que o cercam, porque ele mudará todos os dias o seu espírito.

Esta será então nossa primeira exigência a respeito do ideal que norteia o progresso: esse ideal deve ser fixado (ou não haverá progresso). Whistler tinha o costume de pintar vários esboços do seu modelo. Rasgava dez ou vinte retratos, mas isto para ele não tinha importância. Grave seria sua situação se ele erguesse os olhos vinte vezes, e em cada relance visse uma nova pessoa a posar placidamente para seu retrato. Por isso pouco importa, falando em termos relativos, o número de vezes em que a humanidade falhou na imitação de seu ideal, porque então todas essas falhas passadas serão frutuosas. O que importa, terrivelmente, é o número de vezes que a humanidade trocou por outro seu ideal, pois neste caso todos os velhos insucessos são infecundos.

Quando escrevia estas linhas, mais uma vez, como um homem que ouve o sino da Igreja dominar o tumulto da rua, senti que outra coisa entrava na discussão. E parecia-me dizer: “Meu ideal, ao menos, é fixo; porque foi fixado antes dos alicerces do mundo. Minha visão de perfeição certamente não pode ser mudada, porque seu nome é Éden. Posso mudar o lugar aonde quero ir, mas não posso alterar o lugar de onde vim. Para o ortodoxo haverá sempre um motivo de luta; porque no coração dos homens Deus foi colocado sob os pés de satã. No mundo do alto, um dia, o inferno rebelou-se contra o céu. Mas neste mundo o céu se rebela contra o inferno. Para o ortodoxo sempre haverá uma revolução, porque uma revolução é uma restauração. Em cada instante você pode marcar um ponto para a perfeição como jamais se viu homem fazer desde Adão. Nenhum invariável costume ou nenhuma evolução poderá fazer do bem original algo que não seja bom. Os homens poderão ter concubinas há mais tempo do que as vacas têm chifres: ainda assim elas não fazer parte de seu ser se constituem ocasião de pecado. Os homens viveram sob opressão pouco menos tempo do que vivem os peixes sob as águas; ainda assim isto não deveria permanecer, se a opressão é pecaminosa. A cadeia pode parecer tão natural para o escravo, ou o trottoir para a prostituta, como a pluma para o pássaro ou a toca para a raposa, e no entanto aquelas coisas não são naturais porque são pecados. Eu ergo minha lenda pré-histórica em desafio a toda a vossa história. Vossa visão não é apenas uma coisa estável: “ela é um fato”.

Detive-me a anotar a nova coincidência do cristianismo, e passei adiante, à necessidade seguinte de qualquer ideal de progresso. Algumas pessoas (como já notei) parecem acreditar num progresso automático e impessoal que seria inerente à natureza das coisas. Mas é óbvio que nenhuma atividade política pode ser encorajada por quem disser que o progresso é inevitável: esta idéia não nos daria nenhuma razão para o trabalho, ao contrário, nos dá uma razão para a preguiça. Se somos compelidos a melhorar tudo, não precisamos ter o mínimo zelo de perfeição. A pura doutrina do progresso é, de todas as razões, a melhor para não sermos progressistas. Mas não é sobre nenhum desses óbvios comentários que desejo chamar a primeira e principal atenção do leitor.

O ponto em que me detenho é o seguinte: se supomos que o aperfeiçoamento das coisas é natural, então esse aperfeiçoamento deve ser muito simples. Pode-se conceber o mundo trabalhando para uma determinada e simples consumação, mas não para um arranjo particular de numerosas qualidades. Voltemos àquele ideal de um progresso para o azul, e imaginemos a Natureza a se tornar dia a dia mais azul, por um processo tão simples que possa ser impessoal. Mas a Natureza não poderá fazer um quadro cuidadosamente composto de várias cores, a menos que a Natureza seja pessoal. Se o fim ao qual tende o universo é o das trevas absolutas ou o da luz sem penumbras, ele poderá advir tão lentamente ou tão inevitavelmente como a aurora ou o crepúsculo. Se porém o fim visado é o de um elaborado e artístico claro-escuro, então deve existir atrás dele uma idéia, humana ou divina. O mundo, pela simples ação do tempo, pode enegrecer como um velho quadro, ou branquear como uma roupa velha; mas se ele se torna uma elaborada composição artística de preto e branco, então atrás dele há um artista.

Se a distinção não é evidente, darei um exemplo ordinário. Constantemente nos falam os modernos humanitários de uma crença particularmente cósmica; emprego o termo humanitário no sentido comum que designa o homem que apóia as reivindicações de todas as criaturas contra as da humanidade. O termo sugere que, através das idades, nós nos tornamos cada vez mais humanos, ou melhor, sugere que um depois do outro, grupos ou categorias de seres, escravos, crianças, mulheres, vacas, ou o que mais queiram, têm sido gradualmente admitidos como objetos de piedade e justiça. Eles pensam que em tempos idos era julgado justo que um homem comesse o outro (o que não é verdade), mas não me ocupo aqui dessa história que é altamente anti-histórica. A antropofagia é um fato que exprime decadência e não primitivismo. É muito mais verossímil que os homens modernos venham a comer carne humana por afetação do que tenham os antigos comido por ignorância. Estou aqui apenas acompanhando os contornos de seus argumentos, que consistem em afirmar que os homens têm sido progressivamente mais carinhosos, primeiro com os cidadãos, depois com os escravos, depois com os animais e agora, presumivelmente, com as plantas. Eu agora acho que não devo assentar-me em cima de um homem; amanhã pensarei que não é bom assentar-me sobre um cavalo; e, ao que suponho, num futuro próximo terei escrúpulo de sentar-me numa cadeira. Este é o fio condutor do argumento. Desse argumento é possível dizer que ele pode ser expresso em termos de evolução ou inevitável progresso. Uma perpétua tendência de tocar cada vez menos nas coisas pode ser uma simples e inconsciente tendência animal, como a das espécies que produzem cada vez menos filhos.  Esse deslize pode ser realmente evolucionário, porque é estúpido. O darwinismo pode ser empregado para escorar duas éticas loucas, mas não pode servir de apoio a uma só moral sadia. O companheirismo ou a competição dos seres vivos podem-nos levar a uma desvairada crueldade, ou a um desvairado sentimentalismo, mas não podem nos incutir um sadio amor pelos animais. Com pressupostos evolucionistas você pode ser desumano, ou absurdamente humano, mas você não consegue ser humano. Se você e o tigre estão no mesmo nível, você terá razões para ser meigo com o tigre, ou terá motivos para ser feroz com o tigre. Não é fácil obter do tigre que ele o imite; mais expedito será você imitar o tigre. Em caso algum a evolução lhe dirá como deve você tratar razoavelmente um tigre, isto é, como admirar sua pele listrada evitando suas garras.

Quer você tratar um tigre razoavelmente? então é preciso retroceder até o jardim do Éden, porque o obstinado momento persiste: somente o Sobrenatural tem uma sadia visão da natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da religião cósmica moderna está nesta proposição: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente para você, todas as vezes que olhar a Natureza como mãe, descobrirá que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo é precisamente este: a Natureza não é nossa mãe, a Natureza é nossa irmã. Nós podemos nos orgulhar de sua beleza porque temos o mesmo pai, mas não podemos aceitar sua autoridade sobre nós. Devemos admirá-la, mas não imitá-la. E é isto que dá, ao típico prazer cristão nesta terra, um toque de estranha leveza que é quase uma frivolidade. A natureza era uma mãe solene para os adoradores de Isis e de Cybele. Foi mãe majestosa para Wordsworth e Emerson. Mas a Natureza não é solene nem majestosa para São Francisco de Assis ou para Jorge Herbert. Para São Francisco, a Natureza era irmã, e até irmãzinha: uma pobre pequena irmã dançarina de que se ria, e que amava.

Isto entretanto não é o nosso ponto principal, apenas tocamos nessas coisas para mostrar com que constância, apesar de serem acidentais, a mesma chave abre as mais pequenas portas. Nosso objetivo principal é o de mostrar que, admitida alguma tendência de aperfeiçoamento impessoal na Natureza, essa tendência só poderá visar a um simples triunfo. Alguém poderia imaginar alguma tendência automática da biologia a trabalhar para nos dotar de narizes cada vez maiores. Mas a questão é saber se nós precisamos possuir narizes cada vez maiores. Penso que não, e creio que todos nós diríamos aos seus respectivos narizes: “Tu irás até aqui, e não deverás ir mais longe, porque é aqui que deve se deter o teu orgulho”. Nós queremos um nariz de tal comprimento que dê ao rosto um aspecto condigno; mas nós não podemos imaginar uma tendência biológica a produzir faces condignas, porque essa face só é interessante por seu particular arranjo de olhos, nariz e boca, numa relação muito complexa entre esses elementos. A proporção não pode ser um deslize: resultará de um acidente ou de um designo. E o mesmo diríamos da moral humana e de sua relação com os humanitários e anti-humanitários. Pode-se conceber que cada vez menos nossas mãos toquem as coisas, até para guiar um cavalo ou colher uma flor. Seríamos eventualmente compelidos a não perturbar o espírito de um homem com a menor das objeções, e a não perturbar o sono dos pássaros com um simples pigarro. A suprema apoteose seria representada por um homem sentado e imóvel, sem ousar um gesto que incomodasse alguma mosca, e sem comer para não incomodar os micróbios. Inconscientemente poderíamos ser levados a um programa tão rudimentar? Do mesmo modo, e também inconscientemente, podemos evoluir no sentido oposto, ou na linha do desenvolvimento nietzscheano: um super-homem esmagando o super-homem anterior numa pirâmide de tiranos até que o universo inteiro seja por eles despedaçado por brincadeira. Mas é o caso de perguntar: queremos nós que o universo se despedace por brincadeira? Não nos parece claro que nossa esperança real seja feita de um arranjo e composição de duas coisas, uma certa dose de constrangimento e respeito, e uma certa dose de energia e autoridade? Se nossa vida deve ser um dia tão bela como um conto de fadas, devemos lembrar que toda a beleza do conto de fadas reside nesta condição: o príncipe tem uma admiração que se detém no exato ponto em que se tornaria medo. Se ele tiver medo do gigante será um homem acabado; mas também, se ele não tiver admiração diante do gigante anulada estará a possibilidade do conto de fadas. Tudo depende de ser ele, ao mesmo tempo, bastante humilde para poder admirar-se, e bastante altivo para aceitar o desafio. Assim também deve ser a nossa atitude diante do gigante que é o mundo: não deve ser uma progressiva delicadeza, nem um progressivo desprezo; antes deve compor-se de uma especial e justa proporção das duas coisas. Devemos sentir pelas coisas exteriores bastante respeito para nos compelir a pisar timidamente a grama de um jardim; mas também devemos ter o desdém suficiente para nos permitir, no momento certo, cuspir na direção das estrelas. Essas duas coisas, entretanto, (se queremos ser bons e felizes) devem andar combinadas, não em uma qualquer proporção mas numa proporção muito especial. A perfeita felicidade dos homens na terra (se algum dia existir) não será uma coisa chata e sólida, como a satisfação animal. Será um exato e perigoso equilíbrio como o de um romance desesperado. O homem deve ter bastante confiança em si para aceitar aventuras, e deve duvidar de si o bastante para alegrar-se nas aventuras.

Eis aqui, então, nosso segundo requisito para o ideal de progresso. Primeiro, ele deve ser fixado; segundo, ele deve ser composto. Se se trata de cumular as almas, não deve ser a simples vitória de uma coisa que engole tudo, amor ou orgulho, paz ou aventura; antes deve ser como um quadro definido e composto desses vários elementos nas melhores proporções. No momento não cuido de saber se tão excelente culminação esteja, pela ordem das coisas, ao alcance do homem. Quero apenas observar que esse ideal composto, fixado para nós, só pode existir e ser mantido por um espírito, porque somente um espírito poderá estabelecer as proporções exatas de uma perfeição composta. Se a beatificação do mundo é um mero trabalho natural, será então tão simples como a congelação do mundo, ou seu incêndio total. Mas se a beatificação do mundo não é obra de natureza, e sim obra de arte, então implica um artista. E aqui, mais uma vez, minha contemplação foi interrompida pela antiga voz que clama: “Eu poderia vos ter dito isto há muito tempo. Se algum progresso verdadeiro existe, só pode ser da espécie do meu: o progresso em direção à cidade perfeita, à cidade das virtudes e das dominações onde a justiça e a paz podem enfim se beijar. Uma força impessoal só vos levará a uma desolação de perfeita platitude, ou a um pico de perfeita altitude, mas somente um Deus pessoal poderá vos guiar (se na verdade estais sendo guiados) a uma cidade com ruas justas e proporções arquiteturais, uma cidade em que cada um de vós pode trazer a exata contribuição de uma cor predileta para a capa multicor de José”.

Pela segunda vez trouxe o Cristianismo a exata resposta ao que eu pedia. Eu tinha dito: “o ideal deve ser fixado”; e a Igreja respondeu: “assim é o meu, literalmente fixado e pré-existente a todas as coisas”. Disse eu então: “deve também ser artisticamente combinado, como uma pintura”; e então a Igreja respondeu-me: “Assim é o meu, qual uma pintura, e eu conheço quem a pintou”.

Passei então ao terceiro ponto, isto é, à terceira coisa exigida, a meu ver, por uma utopia ou por um objetivo de progresso. E esta é, das três a mais difícil de exprimir. Talvez possa dizer assim: nós precisamos de vigilância, mesmo na utopia, para não cairmos dela como caímos do Éden. Já observamos atrás que uma das razões oferecidas para ingresso no progressismo é a suposta tendência natural das coisas para o melhor. Mas a única razão real para ser progressista é, ao contrário, a tendência natural das coisas para o pior. A corrupção nas coisas é não somente o melhor argumento para ser progressista, como também é o único argumento contra a idéia de ser conservador. A teoria conservadora seria perfeita, absoluta e incontestável, sem esse simples fato. Todo o conservantismo é baseado na suposição de que as coisas permanecem o que são se as deixarmos entregues a si mesmas. Ora, você sabe a cada instante que não deve deixar as coisas como estão. Se deixa uma coisa sozinha, de fato a deixa exposta a uma torrente de mudanças. Se você deixa sozinho um poste pintado de branco, em breve espaço de tempo terá um poste enegrecido; e se faz questão que ele seja branco, então terá de pintá-lo de novo, ou melhor, terá de fazer, neste poste, uma revolução. Em suma, se você se apegou ao velho poste branco precisará ter sempre um novo poste branco. E isto que é verdade para coisas inanimadas, será também verdade, de um modo especial e terrível, para as coisas humanas. Uma vigilância quase desmedida e supernatural parece exigida a um simples cidadão em virtude da horrível rapidez com que envelhecem as instituições humanas.

No romance e no jornalismo é costume aludir aos homens que sofrem de velhas tiranias. Na verdade, porém, os homens sempre tiveram de suportar o peso das novas tiranias, de tiranias que vinte anos atrás eram liberdades públicas. A Inglaterra ficou louca de alegria quando teve a monarquia patriótica de Elizabeth, e depois (quase imediatamente depois) tornou-se louca de raiva quando caiu na armadilha da tirania de Carlos I. Também na França a monarquia tornou-se intolerável, não depois de ser tolerada mas depois de ser adorada. O filho de Luís o bem-amado foi Luís o guilhotinado. E assim também na Inglaterra, no século XIX, todos se entregaram a um industrial radical, tido por verdadeiro tribuno do povo, até o dia em que todos ouviram o socialista clamar que o dito industrial era um tirano que devorava o povo como quem come pão. E assim, mais uma vez, todos nós, até o derradeiro instante, pensamos que os jornais eram órgão da opinião pública. Recentemente alguns de nós perceberam, de repente, num sobressalto, que os jornais estão longe de ser o que pensavam. Por sua própria natureza são brinquedos de uns poucos ricos. Nós não temos a menor necessidade de nos rebelarmos contras as novidades. São os novos chefes, o capitalista ou o redator-chefe que realmente sustentam o mundo moderno. Não há perigo de que um rei moderno queira infringir a constituição; mais provavelmente ele a ignorará e governará ao seu abrigo sem tirar vantagem alguma de seu poder real. Mais provavelmente ele tirará vantagens de sua real impotência, e do fato de estar liberado da crítica e da publicidade. O rei é a mais privada das pessoas de nosso tempo. Ninguém terá de lutar contra um projeto de censura da imprensa. Não há necessidade disto porque a própria imprensa é censura.

Esta estonteante rapidez com que os sistemas populares se tornam opressores é o terceiro fato com o qual deverá a teoria perfeita se ajustar. Ela deve vigiar para que nenhum privilégio se torne um abuso, e para que nenhum direito exercido se transforme em injustiça. Neste ponto estou inteiramente com os revolucionários. Eles têm razão de sempre suspeitar das instituições humanas; eles têm toda a razão de não confiarem nos príncipes e nos demais filhos dos homens. O chefe escolhido como amigo do povo torna-se inimigo do povo; o jornal lançado para dizer a verdade existe agora para impedir que a verdade seja dita. Aqui, disse eu comigo mesmo, senti que afinal eu estava realmente ao lado dos revolucionários. E depois caí em mim e vi que estava mais uma vez ao lado dos ortodoxos.

O cristianismo mais uma vez falou e disse: “Eu sempre sustentei que os homens eram naturalmente retrógrados, que as virtudes humanas tendiam por sua natureza à ferrugem e ao mofo. Sempre disse que os seres humanos se tornam, por si sós, injustos, especialmente os felizes, e mais especialmente os orgulhosos e os prósperos. Esta eterna revolução ou esta suspeição sustentada por séculos e séculos, você (que é um vago moderno) a chama de doutrina do progresso. Se você fosse um filósofo, chama-la-ia, como o faço eu, doutrina do pecado original. Você pode chamá-la quantas vezes quiser, de marcha vanguardeira do cosmos; eu a chamo por seu nome — “A Queda”.

A Onda

Há um filme chamado a “A Onda” com uma versão americana de 1981 e uma versão alemã mais recente, de 2008. O filme se baseia numa experiência feita por um professor  em 1969, na Gordon High School em Palo Alto na Califórnia.

A história é basicamente sobre uma experiência realizada por um professor com seus alunos. Durante uma aula sobre o genocídio nacional-socialista, os alunos ficaram horrorizados com as atrocidades cometidas pelo regime nacional-socialista e  se questionaram como tal atrocidade foi possível de acontecer. Então o professor começa a impor algumas regras, que aos poucos tornam a sala num grupo semelhante aos nacional-socialistas (e – por quê não? – comunistas): eles renunciam a suas liberdades individuais em prol do grupo, A Onda. Logo o movimento ganha novos adeptos e foge um pouco do controle. Então o professor convoca os alunos para uma reunião do grupo, no qual o líder  nacional da “A Onda” iria fazer um pronunciamento. No caso, esse líder é Adolf Hitler. Os alunos ficam perplexos com o fato de, em menos de uma semana, se deixaram  manipular de tal forma.

A versão alemã tem alguns pontos diferentes no roteiro, mais para adaptar a obra para o país e os dias atuais. Continua sendo uma boa história e com grande chance de atrair a atenção dos mais novos.

Fica a dica de um filme interessante para ser exibido aos jovens e que deixa uma lição interessante: não podemos deixar nossas liberdades individuais em prol de um grupo, um líder ou uma causa que não seja de nossa vontade. Devemos pensar por nós mesmos, ser críticos.

Versão alemã de 2008, com legendas em inglês

Versão americana de 1981