Mentalidades Coletivistas

O maior desafio de um individualista ao tentar esclarecer as pessoas sobre os benefícios de uma sociedade mais livre é tentar, primeiramente, livrá-las dos cacoetes mentais coletivistas que povoam suas cabeças. Não é tarefa fácil: as pessoas são treinadas, educadas e adestradas para pensar e comunicar-se sempre em “coletivês” de modo que parece as vezes até impossível pensar de modo diferente.

Desta mentalidade coletivista brotam jargões do tipo “Brasil para os brasileiros”, “dívida histórica/social”, “luta de classes” e outros absurdos. Eu arriscaria dizer que a mentalidade coletivista é a mãe de todos os preconceitos, do racismo ao sexismo passando pela xenofobia e pelo preconceito de classe. O artigo de hoje propõe uma divisão “taxonômica” da mentalidade coletivista.

Supremacismo
É a mentalidade coletivista que hierarquiza os coletivos humanos (gêneros, etnias, classes, nacionalidades, grupos religiosos) e declara abertamente a supremacia de um sobre os demais. Este que fica no topo tem o direito de dominação sobre os demais. Os exemplos mais claros são o racismo e suas variantes (supremacismo branco, supremacismo negro, etc.), mas também se aplica ao ultranacionalismo, ao sexismo (machismo, femismo) e ao sectarismo religioso.

A contraparte do supremacismo é o submissivismo que reconhece a si e ao coletivo com que se identifica como uma parte da hierarquia que está abaixo daquela dominante. Um submissivista, por exemplo, seria como um racialista negro que acredita que os negros são cidadãos de segunda classe e que deveriam se espelhar e imitar os brancos para melhorar sua condição.

Igualitarismo
É a mentalidade coletivista que reconhece os diferentes coletivos humanos mas propõe que a relação de valor entre eles é a de igualdade, ainda que as características naturais ou sociais deles não sejam. Do igualitarismo também vem a noção de igualdade formal, embora prejudicada pela sua impossibilidade de conceber os seus membros como indivíduos transcendentes que ora estão em um grupo, ora em outro, ou mesmo em mais de um grupo ao mesmo tempo. A relação de igualdade entre os grupos, sem o reconhecimento do indivíduo como ente primário e necessário, força a incorporação arbitrária deste a um grupo.

Vitimismo
É a mentalidade coletivista que identifica nos coletivos humanos uma relação conflitiva entre explorados e exploradores, da qual não raro brota o revanchismo histórico (“dívida social”, “dívida histórica”) ou o irredentismo. O vitimista que se crê parte do coletivo “explorado” demanda políticas compensatórias das quais é beneficiário. Exemplos claros são o protecionismo (vitimismo econômico), a xenofobia (vitimismo nacionalista), o racismo (vitimismo étnico), o feminismo (vitimismo sexista), etc.

Cotas raciais: por que não funcionarão

Ultimamente participei de um debate sobre cotas raciais. Um assunto bastante debatido e, por isso mesmo, com argumentos clichês repetidos à exaustão por ambas as partes. Do lado pró, os clichês são o discurso da dívida histórica com os oprimidos, do lado contra a afirmação de que as cotas afrontam a meritocracia. Optei por uma abordagem diferente e mais pragmática a esta questão, que exponho aqui como uma síntese da argumentação que empreguei no debate.

1. Retórica do oprimido, da Escravidão e da dívida histórica.
A Primeira coisa que fiz foi dispensar a “retórica do oprimido”, refutando o discurso batido da dívida histórica pela Escravidão. O objetivo é instrutivo, pois a ideia que se tem da Escravidão na nossa educação ainda é muito caricatural, rasa, obsoleta e isto se revela em concepções errôneas que as pessoas tem sobre a História.

1.1 Escravidão: flagelo dos negros ou mal universal?
Podemos afirmar que existiam três grupos principais que eram submetidos ao trabalho escravo: brancos, índios e negros. Os índios, apresados em expedições militares, os negros, comprados de comerciantes africanos e os brancos, cumprindo pena. Negros normalmente eram “escravos do eito” e trabalhavam na lavoura, mas também podiam ser “escravos domésticos” e trabalhar dentro da casa dos seus senhores. Os brancos, por sua vez, realizavam trabalho forçado nas galés como remadores ou na construção de prédios públicos. Sem dúvidas, os negros foram afetados numa proporção muito maior porque nações inteiras na África usavam escravos como moeda e portanto os negros eram bem mais fáceis e rápidos de obter, pois o “trabalho” de captura já estava feito e as “peças” estavam disponíveis nos centros comerciais para a compra.

Deve-se compreender portanto que a escravidão não era fundamentada numa lógica racista como comumente se crê, coisa que só foi despontar mesmo com a ascensão do racismo científico. Basicamente, cria-se que era justificável escravizar um homem para não matá-lo e portanto os prisioneiros de guerra eram escravos por questão de direito. Isto levava nações inteiras a mover guerra com fins de obter mão-de-obra escrava. Este sistema era complementado com o status hereditário dentro da sociedade: filho de nobre era nobre, filho de camponês era camponês e filho de escravo era escravo.

Não creio que possamos reduzir o sofrimento da escravidão a uma medida contável e dizer que esta foi pior para os negros do que foi para índios ou brancos, muito menos podemos afirmar que remar acorrentado nas galés ou erigir prédios públicos era mais confortável que trabalhar em um engenho de açúcar ou minerar uma montanha de prata igualmente sob o chicote. O que podemos afirmar, sem dúvida, é que o número de escravos negros era muito maior, porque estes estavam bem mais acessíveis. Podiam ser obtidos por uma simples transação comercial, sem a necessidade de organizar expedições de apresamento ou esperar pela condenação legal.

É notório também o fato de que negros livres possuíam escravos tanto quanto os brancos, posto que a escravidão era tida como algo normal antes da ascensão do abolicionismo e do surgimento do trabalho assalariado industrial. Antes disso, igualdade racial significava gozar do mesmo direito à posse de escravos, não a abolição da escravidão.

1.2 A condição dos negros
É difícil afirmar algo sobre o quanto os africanos que aqui chegavam eram instruídos, já que vinham de etnias e culturas muito distintas entre si. Há registros históricos de escravos alfabetizados em árabe clássico – o usado no Alcorão – e é notável a capacidade de muitos deles para os negócios, como se vê no caso dos escravos do ganho, traficantes de escravos e sinhás pretas, o que implica a capacidade de fazer cálculos e tomar notas de transações comerciais.

Aos escravos, para própria manutenção, era permitido cultivar um pedaço de terra, que gerava excedente para ser vendido nas horas vagas, normalmente o domingo. Outros viviam de fazer consertos ou venda de doces. O comércio era permitido aos escravos do ganho: para trabalhar não era necessário ser forro, como as sinhás pretas, embora somente com a liberdade pudessem ficar com toda a renda do seu trabalho. O comércio foi muitas vezes o instrumento pelo qual cativos obtiveram a alforria, comprando-a.

Logo, não há porque classificá-los como menos aptos para a ascensão social, senão pelas condições desfavoráveis colocadas anteriormente pela escravidão e posteriormente por políticas imigratórias prejudiciais.

2. Cotas: por que não resolverão o problema
Finalmente, atacando diretamente as cotas, demonstro porque elas são incapazes de atingir os objetivos a que se propõem, seja a redução da desigualdade econômica, a melhoria da educação da população negra ou a redução do racismo me apoiando em Thomas Sowell, destacado estudioso do tema, e dados do IBGE sobre a escolaridade no Brasil.

2.1 Negros não conseguem entrar na universidade porque não terminaram o ensino fundamental.
Apesar de já ter virado um clichê afirmar que o problema da nossa educação está na base, nunca se ergue uma casa sem os alicerces. Estatísticas do IBGE demonstram que a média de anos de estudo entre os negros é cerca de 2 anos inferior à dos brancos. Mais de 68% da população negra entre 20 e 59 anos tem menos de 7 anos de estudo e portanto sequer concluiu o Ensino Fundamental. Isto demonstra que o problema dos negros é anterior ao ingresso na faculdade e que, por quaisquer que sejam os motivos, eles não estão conseguindo obter a formação fundamental e média.

Logicamente, não tendo concluído o ensino fundamental e o ensino médio, não conseguirão ingressar na Universidade. No fim das contas, o sistema de cotas beneficia parte dos negros, os que possuem arcabouço educacional para alcançar uma universidade, mas não os reais necessitados, os pobres de diversas etnias.

2.2 O segundo problema: as cotas colocam o ingresso na universidade como um fim.
Qual é o objetivo das cotas? É colocar o aluno dentro da Universidade? É garantir que ele conclua o curso? É garantir que ele terá um bom emprego e reduzir as desigualdades econômicas?

Depois de ingressar, o aluno quer se formar, e depois de se formar, ele quer um bom emprego. As pessoas alimentam expectativas com a facilitação da formação secundária ou o ingresso na Universidade, mas não será isso que garantirá uma melhor condição de vida para os negros, pois entrar na faculdade não é o objetivo final de quem quer uma vida melhor, mas apenas uma dentre tantas metas a serem atingidas ao longo da vida. Além de ingressar, o aluno quer aprender, se formar e obter um emprego que sustente o padrão de vida que ele almeja.

Não há, entretanto, qualquer evidência de que as cotas proverão isto. As cotas raciais não prometem emprego, tanto quanto não prometem a conclusão do curso. Não são qualquer garantia de redução das desigualdades econômicas, e podem simplesmente acabar beneficiando só os 11% de negros que compõem o seleto grupo dos mais ricos do Brasil. A Universidade não presta ao propósito de reduzir as desigualdades econômicas, e o caso dos graduados desempregados ou sub-empregados na Europa e nos EUA já constitui prova disso: investir 4, 5, 6 ou até 8 anos da sua vida para ficar à deriva depois não é o que se pode chamar de melhoria de vida. Os institutos técnicos e profissionalizantes atendem muito melhor a esta necessidade, respondendo muito mais rápido à demanda por profissionais qualificados o suficiente para o mercado de trabalho, enquanto há cursos de formação superior que são verdadeiros passaportes para o desemprego.

2.3 O terceiro problema: as cotas raciais já foram tentadas em outros lugares, e falharam.
No seu livro “Ação afirmativa ao redor do mundo, um estudo empírico”, Thomas Sowell pesquisou o efeito das ações afirmativas e da adoção de cotas em Índia, Malásia, Sri Lanka, Nigéria, Estados Unidos e outros países. Na Índia, 63% dos ‘intocáveis’ continuam analfabetos. Na Malásia, onde cotas privilegiam os malaios contra seus concidadãos chineses, os estudantes das famílias malaias que constituem os 17% mais ricos recebem metade de todas as bolsas. O livro está repleto de exemplos, inclusive dos EUA, e mostra não só a inefetividade das cotas para a obtenção de igualdade em termos econômicos, mas também o seu efeito nocivo no acirramento do racismo e dos conflitos étnicos.

Não há motivo para acreditar, sem apresentação de provas, que o povo brasileiro tem algum componente diferente dos outros que fará tais medidas funcionarem. Certamente as nossas culturas e sistemas educacionais não são os mesmos que os dos países da América ou da Ásia, mas isto não implica que o que não funcionou lá funcionará aqui. Pelo contrário, o fato de um sistema não funcionar em uma miríade de povos tão distintos quanto estadunidenses e malaios favorece considerar que ele é falho independentemente das etnias e sistemas educacionais envolvidos.

Conclusão:
Toda política está errada quando não produz os resultados que eram almejados com a sua implantação, e foi exatamente o que aconteceu com a cota racial nos lugares em que foi tentada. O fato de ter falhado em países do porte da Índia e dos Estados Unidos é um mal sinal, e não creio que possamos dizer que não houveram adaptações às culturas locais. Antes de tentar implantar um sistema às cegas, mesmo que se prometa adaptá-lo às necessidades locais, é necessário investigar o motivo de terem falhado em outros lugares e levantar soluções para isto, o que não foi feito. Não há como defender esta política que, além de apresentar resultados pífios (quando não negativos), tem entre seus efeitos colaterais o aumento dos conflitos étnicos.

A abordagem racial é falha porque o motivo pelo qual os negros não conseguem entrar e se formar na Universidade não é a cor da sua pele. A entrada é feita por concurso, não por entrevista de seleção, e portanto a probabilidade de negros não entrarem por causa de alguma forma de racismo é praticamente nula. O que os afeta é uma condição educacional e econômica desvantajosa, não uma desvantagem “racial”.

Como já abordei antes, o problema dos negros começa bem antes: se não conseguem completar o ensino fundamental e o médio, tampouco haverá significativo aumento de sua participação no ensino superior. A solução, portanto, tem como condição necessária garantir primeiro a educação fundamental e média. As cotas colocam a carroça na frente dos bois.


Fontes para consulta:

IBGE
Censo Demográfico 2010.

Censo Demográfico 2000

IBGE/Pnad Microdados.

Kamel, Ali.

Elon International Studies – Brazil

Brasil.gov.br

Sol.sapo.pt

O Globo

Revista de História

Quem foi Martin Luther King?

I. Nascimento e família
Nascido numa terça, dia 15 de janeiro de 1929 numa casa de família em Atlanta, Martin Luther King, Jr. foi o primeiro filho homem do reverendo Martin Luther King Sr. e Alberta Williams King. Teve dois irmãos: Christine e Alfred Daniel.

Casou-se com Coretta Scott em 18 de junho de 1953. O reverendo King Sr. realizou o matrimônio, com a Srª. Edythe Bagley, a irmão de Coretta Scott King como madrinha, e o reverendo A.D. King, o irmão de Martin Luther King Jr., como padrinho.

O casamento do Dr. e da Srª. King resultou em quatro filhos: Yolanda Denise, Martin Luther III, Dexter Scott e Bernice Albertine.

II. Formação e estudos

Filho, neto e bisneto de ministros batistas, Martin Luther King Jr., nomeado Michael King no nascimento, passou seus primeiros doze anos numa casa na Auburn Avenue, que o reverendo Michael King e Alberta Williams King compartilhavam com seus avós maternos.

Durante seus anos de graduação no Atlanta’s Morehouse College (1944 to 1948), King superou sua relutância de aceitar o nome herdado. O presidente da Morehouse, Benjamin E. Mays, influenciou o desenvolvimento espiritual de King, encorajando-o a ver a Cristandade como uma força potencial para uma progressiva mudança social. Ele foi ordenado durante seu semestre final na Morehouse, e nesta época King também tomava seus primeiros passos para o ativismo político. Ele respondeu à onda de violência racial do pós-guerra proclamando em uma carta para o editor do Atlanta Constitution que os negros eram “merecedores dos mesmos direitos básicos e oportunidades dos cidadãos americanos”.

Depois de deixar a Morehouse, King aumentou seu entendimento sobre o pensamento cristão participando do Crozer Theological Seminary na Pensilvânia de 1948 a 1951.

Em 1951 King começa seu doutorado em teologia sistemática na Escola de Teologia da Boston University. À época em que completava seus estudos de doutorado em 1955, King havia refinado sua excepcional habilidade de buscar em um vasto número de textos filosóficos e teológicos para expressar suas visões com força e precisão.

III. O boicote do ônibus desencadeia um movimento
Em dezembro de 1955, quando os líderes negros de Montgomery formaram o Montgomery Improvement Association (MIA) para protestar contra a prisão da funcionária do NAACP, Rosa Park, por recusar-se a dar seu lugar no ônibus para um homem branco, King foi escolhido para liderar o novo grupo.

Em seu papel como principal porta-voz do boicote de Montgomery, King utilizou suas habilidades como líder para criar uma estratégia de protesto que envolvia a mobilização de Black Churches e apelos ao apoio da população branca. Com o encorajamento de outros pacifistas veteranos, King também tornou-se um firme defensor dos preceitos de não-violência de Mohandas Gandhi, que ele combinou com idéias do evangelho cristão.

Depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos removeu as leis de segregação dos ônibus no caso Browder v. Gayle no final de 1956, King buscou expandir o movimento não-violento em prol dos direitos civis por todo o sul.

A ascenção de King à fama não se deu sem consequências pessoais. Em 1958 King foi vítima da sua primeira tentativa de assassinato. Durante uma sessão de autógrafos do seu primeiro livro Stride Toward Freedom que Izola Ware Curry foi apunhalado com um abridor de cartas.

IV. Colocando os alicerces para a mudança não-violenta
Um dos aspectos principais da liderança de King era sua habilidade de obter apoio de muitos tipos de organizações como sindicatos, organizações pacifistas, organizações reformistas do sul e grupos religiosos.

Durante 1959 ele aumentou sua compreensão sobre as idéias de Gandhi durante uma visita de um mês à Índia patrocinada pelo American Friends Service Committee. Com Coretta e o historiador da MIA, Lawrence D. Reddick de companhia, King encontrou-se com muitos líderes indianos. Escrevendo após sua volta, King afirmou “Eu deixei a Índia mais convencido do que nunca que a resistência não-violenta é a arma mais potente disponível aos oprimidos em sua luta pela liberdade”.

V. O Movimento se Intensifica
Já no início de 1960 Martin Luther King Jr. mudou-se com sua família para Atlanta, para estar mais próximo à sede da SCLC naquela cidade e tornar-se co-pastor, com seu pai, na Igreja Batista Ebenezer. O terceiro filho de King, Dexter, nasceu em 1961, e o quarto, Bernice, em 1963.

Durante 1963, King reforçou sua importância dentro da luta dos negros por liberdade através da sua liderança na campanha de Birmingham. Iniciada pela SCLC e seus afiliados, os protestos de Birmingham foram os protestos por direitos civis mais intensos até então. A decisão de King de deixar-se prender, intencionalmente, por liderar um protesto em 12 de abril incitou a administração de Kennedy a intervir nos protestos e a introduzir uma nova legislação sobre direitos civis.

A habilidade de King para focar a atenção nacional nos confrontos orquestrados com autoridades racistas, combinado com sua oração na Marcha sobre Washington de 1963, fez dele um dos mais influentes palestrantes americanos da primeira metade dos anos 60.

Os protestos no Alabama atingiram um ponto crucial em 7 de março quando a polícia atacou o grupo de protestantes no início de uma marcha de Selma ao capitólio em Montgomery. Despreparado para um confronto violento, King afastou alguns ativistas quando decidiu adiar a continuação da marcha de Selma à Montgomery até ter a aprovação judicial. A marcha e o subsequente assassinato de um participante branco, bem como dois assassinatos anteriores, dramatizaram a negação do direito ao voto dos negros e estimularam a passagem do Voting Rights Act de 1965.

VI. Além dos direitos civis
Após a bem sucedida marcha dos direitos eleitorais em Alabama, King não conseguiu obter apoio similar para seus esforços no confronto de problemas da população negra urbana vivendo no norte. Conforme mudava suas atividades para o norte, no entanto, ele descobriu que as táticas usadas no sul não eram tão efetivas em Chicago.

A influencia de King foi diminuída pelo tom cada vez mais mordaz da militância negra no período após 1965. Radicais negros se afastavam cada vez mais dos princípios gandhianos de King e se aproximavam do nacionalismo negro de Malcolm X. King recusou-se a abandonar seus princípios muito bem fundamentamentos de integração e não-violência.

Mesmo com sua popularidade em declínio, King protestou fortemente contra o envolvimento americano na Guerra do Vietnã, tornando sua posição pública em um discurso intitulado “Além do Vietnã”, em 4 de abril de 1967.

VII. Últimos dias e Legado
King retornou a Memphis pela última vez no início de abril. Discursando para uma audiência em 3 de abril, King afirmou seu otimismo apesar dos “dias difíceis” que estavam por vir. “Mas isto não importa para mim agora”, declarou, “porque eu estive no topo da montanha e vi a Terra Prometida.” Continuou, “não posso chegar lá com vocês. Mas quero que vocês saibam hoje que nós, como um povo, chegaremos à Terra Prometida.” Na noite seguinte Martin Luther King Jr. foi assassinado na sacada do Motel Lorraine em Memphis. Um segregacionista, James Earl Ray, foi condenado pelo crime.

Hoje, Dr. King é considerado uma das figuras mais importantes do século XX, não só para os negros americanos, mas para todos aqueles que buscam liberdade, justiça, igualdade e paz. Sua abordagem única à filosofia da ação não-violenta permanece como uma das mais bem sucedidas alternativas para o confronto do mundo moderno contra os conflitos violentos, e contra a injustiça estrutural.


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Liberdade Econômica Contra a Desigualdade Racial

Walter Williams é um radical. Na juventude, preferia o incendiário Malcolm X ao pacifista Martin Luther King. Hoje, aos 74 anos, Williams admira os dois líderes negros, repudia a violência e se define como um libertário radical, como os americanos se referem aos que se opõem ao excesso de ativismo do estado e propugnam mais liberdade individual. Fiel ao seu ideário, é contra ações afirmativas e cotas raciais, e diz que o melhor instrumento para vencer a desigualdade racial é o livre mercado: “A economia de mercado é o grande inimigo da discriminação”. Criado pela mãe na periferia de Filadélfia, Williams acaba de publicar uma autobiografia em que narra sua trajetória da pobreza à vida de professor universitário (desde 1980, leciona economia na Universidade George Manson, na Virgínia). Com 1,98 metro de altura, voz de barítono, bom humor, ele demonstra muita coragem nesta entrevista.

Quem lê sua autobiografia fica com a impressão de que ser negro nos Estados Unidos das décadas de 40 e 50 era melhor do que ser negro hoje.
Claro que os negros estão muito melhor agora, mas não em todos os aspectos. Hoje, se os negros americanos fossem uma nação à parte, seriam a 15ª mais rica do mundo. Entre os negros americanos, há gente riquíssima, como a apresentadora Oprah Winfrey. Há famosíssimos como o ator Bill Cosby, que, como eu, vem de Filadélfia. Colin Powell, um negro, comandou o Exército mais poderoso do mundo. O presidente dos Estados Unidos é negro. Tudo isso era inimaginável em 1865, quando a escravidão foi abolida. Em um século e meio, fizemos um progresso imenso, ao contrário do que aconteceu no Brasil ou no Caribe, onde também houve escravidão negra. Isso diz muito sobre os negros americanos e sobre os Estados Unidos.

Em que aspectos a vida dos negros hoje é pior?
Cresci na periferia pobre de Filadélfia entre os anos 40 e 50. Morávamos num conjunto habitacional popular sem grades nas janelas e dormíamos sossegados sem barulho de tiros nas ruas. Sempre tive emprego, desde os 10 anos de idade. Engraxei sapatos, carreguei tacos no clube de golfe, trabalhei em restaurantes, entreguei correspondência nos feriados de Natal. As crianças negras de hoje que vivem na periferia de Filadélfia não têm essas oportunidades de emprego. No meu próximo livro, Raça e Economia, que sai no fim deste mês, mostro que em 1948 o desemprego entre adolescentes negros era de 9,4%. Entre os brancos, 10,4%. Os negros eram mais ativos no mercado de trabalho. Hoje, nos bairros pobres de negros, por causa da criminalidade, boa parte das lojas e dos mercados fechou as portas. Outra mudança dramática é a queda na qualidade da educação oferecida às crianças negras e pobres. Atualmente, nas escolas públicas de Washington, um negro com diploma do ensino médio tem o mesmo nível de proficiência em leitura e matemática que um branco na 7ª série. Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.

Para o professor Williams, as principais questões políticas, sociais e econômicas atuais deveriam ser analisadas e corrigidas levando-se em consideração que tudo é “uma questão de se respeitar a propriedade privada”. Para ele o livre mercado é o melhor instrumento regulador para qualquer tipo de relação, seja humana ou mercantil.
“Quanto menos intervenção do Estado – em qualquer área – melhor”, defende ele.

O estado de bem-estar social, com toda a variedade de benefícios sociais criados nas últimas décadas, não ajuda a aliviar a situação de pobreza dos negros de hoje?
Todos os economistas, sejam eles libertários, conservadores ou liberais, concordam que sempre cai a oferta do que é taxado e aumenta a oferta do que é subsidiado. Há anos, os Estados Unidos subsidiam a desintegração familiar. Quando uma adolescente pobre fica grávida, ela ganha direito a se inscrever em programas habitacionais para morar de graça, recebe vale-alimentação, vale-transporte e uma série de outros benefícios. Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Muitas eram mandadas para o Sul, para viver com parentes. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que nos anos da minha adolescência entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%. O salário mínimo, que as pessoas consideram uma conquista para os mais desprotegidos, é uma tragédia para os pobres. Deve-se ao salário mínimo o fim de empregos úteis para os pobres. A obrigação de pagar um salário mínimo ao frentista no posto de gasolina levou à automação e ao self-service. O lanterninha do cinema deixou de existir não porque adoramos tropeçar no escuro do cinema. É por causa do salário mínimo. Na África do Sul do apartheid, os grandes defensores do salário mínimo eram os sindicatos racistas de brancos, que não aceitavam filiação de negros. Eles não escondiam que o salário mínimo era o melhor instrumento para evitar a contratação de negros, que, sendo menos qualificados, estavam dispostos a trabalhar por menos. O salário mínimo criava uma reserva de mercado para brancos.

As ações afirmativas e as cotas raciais não ajudaram a promover os negros americanos?
A primeira vez que se usou a expressão “ação afirmativa” foi durante o governo de Richard Nixon (1969-1974). Os negros naquele tempo já tinham feito avanços tremendos. Um colega tem um estudo que mostra que o ritmo do progresso dos negros entre as décadas de 40 e 60 foi maior do que entre as décadas de 60 e 80. Não se pode atribuir o sucesso dos negros às ações afirmativas.

As ações afirmativas não funcionam?
Os negros não precisam delas. Dou um exemplo. Houve um tempo em que não existiam jogadores de basquete negros nos Estados Unidos. Hoje, sem cota racial nem ação afirmativa, 80% são negros. Por quê? Porque são excelentes jogadores. Se os negros tiverem a mesma habilidade em matemática ou ciência da computação, haverá uma invasão deles nessas áreas. Para isso, basta escola, boas escolas, grandes escolas. Há um aspecto em que as ações afirmativas são até prejudiciais. Thomas Sowell, colega economista, tem um estudo excelente sobre o assunto. Mostra como os negros se prejudicam com a política de cotas raciais criada pela disputada escola de engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das mais prestigiosas instituições acadêmicas dos Estados Unidos. Os negros recrutados pelo MIT estão entre os 5% melhores do país em matemática, mas mesmo assim precisam fazer cursos extras por alguns anos. Isso acontece porque os brancos do MIT estão no topo em matemática, o 1% dos melhores do país. Os negros, mesmo sendo muito bons, estão abaixo do nível de excelência do MIT. Mas eles podiam muito bem estudar em outras instituições respeitáveis, onde estariam na lista dos candidatos a reitor e sem necessidade de cursos especiais. Por causa de ações afirmativas, muitos negros estão hoje em posição acima de seu potencial acadêmico. Se você está aprendendo a lutar boxe e sua primeira luta é contra o Mike Tyson, você está liquidado. Você pode ter excelente potencial para ser boxeador, mas não dá para começar contra Tyson. As ações afirmativas, nesse sentido, são cruéis. Reforçam os piores estereótipos raciais e mentais.

O senhor já teve alguma experiência pessoal nesse sentido?
Quando eu dava aula na Universidade Temple, em Filadélfia, tive uma turma com uns trinta alunos, todos brancos, à exceção de um. Nas primeiras aulas, eles me fizeram uma bateria de perguntas complexas. Você pode achar que era paranoia minha, mas eu sei que o objetivo deles era testar minhas credenciais. A cada resposta certa que eu dava, eu podia ver o alívio no rosto do único aluno negro da classe. De onde vinha esse sentimento, esse temor do aluno negro de que seu professor, sendo negro, talvez não fosse suficientemente bom? Das ações afirmativas. Não entrei na universidade via cotas raciais. Por causa delas, a competência de muitos negros é vista com desconfiança.

Num país como o Brasil, onde os negros não avançaram tanto quanto nos Estados Unidos, as ações afirmativas não fazem sentido?
A melhor coisa que os brasileiros poderiam fazer é garantir educação de qualidade. Cotas raciais no Brasil, um país mais miscigenado que os Estados Unidos, são um despropósito. Além disso, forçam uma identificação racial que não faz parte da cultura brasileira. Forçar classificações raciais é um mau caminho. A Fundação Ford é a grande promotora de ações afirmativas por partir da premissa errada de que a realidade desfavorável aos negros é fruto da discriminação. Ninguém desconhece que houve discriminação pesada no passado e há ainda, embora tremendamente atenuada. Mas nem tudo é fruto de discriminação. O fato de que apenas 30% das crianças negras moram em casas com um pai e uma mãe é um problema, mas não resulta da discriminação. A diferença de desempenho acadêmico entre negros e brancos é dramática, mas não vem da discriminação. O baixo número de físicos, químicos ou estatísticos negros nos Estados Unidos não resulta da discriminação, mas da má formação acadêmica, que, por sua vez, também não é produto da discriminação racial.

Qual o meio mais eficaz para promover a igualdade racial?
Primeiro, não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei, mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa. A melhor forma de permitir que cada um de nós — negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês — atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação. Mas, para ter um livre mercado que mereça esse nome, é recomendável eliminar toda lei que discrimina ou proíbe discriminar.

O senhor é contra leis que proíbem a discriminação?
Sou um defensor radical da liberdade individual. A discriminação é indesejável nas instituições financiadas pelo dinheiro do contribuinte. A Universidade George Manson tem dinheiro público. Portanto, não pode discriminar. Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar. Acredito na liberdade de associação radical. As pessoas devem ser livres para se associar como quiserem.

Inclusive para reorganizar a Ku Klux Klan?
Sim, desde que não saiam matando e linchando pessoas, tudo bem. O verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à ideia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de ideias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que se associem em torno de ideais que julgamos repugnantes. O mesmo vale para a liberdade de expressão. É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas.

O senhor exige ser chamado de “afro-americano”?
Essa expressão é uma idiotice, a começar pelo fato de que nem todos os africanos são negros. Um egípcio nascido nos Estados Unidos é um “afro-americano”? A África é um continente, povoado por pessoas diferentes entre si. Os vários povos africanos estão tentando se matar uns aos outros há séculos. Nisso a África é idêntica à Europa, que também é um continente, também é povoada por povos distintos que também vêm tentanto se matar uns aos outros há séculos.

A presença de Obama na Casa Branca não ajuda os negros americanos?
Na autoestima, talvez. Mas não por muito tempo, o que é lamentável. Em 1947, quando Jackie Robinson se tornou o primeiro negro a jogar beisebol na liga profissional, ele tinha a obrigação de ser excepcional. Hoje, nenhum negro precisa ser tão bom quanto Robinson e não há perigo de que alguém diga “ah, esses negros não sabem jogar beisebol”. No caso de Obama, vale a mesma coisa. Por ser o primeiro negro, ele não pode ser um fracasso. O problema é que será. Aposto que seu governo, na melhor das hipóteses, será um desastre igual ao de Jimmy Carter. Vai ser ruim para os negros.

FONTE:
André Petry – Páginas Amarelas, Revista Veja, Edição 2207 – 9 de março de 2011