Zimmerman matou Martin, que matou o jornalismo

AUTOR: ALEXANDRE BORGES *

O choro do âncora da CNN Don Lemon ao comentar o discurso de Barack Obama sobre Treyvon Martin, ou o inacreditável Chris Matthews da MSNBC, pedindo desculpas “em nome da raça branca” pelo veredito que inocentou o hispânico George Zimmerman, foram os últimos e mais constrangedores capítulos da morte da presunção de inocência do jornalismo americano. E isso é uma boa notícia.

No último discurso de Obama comentando a absolvição de Zimmerman, o ex-ativista que tinha prometido unir o país e ser um presidente de uma sociedade “pós-racial”, disse que Trayvon poderia inclusive ser ele mesmo há 35 anos, o que deve ter feito o reverendo Martin Luther King Jr., que sonhava com uma nação que não julgasse pela cor, dar um salto triplo carpado no túmulo. Quando o presidente dos EUA tem um discurso mais próximo de Louis Farrakhan, Al Sharpton e Jesse Jackson do que de Martin Luther King em questões raciais, corra para as colinas.

Desde o dia em que ganhou as manchetes, Zimmerman foi usado como personagem involuntário de uma narrativa sórdida e totalmente fabricada pelo oportunismo político do presidente e do jornalismo militante, que viu no caso uma chance de empurrar uma agenda política e mudar o assunto da crise econômica do país em ano de eleição, mesmo que isso significasse transformar Zimmerman num novo Salman Rushdie, entregando a vida de um inocente para o abate.

A cobertura jornalística do caso nos EUA, bovinamente copiada por aqui, foi definida pelo analista Bill Whittle como “a mistura de fraude criminosa com negligência criminosa”. Segundo ele, “a avassaladora soma de evidências de que Zimmerman atirou em legítima defesa foi esquecida, já que a grande imprensa optou julgar e condenar o acusado em nome da criação de uma falsa narrativa de crime racial”. A reportagem da Folha de S. Paulo de 20/07/2013, assinada por Joana Cunha, diz que Zimmerman perseguiu Trayvon apenas pela sua aparência e que “o jovem de 17 anos estava desarmado, carregando apenas uma embalagem de balas e uma lata de chá.”

Antes que haja qualquer conclusão apressada, fica o registro: a justiça não disse que Zimmerman não matou Martin a sangue frio e com motivação racista, ela apenas se pronunciou dizendo que não há provas, testemunhos ou evidências suficientes para isso. O advogado de defesa Mark O’Mara, citando um dos dos pais fundadores, o ex-presidente John Adams, disse: “é mais importante [num sistema judicial] proteger os inocentes do que condenar os culpados, já que sempre haverá crimes e criminosos, mas quando o cidadão de bem achar que pode ser condenado mesmo não tendo cometido crimes e que tanto faz cumprir a lei ou não, tudo estará perdido.”

Contra a retórica política, vamos aos fatos, alguns deles apagados deliberadamente do noticiário:

  • Os tweets públicos de Trayvon Martin não eram de uma criança inocente, como retratado pelos jornais, mas de um adolescente brigão e usuário de drogas.
  • Martin era praticante de MMA e fã de lutas. Em seu perfil do twitter (@NO_LIMIT_NIGGA, que teve o conteúdo deletado após sua morte), disse uma vez querer vencer novamente um determinado oponente porque o derrotado não tinha “sangrado o suficiente”.
  • No armário de Martin na escola foram encontradas ferramentas para arrombamento como chaves-de-fenda e objetos possivelmente furtados em casas da região. Na sua mochila, jóias sem comprovação de origem.
  • Martin foi suspenso várias vezes da sala de aula por comportamento antissocial e violento. Num dos casos há relatos, ainda não confirmados, de que bateu num professor. No dia da sua morte, estava suspenso da escola por porte de drogas.
  • Com o corpo de Martin foram encontrados uma lata de Arizona Watermelon Fruit (e não de Ice Tea, como a imprensa insistiu) e Skittles, o que para os repórteres foi considerado prova de que era apenas uma criança inocente comprando guloseimas numa loja de conveniência. O que faltou reportar é que suco em lata e Skittles, misturados a um xarope contra tosse comum, criam uma droga barata e muito popular chamada “lean”.
  • Há tweets de Martin conversando com amigos sobre como fazer “lean” com, vejam que coincidência, Arizona Watermelon Fruit, xarope para tosse e Skittles.
  • A autópsia de Martin mostrou danos no fígado incompatíveis com um rapaz saudável de 17 anos, mas totalmente compatíveis com dependentes de “lean”. Foram encontrados vestígios de maconha no seu metabolismo também.
  • Segundo os especialistas, o uso de “lean” tem como efeito associado “comportamento excessivamente agressivo e paranoico”. Nada recomendável para um adolescente lutador de MMA, certo?

Já o “monstro branco assassino racista” George Zimmerman também teve sua cota de fatos apagados das reportagens:

  • Filho de uma peruana com um americano, foi criado lado a lado com duas outras crianças negras. A comunidade que vigiava era tudo menos um gueto de brancos, pelo contrário, era tão etnicamente diversa quanto possível.
  • Os vizinhos disseram à polícia que ele era amável, socializava com todos, e era o único que tinha o hábito de se apresentar aos novos moradores quando chegavam.
  • Quando um negro morador de rua foi agredido por um filho de policial da região, Zimmerman ficou tão revoltado que fez uma campanha pela prisão do rapaz, inclusive imprimindo folhetos e distribuindo entre os moradores, e não parou enquanto ele não foi processado pelo crime.
  • O FBI elaborou um parecer técnico do perfil de Zimmerman em que ele nunca deixou qualquer evidência de comportamento racista na vida.
  • De acordo com a simples análise das provas, Zimmerman não perseguiu Trayvon gratuitamente pela rua, como saiu na imprensa, nem que ele fugia assustado e foi morto covardemente. Trayvon (1,80m de altura, 17 anos e lutador) partiu para o confronto com Zimmerman (1,70m, 29 anos e obeso). Com seu treinamento de MMA, a briga seria nada menos que um massacre.
  • Zimmerman diz que gritou pedindo ajuda e foi encontrado muito machucado. Trayvon bateu muito em Zimmerman, além de ter jogado diversas vezes a cabeça de Zimmerman contra a calçada da rua, deixando cortes profundos e escoriações.
  • Os gritos chamaram a atenção de alguns moradores que abriram suas janelas a tempo de ver a briga, cena que poderia ser descrita como Trayvon por cima de Zimmerman caído no chão e apanhando no estilo “ground and pound”, aquele em que o lutador de MMA fica desferindo socos e cotoveladas no adversário caído, como aconteceu com Anderson Silva na sua última derrota. Some a isso o fato de Martin bater a cabeça de Zimmerman várias vezes na calçada e ter quebrado seu nariz.
  • Era tão claro que Zimmerman sofria risco de morrer espancado, e que atirou para se salvar, que a polícia se recusou a fichá-lo como assassino. Para os policiais que chegaram poucos minutos depois no local e que interrogaram Zimmerman e as testemunhas por horas e horas naquela noite, era evidentemente que se tratava de um caso de legítima defesa. A narrativa de assassinato frio com motivação racista só apareceu depois, quando a morte de Martin foi apropriada pelo oportunismo político em clima de vale tudo.

Não há a menor, a mais remota possibilidade, de que jornalistas experientes, em algumas das maiores empresas de comunicação do mundo, tenham deixado passar essas informações por mero descuido. Desde a escolha proposital de fotos de Martin criança e não as mais recentes, com feições incompatíveis com a narrativa, até os furiosos comentários dos analistas e apresentadores, é impossível alegar boa fé.

O que aparentemente aconteceu naquela noite, juntando o quebra-cabeça de fatos, versões, relatos e depoimentos:

  • George Zimmerman fazia a vigilância noturna da vizinhança, uma região perigosa e com um índice muito alto de arrombamentos e assaltos a casas.
  • Estava escuro, chovendo, e ele viu um sujeito não identificado sozinho, caminhando na rua e “checando” as casas.
  • Trayvon Martin estava na região visitando seu pai, divorciado da sua mãe desde que ele tinha 4 anos, por ter sido suspenso da escola por 10 dias. A suspensão foi motivada por terem encontrado drogas em sua mochila.
  • Zimmerman acha aquilo suspeito (quem não acharia?) e faz o certo, liga para a polícia e avisa o que está acontecendo. Diz na chamada que o possível assaltante parece drogado pela maneira como caminhava.
  • Ele tem uma conversa com a polícia ao telefone que em nada sugere um agressor sedento por matar, pelo contrário, ele vai relatando ao policial, numa ligação gravada, tudo que está acontecendo e o que ele pretende fazer. Isso soa como uma atitude de um justiceiro alucinado?
  • Zimmerman quer saber se o policial vai demorar a aparecer e recebe de volta o protocolar “está a caminho”. Depois, ainda dentro do carro, se assusta com Martin vindo na direção dele, e diz ao telefone que Martin está com a mão na cintura como se fosse sacar uma arma.
  • Ao ver Martin mudar de direção e correr, Zimmerman se irrita e diz para o atendente do 911: “esses babacas sempre conseguem fugir!”
  • Acreditando que o rapaz escaparia antes da chegada da polícia, vai atrás dele de carro. Zimmerman comunica à polícia que vai perseguir o suspeito e ouve “você não precisa fazer isso”. A própria acusação reconheceu que a instrução passada pela polícia foi ambígua, que ele deveria ter sido orientado claramente a não fazer isso.
  • Trayvon Martin está ao telefone com Rachel Jeantel, uma testemunha de acusação que, para muito, acabou virando um troféu para a defesa pelas contradições, atitude desrespeitosa e mentiras. Jenteal diz que aconselhou Martin a fugir, mas ele vê que Zimmerman sai do carro na direção dele e resolve então voltar e confrontar seu perseguidor. Jenteal diz que ouve Martin perguntar “por que você está me seguindo?” e ouve de volta “o que você está fazendo aqui?”
  • Começa a briga, Trayvon Martin espanca George Zimmerman. Na versão de Zimmerman, Martin grita “vou te matar” e tenta tirar a arma da sua cintura. Zimmerman, no chão, com Martin por cima, saca a arma primeiro e atira.

É razoável supor que Zimmerman achou que Martin era um ladrão de casas, drogado e pronto para cometer um crime. Chamou a polícia, que é o procedimento correto, e poderia ter parado por aí, mas resolveu ir atrás do suspeito, acreditando que escaparia antes da polícia aparecer. Trayvon notou que estava sendo perseguido e, em vez de ir embora, resolveu voltar e encarar o perseguidor. Duas decisões erradas que resultaram numa morte e num cadáver ambulante, marcado para morrer.

Se é para construir um perfil sobre Zimmerman, qual seria o retrato mais mais fiel, o do branco racista frio que matou uma pobre criança assustada ou do hispânico criado num ambiente multiétnico, participante ativo da comunidade, amigo dos vizinhos, que foi dragado para o centro de uma disputa política em que o que menos importava era a verdade?

Como disse o ex-senador Daniel Patrick Moynihan, “você tem direito a desenvolver uma opinião própria, não fatos próprios.” Ou, lembrando o temível Lavrentiy Beria, o mais conhecido e cruel genocida a serviço de Stálin, “escolha uma pessoa e eu invento um criminoso.” Zimmerman foi um criminoso inventado pela imprensa e absolvido pela justiça, mas não pelas ruas.

Quando um jornal escancara suas preferências político-partidárias, muitos se escandalizam, mas é preciso um dose cavalar de inocência para imaginar que elas não existem. Em vez de ficar em estado de negação, um mecanismo de defesa mental mapeado pela psicanálise, não é preferível exigir que os veículos abram de vez sua caixa preta ideológica e tenham uma relação mais honesta com o leitor? Qual veículo é mais transparente, um “The Telegraph” que se assume de direita e um “The Guardian” que se assume de esquerda, ou o The New York Times, o Washington Post, a CNN, ou a maioria dos veículos brasileiros, que fingem estar acima das ideologias?

George Zimmerman move um processo milionário contra a NBC pela edição delinquente que a emissora fez de seu telefonema para o 911, criando uma conversa racista que nunca houve. Na acusação, seus advogados disseram que a NBC fez “a mais velha forma de jornalismo marrom, que é manipular a fala de alguém para mudar o sentido do que disse”. E eles estão cobertos de razão, tanto que o cenário mais provável é que ganhe uma indenização milionária da emissora.

Zimmerman já teve seu julgamento no caso da morte de Trayvon, a despeito de toda a enorme pressão política e da imprensa. Agora é torcer para que tenha também a devida reparação causada pelo mau-caratismo militante e pela canalhice de políticos e ativistas, que mostram como uma falsa acusação de racismo é algo tão deplorável e danosa quanto o próprio racismo.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

Republicanos negros e o “Racismo”

Tradução livre que faço hoje da fala da comentarista politica, autora, ex-candidata Republicana de Mississípi ao Congresso e miss Washington DC 1994, Angela McGlowan.

Chega um momento na vida de cada jovem negro, por vezes, na faculdade, quando ele ou ela faz uma pergunta silenciosa, mas poderosa: Por que todos nós votamos para um partido que é contra quase tudo o que é essencial para a nossa fé?

A fé que se reflete nos poderosos hinos negros que nos sustentaram contra a escravidão, as Jim Crow Laws, e durante o movimento dos direitos civis? Devemos acreditar que ela não é mais relevante hoje em dia? Por que somos tão leais aos mais hostis a nossa fé?

É uma pergunta que muitos negros se fazem silenciosamente. Eu sei que eu fiz. É uma questão que pretende esclarecer de onde isso tudo veio. Bem, você entende, deve haver algo que eu ainda tenho que aprender. Deve haver algo que eu não sei e que explica por que votamos contra os nossos valores. Mas não há nada que explique isso. Há medo. Há sanção social. Há a condenação ao ostracismo. E é isso.

Intelectuais e raça – o estrago incorrigível

Por Thomas Sowell. Versão em português publicada originalmente no site do Instituto Ludwig von Mises.

Thomas Sowell, um dos mais influentes economistas americanos, é membro sênior da Hoover Institution da Universidade de Stanford.
Há tantas falácias ditas sobre raça, que é difícil escolher qual é a mais ridícula. No entanto, uma falácia que costuma se sobressair é aquela que afirma haver algo de errado com o fato de que as diferentes raças são representadas de forma numericamente desproporcional em várias instituições, carreiras ou em diferentes níveis de renda e de feitos empreendedoriais.

Cem anos atrás, o fato de pessoas de diferentes antecedentes raciais apresentarem taxas de sucesso extremamente discrepantes em termos de cultura, educação, realizações econômicas e empreendedoriais era visto como prova de que algumas raças eram geneticamente superiores a outras.

Algumas raças eram consideradas tão geneticamente inferiores, que a eugenia foi proposta como forma de reduzir sua reprodução. O antropólogo Francis Galton chegou a exortar “a gradual extinção de uma raça inferior”.

E as pessoas que diziam essas coisas não eram meros lunáticos extremistas. Muitos deles eram Ph.D.s oriundos de várias universidades de ponta, lecionavam nas principais universidades do mundo e eram internacionalmente reputados.

Reitores da Universidade de Stanford e do MIT estavam entre os vários acadêmicos defensores de teorias sobre inferioridade racial — as quais eram aplicadas majoritariamente aos povos do Leste Europeu e do sul da Europa, uma vez que, à época, era dado como certo o fato de que os negros eram inferiores.

E este não era um assunto que dividia esquerda e direita. Os principais proponentes de teorias sobre superioridade e inferioridade genética eram figuras icônicas da esquerda, de ambos os lados do Atlântico.

John Maynard Keynes ajudou a criar a Sociedade Eugênica de Cambridge. Intelectuais adeptos do socialismo fabiano, como H.G. Wells e George Bernard Shaw, estavam entre os vários esquerdistas defensores da eugenia.

Foi praticamente a mesma história nos EUA. O presidente democrata Woodrow Wilson, como vários outros progressistas da época, eram sólidos defensores de noções de superioridade e inferioridade racial. Ele exibiu o filme O Nascimento de uma Nação, que glorificava a Ku Klux Klan, na Casa Branca, e convidou vários dignitários para a sessão.

Tais visões dominaram as primeiras duas décadas do século XX.

Agora, avancemos para as últimas décadas do século XX. A esquerda política desta era já havia se movido para o lado oposto do espectro das questões raciais. No entanto, ela também considerava que as diferenças de sucesso entre grupos étnicos e raciais era algo atípico, e clamava por uma explicação única, vasta e arrebatadora.

Desta feita, em vez de os genes serem a razão predominante para as diferenças nos êxitos pessoais, o racismo se tornou o motivo que explicava tudo. Mas o dogmatismo continuava o mesmo. Aqueles que ousassem discordar, ou até mesmo questionar o dogma predominante em ambas as eras, era tachado de “sentimentalista” no início do século XX e de “racista” na era multicultural.

Tanto os progressistas do início do século XX quanto os novos progressistas do final do século XX partiram da mesma falsa premissa — a saber, que há algo de estranho quando diferentes grupos raciais e étnicos alcançam diferentes níveis de realizações.

No entanto, o fato é que minorais raciais e étnicas sempre foram as proprietárias — ou gerentes — de mais da metade de todas as principais indústrias de vários países. Dentre estas minorias bem-sucedidas, temos os chineses na Malásia, os libaneses na África Ocidental, os gregos no Império Otomano, os bretões na Argentina, os indianos em Fiji, os judeus na Polônia, os espanhóis no Chile — entre vários outros.

Não apenas diferentes grupos raciais e étnicos, como também nações e civilizações inteiras apresentaram níveis de realizações extremamente distintos ao longo dos séculos. A China do século XV era muito mais avançada do que qualquer país europeu. Com o tempo, no entanto, os europeus ultrapassaram os chineses — e não há nenhuma evidência de ter havido alterações nos genes de nenhuma destas civilizações.

Dentre os vários motivos para estes diferentes níveis de realizações está algo tão simples quanto a idade.  A média de idade na Alemanha e no Japão é de mais de 40 anos, ao passo que a média de idade no Afeganistão e no Iêmen é de menos de 20 anos. Mesmo que as pessoas destes quatro países tivessem absolutamente o mesmo potencial intelectual, o mesmo histórico, a mesma cultura — e os países apresentassem rigorosamente as mesmas características geográficas —, o fato de que as pessoas de determinados países possuem 20 anos a mais de experiência do que as pessoas de outros países ainda seria o suficiente para fazer com que resultados econômicos e pessoais idênticos sejam virtualmente impossíveis.

Acrescente o fato de que diferentes raças se desenvolveram em diferentes arranjos geográficos, os quais apresentaram oportunidades e restrições extremamente diferenciadas ao seu desenvolvimento, e as conclusões serão as mesmas.

No entanto, a ideia de que diferentes níveis de realização são coisas atípicas — se não sinistras — tem sido repetida ad nauseam pelos mais diferenciados tipos de pessoas, desde o demagogo de esquina até as mais altas eminências do Supremo Tribunal.

Quando finalmente reconhecermos que as grandes diferenças de realizações entre as raças, nações e civilizações têm sido a regra, e não a exceção, ao longo de toda a história escrita, restará ao menos a esperança de que haja pensamentos mais racionais — e talvez até mesmo alguns esforços construtivos para ajudar todas as pessoas a progredirem.

Até mesmo um patriota britânico como Winston Churchill certa vez disse que “Devemos Londres a Roma” — um reconhecimento de que foram os conquistadores romanos que criaram a mais famosa cidade britânica, em uma época em que os antigos bretões eram incapazes de realizar esta façanha por conta própria.

Ninguém que conhecesse os iletrados e atrasados bretões daquela era poderia imaginar que algum dia os britânicos criariam um império vastamente maior do que o Império Romano — um império que abrangeria um quarto de toda a área terrestre do globo e um quarto dos seres humanos do planeta.

A história apresenta vários exemplos dramáticos de ascensão e queda de povos e nações, por uma variada gama de motivos conhecidos e desconhecidos. Mas há um fenômeno que não possui confirmação histórica, um fenômeno que, não obstante esta ausência de exemplos práticos, é hoje presumido como sendo a norma: igualdade de realizações grupais em um dado período do tempo.

As conquistas romanas tiveram repercussões históricas por séculos após a queda do Império Romano.  Um dos vários legados da civilização romana foi o alfabeto latino, o qual gerou versões escritas dos idiomas da Europa ocidental séculos antes de os idiomas do Leste Europeu serem transformados em letras. Esta foi uma das várias razões por que a Europa ocidental se tornou mais desenvolvida que a Europa Oriental em termos econômicos, educacionais e tecnológicos.

Enquanto isso, as façanhas de outras civilizações — tanto da China quanto do Oriente Médio — ocorreram muito antes das façanhas do Ocidente, embora a China e o Oriente Médio posteriormente viessem a perder suas vantagens.

Há tantas reviravoltas documentadas ao longo da história, que é impossível acreditar que um único fator sobrepujante seja capaz de explicar tudo, ou quase tudo, do que já aconteceu ou do que está acontecendo. O que realmente se sabe é que raramente, para não dizer nunca, ocorreram façanhas iguais alcançadas por diferentes pessoas ao mesmo tempo.

No entanto, o que mais temos hoje são grupos de interesse e movimentos sociais apresentando estatísticas — que são solenemente repercutidas pela mídia — alegando que, dado que os números não são aproximadamente iguais para todos, isso seria uma prova de que alguém foi discriminatório com outro alguém.

Se os negros apresentam diferentes padrões ocupacionais ou diferentes padrões gerais em relação aos brancos, isso já basta para despertar grandes suspeitas entre os sociólogos — ainda que diferentes grupos de brancos sempre tenham apresentado diferentes padrões de realizações entre si.

Quando os soldados americanos da Primeira Guerra Mundial foram submetidos a exames mentais durante a Primeira Guerra Mundial, aqueles homens de ascendência alemã pontuaram mais alto do que aqueles de ascendência irlandesa, sendo que estes pontuaram mais alto do que aqueles que eram judeus.  Carl Brigham, o pioneiro do campo da psicometria, disse à época que os resultados dos exames mentais do exército tendiam a “desmentir a popular crença de que o judeu é altamente inteligente”.

Uma explicação alternativa é que a maioria dos imigrantes alemães se mudou para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes irlandeses, os quais por sua vez se mudaram para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes judeus. Alguns anos depois, Brigham viria a admitir que a maioria dos mais recentes imigrantes havia sido criada em lares onde o inglês não era a língua falada, e que suas conclusões anteriores, em suas próprias palavras, “não possuíam fundamentos”.

Nessa época, os judeus já estavam pontuando acima da média nacional dos exames mentais, e não abaixo.

Disparidades entre pessoas do mesmo grupo, em qualquer área que seja, não são obviamente uma realidade imutável. Mas uma igualdade geral de resultados raramente já foi testemunhada em qualquer período da história — seja em termos de habilidades laborais ou em termos de taxas de alcoolismo ou em termos de quaisquer outras diferenças — entre aqueles vários grupos que hoje são ajuntados e classificados como “brancos”.

Sendo assim, por que então as diferenças estatísticas entre negros e brancos produzem afirmações tão dogmáticas — e geram tantas ações judiciais e trabalhistas por discriminação — sendo que a própria história mostra que sempre foi comum que diferentes grupos seguissem diferenciados padrões ocupacionais ou de comportamento?

Um dos motivos é que ações judiciais não necessitam de nada mais do que diferenças estatísticas para produzir vereditos, ou acordos fora de tribunais, no valor de vultosas somas monetárias. E o motivo de isso ocorrer é porque várias pessoas aceitam a infundada presunção de que há algo de estranho e sinistro quando diferentes pessoas apresentam diferentes graus de êxito pessoal.

O desejo de intelectuais de criar alguma grande teoria que seja capaz de explicar padrões complexos por meio de algum simples e solitário fator produziu várias ideias que não resistem a nenhum escrutínio, mas que não obstante têm aceitação generalizada — e, algumas vezes, consequências catastróficas — em vários países ao redor do mundo.

A teoria do determinismo genético, que predominou no início do século XX, levou a várias consequências desastrosas, desde a segregação racial até o Holocausto. A teoria atualmente predominante é a de que algum tipo de maldade explica as diferenças nos níveis de realizações entre os vários grupos étnicos e raciais. Se os resultados letais desta teoria hoje em voga gerariam tantas mortes quanto no Holocausto é uma pergunta cuja resposta requereria um detalhado estudo sobre a história de rompantes letais contra determinados grupos odiados por causa de seu sucesso.

Estes rompantes letais incluem a homicida violência em massa contra os judeus na Europa, os chineses no sudeste asiático, os armênios no Império Otomano, e os Ibos na Nigéria, entre outros.  Exemplos de chacinas em massa baseadas em classes sociais e voltadas contra pessoas bem-sucedidas vão desde os extermínios estalinistas dos kulaks na União Soviética até a limpeza promovida por Pol Pot de pelo menos um quarto da população do Camboja pelo crime de serem pessoas cultas e de classe média, crime este que era evidenciado por sinais tão tênues quanto o uso de óculos.

Minorias que se sobressaíram e se tornaram mais bem-sucedidas do que a população geral são aquelas cujo progresso provavelmente em nada está ligado ao fato de terem ou não discriminado as maiorias politicamente dominantes. No entanto, foram exatamente estas minorias que atraíram as mais violentas perseguições ao longo dos séculos e dos países ao redor do mundo.

Todos os negros que foram linchados durante toda a história dos EUA não chegam ao mesmo número de homicídios cometidos em apenas um ano contra os judeus na Europa, contra os armênios no Império Otomano ou contra os chineses no sudeste asiático.

Há algo inerente aos sucessos de determinados grupos que inflama as massas em épocas e lugares tão distintos. O que seria? Esse fenômeno inflama não apenas as massas, como também leva a genocídios cometidos por governos, como os da Alemanha nazista ou o regime de Pol Pot no Camboja. Podemos apenas especular as razões, mas não há como fugir desta realidade.

Aqueles grupos que ficam para trás frequentemente culpam seu atraso nas malfeitorias cometidas por aqueles grupos mais bem-sucedidos. Dado que a santidade não é comum a nenhum ramo da raça humana, é óbvio que nunca haverá escassez de pecados a serem mencionados, inclusive a arrogância e a insolência daqueles que calham de estar no topo em um determinado momento. Mas a real pergunta a ser feita é se esses pecados — reais ou imaginários — são de fato o motivo destes diferentes níveis de êxitos pessoais.

O problema é que os intelectuais — pessoas de quem normalmente esperaríamos análises racionais que se contrapusessem à histeria das massas — frequentemente sempre estiveram na vanguarda daqueles movimentos que promovem a inveja e o ressentimento contra os bem-sucedidos. Tal comportamento é especialmente perceptível naquelas pessoas que possuem diplomas mas que não possuem nenhuma habilidade economicamente significativa que lhes permita obter aquele tipo de recompensa que elas esperavam ou julgavam ter o direito de auferir.

Tais pessoas sempre se destacaram como líderes e seguidoras de grupos que promoveram políticas anti-semitas na Europa entre as duas guerras mundiais, o tribalismo na África, e as mudanças sociais no Sri Lanka, um país que, outrora famoso por sua harmonia intergrupal, se rebaixou, por influência de intelectuais, à violência étnica e depois se degenerou em uma guerra civil que durou décadas e produziu indescritíveis atrocidades.

Intelectuais sempre estiveram por trás da inflamação de um grupo contra outros, promovendo a discriminação e a violência física em países tão díspares quanto Índia, Hungria, Nigéria, Tchecoslováquia e Canadá.

Tanto a teoria do determinismo genético como sendo a causa dos diferentes níveis de realizações pessoais quanto a teoria da discriminação como o motivo destas diferenças, ambas contraditórias e criadas por intelectuais, geraram apenas polarizações raciais e étnicas. O mesmo pode ser dito da ideia de que uma dessas teorias tem de ser a verdadeira.

Essa falsa dicotomia de que uma delas tem de ser a verdadeira deixa aos grupos mais bem-sucedidos duas opções: ou eles se assumem arrogantes ou se assumem culpados criminalmente. Da mesma forma, deixa aos grupos menos exitosos a opção entre acreditar que sempre foram inerentemente inferiores durante toda a história ou que são vítimas da inescrupulosa maldade de terceiros.

Quando inumeráveis fatores fazem com que a igualdade de resultados seja virtualmente impossível, reduzir estes fatores a uma questão de genes ou de maldade é a fórmula perfeita para se gerar uma desnecessária e perigosa polarização, cujas consequências frequentemente são escritas em sangue ao longo das páginas da história.

Dentre as várias e ignaras ideias a respeito de grupos raciais e étnicos que polarizaram as sociedades durante séculos e ao redor de todo o mundo, poucas foram mais irracionais e contraproducentes do que os atuais dogmas do multiculturalismo.

Aqueles intelectuais que imaginam que, ao utilizar uma retórica multicultural que redefine e até mesmo revoga o conceito de atraso, estarão ajudando grupos raciais e étnicos que ficaram para trás estão, na realidade, levando estas pessoas para um beco sem saída.

O multiculturalismo é um tentador paliativo aplicado àqueles grupos que ficaram para trás porque ele simplesmente afirma que todas as culturas são iguais, ou “igualmente válidas”, em algum sentido vago e sublime. De acordo com este dogma, as características culturais de todas as etnias e raças seriam apenas diferentes — nem melhores nem piores.

No entanto, tomar emprestadas características particulares de outras culturas — como os algarismos arábicos que substituíram os algarismos romanos, mesmo nas culturas ocidentais oriundas de Roma — implica que algumas características não são simplesmente diferentes, mas sim melhores, inclusive os números utilizados. Algumas das mais avançadas culturas de toda a história pegaram emprestados comportamentos e características de outras culturas; e isso pelo simples fato de que até hoje nenhuma coleção única de seres humanos foi capaz de criar as melhores respostas para todas as questões da vida.

Todavia, dado que os multiculturalistas veem todas as culturas como sendo iguais ou “igualmente válidas”, eles não veem nenhuma justificativa para as escolas insistirem, por exemplo, que as crianças negras aprendam seu idioma materno. Em vez disso, cada grupo é estimulado a se apegar ferreamente à sua própria cultura e a se orgulhar de suas próprias glórias passadas, reais ou imaginárias.

Em outras palavras, membros de grupos minoritários que são atrasados educacionalmente e economicamente devem continuar se comportando no futuro como sempre se comportaram no passado — e, se eles não conseguirem os mesmos resultados dos outros, então a culpa é da sociedade. Essa é a mensagem principal do multiculturalismo.

George Orwell certa vez disse que algumas ideias são tão insensatas, que somente um intelectual poderia acreditar nelas. O multiculturalismo é uma dessas ideias. A intelligentsia sempre irrompe em indignação e ultrajes a qualquer “diferença” ou “disparidade” de resultados educacionais, econômicos ou outros — e denuncia qualquer explicação cultural para esta diferença de resultados como sendo uma odiosa tentativa de “culpar a vítima”.

Não há dúvidas de que algumas raças ou até mesmo nações inteiras foram vitimadas por terceiros, assim como não há dúvida de que câncer pode causar morte. Porém, isso é muito diferente de dizer que as mortes podem automaticamente ser imputadas ao câncer. Você pode pensar que intelectuais seriam capazes de fazer essa distinção. Mas muitos não são.

Ainda assim, intelectuais se veem a si próprios como amigos, aliados e defensores das minorias raciais, ao mesmo tempo em que empurram as minorias para a estagnação cultural. Isso permite à intelligentsia se congratular e se lisonjear de que estão ao lado dos anjos contra as forças do mal que estão conspirando para manter as minorias oprimidas.

Por que pessoas com altos níveis de capacidade mental e de talentos retóricos se entregam a este tipo de raciocínio deturpado é um mistério. Talvez seja porque elas não conseguem abrir mão de uma visão social que é extremamente lisonjeira para eles próprios, não obstante quão deletéria tal visão possa ser para as pessoas a quem elas alegam estar ajudando.

O multiculturalismo, assim como o sistema de castas, encurrala e amarra as pessoas naquele mesmo segmento cultural e social no qual elas nasceram. A diferença é que o sistema de castas ao menos não alega beneficiar aqueles que estão na extremidade inferior.

O multiculturalismo não serve apenas aos interesses ególatras dos intelectuais; ele serve também aos interesses de políticos que têm todos os incentivos para promover uma sensação de vitimização — e até mesmo de paranóia — entre grupos de cujos votos eles precisam em troca de apoio material e psicológico.

A visão multicultural do mundo também serve aos interesses daqueles que estão na mídia e que prosperam ao explorar os melodramas morais. O mesmo pode ser dito de todos os departamentos universitários voltados para estudos étnicos e sociais, bem como de toda a indústria de assistentes sociais, de especialistas em “diversidades” e da ampla gama de vigaristas que prosperam ao fazer proselitismo racial.

Os maiores perdedores de toda essa história são aqueles membros das minorias raciais que se permitem ser conduzidos para esse beco sem saída do ressentimento e da raiva, mesmo quando há várias outras avenidas de oportunidades disponíveis. E todos nós perdemos quando a sociedade fica polarizada.


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