Dia da Reunificação

Ontem, dia 3 de outubro, foi uma data muito especial para os alemães. Há aproximadamente 22 anos deixava de existir a Alemanha Oriental (socialista) para que a Alemanha fosse novamente reunificada. A reunificação (em alemão, Wiedervereinigung) é lembrada por pessoas ao redor do mundo pela icônica imagem da queda do Muro de Berlim.

Um povo dividido

Por cerca de 50 anos, o povo alemão ficou separado em duas “Alemanhas”: a Ocidental (República Federal da Alemanha – Bundesrepublik Deutschland, BDR) e a Oriental (República Democrática Alemã – Deutsche Demokratische Republik, DDR). A separação não implicava somente a divisão do país (e de sua antiga capital, Berlim), mas de famílias e comunidades inteiras. Berlinenses que antes se visitavam passaram a ser tratados como cidadãos de países distintos praticamente em estado de guerra.

O lado ocidental, uma republica federativa parlamentar, passou pelas mãos de cinco presidentes: Heuss, Lübke, Heinemann, Scheel, Carstens e Weizsäcker, o último continuando a presidência da Alemanha novamente unificada. Dos cinco presidentes, dois foram membros do partido liberal Freie Demokratische Partei (FDP), dois do democrata-cristão Christlich Demokratische Union (CDU) e um do social democrata Sozialdemokratische Partei Deutschlands (SPD). Nela, um período de baixa inflação e rápido crescimento industrial foi desenvolvido pelo governo do chanceler Konrad Adenauer e seu ministro da economia Ludwig Erhard, levando a Alemanha Ocidental da devastação total do tempo da Segunda Guerra ao patamar de uma das nações mais desenvolvidas da Europa. Foi nesta época que ocorreu o milagre econômico alemão (Wirtschaftswunder).

Socialismo: memórias amargas

O lado oriental, infelizmente, era quase um estado fantoche da então existente União Soviética e entrou para a História como uma continuação dos horrores totalitários que os alemães só haviam sentido então sob o regime nacional-socialista de Hitler. Não bastasse a escassez e o racionamento[1], boa parte dos alemães orientais era empregada pelo Estado para agir como espiões nos dois países, espionando amigos e colegas, delatando-os e vendendo informações para a Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental.[2][3]

A Stasi prendia pessoas por motivos banais, como tentar sair do país ou contar piadas políticas. Após meados de 50, suas execuções eram feitas em segredo, geralmente empregando uma gilhotina e, em anos posteriores, um tiro de pistola. Na maioria dos casos, os parentes do executados não eram informados sobre a sentença ou a execução.[4] A Stasi também é conhecida pelas técnicas de tortura psicológica que desenvolveu: a Zersetung, como era chamada, consistia em causar danos colaterais à vida pessoal, profissional e social de uma pessoa sem envolvimento aparente do serviço secreto. Hoje considerada uma organização criminosa, muitos membros da Stasi foram condenados por seus crimes na década de 90, apesar de terem tentado destruir os arquivos que os incriminavam. Estima-se que as autoridades do governo socialista tenham sido responsáveis por 1.393 assassinatos no período entre 1961 e 1989.[5]

A ASTAK (Anti-Stalinist Action Normannenstraße), uma associação fundada por comitês de cidadãos da antiga Alemanha Oriental, transformou a antiga sede da Stasi em um museu, que é dividido em três andares. O térreo foi mantido com a decoração original, suas estátuas e bandeiras. Os andares seguintes exibem a tecnologia de espionagem e os símbolos da Stasi, ferramentas (como câmeras ocultas e uma AK-47 escondida na bagagem).

O termo “Stasi 2.0” é usado hoje na Alemanha para se referir a toda tentativa do governo de vigiar ou censurar os cidadãos na internet ou na mídia em geral. Arquivos sobre as vítimas do regime socialista podem ser acessados no site da Stasiopfer [6].

Reunificação

Com o colapso da União Soviética, e consequentemente seus estados-satélite, a Alemanha Oriental tendia a um idêntico colapso político e econômico. A decisão da data da unificação foi feita em 22 de agosto pelo ministro-presidente da Alemanha Oriental, de Maiziere, numa sessão especial no Congresso que iniciou-se às 9 horas da manhã. Após um acalorado debate o presidente do Congresso (Volkskammer) anunciou os resultados às 2:30 da manhã de 23 de agosto:

A Volkskammer decide pela adesão da GDR à Constituição da República Federal da Alemanha de acordo com o Artigo 23 das Leis Básicas em efeito a partir de 3 de outubro, 1990. O tópico de Nº 201 recebeu 363 votos. Não houveram votos inválidos. 294 deputados votaram ‘sim’, 62 deputados votaram ‘não’, e 7 pessoas se abstiveram do voto. Este é um evento histórico. Senhoras e Senhores, acredito que não tenhamos feito uma decisão fácil, mas hoje agimos dentro de nossas responsabilidades no que diz respeito aos direitos eleitorais dos cidadãos da GDR. Agradeço a todos que este resultado tenha se tornado possível pelo consenso entre os partidos.

O Dia da Unidade Alemã (Tag der Deutschen Einheit) é um feriado nacional na Alemanha celebrado em 3 de outubro.[7] Comemora a Reunificação de 1990, embora também seja comemorado alternativamente no dia da Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro.

Para os alemães, a Reunificação representou muito mais do que um rearranjo de fronteiras. Significou o reencontro com amigos e parentes, ou com a verdade por trás de seu desaparecimento; significou poder ir para a escola ou para o trabalho sem temer a perseguição e a violência da Stasi; significou não ter mais a sua privacidade violada por espiões e informantes, não ter mais sua vida pessoal arruinada pelo pesadelo da Zersetsung. Significou e significa a reconquista da liberdade e do respeito à vida e à dignidade humana. Sem dúvidas, são motivos de sobra para comemorar o presente, preparar o futuro, e nunca esquecer o passado.


NOTAS:

[1] http://www.osaarchivum.org/files/holdings/300/8/3/text/24-5-79.shtml
[2] http://www.spiegel.de/international/germany/shocking-new-research-stasi-had-thousands-of-spies-in-west-germany-a-799335.html
[3] http://www.spiegel.de/international/germany/bild-799335-286696.html
[4] Koehler, John. Stasi: The Untold Story Of The East German Secret Police.
[5] http://www.thelocal.de/national/20100811-29105.html
[6] http://www.stasiopfer.de/
[
7] https://www.tag-der-deutschen-einheit.de/

Rousseau e o fim do capitalismo

Artigo original de José Guillermo Godoy, publicado em espanhol no seu site: www.joseguillermogodoy.com. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPara ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

Assim que acabou a Segunda Guerra Mundial, salvo insignificantes grupos anacrônicos, ninguém mais queria ser de direita, parecia que a direita havia desaparecido do espectro político.

A partir dos 80, se produziu a tendência inversa, desde então se falou da obsolescência da esquerda, da morte do socialismo, do fim das revoluções, das utopias das ideologias, e alguns foram mais além e proclamaram o fim da história. Quase 15 anos depois parece ressurgir o processo inverso.

Os conceitos políticos, que em si não são entidades metafísicas definitivas e eternas e se modificam de acordo com a época e as circunstâncias, também recebem adeptos de grupos que influenciam determinando a opinião pública, de acordo com estas mesmas circunstâncias. Isto é conhecido como “espírito do tempo”, do qual são protagonistas principais os orgulhosos, e sempre na moda, intelectuais franceses.

O danadinho Rousseau, trollando o establishment acadêmico desde  1750.

Rousseau, igual aos intelectuais franceses do século XX – que, no dizer de Sebreli, durante longos anos e contra toda as evidências confundiram Stalin com Marx e ao sentido da história com o destino do estalinismo e que, em lugar de responsabilizar-se pelo erro cometido, lhes resultou menos prejudicial ao narcisismo considerar que não eram eles mas a própria história que havia se equivocado, ou melhor ainda, que não havia sentido algum na história, ou, por fim, que não havia história nenhuma – foi um autor com grades dotes intelectuais e originalidade, cujo desejo por fama, mais que suas convicções plasmadas em escrito, marcaram uma época.

Assim como cada época elege outra no passado para fazer dela uma fonte de modelos, os novos prognosticadores do fim do capitalismo podem ser originais em tudo, menos no quesito de prognosticadores e no conteúdo de seu prognóstico.

Assim as grandes vedetes da esquerda – artistas, escritores, jornalistas, professores, cientistas – que foram usados e se aproveitaram também do sistema estalinista e que subsistiram durante a chamada década “neo-liberal” disfarçadas na roupagem de seus adversários, a esquerda democrática, e aferradas ao último bastião que é Cuba, esse museuzinho folclórico onde se exibem os restos arqueológicos de uma civilização desaparecida, voltaram para ficar.

Assim o porta-voz do Partido Trabalhista Britânico (Labour Party) disse que “A atual desordem financeira é uma crise do capitalismo”. “Um sistema financeiro não regulado é um desastre”, adiciona Sheila Rowbotham, professora de história da Universidade de Manchester. Um candidato esquerdista à prefeitura de Londres adicionou: “o Capitalismo teve sua oportunidade e falhou; agora é a vez do socialismo”. A isto se soma o amigo Ahmadinejad: “É o fim do capitalismo”.

No Irã o capitalismo está acabando. Aproveite a liquidação!

Ziegler, o autor de Os Novos Senhores do Mundo, comparou a crise internacional com a queda do muro de Berlim. Santiago Niño Becerra e Lucinio González, catedráticos da Faculdade de Economia do Instituto Químico de Sarriá (IQS), prognosticam o fim do capitalismo com alguns dados estatísticos, e assim a totalidade de intelectuais e políticos progressistas, pseudoprogressistas, castristas, pós-modernistas, setentistas, chavistas, pós-estruturalistas.

Há que desconfiar da originalidade absoluta. Ninguém pensa no vazio: todo pensamento é expressão de seu tempo e nenhum homem pode jamais escapar totalmente de sua época. As idéias contra a corrente formam por sua vez parte de outras correntes, só que estas permanecem subterrâneas, ocultas ou dispersas, mas estão destinadas a aparecer, a fazer-se notar no momento em que a situação mature.

O núcleo da discussão encontra-se na vigência sem medidas do mercado. A causa da crise, segundo se afirma, é o egoísmo humano, a ganância desenfreada. Por isto temos que regular o mercado, limitar a livre ação humana. No fundo desta postura subjaz a tese que sustenta que o homem é mau, e por isto temos que controlá-lo, regular sua ação. Os ideólogos da nova ordem se dedicam a advertir sobre o perigo que representam as pessoas atuando por si e para si e como é bom que tudo esteja controlado e coordenado por mentes brilhantes.

A melhor defesa da liberdade deveria ser o apoio de Rousseau, este velho autor francês tão mal visto pela má direita, em grande parte culpável pela crise, e especialmente pelos liberais de ar condicionado, em seus dois ramos, o marketeiro/austríaco e o correligionário, que em sua maioria, como diz José Benegas, está estudando os alcances do direito de propriedade na distribuição de pipoca nos cinemas de bairro.

Tanto a má direita como os liberais de ar condicionado, antes de criticar Rousseau, deveriam reler seus textos, ou em todo caso começar a lê-los, pois este autor não só deu um grande suporte às idéias de liberdade como na situação atual parte de sua tese pode ser a melhor defesa do capitalismo.

O problema parte da própria complexidade do pensamento de Rousseau. Sempre há um Rousseau para refutar a outro Rousseau, ou pelo menos assim parece. A incoerência deste escritor, no dizer de Richard Pipes, que à primeira vista é evidente, se explica, a meu entender, com um pouco de história marcada na própria personalidade do autor e, por que não?, na natureza de grande parte da intelectualidade francesa, sempre disposta a ser original para melhor vender.

A discussão surge da leitura de dois trabalhos que Rousseau realizou motivado pelo concurso convocado pela academia de Dijon, em 1750. Apesar do que comenta em suas Confissões, que se inteirou do convite da academia por um jornal abandonado que encontrou em uma de suas frequentes caminhadas pelos arredores de Paris, o certo é que Rousseau, num começo, travou amizade com os iluministas, e foi convidado a contribuir com artigos de música à Enciclopédia de D’Alembert e Diderot; este último o impulsionou a apresentar-se em 1750 ao concurso convocado pela Academia de Dijon.

De acordo com as pautas do concurso, os temas a tratar eram a modernidade – iluminismo, e a propriedade. Então Rousseau consultou a Diderot sobre qual deveria ser sua postura para ser levado em conta no concurso. Diderot responderá que todos os trabalhos que se apresentem dirão que a modernidade e a propriedade são pedras fundamentais do progresso e contribuiem à felicidade da humanidade. De maneira que o original seria apresentar a postura contrária, e assim se fez. Seu primeiro discurso Sobre as Ciências e as Artes (1750), em aberto contraste com as idéias sobre o progresso dominantes no Iluminismo francês, se converte no Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da desigualdade dos Homens (1754) em uma crítica das estruturas sociais e políticas através de um exame mais próximo às conjecturas antropológicas que ao rigor histórico do estado primogênito do homem natural e das causas que criaram a sociedade e a desigualdade.

Ambos os discursos foram premiados pela academia, e deram notória popularidade a Rousseau precisamente porque defendiam uma tese contrária às idéias da época. Era original e muito conveniente aos franceses. Esta foi a intenção de Rousseau, ao defender uma tese que nem ele acreditava.

A postura pró-iluminismo e propriedade aparece evidenciada não só no seu Discurso sobre Economia Política, mas em numerosos artigos posteriores publicados na enciclopédia. Este, creio eu, é o verdadeiro pensamento de Rousseau, e não o conteúdo dos dois discursos onde defende uma tese para ganhar um concurso.

Mas paradoxalmente, e ainda que soe contraditório, nos próprios trabalhos apresentados à academia de Dijon, Rousseau esboça uma tese que é fundamental para a formação do pensamento liberal: “o homem é naturalmente bom”. O liberalismo não estaria disposto a outorgar ao indivíduo o máximo de liberdade se este fosse naturalmente malvado.

Na atualidade, a postura contrária afirma que a crise foi causada por dar maior liberdade ao homem. Para esta postura, o homem é evidentemente mau. Isto pode ser contrariado, demonstrando que a idéia de que a crise é causada pela maior liberdade de ação do homem é, no mínimo, duvidosa. Ainda que isto seja um tanto complicado já que no nosso século, e desde tempos atrás, ao que parece os inimigos do liberalismo descobriram que a melhor maneira de atacá-lo era usando seu nome. Apesar disto o Liberalismo não morreu, porque expressa anseios perenes de justiça e liberdade. Por que muitos dos problemas que planteará de suas origens não foram resolvidos e dificilmente o sejam nos limites do estatismo. Por que é uma ética, uma teoria hipotética e esta é útil para que os homens não se afundem em desconcerto, trivialidade e indiferença. O fracasso de uma teoria na prática, nem sempre se converte, como o pretende Leszek Rolakowski, em um argumento contra suas próprias premissas, e menos ainda contra princípios que durante longo tempo tiveram tanto êxito. Do mesmo modo que uma idéia falsa como o nazismo pôde ter um êxito momentâneo, o fracasso aparente do liberalismo pode ser provisório. Às teorias e aos princípios, como nos romances policiais de Raymond Chandler, jamais se deve dizer adeus.