Capitalismo e Cristianismo

por Olavo de Carvalho. Artigo publicado originalmente na revista República – edição de dezembro de 1998 – e reproduzido no site do autor. Para ler o artigo original, clique aqui.

Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a “concentração do capital” eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.

Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a “finalidades sociais” externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto. Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou “o Reino de Deus na Terra”. Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da “ascese mundana” (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, “filha dileta da Igreja”, marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o “capitalismo selvagem” floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão… dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o “pacto de Metz”, em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, “a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano”, o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.

Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo, mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.


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A eterna revolução

por G. K. Chesterton. Cap. VII de Ortodoxia, tradução de Gustavo Corção.


Ora, é aqui que se situa o colapso ou a imensa estupidificação de nossa época. Misturamos duas coisas diferentes, duas coisas opostas. O progresso deveria significar a constante mudança que impomos ao mundo para afeiçoá-lo a uma definida visão: na verdade significa (hoje) uma constante mudança de visão. O progresso deveria significar o lento mas seguro aumento de justiça e piedade que trazemos aos homens: significa a mobilidade com que passamos a duvidar de que a piedade e a justiça sejam desejáveis. Uma página desvairada de algum sofista prussiano leva os homens a tais dúvidas. O progresso deveria significar nossa constante marcha em direção à Nova Jerusalém: na verdade significa que a Nova Jerusalém está sempre se afastando de nós. Não modificamos o real para adaptá-lo ao ideal; modificamos o ideal — é mais fácil.

Os exemplos meio doidos são às vezes os mais elucidativos. Imaginemos um homem que aspirasse a uma peculiar espécie de mundo: digamos um mundo azul. Ele não teria razão de se preocupar com a lentidão maior ou menor da tarefa. Poderia extenuar-se (sob todos os pontos-de-vista) até conseguir que tudo se tornasse azul. Viveria momentos heróicos ao dar os últimos retoques num tigre azul: teria sonhos feéricos como o de um luar azul. Mas se trabalhasse com firme determinação, nosso inspirado reformador legaria (sob seu ponto-de-vista) um mundo melhor, isto é, um mundo mais azul do que encontrara. Se em cada dia de trabalho trouxesse à sua cor favorita algumas folhas de grama, ele avançaria lentamente. mas se em cada dia modificasse sua cor favorita, então jamais avançaria. Sim, se depois de ler o último filósofo ele se pusesse a pintar tudo de vermelho ou de amarelo, seu trabalho seria perdido: só lhe restaria para mostrar aos pósteros alguns tigres azuis, errantes nas selvas, espécimes comprometedores de uma superada moda.

Esta é, exatamente, a posição do pensador moderno. Hão de dizer que dei um exemplo manifestamente absurdo, mas é isto, literalmente, o que os fatos da história recente nos mostram. As grandes e graves mudanças ocorridas em nossa civilização política pertenceram todas ao começo e não ao fim do século XIX, isto é, pertenceram à época do preto e do branco, em que os homens creram firmemente no Torismo, no Protestantismo, no Calvinismo e muitas vezes na Revolução.  E qualquer que fosse a crença, cada um se apegava à sua sem ceticismos. Houve uma época em que a Igreja oficial poderia cair, e em que a Câmara dos Lordes também quase tombou, porque os Radicais tiveram sabedoria bastante para serem constantes e consistentes, ou melhor, porque os Radicais tiveram a sabedoria de serem Conservadores. Na atmosfera  de nossos dias o Radicalismo não tem passado e tradição para ser capaz de derrubar qualquer coisa. Há boa parte de verdade na sugestão de Lord Hugh Cecil (feita num belo discurso) de que passou a era da mudança e estamos numa era de conservação e repouso. Mas Lord Hugh Cecil provavelmente ficaria muito penalizado (o que certamente acontece) se compreendesse que nossa época só é uma época de conservação por ser uma época de completa descrença. Se quisermos que as instituições permaneçam imutáveis façamos que as crenças se enfraqueçam rapidamente. Quanto mais se transtorna e se confunde a vida do espírito mais fica entregue a si mesmo o mecanismo da matéria. O resultado líquido de todas as nossas novidades políticas — Coletivismo, Tolstoísmo, Neo-feudalismo, Comunismo, Anarquia, Burocracia Científica — o melhor fruto de tudo isto está na consolidação da Monarquia e da Casa dos Lordes. O resultado líquido de todas as novas religiões está aí: a Igreja Anglicana continua oficial, sabe Deus até quando. Foi Carlos Marx, foram Nietzsche, Tolstói, Cunningham, Bernard Shaw e Auberon Herbert que uniram seus gigantescos ombros encurvados para sustentar o trono do Arcebispo da Cantuária.

Nós podemos dizer com plena convicção que o livre-pensamento é a melhor de todas as proteções contra a liberdade. Confeccionada no estilo da moda, a emancipação do espírito do escravo é o melhor preventivo da emancipação do escravo. Ensinem-no a se atormentar com a idéia de querer ser livre, e verão que ele não se libertará. Poderá o leitor dizer que ainda este exemplo é remoto ou exagerado, mas nem por isso é menos exatamente verdadeiro para todos os que cruzam conosco pelas ruas. É verdade que o escravo negro, sendo um bárbaro desenraizado, terá provavelmente ou uma inclinação humana para a fidelidade ou uma inclinação humana para a liberdade. Mas o homem que vemos todos os dias — o trabalhador da fábrica do Sr. Gradgrind, ou o pequeno funcionário nos escritórios do Sr. Gradgrind — esse está mentalmente fatigado demais para crer na liberdade. A literatura revolucionária o traz de rédeas curtas. Ele é amansado, e mantido em seu lugar por uma constante sucessão de desvairadas filosofias. É marxista num dia, Nietzscheano no outro dia, super-homem (provavelmente) no dia seguinte, e escravo todos os dias. A única coisa que sobrevive a todas as filosofias é a fábrica. O único beneficiário de todas aquelas filosofias é o Sr. Gradgrind, que terá todo o interesse em manter na sua casa comercial núcleos sempre abastecidos de literatura cética. E por falar nisto lembremos que o Sr. Gradgrind é famoso por seus donativos para bibliotecas. Ele prova seu descortino: sabe instintivamente que todos os livros modernos lhe são favoráveis.

Enquanto a visão do céu mudar todos os dias a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal durará o bastante para ser realizado, ao menos em parte. O moderno jovem jamais mudará as estruturas que o cercam, porque ele mudará todos os dias o seu espírito.

Esta será então nossa primeira exigência a respeito do ideal que norteia o progresso: esse ideal deve ser fixado (ou não haverá progresso). Whistler tinha o costume de pintar vários esboços do seu modelo. Rasgava dez ou vinte retratos, mas isto para ele não tinha importância. Grave seria sua situação se ele erguesse os olhos vinte vezes, e em cada relance visse uma nova pessoa a posar placidamente para seu retrato. Por isso pouco importa, falando em termos relativos, o número de vezes em que a humanidade falhou na imitação de seu ideal, porque então todas essas falhas passadas serão frutuosas. O que importa, terrivelmente, é o número de vezes que a humanidade trocou por outro seu ideal, pois neste caso todos os velhos insucessos são infecundos.

Quando escrevia estas linhas, mais uma vez, como um homem que ouve o sino da Igreja dominar o tumulto da rua, senti que outra coisa entrava na discussão. E parecia-me dizer: “Meu ideal, ao menos, é fixo; porque foi fixado antes dos alicerces do mundo. Minha visão de perfeição certamente não pode ser mudada, porque seu nome é Éden. Posso mudar o lugar aonde quero ir, mas não posso alterar o lugar de onde vim. Para o ortodoxo haverá sempre um motivo de luta; porque no coração dos homens Deus foi colocado sob os pés de satã. No mundo do alto, um dia, o inferno rebelou-se contra o céu. Mas neste mundo o céu se rebela contra o inferno. Para o ortodoxo sempre haverá uma revolução, porque uma revolução é uma restauração. Em cada instante você pode marcar um ponto para a perfeição como jamais se viu homem fazer desde Adão. Nenhum invariável costume ou nenhuma evolução poderá fazer do bem original algo que não seja bom. Os homens poderão ter concubinas há mais tempo do que as vacas têm chifres: ainda assim elas não fazer parte de seu ser se constituem ocasião de pecado. Os homens viveram sob opressão pouco menos tempo do que vivem os peixes sob as águas; ainda assim isto não deveria permanecer, se a opressão é pecaminosa. A cadeia pode parecer tão natural para o escravo, ou o trottoir para a prostituta, como a pluma para o pássaro ou a toca para a raposa, e no entanto aquelas coisas não são naturais porque são pecados. Eu ergo minha lenda pré-histórica em desafio a toda a vossa história. Vossa visão não é apenas uma coisa estável: “ela é um fato”.

Detive-me a anotar a nova coincidência do cristianismo, e passei adiante, à necessidade seguinte de qualquer ideal de progresso. Algumas pessoas (como já notei) parecem acreditar num progresso automático e impessoal que seria inerente à natureza das coisas. Mas é óbvio que nenhuma atividade política pode ser encorajada por quem disser que o progresso é inevitável: esta idéia não nos daria nenhuma razão para o trabalho, ao contrário, nos dá uma razão para a preguiça. Se somos compelidos a melhorar tudo, não precisamos ter o mínimo zelo de perfeição. A pura doutrina do progresso é, de todas as razões, a melhor para não sermos progressistas. Mas não é sobre nenhum desses óbvios comentários que desejo chamar a primeira e principal atenção do leitor.

O ponto em que me detenho é o seguinte: se supomos que o aperfeiçoamento das coisas é natural, então esse aperfeiçoamento deve ser muito simples. Pode-se conceber o mundo trabalhando para uma determinada e simples consumação, mas não para um arranjo particular de numerosas qualidades. Voltemos àquele ideal de um progresso para o azul, e imaginemos a Natureza a se tornar dia a dia mais azul, por um processo tão simples que possa ser impessoal. Mas a Natureza não poderá fazer um quadro cuidadosamente composto de várias cores, a menos que a Natureza seja pessoal. Se o fim ao qual tende o universo é o das trevas absolutas ou o da luz sem penumbras, ele poderá advir tão lentamente ou tão inevitavelmente como a aurora ou o crepúsculo. Se porém o fim visado é o de um elaborado e artístico claro-escuro, então deve existir atrás dele uma idéia, humana ou divina. O mundo, pela simples ação do tempo, pode enegrecer como um velho quadro, ou branquear como uma roupa velha; mas se ele se torna uma elaborada composição artística de preto e branco, então atrás dele há um artista.

Se a distinção não é evidente, darei um exemplo ordinário. Constantemente nos falam os modernos humanitários de uma crença particularmente cósmica; emprego o termo humanitário no sentido comum que designa o homem que apóia as reivindicações de todas as criaturas contra as da humanidade. O termo sugere que, através das idades, nós nos tornamos cada vez mais humanos, ou melhor, sugere que um depois do outro, grupos ou categorias de seres, escravos, crianças, mulheres, vacas, ou o que mais queiram, têm sido gradualmente admitidos como objetos de piedade e justiça. Eles pensam que em tempos idos era julgado justo que um homem comesse o outro (o que não é verdade), mas não me ocupo aqui dessa história que é altamente anti-histórica. A antropofagia é um fato que exprime decadência e não primitivismo. É muito mais verossímil que os homens modernos venham a comer carne humana por afetação do que tenham os antigos comido por ignorância. Estou aqui apenas acompanhando os contornos de seus argumentos, que consistem em afirmar que os homens têm sido progressivamente mais carinhosos, primeiro com os cidadãos, depois com os escravos, depois com os animais e agora, presumivelmente, com as plantas. Eu agora acho que não devo assentar-me em cima de um homem; amanhã pensarei que não é bom assentar-me sobre um cavalo; e, ao que suponho, num futuro próximo terei escrúpulo de sentar-me numa cadeira. Este é o fio condutor do argumento. Desse argumento é possível dizer que ele pode ser expresso em termos de evolução ou inevitável progresso. Uma perpétua tendência de tocar cada vez menos nas coisas pode ser uma simples e inconsciente tendência animal, como a das espécies que produzem cada vez menos filhos.  Esse deslize pode ser realmente evolucionário, porque é estúpido. O darwinismo pode ser empregado para escorar duas éticas loucas, mas não pode servir de apoio a uma só moral sadia. O companheirismo ou a competição dos seres vivos podem-nos levar a uma desvairada crueldade, ou a um desvairado sentimentalismo, mas não podem nos incutir um sadio amor pelos animais. Com pressupostos evolucionistas você pode ser desumano, ou absurdamente humano, mas você não consegue ser humano. Se você e o tigre estão no mesmo nível, você terá razões para ser meigo com o tigre, ou terá motivos para ser feroz com o tigre. Não é fácil obter do tigre que ele o imite; mais expedito será você imitar o tigre. Em caso algum a evolução lhe dirá como deve você tratar razoavelmente um tigre, isto é, como admirar sua pele listrada evitando suas garras.

Quer você tratar um tigre razoavelmente? então é preciso retroceder até o jardim do Éden, porque o obstinado momento persiste: somente o Sobrenatural tem uma sadia visão da natureza. A essência de todo o panteísmo, do evolucionismo e da religião cósmica moderna está nesta proposição: a Natureza é nossa mãe. Infelizmente para você, todas as vezes que olhar a Natureza como mãe, descobrirá que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo é precisamente este: a Natureza não é nossa mãe, a Natureza é nossa irmã. Nós podemos nos orgulhar de sua beleza porque temos o mesmo pai, mas não podemos aceitar sua autoridade sobre nós. Devemos admirá-la, mas não imitá-la. E é isto que dá, ao típico prazer cristão nesta terra, um toque de estranha leveza que é quase uma frivolidade. A natureza era uma mãe solene para os adoradores de Isis e de Cybele. Foi mãe majestosa para Wordsworth e Emerson. Mas a Natureza não é solene nem majestosa para São Francisco de Assis ou para Jorge Herbert. Para São Francisco, a Natureza era irmã, e até irmãzinha: uma pobre pequena irmã dançarina de que se ria, e que amava.

Isto entretanto não é o nosso ponto principal, apenas tocamos nessas coisas para mostrar com que constância, apesar de serem acidentais, a mesma chave abre as mais pequenas portas. Nosso objetivo principal é o de mostrar que, admitida alguma tendência de aperfeiçoamento impessoal na Natureza, essa tendência só poderá visar a um simples triunfo. Alguém poderia imaginar alguma tendência automática da biologia a trabalhar para nos dotar de narizes cada vez maiores. Mas a questão é saber se nós precisamos possuir narizes cada vez maiores. Penso que não, e creio que todos nós diríamos aos seus respectivos narizes: “Tu irás até aqui, e não deverás ir mais longe, porque é aqui que deve se deter o teu orgulho”. Nós queremos um nariz de tal comprimento que dê ao rosto um aspecto condigno; mas nós não podemos imaginar uma tendência biológica a produzir faces condignas, porque essa face só é interessante por seu particular arranjo de olhos, nariz e boca, numa relação muito complexa entre esses elementos. A proporção não pode ser um deslize: resultará de um acidente ou de um designo. E o mesmo diríamos da moral humana e de sua relação com os humanitários e anti-humanitários. Pode-se conceber que cada vez menos nossas mãos toquem as coisas, até para guiar um cavalo ou colher uma flor. Seríamos eventualmente compelidos a não perturbar o espírito de um homem com a menor das objeções, e a não perturbar o sono dos pássaros com um simples pigarro. A suprema apoteose seria representada por um homem sentado e imóvel, sem ousar um gesto que incomodasse alguma mosca, e sem comer para não incomodar os micróbios. Inconscientemente poderíamos ser levados a um programa tão rudimentar? Do mesmo modo, e também inconscientemente, podemos evoluir no sentido oposto, ou na linha do desenvolvimento nietzscheano: um super-homem esmagando o super-homem anterior numa pirâmide de tiranos até que o universo inteiro seja por eles despedaçado por brincadeira. Mas é o caso de perguntar: queremos nós que o universo se despedace por brincadeira? Não nos parece claro que nossa esperança real seja feita de um arranjo e composição de duas coisas, uma certa dose de constrangimento e respeito, e uma certa dose de energia e autoridade? Se nossa vida deve ser um dia tão bela como um conto de fadas, devemos lembrar que toda a beleza do conto de fadas reside nesta condição: o príncipe tem uma admiração que se detém no exato ponto em que se tornaria medo. Se ele tiver medo do gigante será um homem acabado; mas também, se ele não tiver admiração diante do gigante anulada estará a possibilidade do conto de fadas. Tudo depende de ser ele, ao mesmo tempo, bastante humilde para poder admirar-se, e bastante altivo para aceitar o desafio. Assim também deve ser a nossa atitude diante do gigante que é o mundo: não deve ser uma progressiva delicadeza, nem um progressivo desprezo; antes deve compor-se de uma especial e justa proporção das duas coisas. Devemos sentir pelas coisas exteriores bastante respeito para nos compelir a pisar timidamente a grama de um jardim; mas também devemos ter o desdém suficiente para nos permitir, no momento certo, cuspir na direção das estrelas. Essas duas coisas, entretanto, (se queremos ser bons e felizes) devem andar combinadas, não em uma qualquer proporção mas numa proporção muito especial. A perfeita felicidade dos homens na terra (se algum dia existir) não será uma coisa chata e sólida, como a satisfação animal. Será um exato e perigoso equilíbrio como o de um romance desesperado. O homem deve ter bastante confiança em si para aceitar aventuras, e deve duvidar de si o bastante para alegrar-se nas aventuras.

Eis aqui, então, nosso segundo requisito para o ideal de progresso. Primeiro, ele deve ser fixado; segundo, ele deve ser composto. Se se trata de cumular as almas, não deve ser a simples vitória de uma coisa que engole tudo, amor ou orgulho, paz ou aventura; antes deve ser como um quadro definido e composto desses vários elementos nas melhores proporções. No momento não cuido de saber se tão excelente culminação esteja, pela ordem das coisas, ao alcance do homem. Quero apenas observar que esse ideal composto, fixado para nós, só pode existir e ser mantido por um espírito, porque somente um espírito poderá estabelecer as proporções exatas de uma perfeição composta. Se a beatificação do mundo é um mero trabalho natural, será então tão simples como a congelação do mundo, ou seu incêndio total. Mas se a beatificação do mundo não é obra de natureza, e sim obra de arte, então implica um artista. E aqui, mais uma vez, minha contemplação foi interrompida pela antiga voz que clama: “Eu poderia vos ter dito isto há muito tempo. Se algum progresso verdadeiro existe, só pode ser da espécie do meu: o progresso em direção à cidade perfeita, à cidade das virtudes e das dominações onde a justiça e a paz podem enfim se beijar. Uma força impessoal só vos levará a uma desolação de perfeita platitude, ou a um pico de perfeita altitude, mas somente um Deus pessoal poderá vos guiar (se na verdade estais sendo guiados) a uma cidade com ruas justas e proporções arquiteturais, uma cidade em que cada um de vós pode trazer a exata contribuição de uma cor predileta para a capa multicor de José”.

Pela segunda vez trouxe o Cristianismo a exata resposta ao que eu pedia. Eu tinha dito: “o ideal deve ser fixado”; e a Igreja respondeu: “assim é o meu, literalmente fixado e pré-existente a todas as coisas”. Disse eu então: “deve também ser artisticamente combinado, como uma pintura”; e então a Igreja respondeu-me: “Assim é o meu, qual uma pintura, e eu conheço quem a pintou”.

Passei então ao terceiro ponto, isto é, à terceira coisa exigida, a meu ver, por uma utopia ou por um objetivo de progresso. E esta é, das três a mais difícil de exprimir. Talvez possa dizer assim: nós precisamos de vigilância, mesmo na utopia, para não cairmos dela como caímos do Éden. Já observamos atrás que uma das razões oferecidas para ingresso no progressismo é a suposta tendência natural das coisas para o melhor. Mas a única razão real para ser progressista é, ao contrário, a tendência natural das coisas para o pior. A corrupção nas coisas é não somente o melhor argumento para ser progressista, como também é o único argumento contra a idéia de ser conservador. A teoria conservadora seria perfeita, absoluta e incontestável, sem esse simples fato. Todo o conservantismo é baseado na suposição de que as coisas permanecem o que são se as deixarmos entregues a si mesmas. Ora, você sabe a cada instante que não deve deixar as coisas como estão. Se deixa uma coisa sozinha, de fato a deixa exposta a uma torrente de mudanças. Se você deixa sozinho um poste pintado de branco, em breve espaço de tempo terá um poste enegrecido; e se faz questão que ele seja branco, então terá de pintá-lo de novo, ou melhor, terá de fazer, neste poste, uma revolução. Em suma, se você se apegou ao velho poste branco precisará ter sempre um novo poste branco. E isto que é verdade para coisas inanimadas, será também verdade, de um modo especial e terrível, para as coisas humanas. Uma vigilância quase desmedida e supernatural parece exigida a um simples cidadão em virtude da horrível rapidez com que envelhecem as instituições humanas.

No romance e no jornalismo é costume aludir aos homens que sofrem de velhas tiranias. Na verdade, porém, os homens sempre tiveram de suportar o peso das novas tiranias, de tiranias que vinte anos atrás eram liberdades públicas. A Inglaterra ficou louca de alegria quando teve a monarquia patriótica de Elizabeth, e depois (quase imediatamente depois) tornou-se louca de raiva quando caiu na armadilha da tirania de Carlos I. Também na França a monarquia tornou-se intolerável, não depois de ser tolerada mas depois de ser adorada. O filho de Luís o bem-amado foi Luís o guilhotinado. E assim também na Inglaterra, no século XIX, todos se entregaram a um industrial radical, tido por verdadeiro tribuno do povo, até o dia em que todos ouviram o socialista clamar que o dito industrial era um tirano que devorava o povo como quem come pão. E assim, mais uma vez, todos nós, até o derradeiro instante, pensamos que os jornais eram órgão da opinião pública. Recentemente alguns de nós perceberam, de repente, num sobressalto, que os jornais estão longe de ser o que pensavam. Por sua própria natureza são brinquedos de uns poucos ricos. Nós não temos a menor necessidade de nos rebelarmos contras as novidades. São os novos chefes, o capitalista ou o redator-chefe que realmente sustentam o mundo moderno. Não há perigo de que um rei moderno queira infringir a constituição; mais provavelmente ele a ignorará e governará ao seu abrigo sem tirar vantagem alguma de seu poder real. Mais provavelmente ele tirará vantagens de sua real impotência, e do fato de estar liberado da crítica e da publicidade. O rei é a mais privada das pessoas de nosso tempo. Ninguém terá de lutar contra um projeto de censura da imprensa. Não há necessidade disto porque a própria imprensa é censura.

Esta estonteante rapidez com que os sistemas populares se tornam opressores é o terceiro fato com o qual deverá a teoria perfeita se ajustar. Ela deve vigiar para que nenhum privilégio se torne um abuso, e para que nenhum direito exercido se transforme em injustiça. Neste ponto estou inteiramente com os revolucionários. Eles têm razão de sempre suspeitar das instituições humanas; eles têm toda a razão de não confiarem nos príncipes e nos demais filhos dos homens. O chefe escolhido como amigo do povo torna-se inimigo do povo; o jornal lançado para dizer a verdade existe agora para impedir que a verdade seja dita. Aqui, disse eu comigo mesmo, senti que afinal eu estava realmente ao lado dos revolucionários. E depois caí em mim e vi que estava mais uma vez ao lado dos ortodoxos.

O cristianismo mais uma vez falou e disse: “Eu sempre sustentei que os homens eram naturalmente retrógrados, que as virtudes humanas tendiam por sua natureza à ferrugem e ao mofo. Sempre disse que os seres humanos se tornam, por si sós, injustos, especialmente os felizes, e mais especialmente os orgulhosos e os prósperos. Esta eterna revolução ou esta suspeição sustentada por séculos e séculos, você (que é um vago moderno) a chama de doutrina do progresso. Se você fosse um filósofo, chama-la-ia, como o faço eu, doutrina do pecado original. Você pode chamá-la quantas vezes quiser, de marcha vanguardeira do cosmos; eu a chamo por seu nome — “A Queda”.

A Conquista do Brasil (Parte VI)

Demorou mas saiu a parte quatro desta série! Hoje vamos tratar de alguns aspectos dos conflitos que se desenvolveram ao longo da conquista do território por parte dos portugueses e luso-brasileiros.

I. Os campos de batalha
A guerra se desenvolve em diferentes tipos de terreno. Tradicionalmente, a guerra ocorre em terra e, com o desenvolvimento da marinha de guerra, na água. Com a invenção dos primeiros balões e aviões, a aeronáutica entra em cena. Em última instância, a guerra também pode ser eletrônica ou informática. Adaptando nossa análise para o contexto da América portuguesa, temos o seguinte:

Terra
Em terra, era de vital importância manter a segurança dos fortes, das vilas e suas roças, das feitorias e postos comerciais, do lado dos colonizadores. Para os nativos, era importante assegurar o território de caça, pesca e coleta, além da aldeia propriamente dita. Os índios tupinambás, por exemplo, entravam em conflito com os portugueses e tupiniquins sobretudo em novembro e agosto, períodos de coleta do abati (milho) e pesca do pirati (tainha). Ao menos uma vez no ano, os jê do interior avançavam para a costa em busca de caju, o que resultava nas guerras do caju. Territórios habitados por guarás, aves de plumas vermelhas usadas para a confecção de indumentárias, eram importantes para o comércio indígena bem como áreas de colheita do algodão.

Além de serem mais numerosos, os nativos viviam de extrativismo e por isso precisavam de áreas de coleta e caça. Disto resulta que a área a ser defendida pelos nativos era muito maior do que aquela de que dependiam os colonizadores: durante muito tempo, a ocupação européia do território brasileiro ficou restrita à costa e este espaço era suficiente para manter a população colonial.

Não haviam Estados formados no Brasil antes da colonização: os europeus e os nativos referiam-se a territórios usando nomes de montanhas, rios ou tribos identificáveis com a região. Exemplos de topônimos tupi-guarani são Araçatuba (terra dos araçás, um tipo de fruto), Iguaçu (rio grande), Guanabara (baía grande) e Ipiranga (rio vermelho). A terra dos mundurucus foi batizada, ao estilo europeu, de Mundurucânia. São facilmente identificáveis demarcações territoriais criadas pelos colonizadores, como as capitanias e sesmarias, as colônias francesas (França Antártica e França Equinocial) e a região de ocupação holandesa (Nova Holanda), bem como a região costeira do Brasil dominada pelos tupis e guaranis, denominada Pindorama.

Na terra, destaca-se um tipo de guerra: expedição de apresamento e guerra de vendeta, realizadas primeiramente entre os índios e depois pelos bandeirantes (em expedições punitivas), e o cerco às vilas fundadas por colonos.

Tropas terrestres
As forças portuguesas eram compostas de colonos armados com bestas (abandonadas em algum ponto entre a segunda metade do século XVI e o início do século XVII), arcabuzes e mosquetes, além da tradicional espada rapieira. Armas de haste como piques e lanças eram raras. Peças de artilharia eram empregadas na defesa de fortificações.

Não havia na época distinção bem marcada entre civis e militares, embora houvesse uma hierarquia, representada pelo capitão. Antes da criação de exércitos nacionais na Europa, o capitão era um nobre responsável pela propriedade, pagamento e comando de uma companhia de militares. O capitão da companhia colocava-a ao serviço do seu senhor feudal ou monarca, em troca de um pagamento.

A cavalaria organizada só viria a surgir com a organização do Regimento de Dragões Auxiliares em Pernambuco, após a guerra contra os holandeses.

Entre os nativos também não havia distinção entre civil e militar.  O armamento típico era o arco e a borduna. Mulheres auxiliavam na logística, como explicado anteriormente, mas há relatos de mulheres guerreiras também. Não haviam rankings militares, sendo a distinção entre os guerreiros feita mais pela glória pessoal do que por uma hierarquia oficial: os índios tupis que sacrificavam mais inimigos no ritual antropofágico adquiriam mais “nomes”, mais esposas e podiam usar mais adereços.

Atribui-se a chegada dos cavalos à região do Prata a dom Pedro de Mendoza, quando fundou pela primeira vez Buenos Aires em 1535, e a Alvar Nuñez Cabeza de Vaca quando trasladou cavalos do Peru para Asunción em 1541. A presença de manadas de cavalo vagando em liberdade na região é atribuída à queda de Buenos Aires, momento em que os cavalos teriam fugido. É difícil estabelecer quando os nativos passaram a usar o cavalo, mas temos um exemplo extremo que mostra o quão bem ele foi utilizado: na segunda metade do século XVIII, calcula-se que os guaicurus tinham cerca de 8 mil cavalos. Ficaram conhecidos como imponentes cavaleiros.

Água
Naturalmente, era importante também a soberania sobre os recursos hídricos, as rotas fluviais e as áreas costeiras. Isto valia tanto para colonizadores quanto para nativos, já que o transporte fluvial era essencial para o comércio de ambos, bem como as áreas de pesca e fontes naturais. No caso dos colonizadores portugueses, era de fundamental importância combater o tráfico realizado por outros europeus (ingleses e franceses) em terras brasileiras. Era comum o enfrentamento com corsários e piratas franceses, por exemplo.

O oceano
Para defender a costa, os colonizadores construíam fortes equipados com muralhas e canhões. Estes tinham por objetivo guardar os portos contra ataques de navios inimigos europeus. Para a defesa da costa, empregavam-se as embarcações à disposição, como o bergantim. Eram armadas com sete peças de artilharia (um falcão e seis berços), de acordo com a ordenança do “Alardo de 1525”. Até que ponto esta padronização era seguida no Brasil, não se sabe ao certo.

Os rios
Nos rios, a embarcação mais utilizada pelos colonizadores portugueses também era o bergantim, embarcação a remos leve, rápida, manobrável e pequena o suficiente para navegar nos principais cursos d’água. Foi muito empregada no combate à pirataria, justamente pela sua manobrabilidade e velocidade. Sua guarnição máxima era de 90 pessoas.

Da parte dos nativos, a única embarcação por eles conhecida era a canoa, que usavam para transporte, comércio e mobilização militar. Há relatos de canoas capazes de transportar até 60 pessoas. Podiam ser facilmente trazidas para a terra, o que aumentava em muito a mobilidade, e relata-se que a sua velocidade era imbatível para as pesadas embarcações europeias.

O uso de “frotas” de numerosas canoas para realizar assaltos às vilas e aldeias rivais era bastante comum. Em sua Carta sobre a fundação de Rio de Janeiro, o missionário José de Anchieta relata um assalto dos tamoios que compreendia mais de oitenta canoas.

Alma
Mais importante do que dominar uma porção de terra e suas hidrovias era manter a população nativa pacificada e aliada aos esforços colonizadores. Seria simplesmente impossível colonizar qualquer porção do continente americano sem estabelecer relações estáveis com os nativos. Um dos instrumentos mais importantes para o estabelecimento destas relações era a conversão dos nativos à fé dos colonizadores.

Católicos
Os primeiros missionários que vieram com Cabral eram franciscanos. Até 1549 os franciscanos foram os únicos missionários no Brasil. A Ordem Franciscana se estabeleceu definitivamente no Brasil somente em 1585.

Em 1549 chegaram à Bahia os seis primeiros Jesuítas, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Atendiam também fora da Bahia, nas Capitanias próximas.

Outros grupos católicos também enviaram missionários para o Brasil: em 1580 chegaram os Beneditinos e em 1584, os Carmelitas.

Protestantes
Os primeiros protestantes no Brasil foram os calvinistas franceses, que chegaram em uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon à Baía da Guanabara em 1555.

Villegaignon entrou em atrito com os calvinistas sobre questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. O pastor Chartier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada (Ilha de Villegaignon). A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os tupinambás, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Em 1630, quando os holandeses conquistam Pernambuco, o calvinismo tem sua vida estendida no Brasil (em 14 capitanias do nordeste) por mais 24 anos, pelo menos até o fim da ocupação em 1654. Com a chegada de Maurício de Nassau, implantam a estrutura religiosa calvinista. Até 1654 foram organizadas 24 igrejas e congregações. A experiência terminou com a derrota holandesa.

Nativos
Os pajés estavam relacionados com os movimentos intra e extratribais das populações nativas. Durante as numerosas migrações tupis-guaranis nos tempos pré-cabralinos, a religião garantiram a dispersão com homogeneidade cultural. Eram mediadores na solução dos problemas intra e extratribais, nos quais a cura das doenças era apenas um dos itens.

Entre os Guarani existiam os caraí, que eram bem mais que pajés. Viviam afastados das aldeias e isolados: não pertenciam a uma comunidade específica. Em certos momentos se dirigiam às aldeias para realizarem longos discursos. Transitavam por qualquer aldeia, inclusive as inimigas de seu grupo de origem. Em muitos casos, eram vistos como heróis reencarnados, homens-deuses ou profetas. Só eles seriam capazes de mobilizar um grupo a sair de suas comunidades, largar para trás suas roças, toda a vida social e partir em busca da “Terra sem Mal”. Por sua vida isolada, eram exteriores à aliança política e aos vínculos de parentesco, o que explica porque eram impedimento aos esforços colonizadores: eles ficavam alheios às alianças firmadas entre europeus e chefes militares indígenas, tanto quanto ficavam alheios ao ‘cunhadismo’.

No século XVI, a atividade dos Caraís ainda não era profética. Porém, muitas vezes sob sua liderança se organizou a resistência à colonização. Algumas das guerras contra os espanhóis foram provocadas e dirigidas por profetas: eles tentaram aproveitar a situação criada pela presença dos estrangeiros para garantir seu poder.

II. Alianças
Os índios reagiram de formas distintas à presença dos europeus, mantendo relações pacíficas como o comércio e a aliança militar e conflituosas como a guerra e a revolta. Para os nativos, índios de uma nação rival ou desconhecida eram tão estrangeiros quanto um português ou francês, e por isto é compreensível que tenham se aliado a europeus no combate a outros americanos.

O apoio indígena foi crucial para a vitória da colonização portuguesa. Com este apoio, contudo, as lideranças indígenas tinham seus próprios objetivos: lutar contra seus inimigos tradicionais, que também se aliavam aos inimigos dos portugueses por idênticas razões.

Alguns exemplos das alianças:

  • Temiminós liderados por Araribóia se aliaram aos portugueses na baía da Guanabara para derrotar os franceses, que por sua vez recebiam apoio dos Tamoios.
  • O chefe tupiniquim Tibiriçá, valioso para o avanço português na região de São Vicente e no planalto de Piratininga, combatia rivais tupis e os “tapuias” Guaianá, além de escravizar os Carijós para os portugueses.
  • O chefe potiguar Zorobabé, na Paraíba e Rio Grande do Norte, aliou-se aos franceses, em fins do século XVI, e aos portugueses, tendo sido recrutado para combater os aimorés na Bahia e até para reprimir os nascentes quilombos de escravos africanos.
  • O potiguar Felipe Camarão combateu os holandeses, os tapuias e os próprios potiguares (como Pedro Poti e Antônio Paraupaba), que ao contrário dele, passaram para o lado holandês.
  • Confederações intertribais, como a Confederação dos Tamoios e a Confederação dos Cariris.

Diversas lideranças pró-lusitanas receberam privilégios como sesmarias e títulos nobiliárquicos, criando-se no Brasil autênticas linhagens de chefes indígenas condecorados pela Coroa por sua lealdade a Portugal.

Alianças com invasores contra os colonizadores também ocorreram. Nações inteiras escolheram por se aliarem aos inimigos dos portugueses. Líderes como Antônio Paraupaba chegaram a residir nos Países Baixos para aprender a língua holandesa. O líder Abaupaba retornaria para os Baíses Baixos com os holandeses e lá ficaria até a morte, ainda atuando na política e buscando reestabelecer uma aliança Holanda-Potiguaras e quem sabe reconstruir o que fora perdido pelos holandeses no Brasil.

III. Tipos de guerra
Dependendo do território em disputa, dos objetivos e das nações envolvidas, distintos tipos de guerra podem ser travados. Podemos elencar os seguintes:

Corso – Corsários e piratas contratados por uma potência colonial assaltam cidades, engenhos e o comércio marítimo de outra potência colonial. Acontece no mar ou na costa.

Expedição– Expedições militares encomendadas pela Coroa para reconhecer e colonizar territórios (entradas) ou de caráter punitivo. Há também as financiadas por particulares para apresamento de índios e busca por bens comerciáveis (bandeiras). Foram bastante empregadas contra aldeamentos missionários e tribos hostis (“gentios bravos”). Ocorriam nas regiões sertanejas, e frequentemente envolviam o domínio das vias fluviais.

Guerra colonial – Disputa entre potências coloniais e seus aliados por territórios ainda não colonizados. Pode ou não envolver tropas nativas, e ocorre geralmente em zonas limítrofes de territórios coloniais.

Guerra indígena – Guerra entre um povo ou confederação de povos indígenas e colonizadores ou colonos. Pode ser uma guerrilha de resistência à colonização, uma revolta, um ataque à uma colônia.

Guerra internacional – Guerra entre duas potências estabelecidas e/ou suas colônias, com fins punitivos ou expansivos. Pode envolver tropas nativas, mas seu objetivo é retaliar a potência colonial inimiga ou tomar seus territórios.

Guerra de independência – Guerra de uma colônia, província ou território buscando emancipação do restante do corpo político (potência colonial, estado nacional, etc).

Guerra colonial indígena – Guerra entre povos indígenas apoiados por potências coloniais. Ocorre quando há um interesse militar comum entre uma nação americana e o colonizador europeu, em qualquer dos lados.

Guerra autóctone – Guerra entre povos indígenas, sem apoio de potências coloniais em qualquer dos lados. É a forma de guerra anterior à chegada dos europeus e que continuou ocorrendo em lugares onde a presença do colonizador não chegava.

O período a ser estudado vai de 1534 até a Independência do Brasil e a consequente fundação do Império, quando então está todo o território submetido à uma administração monárquica típica do mundo ocidental de sua época. O objetivo de restringir o escopo de estudo é excluir dele movimentos e guerras de cunho emancipatório das províncias como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, ou a Revolução Farroupilha. Estes, apesar de representarem alterações potenciais e significativas no território do Brasil, não representam um conflito entre “conquistadores” ou colonizadores, uma vez que estas áreas já estavam colonizadas e já compartilhavam de uma história comum com outros brasileiros ou lusos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

A inexistente Idade das Trevas

No ensaio “História do Humanismo e das Renascenças”, Otto Maria Carpeaux prova, por A mais B, que considerar a Idade Média como uma “Idade das Trevas” não passa de preconceito caipira. (T.S. Eliot chamaria isto de “provincianismo temporal”, coisa de quem se isola em seu próprio tempo e se torna cego para outras épocas.)

Leia trecho do referido ensaio:


O aspecto sentimental das ruínas romanas levou os humanistas a criarem o esquema tripartido da História Universal: Antiguidade, “séculos escuros” da Idade Média, Época Moderna, começando com o renascimento das letras clássicas pelos próprios humanistas. O êxito completo deste conceito historiográfico explica-se, em parte, pela admiração que já os eruditos medievais tinham à civilização romana: já o abade Servantus Lupus de Ferrières (+ 862) se congratula com o renascimento dos estudos latinos em sua época; o cluniacense Bernardus de Morlas, no seu poema didático De contemptu mundi (c. 1140), lamenta a falta de cultura do seu tempo, lembrando a civilização dos antigos romanos; entre muitos outros, Johannes de Garlandia (+ 1258) reconhece a superioridade intelectual dos pagãos da Antiguidade. Daí vai só um passo para o grito de júbilo do humanista: “O saeculum! o litterae! Iuvat vivere etsi quiescere nondum iuvat, Billlibalde, vigent studia, florent ingenia! Heu tu accipe laqueum barbaries, exilium prospice!” (Ulricus de Hutten, em carta a Willibald Pirkheimer, de 25 de outubro de 1518); essa consciência de ter saído enfim de um período de trevas decidiu o êxito do esquema tripartido da História Universal. Ao orgulho dos intelectuais juntaram-se outros motivos, de origem emocional: durante toda a “Idade Média”, a forte reação contra a corrupção moral do clero levou a comparações menos lisonjeiras com a pureza da Igreja primitiva e às esperanças heréticas de uma “renovatio“, de uma “Terceira Igreja”, puramente espiritual: assim aconteceu com os franciscanos espiritualistas e joaquimistas dos séculos XIII e XIV. Enquanto os humanistas, buscando sempre as “fontes”, estiveram interessados em questões religiosas, aprofundaram a comparação com a Igreja primitiva, de Poggio Bracciolini, no seu De miseria humanae conditionis, até Erasmo, com as suas edições do Novo Testamento e dos Padres da Igreja. A Reforma pensou ter vencido a “noite do Papado” (expressão de Lutero), e o esquema tripartido, com o seu duplo fundamento literário e religioso, sobreviveu ao humanismo e zelo reformador, gerando ainda no século XVIII a expressão “Dark Ages” (William Robertson), e dominando até hoje os manuais e a linguagem. Até no abismo absoluto que Oswald Spengler cavou entre a Antiguidade e a civilização moderna, reconhecem-se os vestígios da velha retórica.

A historiografia atual já não admite esse conceito; não existe cisão absoluta entre a Antiguidade e os séculos seguintes, e sim uma evolução contínua. Os historiadores dos séculos passados fixaram o “Fim da Antiguidade” em datas diferentes: em 375, pretenso começo das grandes migrações dos bárbaros, que, no entanto, haviam começado já muito antes; ou então em 476, ano do pretenso fim do Império Romano, que, no entanto, continuava no seu novo centro, Bizâncio. A análise imparcial dos fatos revela, ao contrário, uma solidificação das instituições e resíduos culturais da Antiguidade, no século VI. Com efeito, um cataclismo, uma catástrofe, nunca pode servir de data para o começo de uma nova era. A época pós-antiga do mundo cristão-ocidental começa com uma data de valor positivo: com a elaboração, no século VI, dos três grandes Códigos, nos quais a herança se cristalizou.

Tomás de Aquino, um dos grandes expoentes da escolástica e o sintetizador da filosofia aristotélica com o cristianismo.

O século VI é a época das grandes codificações. Até mesmo o judaísmo termina então o imenso trabalho da codificação das suas leis pós-mosaicas tradicionais: o Talmude. A igreja ocidental, possuindo já um texto latino autêntico da Bíblia, a Vulgata de São Jerônimo, começa a organizar um corpo de escritos autentificados dos chamados Padres da Igreja: em 496 (a data não é certa), o Papa Gelásio I promulga a Epistola decretalis de recipiendis libris, na qual autentifica os opuscula de Cipriano, Gregório Nazianzeno, Basílio, Hilário de Poitiers, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Próspero Aquitanense, constituindo assim o corpo patrístico que significa o aproveitamento da filosofia e da literatura greco-romanas a serviço da teologia cristã. Já por volta de 400, sob a influência de Ambrósio, conceitos cristãos tinham penetrado no direito romano (Collatio legum mosaicarum et romanarum); agora, o imperador Justiniano termina esse processo com a grande codificação que é principalmente obra do seu conselheiro jurídico Triboniano: o Corpus Jurisé de 529 e a segunda edição, que inclui as Instituiones e os Digesta seu Pandectae, de 534; o conjunto é a criação literária mais poderosa do espírito romano – é o fundamento institucional do humanismo europeu.

Essas codificações marcam uma data e, ao mesmo tempo, uma delimitação. Religião judaico-cristã, ciência grega, direito romano: eis a herança da Antiguidade, lançando os fundamentos da civilização ocidental. As regiões e nações que não receberam aquela herança ficaram excluídas da comunidade ocidental, entrando nela somente século depois e em circunstâncias bem diferentes. E todas as outras influências alheias, que o Ocidente recebeu mais tarde, já não se incorporaram bem na nossa civilização; tornaram-se influências “exóticas”. Nem os elementos de pintura chinesa que, trazidos pelos viajantes do século XIII, influíram em Giotto; nem as riquezas ornamentais da Índia que a arquitetura da época dos descobrimentos imitou; nem a abundância fantástica das Mil e uma Noites arábicas nem a pacífica sabedoria chinesa de que o Rococó gostava; nem o budismo que os pessimistas do século XIX apregoaram – nada disso entrou realmente em nossa civilização; continuou sempre “exotismo”. A sorte dos documentos literários do Ocidente entre nós confirma a distinção entre o “exotismo” greco-romano, que faz parte da nossa cultura, e o “exotismo” oriental, que ficou fora dela. Há certas obras da Antiguidade clássica que ninguém conseguiu traduzir bem para as línguas modernas, como as de Píndaro; contudo Píndaro é uma das maiores e mais persistentes influências nas nossas literaturas. Das literaturas orientais recebemos e conservamos definitivamente apenas algumas poucas obras, traduzidas (se é lícita a expressão) de maneira antes inexata, razão por que se tornaram obras nossas. Hafiz é, para nós, um nome; as traduções exatas apenas servem de ajuda de leitura ao especialista; mas o Westoestlicher Diwan, de Goethe, só ligeiramente inspirado no poeta persa, é uma das grande obras líricas da literatura ocidental. Omar Khajjam é, para nós, menos do que um nome; as traduções literais só constituem a delícia dos bibliófilos; mas a tradução libérrima de Edward Fitzgerald, quase obra independente, é obra “clássica” da língua inglesa. E que mais? As grande coleções orientais de fábulas e contos, das quais as literaturas medieval e renascentista se aproveitaram, forneceram apenas matéria-prima novelística. As traduções de Li Tai Po que d’Hervey-Saint-Denys e Hans Bethge popularizaram, na França e na Alemanha, são belas poesias neo-românticas, nas quais os sinólogos são incapazes de reconhecer os originais. O que não provém daquela herança antiga, continua inassimilável; e com isso o conceito “Literatura do Ocidente” está justificado.

(…)

Dante Alighieri, um renascentista medieval?

Renascença como marco decisivo da civilização ocidental: este conceito enquadra-se bem no esquema tripartido da História Universal, na qual deveria haver duas cesuras, a queda do Império Romano e a renascença de Atenas e Roma pelo esforço dos humanistas. Mas, que é a Renascença? O uso da expressão pelos historiadores foi inaugurado por Michelet e Burckhardt; o conceito, porém, é mais antigo. Os historiadores das artes plásticas no século XVIII tinham em consideração especial aqueles poucos artistas modernos – Leonardo, Miguel Ângelo, Rafael, Correggio, Ticiano – que pareciam dignos de participar das glórias da Antiguidade clássica. Os românticos gostavam de acrescentar o nome de Dürer, e até de alguns artistas posteriores, como Rubens, Van Dyck, e Claude Lorrain. São estes, mais ou menos, os nomes que definem o gosto artístico de Goethe. Segundo a opinião dos classicistas ortodoxos, a humanidade moderna é, em geral, incapaz de atingir o esplendor da arte antiga; contudo, a imitação assídua das obras de arte greco-romanas, durante o século XVI, teria produzido aqueles poucos artistas sobremaneira geniais, dignos de ser venerados no Panteão da arte clássica. Ao mesmo tempo, a historiografia literária dos românticos fez renascer as “literatures du Midi de l’Europe”(Sismondi): Ariosto e Tasso, Camões e Cervantes. Fortaleceu-se a opinião segundo a qual o século XVI teria sido época de uma prosperidade excepcional da civilização humana, já liberta das cadeias medievais pelo heroísmo geográfico de Colombo, pelo heroísmo religioso de Lutero e pelo heroísmo científico dos Copérnicos e Galileus; e tudo isto se devia ao estudo da Antiguidade pelos humanistas! No famoso livro de Jacob Burckhardt, porém a ênfase já é dada ao século XV. Com efeito, o trabalho principal dos humanistas pertencem a este século; e os italianizantes ingleses da época, os pré-rafaelistas, já tinham descoberto o esplendor maior das artes plásticas “antes de Rafael”: Brunelleschi, Ghiberti, Donatello, Masaccio, Fra Filippo Lippi, Bellini, Mantegna, Botticelli e Perugino. O “Cinquecento” foi substituído, na admiração geral, pelo “Quattrocento”. Mas o recuo do conceito historiográfico não parou aqui. Já na exposição de Burckhardt aparece, como “primeiro homem moderno”, Francesco Petrarca, que nasceu em 1304: e começaram a celebrar, como pai da arte moderna, o grande Giotto, que nasceu em 1267, dois anos depois de Dante, considerado até então como o maior espírito da Idade Média, ser nomeado inaugurador da Renascença. O único obstáculo foi a questão religiosa: os homens da Renascença passaram por libertadores, enquanto que Dante foi o poeta máximo do cristianismo medieval, o poeta do tomismo; e a aversão à escolástica era muito forte. Mas já se havia chamado a atenção para as energias religiosas no movimento renascentista, mesmo em Erasmo; Thode explicou os elementos de espírito novo em Dante e Giotto pela influência da reforma religiosa de São Francisco; e Burdach construiu uma nova linha de evolução: “Humanismo – Renascença – Reforma”, com o apogeu do humanismo no século XIV, em Petrarca e Cola di Rienzo, e com as raízes do movimento inteiro na religiosidade franciscana. Quase ao mesmo tempo, Duhem fez a descoberta surpreendente de que os conceitos da astronomia e da física modernas já se encontravam em nominalistas como Johannes Buridanus, Nicolaus Oresmius e outros escolásticos menos ortodoxos do século XIV. Desde então, o conceito “renascença medieval” já não parecia paradoxo. Afinal, Aristóteles é um dos espíritos mais poderosos da Antiguidade grega – e a assimilação da sua filosofia, no século XIII, por São Tomás e a sua escola, não teria sido uma renascença? A palavra já aparece com o artigo indefinido e no plural. Até uma época bem anterior revela ao estudioso conhecimentos tão amplos da Antiguidade clássica, que se fala de uma “renascença do século XII”. A “Idade Média”, considerada antigamente como época estática de ortodoxia petrificada, perdeu esse aspecto: apresenta-se com a nova característica de época de intensas lutas espirituais, com renovações periódicas, das quais a primeira foi a renovação dos estudos clássicos na corte de Carlos Magno: a “renascença carolíngia” do século IX. É possível continuar essa série de renascenças, para trás e para frente. A renovação do espírito romano no século VI, pela atividade legislativa do Imperador Justiniano, pela regra dos monges de São Bento, pelo governo autenticamente romano do Papa Gregório, o Grande, é uma renascença. Até na Roma do imperador Augusto, a revivificação da poesia grega por Horácio, Virgílio, e pelos poetas elegíacos, é uma renascença. São renascenças, posteriormente, o classicismo francês do “siècle de Louis le Grand”, o classicismo alemão de Weimar, e até a ressurreição da “Antiguidade dionisíaca”, em Nietzsche. Agora, já não é possível confundir atuação do espírito greco-romano no Ocidente com a conservação estática da herança antiga no islamismo: a história espiritual do Ocidente, segundo Mandonnet, é uma seqüência de renascenças.

Essas renascenças consecutivas constituem um fenômeno inquietante: tentativas sempre repetidas de apoderar-se da substância da civilização antiga; sempre repetidas, porque talvez sempre malogradas. Afirma-se a influência imensa das letras greco-romanas nas literaturas medievais e modernas. Parece, porém, que todas as épocas souberam escolher na Antiguidade apenas o que lhes era afim: cada época logrou somente criar uma imagem da Antiguidade segundo a sua própria imagem, de modo que já a época seguinte ficava na obrigação de abandonar o erro e incidir em novo erro. “Erros férteis”, no sentido do pragmatismo. No fundo, a Antiguidade não influiu realmente nas literaturas modernas; só agiu como medida, como critério, e fato de, durante treze séculos, o critério da nossa civilização não ser imanente, mas encontrar-se fora, numa outra civilização, alheia e já passada, é a marca mais característica da cultura ocidental.


Artigo escrito originalmente no Digestivo Cultural por Yuri Vieira. Para ler o artigo original, clique aqui.

A Teologia da Libertinagem e a Igreja Universal do Relativismo Moral

Linhas Gerais

De acordo com as decisões populares e democráticas tomadas na reunião da Última Internacional, durante o Foro de São Paulo, abrimos mais uma frente revolucionária para destruir o pensamento porco-burguês ocidental que persiste em suas atividades contrarrevolucionárias na América do Sul, sobretudo nos setores reacionários, fascistas e elitistas como a bancada evangélica, a bancada ruralista, os oposicionistas, os entreguistas, os denuncistas, os espiões polacos, os petlyuras, os trotskystas, o Capital Internacional, os peemedebistas e demotucanos em geral.

Panfleto de divulgação.

Esta nova frente de atuação revolucionária tem por objetivo desconstruir as concepções preconceituosas das pessoas com relação ao genocídio humanitário do processo revolucionário e a ditadura do proletariado, e abrir o coração das pessoas para o comunismo. Para isto, é necessário que acabemos com religiões burguesas como o catolicismo, o protestantismo e o espiritismo. É necessário abrir os olhos das pessoas para religiões mais progressistas como o budismo, o rastafari, o hinduísmo, a cientologia e o socialismo utópico.

Mais do que isso, é essencial que ofereçamos um substituto progressista às religiões retrógradas, homofóbicas e fascistas que ameaçam a Revolução. Para isto, baseando-nos nos ideais da filosofia pós-moderna, do desistencialismo, e dos pensadores da Escola de Fuckfurt, o Partido modelou uma religião progressista e popular para angariar o apoio das massas e minar a confiança do proletariado na burguesia clerical que o oprime com seus mandamentos opressores (criminalização da pobreza), pecados estigmatizantes (criminalização das diferenças), etc. Apresentamos para vocês a Teologia da Libertinagem.

A TL e suas figuras principais
A figura central da TL é o Partido. O Partido é representado, simbolicamente, pela palavra “Deus”, enquanto as massas não estiverem devidamente preparadas para a Revelação. A segunda figura mais importante é Chesus, personagem histórica revolucionária e populista que despertará o amor das massas pela nossa causa da expropriação e redistribuição dos meios de produção.

Chesus: Viva La Ressurrección!

Os sete pecados burgueses


1. Individualismo –
não pensar no próximo camarada. Não defender os oprimidos narcotraficantes das favelas, não defender os guerrilheiros das FARC e do EZLN (meros produtos de um sistema opressor capitalista), não defender a expropriação e a submissão da classe burguesa ao domínio da ditadura do proletariado.

2. Capitalismo – fazer comércio, explorar a mais-valia, cobrar por serviços, não distribuir drogas recreativas para os camaradas a preço de custo.

3 . Machismo – namorar, noivar, casar, não socializar os meios de reprodução com camaradas e camarados, heteronormatividade, não estar aberto para relacionamentos alternativos, revolucionários e progressistas como a pedofilia e o incesto, etc.

4 . Eurocentrismo – não ter vergonha de ser um branco descendente de escravocratas, latifundiários, banqueiros e invasores europeus. Vestir-se como um burguês, não usar dreads, camisa do Che, chinelo de dedo, não se preocupar com a fome na África, etc.

5. Denuncismo – denunciar os camaradas que, durante o processo revolucionário, venham a atentar contra as leis capitalistas opressoras do Estado Burguês.

6. Entreguismo – não defender a total expropriação dos meios de produção e sua centralização nas mãos do Estado Proletário.

7. Reacionarismo – discordar com as diretrizes do Partido e não adaptar-se às necessidades dinâmicas do processo revolucionário.

Os desmandamentos

1 – Amar o Partido (“Deus”) sobre todas as coisas
2 – Não usar o nome de Partido (“Deus”) em vão
3 – Guardarás os dias de greve
4 – Honrarás a Revolução
5 – Não matarás (outro camarada, sem um tribunal revolucionário)
6 – Não negarás aos camaradas livre acesso aos teus meios de reprodução
7 – Não explorarás a mais-valia
8 – Não levantarás testemunho contra outro camarada (delação)
9 – Não terás pensamentos pecaminosos e neoliberais
10 – Não cobiçarás a droga recreativa do próximo

Sete razões para não temer os muçulmanos

Nota de 27/01/2017: Este artigo foi escrito 4 ou 5 anos ANTES da crise migratória européia (2016-?) e, portanto, não leva em consideração a imigração massiva de países muçulmanos para a Europa. A assimilação pacífica da comunidade muçulmana aos países europeus e americanos só foi possível em séculos anteriores porque esta migração se dava de maneira individual e paulatina, não massiva e repentina como vem ocorrendo nos últimos anos. Sobre o caráter islâmico (ou não) do terrorismo, o autor em breve publicará uma revisão deste artigo.


1 – O terrorismo “islâmico” não existe
Yuri Bezmenov, dissidente do serviço secreto soviético, já explicava isso décadas atrás: “Believe me please, there was no grass, no root, no revolution, and least of all Islam. There is no such thing as an Islamic revolution. Revolution has nothing to do with Islam. There is no such thing as Islamic terrorists. (Em negrito: “Não há revolução islâmica. Revolução não tem nada a ver com Islã. Não existem terroristas islâmicos.”)

Diversos líderes de movimentos africanos, indianos, árabes e sul-americanos de “libertação nacional” foram treinados por oficiais da própria KGB (no caso dos sul-americanos, em Cuba) em seus centros de formação de líderes políticos durante a Guerra Fria. Eestes mesmos líderes levaram adiante guerras civis, golpes e revoluções armadas de todo tipo a seus países de origem para desestabilizar os regimes e, se possível, instalar um governo socialista alinhado com o Kremlin.

Hoje, membros destes mesmos grupos “islâmicos” operam redes internacionais de terrorismo. Portanto, é mais fácil traçar a origem dos terroristas “islâmicos” até a KGB ou a CIA do que ao Corão.

2 – Religião islâmica e lei islâmica não são sinônimos
Dos aproximadamente cinquenta Estados de população majoritariamente islâmica, apenas 6 são Estados islâmicos. E destes seis, dois são aliados dos EUA (Arábia Saudita e Paquistão). Outros doze tem o islamismo como religião oficial. Vinte são Estados seculares.

Dos estados do mundo, cerca de 14 adotam leis religiosas. Dentre estes, os mais conhecidos são o Irã, a Arábia Saudita, o Iêmen e o Vaticano. O mais poderoso destes, em relação ao Oriente Médio e toda a Liga Árabe, é a Arábia Saudita, país que mantém sólidas relações comerciais e diplomáticas com os EUA.

3 – Muçulmanos são tão diversos quanto os cristãos
Assim como entre os cristãos, há diferentes denominações muçulmanas.

A maior delas é o Sunni (sunitas). É considerada a versão “ortodoxa” da religião. Os sunitas acreditam que após a morte de Maomé, o novo líder religioso seria eleito e não um descendente, parente ou indicado do profeta Maomé. Possui quatro escolas de pensamento: Hanafi, Maliki, Shafi’i e Hanbali. Há uma quinta, ultra-ordoxa, a Wahabbi.

Os sunitas acreditam na autoridade religiosa da razão e da legalidade.

Os xiitas são a segunda maior denominação muçulmana. Compoem de 10 a 20% da população muçulmana mundial. Creem na infalibilidade do Imam (seu líder religioso) – descendente de Ali, o sucessor de Maomé na liderança dos muçulmanos.

Os xiitas acreditam na autoridade religiosa hereditária e divina.

Além dos sunitas e xiitas, há os sufis, os ahmadiyya, os ibadi, os coranistas, etc.
Some a isso as culturas locais de povos que vão desde os africanos do Mali até os indonésios passando pelos turcos, persas e uigures.

Diferenças entre culturas: tártaras em trajes típicos, uma albanesa votando e iranianas comprando cosméticos e maquiagens.

4 – Os muçulmanos são bons de negócio

Reformas: Metade das economias no mundo árabe reformaram suas regulamentações em termos de negócio nos anos de 2009 e 2010, mais do que na América Latina e no Caribe.[1]

Liberdade econômica: De acordo com o ranking da Heritage de liberdade econômica, Irã, Turcomenistão, Mauritânia, Iêmen, Indonésia, Marrocos, Jordânia e Catar apresentaram melhorias.

Bahrain e Catar fazem parte dos países majoritariamente livres (score entre 79.9 e 70)

Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Turquia, Marrocos, Quirguistão, Malta, Arábia Saudita e Líbano fazem parte dos países moderadamente livres (grupo que inclui Israel, Coréia do Sul e África do Sul).

Azerbaijão, Egito, Tunísia, Iêmen, Paquistão, Tadjiquistão, Bangladesh, Mauritânia, Indonésia e Mali se encontram no grupo majoritariamente reprimido. Fazem parte deste grupo membros do BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China).[2]

Desenvolvimento econômico: A Liga Árabe, composta por países muçulmanos em maioria, é a 6ª organização com maior PIB, estando à frente da Rússia. Em termos de PIB per capita, está à frente da China e da Índia. A mesma mantém relações comerciais com a União Africana, a União Européia, os Estados Unidos, a China e a UNASUL.

Direitos de propriedade: Com relação à defesa dos direitos de propriedade, os países do norte da África e do Oriente Médio (muçulmanos em sua maioria) estão melhores do que a América Latina e Caribe. De acordo com o International Property Rights Index de 2011, a região Norte da Áfica e Oriente Médio tem uma média de 5.7, superando os 5 pontos da América Latina e Caribe.[4]

Comparando-se o PIB per capita, o “mundo islâmico” não se sai tão mal quando comparado com os países do BRIC:

Os países mais próximos do roxo são os com o mair PIB per capita. Em comparação com os BRICS, o mundo islâmico não está muito atrasado, inclusive contando com membros excepcionais que se aproximam mais dos níveis europeus.

Com relação ao IDH, muitos países tipicamente muçulmanos são mais desenvolvidos do que os tais BRICs. A Rússia é o membro do BRIC com o maior IDH (0.755), e está atrás da Líbia (0.760) que é o 6º país muçulmano num ranking de IDH. À frente da Líbia ainda está o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrain, o Catar e o mais desenvolvido deles, os Emirados Árabes Unidos com invejáveis 0.855. Para se ter uma idéia, o IDH do Brasil (2º entre os BRICs) é de 0.718 e o da Índia (menor entre os BRICs) é de 0.547. [5]

Vale lembrar que um dos maiores parceiros comerciais dos EUA no mercado de Petróleo é a Arábia Saudita. [6]

5 – Judaísmo, cristianismo e islamismo são parentes
Judaísmo, cristianismo e islamismo fazem parte de um mesmo grupo de doutrinas religiosas. São as chamadas religiões abrâmicas (relativo a Abraão). Abraão é o profeta que “faz a liga” entre estas três religiões.

Ainda que elas tenham grandes diferenças entre si, há também pontos em comum. O deus, por exemplo, é o mesmo. O deus dos judeus é o mesmo deus dos cristãos e o mesmo deus dos muçulmanos. A palavra “Allah” vem do árabe e significa simplesmente “deus”.

Abraão. Pintura de József Molnár.

Basicamente, os muçulmanos não afirmam que judaísmo ou cristianismo são religiões falsas. Na concepção muçulmana, estas religiões estão ligadas ao islamismo. Os muçulmanos usam a expressão “adeptos do livro” ou “seguidores do livro” para referir-se a judeus e cristãos. Mas porque não usam a palavra “infiel”? Por que consideram que há três livros sagrados, revelados progressivamente: o primeiro é a Torá, o segundo é a Bíblia (no caso, o Novo Testamento) e o terceiro é o Corão.

Os muçulmanos não aceitam Jesus como filho de Deus, mas o aceitam como profeta e duvidam da sua morte carnal afirmando que ele ascendeu aos céus diretamente para a presença de Allah. Jesus é considerado um profeta do Islã, como é Maomé. O motivo pelo qual os muçulmanos dão tanta atenção a Maomé é porque ele é considerado nesta religião o último profeta a receber revelações diretamente de Allah. A crença é de que Allah tenha ditado o livro sagrado (Corão) para Maomé ao longo de um período de 23 anos nas peregrinações entre duas cidades (Medina e Meca).

O que o Islã condena não é o judaísmo ou o cristianismo, mas o politeísmo e o ateísmo (a palavra “infiel” se refere a quem não é adepto dos livros sagrados).

Outras coisas que podemos constatar: a proibição do consumo da carne de porco e a cultura de cobrir a cabeça das mulheres vem desde o judaísmo. Ainda hoje, judeus e muçulmanos não comem carne de porco – algo comum para cristãos. Judias ortodoxas cobrem a cabeça até hoje. Entre as cristãs, o costume de cobrir a cabeça ficou restrito às freiras, não sendo imposto às cristãs leigas.

As três religiões abrâmicas tinham a cultura do véu. Com o tempo, o costume do uso foi sendo abandonado por correntes do judaísmo, e entre os cristãos o seu uso acabou restrito a freiras e irmãs. Entre a maioria dos muçulmanos esta cultura resiste. Em países como a Albânia e a Turquia, o uso varia conforme as tradições familiares.

Tanto cristianismo quanto o islamismo são religiões expansionistas, o que significa que ambas buscam expandir o número de fiéis através da conversão. Longe de serem ideologias destrutivas ou xenofóbicas, elas buscam a assimilação e são universalistas.

A julgar que, historicamente, entre os cristãos católicos e protestantes já houveram grandes e violentos conflitos que acabaram posteriormente sendo esquecidos para dar lugar à convivência pacífica sob o princípio do ecumenismo, não é difícil conceber que se possam conciliar as três religiões abrâmicas como outrora foi feito na Espanha moura, durante o período conhecido como La Convivencia.

6 – O que muçulmanos vestem, comem ou fazem não é da nossa conta

É tão simples quanto poderia ser: cada cultura tem seus códigos de etiqueta, sua culinária, sua música e claro, seu código alimentar e de vestuário. O fato de nós ocidentais termos mais liberdade em vestir o que nos convém não indica que há algo no hijab, niqab ou na burqa que os torne intrinsecamente ruins e opressores.

Escoceses usam kilt, árabes usam dishdasha. Problem?

Devemos entender que para a maioria das mulheres muçulmanas, vestir-se do modo como se vestem é normal, digno e belo. Dentro da cultura ocidental, com o regimento das leis, estas mulheres tem o direito de recusar o uso dos mesmos, mas obrigá-las a tirar (como foi feito na França) é uma tirania. Se somos pela liberdade, não podemos jamais admitir que o governo dite o que um cidadão deve ou não deve vestir.


O mesmo vale para a alimentação. Muçulmanos, assim como os judeus, não comem carne de porco porque ela vai contra um código alimentar instituído pela religião e pela tradição. No caso dos judeus, é o kashrut e no caso dos muçulmanos, é o halal. Para os muçulmanos, a carne precisa ser preparada de um modo especial para que possa ser consumida (halal = permitido), do contrário ela não pode ser consumida por um muçulmano (haram = proibido). Isto significa que para atender a um consumidor muçulmano ou judeu, certas regras e padrões culturais devem ser atendidos no preparo das refeições. É um direito do consumidor escolher não consumir os produtos que vão contra a sua crença religiosa, e isso é de fundamental importância.

Por último, mas não menos importante, é a questão da política e da religião. Por mais que as leis dos países islâmicos possam nos ser estranhas (sobretudo naqueles onde a Sharia é a lei), temos que entender que as leis serão estranhas para nós em qualquer sistema político diferente daquele que estamos acostumados.

Nós ocidentais temos padrões ocidentais e leis que seguem escolas de pensamento ocidentais. Os muçulmanos, que são africanos, orientais e asiáticos em sua maioria, não seguem os mesmos padrões que nós. Os sistemas políticos que se desenvolveram nestas culturas está adaptado a elas e foi desenvolvido e mantido por elas. Cabe a elas decidir quando, como e o que mudar.

Amamos a democracia e a liberdade de expressão e culto, e devemos assegurá-la sobretudo aqui nas Américas ou na Europa, mas não temos nem o dever e nem o direito de querer impor nossos sistemas na “casa” dos outros. Contanto que a democracia, o rigor da lei, a liberdade e a propriedade estejam asseguradas no Ocidente – para os muçulmanos que aqui vivem, inclusive – estaremos com nosso dever cumprido. Antes de nos preocuparmos com o que se passa lá, temos que dar especial atenção aos valores que cultivamos aqui: liberdade de culto, liberdade de expressão, liberdade de escolha.

7 – Eles estão entre nós
Na Europa: Dentro da Europa, as tradições islâmicas são encontradas sobretudo em territórios que já estiveram sob administração do Império Otomano, como os balcãs, e no tartaristão (Federação Russa). A península ibérica também já foi islâmica, tendo sido reintegrada à Cristandade durante a Reconquista.

Na Albânia, o congresso muçulmano sediado na capital (Tirana) rompeu com o Califado em 1923, estabelecendo uma nova forma de culto, banindo a poligamia e instituindo o uso do véu para as mulheres em público.

Na Polônia, as tradições sunitas tártaras foram preservadas. Isto levou à formação de uma distinta cultura muçulmana na Europa Central, na qual elementos da ortodoxia muçulmana misturaram-se à tolerância religiosa de uma sociedade relativamente liberal. Os tártaros polacos são considerados um exemplo de sucesso na integração sócio-cultural com a sociedade cristã.

1 – uma pequena mesquita na Polônia. 2 – a grande mesquita Qolşärif em Kazan, capital do Tataristão. 3 – Um casamento tártaro. Os tártaros são um povo majoritariamente muçulmano que vive na Rússia, na Ucrânia e na Polônia.

Entre os europeus, acredita-se que esteja emergindo uma nova ramificação do islã que combina os princípios e deveres desta religião com valores da Europa pós-iluminista como direitos humanos, o estado de direito, a democracia e a igualdade entre homens e mulheres.

Acredita-se que a população muçulmana na Europa hoje seja superior a 53 milhões, mais de 7% da população. Em alguns países europeus esta proporção é ainda maior: Bulgária, Montenegro e Rússia tem entre 10% e 20% de população muçulmana. O Chipre, entre 20% e 30%. Macedônia, entre 30% e 40%, Bósnia e Herzegóvina entre 40% e 50%, na Albânia são entre 80% e 90%, e em Kosovo chega a 95%.

Nos Estados Unidos: Entre os anos de 1880 e 1914, milhares de muçulmanos migraram do Império Otomano para os Estados Unidos, assimilando-se à sociedade. Graças à imigração, a conversão e altas taxas de natalidade, os Estados Unidos viram a sua população muçulmana crescer muito nos séculos XX e XXI. Só em 2005, o número de novos residentes muçulmanos legais nos estados unidos foi de aproximadamente 96.000: mais do que em qualquer ano das duas décadas anteriores.

O seriado “All-American Muslim” foca no dia-a-dia de americanos muçulmanos.

A mais duradoura comunidade muçulmana incorporada à sociedade norte-americana é a dos bósnios, que em 1906 criaram a Džemijetul Hajrije (Jamaat al-Khayriyya), uma organização de serviços sociais para muçulmanos bósnios. Os muçulmanos bósnios também abriram a primeira escola dominical muçulmana com currículos e literatura muçulmana. A primeira organização muçulmana em Nova Iorque, a Sociedade Maometana Americana, foi fundada em 1907 por tártaros Lipka da região de Podlasie (Polônia). Em 1915 foi fundada aquela que provavelmente é a primeira mesquita americana, por muçulmanos albaneses em Biddeford, Maine. Um cemitério muçulmano ainda existe lá. E esta história se arrasta pelo século seguinte.

O número estimado de muçulmanos vivendo nos EUA hoje é de 2,6 milhões – menos de 1% da população.

Centro Islâmico da América em Dearborn, Michigan

No Brasil: A imigração árabe no Brasil tem início com a chegada de imigrantes árabes que começaram a desembarcar no País em fins do século XIX. No início do século XX, esse fluxo imigratório cresceu e passou a se tornar importante. Um fator predominante foi a Primeira Guerra Mundial, que acelerou a imigração de pessoas que viviam no Império Otomano. Outros conflitos que causaram aumento na imigração de muçulmanos foram as guerras no Oriente Médio (Guerra do Líbano, conflitos entre árabes e israelenses, conflitos no Iraque).

Porém, a imigração de muçulmanos para o Brasil é muito anterior. Muitos dos negros escravizados na África e trazidos para o Brasil já eram muçulmanos. A chamada Revolta dos Malês de 24 a 25 de janeiro de 1835, ocorrida na cidade de Salvador, foi uma sublevação de escravos africanos de religião islâmica. “Malê” era o termo que se utilizava para referir-se aos escravos muçulmanos.

Atualmente, 15 milhões de brasileiros possuem ascendência árabe. A maioria é de origem libanesa, enquanto o restante é, predominantemente, de origem síria. O Islã no Brasil conta com 27.239 seguidores, segundo dados do censo demográfico de 2000 do IBGE. Porém, algumas instituições islâmicas brasileiras consideram que o número de seguidores é muito superior a isso. A Federação Islâmica Brasileira defende que há cerca de 1,5 milhão de fiéis do Islã no país.

Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, em Foz do Iguaçu, Paraná. A cidade abriga a maior comunidade muçulmana do Brasil.

Na cidade de São Paulo existem cerca de dez mesquitas, dentre as quais a Mesquita Brasil, na Avenida do Estado (centro da cidade) – cujas obras de construção começaram em 1929 e que foi a primeira mesquita edificada na América Latina.

No mundo: Somos praticamente 7 bilhões. Cristãos são entre 1,9 e 2,1 bilhões – ou seja, de 29% a 32% da população do mundo. Os muçulmanos são cerca de 1,57 bilhões – de 20 a 25%. Com toda essa gente, é melhor arranjar uma maneira de conviver. Para isto, existe o que chamamos de diálogo inter-religioso. Com relação à Igreja Católica, já existe uma iniciativa de diálogo entre católicos e muçulmanos: em 2008 reuniram-se no Vaticano autoridades religiosas católicas e islâmicas para um diálogo inter-religioso, e há uma iniciativa para que esta cúpula seja permanente. A primeira cúpula produziu um documento que afirma um compromisso mútuo de incentivo à tolerância. O mesmo pode ser lido em inglês aqui.

Não fuja do conflito: Talvez você tenha vizinhos muçulmanos, ou já os tenha visto caminhando nas ruas da sua cidade. É possível que você passe pela frente de centros muçulmanos sem nem perceber. Para vencer as barreiras impostas pela caricaturização típica da propaganda de guerra com que somos bombardeados diariamente, é necessário conhecer “o inimigo”. Ouse ler o Corão, permita-se conversar com muçulmanos, visite um centro islâmico. Você verá que mais do que diferenças, há muitas semelhanças entre você e eles: a valorização da família, um senso de responsabilidade, um desejo forte de ascender na vida honestamente, a dedicação aos estudos, etc. Encerro este artigo com uma citação de Chesterton:

A Bíblia nos manda amar nosso próximo, e também nossos inimigos; provavelmente porque eles são, geralmente, a mesma pessoa.

– G. K. Chesterton