A Conquista do Brasil (Parte VI)

Demorou mas saiu a parte quatro desta série! Hoje vamos tratar de alguns aspectos dos conflitos que se desenvolveram ao longo da conquista do território por parte dos portugueses e luso-brasileiros.

I. Os campos de batalha
A guerra se desenvolve em diferentes tipos de terreno. Tradicionalmente, a guerra ocorre em terra e, com o desenvolvimento da marinha de guerra, na água. Com a invenção dos primeiros balões e aviões, a aeronáutica entra em cena. Em última instância, a guerra também pode ser eletrônica ou informática. Adaptando nossa análise para o contexto da América portuguesa, temos o seguinte:

Terra
Em terra, era de vital importância manter a segurança dos fortes, das vilas e suas roças, das feitorias e postos comerciais, do lado dos colonizadores. Para os nativos, era importante assegurar o território de caça, pesca e coleta, além da aldeia propriamente dita. Os índios tupinambás, por exemplo, entravam em conflito com os portugueses e tupiniquins sobretudo em novembro e agosto, períodos de coleta do abati (milho) e pesca do pirati (tainha). Ao menos uma vez no ano, os jê do interior avançavam para a costa em busca de caju, o que resultava nas guerras do caju. Territórios habitados por guarás, aves de plumas vermelhas usadas para a confecção de indumentárias, eram importantes para o comércio indígena bem como áreas de colheita do algodão.

Além de serem mais numerosos, os nativos viviam de extrativismo e por isso precisavam de áreas de coleta e caça. Disto resulta que a área a ser defendida pelos nativos era muito maior do que aquela de que dependiam os colonizadores: durante muito tempo, a ocupação européia do território brasileiro ficou restrita à costa e este espaço era suficiente para manter a população colonial.

Não haviam Estados formados no Brasil antes da colonização: os europeus e os nativos referiam-se a territórios usando nomes de montanhas, rios ou tribos identificáveis com a região. Exemplos de topônimos tupi-guarani são Araçatuba (terra dos araçás, um tipo de fruto), Iguaçu (rio grande), Guanabara (baía grande) e Ipiranga (rio vermelho). A terra dos mundurucus foi batizada, ao estilo europeu, de Mundurucânia. São facilmente identificáveis demarcações territoriais criadas pelos colonizadores, como as capitanias e sesmarias, as colônias francesas (França Antártica e França Equinocial) e a região de ocupação holandesa (Nova Holanda), bem como a região costeira do Brasil dominada pelos tupis e guaranis, denominada Pindorama.

Na terra, destaca-se um tipo de guerra: expedição de apresamento e guerra de vendeta, realizadas primeiramente entre os índios e depois pelos bandeirantes (em expedições punitivas), e o cerco às vilas fundadas por colonos.

Tropas terrestres
As forças portuguesas eram compostas de colonos armados com bestas (abandonadas em algum ponto entre a segunda metade do século XVI e o início do século XVII), arcabuzes e mosquetes, além da tradicional espada rapieira. Armas de haste como piques e lanças eram raras. Peças de artilharia eram empregadas na defesa de fortificações.

Não havia na época distinção bem marcada entre civis e militares, embora houvesse uma hierarquia, representada pelo capitão. Antes da criação de exércitos nacionais na Europa, o capitão era um nobre responsável pela propriedade, pagamento e comando de uma companhia de militares. O capitão da companhia colocava-a ao serviço do seu senhor feudal ou monarca, em troca de um pagamento.

A cavalaria organizada só viria a surgir com a organização do Regimento de Dragões Auxiliares em Pernambuco, após a guerra contra os holandeses.

Entre os nativos também não havia distinção entre civil e militar.  O armamento típico era o arco e a borduna. Mulheres auxiliavam na logística, como explicado anteriormente, mas há relatos de mulheres guerreiras também. Não haviam rankings militares, sendo a distinção entre os guerreiros feita mais pela glória pessoal do que por uma hierarquia oficial: os índios tupis que sacrificavam mais inimigos no ritual antropofágico adquiriam mais “nomes”, mais esposas e podiam usar mais adereços.

Atribui-se a chegada dos cavalos à região do Prata a dom Pedro de Mendoza, quando fundou pela primeira vez Buenos Aires em 1535, e a Alvar Nuñez Cabeza de Vaca quando trasladou cavalos do Peru para Asunción em 1541. A presença de manadas de cavalo vagando em liberdade na região é atribuída à queda de Buenos Aires, momento em que os cavalos teriam fugido. É difícil estabelecer quando os nativos passaram a usar o cavalo, mas temos um exemplo extremo que mostra o quão bem ele foi utilizado: na segunda metade do século XVIII, calcula-se que os guaicurus tinham cerca de 8 mil cavalos. Ficaram conhecidos como imponentes cavaleiros.

Água
Naturalmente, era importante também a soberania sobre os recursos hídricos, as rotas fluviais e as áreas costeiras. Isto valia tanto para colonizadores quanto para nativos, já que o transporte fluvial era essencial para o comércio de ambos, bem como as áreas de pesca e fontes naturais. No caso dos colonizadores portugueses, era de fundamental importância combater o tráfico realizado por outros europeus (ingleses e franceses) em terras brasileiras. Era comum o enfrentamento com corsários e piratas franceses, por exemplo.

O oceano
Para defender a costa, os colonizadores construíam fortes equipados com muralhas e canhões. Estes tinham por objetivo guardar os portos contra ataques de navios inimigos europeus. Para a defesa da costa, empregavam-se as embarcações à disposição, como o bergantim. Eram armadas com sete peças de artilharia (um falcão e seis berços), de acordo com a ordenança do “Alardo de 1525”. Até que ponto esta padronização era seguida no Brasil, não se sabe ao certo.

Os rios
Nos rios, a embarcação mais utilizada pelos colonizadores portugueses também era o bergantim, embarcação a remos leve, rápida, manobrável e pequena o suficiente para navegar nos principais cursos d’água. Foi muito empregada no combate à pirataria, justamente pela sua manobrabilidade e velocidade. Sua guarnição máxima era de 90 pessoas.

Da parte dos nativos, a única embarcação por eles conhecida era a canoa, que usavam para transporte, comércio e mobilização militar. Há relatos de canoas capazes de transportar até 60 pessoas. Podiam ser facilmente trazidas para a terra, o que aumentava em muito a mobilidade, e relata-se que a sua velocidade era imbatível para as pesadas embarcações europeias.

O uso de “frotas” de numerosas canoas para realizar assaltos às vilas e aldeias rivais era bastante comum. Em sua Carta sobre a fundação de Rio de Janeiro, o missionário José de Anchieta relata um assalto dos tamoios que compreendia mais de oitenta canoas.

Alma
Mais importante do que dominar uma porção de terra e suas hidrovias era manter a população nativa pacificada e aliada aos esforços colonizadores. Seria simplesmente impossível colonizar qualquer porção do continente americano sem estabelecer relações estáveis com os nativos. Um dos instrumentos mais importantes para o estabelecimento destas relações era a conversão dos nativos à fé dos colonizadores.

Católicos
Os primeiros missionários que vieram com Cabral eram franciscanos. Até 1549 os franciscanos foram os únicos missionários no Brasil. A Ordem Franciscana se estabeleceu definitivamente no Brasil somente em 1585.

Em 1549 chegaram à Bahia os seis primeiros Jesuítas, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Atendiam também fora da Bahia, nas Capitanias próximas.

Outros grupos católicos também enviaram missionários para o Brasil: em 1580 chegaram os Beneditinos e em 1584, os Carmelitas.

Protestantes
Os primeiros protestantes no Brasil foram os calvinistas franceses, que chegaram em uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon à Baía da Guanabara em 1555.

Villegaignon entrou em atrito com os calvinistas sobre questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. O pastor Chartier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada (Ilha de Villegaignon). A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os tupinambás, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Em 1630, quando os holandeses conquistam Pernambuco, o calvinismo tem sua vida estendida no Brasil (em 14 capitanias do nordeste) por mais 24 anos, pelo menos até o fim da ocupação em 1654. Com a chegada de Maurício de Nassau, implantam a estrutura religiosa calvinista. Até 1654 foram organizadas 24 igrejas e congregações. A experiência terminou com a derrota holandesa.

Nativos
Os pajés estavam relacionados com os movimentos intra e extratribais das populações nativas. Durante as numerosas migrações tupis-guaranis nos tempos pré-cabralinos, a religião garantiram a dispersão com homogeneidade cultural. Eram mediadores na solução dos problemas intra e extratribais, nos quais a cura das doenças era apenas um dos itens.

Entre os Guarani existiam os caraí, que eram bem mais que pajés. Viviam afastados das aldeias e isolados: não pertenciam a uma comunidade específica. Em certos momentos se dirigiam às aldeias para realizarem longos discursos. Transitavam por qualquer aldeia, inclusive as inimigas de seu grupo de origem. Em muitos casos, eram vistos como heróis reencarnados, homens-deuses ou profetas. Só eles seriam capazes de mobilizar um grupo a sair de suas comunidades, largar para trás suas roças, toda a vida social e partir em busca da “Terra sem Mal”. Por sua vida isolada, eram exteriores à aliança política e aos vínculos de parentesco, o que explica porque eram impedimento aos esforços colonizadores: eles ficavam alheios às alianças firmadas entre europeus e chefes militares indígenas, tanto quanto ficavam alheios ao ‘cunhadismo’.

No século XVI, a atividade dos Caraís ainda não era profética. Porém, muitas vezes sob sua liderança se organizou a resistência à colonização. Algumas das guerras contra os espanhóis foram provocadas e dirigidas por profetas: eles tentaram aproveitar a situação criada pela presença dos estrangeiros para garantir seu poder.

II. Alianças
Os índios reagiram de formas distintas à presença dos europeus, mantendo relações pacíficas como o comércio e a aliança militar e conflituosas como a guerra e a revolta. Para os nativos, índios de uma nação rival ou desconhecida eram tão estrangeiros quanto um português ou francês, e por isto é compreensível que tenham se aliado a europeus no combate a outros americanos.

O apoio indígena foi crucial para a vitória da colonização portuguesa. Com este apoio, contudo, as lideranças indígenas tinham seus próprios objetivos: lutar contra seus inimigos tradicionais, que também se aliavam aos inimigos dos portugueses por idênticas razões.

Alguns exemplos das alianças:

  • Temiminós liderados por Araribóia se aliaram aos portugueses na baía da Guanabara para derrotar os franceses, que por sua vez recebiam apoio dos Tamoios.
  • O chefe tupiniquim Tibiriçá, valioso para o avanço português na região de São Vicente e no planalto de Piratininga, combatia rivais tupis e os “tapuias” Guaianá, além de escravizar os Carijós para os portugueses.
  • O chefe potiguar Zorobabé, na Paraíba e Rio Grande do Norte, aliou-se aos franceses, em fins do século XVI, e aos portugueses, tendo sido recrutado para combater os aimorés na Bahia e até para reprimir os nascentes quilombos de escravos africanos.
  • O potiguar Felipe Camarão combateu os holandeses, os tapuias e os próprios potiguares (como Pedro Poti e Antônio Paraupaba), que ao contrário dele, passaram para o lado holandês.
  • Confederações intertribais, como a Confederação dos Tamoios e a Confederação dos Cariris.

Diversas lideranças pró-lusitanas receberam privilégios como sesmarias e títulos nobiliárquicos, criando-se no Brasil autênticas linhagens de chefes indígenas condecorados pela Coroa por sua lealdade a Portugal.

Alianças com invasores contra os colonizadores também ocorreram. Nações inteiras escolheram por se aliarem aos inimigos dos portugueses. Líderes como Antônio Paraupaba chegaram a residir nos Países Baixos para aprender a língua holandesa. O líder Abaupaba retornaria para os Baíses Baixos com os holandeses e lá ficaria até a morte, ainda atuando na política e buscando reestabelecer uma aliança Holanda-Potiguaras e quem sabe reconstruir o que fora perdido pelos holandeses no Brasil.

III. Tipos de guerra
Dependendo do território em disputa, dos objetivos e das nações envolvidas, distintos tipos de guerra podem ser travados. Podemos elencar os seguintes:

Corso – Corsários e piratas contratados por uma potência colonial assaltam cidades, engenhos e o comércio marítimo de outra potência colonial. Acontece no mar ou na costa.

Expedição– Expedições militares encomendadas pela Coroa para reconhecer e colonizar territórios (entradas) ou de caráter punitivo. Há também as financiadas por particulares para apresamento de índios e busca por bens comerciáveis (bandeiras). Foram bastante empregadas contra aldeamentos missionários e tribos hostis (“gentios bravos”). Ocorriam nas regiões sertanejas, e frequentemente envolviam o domínio das vias fluviais.

Guerra colonial – Disputa entre potências coloniais e seus aliados por territórios ainda não colonizados. Pode ou não envolver tropas nativas, e ocorre geralmente em zonas limítrofes de territórios coloniais.

Guerra indígena – Guerra entre um povo ou confederação de povos indígenas e colonizadores ou colonos. Pode ser uma guerrilha de resistência à colonização, uma revolta, um ataque à uma colônia.

Guerra internacional – Guerra entre duas potências estabelecidas e/ou suas colônias, com fins punitivos ou expansivos. Pode envolver tropas nativas, mas seu objetivo é retaliar a potência colonial inimiga ou tomar seus territórios.

Guerra de independência – Guerra de uma colônia, província ou território buscando emancipação do restante do corpo político (potência colonial, estado nacional, etc).

Guerra colonial indígena – Guerra entre povos indígenas apoiados por potências coloniais. Ocorre quando há um interesse militar comum entre uma nação americana e o colonizador europeu, em qualquer dos lados.

Guerra autóctone – Guerra entre povos indígenas, sem apoio de potências coloniais em qualquer dos lados. É a forma de guerra anterior à chegada dos europeus e que continuou ocorrendo em lugares onde a presença do colonizador não chegava.

O período a ser estudado vai de 1534 até a Independência do Brasil e a consequente fundação do Império, quando então está todo o território submetido à uma administração monárquica típica do mundo ocidental de sua época. O objetivo de restringir o escopo de estudo é excluir dele movimentos e guerras de cunho emancipatório das províncias como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, ou a Revolução Farroupilha. Estes, apesar de representarem alterações potenciais e significativas no território do Brasil, não representam um conflito entre “conquistadores” ou colonizadores, uma vez que estas áreas já estavam colonizadas e já compartilhavam de uma história comum com outros brasileiros ou lusos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.