O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de Direita?

Texto meu (Davi Caldas) publicado também no blog “Mundo Analista”. Para ler o texto original, clique aqui.

Hitler e Stálin – Líderes do Nacional Socialismo e do Socialismo Marxista, respectivamente

A esquerda nos diz que Hitler e o seu movimento Nacional Socialista eram de direita ou, para ser mais exato, de extrema-direita. Um dos argumentos mais frequentemente utilizados para sustentar esta alegação é o fato de que Hitler (e, por conseqüência, o Nacional Socialismo) era antimarxista. Ora, poderíamos descartar o argumento logo de início, pois o mesmo parte do falso pressuposto de que o marxismo é a única doutrina de esquerda que existe e que, portanto, qualquer que seja contrário a ela é, automaticamente, de direita. Tal pressuposto é falso porque, desde seu surgimento, a esquerda sempre contou com doutrinas políticas que não intentavam implantar o comunismo. Os jacobinos da época da revolução francesa (pré-marxistas, pode-se dizer) e os democratas americanos a partir dos 1920 são apenas alguns exemplos de esquerdistas que não podem ser chamados de marxistas, ainda que encontremos em suas doutrinas algumas semelhanças com a ideologia do pensador alemão.

Na realidade, contanto que uma pessoa preserve traços esquerdistas básicos (como, por exemplo, a crença de que o governo deve multiplicar suas funções e impostos, a fim de fazer “justiça social”) é perfeitamente possível que essa pessoa seja esquerdista e, ao mesmo tempo, uma opositora ferrenha do marxismo. Como? Vejamos. Eu, por exemplo, acredito que a teoria de Marx é impossível de se realizar na prática, tal como ele havia pensado. Ele imaginava uma espécie de “ditadura democrática”, na qual todo o proletário iria governar, e que seria temporária, dando lugar ao posterior comunismo. Para mim, é óbvio que isso não daria certo em hipótese alguma, porque o homem tende a abusar do poder e uma ditadura do proletariado certamente se tornaria uma ditadura de líderes que se dizem “representantes” do proletariado.

Assim, mesmo que eu fosse esquerdista (como, de fato, já fui, embora não o soubesse) provavelmente seria veementemente contrário ao marxismo, dada a minha crença na impossibilidade prática do mesmo. Ainda assim, eu poderia crer na capacidade do Estado de fazer justiça social, votar em candidatos trabalhistas, ser contrário ao livre mercado, querer mais intervenção governamental, lutar por mais empresas e serviços públicos e etc. De fato, a maioria dos esquerdistas atuais tem esse perfil. Não querem destruir o capitalismo. Querem apenas “domá-lo”.

Então, apontar Hitler e o Nazismo como antimarxistas em nada prova que eles eram de direita e não de esquerda. É preciso cavar mais fundo na questão. E eu acredito que uma boa forma de começar a cavar é indo até o livro em que Adolf Hitler expõe seus ideais nazistas, o Mein Kampf (Minha Luta). O que será que ele diz sobre o marxismo? Será que o livro deixa claro que Hitler era contra o marxismo, justamente porque era de direita? Vamos ver.

Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.

Esse primeiro trecho é interessante porque dá a tônica para o restante do livro de Hitler. Conforme veremos, Adolf Hitler enxergava uma relação entre o movimento marxista, o movimento social-democrata (que, na época, era uma variante menos radical do marxismo) e o povo judeu. Ao longo do livro ele vai explicando esse ponto de vista e mostrando como chegou a essa conclusão.

[…] a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado – como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora – pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico […].

Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.

Aqui Adolf Hitler afirma que em sua juventude, ele não tinha nada contra o movimento social-democrata (a não ser o fato de que eles não eram nacionalistas) e que não conhecia o marxismo. Mas prepara o terreno para mostrar que sua concepção logo mudaria. É interessante ressaltar como ele mostra uma inclinação à esquerda julgar positiva a preocupação social-democrata com o proletariado. Não que a preocupação com trabalhadores seja monopólio esquerdista, mas um direitista jamais iria admirar a “preocupação” da esquerda com os mesmos, já que a “preocupação” esquerdista com os trabalhadores implica em ser contrário ao livre mercado e a favor do intervencionismo estatal. Então, já aqui começa a ficar claro que Hitler não se tornaria antimarxista por ser favorável às doutrinas econômicas de direita. Em outro ponto, Hitler afirma:

Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória, mas arrastará a humanidade à ruína. Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida. Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.

A relação que Adolf Hitler trava entre marxismo, social-democracia e o povo judeu começa a ficar mais explícita neste ponto. Perceba que Hitler fala em “propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia”, o que quer dizer que o líder nazista era adepto de uma teoria da conspiração. Ele achava que a social-democracia, bem como o marxismo escondiam seus verdadeiros objetivos que estavam ligados, de alguma forma, a objetivos também escondidos do povo judeu. Ele continua em outra parte:

Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.

Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.

Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do “povo escolhido”, quer se tratasse de membros do “Reichscrat”, de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória. Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão.

Só então compreendi quais eram os corruptores do povo. Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.

É preciso entender o raciocínio de Hitler dentro de seu contexto. Em sua época, os judeus estavam espalhados por toda a Europa. Havia realmente muitos judeus e nas mais diversas camadas sociais. Isso incomodava muitos europeus, que preservavam um espírito um pouco xenófobo. Deste modo, o pensamento anti-semita não era incomum e nem recente, mas vinha se desenvolvendo havia algumas décadas.

Não sabemos ao certo se havia algo mais que fazia Hitler odiar os judeus, mas é neste contexto de diversos judeus espalhados pela Europa e de xenofobia crescente, que Hitler começa a crer que existia um enorme plano maquiavélico judaico para dominar o mundo. A presença de judeus em diversas profissões e camadas sociais seria parte do plano. Cada qual estaria estrategicamente posicionado, infiltrando na cultura suas idéias, enriquecendo e tomando conta de espaços e trabalhos. Desta forma, social-democracia e marxismo seriam apenas dois instrumentos nas mãos dos judeus para alcançar sua meta suprema. Por isso, ele alerta:

Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter. A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio. Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

Fica evidente que Hitler enxergava o marxismo e todas as suas variações como braços do plano judaico de dominação mundial. Era isso que o fazia ser contrário ao marxismo. E para ele, a sua conclusão era fruto de muito estudo, conforme afirma em outro ponto:

Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Conforme vai chegando ao fim do livro, Hitler vai se tornando cada vez mais enfático quanto a relação entre marxismo e judaísmo. Diz:

O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão.

Sua concepção do assunto englobava tudo. Ele acreditava ter descoberto todos os enlaces do suposto plano judaico de dominação mundial. Ele fala, por exemplo, da questão econômica:

Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital” – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.

O entendimento de Hitler sobre a economia marxista era mais ou menos assim: o judeu encenava que estava lutando a favor do proletariado e que colocaria a economia em suas mãos. Ao mesmo tempo desprezava nacionalidades, criando uma mentalidade internacionalista. A idéia era quebrar as fronteiras entre países para que quando o judeu, em qualquer país, dominasse a economia, tivesse facilidade de dominar a economia de outras partes do mundo, já que não nacionalidades não mais importam e a economia marxista deve ser uma só. A isso Adolf Hitler denominava “capitalismo internacional judaico”. Vejamos:

O que a chamada imprensa liberal fez antes da guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus.

Em outro trecho, Hitler repete a dose:

Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.

Ainda em outro trecho é possível ler:

Se a fúria dos aproveitadores internacionais em Versalhes se dirigia contra o antigo exército alemão é que este era o último reduto das nossas liberdades na luta contra o capitalismo internacional. Não fosse essa força ameaçadora, a Intenção de Versalhes se teria realizado muito antes. O que o povo alemão deve ao exército pode-se resumir nesta palavra: tudo.

Hitler também fala em seu livro sobre como entendia a atuação dos judeus na imprensa. O seu raciocínio, embora fantasioso, não deixa de ser interessante. Ele cria que os judeus criavam uma aparência de luta entre burgueses e proletários, a fim de sempre ter a imprensa em suas mãos. Assim, se qualquer das classes, por algum motivo, perdesse uma batalha política, isso não iria afetar o plano judaico, pois na derrota de uma a outra permanecia. Ele escreve:

A conduta dos representantes do governo [alemão] falhou […]. De quando em vez, quando gravemente ofendidos, eles punham no xadrez algumas víboras jornalísticas [marxistas] por algumas semanas, ou mesmo meses, mas deixavam sempre o seu ninho em paz.

Tudo isso era a conseqüência, por um lado, da tática astuciosa dos judeus e, por outro, da conselheira estupidez ou da ingenuidade do mundo oficial. O judeu era esperto bastante para não consentir que toda a sua imprensa fosse, ao mesmo tempo, manietada. Uma parte da mesma estava sempre livre para acobertar a outra. Enquanto os jornais marxistas, da maneira mais baixa, combatiam o que de mais sagrado poderia parecer aos homens, investiam, pelos processos mais infames contra o governo e açulavam grandes setores da população uns contra os outros, as folhas democrático-burguesas dos judeus davam a aparência da mais notável preocupação com esses fatos, concentravam todas as suas forças, sabendo exatamente que os imbecis só sabem julgar pelas aparências, e jamais são capazes de penetrar no âmago das coisas. É a essa fraqueza humana que os judeus devem a consideração em que são tidos.

Um trecho interessante que mais uma vez demonstra o viés esquerdista de Hitler, mesmo sendo antimarxista, é quando ele começa a falar sobre como acreditava que se deveria agir contra a imprensa judaica. Afirma:

Um dia virá em que o judeu gritará bem alto nos seus jornais, quando sentir que uma mão forte está disposta a pôr fim a esse vergonhoso uso da imprensa, pondo esse instrumento de educação a serviço do Estado, retirando-o das mãos de estrangeiros e inimigos da nação. Acredito que essa empresa, para nós jovens, será menos incômoda do que o foi aos nossos pais. Uma granada de trinta centímetros fala mais alto do que mil víboras da imprensa judaica.

Neste trecho, o esquerdismo de Hitler é latente. Seu pensamento segue o molde de todas as doutrinas de esquerda. A esquerda se define pelo pressuposto básico de que o homem é capaz de resolver a crueldade e as injustiças sociais através de alguma ferramenta. Essa ferramenta quase sempre é o governo, que deve receber o máximo de funções possíveis, a fim de conquistar essa meta. A crueldade e as injustiças, por sua vez, são sempre causadas por inimigos que precisam ser combatidos. Assim, em todo governo esquerdista, sempre há uma luta apocalíptica entre o governo e os “inimigos” do bem-estar social.

O que difere as várias doutrinas esquerdistas uma das outras é a visão que cada uma delas possui sobre quem são os inimigos do bem-estar social. Para marxistas, os inimigos são os burgueses, os líderes religiosos e os conservadores. Para Adolf Hitler, no entanto, os inimigos eram os judeus, os estrangeiros que residiam na Alemanha, os negros, os deficientes e todos os que se afastavam do “perfil ariano”.

Então, perceba que Hitler define os inimigos do bem estar social, apresenta a mão forte do governo como a grande solução para o problema e afirma que a nova imprensa estaria a serviço do Estado, o que nada mais é do que intervencionismo estatal, controle de empresas privadas e oposição ao livre mercado. Tudo isso “em prol” do bem estar social. Ora, isso é economia de esquerda pura!

A coisa vai ficando mais interessante na medida em que Hitler começa a apontar o socialismo pregado pelo marxismo como algo falso, que, na realidade, pretende fazer exatamente o inverso do que prega: fortalecer o capitalismo. Torna-se claro que Hilter é um socialista que deseja implantar o que ele julga ser o verdadeiro socialismo. Ele diz:

Doravante, só resta ao operário a tarefa de pelejar pelo futuro do povo judeu. Sem se aperceber, entra a serviço da potência que ele tem a ilusão de combater. Com a aparência de deixá-la atacar o capital, é que se pode melhor fazê-la lutar pelo mesmo. Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa e a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional.

O processo aí empregado pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

Apresentando-a inseparavelmente ligada a toda uma série de exigências sociais bem legítimas, vai ele favorecendo sua propaganda e, por outro lado, despertando a aversão da humanidade bem intencionada em satisfazer aquelas exigências, que, expostas da maneira por que o são, aparecem desde o inicio, como injustas, e mesmo de impossível realização.

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores.

Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de “doutrina”. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.

Essa doutrina pode ser julgada justamente pelos seus desvarios em matéria econômica e política. Todos os que, de fato, são inteligentes hesitam em entrar no seu séquito, e os outros, a quem falta suficiente atividade intelectual ou preparo econômico, precipitam-se ao seu encontro. O judeu, dentro de suas próprias fileiras, “sacrifica” o elemento inteligente ao movimento, pois mesmo semelhante movimento não se pode manter sem inteligência. Assim cria-se um verdadeiro movimento trabalhista, sob a chefia de judeus. Aparentam visar à melhora das condições dos operários, tendo na mente, porém, em verdade, a escravização e o aniquilamento de todos os povos que não são judeus.

Impressionante esse trecho! Hitler deixa claro que não critica o marxismo tanto por seu conteúdo, mas por sua mentira. Ou seja, Hitler está querendo dizer que concorda com as propostas sociais marxistas, mas que se opõe ao marxismo porque, segundo ele, tudo não passa de um embuste judaico para escravizar as nações. É como se Hitler estivesse dizendo: “Ei! Vocês não são socialistas de verdade! São exploradores do povo!”. Para Hitler era claro que o “socialismo” marxista não passava de capitalismo judeu. A análise que ele faz do panorama mundial da época leva em conta essa concepção.

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional.

Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos.

As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça.

Que Hitler era anticapitalista fica claro aqui. Ele não pretendia destruir todo o sistema capitalista, é verdade. Mas para ser anticapitalista não é necessário ter essa intenção. Basta encarar o capitalismo em seu estado puro como algo ruim e procurar domá-lo através do governo, intervindo intensamente na economia e engessando o livre mercado e a livre concorrência. É aquela velha retórica esquerdista de controlar o “capitalismo selvagem” em prol da sociedade.

Também fica claro aqui que a briga entre marxistas e nacional socialistas era, na verdade, uma disputa entre duas doutrinas de esquerda que almejavam o status de “verdadeiro socialismo”, acusando-se um ao outro de “capitalista”. Esse tipo de disputa dentro do próprio pensamento de esquerda sempre foi muito comum. Revolucionários franceses dividiram-se em jacobinos e girondinos; revolucionários russos dividiram-se em bolcheviques e mencheviques; revolucionários bolcheviques dividiram-se em stalinistas e trotskistas; stalinistas também passaram a fazer oposição aos fascistas (que tinham profundas raízes marxistas). E por aí vai. Nenhuma dessas disputas, contudo, mudou o fato de que todas essas visões são de esquerda.

Hitler continua a acusar o marxismo de ser um socialismo de fachada:

De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas, mas, em verdade, constituem um bloco único: o movimento dos políticos e o dos sindicatos. Esse último é um trabalho de aliciamento. Na dura luta pela existência, que o operário tem que enfrentar, devido à ganância e à miopia de muitos patrões, o movimento lhe propõe ajuda e proteção e a possibilidade de combater por uma melhora nas suas condições de vida. […].

Na mesma proporção, a chamada burguesia nacional, cega pelo dinheiro, põe os maiores obstáculos a essa luta pela vida, opondo-se contra todas as tentativas de abreviação do horário de trabalho, desumanamente longo, supressão do trabalho infantil, segurança e proteção da mulher, melhoramento das condições sanitárias em oficinas e moradias, etc.

O judeu, mais inteligente, toma a defesa dos oprimidos. Aos poucos, torna-se o chefe do movimento social. Isso lhe é fácil, pois não se trata, na realidade, de combater com boa intenção as chagas sociais, mas somente de selecionar uma tropa de combate, nos meios proletários, que lhe seja cegamente devotada na campanha de destruição da independência econômica do país. Enquanto a chefia de uma sã política social não aceitar firmemente estas duas diretrizes: conservação da saúde do povo e segurança de uma independência nacional no terreno econômico, o judeu na sua luta não só descurará completamente esses dois problemas, como fará de sua supressão uma verdadeira finalidade. Não deseja ele a conservação de uma economia nacional independente, mas, ao contrário, o seu aniquilamento.

Em conseqüência, não há escrúpulos de consciência que possam demovê-lo, como chefe do movimento proletário, de fazer exigências, não só exorbitantes, como praticamente irrealizáveis e próprias a acarretar a ruína da economia nacional. Não cogita ele de ver uma geração sadia e robusta, deseja somente um rebanho contaminado e apto a ser subjugado. Com esse desideratum, faz exigências tão destituídas de senso que sua realização (ele não o ignora) se torna impossível e não pode provocar nenhuma modificação do estado de coisas existente. Serve apenas para excitar a massa popular até ao desvario. Isso, porém, é o que ele quer e não a modificação para melhor da situação do proletariado.

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é como Hitler se coloca como um genuíno socialista em suas descrições, em oposição aos marxistas, que seriam, segundo ele, embusteiros. O segundo é como Hitler liga cuidadosamente um ponto ao outro. Enquanto ele monta um perfil do inimigo supremo da sociedade (o judeu), dando crédito as suas palavras através de uma análise minuciosa dos mecanismos de engano supostamente usados por este povo, prepara o campo para suas idéias de governo. O parágrafo subseqüente diz:

A chefia do judeu na questão social se manterá até o dia em que uma campanha enorme em prol do esclarecimento das massas populares se exerça instruindo-as sobre sua miséria infinita, ou até que o Estado aniquile tanto o judeu como sua obra. É claro que, enquanto durar a falta de perspicácia do povo, e o Estado se conservar indiferente como o tem sido até hoje, as massas seguirão sempre de preferência aquele, cujas promessas, de ordem econômica, forem as mais audaciosas. Nisso, aliás, o judeu leva a palma, pois nenhum escrúpulo moral entrava a sua ação.

Mais uma vez o esquerdismo de Hitler é patente aqui. Ele invoca o poder do Estado mais uma vez para esclarecer às massas sobre suas misérias e para aniquilar o judeu. O Estado não pode “se conservar indiferente como o tem sido até hoje”. A partir daí, Hitler começa a investir pesado na “justificação” de seu racismo. E ele vai tão longe que afirma que o objetivo do Estado é preservar a raça pura. Diz:

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais, Ela vê, no Estado, em princípio, apenas um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme à eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos.

O Estado como ferramenta para o novo mundo e a luta entre raças nos oferece o tom de esquerdismo do nacional socialismo. No marxismo temos classes sociais. No nazismo temos raças. Mas, no fim das contas, temos em ambas as visões de mundo uma polarização da sociedade e um conflito que deve ser travado para que se alcance uma sociedade reformada. Neste momento que entra a função do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães:

Mas a organização de uma concepção do mundo só pode efetuar-se duradouramente sobre a base de uma fórmula definida e clara. Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a Religião. Por isso, a concepção racista do mundo tem de tornar-se um instrumento que permita ao Partido as devidas possibilidades de luta, tal como a organização partidária marxista abre o caminho para o internacionalismo. Esse fim visa o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Estava demorando! Depois de fazer toda a análise do problema da sociedade, Hitler vem com a solução, claro! A solução estava em um partido forte, regido por princípios quase religiosos, que iria transformar o Estado em um verdadeiro Estado socialista. Não há nada original neste ponto. O elogio ao fascismo italiano segue os moldes do pensamento esquerdista:

[…] a perseguição da imprensa internacionalista, assim como o constante combate ao marxismo internacional, por outro lado a constante consolidação da doutrina fascista, habilitarão, no curso dos anos, o governo italiano a, cada vez mais, poder servir aos interesses do seu povo, sem receio da hidra judaica.

Veja o raciocínio de Hitler: lutar contra os marxistas era possibilitar o governo a servir aos interesses do povo. Por quê? Porque o marxismo era apenas socialismo de fachada, uma doutrina político-econômica judaica de dominação mundial. A análise de Hitler é extensa. Ele não cita apenas a Itália, mas vários países europeus, explicando que em cada país os judeus agiam de uma maneira diferente para conseguir seus objetivos, sempre de acordo com as características do país. Então, cita a Rússia, falando sobre o perigo do bolchevismo russo para o mundo. Conclui:

Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser.

Acredito que estes textos deixam bem claro que o antimarxismo de Adolf Hitler nem chega perto de colocá-lo na posição de direitista. A verdade é que Hitler era um esquerdista fervoroso, que considerava o Nazismo como o verdadeiro socialismo e o marxismo como uma doutrina judaica de dominação mundial, a qual ele freqüentemente denominava como capitalismo judaico internacional.

Um pequeno adendo           

Achei por bem colocar um adendo no fim desse artigo. Há pessoas que podem continuar insistindo que Hitler era antimarxista por ser direitista, baseando-se em alguns trechos de Mein Kempf que são apontados por esquerdistas como prova de que Hitler comungava de idéias básicas da direita. Eu gostaria de analisar pelo menos dois desses trechos, a fim de não deixar dúvidas sobre o esquerdismo de Hitler. Os dois trechos que escolhi me parecem ser os mais contundentes e acredito que a análise deles poderá servir de base para a análise de outros que o leitor poderá fazer por si próprio, quando ler o livro. O primeiro trecho é esse:

A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.

Alegam os esquerdistas que esse trecho é uma prova de que Hitler era de direita por três motivos. Em primeiro lugar, porque ele defende o “princípio aristocrático da natureza”, que seria um princípio no qual a direita acredita e a esquerda repele. Em segundo lugar, porque exalta o individualismo, criticando o marxismo por sua noção coletivista de sociedade. E, em terceiro lugar, porque exalta nacionalidades e raças, que é algo considerado conservador por quem é de esquerda.

Todos esses pontos, contudo, são falhos. Vamos começar pelo tal “princípio aristocrático da natureza”. O que viria a ser isso? Bem, para Hitler esse princípio tinha a ver com a alegação de que existem raças diferentes de homens e que algumas raças são superiores às outras. O pensamento fundamental de direita, no entanto, jamais defendeu uma sandice dessas. Embora seja verdade que muitos direitistas, ao longo da história, tenham sido racistas, tais concepções não passavam de opiniões pessoais que nada tinham a ver com a visão de mundo da direita. Até porque, ser racista independe de posição política. Pode-se ser tanto um direitista racista como um esquerdista racista.

O que a esquerda faz aqui é, na verdade, uma grande confusão. Ela confunde o “princípio aristocrático da natureza”, de Hitler, com o “princípio da diversidade natural”, este sim, defendido pelo pensamento de direita. Segundo tal princípio, os seres humanos nascem com diferenças de habilidades e, dentro dessas habilidades, há ainda quem seja melhor do que o outro. Isso é óbvio e não há preconceito nesta idéia. Por exemplo, em uma sala de aula nem todos são bons em química. Talvez, de 30 alunos, apenas 10 se dêem bem nesta matéria. E dentro destes 10, certamente há um ou dois que é melhor do que os outros. Isso vale para qualquer habilidade. É por isso que existem hierarquias, divisões de funções e até mesmo uma divisão desigual de riquezas. Não obstante, acreditar nisso não significa acreditar em raças naturalmente inferiores ou superiores.

Ironicamente, a idéia de usar o racismo dentro da política para criar grupos de conflito no mundo é uma idéia que encontra maior aporte na esquerda. Afinal, a direita rechaça a idéia de ver o mundo como uma enorme luta entre classes, ao passo que a esquerda se baseia nisso. Burgueses x Proletários; Religiosos x Ateus; Conservadores x Radicais; Brancos x Negros; Heterossexuais x Homossexuais; Machistas x Feministas; Pró-vida x Pró-escolha e etc. O mundo esquerdista é polarizado. Tem que haver um grupo oprimido, que precisa se proteger e se vingar, e um grupo opressor, que precisa ser combatido. O mundo direitista não tem grupos. Só indivíduos. Assim, o princípio de Hitler é apenas uma variação da mentalidade grupal (ou classista) da esquerda.

Quanto à questão da exaltação do individualismo, feita por Hitler, há aqui um paradoxo. Todos reconhecem que o Nacional Socialismo não foi uma doutrina que defendeu a liberdade individual. O simples fato de criar um objetivo único para todos é uma prova de que o regime não tinha a intenção de dar autonomia de pensamento ao indivíduo, mas pretendia controlar sua vida através do Estado. Então, o que será que Hitler quis dizer quando criticou o marxismo por negar o valor do indivíduo?

A explicação é simples. Hitler havia reparado que a doutrina marxista criava uma enorme massa amorfa de pessoas através da mistura de nacionalidades e culturas diferentes. Tudo se perdia nessa mistura, pois a doutrina enxergava a todos como apenas proletários. Raça, cultura, língua, hábitos e nacionalidade eram engolidos por essa massa proletária. Como Hitler era essencialmente nacionalista e racista, ele precisava fazer seus leitores se sentirem desconfortáveis em relação à maneira como o marxismo via as pessoas. O que ele faz? Primeiro, ele mostra como que o indivíduo não tem valor no marxismo, pois é apenas mais um proletário. Depois define o indivíduo em termos de nacionalidade, raça, cultura, língua e hábitos (tudo o que a massa amorfa do marxismo não levava em conta). Por fim, apresenta o nazismo como uma ideologia que valorizava o indivíduo, já que levava em conta o que o definia.

A mágica estava feita. Com essa retórica, Hitler conseguiu fazer as pessoas se sentirem valorizadas dentro do nazismo. Como, de fato, existe um senso muito maior de aproximação entre pessoas de mesma nacionalidade, cultura e etc., elas não se sentiam dentro de uma massa amorfa, mas dentro de uma grande família. Contudo, o suposto individualismo de Adolf Hitler é refutado em seu próprio texto. Observe esse trecho:

O Estado nacionalista racista tem que cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, em tudo em que reconhecer o valor da personalidade, e, assim, introduzir, em todos os campos de atividade, aquela produtiva capacidade de direção que só ao indivíduo é concedida.

Veja a contradição: Hitler fala em valorizar a personalidade, o indivíduo, mas deixa claro que isso é obrigação do Estado, bem como é sua obrigação cuidar do bem-estar dos cidadãos. Sabemos o que eles quer dizer com essas palavras. Sua intenção é se intrometer na vida dos cidadãos, através do governo, ditando aquilo que o Estado acha que é bom para o indivíduo. Isso nada mais é do que coletivismo! Individualismo é o Estado deixar o indivíduo por si próprio.

Com relação à defesa de nacionalidades e raças feitas por Hitler, mais uma vez, isso não é doutrina de direita. A direita acredita em diferenças de habilidades entre as pessoas (o que leva à existência de hierarquia) e no patriotismo, que é bem diferente de nacionalismo. O patriotismo é o amor pela nação, enquanto o nacionalismo é a criação de uma classe política nacional que se opõe às outras nações. E eu torno a dizer que tal visão classista é uma variante da mentalidade classista comum à esquerda.

O segundo trecho que quero analisar é este:

A ação destruidora do judaísmo em vários aspectos da vida do povo, deve ser vista como um esforço constante para minar a importância da personalidade nas nações que os acolhem e substituí-la pela vontade das massas.

Os esquerdistas alegam aqui que a esquerda sempre prega que o poder seja dado ao povo, ao passo que Hitler abominava isso. Seria esta uma prova de que ele não era de esquerda, mas de direita. Verdade seja dita, Hitler não pregava que o povo tomasse o poder. Mas isso, no máximo, fazia dele um esquerdista mais sincero que os outros neste ponto. Afinal, todos os líderes esquerdistas que prometeram dar o poder ao povo, se tornaram ditadores. Eles não se consideraram ditadores, claro. Eram “representantes” do povo. Mas o fato é que jamais se viu o próprio povo governar. E certamente todo líder sabe que, ao fim de uma revolução, alguém vai ter que tomar as rédeas do governo e receber poderes despóticos. Hitler apenas não fingiu que isso não ocorreria. Foi direto ao ponto: tem que haver um líder.

Isso só reforça seu esquerdismo. Para a direita, a idéia de colocar todo o poder nas mãos do governo, seja por meio de uma só pessoa ou de um só partido, é ridícula, extremamente ridícula. Lembremo-nos dos pais fundadores dos EUA, conservadores até os cabelos. Eles tinham um medo terrível do despotismo. Por isso projetaram uma nação federalista e com um governo central bem limitado. Lógico que os EUA não são mais assim há tempos! Mas eram. E eram porque seus fundadores eram direitistas.

Então, se um homem pretende dar ao Estado um poder ilimitado e se tornar o grande líder da nação, a fim de mudar os problemas do mundo, isso certamente não é nem um pouco conservador. Na verdade, é progressista. O conservador tem medo desse tipo de revolução insana e prefere sempre a prudência.

As Algemas

POR FERNANDO PESSOA

Artigo publicado originalmente na Revista de Comércio e Contabilidade No.2, 25 de Fevereiro de de 1926.

Suponha o leitor que lhe dizíamos:

− Há um país em que, depois das oito horas da noite, é crime previsto e punido o comprar maçãs, bananas, uvas, ananases e tâmaras, sendo porém permitida a compra de damascos, figos, pêssegos e passas. Depois das oito horas não se pode ali legalmente comprar arenque, mas podem comprar-se salmão e linguado. Nesse país é crime comprar, depois das oito horas, um pastelão cozinhado, se estiver frio; mas a lei permite a sua venda se, conforme os dizeres, «estiver quente ou morno». A sopa em latas, que vários fabricantes fornecem, não pode ser comprada depois das oito horas, a não ser que o merceeiro a aqueça. Chocolates, doces, sorvetes não podem ser comprados depois das nove e meia da noite, estando porém abertas as lojas que os fornecem. O camarão é, nessa terra, um problema jurídico tremendo, pois existe um camarão em latas que se não sabe se tecnicamente é camarão ou conserva; e os jurisconsultos e legisladores desse país já uma vez reuniram em conclave solene para determinar a categoria jurídica do camarão nesse estado. Também nesse país se não pode comprar aspirina, ou outro qualquer analgésico, depois das oito horas da noite, a não ser, diz a lei, que o farmacêutico fique convencido de que «há motivos razoáveis para supor» que alguém tenha dores de cabeça. Não se pode, ainda nesse país, comprar, depois das oito horas da noite, um charuto ou um maço de cigarros num bufete de caminho de ferro, salvo se se comprar também comida para consumo no comboio.

Na agência de publicações, que há ali em qualquer gare, não é legal comprar, depois da mesma hora fatídica, um livro ou uma revista, ainda que a agência esteja, como em geral está, aberta. Nesse país…

Nesta altura, o leitor, irritado, interrompe…

− Não há país nenhum onde isso aconteça!… A não ser que se chame «país» a qualquer reino de revista de ano, ou a qualquer nação sonhada entre os quatro muros de Rilhafoles[1]…

Enganar-se-ia o leitor que efectivamente fizesse esse reparo. Existe, em verdade, o país onde se dão aquelas circunstâncias legais. Esse país é a Inglaterra − a livre e prática Inglaterra. E a lei que prescreve aquilo tudo, promulgada durante a Guerra e ainda em vigor, é a Defence of the Realm Act (Lei de Defesa do Reino!), popularmente conhecida, das iniciais do seu nome, pela designação de «Dora».

*

Fixemo-nos um pouco neste exemplo fantástico. Atentemos um momento neste caso espantoso. O que temos diante de nós é um sinal dos tempos. O ter-se chegado a promulgar, e o continuar-se a manter, num país de que se diz, não sem motivo, que está na vanguarda da civilização, uma lei da natureza delirante daquela cujas prescrições citámos, revela flagrantemente a que ponto se chegou no emprego legislativo da restrição do comércio e do consumo.

A legislação restritiva do comércio e do consumo, a regulamentação pelo Estado da vida puramente individual, era corrente na civilização monárquica da Idade Média, e no que dela permaneceu na subsequente. O século XIX considerou sempre seu título de glória o ter libertado, ou o ir libertando, progressivamente o indivíduo, social e economicamente, das peias do Estado. No fundo, a doutrina do século XIX − representada em seu relevo máximo nas teorias sociais de Spencer[2] – é uma rever- são à política da Grécia Antiga, expressa ainda para nós na Política de Aristóteles − que o Estado existe para o indivíduo, e não o indivíduo para o Estado, excepto quando um manifesto interesse colectivo, como na guerra, compele o indivíduo a abdicar da sua liberdade em proveito da defesa da sociedade, cuja existência, aliás, é a garantia do exercício dessa sua mesma liberdade.

se o Estado nos indica o que havemos de beber, porque não decretar o que havemos de comer, de vestir, de fazer? Porque não prescrever onde havemos de morar, com quem havemos de casar ou não casar, com quem havemos de dar-nos ou não dar-nos? (…) e se o Estado se dispõe a ser médico, tutor e ama para uma delas, por que razão se não disporá a sê-lo para todas?

Mas de há um tempo para cá − já desde antes da Guerra, mas sobretudo depois da Guerra, que teve por consequência acentuar certas tendências, e entre elas estas, esboçadas anteriormente − a tendência legislativa começou a ser exactamente contrária à do século anterior na prática, e à dos séculos anteriores na teoria. Recomeçou-se a restringir, social e economicamente, a liberdade do indivíduo. Começou a tolher-se, social e economicamente, a vida do comerciante.

O problema divide-se, evidentemente, em dois problemas − o social e político, e o comercial. O problema propriamente social resume-se nisto: que utilidade, geral ou particular, para a sociedade ou para o indivíduo, tem o emprego da legislação desta ordem? E o problema propriamente político é o da questão das funções legítimas do Estado, e dos seus naturais limites − um dos problemas mais graves, e porventura menos solúveis, da sociologia. Não pertence, porém, à índole [deste ensaio] o tratar destes problemas, nem, portanto, sequer determinar as causas íntimas do fenómeno legislativo cuja evolução acabámos de sumariamente descrever.

É o problema comercial que tem de preocupar-nos. E o problema comercial é este: Quais são as consequências comerciais, e económicas, da aplicação da legislação restritiva? E se as consequências não são comercial e economicamente benéficas, em proveito de quê, ou de quem, é que se julga legítimo, necessário ou conveniente produzir esse malefício comercial e económico? E dar-se-á efectivamente esse proveito?

É o que vamos examinar.

*

A legislação restritiva assume cinco aspectos, consoante o elemento social que pretende beneficiar. Há (1) a legislação restritiva que pretende beneficiar a colectividade, o país: é a que proíbe a importação de determinados artigos, em geral os chamados «de luxo», com o fito de evitar um desequilíbrio cambial. Há (2) a legislação restritiva que pretende beneficiar o consumidor colectivo: é a que proíbe a exportação de determinados artigos, em geral os chamados «de primeira necessidade», para que não escasseiem no mercado. Há (3) a legislação restritiva que pretende beneficiar o consumidor individual: é a que proíbe ou cerceia a venda de determinados artigos − desde a cocaína às bebidas alcoólicas − por o seu uso, ou fácil abuso, ser nocivo ao indivíduo; e aquela legislação corrente que proíbe, por exemplo, o jogo de azar é exactamente da mesma natureza. Há (4) a legislação restritiva que pretende beneficiar o operário e o empregado: é a que restringe as horas de trabalho, e as de abertura de estabelecimentos, e põe limites e condições ao exercício de determinados comércios e de determinadas indústrias. Há (5) a legislação restritiva que pretende beneficiar o industrial: é a legislação pautal na sua generalidade proteccionista.

Fixemos, desde já, o primeiro ponto; tiremos, desde já, a primeira conclusão, que é inevitável. Todos estes tipos de legislação restritiva − beneficiem ou não a quem pretendem beneficiar − prejudicam aquela desgraçada entidade chamada comerciante. A 1.ª espécie de legislação restritiva limita-lhe as importações; a 2.ª limita-lhe as exportações; a 3.ª limita-lhe as vendas; a 4.ª limita-lhe as condições de produção, se é também industrial, e as horas de venda, se é simples comerciante; a 5.ª restringe-lhe a liberdade de concorrer. Não consideremos agora se seria socialmente legítima ou ilegítima a liberdade que ele teria se essa vária legislação lha não restringisse. Fixemos apenas este ponto: toda esta legislação prejudica o comerciante, toda esta legislação tende a diminuir e afogar o comércio dum país, e, na proporção em que o faz, a cercear a expansão da sua vida económica. Este ponto fica assente, fica irrevogavelmente assente. Resta saber se há qualquer proveito social neste desproveito comercial, se qualquer dos elementos sociais, que se procura beneficiar com este prejuízo ao comércio, efectivamente beneficia com esse prejuízo.

*

A restrição das importações, e sobretudo a dos artigos «de luxo», não ocorreu nunca a qualquer cérebro lúcido como processo directo, ou fundamental, para melhorar o câmbio. todos sabem que a melhoria cambial tem de partir de origens mais vitais e mais profundas. Essa medida é tão-somente um processo acessório, de auxiliar, de tentar conseguir esta melhoria.

Mas essas importações, que se restringem, de alguma parte hão-de vir. E não é de supor que o país ou países de onde elas vêm aceitem de bom grado essa limitação, por pequena que seja, da sua exportação. Exercerão represálias − as chamadas represálias económicas. Restringirão, por sua vez, a nossa exportação para eles. E assim a limitação da nossa importação redundará numa limitação da nossa exportação. O impedir que saia ouro dará em impedir também que ele entre. Resultado final, pelo melhor: prejuízo para o comerciante importador; nenhuma influência real no câmbio; prejuízo para o comerciante exportador; perturbação da vida económica geral; irritação do consumidor. Resumo: prejuízo e nada.

*

A restrição da exportação, para que o artigo não falte no mercado, exerce-se evidentemente apenas quando se manifesta a tendência de exportar esses artigos de preferência a vendê-los no país. Ora, essa tendência só se manifestará se a exportação for mais remuneradora. E, havendo realmente consumo no país, a exportação será mais remuneradora só quando a moeda dele estiver desvalorizada. Ora, num país de moeda desvalorizada, um dos propósitos dos dirigentes deve ser valorizá-la; provocar e estimular a exportação é um dos processos mais directos para consegui-lo: mas proibir a exportação não é a maneira mais recomendável de a estimular. Isto, porém, é o menos. Limitar a exportação é limitar a produção. Obrigando o produtor, ou o comerciante seu agente, a vender abaixo do que pode vender, desconsola-se a produção e o comércio. Resulta que o produtor e o comerciante ou procuram a porta falsa do contrabando, com o que se lesa o Estado, e, portanto, a colectividade; ou baixam instintivamente a produção e a actividade de venda por verem limitados os seus interesses primários. Ninguém exerce de graça uma profissão, por generoso que seja fora do exercício dela. Depois, proibir a exportação é proibir o comércio de exportação. Como, quando se exporta, se exporta para alguma parte, e essa alguma parte, se não pode comprar a nós, comprará a outrem, segue que a limitação da nossa exportação é, muitas vezes, não só a limitação da exportação presente, mas também a da exportação futura, pois perdemos mercados que, mais tarde, quando a nossa exportação estiver reliberada, talvez já estejam conquistados por outrem e se nos não abram de novo com facilidade. Assim a legislação restritiva que visa abastecer o mercado nacional tende, no fim, para desabastecê-lo, e, quando visa restringir temporariamente a exportação, consegue, muitas vezes, restringi-la definitivamente.

*

Chegámos ao ponto cómico desta travessia legislativa. Chegámos ao exame daquela legislação restritiva que visa beneficiar o indivíduo, impedindo que ele faça mal à sua preciosa saúde moral e física. É este o caso de legislação restritiva que se acha tipicamente exemplificado no diploma que é o exemplo máximo de toda a legislação restritiva, quer quanto à sua natureza, quer quanto aos seus efeitos − a famosa Lei Seca dos Estados Unidos da América. Vejamos em que deu a operação dessa lei.

Não olhemos ao caso social; tratá-lo não está na índole […] deste artigo. Não consideremos o que há de deprimente e de ignóbil na circunstância de se prescrever a um adulto, a um homem, o que há-de beber e o que não há-de beber, de lhe pôr açaimo, como a um cão, ou colete-de-forças, como a um doido. Nem consideremos que, indo por esse caminho, não há lugar certo onde logicamente se deva parar: se o Estado nos indica o que havemos de beber, porque não decretar o que havemos de comer, de vestir, de fazer? Porque não prescrever onde havemos de morar, com quem havemos de casar ou não casar, com quem havemos de dar-nos ou não dar-nos? Todas estas coisas têm importância para a nossa saúde física e moral, e se o Estado se dispõe a ser médico, tutor e ama para uma delas, por que razão se não disporá a sê-lo para todas?

Não olhemos, também, a que este interesse paternal é exercido pelo Estado, e que o Estado não é uma entidade abstracta, mas se manifesta através de ministros, burocratas e fiscais − homens, ao que parece, e nossos semelhantes, e incompetentes, portanto, do ponto de vista moral, senão de todos os pontos de vista, para exercer sobre nós qualquer vigilância ou tutela em que sintamos uma autoridade plausível. Não olhemos a isto tudo, que indigna e repugna; olhemos só às consequências rigorosamente materiais da Lei Seca. Quais foram elas? Foram três.

  • Dada a criação necessária, para o «cumprimento» da Lei, de vastas legiões de fiscais − mal pagos, como quase sempre são os funcionários do Estado, relativamente ao meio em que vivem −, a fácil corruptibilidade desses elementos, neste caso tão solicitados, tornou a lei nula e inexistente para as pessoas de dinheiro, ou para as dispostas a gastá-lo. Assim, esta lei dum país democrático é, na verdade, restritiva apenas para as classes menos abastadas, e, particularmente, para os mais poupados e mais sóbrios dentro delas. Não há lei socialmente mais imoral do que uma que produz estes resultados. Temos, pois, como primeira consequência da Lei Seca, o acréscimo de corruptibilidade dos funcionários do Estado, e, ao mesmo tempo, o dos privilégios dos ricos sobre os pobres, e dos que gastam facilmente sobre os que poupam.
  • Paralelamente a esta larga corrupção dos fiscais do Estado, pagos, quando não para directamente fornecer bebidas alcoólicas, pelo menos para as não ver fornecer, estabeleceu-se, dentro do Estado propriamente dito, um segundo Estado, de contrabandistas, uma organização extensíssima, coordenada e disciplinada, com serviços complexos perfeitamente distribuídos, destinada à técnica variada da violação da lei. Ficou definitivamente criado e organizado o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. E dá-se o caso, maravilhoso de ironia, de serem estes elementos contrabandistas que energicamente se opõem à revogação da Lei Seca, pois que é dela que vivem. Afirma-se mesmo que, dada a poderosa influência, eleitoral e social, do Estado de Contrabandistas, não poderá ser revogada com facilidade essa lei. Temos, pois, como segunda consequência da Lei Seca, a substituição do comércio normal e honesto por um comércio anormal e desonesto, com a agravante de este, por ter de assumir uma organização poderosa para poder exercer-se, se tornar um Segundo Estado, anti-social, dentro do próprio Estado. E, como derivante desta segunda consequência, temos, é claro, o prejuízo do Estado, pois não é de supor que ele cobre impostos aos contrabandistas.
  • Quais foram, porém, as consequências da Lei Seca quanto aos fins que directamente visava? Já vimos que quem tem dinheiro, seja ou não alcoólico, continua a beber o que quiser. É igualmente evidente que quem tem pouco dinheiro, e é alcoólico, bebe da mesma maneira e gasta mais − isto é, prejudica-se fisicamente do mesmo modo, e financeiramente mais. Há ainda os casos, tragicamente numerosos, dos alcoólicos que, não podendo por qualquer razão obter bebidas alcoólicas normais, passaram a ingerir espantosos sucedâneos − loções de cabelo, por exemplo −, com resultados pouco moralizadores para a própria saúde. Surgiram também no mercado americano várias drogas não alcoólicas, mas ainda mais prejudiciais do que o álcool; essas são livremente vendidas, pois, se é certo que arruínam a saúde, arruínam-na, contudo, dentro da lei, e sem álcool. E o facto é que, segundo informação recente de fonte boa e autorizada, se bebe mais nos Estados Unidos depois da Lei Seca do que anteriormente se bebia. Concede-se, porém, aos que votaram e defendem este magno diploma, que numa secção do público ele produziu resultados benéficos − aqueles resultados que eles apontam no acréscimo de depósitos nos bancos populares e caixas económicas. Essa secção do público, composta de indivíduos trabalhadores, poupados e pouco alcoólicos, não podendo, com efeito, beber qualquer coisa alcoólica sem correr vários riscos e pagar muito dinheiro, passou, visto não ser dada freneticamente ao álcool, a abster-se dele, poupando assim dinheiro. Isto, sim, conseguiram os legisladores americanos − «moralizar» quem não precisava ser «moralizado». Temos, pois, como última consequência da Lei Seca, um efeito escusado e inútil sobre uma parte da população, um efeito nulo sobre outra e um efeito daninho e prejudicial sobre uma terceira.

A legislação (trabalhista) restritiva desta espécie (intervencionista) é responsável por grande parte das crises industriais e comerciais com que o mundo inteiro hoje se vê a braços. E como a classe dos empregados e operários não é (..) composta de gente rica, é de supor que seja essa classe uma das que (…) mais vêm a sofrer com os resultados últimos da legislação que foi feita para seu exclusivo benefício.

A Lei Seca, é certo, é um caso extremo. Mas um caso extremo é como que um caso típico visto ao microscópio: revela flagrantemente as falhas e as irregularidades dele. O caso da Lei Seca é extremo por duas razões − porque a Lei Seca é uma lei absolutamente radical, e porque, principalmente em virtude disso, o Estado se viu obrigado a esforçar-se para que ela efectivamente se cumprisse. As leis menos radicais desta ordem − como, entre nós, a que pretendeu restringir as horas de consumo das bebidas alcoólicas − naufragam na reacção surda e insistente do público, que as desdenha e despreza, e no desleixo de fiscalização do próprio Estado. Nascem mortas; e, como no caso dos monstros, o melhor é que assim aconteça, pois, se vivem, vivem a vida inútil e daninha da Lei Seca dos Estados Unidos.

*

A legislação que restringe as horas de trabalho dos operários e dos empregados, e que, devidamente, limita, por exemplo, as horas de estarem abertos os estabelecimentos comerciais e industriais, seria aceitável se, para a sua promulgação, se estudasse devidamente o equilíbrio a estabelecer entre as concessões legítimas a fazer aos operários e empregados, e as necessidades, não menos legítimas, da produção e do consumo. Em quase nenhuma lei desta ordem se atende a este equilíbrio. O operário ou empregado é considerado como um ente à parte, fora do giro económico da sociedade onde vive, misteriosamente desligado do industrial ou comerciante que o emprega, e do consumidor a quem este serve. Legisla-se, em favor do operário ou empregado, contra o comerciante e o industrial; e contra o consumidor; e supõe-se que sobre esse mesmo empregado ou operário não recairão nunca os efeitos dessa legislação. Limita-se a produção com restrições sobre restrições das horas e das condições de trabalho; irrita-se o consumidor com limitações sobre limitações das horas e das condições de compra e de consumo. Quando, depois, a produção baixa, o consumo se perturba e decresce, e a estrutura social inteira (incluindo o operário e o empregado) se sente variadamente disso, olha-se para essas consequências como para um ciclone ou um terramoto, uma coisa vinda de fora e inteiramente imprevisível.

Expor o assunto é, neste caso, já criticá-lo. A legislação restritiva desta espécie é responsável por grande parte das crises industriais e comerciais com que o mundo inteiro hoje se vê a braços. E como a classe dos empregados e operários não é, em geral, composta de gente rica, é de supor que seja essa classe uma das que, finalmente, mais vêm a sofrer com os resultados últimos da legislação que foi feita para seu exclusivo benefício.

*

A legislação pautal, que visa proteger indústrias nacionais, enferma ordinariamente de um mal parecido com o de que sofre a legislação operária, a que acabámos de referir-nos. raras vezes se estuda devidamente o equilíbrio a estabelecer entre os interesses dessas indústrias e os interesses do consumidor. Por isso o proteccionismo é frequentemente excessivo, e daí resulta, em uns casos, o afastamento do consumidor, e um consequente prejuízo para a própria indústria que se pretendeu beneficiar; em outros casos, em que o consumo é «forçado» e a venda, portanto, certa, o assumir a indústria protegida um carácter parasitário, que a desvitaliza e assim a desprepara para as contingências económicas do futuro. A legislação proteccionista, quando sabiamente orientada, consegue realmente proteger e animar a indústria nacional; mas o ser sabiamente orientada quer dizer que nela se estudaram bem os interesses diversos do consumidor e do comerciante importador. E se estes interesses se estudaram, e se equilibraram com os do industrial, não se trata já de uma lei restritiva, mas de uma simples medida económica sem carácter especial. As leis proteccionistas só podem dizer-se restritivas quando das pautas resulta um proibicionismo evidente. São as desta ordem que caem dentro do nosso estudo, e é a elas que se aplicam as considerações acima feitas.

Examinados, assim, todos os géneros de legislação restritiva, chegámos à conclusão que todos eles têm em comum: (1) prejudicar o comerciante, (2) produzir perturbações económicas, (3) nunca beneficiar, e as mais das vezes prejudicar, as próprias classes em cujo proveito essas leis foram feitas. A legislação restritiva, em todos os seus ramos, resulta, portanto, inútil e nociva.

Nenhuma lei é benéfica se ataca qualquer classe social ou restringe a sua liberdade. As classes sociais não vivem separadas, em compartimentos estanques. Vivem em perpétua interdependência, em constante interpenetração. O que lesa uma, lesa todas. A lei que ataca uma, é todas que ataca. Todo este artigo é uma demonstração desse facto.

Não é, pois, só o comerciante mas o público em geral que tem o dever para consigo mesmo de reagir enérgica e constantemente contra a promulgação das leis restritivas, invariavelmente maléficas, como se demonstrou, por benéficas que pareçam ou as intitulem.

Fernando Pessoa foi poeta, escritor e filosofo. Tendo também trabalhado nas áreas de jornalismo, empreendedorismo, comentarista político, tradutor, crítico literário e em muitas outras, é reconhecido não apenas como um dos maiores poetas da língua portuguesa como da literatura mundial.

Veja também:

Artigos:
Protecionismo, por Murray Rothbard – Instituto Mises
A economia do mercado negro em uma página, por Danny G. Leroy – Instituto Mises
Estado-babá, por favor me acuda! (Edição Livraria), por Magno Karl – Ordem Livre
32 reflexões pela liberalão das drogas – Ordem Livre
Pela abolição dos salários mínimos, por Hans F. Sennholz – Instituto Mises
A História da Guerra às Drogas… em Quadrinhos!

Vídeos:
A verdade sobre os sindicatos de professores – Portal Libertarianismo
Liberdade econômica e qualidade de vida – Portal Libertarianismo
Milton Friedman sobre regulação alimentícia e direitos civis – Portal Libertarianismo
Hayek sobre sindicatos – Portal Libertarianismo
Quem regula os reguladores? – Portal Libertarianismo
Milton Friedman: Salário Mínimo – Portal Libertarianismo
Milton Friedman: porque as drogas deveriam ser legalizadas – Portal Libertarianismo
Livre Comércio x Protecionismo – Portal Libertarianismo

Notas do redator:

[1] Rilhafoles era o nome do hospital para doentes mentais, vulgo manicómio, de Lisboa, conhecido por esse nome durante muito tempo, mesmo depois de ter sido rebaptizado como Hospital de Miguel Bombarda, em homenagem ao psiquiatra e político republicano que o dirigiu.
[2] Herbert Spencer (1820-1903), filósofo, sociólogo e teórico liberal inglês que defendeu a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado e que cunhou a expressão «sobrevivência dos mais aptos» na obra Princípios de Biologia, após ter lido A Origem das Espécies, de Charles Darwin.

A Essência do Comércio

POR FERNANDO PESSOA

Artigo publicado originalmente na Revista de Comércio e Contabilidade, ano de 1926, (1o trimestre)

Aqui há anos, antes da Grande Guerra, correu os meios ingleses, como exemplo demonstrativo da insinuação comercial alemã, a notícia do caso curioso das “taças para ovos” (egg-cups) que se vendiam na Índia.

O inglês costuma comer os ovos, a que nós chamamos “quentes”, não em copos e partidos, mas em pequenas taças de louça do feitio de meio ovo, e em que o ovo, portanto, entra até metade; partem a extremidade livre do ovo, e comem-no assim, com uma colher de chá, depois de lhe ter deitado sal e pimenta. na Índia, colónia britânica, assim se comiam, e naturalmente ainda se comem, os ovos “quentes”. Como é de supor, eram casas inglesas as que, por tradição aparentemente inquebrável, exportavam para a Índia as taças para este fim.

Sucedeu, porém, que, alguns anos antes da Guerra, as firmas inglesas exportadoras deste artigo notaram que a procura dele na Índia decrescera quase até zero. Estranharam o facto, buscaram saber a causa, e não tardou que descobrissem que estavam sendo batidas por casas exportadoras alemãs, que vendiam idêntico artigo ao mesmo preço.

Se as casas alemãs houvessem entrado no mercado indiano com o artigo a preços mais baixos, sem dúvida que os agentes dos exportadores ingleses teriam advertido estes sem demora. Mas, como o preço era igual, e a qualidade igual também, não era necessário o aviso; nem houve receio senão quando se verificou que havia razão para mais que receio – isto é, quando se verificou que, nestas condições de duvidosa vantagem para um novo concorrente, o artigo alemão vencera por completo.

Feita a averiguação curiosa da causa deste mistério, não tardou que se descobrisse. Os ovos das galinhas indianas eram − e naturalmente ainda são − ligeiramente maiores do que os das galinhas da Europa, ou, pelo menos, das da Grã-Bretanha. Os fabricantes ingleses exportavam as taças de tipo único que produziam para o consumo doméstico. Essas taças, evidentemente, serviam de um modo imperfeito aos ovos das galinhas da Índia. Os alemães notaram isto e fizeram taças ligeiramente maiores, próprias para receber esses ovos. não tinham de alterar qualidade (podiam, até, baixá-la), nem de diminuir preço: tinham certa a vitória por o que, em linguagem científica, se chama a adaptação ao meio. tinham resolvido, na Índia e para si, o problema de comer o ovo de Colombo.

*

Esta história, em aparência tão simples, encerra um ensinamento que todo o comerciante, que o não seja simplesmente por brincar às vendas, devia tomar a peito, compreender na sua essência.
Um comerciante, qualquer que seja, não é mais do que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama o seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Ora, toda a gente que serve deve, parece-nos, buscar agradar a quem serve. Para isso é preciso estudar a quem se serve − mas estudá-lo sem preconceitos nem antecipações; partindo, não do princípio de que os outros pensam como nós, mas do princípio de que, se queremos servir os outros (para lucrar com isso ou não), nós é que devemos pensar como eles: o que temos de ver é como é que eles efectivamente pensam, e não como é que nos seria agradável ou conveniente que eles pensassem.

Nada revela mais uma incapacidade fundamental para o exercício do comércio do que o hábito de concluir o que os outros querem sem estudar os outros, fechando-nos no gabinete da nossa própria cabeça, e esquecendo que os olhos e os ouvidos − os sentidos, enfim − é que fornecem os elementos que o nosso cérebro há-de elaborar, para com essa elaboração formar a nossa experiência.

O estudo do público, isto é, dos mercados, é de três ordens − económico, psicológico, e propriamente social. isto é, para entrar num mercado, seja doméstico ou estranho, é preciso (1) saber as condições de aceitação económica do artigo e aquelas em que trabalha, e em que oferece, a concorrência; (2) conhecer a índole dos compradores, para, à parte questões de preço, saber qual a melhor forma de apresentar, de distribuir e de réclamar[1] o artigo; (3) averiguar quais são as circunstâncias especiais, se as houver, que, de ordem profunda e social ou política, ou superficial e de moda ou de momento, obrigam a determinadas correcções no resultado dos dois estudos anteriores.

É espantoso − não: é pavoroso − o número de comerciantes que cotam para um mercado, estrangeiro e até nacional, espontaneamente ou solicitados, sem averiguar se não estarão cotando um preço que seja um disparate de tal ordem que os desqualifique intelectualmente − e a desqualificação intelectual é por vezes pior do que a moral − no espírito dos que recebem a oferta.

Quando um comerciante, que use a cabeça para fins mais interiores do que a colocação do chapéu, verifica que lhe é impossível cotar convenientemente para certo mercado, deve responder a um pedido de cotação que, dadas estas ou aquelas circunstâncias, não pode cotar nesse momento; ou que oferece a um preço mais alto do que o do mercado (mas mostre que conhece o preço do mercado), porém que o artigo, se é mais caro, é porque é melhor; ou que, por não ter nesse momento disponível senão um tipo desse artigo, não pode cotar senão em determinadas condições.

A maioria dos comerciantes − sim, e infelizmente, a maioria! – não faz isto, nem nada que disto se aproxime. Cota um preço, porque esse preço lhe dará certo lucro, e não olha a mais. não lhe passa pela cabeça, sequer, que é preciso, às vezes, não cotar com lucro, sendo essa ausência de lucro uma autêntica despesa de publicidade. E porque não lhe passa isto pela cabeça? Porque vive só no presente, e tem casa comercial sem amanhã. Porque não pensa que, mesmo quando se não possa cotar convenientemente, se deve atrair convenientemente; e que a demonstração de inteligência e de estudo das conveniências e necessidades alheias é uma demonstração da posição sobre os ombros de uma cabeça que contém miolos.

*

O estudo psicológico do mercado é também importante; mas, ao passo que o seu estudo económico é essencial e fundamental em qualquer género de comércio, é o comércio de retalho, e as formas do outro comércio (de origem directamente industrial) que com ele têm semelhança, que mais têm de atender a este elemento. A maneira de fabricar, de apresentar, de distribuir e de réclamar um artigo varia conforme a índole geral dos indivíduos que compõem o mercado onde se pretende vendê-lo. num meio de gente educada as condições são diferentes, para todos estes casos, das de um meio de analfabetos. Um meio provinciano − educado ou não − tem uma psicologia distinta da de um meio de cidade.

O modo de encarar a vida, ou pelo menos certos aspectos da vida, varia de país para país, de região para região. a humanidade, sem dúvida, é a mesma em toda a parte. Sucede, porém, que em toda a parte é diferente. é a mesma nas coisas essenciais, nos sentimentos fundamentais; mas, as mais das vezes, não são as coisas realmente essenciais que ela tem por essenciais, nem os sentimentos fundamentais que a preocupam como fundamentais. Em todos os tempos, em todas as terras, é o local, o superficial, o ocasional, o que mais tem preocupado a humanidade. Ora, é ao que mais preocupa a humanidade, e constitui, portanto, as suas necessidades, que o comércio essencialmente se dirige. E é por isso que o comerciante, que deveras o seja, tem para consigo mesmo o dever de estudar psicologicamente, e um a um, os agrupamentos humanos a que destina os seus artigos.

*

O estudo propriamente social do meio é aparentado com o seu estudo psicológico, mas, ao mesmo tempo, distinto dele. O estudo psicológico tem por objecto a mentalidade típica dos componentes de um determinado meio comerciável; o estudo propriamente social tem por objecto os hábitos puramente exteriores, as convenções, permanentes ou de acaso (e as estas últimas chama-se modas), e os caprichos incaracterísticos desses mesmos indivíduos. é claro que esses hábitos e essas convenções formam parte da índole dessa gente; mas é uma parte “externa”, que não pode ser adivinhada através de um estudo cuidadoso dos indivíduos, mas tem de ser conhecida, mais propriamente, através do estudo do meio em que eles vivem, considerado como destacado deles.

Suponhamos que temos de introduzir determinado artigo na Itália. nem para todos os artigos se dará − mas sem dúvida haverá alguns para cuja colocação importe considerar (à parte as circunstâncias económicas, de que não estamos agora tratando) o italiano como italiano; o italiano como romano, veneziano, genovês, etc.; o italiano como governado pelo regime fascista; o italiano como crescentemente detestador da França; e assim indefinida, mas, ao mesmo tempo, muito definidamente.

Um industrial que inventasse e produzisse um tipo de whisky novo, bom e barato, teria um mercado certo nas ilhas britânicas; mas, se tivesse a lembrança de ornar as garrafas desse líquido de um rótulo com a bandeira daquele império, não deveria admirar-se de ver a maioria dos habitantes do Estado Livre da irlanda impor-se o honroso sacrifício de o não beber. O produto estava psicologicamente certo para esse meio, mas estava “socialmente” errado. Parece-nos que assim transmitimos claramente ao leitor a ideia da distinção entre o critério psicológico, e o, por assim dizer, sociológico no estudo comercial dos mercados.

*

Em resumo: o comerciante é um servidor do público; tem de estudar esse público, e as diferenças de público para público se o artigo que vende ou explora não é limitado a um mercado só. O comerciante não pode ter opiniões, como comerciante, nem deve fazer comercialmente qualquer coisa que leve a crer que as tem. Um comerciante português que faça um rótulo encarnado e verde, ou azul e branco, comete um erro comercial: quem segue a política das cores do rótulo não lhe compra o produto por isso, e quem segue a política oposta deixa muitas vezes de o comprar. Por um lado não ganha, pelo outro perde.

Mais incisivamente ainda: o comerciante não tem personalidade, tem comércio; a sua personalidade deve estar subordinada, como comerciante, ao seu comércio; e o seu comércio está fatalmente subordinado ao seu mercado, isto é, ao público que o fará comércio, e não brincadeira de crianças com escritório e escrita.

Fernando Pessoa foi poeta, escritor e filosofo. Tendo também trabalhado nas áreas de jornalismo, empreendedorismo, comentarista político, tradutor, crítico literário e muitas outras, é reconhecido não apenas como um dos maiores poetas da língua portuguesa como da literatura mundial.

Nota do redator:
[1] Termo que caiu em desuso e que significava publicitar, anunciar, chamar a atenção (do francês réclame).

Quem foi J. R. R. Tolkien?

John Ronald Reuel Tolkien, mais conhecido como J. R. R. Tolkien, nasceu em 3 de janeiro de 1892 em Bloemfontein, no então Estado Livre de Orange, hoje África do Sul.

I. Família
Aos três anos parte com a sua mãe e com o seu irmão para a Inglaterra, onde pretendiam passar apenas uma temporada devido a questões de saúde da mãe, mas devido à morte do pai, eles ali permaneceram por toda a vida. O pai, um bancário que trabalhava para o Bank of Africa, contraiu febre reumática e morreu em 1896 no Estado Livre de Orange, antes de juntar-se à família, e foi enterrado na África.

II. Conversão ao Catolicismo
Em 1900 a situação financeira da família complicou-se. Mabel Suffield fazia parte da Igreja Anglicana, e quando tornou-se católica, sua família cortou a ajuda financeira que lhe dava, e assim ela morreu, por diabetes, sem tratamento na época. Tolkien, que considerava esse fato um sacrifício da mãe em nome da fé, converteu-se ao Catolicismo, religião na qual permaneceu até o fim da vida, tornando-se um católico fervoroso.

Tolkien e seu irmão foram entregues então aos cuidados do Padre jesuíta Francis Xavier Morgan, que Tolkien mais tarde descreveu como um segundo pai, e aquele que lhe ensinara o significado da caridade e do perdão.

III. Casamento
Conheceu Edith Bratt em 1908, quando ele e seu irmão Hilary foram alojados no mesmo local que a jovem, três anos mais velha, e os dois começam a namorar escondidos. Entretanto, seu tutor, o Padre Francis Morgan, descobriu a situação e, acreditando que este relacionamento fosse prejudicar a educação do rapaz, proibiu-o de vê-la até que completasse vinte e um anos, quando Tolkien alcançaria a maioridade. Na noite do seu vigésimo primeiro aniversário, Tolkien escreveu a Edith, e convenceu-a a casar-se com ele, apesar de ela já estar comprometida, e também converteu-a ao catolicismo. Juntos eles tiveram quatro filhos: John Francis, Michael Hilary, Christopher John e Priscilla Anne.

Tolkien era um pai dedicado. Essa característica mostrava-se bastante clara nos livros, muitas vezes escritos para seus filhos, como Roverandom, escrito quando um deles perdeu um cachorrinho de brinquedo na praia.

IV. Vida profissional e o sucesso na Literatura
Foi professor de língua e literatura anglo-saxônica e inglesa de 1925 a 1959 na Universidade de Oxford. Tolkien é mais conhecido por seus livros O Hobbit (1937), O senhor dos anéis, que compreende três volumes: A sociedade do anel, As duas torres e O retorno do rei (1954-55), e O Silmarilion (1977), todos ambientados no mundo mitológico da Terra-Média. Tolkien foi um católico ardoroso que lembrava-se e experimentara um período onde a liberdade religiosa ainda não estava completamente garantida na Grã-Bretanha. A fé, para Tolkien, como observa seu biógrafo literário Joseph Pearce, “não era uma opinião a que poderíamos subscrever, mas uma realidade a que deveríamos nos submeter.” De fato, o relacionamento de Tolkien com C. S. Lewis, seu colega na Universidade de Oxford, foi providencial para levar um Lewis desiludido de volta à fé cristã. A fé de Tolkien é tão central em seus livros sobre a Terra-média quanto sua preocupação em preservar a liberdade. Antes de se tornar um professor ilustre, Tolkien serviu no exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. As experiências em primeira mão que teve na Primeira Guerra trouxeram uma imensa preocupação, para não dizer uma total apreensão, com a ascensão do totalitarismo.

V. O Senhor dos Anéis e o Totalitarismo
O mal do poder totalitário é um dos temas centrais d’O senhor dos anéis. Como ele mesmo explicava, O senhor dos anéis é uma história “formulada em termos de um lado bom e um lado mau, da beleza contra a feiura cruel, da tirania contra a realeza, da liberdade moderada pelo consentimento contra a compulsão que há muito perdeu o objeto, salvo o mero poder, e assim por diante.” O enredo central d’O senhor dos anéis envolve a questão épica de destruir o Um anel, que continha o poder de governar toda a Terra-média. Ainda que as personagens e os acontecimentos d’O senhor dos anéis geralmente desafiem precisos paralelos alegóricos, o Um anel facilmente simboliza a corrupção e a tirania que resultam do poder político incontrolado. O Um anel dá ao usuário o poder de governar a Terra-média, mas também impõe uma escravidão inescapável para manter o poder a qualquer custo. Num determinado nível, O senhor dos anéis faz a alegoria da progressão de um tirano. Começando como governante, até mesmo com boas intenções, ele ou ela passa a ser governado por uma ânsia espasmódica de adquirir ainda mais poder e o desejo insaciável de esmagar qualquer liberdade. O tirano, então se torna tão escravo quanto seus súditos, onde tudo o que existe passa à um estado banal de servidão que repudia qualquer expressão de virtude.

VI. Morte
No dia 28 de Agosto de 1973 Tolkien sentiu-se mal durante uma festa, e na manhã do outro dia foi internado, com úlcera e hemorragia. No sábado descobriu-se uma infecção no peito.

Aos 81 anos de idade, então, nas primeiras horas do domingo de 2 de Setembro de 1973, J. R. R. Tolkien morre na Inglaterra. Foi enterrado junto com a esposa, no Cemitério de Wolvercote.

As raízes do estado intervencionista moderno

por Professor Dr. Antony P. Mueller. Doutor em economia pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, e atualmente atua como professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS). É o fundador do Continental Economics Institute e mantém os blogs Economia NovaCash and Currencies e Sociologia econômica.

Desde o fim do padrão-ouro, que foi abandonado com o início da Primeira Guerra Mundial, a posição intervencionista teve hegemonia na política econômica. A tese de que a economia e a sociedade precisam de correção tem sido a crença dominante durante o século passado até aos nossos tempos. Por sua própria natureza, o Estado moderno de bem-estar e de guerra é um Estado intervencionista. Como não consegue seu objetivo, e cada intervenção requer uma nova intervenção, este tipo de Estado é expansionista e autodestrutivo ao mesmo tempo.

Economia de guerra

O início da Primeira Guerra Mundial marcou o início da economia de guerra. Os governos começaram a intervir cada vez mais na economia e, antes que o comunismo soviético fosse lançado em 1917, os países beligerantes já tinham instalado sistemas de comunismo de guerra. De fato, para os revolucionários russos, a economia de guerra representou o ideal de uma economia planificada e um exemplo que deveria ser seguido também em tempos de paz.

O caos intervencionista na economia global continuou depois da Primeira Guerra Mundial ter terminado. O comunismo não gerou bem-estar geral como prometido, mas a coletivização na União Soviética provocou pobreza e fome em massa em dimensões que beiravam o genocídio. Depois da destruição da guerra, a Alemanha foi devastada mais uma vez pela hiperinflação e pelas indenizações de guerra. O grande império austro-húngaro tornou-se uma colcha de retalhos de países. Já nos anos 1920, a economia do Reino Unido se encontrou em estagnação antes mesmo de ter sido atingida pela Grande Depressão dos anos 30. Em muitos países as relações políticas domésticas foram marcadas pela desconfiança entre as classes sociais e guerras civis. Agressões profundas dominavam as relações internacionais. Dos combatentes, somente os Estados Unidos haviam atingido o seu objetivo de guerra. Com os rivais europeus desintegrados, os Estados Unidos tinham o caminho aberto para se tornar a grande superpotência do século 20 em diante.

O surgimento da classe burocrática e militar

Já antes da Primeira Guerra Mundial as ideias intervencionistas começavam a florescer na classe intelectual. O imenso progresso econômico que chegou com a revolução industrial inspirou a fantasia dos intelectuais e incendiou os desejos das massas de criar um Estado de bem-estar que não viria da economia de mercado e da laboriosidade e criatividade dos empresários e dos trabalhadores, mas do Estado com seus políticos e burocratas. Muitos intelectuais escolheram o lado do Estado porque foi o Estado quem lhes ofereceu emprego. O Estado moderno intervencionista se tornou operacional baseado na burocracia e na educação pública. Com a expansão da atividade estatal veio a criação de posições poderosas para os burocratas legalmente treinados como funcionários públicos. Com o Estado moderno surgiu a existência da burocracia ao lado da antiga classe militar.

As raízes fascistas do Estado moderno

Os pronunciamentos iniciais do fascismo refletem a sua ligação com o socialismo revolucionário e a sua pretensão de proporcionar bem-estar através de uma nova organização da sociedade e da Economia. Controlar a Economia, colocando-a sob a autoridade do Estado enquanto no mesmo deixando a propriedade privada formalmente intacta é a característica específica do capitalismo de Estado fascista.

Manifesto Fascista, proclamado em 1919 por Alceste De Abris e Filippo Tommaso Marinetti, exigia o sufrágio universal e a representação proporcional do eleitorado. Os autores exigiam o estabelecimento de um sistema corporativista de “conselhos nacionais” formados por especialistas que deveriam ser eleitos a partir das suas organizações profissionais. O Manifesto pedia uma jornada de oito horas de trabalho e um salário mínimo. Exigia também a representação dos trabalhadores na gestão industrial e a igualdade dos representantes dos sindicatos industriais com executivos empresariais e funcionários públicos. Os autores do Manifesto Fascista exigiam uma tributação progressiva, seguro de invalidez e aposentadoria antecipada.

Em 1922, Benito Mussolini chegou ao poder na Itália e começou a realizar a maior parte do programa fascista. Hitler tomou o poder ditatorial na Alemanha em 1933 e instalou a radicalização da agenda fascista em forma do nacional-socialismo. Ao início dos anos 1930, o intervencionismo fascista junto com o planejamento central do comunismo se tornou um movimento global. No mundo em desenvolvimento, o presidente brasileiro Getúlio Vargas introduziu uma disposição vasta das leis trabalhistas de proteção, que lhe valeu o apoio dos sindicatos e da classe trabalhadora, e organizou o Estado corporativista. Vargas criou a versão brasileira do fascismo como “integralismo” através da instalação do “Estado Novo“. O legado de Vargas vive até hoje no Brasil. Depois de várias tentativas nas décadas anteriores, foi a vez de Juan Domingo Perón estabelecer inteiramente um Estado intervencionista na Argentina nos anos 50, e criar um sistema que continua a bloquear o progresso econômico deste país até hoje, em um labirinto apertado de regulamentações e intervenções.

Intervencionismo macroeconômico

Enquanto a depressão continuava nos Estados Unidos, o desemprego na Alemanha foi reduzido à metade já em 1935 e a economia aproximou-se do pleno emprego em 1936 — o mesmo ano em que John Maynard Keynes publicou sua teoria sobre como superar depressões. No prefácio da edição alemã da “Teoria Geral”, Keynes elogiou o sucesso da ditadura em combater o desemprego com obras públicas.

Os programas de governo para estimular a economia marcaram o regime de Hitler. Na verdade, ele apenas tinha que tirar os planos para obras públicas das gavetas da burocracia dos governos anteriores. Embora estes projetos tenham sido concebidos anos antes, não foram realizados por temor de uma nova hiperinflação. O regime ditatorial de Hitler conseguiu realizar as obras públicas por ter imposto um controle ditatorial sobre preços e salários. Desta forma as consequências inflacionárias e as profundas distorções microeconômicas desta política permaneceram escondidas e o mito do sucesso do combate ao desemprego com obras públicas nasceu.

Hoje em dia, o Estado intervencionista está presente em todos os lugares da sociedade, a compor um novo tipo de totalitarismo. Tornou-se comum esperar emprego, saúde, educação, segurança interna e externa e muito mais do Estado. Mas esta expansão do intervencionismo acontece por causa da lógica perversa de que quanto maior o fracasso de uma medida intervencionista, maior o estímulo para se ampliar o intervencionismo. Nada se resolve com a nova medida, mas a presença da política cresce.

Conclusão

O nazismo e o comunismo desaparecerem pela sua própria natureza autodestrutiva. O Estado intervencionista de hoje opera de maneira mais sutil, mas o Estado intervencionista moderno nunca perdeu sua marca de nascença obtida na Primeira Guerra Mundial, com as características essenciais adquiridas no período da instalação do comunismo e do fascismo.

Em sua versão moderna o Estado não é muito menos totalitário do que era em suas raízes históricas. Em vez de vir de um único partido, o totalitarismo moderno se expressa intelectualmente em sua universalidade reclamada pelo politicamente correto e economicamente pelo sua onipresença.

Cinco fatos que irritarão o seu professor de economia keynesiano

Postado originalmente no Portal Libertarianismo. Escrito por Andrew Criscione, com tradução de Russ da Silva e revisão de Erick Vasconcelos.

Nem todo professor de faculdade é um keynesiano, mas há uma boa chance que o seu seja, ou ao menos siga alguma parte do pensamento keynesiano. Se esse for o caso, aqui estão alguns fatos engraçados que você pode trazer à tona que profanam a visão de mundo keynesiana.

1) A não tão Grande Depressão de 1920-21

A Grande Depressão (1929 – 1946) foi uma época horrível e se tornou o principal tópico discutido no debate atual sobre políticas econômicas. Porém, poucas pessoas mencionam a depressão de 1920-21. Ao contrário da Grande Depressão, que durou mais de quinze anos, a Depressão de 1920 durou apenas um ano. Durante a Grande Depressão, gigantescos estímulos econômicos foram utilizados pelo governo.  Todos sabem que Franklin Delano Roosevelt foi um grande apoiador dos estímulos econômicos governamentais, isto é, do aumento da dívida e dos gastos públicos e menores taxas de juros. Mas se esquece que Herbert Hoover também deu enormes estímulos da mesma natureza.[1] Agora veja o contraste da depressão de 1920, a qual foi tratada, como Jim Grant descreveu no Washington Post, com:

Aumentos das taxas de juros, reduções do déficit público e equilíbrio do orçamento federal. A depressão durou apenas dezoito meses.[2]

A receita keynesiana de diminuir as taxas de juros e aumentar os gastos governamentais não foi somente ignorada, o exato oposto foi feito. Deixe os economistas do século XXI esfregarem os olhos em descrença.

2) A ausência da Depressão de 1946

Milhões de norte-americanos foram empregados em serviços militares em 1945 e de acordo com a lógica keynesiana, se todos fossem demitidos ao mesmo tempo e os gastos governamentais fossem drasticamente cortados, uma enorme depressão aconteceria.

O proeminente keynesiano Paul Samuelson afirmou:

“Quando a guerra chegar ao fim, mais da metade dos trabalhadores dependerá direta ou indiretamente do exército. Nós teremos em torno de 10 milhões de trabalhadores jogados no mercado de trabalho […]. Se a guerra terminasse subitamente nos próximos 6 meses, se planejássemos acabar com nossos esforços de guerra o mais rápido possível, desmobilizar nossas forças armadas, liquidar o controle de preços, diminuir nossos déficits astronômicos para talvez os níveis ainda altíssimos dos anos 1930, seríamos levados ao maior período de desemprego e desarticulação industrial que qualquer economia jamais enfrentou.”

E de fato, as tropas foram dispensadas, os controles de preços acabaram e os gastos do governo federal foram cortados em incríveis 61%. A maior catástrofe econômica da história ocorreu? Não, a economia entrou em uma grande época de prosperidade do fim dos anos 1940 até os anos 1950, uma vez que recursos foram tomados do setor improdutivo do Estado e alocados para o produtivo setor privado. [3]

3) A Harvard Business School mostrou em estudo que estímulos estatais prejudicam a economia

A teoria keynesiana não diferencia bons gastos de maus gastos: todo gasto em uma recessão ou depressão é bom para a economia. Na verdade, Keynes notoriamente disse isso:

Se o Tesouro enchesse garrafas antigas com cédulas de dinheiro, as enterrasse em profundidades consideráveis em minas de carvão desativadas, as quais seriam enchidas até a superfície com lixo de cidades e deixasse para a iniciativa privada cavar as cédulas novamente sob os bem testados princípios do laissez faire […] não haveria mais desemprego.[4]

Então qualquer estudo que mostre que gastos governamentais prejudicam a economia dá um golpe fatal na teoria keynesiana, porém, isso é precisamente o que o estudo da Harvard Business School concluiu:

Pesquisas recentes na Harvard Business School começaram com a premissa que assim que uma delegação congressista de um estado cresce em estatura e poder em Washington, D.C., empresários desse estado se beneficiariam do crescimento dos gastos federais que viriam para ajudá-los. O que aconteceu na verdade foi o contrário. Na verdade, os professores Lauren Cohen, Joshua Coval e Christopher Malloy descobriram surpresos que companhias obtiveram menores vendas e diminuíram gastos, cortando a folha de pagamento, pesquisa e desenvolvimento e outros gastos… “O estado sofre em média um aumento de 40 a 50 por cento  em gastos se o seu senador se tornar presidente de um dos três maiores comitês.” [5]

Conforme o governo aumenta seus gastos, ele acaba ocupando uma maior parcela da economia: o governo arrebata recursos e expulsa investimentos privados.

4) Os anos 1870

Durante a década de 1870, preços nos EUA estavam em queda. A teoria keynesiana diz que salários são “rígidos para baixo”. Isso significa que: se preços como um todo estão caindo, haverá alto desemprego. Mas isso não ocorreu na década de 1870:

Historiadores há muito tempo atribuíram a crise a uma “grande depressão da década de 1870.” Porém, reconstruções detalhadas recentes feitas por historiadores da economia de dados do século XIX, mostram que não houve depressão na década de 1870: com a exceção da recessão de 1873, na verdade, a década de 1870 foi possivelmente uma das de maior crescimento econômico sustentável da história dos EUA. Os empregos crescerem fortemente, mais rápido que a taxa de imigração; o consumo de comida e outros bens cresceu em todo o país. Em escala per capita, quase todos os índices de produção subiram de forma espetacular. Até o final da década, as pessoas estavam melhor alojadas, mais bem  vestidas e viviam em fazendas maiores.

A economia aumentou a produção mais rápido do que a quantidade de dólares. Hoje, em algumas indústrias de crescimento muito rápido, como telefones celulares e laptops, os preços caem, mas em quase todas as outras indústrias cresce a um ritmo mais lento do que a oferta de moeda, e isso significa que os preços sobem. Mas isto não tem que ser o caso.

5) Estagflação

De acordo com a teoria keynesiana, preços estão subindo e desemprego está caindo ou preços estão caindo e desemprego está subindo: uma situação onde preços estão subindo e desemprego está subindo é impossível. Porém, isso é falso, pois:

Nos anos 1970, no entanto, muitos países ocidentais experimentaram a “estagflação”, ou desemprego alto e inflação simultaneamente, um fenômeno que contradiz a visão de Keynes.[7]

Até hoje estudantes de macroeconomia aprendem que há um trade-off direto entre inflação e desemprego. Porém, os anos 1970 mostram que isso é claramente falso.

Então, o que é que está acontecendo?

Apesar de enormes falhas da teoria keynesiana, como é que essa teoria continua sendo a teoria mais ensinada na profissão de economista? É uma questão que está aí para debate, porem, assinalarei esse fato: o Banco Central é uma instituição que explicitamente keynesiana em suas políticas. O Banco Central diminui os juros durante recessões com o intuito de estimular a economia. Isso também é conhecido como imprimir dinheiro. E quais são algumas das coisas que ele faz com esse dinheiro?

O Banco Central, através de sua extensa rede de consultores, acadêmicos visitantes, alunos e economistas domina tão completamente o campo da economia que a crítica real do banco central tornou-se uma deficiência de carreira para os membros da profissão. [8]

Agora, eu não confrontaria o seu professor, acusando-o de corrupto, ele é quem dá suas notas. Porém, o envolvimento do Banco Central na academia é um fato interessante de se perceber.

Notas

[1] http://www.voxeu.org/index.php?q=node/4105

[2] http://www.washingtonpost.com/opinions/warren-harding-curing-a-depression-through-austerity/2012/01/19/gIQA5VEsEQ_story_1.html

[3] http://econlog.econlib.org/archives/2010/07/paul_samuelsons.html

[4] https://www.mtholyoke.edu/courses/sgabriel/keynes.htm

[5] http://hbswk.hbs.edu/item/6420.html?wknews=052410

[6] http://www.nytimes.com/2006/06/02/opinion/02morris.html?_r=1

[7] http://www.britannica.com/EBchecked/topic/668896/stagflation

[8] http://www.huffingtonpost.com/2009/09/07/priceless-how-the-federal_n_278805.html

O capitalismo no Canadá

É comum ver pessoas que ao pensar em capitalismo se lembram dos Estados Unidos. Porém, atualmente na América do Norte a referência capitalista está se tornando o vizinho mais ao norte, o Canadá.

No passado, assim como os EUA, o Canadá era uma uma nação focada na liberdade individual (de certa forma, inspirada no modelo americano). Wilfrid Laurier, que foi primeiro-ministro de 1896 a 1911, era um dos principais nomes dessa época. Laurier foi o primeiro francófono primeiro-ministro do Canadá e diferente de muitos ele defendia a união entre o “Canadá francês” com o “Canadá inglês”. Grande defensor da liberdade individual e do federalismo (modelo descentralizado), fez grandes discursos e os colocou em prática, como “o Canadá é livre e liberdade é sua nacionalidade” e “nada vai me parar no objetivo de continuar a preservar sob todos os custos nossa liberdade civil”.

Sir Wilfrid Laurier

Como resultado, Laurier foi o quarto primeiro-ministro que mais tempo exerceu o cargo, porém vencendo quatro vezes consecutivas (e que continua como o atual recorde), além de quinze anos consecutivos no cargo, outro recorde. Trabalhou quarenta e cinco anos no parlamento canadense (de 1874 até 1919, ano de sua morte), mais um recorde, além de ser o líder do partido (o Partido Liberal, antes do mesmo se aproximar da social-democracia) por mais de trinta e um anos. Naquele período, o Canadá teve o maior crescimento econômico do mundo, junto com os EUA.

Durante a Primeira Guerra Mundial, houve um crescimento econômico artificial baseado na guerra. Após a guerra, o capital produtivo precisou ser realocado para gerar um crescimento econômico real. Depois dessa pequena porém severa recessão, a economia voltou a crescer. Mas com a Grande Depressão, a situação complicou-se bastante, pois a economia canadense tinha grandes relações com os EUA. O desemprego e a violência aumentaram, ao passo que a imigração teve de diminuir. Não houve nenhum New Deal no Canadá, mas somente a Segunda Guerra Mundial já foi o suficiente para maquiar bastante as dificuldades decorrentes da crise de 1929, principalmente o desemprego, artificialmente zerado.

Após a guerra, seguiu-se mais um bom período de crescimento pois todo o empenho para a produção bélica passou a ser utilizado para produção de bens e serviços. Porém, assim como diversos outros países, também surge um Estado de bem-estar social, criado pelo Partido Liberal, mudando as ações partidárias do tempo de Laurier. Com o tempo, surgiram déficits governamentais. No final dos anos 90, iniciou-se uma abertura econômica e hoje a economia do Canadá é mais liberal que a dos EUA em diversos aspectos.

Lago Moraine e Calgary, maravilhas de Alberta: glaciais e metrópoles.

Atualmente, existem algumas disparidades no Canadá. O Quebec, por exemplo, após o crescimento do estado de bem-estar social, manteve suas políticas social-democratas. Porém Alberta, uma das províncias das pradarias canadenses, vem chamando a atenção: mescla um conservadorismo social com liberdade econômica, isso tudo aliado a descoberta de petróleo.

Alberta hoje tem o maior IDH do Canadá, além do segundo maior PIB per capita, atrás apenas dos Territórios do Noroeste. Porém, os territórios mais ao norte são subsidiados pelo governo federal e têm uma pequena população, jogando indicadores econômicos para cima. Além disso, segundo recente estudo do Fraser Institute, Alberta é a jurisdição mais economicamente liberal não só do Canadá mas também da América do Norte. A consequência é que atualmente Alberta apresenta o menor desemprego no Canadá e constante crescimento econômico.

Porém, não é apenas Alberta. Saskatchewan, província vizinha, é a segunda mais liberal e “disputa” com Alberta pelo menor desemprego e maior crescimento. Saskatchewan, desde 2007, vem tendo grande influência do conservadorismo social e liberalismo econômico do Saskatchewan Party.

Saskatchewan: a tranquilidade das pradarias concorre com a vida noturna de Saskatoon.

Infelizmente, nem tudo são flores. O governo federal e os provinciais cometem alguns erros básicos mas que trazem muitas complicações. Um exemplo são leis de altos salários minímos, que complicam a vida de imigrantes recém chegados (além dos jovens). Muitos trabalhariam por menos do que o valor que o salário mínimo estabelece, mas perdem essa possibilidade graças às intervenções. O salário mínimo (estabelecido pelas províncias) varia de 9 a 11 dólares canadenses/hora, o que resulta em cerca de 1.600 dólares por mês.

A considerar que imigrantes do programa Skilled Worker (que compõe a maioria deles) precisam comprovar fundos que variam de cerca de 10 mil dólares ou mais (aumentando conforme o tamanho da família que está imigrando), seria possível conseguir um emprego de forma mais rápida, já que o imigrante poderia trabalhar por um salário menor do que o de um canadense, aumentando a competitividade no mercado de trabalho.

Falando em imigrantes, uma forma mais rápida e menos burocrática para imigrar é tendo uma proposta concreta de emprego no Canadá. Empregadores topam fazer isso, pois conseguem trabalhadores que aceitam trabalhar por menos e que estão dispostos a mostrar serviço no novo país. Mas o governo dificulta essa negociação, pois a contratação precisa ser questionada e aprovada pelo HRSDC (Departamento de Recursos Humanos e Desenvolvimento). O departamento irá questionar sobre porque contratar alguém de outro país sendo que podem existir candidatos para a vaga já morando no Canadá. Isso leva ao fato de que o empregador deve procurar primeiramente dentro de sua região para só depois tentar contratar alguém de fora.

Não obstante, o governo cobra equivalências de diplomas (geralmente para a área de saúde ou engenharia, por exemplo). Não é muito difícil encontrar empregadores que não querem saber de equivalência de diploma e que confiam nas instituições de outros países. Muitos imigrantes conseguiram emprego sem precisar disso. Porém, a área de saúde (que precisa de funcionários) é extremamente burocratizada e dificulta a contratação de imigrantes para preencher as brechas no mercado. Um dentista, por exemplo, teria que enfrentar diversas dificuldades para continuar a exercer sua profissão, mesmo tendo muito conhecimento teórico e prático no seu país de origem.

Para contornar esses problemas, o ministro da imigração Jason Kenney quer integrar empresas com imigrantes em um novo sistema de imigração, em que o imigrante qualificado já chegaria no país empregado. Mas para isso, é necessário desburocratizar bastante o mercado de trabalho, pois não é fácil conseguir imigrar com uma proposta concreta.

Portanto o Canadá, assim como diversos outros países, já passou por épocas mais liberais e também mais assistencialistas. Hoje, consegue ir bem na liberdade econômica, mas peca em alguns aspectos como gastos públicos (embora os déficits estejam diminuindo gradualmente a alguns anos, eles ainda existem) e burocracia em alguns setores da economia, porém não todos. Isso gera um atraso econômico, que poderia ser revertido se inspirando no próprio passado do país.