A desigualdade nunca foi o grande problema

 

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Imagine que tivéssemos uma máquina do tempo e viajássemos para qualquer lugar do Brasil no início do século XX. E chegando nesta época conhecêssemos um cidadão de classe média, que vivesse em uma cidadezinha afastada sem acesso a um serviço médico permanente, sem água tratada e tivesse que içar um balde de um poço para encher sua tina d’água diariamente, sem sistema de coleta de dejetos, que com muito custo e dificuldade conseguisse poupar um dos filhos da lida rural e o pusesse na escola para garantir uma vida melhor (enquanto que todos os outros, normalmente mais de seis) o financiassem com seu trabalho bruto. Este cidadão, no entanto, contava com uma casa humilde, porém sua, mas tivesse que fazer uso de tração animal para se deslocar ao trabalho e levar sua produção ao mercado local, pois não havia ainda veículos motorizados que reduzissem o tempo e, portanto, o custo da produção e distribuição. Veja… Este indivíduo, em relação à imensa maioria da população pobre era considerado “classe média” e, nos comovendo com sua situação penosa de vida lhe propuséssemos o seguinte “o Sr. gostaria de viajar conosco uns 80 anos para a frente e desfrutar de uma vida muito, mas muuuiiitooo mais cômoda, com água quente e frequente, luz ao simples toque, carroças que andam tão veloz quanto um pássaro, todas as crianças com direito aos estudos, grandes armazéns com tantos produtos que perderíamos dias contando seus itens e a mágica da cura e do tratamento na maioria disponíveis em ‘balinhas’ etc.?” O cidadão, caso acreditasse em nós e não tentasse nos internar, muito provavelmente aceitaria a oferta de pronto. Daí, sabendo da posição que iria deter na escala social achamos por bem lhe dar o aviso “mesmo estando em uma posição bem melhor que a atual neste bravo novo mundo que irá se descortinar perante o Sr., devemos lhe informar que vossa família estará situada em um dos níveis mais baixos de nossa sociedade. Mesmo tendo todos estes itens de conforto disponíveis e de fácil acesso, alguém em situação média deterá um nível socioeconômico muito superior ao Sr. e seus dependentes”. Surpreso com esta informação, o cidadão pensa um pouco e diz “preciso refletir melhor e consultar minha esposa…”

 

Caso tenha entendido o que se passou aqui, o grande problema não é a desigualdade socioeconômica e sim a pobreza absoluta, mas não é isso que, infelizmente, é percebido com clareza. Para a maioria da sociedade, uma situação melhor para cada unidade familiar não é percebida como tal se não deixamos nosso vizinho “comendo poeira”, isto é, se não nos destacamos na escala social porque, simplesmente, nossa percepção é relativista, toma parâmetros em comparação. A desigualdade significa, em termos simples, em diversidade e o problema real é a igualdade que nivela todos por baixo. O mau uso das palavras, seja na mídia, seja na academia, no dia a dia enfim é que impede que tenhamos o foco nos reais problemas dificultando o entendimento desta sociológica porque, na verdade, somos reféns de uma psicológica, que tem a inveja como ponto nevrálgico: eu me comparo ao vizinho e não comigo mesmo, eu quero demonstrar aos outros que estou melhor e não provar para mim mesmo que lutei, cresci e venci.

 

Anselmo Heidrich

 

 

O capitalismo produziu/produz genocídios?

Este texto foi publicado também no blog “Mundo Analista“. Para ler por lá, clique aqui.

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Toda vez que eu digo a um marxista que os regimes comunistas assassinaram mais de 100 milhões de pessoas ao longo do século XX (e continuam assassinando milhares nos dias de hoje), a resposta é sempre a mesma: “O capitalismo também”. A comparação é disparatada. Acompanhe o raciocínio.

Capitalismo não é um sistema político, mas sim um sistema econômico. E esse sistema econômico pode existir em países com os mais diversos sistemas políticos. Podemos ter capitalismo onde vigora monarquia, presidencialismo ou parlamentarismo; onde há uma teocracia, seja católica, protestante ou hindu; no interior de um estado ateu que persegue religiosos, ou no interior de um estado religioso que persegue gente de outra fé e ateus; em um estado democrático de direito, ou em uma ditadura; em ditaduras ideológicas ou apenas oportunistas. Não há um sistema político prescrito pelo capitalismo ou ao qual o capitalismo pertença. Ele pode se adaptar a variados regimes.

Augusto Pinochet foi um ditador e seu regime reprimiu, prendeu e assassinou milhares de pessoas no Chile. Já Ronald Reagan foi um presidente democraticamente eleito e reeleito nos EUA, que não passou por cima do Estado de direito. Os dois governantes fizeram governos pró-capitalistas, mas um regime era ditatorial, enquanto o outro não era. A comparação poderia ser feita com qualquer outro país capitalista cujo regime político se baseia no Estado democrático de direito: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, Suíça, Japão, Coreia do Sul e etc. O que se modifica entre estes e o Chile de Pinochet não é o sistema econômico (todos são capitalistas), mas o sistema político. Daí decorre o fato óbvio de que não se pode culpar o capitalismo por aquilo que regimes políticos fizeram, já que uma coisa não tem relação com a outra.

Algum marxista pode tentar argumentar que se a motivação de um governo ao reprimir, prender e matar injustamente é promover ou ajudar o capitalismo, então a culpa desses atos é do capitalismo. Isso é bastante questionável. Se, por exemplo, mato minha esposa motivado pela garantia de ficar com o dinheiro dela, podemos culpar o dinheiro pelo assassinato? Foi ele que me motivou, não é verdade? Mas duvido que alguém concorde com isso. O dinheiro pode ter me motivado, mas a culpa é minha. Da mesma maneira, se um regime comete crimes motivado pelo capitalismo, a culpa não é do capitalismo, mas do regime, que é criminoso, ditatorial.

Aqui o marxista vai tentar virar o jogo e dizer que, da mesma maneira, o marxismo não pode ser responsabilizado pelas atrocidades de seus regimes; a culpa é dos ditadores, não do marxismo. O problema é que o comunismo, diferentemente do capitalismo, não é apenas um sistema econômico; é também um sistema político. E o sistema político comunista prevê a centralização política, o totalitarismo, a ditadura do proletariado e as ações despóticas contra burgueses, emigrados e rebeldes. Não sou eu quem digo, é o próprio Manifesto do Partido Comunista.

Não existe isso no capitalismo. O capitalismo se define apenas por ser um sistema onde existe garantia legal do direito à propriedade privada, razoável liberdade econômica e indústrias. Só isso. Não há uma ideologia a ser seguida, um sistema político específico a ser consolidado, um conjunto de regras e metas, ou mesmo uma moral. Não há um livro que imponha o modo como os capitalistas devem agir. Mesmo que houvesse, ele seria irrelevante, pois o sistema capitalista não depende de nada, a não ser os três pilares que elenquei. Portanto, um governo pró-capitalista ou um empresário podem ser morais ou imorais, bons ou maus, egoístas ou altruístas, monarquistas ou parlamentaristas, ateus ou religiosos, defensores da ditadura ou da liberdade. Tanto faz. O capitalismo é amoral, apolítico e agnóstico. É neutro. O comunismo não.

Além do disparate de tratar o capitalismo como um sistema político (o que já vimos que não é), os marxistas caem em outro erro quando dizem que o capitalismo também cometeu genocídios: jogam todo o tipo de guerras na conta desse sistema. Por exemplo, é comum que numa discussão dessas o marxista cite o massacre perpetrado pelos EUA aos índios norteamericanos, alegando ser um resultado do capitalismo. A primeira e a segunda guerra mundiais também são sempre relacionadas ao sistema. Tais alegações são muito questionáveis. Vamos entender.

Guerras entre tribos, povos e nações sempre existiram. A guerra é algo muito anterior ao advento do capitalismo. Ninguém vai dizer, por exemplo, que um uma guerra entre Tupinambás e Tupi Guaranis, no meio da floresta amazônica, no ano 1377, motivada pela extensão de terras, seja uma guerra capitalista. Ninguém dirá que as guerras perpetradas pelo império romano, pelo antigo Egito, pela Grécia, pela Pérsia ou pela Babilônia foram conflitos causados pelo capitalismo.

Essas guerras ocorreram, em última análise, porque o ser humano guerreia entre si; porque o conflito, seja entre nações, seja entre dois pequenos grupos ou indivíduos, é um elemento frequente nesse mundo. As motivações não variam muito. O ser humano guerreia por terras, por riquezas, por comida, por status, por vingança, por proteção ou por poder. Se pudermos resumir tudo isso em uma palavra, a palavra será: lucro. O ser humano guerreia por lucro. Sempre foi assim.

Ora, lucro significa ganho, vantagem, benefício, proveito. A busca por lucros não é uma invenção do sistema capitalista, mas sim uma postura natural no ser humano. Quem não quer benefícios? Acaso alguma sociedade deseja angariar malefícios para si? É normal topar com indivíduos que desejam obter perdas e desvantagens? Há pessoas, tribos, povos e nações que se esforçam para irem de mal a pior? Ora, querer o bem para si é uma postura natural, comum, legítima e existe desde sempre, independentemente de sistemas econômicos.

A desgraça do mundo está no fato de muitas vezes o lucro ser buscado através da guerra, da extorsão, da chacina. Infelizmente, a história de nosso mundo é marcada por conflitos entre os povos em busca de benefícios. E isso não mudou quando o sistema capitalista surgiu. A guerra em busca de lucros não é uma invenção capitalista, mas sim a razão de ser de todas as guerras. Ninguém faz uma guerra para perder, nem mesmo aquele que deseja apenas se proteger – este deseja conquistar o benefício da proteção, da vida, da tranquilidade, da paz. A busca por lucros através da guerra é apenas uma herança perpassada de geração em geração desde os primórdios da humanidade.

O que mudou, portanto, com a chegada do capitalismo? Nada. Os povos continuam guerreando como sempre fizeram. Então, por que deveríamos dizer que as guerras feitas pelo Império Romano ou pelos Tupinambás não foram causadas pelo capitalismo, mas as guerras feitas pelos EUA e outros países capitalistas foram? Será possível provar, por exemplo, que se o capitalismo não existisse, os EUA não teriam feito guerra contra os povos indígenas? Não penso que seja. Não podemos afirmar que determinadas guerras não existiriam se o sistema econômico não fosse o capitalista. A luta pelo lucro não depende do capitalismo para existir. É mais lúcido supor, portanto, que a causa do massacre dos índios norte-americanos foi a ganância do ser humano (que é comum a todos os povos) e a inferioridade bélica dos indígenas.

Colocar o capitalismo como um sistema causador de guerras é ignorar que os povos sempre fizeram guerra uns contra os outros, muito antes do capitalismo existir, e que a busca por lucros não surgiu desse sistema. É culpar um sistema por problemas que já nos acompanham a milênios. Parece-me que o capitalismo entra como bode expiatório nessa história.

Talvez o capitalismo seja culpado por possuir uma estrutura que permite facilmente o seu uso por governos belicistas, expansionistas ou ditatoriais. É uma acusação possível de se fazer. E, se isso for verdade, é legítimo lutar pelo comunismo, caso se prove que esse sistema possui uma estrutura que dificulta ou inviabiliza o seu uso por governos de viés belicista, expansionista ou ditatorial. Mas a questão debatida aqui não é essa. O que se debate neste texto é se o capitalismo causa guerras. E isso é questionável. Guerras existem desde sempre e o capitalismo não é um regime político, moral ou ideológico, com regras e metas definidas (como é o comunismo), mas simplesmente um modo de produção. Dito de uma forma simples: o capitalismo não é um vilão que tem a pretensão de dominar o mundo, nem um herói que deseja salvá-lo, mas um automóvel. Pode ser usado tanto pelo vilão, como pelo mocinho.

Bom, ficou bem claro que o capitalismo não é um regime político ou ideologia com regras definidas e, por isso, não pode ser acusado pelos crimes cometidos por ditadores, militaristas e governantes de cada país. Um país pode ser capitalista e ter um governo bom, democrático e pacífico, como também pode ser capitalista e ter um governo ruim, corrupto, autoritário, militarista e belicista. Um sistema não interfere no outro. Resta, no entanto, uma questão: o capitalismo, como sistema econômico, causa genocídios? Se, por um lado, ele não pode ser acusado por crimes perpetrados por regimes políticos, por outro lado, talvez, ele seja um sistema econômico ruim, que gera prejuízos. Será que, nesse sentido, esse sistema foi responsável por genocídios.

Segundo o pensamento marxista, o capitalismo gera a exploração do proletariado pela burguesia, o que resulta em aumento de riqueza para os que já são ricos, agravamento da miséria para os que já são pobres e crescimento do número de miseráveis. Em outras palavras, o capitalismo seria um grande gerador de opressão e miséria para a maioria das pessoas. E isso, claro, implicaria a morte de muitos por fome e doenças. Como exemplos dessa opressão e miséria, os marxistas sempre citam a situação difícil dos operários ingleses do século XIX e a extrema pobreza de trabalhadores nos dias atuais em países de terceiro mundo (sobretudo os da índia e do continente africano). Será que a acusação procede? O capitalismo gera miséria? Na verdade, não gera. Vamos entender também.

Em primeiro lugar, devemos sempre lembrar que a miséria é o estado natural do ser humano. Afinal, para se conseguir comida, vestes, abrigo, objetos para trabalho ou para o lazer, é preciso fazer alguma coisa. Sempre foi assim. Se um homem da pré-história, por exemplo, queria comer, ele precisava ir até algum lugar que tivesse frutas, legumes, verduras ou grãos para comer. Em dado momento da vida, teria de plantar para poder comer. Se quisesse comer carne, teria de caçar um animal. Se quisesse armas para caçar e para proteger sua família, teria de fabricá-las. Se quisesse ferramentas para forjar suas armas ou para lavrar a terra, teria de fazê-las também. E por aí vai. É preciso fazer algo para sair da condição natural de miséria.

Essa condição natural do homem só se agravou com o passar do tempo. Se um grupo solitário de homens pré-históricos já é miserável por natureza, muito mais miserável é uma sociedade com milhares ou milhões pessoas. Na medida em que cresce o número de pessoas no mundo, o trabalho para se conseguir alimento, vestimenta, instrumentos de trabalho, armas e abrigo fica mais árduo. Todos os bens providos pela natureza se tornam mais disputados, pois a procura por eles aumenta. Ademais, os bens naturais não se apresentam de maneira equitativa em cada lugar. Existem lugares que possuem bens naturais que outros lugares não possuem. Essa desigualdade da natureza só agrava a situação de miséria natural, posto que todas as pessoas terão mais trabalho para alcançar alguns objetivos.

Some tudo isso ao fato de que a espécie humana em geral tem conservado, desde os primórdios, uma inclinação à busca pela praticidade (o que não é algo ruim, mas pode ser desvirtuado), bem como à preguiça (um desvirtuamento da busca pela praticidade), à ganância, ao conflito e à maldade. Se isso é natural ou cultural (ou um pouco dos dois) não é o foco da discussão aqui. A questão é que essas inclinações da espécie humana, em seu conjunto, acabam por agravar a condição de miséria natural. Fato que pode ser observado é que quanto mais cresceu a população do mundo, cresceu também a miséria e, consequentemente, a fome. Isso, pelo menos, até cerca de trezentos anos atrás.

Quando você entende este fato, já não tem desculpas para dizer que o capitalismo criou a miséria dos operários ingleses do século XIX, ou a miséria dos trabalhadores atuais da índia, do continente africano e da América latina. A miséria, assim como a guerra, são heranças malditas passadas de geração em geração desde os primórdios do mundo. Não foi o capitalismo que inventou a miséria. Quando, portanto, as primeiras indústrias se instalaram na Inglaterra (e em outros lugares), o que se viu não foi um sistema novo criando miséria, mas um sistema novo sendo inserido em uma sociedade que já estava repleta de miseráveis, no interior de um mundo em que a miséria sempre existiu.

Às vezes, parece-me que o marxista, em meio ao seu rancor fulgurante nutrido contra o capitalismo acaba idealizando as sociedades feudais europeias anteriores ao advento do capitalismo, bem como as sociedades tribais africanas, chinesas e hindus, como se não houvesse nelas miséria natural, necessidade de se fazer algo para conseguir alimento, vestes e etc., guerras, injustiças, crueldades, escassez e fome. E essa idealização, talvez inconsciente (e certamente contraditória, já que o próprio Marx dava conta de que a história era marcada por desigualdades e injustiças) transforma o capitalismo em um sistema que destrói o belo mundo de antes. Nada mais falso.

As pessoas que correram para trabalhar em indústrias recém-instaladas na Inglaterra do século XIX, ou em alguns países de terceiro mundo dos dias de hoje, se submetendo a baixos salários e condições ruins de trabalho, não saíram de uma condição melhor para uma condição pior. Do contrário, por que teriam saído da condição melhor? Elas saíram sim de uma condição de miséria sem emprego para uma condição de miséria com um emprego ruim, o que é menos mal. Ignorar isso é culpar o capitalismo por algo que ele não fez. Pode-se, talvez, culpar o capitalismo por não ter retirado imediatamente essa pobre gente da extrema pobreza, mas não por ter jogado essas pessoas nela; não por ter produzido extrema pobreza. Isso já existia.

Mas seria mesmo justo culpar o capitalismo por não ter tirado imediatamente a pobre gente da miséria nos lugares em que começou a instalar indústrias? Isso é algo bastante questionável também. Em primeiro lugar, porque o número de indústrias e negócios no início do capitalismo era muito menor do que é hoje. Isso é óbvio, afinal, era o início do sistema. E o mesmo ocorre quando uma indústria é instalada em um país não capitalista nos dias de hoje: é o início do capitalismo no país; há poucas indústrias e negócios de relevância.

Um grande número de miseráveis e um pequeno número de indústrias e negócios. Esse foi o contexto do início do capitalismo no mundo e esse é o contexto do início do capitalismo em qualquer país. Ora, essa fórmula não faz mágica com os salários. Se há muita mão de obra disponível em relação ao número de empresas, o valor dela será baixo. É a lei da oferta e da procura: quanto mais se tem X, menor é o seu valor, pois qualquer um pode ter X. Em contraponto, quanto menos se tem X, maior é o seu valor, pois, nesse caso, X é mais raro e, por isso, mais disputado. Isso vale tanto para produtos, quanto para trabalhadores.

O início do capitalismo nunca muda imediata e plenamente a vida daqueles que já estão em condição de miséria. No entanto, isso é apenas a fase inicial. Os salários começam a aumentar (e as condições de trabalho a melhorar) na medida em que também aumenta o número de empresas. Isso começa a tornar menor a mão de obra disponível para cada empresa, diminuindo a disputa de vagas entre trabalhadores e aumentando a disputa de trabalhadores entre as empresas. A mudança não se dá apenas em relação à quantidade, mas a qualidade. Com a concorrência das empresas e o seu desenvolvimento, cada qual começa a precisar de mais funcionários qualificados e especializados, o que inicia uma disputa empresarial pelos melhores trabalhadores. E isso, claro, elevará gradualmente a oferta de salários.

O crescimento do número de negócios também irá gerar maior oferta de produtos e serviços do que antes, o que também jogará os preços para baixo. A concorrência ainda dará um jeito de baratear ainda mais os custos de produção, o que tornará os preços ainda mais acessíveis. Com mais empregos, produtos mais baratos e uma tendência ao aumento de salários, a miséria se reduz, os pobres elevam seu padrão de vida e muitos até conseguem se tornar ricos. Esse parágrafo poderia ser taxado de idealista, não fosse fato de que esta é a descrição real e literal do que ocorreu em todos os países capitalistas que hoje são chamados de primeiro mundo. E ocorre também nos de terceiro mundo, embora com menor velocidade.

Esse, aliás, é o problema dos países de terceiro mundo. Contando com governos que dificultam o empreendedorismo, o livre comércio e a livre concorrência, e que sugam a sociedade com impostos, gastos públicos excessivos, má gestão do dinheiro público, autoritarismo e restrições desnecessárias, esses países não conseguem ver o capitalismo se desenvolver e, por consequência, não veem seu padrão e vida se elevar. O que ocorre em seguida é muito triste: como apenas algumas poucas empresas (sempre as grandes) conseguem sobreviver e dominar o mercado nesses países de economia tão engessada, passam a existir alguns monopólios privados protegidos pelo governo, o povo se torna “refém” desses monopólios, os pequenos e médios empresários não conseguem se manter na disputa, a iniciativa privada não vai para frente e aquela relação “muitos miseráveis x poucas empresas” permanece quase inalterável ao longo do tempo. Aí o marxista olha para todo esse gigantesco efeito e diz que a causa dele é justamente o que falta ao país miserável: capitalismo.

Capitalismo, como podemos ver claramente aqui, não é um sistema gerador de miséria e opressão, mas de riqueza. Através do capitalismo as pessoas podem empreender, as empresas podem disputar clientes entre si, gerando produtos mais baratos e melhores, os clientes podem escolher o que mais lhe agradam, o número de empresas privadas pode crescer, gerando mais empregos e elevando os salários, a criatividade pode rolar solta, o dinheiro pode ser poupado e investido, as novas tecnologias podem se tornar comuns e produzir maior bem estar para um maior número de pessoas.

Portanto, como sistema econômico, o capitalismo também não causou genocídios, mas apenas melhorou a vida das pessoas, quando os governos assim permitiram. Eu disse há pouco que a miséria aumentou no mundo na medida em que a população também foi aumentando, pelo menos até trezentos anos atrás. Com o advento do capitalismo, algo incrível começou a acontecer. A miséria passou a recuar. E a cada ano que passa, o número de pessoas abaixo do nível da pobreza diminui. Isso não quer dizer que um dia o mundo será perfeito ou que o capitalismo não tenha falhas. Significa apenas que esse sistema econômico tem um enorme potencial e que, até o momento, não há outro que seja superior a ele.

A conclusão desse texto é que a resposta do marxista é uma grande mentira. Não, meu amigo, o capitalismo não causou genocídios. Ele é apenas um sistema econômico, que pode existir no interior de diversos regimes políticos; e um sistema econômico que gera riqueza, oportunidades, grandes avanços tecnológicos, recuo da miséria, aumento de salários, desenvolvimento econômico e bem estar social. Quem cometeu genocídios foi mesmo o comunismo, um sistema econômico e político que prevê o totalitarismo, a ditadura do proletariado e à repressão a burgueses, emigrados e rebeldes.

Capitalismo gera miséria?

Texto publicado também no blog “Mundo Analista“. Para ler o original clique aqui.

CINGAPURA

Muitas pessoas costumam associar capitalismo à miséria. Para elas, o culpado de haver pessoas miseráveis e passando fome, enquanto outras esbanjam dinheiro, é do capitalismo. Mas será que existe uma relação direta entre capitalismo e miséria? Vamos pensar um pouco.

O que chamam de capitalismo por aí, nada mais é do que o liberalismo econômico. Este sistema surgido por volta dos séculos XIII e XIX com a revolução industrial pode ser resumido, grosso modo, no seguinte: liberdade de comprar e vender. Em outras palavras, quanto mais liberdade as pessoas tiverem para comprar e vender em um determinado país, mais liberal (ou capitalista) é este país. Isso significa que em um país muito capitalista, o governo não criará muitas restrições, imposições e dificuldades para a criação e manutenção de empresas privadas. Segue-se, com isso, que teremos neste país mais empresas competindo no mercado. Com mais empresas, haverá mais empregos. Com mais empregos, haverão menos desempregados. Com menos desempregados, haverá menos miséria.

Vamos pensar por outro ângulo. O que leva uma pessoa à miséria? É a falta de emprego, certo? Como resolvemos este problema? Criando empregos. Como se cria empregos? Criando empresas. E quem cria empresas? Só existem duas opções aqui: ou o setor público ou o setor privado. Sabemos o setor público carece de boa administração. Sobra o setor privado. Resumo da ópera: quanto mais se incentivar a iniciativa privada, mais empregos teremos e, com isso, menos miseráveis.

Ainda explorando este pensamento. Por que os empregados privados de países miseráveis ganham tão mal? Dizer que é culpa do capitalismo não é coerente, pois acabamos de ver que o capitalismo gera empresas e empresas geram empregos. Ou seja, se não fosse o capitalismo, esses mesmos que ganham pouco, não ganhariam nada, pois não trabalhariam em uma empresa privada. E então?

A resposta para nossa pergunta é a seguinte: nesses países há um número pequeno de empresas e um número grande de miseráveis. Assim, o empregado não tem muita opção de emprego e precisa se submeter a baixos salários. E as poucas empresas, por sua vez, tem um número enorme de mão de obra disponível, podendo escolher os melhores à baixo custo.

MAS se aumentamos o número de empresas, temos mais empregos. Com mais empregos, o empregado tem mais opções de escolha e as empresas, por sua vez, precisam disputar entre si os melhores funcionários do mercado.

Concomitantemente, o aumento de empregos e a diminuição de preços causada pela concorrência entre as empresas torna, gradualmente, a condição financeira da sociedade um pouco melhor. Isso resulta em mais investimentos pessoais em especializações, elevando a qualidade da mão de obra disponível no mercado. O que se segue depois de alguns anos são boas economias e bons IDH’s.

Esse tipo de dinâmica não é teoria. Vê-se isso em países como Nova Zelândia, Austrália, Canadá, Cingapura, Suíça, Japão e Hong Kong. Estes são os países mais capitalistas do mundo, países que sempre figuram nas primeiras posições de rankings como o de “Facilidade de se fazer negócios” e o de “Liberdade Econômica”. E, não por acaso, os países que ocupam as piores posições desses rankings (isto é, os menos capitalistas) são os mais miseráveis. Procure pelos países africanos, só para fazer um teste.

Aí eu te pergunto: o capitalismo gera mesmo miséria?

Andy Warhol E O Capitalismo Pop

Artigo de Diogo Costa originalmente publicado no Capitalismo Para os Pobres. Para ler o artigo original, clique aqui.

Uma nova temporada de Arrested Development vai estrear no Netflix em maio. Ainda bem que o Netflix não sabe o quanto eu estaria disposto a pagar para acompanhar a família Bluth por mais 13 episódios. Pra falar a verdade, nem eu sei. Porque eu não tenho que fazer nenhum planejamento para ver se Arrested Development cabe no meu orçamento pessoal. Produzir e gravar uma série tem um custo milionário, mas o maior custo marginal de assistir uma série talvez seja o tempo gasto com a maratona de episódios.

Nenhum sistema econômico fez mais para garantir o acesso generalizado à arte e à cultura que o capitalismo. Ainda assim, a atitude default do artista é tratar o capitalismo como inimigo da arte e da cultura.

Andy Warhol foi uma exceção. Dizia que a característica mais fantástica dos Estados Unidos era que lá ”os consumidores mais ricos compram essencialmente as mesmas coisas que os mais pobres”. Warhol não apenas pintava o capitalismo. Ele também admirava o capitalismo e sua equalização do consumo:

Você está assistindo TV e vê uma Coca-Cola. Você sabe que o presidente bebe Coca, que a Liz Taylor bebe Coca, e aí pensa que você pode beber Coca também. Uma Coca é uma Coca e nenhuma quantidade de dinheiro pode te dar uma Coca melhor que aquela que o mendigo da esquina está bebendo. Todas as Cocas são iguais e todas as Cocas são boas. Liz Taylor sabe disso, o presidente sabe disso, o mendigo sabe disso e você sabe disso.

Na Europa, a realeza e a aristocracia comiam bem melhor que os camponeses – eles sequer comiam as mesmas coisas. Era perdiz para um, mingau para outro, e cada classe estava presa à sua comida. Mas quando a Rainha Elizabeth veio [aos Estados Unidos] e o Presidente Eisenhower comprou um cachorro quente para ela, estou certo de que ele se sentiu confiante que ela não poderia mandar entregar no Palácio de Buckingham um cachorro quente melhor que aquele que ele comprou para ela por talvez vinte centavos no estádio. Porque não existe cachorro quente melhor que um cachorro quente de estádio. Nem por um dólar, nem por dez dólares, nem por cem dólares ela poderia ter conseguido um cachorro quente melhor. Ela podia conseguir por vinte centavos assim como qualquer outra pessoa.

O capitalismo é capaz de realizar inclusão social em massa.

O governo brasileiro promete dar um vale de R$50 para os pobres consumirem cultura. Em comparação, Hollywood movimenta bilhões de dólares todos anos para que as obras dos artistas mais admirados de sua geração, como Martin Scorcese e Quentin Tarantino possam ser assistidos por Mark Zuckerberg e por Barack Obama e pela menina que acessa o Facebook da LAN house e pelo rapaz que lava carros no centro da cidade. Quem está fazendo mais pelos pobres?

Atores e cantores parecem viver uma tensão entre serem sustentados pelo capitalismo enquanto discursam contra o capitalismo. Andy Warhol, pelo contrário, acreditava que um grande empreendedor era também um grande artista:

Ser bom nos negócios é o tipo mais fascinante de arte. Durante a era hippie as pessoas menosprezavam a ideia de negócio – diziam “dinheiro é ruim” e “trabalhar é ruim”, mas fazer dinheiro é uma arte e trabalhar é uma arte e uma boa empresa é a melhor arte.”


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Resenha: Capitalismo para Principiantes – Parte 1

Resenha escrita com base na 18ª edição do livro.

Resumo

O livro “Capitalismo para Principiantes”, de Carlos Eduardo Novaes, expressa uma opinião relativamente satírica e contrária ao sistema capitalista, utilizando uma linguagem leve e não muito profunda (centenas de imagens estão presentes) visando, dessa forma, a leitura de pessoas de diferentes idades e conhecimentos. Através dessas muitas ilustrações, são demonstradas diversas opiniões contrárias a este sistema econômico e, também, aos seus supostos desdobramentos sociopolíticos. São repassadas informações sobre a estrutura social desde os primórdios da humanidade, tentando explicar as relações políticas, econômicas e sociais iniciais até as das últimas décadas.

Falácias lógicas

Infelizmente, o autor recorre a várias falácias argumentativas, muitas facilmente refutáveis sem a necessidade de grandes conhecimentos sobre economia.  Basicamente, o livro usa e abusa de apelos à pobreza, i.e., argumentar dando a entender que, apenas pelo fato sujeito X ser mais pobre, suas atitudes/vontades/caracteres são positivas e justificáveis e, com um raciocínio inverso, um sujeito mais rico (apresentado, via de regra, pelo termo “burguês” no livro) tem, intrinsecamente, atitudes mais desonestas e desonrosas. Um bom exemplo para esse caso é a página 198. Ocorre com certa frequência uma mistura com a falácia argumentum ad hominem, que julga a validade dos argumentos apresentados não pelo seu conteúdo, mas sim por características do argumentador, atacando-o. Um exemplo pode ser encontrado logo na página 05.

Outro erro mais geral que o autor cometeu foi a utilização da falácia do espantalho. Essa falácia consiste em apresentar um argumento X, deturpá-lo em Y e, então, atacar o argumento Y, com a crença (podendo ser ingênua) de que o argumento X foi refutado. No caso, o autor apresenta modelos capitalistas de livre mercado e Estado mínimo e capitalismos de Estados altamente intervencionistas, dando a entender que tudo se trata de um sistema igualmente capitalista ao redor do globo, o que não é verdade. As intervenções do governo sobre o capitalismo presente nos EUA, por exemplo, variaram bastante no último século, assim como o capitalismo existente em lugares como Hong Kong e Singapura, que é muito diferente do “existente” no Brasil e do “existente” (seriam necessárias muito mais aspas neste caso) na África. Exemplificando, na página 95, o autor diz que o capitalismo está presente na África há um século, o que não é verdade, pois o “capitalismo” existente na África é, via de regra, um sistema econômico sob as rédeas do Estado, diferindo muito do modelo liberal.

Outras falácias que o autor cometeu são a da divisão e da composição, por meio de seu conceito de coletividade, como no caso da página 192. A ideia de bem comum gira em torno de que o que é bom para o indivíduo é bom para o conceito abstrato chamado sociedade (composição), logo, o que é bom para a sociedade é bom para o indivíduo (divisão). Esse raciocínio é falacioso, pois o ser humano não é homogêneo, cada indivíduo possui características próprias que podem ser perfeitamente diferentes e conflitantes daquelas encontradas na maioria – o que pode ser bom para um pode não ser para outro, e vice-versa.

Revolução Industrial

Como geralmente fazem anticapitalistas, o autor se demonstra contrário aos efeitos da Revolução Industrial, principalmente pelo argumento da qualidade de vida da época. Mas, como bem disse Ludwig von Mises atribuir a má qualidade de vida ao capitalismo que então surgia e que antes dele a situação era relativamente superior é um grande embuste.[1] O padrão de vida anterior era muito inferior e, após a Revolução Industrial e até os dias de hoje – graças ao sistema capitalista, diga-se de passagem -, ele aumenta gradualmente. Mises exemplificou o caso com apenas uma estatística: entre 1760 e 1830 (anos de expansão do capitalismo na Inglaterra) a população do país dobrou, ou seja, centenas de milhares de crianças que teriam simplesmente morrido (provavelmente por consequências da fome e da pobreza) cresceram e se tornaram adultas, o que foi o primeiro passo do avanço que se seguiu, diferente de qualquer retrocesso falso apresentado pelo autor, com um exemplo na página 57 e em várias outras.

Inegável que o padrão de vida (se comparado com o atual) era baixo, porém, com a disponibilidade de capital existente, era difícil que não o fosse. Conforme a acumulação procedeu, o padrão de vida nos países mais capitalistas aumentou – do operário ao do dono dos meios de produção. Paradoxalmente, agora que se sustentar deixa de ser o foco da economia (com o lucro em seu lugar) é quando que o sustento torna-se mais acessível, enquanto no passado o foco (sustento próprio) não era suficiente para essa finalidade, mesmo sendo concebido para tal.

Além disso, outro argumento apresentado é o de substituição de mão de obra por máquinas. O intuito disso era e ainda é diminuir custos e produzir mais, o que geraria mais desemprego, o que não deixa de ser verdade, no curto prazo. No curto prazo, pois com menores custos e maiores receitas a empresa poderá, futuramente, no longo prazo, investir mais, para depois lucrar ainda mais, melhorar sua estrutura, pagar maiores salários e também contratar mais funcionários, podendo ter um número de funcionários superior ao anterior às reformas estruturais da empresa, junto ao fato de agora ela agregar muito mais à sociedade por meio de sua maior produtividade.

Exploração no capitalismo

Quanto à suposta exploração do sistema capitalista, os investimentos feitos pela empresa com o dinheiro do lucro derrubam essa tese. A remuneração proporcional ao trabalho executado só pode ser discutida em termos monetários, pois em termos de mercadoria física fica muito mais complicado, já que aumentos gigantescos na produção existem graças à divisão social do trabalho. O trabalhador executa apenas uma determinada tarefa – o que é mais produtivo e possibilita a existência de diversos bens complexos -, não participando de todo o processo produtivo da mercadoria. Se o trabalhador produzisse integralmente determinada mercadoria, muito provavelmente ela nem viria a existir, dependendo da complexidade. Construir um carro, por exemplo, necessitaria a junção individual de centenas de peças que, por sua vez, também foram produzidas em larga escala por meio da divisão social. Seria como construir as peças para construir um carro, de forma completamente individual.

Considerando a exploração em termos monetários, uma parte do lucro será reinvestida na empresa (o que traz efeitos positivos já explicados acima), que só existirão pelo fato de uma parte dos recursos não ter ficado com o trabalhador, que agora viverá melhor do que antes da “exploração”.  Se o trabalhador ficasse com a totalidade desses recursos oriundos do trabalho não haveria acumulação por parte da empresa (que funciona na base da produtiva divisão social do trabalho), o que por sua vez eliminaria a possibilidade de benéficos investimentos. Novamente de forma paradoxal, o padrão de vida do trabalhador é maior quando ele é “explorado” do que quando ele é dono da totalidade de seu trabalho. Além disso, o lucro e o empreendimento são frutos do dono do projeto. Na página 57, o autor diz que quem produz é o trabalhador, porém, o trabalhador é um auxiliar contratado para realizar uma tarefa que o dono empreendeu.

Pobreza e desigualdade

Um erro comum na sociedade e que está presente no livro é a mistura entre os termos pobreza e desigualdade. Grosso modo, pobreza é a situação ruim de determinada variável (geralmente associada à riqueza material) e desigualdade é a diferença entre variáveis (também geralmente associada à riqueza material). Uma situação desigual não é necessariamente ruim, enquanto uma situação de igualdade também não é necessariamente uma situação boa. Como exemplo, segundo diversas fontes internacionais, os EUA e o Canadá enfrentaram aumentos na desigualdade nas últimas décadas. Segundo uma ótica que julga a desigualdade ruim, esse dado não seria positivo, pois a diferença aumentou, o que não deixa de ser verdade. Só que a diferença deu-se no sentido do aumento do padrão de vida. Os indivíduos, na média de todas as classes, tiveram um aumento em seu padrão de vida, a questão é que para uns o aumento (de algo que já era relativamente alto, algo comum em países capitalistas) foi maior que para outros, tratando-se, evidentemente, de uma situação de avanço socioeconômico, e não de retrocesso.

Além disso, a igualdade de riqueza não é algo justo. Justo é um padrão de vida superior àqueles que desempenham determinada tarefa na sociedade de forma diferenciada, àqueles que se esforçam mais, àqueles que, no geral, possuem uma característica X que pode o fazer mais produtivo, inteligente, entre outros. Pessoas são naturalmente diferentes, já que possuem ambições diferentes e se dedicam de maneira desigual a respeito de diferentes questões, tomando diferentes decisões.

Lucro

Um ponto importante e muito conhecido do sistema capitalista é o lucro, e era praticamente impossível o autor escrever um livro do tipo sem falar sobre ele. O lucro é, grosso modo, o resultado das receitas obtidas pela empresa subtraindo seus custos. O problema da abordagem do autor é a dissociação do lucro com produção e distribuição, entre outros. Na página 98, está escrito “que no capitalismo as coisas não são produzidas para atenderem a necessidade da população. São produzidas para serem vendidas”. De fato, a frase está parcialmente correta. É parcialmente correta já que o objetivo é, realmente, vender e obter receita. Porém, em um arranjo de livre mercado, com livre concorrência (qualquer um, desde que tenha capital para tal, pode abrir uma empresa e competir no mercado) o lucro ficará associado ao atendimento da necessidade da população.

Nesse cenário, caso uma empresa não esteja atendendo às demandas da população, o cliente optará pelo concorrente e simplesmente não comprará o bem ou o serviço da empresa em questão. Ou seja, o lucro se torna o resultado do atendimento às necessidades da população em uma economia livre porque a receita tende a ir àqueles que melhor prestam determinados serviços. O consumidor adquire daquele que mais lhe convém, o que, por si só, já é atender as necessidades da população. Aqueles que não conseguirem atender essas necessidades de forma satisfatória podem ter prejuízos, sendo assim eliminados do mercado. Além disso, os custos são, grosso modo, os custos em recursos que o empreendedor tem para desempenhar sua tarefa no mercado. Conseguir aumentar seu lucro pode ser, dentre outras maneiras, diminuir seus custos e aumentar suas receitas. Objetivar produzir ainda mais do que o atual diminuindo cada vez mais o número de recursos a serem aplicados é algo completamente benéfico para a sociedade, pois, em outras palavras, é fazer cada vez mais com cada vez menos.

Monopólios

É importante lembrar que monopólio é diferente de práticas monopolísticas e que o mercado é um processo e não algo estático, algo que o autor não conseguiu compreender corretamente. Monopólio é o caso de uma empresa dominar o mercado, práticas monopolísticas são quando uma empresa usufrui dessa posição no mercado. Um exemplo de empresa que, de certa forma, é monopolística e não utiliza de práticas monopolísticas é o Google, que, mesmo na posição atual, mantém certa qualidade em seus serviços. O mercado é um processo, e como o autor conseguiu perceber, algumas empresas aumentam e diminuem de tamanho. Até esse raciocínio o livro aponta, porém o autor não conseguiu conceber que o raciocínio inverso (mercado é um processo dinâmico) também é igualmente válido.

Esclarecendo, da mesma forma que uma empresa pode dominar um mercado e usufruir de sua posição monopolística, a mesma empresa pode vir a diminuir de tamanho e perder relevância, desde que em uma economia sem protecionismos legais criados pelo Estado. Isso acontece porque a empresa possui uma concorrência potencial, ou seja, caso hoje ela não oferte um bom serviço, amanhã não apenas um, mas vários outros empreendedores podem perfeitamente abrir novos negócios e, com preços mais atraentes e/ou serviços melhores, abocanhar esse mercado, expulsando o monopolista ou obrigando-o a mudar suas atitudes.

Como o autor sabe, o lucro é a ambição do capitalista, e uma boa maneira de novos empreendedores lucrarem é abocanhar e aprimorar um mercado que antes sofria graças a um monopólio. Sem contar que, em última instância, sempre há concorrência de substitutos e abstenção de consumo, o que também é válido na precificação de bens e serviços. Em resumo, o monopólio em si não é intrinsecamente ruim, e sim as práticas monopolísticas que o são, práticas estas que podem ser contornadas por novas medidas empreendedoriais no mercado, que surgirão naturalmente desde que o mercado seja livre e o Estado não proteja o monopólio por meio de sua legislação.

REFERÊNCIAS

[1] MISES, Ludwig v. As Seis Lições. 7. ed. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2009, p. 17.

Para ler a segunda parte, clique aqui.

Fabricantes de Pobreza

Por Alberto Medina Mendez. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPublicado originalmente no site Existe Otro Camino. Para ler o artigo original em espanhol, clique aqui.

O pseudo-progressismo se tornou o maior gerador de pobreza deste tempo. O faz diariamente, e apesar das irrefutáveis evidências que confirmas está visão, os progressistas estão convencidos de estar fazendo o caminho inverso. Definitivamente montaram um culto à indigência. Depois de tudo, nutrem-se dela.

As nações que lograram vencer o subdesenvolvimento, que progrediram a sério, não o fizeram construindo uma indústria de dádivas, nem gerindo um furacão de privilégios, muito menos concebendo condições ideais para esta sociedade injusta na qual os que se esforçam obtém o mesmo que os que não o fazem.

Esta casta de dirigentes ruins que povoam as bancas legislativas e os escritórios públicos, a imensa maioria deles, incapazes de exibir um êxito profissional em suas vidas, dispõem do dinheiro de todos, fundamentalmente do dos mais pobres, para seguir empobrecendo-os, em uma lógica que, a estas alturas, já deveria ter caído por seu próprio peso.

Aos que menos tem, castigam com uma carga tributária inexplicável. Fazem pagar os mais pobres, os que com muito esforço podem se sustentar, impostos que tem como destino o desperdício de sempre, este que permite exercer distorcidas práticas políticas, favorecer amigos do manda-chuva da vez, ou alimentar a epidemia da corrupção.

Eles, a classe política de diferentes espaços, que governa estes países há tempo demais, construiu um emaranhado de regras de jogo para manter-se ali, empobrecendo os que produzem, mas também aos que dizem beneficiar.

São os setores mais empobrecidos os que pagam com maior força este sistema que supõem que os defende. Impostos, inflação, desperdício e corrupção. É difícil identificar nesta lista em que lugar está a tão mencionada defesa dos que menos possibilidades tem con a qual enchem a boca os dirigentes deste tempo.

Projetaram um sistema para enriquecer como funcionários, que se sustenta sobre a base de subjugar os mais pobres. Não geraram as condições para que deixem de sê-lo, muito pelo contrário, criaram um sistema para que os sigam sendo pobres e permaneçam escravizados, nas mãos do clientelismo e do assistencialismo que se ocuparam de edificar durante décadas.

Um país rico e próspero, como o que sustenta o relato, não saqueia os pobres com impostos e inflação para logo subsidiá-los, não os humilha, nem os impulsiona a converterem-se em mendigos da política.

O país no qual querem nos fazer acreditar que vivemos, não existe. Somos parte de uma sociedade onde um pobre é induzido a votar em um candidato partidário em troca de um plano social estatal ou de uma mera promessa.

Os que se ufanam de fazer política a sério, organizam, qual associação ilícita, um afinado método para entregar uma bolsa de alimentos no dia das eleições para obter um maior caudal eleitoral. Tentam arrebanhar os cidadãos como gado, em veículos. Todo esse show com dinheiro público muitas vezes, confirmando esta cruel sociedade entre a política e a corrupção.

Temos de ser menos piedosos com essa classe política. Se trata de uma perversa casta, uma verdadeira cicatriz social, apoiada por muitos cidadãos, a maioria deles cúmplices involuntários desta paródia.

Esta caterva de dirigentes políticos não tem autoridade moral para falar de progresso. Se encarregam todo dia de de tratar à gente como “uma coisa”, de condená-los a manter-se em uma vida desprezível, de fazer-lhes promessas que intencionalmente não cumprirão, e fundamentalmente de convencer-lhes de que são uns inúteis, que não serve para nada e que só podem tentar seguir em frente recebendo favores, vivendo de empréstimos e só na medida em que continuem votando em seus humilhadores para que os sigam destratando.

Quando estes corruptos finalmente se forem e estiverem finalmente desmascarados, quando os que ainda os sustentam conseguirem se dar conta da imoralidade que geraram, esta sociedade deverá ainda lutar para vencer as temíveis sequelas e este legado lamentável que deixarão como herança.

Os depredadores da política e da sociedade convenceram os mais pobres de que são ineptos, imprestáveis, e levará muito tempo para recuperar a auto-estima, a fé em si mesmos, a fortaleza para dar a maior das batalhas e sair da pobreza sem favores dos outros.

Em todo este tempo, lhes roubaram a maior riqueza de que um ser humano pode dispor, sua dignidade.  E é difícil recuperar esta virtude quando foi pisoteada, arrastada e ultrajada durante gerações.

Não se necessitam governos que se aproveitem da pobreza do povo, em todo caso se necessita uma classe dirigente que deixe de lado seu apelo messiânico e interminável vaidade, sua soberba inesgotável de crer que é o centro da criação, a dona das verdades e proprietário do monopólio das soluções.

Às pessoas de bem resta uma dura tarefa pela frente, ajudar a reconstruir o otimismo, o pouco que resta, e devolver a fé aos que a perdem todo dia, a alimentar a confiança em si mesmos e a imprescindível atitude, que é a mãe da riqueza.

O combate será difícil, porque enquanto muitos cidadãos estão dispostos a ser protagonistas da mudança, outros decidiram dedicar-se ao ócio cívico, fomentando o conformismo crônico e sendo cúmplices de tanto desatino.

É tempo de focar-se em não baixar a guarda. Os que realmente creem que a história pode mudar tem um duro desafio pela frente. Enquanto isso, do outro lado, boa parte desta classe política contemporânea, alimentada pelo populismo vigente, se dedicará a aperfeiçoar a arte de ser fabricantes de pobreza.

Protecionismo e escassez artificial

Em sua obra Sofismas Econômicos, Bastiat esclarece algumas objeções comuns ao livre comércio (laissez-faire) refutando argumentos protecionistas, mercantilistas ou socialistas. No primeiro mito abordado, Abundância-Escassez, Bastiat aborda o protecionismo econômico desde a perspectiva dos produtores (representantes, no discurso protecionista, da “indústria nacional”) e dos consumidores (a população em geral), demonstrando que a liberdade de comércio é a melhor alternativa para os consumidores e para a sociedade como um todo.

Bastiat
Frédéric Bastiat, político e economista francês

O que é melhor para o homem e para a sociedade, abundância ou escassez? O quê!? Você grita, isso lá é pergunta que se faça? Alguma vez alguém afirmou, ou é possível defender, que a escassez seja a fundação do bem-estar da humanidade? Sim, isto já foi afirmado e é defendido todo dia; e eu não exito em afirmar que a teoria da escassez é a mais popular de todas. É a vida das conversas, dos jornais, dos livros e da oratória política; e, por mais estranho que pareça, é certo que a Política Econômica terá cumprido sua missão quando estiver estabelecida como inquestionável, e totalmente disseminada, esta simples proposição: “A riqueza dos homens consiste na abundância de produtos.”

Não ouvimos diariamente que: “Os estrangeiros nos inundarão com seus produtos”? Então tememos a abundância. Não clamou o Sr. Saint-Cricq[1] que “A produção é excessiva”? Então ele teme a abundância. Os operários não quebram as máquinas? Então eles temem um excesso de produção, ou abundância. Não pronunciou o Sr. Bugeaud[2] estas palavras: “Deixe o pão encarecer, e os agricultores enriquecerão”? Bom, o pão só pode ser caro porque é escasso. Então, o Sr. Bugeaud exalta a escassez. Não traz o Sr. d’Argout[3] como argumento contra a plantação de açúcar a própria produtividade de tal indústria? Não diz ele: “A beterraba[4] não tem futuro, e sua cultura não pode ser estendida, porque uns poucos acres dedicados à sua cultura em cada departamento supririam todo o consumo da França[5]“? Então, em sua visão, o bem reside na esterilidade, na escassez, e o mal, na fertilidade e na abundância.

La Presse, Le Commerce, e a maior parte dos jornais tem um ou mais artigos toda a manhã demonstrando para a Câmara Legislativa e o Governo que é uma boa política aumentar por lei o preço de todas as coisas por meio de tarifas. E não é que a Câmara e o Governo obedecem a prescrição? Agora as tarifas podem aumentar os preços simplesmente diminuindo a oferta de mercadorias no mercado. Então os jornais, a Câmara e o Ministério colocam em prática a teoria da escassez, e estou justificado ao dizer que esta teoria é de longe a mais popular. Como pode, na visão de operários, publicistas e estadistas a abundância parecer algo a ser temido e a escassez parecer algo vantajoso? Proponho-me a traçar o caminho desta ilusão até a sua origem.

Lembremos que um homem enriquece na proporção dos retornos obtidos por seus esforços, ou seja, em proporção à venda de sua mercadoria a um preço mais alto. Ele vende a um preço mais alto em proporção à raridade, à escassez do artigo que produz. Concluímos disto que, até onde ele compreende, a escassez o enriquece. Aplicando sucessivamente o mesmo raciocínio a todos os outros produtores, construímos a teoria da escassez. Então procedemos na aplicação desta teoria e, para favorecer os produtores geralmente, aumentamos os preços artificialmente, e causamos a escassez de todas as mercadorias, pela proibição, pela intervenção, pela supressão da mecanização, e outros meios análogos.

O mesmo acontece com a abundância. Observamos que quando uma mercadoria é abundante, é vendido a um preço mais baixo, e o produtor ganha menos. Se todos os produtores estão na mesma situação, eles são todos pobres. Portanto é a abundância que arruína a sociedade. E conforme as teorias são reduzidas à prática, vemos a lei lutando contra a abundância de mercadorias.

Esta falácia em sua forma mais genérica pode causar pouca impressão, mas aplicada a uma ordem particular dos fatos, a um certo ramo da indústria, a uma dada classe de produtores, é extremamente enganadora; e isto é facilmente explicado. Ela forma um silogismo que não é falso, mas é incompleto. Agora, o que é verdadeiro em um silogismo é sempre e necessariamente presente na mente. Mas a incompletude é uma qualidade negativa, um dado ausente que é possível, e de fato muito fácil, ser deixado de fora da conta.

O homem produz para consumir. Ele é a uma só vez produtor e consumidor. O raciocínio que eu acabei de explicar o considera somente sob o primeiro destes pontos de vista. Se o segundo fosse levado em conta, teríamos chegado à conclusão oposta. Pode-se dizer: O consumidor é mais rico na proporção que compra tudo mais barato; e ele compra as coisas mais baratas em proporção à abundância delas; portanto, é a abundância que o enriquece. Este raciocínio, estendido a todos os consumidores, leva à teoria da abundância.

É a noção da câmbio, de troca entendida de maneira imperfeita que leva a estas ilusões. Se consideramos nossos interesses pessoais, reconhecemos distintamente que eles são bilaterais. Como vendedores temos interesse no preço alto, e consequentemente na escassez; como compradores, no preço baixo, ou o que dá na mesma, na abundância de mercadorias. Não podemos, portanto, encontrar nossa razão em um ou outro destes interesses antes de investigar qual dos dois coincide e é identificado como o interesse geral e permanente da humanidade.

Se o homem fosse um animal solitário, se trabalhasse exclusivamente para si, se consumisse diretamente o fruto de seu trabalho — em outras palavras, se não houvesse troca — a teoria da escassez nunca teria aparecido no mundo. É evidente demais que neste caso, a abundância seria vantajosa de onde quer que viesse, fosse do resultado de seu trabalho, de ferramentas engenhosas, de uma poderosa máquina de sua invenção, ou da fertilidade do solo, da liberalidade da natureza, ou mesmo de uma misteriosa invasão de mercadorias trazidas pelas ondas até a costa. Nenhum homem solitário poderia pensar que para encorajar o seu trabalho e torná-lo mais produtivo seria necessário quebrar em pedaços os instrumentos que o facilitam, neutralizar a fertilidade do sol, ou devolver ao mar as coisas que este trouxe à sua porta. Ele perceberia imediatamente que o trabalho não é um fim, mas um meio; e que seria absurdo rejeitar o resultado por medo de prejudicar os meios pelos quais o resultado é alcançado. Ele perceberia que se ele reserva duas horas por dia para satisfazer suas necessidades, qualquer circunstância (mecanização, fertilidade, presentes gratuitos, o que seja) que economize a ele uma hora de seu trabalho, o resultado permanecendo o mesmo coloca esta hora à sua disposição, e que ele pode empregá-la para seu lazer; ou seja, ele veria que economizar trabalho nada mais é que progresso.

Mas a troca deturpa nossa visão de uma verdade tão simples. No estado de sociedade, e da divisão de trabalho que esta gera, a produção e o consumo de uma mercadoria não estão entrelaçados e restritos ao mesmo indivíduo. Cada homem passa a ver em seu trabalho não mais um fim, mas um meio. Em relação a cada mercadoria, a troca cria dois interesses, o do produtor e o do consumidor; e estes dois interesses estão sempre em oposição direta um ao outro.

É essencial analisá-los, e examinar sua natureza. Tomemos o caso de um produtor qualquer, qual é seu interesse imediato? Consiste em duas coisas; primeira, que o menor número possível de pessoas se dediquem ao seu mesmo ramo da indústria; segundo, que o maior número possível de pessoas estejam buscando o artigo que ele produz. A economia política explica isto de maneira mais sucinta nestes termos: oferta muito limitada, demanda muito grande; ou, em outras palavras, competição limitada, demanda ilimitada. Qual é o interesse imediato do consumidor? Que a oferta do produto em questão seja grande, e a demanda seja restrita.

Vendo então que estes dois interesses estão em oposição um ao outro, um deles deve necessariamente coincidir com os interesses sociais em geral, e o outro ser antagônico a eles. Mas qual deles a legislação deverá favorecer, sendo idêntico ao bem público – se, de fato, deve favorecer a qualquer um deles? Para descobrir isto, devemos investigar o que aconteceria se os desejos secretos dos homens fossem atendidos.

Enquanto produtores, deve ser permitido que o desejo de cada um de nós seja antissocial. Somos viticultores? Não nos daria o menor arrependimento se o granizo varresse da terra todas as vinhas do mundo exceto a nossa: esta é a teoria da escassez. Somos barões do aço? Desejamos que não haja outro ferro no mercado que não o nosso, não interessando o quanto o público possa necessitar dele; e por esta mesma razão, sutilmente sentida e imperfeitamente satisfeita, nosso preço mais alto estaria garantido: isto ainda é teoria da escassez. Somos fazendeiros? Dizemos com o Sr. Bugeaud: deixe que o pão encareça, ou seja, que seja escasso, e os agricultores prosperarão: sempre a mesma teoria, a teoria da escassez.

Somos médicos? Não podemos evitar ver que alguns aperfeiçoamentos físicos, a melhoria do estado sanitário de um país, o desenvolvimento de certas virtudes morais, como a moderação e a temperança, o progresso do conhecimento que tende a permitir a cada homem cuidar melhor de sua própria saúde, a descoberta de remédios de fácil aplicação, seriam muitos golpes contra o nosso sucesso profissional. Enquanto médicos, portanto, nossos desejos secretos seriam antissociais. Não digo que os médicos tenham tais desejos secretos. Pelo contrário, acredito que eles saudariam com alegria a descoberta de uma panaceia universal; mas eles fariam isso não como médicos, mas como homens e cristãos. Por uma nobre abnegação de si, o médico se coloca no ponto de vista do consumidor. Mas enquanto pratica a profissão, da qual obtém a subsistência sua e de sua família, seus desejos, ou melhor, seus interesses, são antissociais.

Somos fabricantes de peças de algodão? Desejamos vendê-las ao preço mais lucrativo. Consentiríamos de boa vontade com uma interdição a todos os fabricantes rivais; e se pudéssemos dar a esta ação expressão pública, ou realizar ela com alguma chance de sucesso, tentaríamos fazê-lo, mesmo que por meios indiretos; por exemplo, excluindo fábricas estrangeiras para diminuir a oferta e então produzir, à força e para nosso próprio benefício, a escassez de roupas.

Do mesmo modo, podemos passar em revista todos os outros ramos da indústria, e descobriremos sempre que os produtores, enquanto tais, tem interesses antissociais. “O lojista”, diz Montaigne, “prospera somente nas irregularidades da juventude; o fazendeiro pelo alto preço do grão, o arquiteto pela destruição de casas, os oficiais de justiça pelos processos e querelas. Ministros da religião ganham sua distinção e emprego dos nossos vícios e da nossa morte. Nenhum médico se regozija na saúde de seus amigos, nem soldados na paz de seu país; e o mesmo vale para todos os outros.”

Daí segue que se os desejos secretos de cada produtor fossem realizados, o mundo retrocederia rapidamente até a barbárie. A vela substituiria o vapor[6], o remo substituiria a vela, e a carga em geral seria levada pela carruagem; esta seria substituída pela mula, e a mula pelo vendedor ambulante. A lã excluiria o algodão, que por sua vez seria excluído, e assim por diante até que a escassez de todas as coisas fizessem o homem desaparecer da face da terra.

Suponha por um momento que o poder legislativo e a força pública fossem colocadas à disposição do comitê de Mineração, e que cada membro desta associação tenha o privilégio de criar e sancionar uma lei favorita, é difícil adivinhar a que tipo de código industrial o público seria submetido?

Mas agora se consideramos o interesse imediato do consumidor, descobriremos que está em perfeita harmonia com o interesse geral, com todo o bem-estar que a sociedade demanda. Quando o comprador vai ao mercado ele deseja encontrá-lo bem suprido. Que as estações sejam propícias a todas as culturas de vegetais; que as invenções, mais e mais maravilhosas, tragam ao alcance um número cada vez maior de produtos e facilidades; que o tempo e o trabalho sejam economizados; que as distâncias sejam derrubadas pela perfeição e rapidez do trânsito; que o espírito da justiça e da paz permita um peso cada vez menor dos impostos; que as barreiras de todo tipo sejam removidas  — em tudo isto o interesse do consumidor corre em paralelo com o interesse público. O consumidor pode levar seus desejos secretos à uma extensão absurda e quimérica, sem que estes desejos se tornem antagônicos ao bem-estar público. Ele pode desejar que a comida e o abrigo, a lareira e o teto, a instrução e a moralidade, a segurança e a paz, o poder e a saúde, sejam obtidos sem esforço e sem medida, como o pó das estradas, a água do riacho, o ar que respiramos; ainda assim a realização de seus desejos não estariam em discordância com o bem da sociedade.

Poderia ser dito que, se seus desejos fossem atendidos, o trabalho do produtor se tornaria mais e mais limitado e terminaria cessando por necessidade de sustento. E por quê? Por que nesta suposição extrema, todas as necessidades e desejos imagináveis seriam totalmente satisfeitos. O homem, como a Onipotência, criaria todas as coisas por um simples ato de volição. Bem, nesta hipótese, que razão teríamos para arrepender-nos de parar a produção industrial?

Imaginei, não a muito tempo, a existência de uma assembléia composta de trabalhadores na qual cada um deles, em sua capacidade de produtor, teria o poder de aprovar uma lei que incorporasse seu desejo secreto, e disse que o código que dela emanaria seria o monopólio sistematizado, a teoria da escassez posta em prática. Do mesmo modo, em uma câmara na qual cada um consulta exclusivamente seu interesse imediato enquanto consumidor, a tendência seria a de sistematizar a liberdade, de suprimir todas as medidas restritivas, de remover todas as barreiras artificiais — ou seja, realizar a teoria da abundância.
Daí segue: que consultar exclusivamente o interesse imediato do produtor é consultar um interesse que é antissocial; que tomar por base exclusivamente o interesse imediato do consumidor seria tomar por base o interesse geral. Permita-me estender um pouco mais este ponto de vista, sob o risco de ser prolixo. Um antagonismo radical existe entre o vendedor e o comprador. O primeiro deseja que o objeto de barganha seja escasso, tenha oferta limitada, e preço alto. O segundo deseja que ele seja abundante, em grande oferta, e tenha preço baixo.

As leis, que deveriam ser no mínimo neutras, estão do lado do vendedor contra o comprador, do produtor contra o consumidor, do preço alto contra o preço baixo, da escassez contra a abundância. Elas chegam, senão intencionalmente, pelo menos logicamente, no seguinte dado: uma nação é rica quando necessita de tudo. Pois elas dizem que é o produtor que devemos favorecer assegurando a ele um bom mercado para o seu produto. Para este propósito é necessário aumentar o preço, e para aumentar o preço devemos restringir a oferta; e restringir a oferta é criar escassez.

Vamos imaginar que no presente momento, quando todas estas leis estão à pleno vapor, façamos um inventário, não em valor, mas em peso, medida, volume e quantidade de todas as mercadorias que existem no país, que são empregadas para a satisfação de necessidades e gostos de seus habitantes — grãos, carne, roupa, combustível, produtos coloniais, etc. Imagine, novamente, que no próximo dia todas as barreiras que se opõem à introdução de produtos estrangeiros sejam removidas. Por último, imagine que para testar o resultado desta reforma esperemos três meses para fazer um novo inventário. Não é verdade que haveria na França muito mais grãos, gado, roupas, linho, ferro, carvão, açúcar, etc., na data do segundo inventário do que na do primeiro? Isto é tão verdadeiro que nossas tarifas protecionistas não tem qualquer outro propósito além de impedir que estas coisas cheguem até nós, restringir a oferta e prevenir preços baixos e abundância.

Agora eu pergunto, as pessoas que vivem sob nossas leis estão melhor alimentadas porque há menos pão, carne e açúcar no país? Estão melhor vestidas porque há menos pano e linho? Melhor aquecidas porque há menos carvão? Melhor assistidas em seu trabalho porque há menos ferramentas, menos ferro, cobre e maquinário? Mas talvez alguém diga que se o estrangeiro nos inundar com seus produtos ele levará todo nosso dinheiro. E o que isso importa? Os homens não comem dinheiro. Eles não se vestem com ouro, ou se aquecem com prata. O que importa se há mais ou menos dinheiro no país se há mais pão em nosso armário, mais carne em nossas despensas, mais linho em nossos guarda-roupas, mais lenha em nossos porões.

Leis restritivas sempre nos levam a este dilema: ou você admite que elas produzem escassez, ou não. Se você admite isto, você reconhece que inflige nas pessoas todo o dano que pode. Se não admite, você nega ter restringido a oferta e aumentado os preços, e consequentemente você nega ter favorecido o produtor. Ou o que você faz é prejudicial ou estéril, injurioso ou inefetivo. Nunca se pode obter qualquer resultado útil disto.


Notas do tradutor:

[1] Pierre Laurent Barthélemy, Conde de Saint-Cricq, membro da Câmara de Deputados, Ministro do Comércio.
[2] T. R. Bugeaud de la Piconnerie, líder militar e membro da Câmara de Deputados que defendia princípios protecionistas.
[3] Antoine Maurice Appolinaire, Conde de Argout, administrador e especialista fiscal, governador do Banco da França.
[4] O açúcar feito a partir da beterraba era bastante comum, uma vez que o comércio transatlântico do açúcar da cana era perturbado por conflitos marítimos com os ingleses.
[5] Um hectare é composto de 2.471 acres. Um departamento é a maior subdivisão administrativa da França.
[6] Os barcos e motores eram movidos à vapor na época de Bastiat.