A Nova Arena e a Síndrome Binária

https://i1.wp.com/img41.imageshack.us/img41/1792/arenagm.jpg
POR RODRIGO VIANA

O fascismo deveria ser justamente chamado corporativismo, porque é a concentração do poder corporativo e governo” – Benito Mussolini

Pior que tá não fica” diria o palhaço, porém sabemos que não é bem assim que a política funciona. Claro que pode ficar pior, claro. Então o que poderia piorar em um cenário político com um bando de partidos esquerdistas, que vão desde vertentes moderadas até as extremista totalitárias? Um partido nacionalista, claro! Com um toque nostálgico da Era da Ditadura Militar. Pronto, está aí a cereja do bolo.

E a que se propõem esse partido nacionalista, hoje, de fala mansa? Vendo alguns pontos dessa nova Arena, o resultado não passa do “mais do mesmo” do nosso cenário atual. Não há nada muito diferente do que os partidos atuais defendem. Vejamos alguns pontos do seu programa partidário[1]:

  • Contra a liberação das drogas. Mantém a mesma política falida[2] já presenciada em todo o mundo: mais gastos públicos jogados no lixo, ineficiência na impossibilidade do controle do comércio e aumento de “crimes sem vítimas” para o sistema carcerário. Contribuindo para a restrição das liberdades individuais e no aumento de um mercado negro baseado na violência e corrupção feita por marginais (e burocratas) de toda a esfera social.
  • Estudo da Educação Moral e Cívica. Defendem um estado moralizador assim como o atual estado. Em outras palavras, sai a nefasta doutrinação progressista e no lugar a (não menos nefasta) doutrinação nacionalista[3] anti-indivíduo e anti-liberdade.
  • Defesa do “estado necessário”. Um argumento tão “preciso” quanto a defesa da função social da propriedade dita na constituição. Não define o que seria um estado necessário e muito menos qual o seu limite. Uma arbitrariedade descabida e sem chance de saber até onde iria, ao menos dando o poder nas mãos dos controladores. Quem vai pagar para ver?
  • Re-estatização de empresas. Um grande discurso mais que defendido pelo status quo nacional. Um fetiche incontrolável digno de alegria dos marxistas mais radicais. Como em um passe de mágica, diz depois defender a propriedade privada. Gênio!

Por fim, vai terminando com mais centralizações, intervencionismos e estatismos tão costumeiro por estas bandas. Essa é a tal oposição, uma caricatura medíocre e tragicômica de nosso cenário atual. A oposição que a “esquerda quer”, diria alguns. É verdade que há uma ou outra coisa válida em todo esse arcabouço desmedido. Mas de nada valida a inconsistência ideológica defendida por este partido.

A verdade é que o cenário político brasileiro é de uma pobreza tamanha, que por um sinal de oposição (sic) já comove setores ditos contrários ao status quo. Nada mais enganoso.
Alguém poderia pensar “como que uma ideologia ultrapassada, como o nacionalismo, poderia ser a ‘bandeira’ da vez”? Pois é, e eu achando que nomes como Plínio Salgado e Gustavo Barroso[4][5] ficariam eternizados em alguma nota de rodapé de um livro qualquer. Mero engano.

Vivemos aproximadamente 20 anos sob um regime ditatorial medonho, onde o estado policial procurava cada fio de sua cabeça que visasse uma suposta “ameaça ao país”. Seja por um discurso mal interpretado, por alguma música estranhamente escrita, por alguma notícia entendida como “transgressora” ou por qualquer coisa vista de modo “suspeito”[6]. Estávamos sob o domínio do leviatã, onde a liberdade nada mais era que concessões dadas. A sociedade, condicionada sob uma ideologia revolucionária de engenharia social estava, de um lado, a mercê de alguns assassinos e torturadores sob o aparato legal do estado. E do outro, de assassinos, sequestradores e terroristas socialistas vivendo na clandestinidade, dos quais muitos ainda gozam de liberdade, prestígio e de gordas verbas indenizatórias.

E o indivíduo que sobreviveu a tudo isso? Bom, ele recebeu uma inflação[7] obscena por intermédio de gastos públicos estratosféricos, alinhados na posição econômica nacional desenvolvimentista[8]. Posição esta elogiada por Lula, diga-se de passagem[9]. Teve também que sustentar empresas estatais jurássicas, suas liberdades civis foram minadas, viveu sob um arranjo político fajuto e coisas do tipo.

Anos se passaram e muita coisa mudou, outras nem tanto. Nossas liberdades civis reconquistadas, continuam sob uma ameaça constante. A engenharia social permanece, porém com uma outra ideologia. Continuamos a pagar pesados tributos e sustentamos ainda praticamente as mesmas empresas estatais jurássicas.

Parece que, estranhamente, o Brasil anda em círculos. Muda-se os anos, as gerações, os partidos e tudo parece estar razoavelmente do jeito que estava. Em um momento em que o mundo parece caminhar para um controle estatal (de forma branda) sob as vidas das pessoas, o país poderia muito bem demonstrar o contrário. Dizer ao resto do mundo que aprendemos com o passado e que a liberdade, ainda hoje tão vilipendiada, foi a causa primordial para o reflorescimento da nossa sociedade.
Poderia, mas não é bem isso que parece ocorrer. Iniciativas de ressuscitar um partido que deveria ser lembrado apenas nas aulas de história, demonstra que certos setores ainda tentam viver de um passado glorioso de fachada. Enfim, não me surpreendo. Uns ainda não tentam levantar o “muro vermelho” da escassez, do totalitarismo, da morte e da depreciação da dignidade humana?

O Brasil parece viver sob uma “Síndrome Binária”, onde os discursos já estão prontos de antemão por ambos os lados. Não precisa de grandes esforços de raciocínio, basta um guia simples de perguntas e respostas criado à 70, 80 anos atrás. Lido como se fosse a novidade do momento, um achado sem tamanho. O pobre não tem isso? Leia a questão 10. O país não atingiu tal meta de crescimento? Leia a questão 23…

Tal síndrome fomenta e muito políticos bufões. Das viúvas que vivem sob o eterno luto da ditadura militar (fotos de ditadores em parede de gabinete público em plena democracia?), aos que ainda não aceitaram o cortejo já finalizado do império soviético.

Falta debates que ponham na parede estes intervencionistas e socialistas como parentes próximos, vindos da família chamada estatismo. Debates a mostrar que ideologias tacanhas já foram refutadas há décadas. Debates que mexam com a população, com novos discursos e não com roupagens recicladas. Está mais do que na hora da sociedade saber que entre dois pontos de vistas semelhantes, há um que é o total oposto: o discurso da liberdade[10].

Ver que ela pode fomentar prosperidade material e valorizar o empreendedorismo, livrando o estado de nossas costas. No qual indivíduos podem construir, sem medidas coercitivas, uma sociedade ordeira de valores e virtudes. Ao lado do respeito, da responsabilidade individual, tolerância e cooperação voluntária. E, talvez o mais importante, junto da dignidade humana como um ser único que é e não como uma mera peça de tabuleiro.

Veja também:

Notas:
[1] Programa partidário – Arena
[2]
Por que as drogas deveriam ser legalizadas, entrevista com Milton Friedman – Libertarianismo.org
[3]
No artigo “A Doutrinação no Ensino Brasileiro de Geografia”, o autor Luis Lopes Diniz Filho abre um retrospecto abrangendo o fim do ensino clássico de geografia e o início da era ideológica. Inspirado no modelo fascista, Vargas foi quem iniciou o modelo ideológico e o moldou por um viés nacionalista que continuou sendo aceito na redemocratização do país. Foi aceito e difundido mais tarde pela Ditadura Militar e somente posto em cheque com a imposição dos esquerdistas. Imposição esta que gerou um modelo de imposição semelhante, porém de caráter socialista. No qual segue este modelo de ensino até os dias de hoje.
A Doutrinação no Ensino Brasileiro de Geografia
, Luis Lopes Diniz Filho – Conhecimento Prático Geografia, Editora Escala
[4]
Plínio Salgado e Gustavo Barroso foram os grandes arquitetos do fascismo brasileiro chamado “Integralismo”. O movimento consistia numa mistura entre a ideologia fascista mussoliniana com a nacional-socialista hitleriana, chegando a dividir escritório com o Partido Nazista no sul do país. O movimento apoiou o golpe ditatorial varguista até serem dissipados. Mais tarde, ex-membros do movimento apoiaram a Ditadura Militar, sendo bem vistos pelos militares e tendo cargos públicos oferecidos por estes. Plínio Salgado (assim como vários ex-integralistas) atuou diversas vezes na área pública tendo o Arena como partido.
[5]
Nazismo: eles estão entre nós, Leandro Narloch – Aventuras na História
[6]
Censura na ditadura causou estragos em diversos setores, Fabiana de Carvalho – Vírgula
[7]
A tragédia da inflação brasileira – e se tivéssemos ouvidos Mises?, Leandro Roque – Instituto Mises
[8]
Tentativas ortodoxas de combate a inflação, Odair Rodrigues – Cola da Web
[9]
Lula critica defensores do estado mínimo, Ricardo Noblat – Blog do Noblat
[10]
A filosofia da liberdade, Ken Schoolland – Foco Liberal