Como seria um bom governo de direita? – Parte 1

Ronald Reagan e Margaret Thatcher: duas importantes personalidades de direita.

A esquerda tem feito um ótimo trabalho. Não no sentido de resolver problemas sociais importantes, mas no sentido de fazer propaganda contra a direita. Uma prova do que digo é a total desinformação da maioria das pessoas quando se trata das propostas direitistas para a resolução de alguns problemas sociais.

As pessoas sabem o que diz a esquerda. Todo mundo conhece Marx e a sua idéia de estatizar todos os meios de produção. Todos conhecem também a postura dos partidos de esquerda após a queda da União Soviética: “Não queremos destruir o capitalismo, mas criar um governo que diminua ao máximo as desigualdades sociais” (o que, na prática, quer dizer: muitos programas sociais “tapa-buracos”, muitos impostos, muito poder governamental, má administração de recursos e facilidade de corrupção).

Mas alguém pode citar uma proposta de direita? Quais são as idéias que a direita tem para melhorar a educação e a saúde? Como a direita pretende diminuir a violência e tornar melhores as condições dos presídios? O que exatamente a direita pensa sobre as estradas esburacadas, o desemprego, os impostos, a corrupção, as crises financeiras, a economia, os problemas ambientais, a discriminação social e racial, os direitos dos trabalhadores, o sistema público de previdência social, a democracia, o Estado de Direito, a liberdade de expressão e as leis?

Infelizmente, para a maioria das pessoas (sobretudo os brasileiros), a direita se resume à equação: “governo + empresários = exploração do trabalhador”. E esse resumo é, evidentemente, uma criação dos marketeiros de esquerda.

O objetivo da série de postagens que inicio hoje, portanto, é mostrar ao leitor as propostas do verdadeiro pensamento de direita. Serão abordadas quatro ou cinco idéias típicas da direitista em cada um dos textos, que orientariam as ações de um bom governo de direita. Antes, contudo, é necessário fazer uma pequena introdução sobre a diferença entre as propostas de Direita e as de Esquerda. Depois disso poderemos partir para as propostas em si.

Propostas de Direita x Propostas de Esquerda

A base do pensamento da direita é o ceticismo em relação ao ser humano e ao governo. Ao contrário da esquerda, a direita não vê no Estado uma boa ferramenta para transformar a sociedade num paraíso, primeiro porque o Estado é feito de homens e os homens são falhos; e, segundo, porque esse tal paraíso é inalcançável. Quando colocamos poder demais nas mãos do Estado, ainda que almejando o “bem comum”, o resultado é sempre diferente do que aquilo que gostaríamos de ver. Autoritarismo, ditaduras, repressões, dinheiro público jogado fora, péssimas administrações, corrupções envolvendo modelos público-privados, exploração do trabalhador pelo governo e etc. Assim, uma diferença básica entre direita e esquerda é que a esquerda é crente no poder do Estado (à exceção dos anarquistas) e a direita não.

Não obstante, o fato de a direita desconfiar do poder público não implica em uma confiança no poder privado. Aqui reside um ponto importante. A direita não enxerga o poder privado como um santo salvador da sociedade, mas apenas entende que o poder dos empresários pode ser facilmente limitado quando se incentiva à concorrência e quando o governo deixa de criar vínculos com determinadas empresas através de sua inconveniente intromissão na economia.

A concorrência entre as empresas é um fator essencial na equação, porque faz com que as mesmas busquem sempre produzir serviços e produtos com mais qualidade, com mais rapidez e/ou com o preço mais baixo, a fim de ganharem do concorrente ou de não falirem. Assim os consumidores saem ganhando e também os trabalhadores, que ganham mais oferta de empregos conforme a economia cresce.

Em resumo, a base do pensamento de direita para as propostas sociais é a idéia de que o Estado deve tirar a mão do maior número possível de serviços, diminuindo os impostos, dando ao cidadão autonomia para escolher com quais serviços quer gastar o seu precioso dinheiro e dando a todas as empresas o direito de disputarem a confiança deste mesmo cidadão.

As Propostas

1) Diminuição da interferência

A primeira ação de um governo de direita é desburocratizar e desregulamentar a economia de seu Estado (isto é, diminuir sua interferência nos negócios). Isso porque muita burocracia e regulamentações excessivas dificultam a vida de pequenas e médias empresas, o que enfraquece a concorrência, facilita que as grandes empresas se tornem monopólios e estreita as relações entre o governo e essas empresas monopolistas (raiz de muitos desvios de verba).

Um exemplo interessante de como a interferência do Estado nos negócios pode ser muito prejudicial às pequenas e médias empresas pode ser visto no filme “A Creche do Papai”. No filme, Charlie Hinton (interpretado por Eddie Murphie), cria uma creche em sua casa com mais dois amigos. Em dado momento, um fiscal do governo, ao inspecionar a casa, afirma que existe uma norma do governo impedindo que uma creche caseira tenha mais do que 12 crianças (e a casa tinha 14). Charlie argumenta que sua casa é grande e que cabe até mais do que 12 crianças (um fato), ao que o inspetor responde: “Não sou eu que faço as regras. Eu só as cumpro. Se querem continuar com as 14 crianças, terão que se mudar para outro espaço”.

Sem dinheiro para comprar um espaço grande que pudesse servir de creche e não querendo ter que escolher duas crianças para sair (já que tinham se apegado à todas), Charlie e seus amigos se viram obrigados a fechar o negócio. O leitor compreende como o excesso de regulamentação impediu que a creche continuasse? No filme a situação é resolvida depois, porém na vida real é comum que muitas empresas pequenas e médias não suportem essas amarras do governo. E quem sai ganhando com isso no final? As empresas de grande porte, claro.

Portanto, a retirada de dificuldades burocráticas do caminho é um fator essencial para que a economia tenha um melhor desenvolvimento. O objetivo dessa ação é gerar mais oportunidades para aquele que quer abrir seu negócio, para aquele que quer manter sua empresa, para aquele que quer expandir seu comércio e para aquele que apenas quer arranjar um emprego.

2) Diminuição dos Tributos e Corte nos Gastos Públicos

Imagine um trabalhador que ganhe 1000 reais por mês de salário. Dessa quantia, pasme, cerca de 430 reais irão para o governo em forma de tributos diretos e indiretos (o que, popularmente conhecemos como impostos). Em outras palavras, somos obrigados a jogar fora quase metade do nosso salário, já que se precisarmos de escolas de qualidade para nossos filhos, de bons serviços médicos ou de segurança, por exemplo, o governo não será capaz de nos dar.

O dinheiro que pagamos de imposto acaba sempre sendo gasto em obras públicas desnecessárias (ou que não são prioridade para o povo), em programas educativos para crianças (como se o governo devesse fazer o papel dos pais), em shows e festas que vira e volta o governo financia, em ajuda à ONG’s (Deus do Céu! Elas não deveriam ser Organizações NÃO Governamentais?!), em assistencialismos tapa-buraco, em salários exorbitantes para as dezenas de assessores de gabinete para cada político e etc.

Assim, a segunda ação de um bom governo de direita após desregulamentar e desburocratizar a economia, seria a de cortar ao máximo seus gastos públicos e diminuir a enorme carga tributária que pesa sobre os nossos ombros. Isso diminuiria a possibilidade de desvios de verba e daria mais autonomia ao cidadão para gastar o seu salário.

3) Financiando o aluno em vez da escola

Aqui começam os temas mais famosos. A decadência da educação pública é um dos problemas mais graves que temos. Faltam professores nos colégios; os professores que temos não recebem bem e ficam desestimulados; os alunos desordeiros têm liberdade para agirem como querem sem receberem punição; o governo, querendo bons índices de aprovação, cria um sistema que passa qualquer um; as salas lotadas tornam difícil a passagem de todo o conteúdo por parte do professor; alguns professores sem caráter não se esforçam para passar matéria e muitas vezes não vão à aula; falta material; falta estrutura; faltam incentivos ao bom aluno e etc.

Como resolver esse panorama? Bem, em primeiro lugar, o governo deve incentivar ao máximo a criação, manutenção e expansão de colégios particulares, porque estes apresentam melhores resultados. Lembrando que quanto maior a concorrência, melhores são os serviços prestados e/ou o preço do produto.

Em segundo lugar, o governo deve pouco a pouco abandonar o modelo de financiamento de escolas, passando a financiar o aluno. Isso mesmo. O governo passaria a dar bolsas para estudantes carentes de escolas públicas, a fim de que seus pais tivessem a oportunidade de escolher um colégio particular de sua preferência e colocar seu filho, sendo financiado pelo governo.

Esse modelo de financiamento individual tornaria muito difícil o desvio de verba pública, já que ela teria um destino diretamente monitorado pelos pais do aluno financiado e pelo colégio escolhido por eles. Funcionaria mais ou menos como à bolsa de 400 reais que alguns alunos carentes recebem do governo em faculdades públicas: financiamento individual que o aluno consegue receber certinho todo mês (é até difícil acreditar que vem do governo, né?).

Este modelo de financiamento individual do aluno também transfere a administração do dinheiro para o setor privado que, ao contrário do setor público, terá o cuidado em aplicá-lo de maneira bem refletida, já que seu lucro depende inteiramente da qualidade de seu serviço (algo que não ocorre com as empresas públicas).

Entretanto, como nada deve ser tão fácil (senão vira bagunça), os colégios que recebem alunos pagos pelo governo deverão manter boa estrutura, aulas de qualidade e um preço condizente com aquilo que oferece. Caso contrário, o governo poderá suprimir o número de bolsas anuais até ao ponto em que o colégio não poderá mais ser agraciado com os alunos financiados pelo governo. Ou seja, para receber o benefício, os colégios serão pressionados a oferecerem bons serviços.

Da mesma forma, o aluno agraciado pelo financiamento público deverá mostrar um desempenho pelo menos mediano nas notas, no comportamento e na avaliação geral dos professores (isto é, se ele é um aluno esforçado, apesar de suas dificuldades). Caso contrário, ao final de um ano, sua bolsa poderá ser diminuída ou retirada.

Na medida em que os colégios públicos forem esvaziando, um bom governo de direita poderia ainda formar grupos colégios públicos em cada região, transformá-los em empresas de capital aberto e repassar suas ações para os próprios funcionários desses colégios (e até alguns pais interessados). Seria colocar a educação pública nas mãos daqueles que mais se preocupam com ela.

Com essas ações, o governo teria muito menos coisas para administrar e tão logo as questões de ordem educativa passariam a ser resolvidas por pais de alunos, professores e diretores. Os pais dos alunos poderiam, inclusive, se organizar em pequenas assembléias com os professores e administradores para discutir os rumos da escola, formando órgãos espontâneos de opinião, fiscalização e pressão na educação.

4) Criando concorrência no sistema de saúde privado

O sistema de saúde pública do Brasil está doente. E os sintomas são os mesmos da educação pública. Faltam funcionários; funcionários faltam (perceba que são coisas diferentes); os médicos que vão são desestimulados pela desorganização e péssima condição dos hospitais; há muitos médicos incompetentes e muitos de mau caráter; não há equipamentos; não há estrutura; enfim, está morrendo.

Se os sintomas são os mesmos, não é de se admirar que o diagnóstico também seja o mesmo. É esse modelo de financiamento de hospitais pelo governo. Isso não dá certo. Principalmente os hospitais, pois os seus equipamentos são caros, bem como seu corpo de trabalhadores, o que dá uma margem extraordinária para desvios de verba e má administração.

Se os sintomas são iguais e a doença é a mesma, o remédio também não pode ser diferente. O governo deve incentivar a concorrência entre hospitais privados. De todo o tipo. Quanto mais hospitais privados houver, melhor para a qualidade do serviço. Essa concorrência deve ser tão forte a ponto de hospitais disputarem pacientes.

Quanto aos hospitais públicos, que se vendam todos eles, sem titubear! Eles não prestam. A existência deles é a causa de tantas mortes bobas e absurdas que poderiam ser evitadas. A manutenção desse sistema é um genocídio. Em vez de hospitais, que o governo pague planos de saúde individuais aos mais necessitados. É até uma forma de ressarcir as pessoas que perderam tanto dinheiro pagando impostos durante sua vida e nunca puderam ter um serviço de saúde de qualidade.

5) Endurecendo as Leis

As leis do Brasil são muito frouxas. Nesses dias eu estava vendo um caso de um jovem ciclista que perdeu um braço, arrancado por um carro em alta velocidade. O cara que dirigia não socorreu a vítima e ainda jogou o braço arrancado do jovem (que havia ficado preso no carro) em um rio sujo. A médica que operou o jovem afirmou que se o motorista não tivesse feito isso, era possível colocar o braço do ciclista de volta. Aí você pergunta: “O que aconteceu com o motorista que fez isso?”. Nada. Ele está solto.

Casos absurdos como esses acontecem o tempo todo. Sabe por quê? Porque os criminosos sabem que as leis são frouxas e o sistema é fácil de burlar. Por isso eles não têm respeito nem temor. Zombam da lei.

Grande parte da culpa por nossas leis serem assim é da mentalidade de esquerda que domina o nosso país. Para a esquerda, o criminoso é uma vítima da sociedade e não uma pessoa responsável pelos seus atos. Para esquerda, invadir terras alheias, cometer atos de vandalismo contra igrejas, expropriar bens, agredir direitistas, proibir a liberdade de opinião e apoiar regimes genocidas é correto. Para a esquerda, o Estado é tão sacro-santo que governantes não são nossos funcionários, mas os pais dos pobres, tendo assim direitos que ninguém tem. Isso também vale para “minorias oprimidas” que devem ter mais direitos do que as outras pessoas. E, para a esquerda, por fim, a idéia de que “os fins justificam todos os meios utilizados” sempre foi muito respeitada.

Como podemos ver, a esquerda nunca gostou muito de leis. Ela prega igualdade de resultados na vida (o que é tão ridículo como tirar uma média geral em uma turma, a fim de que todos tenham a mesma nota), mas não a igualdade perante a lei. A lei, para a esquerda, serve para ser burlada ou para gerar classes distintas. Toda a lei justa que haja se esfarela em vista de seus ideais utópicos.

É essa a mentalidade que nossas leis absorveram. Junte isso com nossas heranças malditas: a corrupção e a visão do Estado como um Leviatã poderoso e intrometido. O resultado não poderia ser diferente. Criou-se uma cultura que não sabe o que é lei. Não fomos acostumados a entender o conceito de lei, nem de justiça, nem de ordem. Nem o povo nem o governo conhecem a profundidade e a importância desses termos.

Mas como isso poderia ser resolvido? Em primeiro lugar, fazendo cada pessoa entender o que quer dizer lei, justiça e ordem. Em segundo lugar, endurecendo as leis de nosso país. A obrigação do código penal é colocar medo na pessoa que deseja cometer um crime. A lei deve fazer saber ao indivíduo que se ele cometer um crime, certamente ele será punido e com a intensidade proporcional à gravidade do caso. É isso o que os direitistas vêm afirmando há tanto tempo.

Ao contrário da Esquerda, que enxerga o criminoso como vítima e exalta vários crimes e delitos, a Direita vê o criminoso como um ser humano responsável pelos seus atos, assim como qualquer outro. Não há justificativa para seus crimes. A lei deve ser firme e igual para todos. Se alguém faz o que é errado perante a lei, deve ser punido. E ponto final. É essa a mentalidade que os códigos civis e penais precisam absorver.

Vou dar alguns exemplos para o leitor ter uma visão mais geral do estou falando.

1.  estupradores, assassinos frios, seqüestradores e criminosos que cometeram crimes hediondos ficariam presos por mais tempo (50 anos, por exemplo) sem direito a redução de pena ou migração para regimes semi-abertos ou abertos;

2. motoristas pegos dirigindo bêbados pela segunda (ou terceira) vez ou cometendo repetidas imprudências no trânsito, perderiam definitivamente suas habilitações, não podendo dirigir nunca mais;

3. policiais corruptos não apenas seriam excluídos da corporação, mas condenados à prisão civil, já que oferecem risco à sociedade;

4. menores de idade que cometeram crimes de caráter hediondo tais como homicídio doloso, estupro, seqüestro, tortura e espancamento seriam tratados e punidos como maiores de idade;

5. políticos corruptos seriam julgados como cidadãos comuns e não como cidadãos superiores, que gozam de imunidade parlamentar;

6. criminosos não seriam liberados da prisão em feriados como dia das mães e natal por bom comportamento (como é o costume aqui no Brasil);

7. não apenas o tráfico de drogas seria criminalizado, mas o seu uso também, já que o traficante só existe por causa do usuário (neste caso, há direitistas que são favoráveis à legalização da venda de drogas, regulando apenas os lugares onde as pessoas poderiam usar. Isso pode ser discutido. A questão é: ou se criminaliza o uso e a venda ou se legaliza ambos);

8. o espancamento de qualquer tipo de pessoa por discriminação ou motivo torpe seria considerado crime hediondo;

9. o desvio de verba pública seria considerado um crime muito grave, já que é um roubo a toda a nação.

O objetivo aqui não foi fixar como deveriam ser as leis. Mas apenas mostrar, através desses exemplos, que as leis poderiam ser muito mais rígidas do que hoje são. Isso é uma das propostas mais importantes da direita para, inclusive, melhorar a segurança pública. Sem leis firmes e justas, não há como se ter boa segurança.

Fim da Primeira Parte

Chegamos ao fim da primeira parte. Vimos que a direita propõe desburocratizar a economia, a fim de facilitar a vida de pequenas e médias empresas e criar mais empregos; cortar gastos públicos desnecessários ou que não são prioridade no momento; diminuir impostos; incentivar a iniciativa privada na área da educação e da saúde; investir em financiamentos individuais em saúde e educação, em vez de escolas e hospitais públicos; e fortalecer as leis.

É claro que, assim como a esquerda, a direita também tem divergências internas quanto a como se aplicará cada uma dessas propostas. Existem várias correntes de pensamento direitistas, algumas mais moderadas, outras mais radicais, umas mais liberais, outras mais conservadoras, algumas mais nacionalistas e etc. E é importante que essas ideias sejam discutidas entre as diferentes correntes. Mas, em suma, o pensamento de direita não foge muito do que foi proposto aqui. A ideia é mesmo ter um governo menos inchado e mais útil no que tange às suas verdadeiras funções: criar boas leis, zelar por elas e proteger o cidadão.

Na próxima postagem da série, iremos conhecer mais sobre outras propostas como: privatizações de empresas públicas, concessões de curto prazo, presídios privados, abertura para empresas e produtos estrangeiros.

Sobre o Coletivismo e outras Idiotices

Artigo escrito por Gustavo Miquelin Fernandes. Para ler o texto original clique aqui.

O universalismo e o coletivismo não podem aceitar a solução democrática para o problema do poder. Na sua opinião, o indivíduo, ao sujeitar-se ao código ético vigente, não o faz em benefício direto de seus interesses particulares; ao contrário, ele está abstendo-se de realizar seus próprios objetivos em benefício dos desígnios da Divindade ou da comunidade – Mises.

Toda forma de coletivismo é precária, primária, e pra mim, desprezível. E sempre tende à corrupção de costumes e de meios de ação. Isso é de uma simplicidade gritante e pode ser entendido até por elementos do reino mineral.

Sindicatos, ONGs, OAB, clubes, e toda sorte de agremiação corporativista que surgem todo dia, sem cessar são sempre desnecessárias. Precisamos de mais compreensão de como funciona esse processo e suas conseqüências para o tecido social.

O coletivismo faz que aos poucos as pessoas, unidade mínima existencial, esqueçam-se do fim mesmo da existência, que é a promoção, a evolução e aprimoramento do “eu”. Aquela doutrina nefasta exige que isso se torne aspecto secundário, em nome de um ente virtual e abstrato, que é a comunidade, a sociedade, o coletivo, etc.

Responda com sinceridade. Quem é o protagonista da vida? A comunidade ou o ser humano? Quem merece colher o que plantou? A coletividade ou a pessoa?

A resposta me parece óbvia.

Bem certo que egoísmo e o egocentrismo são abjetos e hediondos, devem ser combatidos (odeio esse termo) com todas as forças. A caridade (particular), o respeito ao próximo, a solidariedade, noções maximizadas de ética, devem ser amplamente fomentadas.

O coletivismo, doutrina que agrega “idiotas úteis”, já mostrou sua cara ao mundo e disse ao que veio – saldo: mais de 100 milhões de mortos, ditaduras ainda existentes, um povo cego e ignorante e outras benesses gerais. Essa teoria faz a patrulha, vítimas aos magotes, diariamente, e pode-se dizer que hoje se constitui no mainstream.

Vejo tristemente muitos amigos próximos falando em proteção ao meio-ambiente, ativismo, associação à partidos políticos socialistas como PSDB, PT, PSOL, PV e outras barbaridades.

Amigos esses, estudados, bem intencionados, e de moralidade nada questionável, apenas foram patrulhados e absorvidos por essas correntes medíocres de pensamento.

Os ideólogos patrulheiros, sempre de plantão, vão chiar com esse paper; evidentemente, eles não suportam ver suas esferas de ação contestadas ou postas em xeque.

Essa doutrina que faz desprezo à individualidade (o eu) para homenagear um ser imaginário (o nós) é de uma inépcia superior, sem razão de ser. Não se sustenta à mínima especulação filosófica. Poderia levar tal raciocínio a frente, mas não caberia aqui pela sutileza com que teríamos que abordar a questão e pela exigüidade do propósito deste pequeno artigo.

Aos poucos as pessoas absorvidas pela tendência coletivista vão incorporando seus “ensinamentos”, e pondo isso em prática. O esquecimento das ações individuais, a meritocracia, as diferenças das pessoas, sempre positivas, vão deixando-se minguar. Instala-se o preconceito de toda ordem, o estatismo, as guildas, corporações, sindicatos e a burocracia da corrupção.

Resultado: imobiliárias guia uma sociedade corrupta, nivelada, belicosa e hostil. Isso que eles pregam é de um autoritarismo gigantesco e que tem galgado admiradores e propagadores, os idiotas úteis.

Algo pouco falado e falsamente atrelado ao capitalismo, e que se constitui na pior forma que se tem de coletivismo são os monopólios, pesadamente estimulados pelo Governo.

É o coletivismo com o dinheiro do povo, com parque de produção que deveria ser democrático e plural e que o Estado faz questão de proteger para seus poucos aliados desfrutarem sem óbices. Aliados públicos ou privados, diga-se de passagem; aqueles burocratas acomodados, estes, financiadores de campanhas políticas.

Sindicatos financiam “mensalão”, ao colocarem dinheiro em campanhas eleitorais desse pessoal de baixa moralidade, pública ou privada.

Por fim o coletivismo gera o preconceito, ao nivelar pessoas diferentes como iguais e exigindo tratamento idêntico. Sabemos que ninguém é igual, temos defeitos e somos melhores do que outras pessoas em certas coisas e piores em outras. Vem a ideologia coletivista e dispõe todos no mesmo patamar e, autoritariamente, exige tratamento idêntico. Isso resulta em tragédia.  As diferenças têm de ser detectadas e respeitadas por todos, para uma boa convivência.

Coletivismo é a falsa ideologia que se traveste de “boazinha”, escondendo sua face terrível, que é a demonização do ser humano, considerado em si mesmo; a manutenção de privilégios; a canalização de dinheiro público para setores questionáveis do ponto de vista da eficiência; o asseguramento do Estado, como provedor dessa segurança coletiva igualitária.

Não caiam nessas bobagens, propagadas por partidos políticos; falsos intelectuais, professores universitários, ongueiros, e ativistas em geral.

São os verdadeiros geradores de atraso e corrupção. Precisam de muito dinheiro para se manterem. Aí começa o problema, dinheiro nas mãos de “bem-intencionados”. Nem preciso concluir esse raciocínio…

O mundo pede pensadores, alguma reflexão e análise; esse pessoal nem de longe não sabe fazer isso.

Ele (o coletivismo) também cria falsas expectativas sobre as pessoas. Já se disse que as pessoas são, por natureza, diferentes, e por isso, agem diferentemente. Não podemos esperar um “comportamento de manada” da sociedade. Nem depositar nenhum tipo de expectativa sobre elas. Aí começa o respeito às diferenças, à tolerância, ao bom-conviver.

Essa gente é tolerante desde que não sejam contestados ou desmascarados. Observe a falsa tolerância deles; é assim que funciona a máquina da ideologia e emburrecimento geral dos povos.

Assim, podemos constatar que antes de mais corporações, instituições, departamentos, órgãos, Estados, partidos políticos, organizações sociais; precisamos de pessoas, boas pessoas, bons profissionais, bons quadros.

Assim, a sociedade funciona melhor.

Valorizar o indivíduo, a unidade mínima da existência, protagonista da vida, esta deve ser a meta.

Mengistu, a sangrenta via etíope ao socialismo

Artigo de Fernando Díaz Villanueva originalmente postado na revista Ilustración Liberal. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPara ler o artigo original em espanhol, clique aqui.

NOTA: o artigo foi extraído da edição 17 da revista, publicada em 2003. As referências à anos e meses estão defasadas em 9 anos com relação ao ano presente de 2012.

Introdução
Um dos lugares comuns, habituais e mais trilhados pelo qual transita a opinião pública mundial é aquele que identifica o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo com a imposição, à força, do capitalismo ao modo e maneira do ocidente. Tanto se estabeleceu a idéia que não é surpreendente encontrar continuamente gente comum e analistas que atribuem ao livre mercado a ruína, a fome e todas as calamidades que padecem os países da Ásia, América do Sul e especialmente da África. Os casos asiático e americano, com a Coréia do Norte e Cuba como ponta de lança, parece que se vai pouco a pouco desmistificando a idéia bastarda de uma conspiração ocidental contra os interesses, e até a vida, de coreanos, vietnamitas, cambojanos e americanos hispano ou lusófonos. Na África entretanto a fábula mantém sua vigência inalterável. Na televisão, na imprensa, na Internet me atreveria a dizer, a dramática imagem do menino com ventre inchado vem indefectivelmente acompanhada de referências às grandes fortunas do planeta, aos índices sempre crescentes da bolsa de Nova Iorque ou, simplesmente e com ganas de envolver a todos nós, a insinuação velada de que nosso bem-estar descansa sobre seu mal-estar. Em poucas palavras; se desfrutamos aqui de uma casa confortável, três refeições ao dia e férias pagas é porque lá sofrem o indizível. Nossa situação mediana como um país desenvolvido é então fruto de um roubo, de um assalto à mão armada às custas daqueles que tiveram a má sorte de nascer ao sul de Tarifa.

Nesta peculiar teoria do saque que tantos êxitos colheu para seus mentores intelectuais rara vez ou nunca se recorda ao grande público, essa massa telespectadora que paga impostos, vota a cada quatro anos e aguenta sem reclamar como lhe chamam de ladrão na cara dura quando decide instalar um aparelho de ar condicionado em casa, que uma parte considerável da miséria do chamado Terceiro Mundo é responsabilidade direta de infrutíferas tentativas de implantar o comunismo. De levar esta doutrina redentora aos povos recém emancipados do jugo colonial e da bota do europeu ímpio. Casos para exemplificar há, como reza o dito popular, mais que minhoca na terra, e se estendem por todo o globo. Da populosa Indochina às selvas nicaragüenses, dos páramos gelados do Afeganistão aos tórridos desertos africanos do vale do Rif. A tarefa sempre inconclusa de libertação cobriu os últimos quarenta anos da nossa história recente, e com frequência quando se propõem receitas irresponsáveis para acabar com a seca daqui ou a fome de acolá os teóricos do saque estabelecem um programa em duas fases. A primeira é ocultar o fracasso de anteriores planificações forçadas e salvamentos coletivos como a foice e o martelo os ensina. A segunda é valer-se da situação desfavorável presente para prometer a abundância futura, copiando ponto por ponto a fórmula magistral que levou em tempos passados à ruína sem paliativos do povo tocado pela varinha mágica do socialismo tropical.

Um dos episódios mais desconhecidos, ocultos e mortíferos é o do experimento socialista nas milenárias terras da Etiópia. Para os que como este que escreve cerrava os dentes diante da televisão nos anos oitenta é uma lembrança poderosa  aquela dos campos de extermínio na distante Abissínia, que obviamente não sabíamos onde ficava mas cuja realidade dolorosa entrava em nossos olhos como facas afiadas. De certa maneira, para nós que o vivemos desde o sofá a miséria daquela gente de pele queimada pelo sol e pela seca, pelas privações, esta e não outra é nossa particular e intransferível imagem da fome. As razões não compreendíamos então nem, talvez, quisemos fazê-lo depois. O fato é que desde os Estados Unidos se pôs em marcha uma campanha global de ajuda aos famintos etíopes. Lembro que se chamava USA for Africa ou algo assim. Organizaram um grande show, em Wembley talvez, que contou com um concurso de artistas populares. O logotipo era uma guitarra negra com a caixa de ressonância transmutada no mapa do continente africano. Um tal Bob Geldof do qual nunca mais se ouviu falar foi o mestre de cerimônias. As vezes pensei que este homem foi tirado de um armário para a ocasião e no término desta voltaram a trancá-lo lá. Aparte de Geldof o espetáculo se alinhou com cantores mais ou menos conhecidos, alguns de verdadeiro sucesso naquela época, como aquele que depois de contribuir com que as crianças da Etiópia comessem lhe deu na telha de deitar-se com algumas na Califórnia. Coisas do estrelato rockeiro. A campanha, e em especial o show, fizeram tanto sucesso que a causa etíope obteve um prestígio sem precedentes. Às imagens que retransmitia o telejornal se sucediam as análises e os artigos de uma imprensa que sempre e irremediavelmente afirmava que a culpa da fome passava pela porta da nossa casa. Se eles estavam assim é porque a riqueza estava muito mal distribuída no mundo. Não se fazia mais referência aos apostadores do cassino de Montecarlo nem aos magnatas do aço como aproveitadores de capital. Éramos nós os responsáveis diretos pelas dificuldades que nossos congêneres da baixa Eritréia passavam. Ainda estou lembrando as recriminações de minha mãe quando não queria comer.
– Filho, come que há muita fome no mundo. Não viu na televisão aqueles pobres negrinhos?

E claro, ante argumento de tal peso eu comia, me calava e fazia sinal da cruz por ser tão afortunado e por ter nascido no lado dos saqueadores e não no dos saqueados.

Uma das fotos que ilustra os livros didáticos brasileiros para explicar os males que o “capitalismo” provoca na África… fruto do socialismo etíope. Já dizia Lenin: “Acuse os adversários do que você faz…. chame-os do que você é!”

O que não me contava minha mãe, com certeza porque não sabia, e o que não diziam no telejornal, com certeza porque não queriam, é que a Etiópia de então, naquele orwelliano ano de 1984, era o fruto, o resultado último de uma trágica experiência que havia transformado no lapso de 10 anos o outrora desafiante e orgulhoso Império Etíope numa nação raquítica e insolvente que sacrificava sem dó o capital mais valioso, sua própria gente, no altar do marxismo ao modo africano.

Etiópia, a nação mais antiga ao sul do Saara, a única junto com a Libéria que se manteve à margem da colonização, a única que derrotou em campo de batalha um exército europeu, a única, em suma, que apesar dos vai-e-vens da política africana mantinha certo prestígio internacional. Esta mesma Etiópia mãe nutridora da emancipação africana, merecedora de louvores, de conferências e congressos em sua capital Addis Abeba, padeceu em um tempo não tão distante uma revolução socialista desde os quartéis que se não fosse pelo rastro de mortes que deixou quase não nos lembraríamos dela. Os ingredientes de semelhante absurdo político que custou a vida de centenas de milhares de pessoas nos são relativamente familiares: a União Soviética e sua estratégia premeditada de converter o mundo num imenso gulag, a Cuba de Castro e seus estúpidos anseios de grandeza e então a Etiópia, se lançando com ousadia ao papel que a história lhe havia dedicado.

A tomada do poder
Pequeno, pele escura, traços marcados e uma ambição desmedida por poder, quase doentia. Assim foi e deve seguir sendo em seu dourado desterro no Zimbábue Hailé Mengistu Mariam. A princípios do mês de setembro de 1974 uma grande etapa da história da Etiópia se encerrava. Negus, o rei dos reis, o mesmo que havia clamado na Liga das Nações quatro décadas antes contra a invasão italiana, era deposto em Addis Abeba. A valente instituição que havia construído a moderna nação etíope e batalhado contra o imperialismo fascista em 1935, que havia humilhado o ocidente no campo de batalha e que se vangloriava de haver deixado a Etiópia fora da garra colonialista européia estava já nos anos 70 completamente desgastada. Por dentro e por fora. No interior as fomes periódicas e uma modernização frustrada haviam posto o monarca na corda bamba em mais de uma ocasião. Ademais, e como remate a uma situação por si só comprometedora, o independentismo eritreu amadurecia com a fundação e início das hostilidades da revolucionária Frente de Libertação da Eritréia. No exterior as ambiçõe somalis, convenientemente atiçadas por Moscou, sobre o estéril deserto de Ogaden pintavam um panorama desalentador que deixava a idéia imperial abandonada na lixeira da historia.

À frente da nova Etiópia iluminada a fins de 1974 ficava uma comissão, o Derg, formada por militares. O trabalho primordial do Comitê, do Derg, era dirimir a senda política pela qual a Etiópia transitaria no futuro imediato. A inquieta Eritréia, a fome, que levava já milhares de vítimas nas costas, e o conflito de Ogaden constituíam a agenda quasei única deste governo provisório atípico composto por mais de 100 membros e presidido pelo general Aman Andom. Junto a ele dois jóvens capitães do exército, Atnafu Abate e Hailé Mengistu. O Derg estava fortemente dividido entre os que advogavam por um governo forte que fizesse frente tanto à secessão eritréia como à infiltração somali em Ogaden, e os que optavam por voltar à via do consenso com Eritréia para concentrar-se nos problemas reais do país. Andom, de ascendência eritréia e caráter negociador se inclinava abertamente a esta segunda opção a fim de ganhar recursos e cortar a sangria de dinheiro e homenss que a guerrilha do norte estava provocando. A economia etíope estava paralizada pela guerra, a fome e um atraso secular. A agricultura, sustento básico da nação, era tremendamente ineficaz. Estava nas mãos da nobreza chegada ao regime imperial cujos métodos de produção, divisão da propriedade e resultados finais eram mais próprios do feudalismo que de uma economia capitalista agrária moderna. Os problemas que afligiam à Etiópia de então estavam perfeitamente definidos. Restava por ver, naquele outono de 1974, quem era o herdeiro da monarquia recém decomposta. Em novembro, apenas dois meses depois da renúncia de Negus, o general Andom foi assassinado em seu domicílio de Addis Abeba. Foi o primeiro a cair. A Andom sucederiam com a precisão de um relógio suíço s quedas em desgraça, na fossa, de outros militares de caráter e carreira reconhecida e todos pertencentes ao Derg. O novo diretor de operações, o timoneiro que traçaria a derrota exata da imensa nave etíope era Mengistu. Depois de um breve interregno com o general Teferi Bante à frente da Comissão, ficou marcado o destino deste capitão recém promovido, de formação deficiente, para não dizer nula, e de baixa estatura, que a muito contragosto tratava de resolver com saltos. Um destino que estava escrito com sangue nas entranhas da enrugada e sedenta terra etíope.

O Terror Vermelho
A Etiópia possuía, como quase qualquer país africano da época, uma pequena mas muito politizada minoria intelectual. Antigos estudantes das universidades européias que provaram em primeira pessoa as bondades do maio de 68 retornavan à sua pátria con a idéia fixa de converter as recém libertadas nações africanas em modelos a imitar, em provetas do novo socialismo terceiro-mundista que fazia as delícias dos dirigentes do Kremlin. Em um mundo fortemente polarizado como o dos anos 70 a União Soviética vivia em um contínuo estado de preparação para a guerra, guerra por outra parte que o conselho de anciãos coxos que acaudilhava com mão férrea o Politburo do PCUS via como iminente. A obsessão de que a qualquer momento podiam desencadear-se hostilidades entre os Estados Unidos e o bloco soviético levou os responsáveis deste último a perseguir por todo o planeta bases que assegurassem provisões e pontos de apoio para um conflito que, apesar da arma atômica, os soviéticos consideravam que seria grande. A África, e em particular o chifre do continente, não foi uma exceção. Já nos tempos de Negus esta diminuta intelectualidade a quem haviam sorvido o cérebro em Sorbonne constituía debaixo do seu nariz partidos e agremiações de ar comunista e revolucionário travestidos, como não, de movimentos de libertação. Na Etiópia antes da ascensão do Derg ao poder já haviam se formado dois partidos de corte marxista; o PRPE (Partido Revolucionário do Povo Etíope) e o MEISON (Movimento Socialista Panetíope). Ambos comungavam plenamente com o ideário moscovita mas lhes separava sua visão do que seria a Etiópia libertada do jugo capitalista. O PRPE optava pela federação com a Eritréia onde lutavam pela independência seus irmãos da Frente de Libertação cujos gastos eram bancados pela URSS e pela China. O MEISON se caracterizava por um caráter mais centralizador. A Etiópia era una e devia seguir sendo-o. Os da Frente de Libertação da Eritréia já podiam se preparar e renunciar ao seu secessionismo porque após a revolução em Addis Abeba a Eritréia seria administrada pelo poder central. Mengistu, o novo homem forte da comissão governamental não podia consentir que uns intrusos e opositores ficassem no seu caminho, de modo que sem exitar liquidou ambos os partidos pela via mais direta e fácil: assassinando seus afiliados e simpatizantes. Primeiro foi a vez do PRPE. Mengistu clamou publicamente contra os inimigos da revolução e deu início a um expurgo selvagem. Com a colaboração do MEISON que organizou milícias armadas para o Derg se fecharam as universidades e se deu a caça, captura, tortura e morte a todo dissidente catalogado como tal pelo governo ou pelo Movimento Panetíope.

O MEISON, socialista, ajudou Mengistu, socialista, a destruir a oposição do PRPE, também socialista. Tudo em família.

Mas como os revolucionários raramente aprendem História e desconhecem portanto que, ao modo de Robespierre ou Trotski, a revolução devora seus próprios filhos, foi o MEISON o próximo objetivo da ira de Mengistu. Começou justiçando Atnafú Abate, antigo correligionário seu e participante entusiasta na limpeza do PRPE, para continuar com a perseguição sistemática e assassinato dos partidários e adidos ao MEISON. Esta vez, e à falta das voluntariosas milícias panetíopes, Mengistu se valeu de uns esquadrões de extermínio criados para a ocasião e que dependiam diretamente da Segurança do Estado, ou seja, dele. Em ambos os expurgos ninguém estava a salvo. A arbitrariedade com que o poder levantava o dedo acusador se estendia a todas as classes sociais e sensibilidades políticas. Como em todas as revoluções libertadoras, quem no mundo tivesse o simples qualificativo de reacionário, contrarrevolucionário ou, simplesmente, antipovo (sic) bastava para que a cabeça do acusado rolasse irremisivelmente pelo chão ensanguentado por anteriores execuções sumárias. A situação chegou a meados de 1977, três anos depois da subida ao poder do Derg, a tal degradação que até as ONG’s se espantavam. O secretário mundial da Save the Children clamava em vão desde Addis Abeba que […] foram assassinadas mil crianças e seus corpos jazem nas ruas para as hienas errantes. […] Podem ver-se os corpos amontoados de crianças assassinadas […] na calçada da rua de saída de Addis Abeba.[…][1]

Junto ao terror generalizado na rua e tocado sem consideração primeiro pelas milícias panetíopes e depois pelos esquadrões governamentais, Mengistu levou a cabo uma verdadeira limpeza dentro do Derg. Os fuzilamentos de membros da mais alta magistrarua do estado haviam dado um começo, quase como o nascimento do novo regime. Mengistu não aceitava dissidência e muito menos a proveniente dos círculos de poder. Como já apontei anteriormente, Aman Andom, o homem forte do golpe que derrubou Negus, foi liquidado pouco antes de iniciar seu comando à frente da junta militar. Conforme foi derivando o regime ao absurdo da tirania genocida, os expurgos dentro do Derg e da classe política etíope aumentaram em intensidade. O próprio Negus Hailé Selassie foi estrangulado às mãos de Mengistu em 1975 com um cordão de nylon que ficaria tristemente famoso. O carrasco se situava às costas e puxando com força em sentido oposto aos cabos do cordão rompeu a traquéia do réu que fenecia na pior das asfixias. Liberais, tradicionalistas do regime anterior, líderes do cristianismo copta ou ex-camaradas revolucionários….., muitas foram as personalidades que sucumbiram à Pajarita de Mengistu. Outros eram brutalmente torturados até a morte e depois expostos como trapos humanos nas ruas de Addis Abeba para edificação e instrução dos transeuntes. Os serviços secretos do bloco socialista contribuíram de maneira decisiva aos expurgos. Se algum destacado dissidente era localizado em Moscou, Berlim ou Varsóvia, a KGB ou a Stasi se encarregavam de providenciar-lhes a justiça etíope.

Teferi Bante, que a princípios de 1977 era o único freio ao poder onímodo de Mengistu, caiu fruto de uma conspiração junto ao resto de seus fiéis e foram metralhados à entrada do Palácio Real. O assassinato do general Bante marca o ponto de inflexão a partir do qual o regime de Mengistu se tornou incontestável no interior do país. Foi também o momento em que Mengistu se abriu ao mundo e sovietizou a Etiópia de modo irremediável.

O Chifre da África
As nações que ocupam a parte centro-oriental do continente africano ficaram conhecidas tradicionalmente como Chifre da África. Seja por um capricho da geografia que dotou a costa africana desta protuberância em forma de chifre, seja pelo vale tectônico que a atravessa de norte a sul, o fato é que o vai e vem histórico de nações díspares como Etiópia, Somália, Djibuti e Eritréia foi secularmente entrelaçado. Em tempos coloniais, a finais do século XIX, ingleses e italianos disputavam a zona. Os britânicos para assegurar a via comercial que comunicava a Índia com a metrópole através do Canal de Suez, e os italianos por chegar tarde à divisão e para ter um colônia para explorar, por mais seca e improdutiva que fosse. Depois de vários acordos as duas potências desenharam o mapa dividindo a Somália e outorgando o controle da Eritréia ao governo de Roma. Asmara, a capital desta desértica comarca costeira do mar Vermelho segue hoje tendo certo encanto italiano no que resta de seu bairro colonial. A Etiópia ficava à margem e muito bem custodiada por seu imperador Menelik, fundador de Addis Abeba e garantia da independência etíope. De certo modo poderia explicar-se o fato da não colonização da Etiópia porque tanto a monarquia de Menelik como uma parte importante da população era cristã desde tempos imemoriais. Não havia pois missão civilizadora alguma a fazer ali. Ainda assim os italianos não desestimaram nunca a possibilidade de anexar a seus domínios eritreus o resto do reino. O tentaram em 1896 e a brincadeira lhes custou caro. O exército de Menelik armado pelo czar da Rússia aplicou um severo corretivo aos italianos na batalha de Adua. Quarenta anos mais tarde e com Mussolini como pai da nova Itália fascista a Etiópia se rendeu. Teve de ser libertada pelos britânicos uns anos mais tarde e entregue de novo ao imperador Hailé Selassie.

A moderna Etiópia nascida da 2ª guerra mundial seguia constituindo um enclave estratégico de primeira ordem. A obsessão soviética por contrariar a influência americana no Índico levou o Kremlin a orquestar uma estudada estratégia de agitação nos países do Chifre da África. Fez-se primeiro com a Somália onde graças a um golpe de estado governava Siad Barre, militar de tendência esquerdista formado nos tempos de colônia italiana. As ambições de Barre passavam por recuperar a comarca do Ogaden que, apesar de estar povoada por uma maioria somali, pertencia ao reino etíope. Moscou encontrou em Barre o perfeito cliente para sua política de intervenção nesta zona tão delicada. Junto ao Iêmen, que está na península arábica, o norte da costa da Somália controla o estreito de Bab el Mandeb, passagem obrigatória da frota internacional de petroleiros que abastecem o mercado europeu em sua viagem desde as jazidas do golfo Pérsico. Em caso de dificuldades, a União Soviética podia sempre lançar mão de um aliado fiel para fechar a torneira de ouro negro à sedenta Europa Ocidental. Ademais, como se o anterior fosse pouco, as costas somalis estão em um ponto propício do arco que forma o Oceano Índico. Se produz-se um conflito, ter bases de aprovisionamento na Somália facilitava muito o tráfego da frota do mar Negro desde sua base até o hipotético teatro de operações. Os soviéticos certamente se esforçaram. Encheram a costa da Somália de instalações militares. Nos melhores momentos a URSS chegou a dispor de uma base naval e outra de submarinos no porto de Berbera, várias plataformas para o lançamento de mísseis e uma base aérea com cobertura a aeronaves militares de longo alcance. Em troca de todas estas prerrogativas e privilégios o governo somali solicitou ao Kremlin armas, apoio logístico e treinamento de tropas especializadas para a frente aberto no Ogaden contra Negus, que aparte de tratar-se um monarca decadente e caduco era o aliado dos Estados Unidos na zona. Os soviéticos não duvidaram e junto com cubanos e alemães orientais dispuseram um contingente de experts a serviço de Siad Barre e sua peculiar idéia da conquista de Ogaden.

A chegada de Mengistu à cena política em 1974 e seu posterior fortalecimento no poder a inícios de 1977 pôs um freio à estratégia cubano-soviética na zona. Somália era importante, mas a Etiópia era mais. Determinados a construir um bloco de influência soviética na entrada do mar Vermelho, melhor era centrá-lo em torno do país tradicionalmente hegemônico, o coração político e econômico da região. Mengistu, que havia levado a cabo uma cruenta mas eficiente tarefa de concentração pessoal de poder buscava um aliado que perpetuasse seu despótico governo. Após vários contatos com Moscou, com viagem cortesia ao Kremlin inclusa, e com o próprio Castro, a quem recebeu em Addis Abeba como a um faraó do antigo Egito, soviéticos e cubanos tomaram sua decisão irrevogável. Em Março de 1977 recebeu Mengistu o primeiro envio de carros soviéticos. Em seguida o líder cubano realizou uma turnê diplomática por países africanos da órbita moscovita. Deteve-se primeiro na Argélia, daí saltou a Trípoli onde se reuniu com Muamar el Gadaffi. Dias depois, e depois de cancelar a visita prevista a Bagdá, Castro se reuniu com Fattah Ismail, presidente do Iêmen e homem de Moscou ao sul da península arábica. Deixou Aden, capital do Iêmen, apenas uma semana mais tarde para ver em pessoa a Mengistu em Addis Abeba. Para que tanto rebuliço? A manobra de aranha que levou a cabo em pessoa o Comandante em Chefe naquela primavera, tinha como único fim preparar o terreno para a já inevitável traição a Siad Barre. Mas Barre ainda concebia uma vaga ilusão de contar com seu aliado havaneiro. Castro se encarregou, outra vez em pessoa, de defraudar a esperança do atribulado dirigente somali. Se locomoveu desde a Etiópia até Mogadíscio para dar o aviso a seu antigo patrocinado. Barre não deu crédito à desfaçatez e felonia cubanas. Mas não havia volta atrás, o próprio Castro se encarregou de recordá-lo em termos que não deixavam dúvidas:

– […] não há nada que discutir, tudo foi decidido em Moscou e o que Moscou decide deve fazer-se […][2]

Vale recordar que naqueles anos o regime cubano se erigiu como representante e patrocinador da Conferência dos Não Alinhados. Valente defesa do não alinhamento que fazia Castro como uma gravadora de Moscou! Tanto cubanos como soviéticos se desfaziam em elogios ao trabalho transformação que Mengistu estava levando a cabo na nova Etiópia nascida das cinzas do Império. Mas a festinha do Chifre da África só tinha espaço para um convidado. O Mogadíscio e as bases navais ou Addis Abeba e o controle efetivo da região. Siad Barre percebeu e cortou as amarras com URSS e Cuba na esperança de que este gesto fosse bem considerado no ocidente. Erro crasso. Na Europa ninguém estava disposto a lançar-se por um pedaço de deserto por mais importante que fosse para seus interesses petrolíferos. Na América a administração Carter tentou resolver tudo por fórum. O tímido presidente dos Estados Unidos empenhado em negociar tudo propôs uma conferência multilateral para resolver pacificamente o problema. Em Moscou não estavam tão bem-intencionados. Mengistu era seu homem e apostaram forte nele. Em troca o líder etíope fez os deveres e se aproximou dos desejos de seu novo amo. Até mostrou seu firme compromisso de converter a Etiópia numa República Popular com todas as leis e com partido único submetido aos ditos do governo soviético.

A Guerra do Ogaden opôs a República Democrática da Somália, socialista, à Etiópia socialista de Mengistu apoiada por cubanos e soviéticos. Siad Barre, líder da Somália, era aliado dos soviéticos antes da Etiópia despertar mais os interesses de Moscou. Imperialismo? Capitalismo? Tá bom…

Após uma resistência numantina dos somalis no Ogaden desde meados de 1977, Mengistu tomou a iniciativa. Sua boa gestão internacional complementada com sua melhor política doméstica lhe granjearam um apoio sem precedentes em compração com outros conflitos africanos da época. Acompanhando o exército regular etíope treinado às pressas especialistas cubanos, se alinhou um contingente composto por 30.000 cubanos enviados desde Angola ou recém recrutados na ilha, 4.000 soviéticos e 2.000 búlgaros, húngaros e alemães orientais. Para fazer efetiva a vitória os soviéticos mobilizaram para a frente carros blindados, caças Mig-21 e artilharia de longo alcance. Até um satélite se enviou ao espaço com o fim de cobrir a operação de cima da atmosfera. Como curiosidade mórbida o militar a mando do numeroso contingente expedicionário cubano foi o general Arnaldo Ochoa, mais um filho do Saturno revolucionário que terminaria com o tempo sendo devorado por seu pai. A guerra de Ogaden foi extremamente sangrenta. As contendas da África pós-colonial não se caracterizavam tanto por fazer prisioneiros nem pelo trato à população civil vítima da guerra, mas em Ogaden se combinaram as mortíferas e impiedosas artes bélicas africanas com a tecnologia soviética do momento. Os bombardeios cubano-soviéticos sobre as cidades do norte da Somália provocaram o exílio massivo de aproximadamente um milhão de pessoas. Ao drama humano da absurda guerra de Ogaden haveria de somar-se os milhares de mortos no campo de batalha. O exército somali estava bem treinado e armado, fruto dos anos de colaboração cega com a URSS. Os somalis ainda defendiam uma comarca que consideravam parte irrenunciável da Grande Somália de modo que a entrega dos soldados de Mogadíscio foi em alguns casos exemplar e sempre suicida. Ao final o desatino da guerra e dos cálculos soviéticos se fez mais patente. Siad Barre não caiu como havia previsto a inteligentsia moscovita. Foi um inútil desperdício de vidas e de recursos para deixar o mapa do Chifre da África quase como estava. O único vencedor da contenda foi Mengistu e seu delírio. Ocupou Ogaden, terminou de consolidar-se no poder e obteve uma vantagem comparativa sobre outras potências da zona que bem explicam o que viria depois.

O interminável conflito eritreu
As relações da Etiópia com suas regiões tomaram na maioria das vezes um olhar de matrimônio à força que colocou em sério perigo a continuidade do corpo nacional. De todas elas, a região que mais trabalhosamente lutou por sua soberania foi a Eritréia. Situada a noreste do Maciço Etiópico, foi durante anos a única saída ao mar da Etiópia. O porto de Masava é o único com capacidade para navios de grande calado em milhares de quilômetros de costa e foi tradicionalmente um dos portos mais ativos das desérticas ribeiras do mar Vermelho. Além disso a Eritréia possui abaixo de seu sub-solo matérias-primas com as quais não conta a Etiópia, da qual está separada por uma cordilheir montanhosa difícil de contornar. De fato, quando se construiu a linha de trem de Addis Abeba ao mar, se elegeu como porto de contato o de Djibuti e não o de Masava pelas dificuldades de estender a ferrovia através dos indômitos montes de Denakil. Se a geografia por si não se empenhou o bastante em separar ambos os povos, a história traçou cursos diferentes para eritreus e etíopes. Na época colonial Eritréia esteve sob a soberania italiana enquanto a Etiópia se manteve independente, depois do breve lapso que configurou a invasão fascista da Abissínia e a guerra mundial, a Eritréia ficou sob tutela das Nações Unidas que em 1950 cederam a Etiópia à administração da região sob a condição de que se articulasse um estatuto especial que reconhecesse a particularidade da Eritréia. A Etipiópia de Negus não estava muito disposta a fazer concessões especialmente quando outras zonas do país como Ogaden ou o Tigre podiam levantar-se e pedir o mesmo tratamento que seus compatriotas setentrionais. A idéia de uma Etiópia centralizada em torno da etnia Amhara, à qual pertencia Negus e o próprio Mengistu, foi tão poderosa e ainda assim tão negativa para a causa pan-etíopq eu muitos dos problemas que os governos de Addis Abeba tiveram de enfrentar no século passado passavam pela espinhosa trama periférica.

A Frente de Libertação da Eritréia, grupo socialista que lutou na guerra de independência da Eritréia, era aliada dos soviéticos e cubanos tal qual a Somália. Assim como os somalis, perdeu o apoio dos soviéticos quando estes mudaram seus interesses em meados da década de 70.

Já vimos anteriormente como na constituição do primeiro Derg, do formado após a queda do monarca, as sensibilidades regionais estavam representadas pelo general Aman. Assassinado este e com Mengistu aferrado à idéia da Grande Etiópia Amárica não podia acontecer mais do que uma reedição corrigida e aumentada da velha questão da Eritréia, sua autonomia e o lugar que lhe cabia na Revolução recém inaugurada.

Diferente da Etiópia central onde o cristianismo copta é majoritário, na Eritréia o Islã conta com uma infinidade de devotos. Na década de 70, esta afetada comunidade, na ausência de fundamentalismo que iria cristalizar uma década mais tarde, resultou numa espécie de socialismo Árabe e guerrilheiro inspirado pelas idéias que triunfavam então nos países mais avançados do Oriente Médio. Mengistu desconsiderou as demandas de autonomia dos eritreus muçulmanos, que já estavam em pé de guerra desde os tempos de Negus, arguindo ante a comunidade socialista internacional que o caso do secessionismo da Eritréia era ilegítimo. O bloco soviético vinha apoiando as guerrilhas eritréias, tanto as islâmicas como as cristãs há anos com o objetivo de debilitar a posição americana no mar Vermelho. No verão de 1977 com a guerra de Ogaden em marcha Mengistu considerou que a enorme ajuda que acabava de receber por parte da URSS e de Cuba poderia voltar-se, uma vez extinguido o conflito somali, contra os eritreus. Uma oportunidade de ouro de resolver uma questão histórica desencadeando uma guerra sem quartel que convencesse aos rebeldes de uma vez por todas da inconveniência de sua luta armada. E quase conseguiu. A ofensiva, que começou em 1977, dexiou a região convertida em um terreno baldio, uma imensa área de despejo pontilhada de valas comuns. Para isto Mengistu contou, uma vez mais, com a inestimável colaboração de seus novos amigos de Havana e Moscou. Fidel Castro que não muito tempo antes havia mostrado abertamente sua simpatia pela  Frente de Libertação da Eritréia mudou vergonhosamente de lado e numa repulsiva manobra de prestidigitação política se fez porta-voz da sagrada unidade da Etiópia. Como no caso dos infelizes guerrilheiros somalis do Ogaden a Idéia Socialista, assim com maiúsculas, se impunha às pessoas, aos povos à palavra dada. O apoio cubano se cifrou em mais de 6.000 soldados bem treinados, carros blindados e caças Mig 21. E o pior é que nem Castro nem a imprensa cubana se esforçaram para ocultar a intervenção. Em um exemplar do diário Granma de abril de 1978 podia ler-se: […] O pessoal militar cubano estará na Etiópia no tempo que acordem os governos da Etiópia e Cuba para apoiar ao povo etíope contra qualquer agressão […][3]….. E eram os próprios etíopes os que estavam agredindo a seus vizinhos! Semelhante afirmação não se devia à pluma de um editor de oposição, mas correspondia com a trascrição literal de um discurso do Comandante em Chefe. Os soviéticos não ficaram para trás. Instalaram bases de apoio para sua frota no pequeno arquipélago que se levanta frente às costas da Eritréia e prestaram apoio logístico e humano ao exército de Mengistu. A sorte da Eritréia estava lançada mas diferente da campanha de Ogaden o combinado etíope-cubano-soviético teve de fazer frente a guerrilhas de organização caótica dispostas em pequenos e ágeis corpos de combate que conheciam perfeitamente cada palmo de terra, cada risco e cada cova. Soviéticos e cubanos não pouparam forças para render aos indômitos guerrilheiros eritreus. Fizeram uso sistemático do arsenal químico mais sofisticado da época. Bombardeios com NAPALM, gaseamento da população civil nas aldeias com agente nervoso e emprego de defoliantes. Ante semelhante alarde militar causa estupor ver hoje, em 2003, como Fidel Castro se arvora na bandeira da paz e a usa para passear pelo pier de Havana enquanto esganiça gritando “Não à guerra imperialista!. O exército de Mengistu, mais simples nos métodos mas não menos letal, entupiu de minas grande parte do país e recurreu a rotinas militares tristemente habituais no continente africano. Com o objetivo de debilitar às guerrilhas atacando a base civil mobilizou à força grandes contingentes de população rural que desarraigados e abandonados no meio do nada pereciam irremediavelmente de fome. A tropa enviada desde Addis Abeba, que chegou a contar com 120.000 efetivos armados, se especializou na pilhagem, saque e desmoralização da população civil. Desde os aviões de combate os destros pilotos cubanos disparavam nos camelos, base da economoa agrária de grande parte da Eritréia, enquanto os soldados do governo entravam de assalto nas aldeias fuzilando os homens e violando as mulheres. A barbárie absoluta patrocinada e subvencionada desde Havana e Moscou. E o que é pior, a barbárie absoluta tolerada nas chancelarias ocidentais.

Apesar do poder de fogo empregado pelo eixo URSS-Cuba e do compromisso assassino de Mengistu não se conseguiu nem conquistar nem pacificar a Eritréia. A batalha apresentada a guerrilhas autônomas por um exército regular é batalha perdida. E mais ainda quando as práticas da tropa regular passam por estupro, massacre e assassinato sistemático. O medo de ser capturado, de cair em mãos dos invasores é un poderoso estímulo a resistir até a morte se necessário. Os soviéticos o experimentariam com mais rudeza ainda no Afeganistão, os cubanos no Congo mas não há pior cego do que aquele que não quer ver, e a teimosia socialista em impor sua maquinaria militar sobre desorganizados corpos expedicionários foi um exemplo de teimosia suicida, de desprezo pela vida própria e alheia cujo balance final está ainda por determinar.

A Grande Fome
Tem-se dito com evidente falta de informação ou com insolente desprezo da História que o governo de Mengistu foi na realidade um arremedo moderno do governo despótico de Negus, um apanhado neofeudal travestido de socialismo à africana. Nem uma coisa, nem outra. Verdade que Mengistu carecia de formação marxista. Verdade que chegou a receber cursos na base norteamericana de Fort Leavenworth em sua época de estudante na Academia Militar de Haletta. Mas por seus frutos o conhecereis diz a Bíblia e no caso de Mengistu a citação cai como uma luva. Embora não possamos atribuir os primeiros expurgos no Derg à ortodoxia socialista é estritamente histórico que tanto pessoalmente quanto pelo modo como derivou seu regime foi, sem dúvida, um marxista.

Antes mesmo de liquidar a dissidência de esquerda representada no PRPE e no el MEISON Mengistu procedeu com uma socialização forçada da economia etíope. Apenas quatro meses depois do destronamento de Negus o Derg dirigido com mão de ferro por Mengistu nacionalizou os bancos e os seguros. Pouco depois arremeteu contra a propriedade. Proibiu por lei a posse de terras e limitou a um bem por família a propriedade imobiliária. Qualquer cidadão que possuia, fosse por herança, fosse por aquisição, mais de um imóvel foi automaticamente expropiado pelo Estado. Tudo isto se decretou em 1975, antes da feroz campanha de repressão política e das guerras do Ogaden e da Eritréia. Mostra inequívoca de que à supressão da liberdade econômica sucede irremediavelmente a política. Conflitos armados aparte, a descomposição da sociedade rural etíope, sustento da economia nacional, tem sua origem aqui, nos decretos de 75. A tradicional repartição da terra na Etiópia se organizava ao redor de dois regimes. O Rist centrado em torno dos clans familiares e o Gult, terras de concessão estatal, ou seja, imperial. O Rist formava a coluna vertebral do campo etíope, constituia o núcleo essencial da sociedade rural regulada ao redor da família. A proscrição da propriedade rústica deixou a esta massa imensa de camponeses nas mãos das decisões governamentais. Pior ainda foi a expropiação das terras regidas pelo Gult. Milhões de camponeses e suas numerosas famílias passaram a depender do Estado que, ao menos oficialmente, estava a cargo dos latifúndios antes regidos por proprietários de terras. A nacionalização do Gult provocou um colossal êxodo de famintos despossuídos da única coisa que tinham, sua força de trabalho. Depois dos conflitos regionais e do consabido compromisso cubano-soviético com o regime de Mengistu certos cérebros privilegiados da planificação socialista assessoraram o governo de Addis Abeba para implantar as Granjas Estatais ao modo soviético.

O compromisso de Mengistu, sem sombra de dúvidas, era converter a Etiópia em uma República Popular. Desconhecemos se por estar plenamente convicto disto, se pelas bondades que um regime comunista oferecia às nações que o adotassem ou por pura oportunidade política. O que não deixa dúvida é que estando do lado da URSS podia cometer tantos atropelos quanto quisesse e além disso resolver os problemas exteriores que vinham afligindo a Etiópia. Instalar-se no socialismo demonstrou depois de oitenta anos de utopia sangrenta que é o mesmo que instalar-se na irresponsabilidade. E a isto se aplicou Mengistu com todas as suas forças. Deu uma nova guinada promovendo a fundação do Partido dos Trabalhadores da Etiópia, o PTE, que a modo do PCUS seria a organização reitora da vida e da política etíope. A bagunça rural estava já a princípios dos anos oitenta criando mais problemas até que os inoperantes guerrilheiros do sul do país. Se impunha pois um tour de force. A nova Etiópia exigia uma população cegamente fiel aos ditados do Partido, ou seja, de seu máximo líder e guia da nação. A orografia etíope é, como já apontei, complexa e bastante ingovernável se se pretende fazê-lo à força, motivo pelo qual Mengistu adotou uma insólita política de traslado massivo e forçado de população. A idéia era levar camponeses de umas regiões a outras, de lugares onde o braço armado do Partido não chegava a outras mais facilmente controláveis. De norte a sul. Das secas terras baixas adjacentes ao Saara sudanês ao vergel equatorial da Etiópia meridional. Maliciosamente batizou a campanha de reassentamento forçado com o nome de Bego Teseno (Coerção pelo bem do próximo) e sem saber ainda hoje quem era o próximo que se beneficiava de tal medida provocou a transferência massiva de centenas de milhares de pessoas, agravada pela seca do começo de 1982. As secas na Etiópia, como na Espanha, são cíclicas. De um modo ou outro a população, especialmente a do norte do país, aprendeu a viver com elas e organizar-se para passar pela calamidade o melhor possível. A de 1982 surpreendeu a Etiopía em pleno trabalho de engenharia social cujos efeitos, os da seca e os da engenharia, foram desoladores.

A população campesina estava fortemente depauperada pelas nacionalizações do ano de 75. Muitos haviam deixado suas aldeias em busca de trabalho. Outros, os mais afortunados, explorando pequenas parcelas que apenas davam para viver se viam na obrigação de pagar fortes somas de impostos ao governo. Como se fosse pouco, a economia estava já em 1980 completamente socializada, de modo que o Estado se transformou no único comprador dos excedentes agrícolas. Os preços eram fixados por um gabinete ministerial e, claro, não correspondiam aos do mercado. O sofrido camponês pagava mais pelas sementes no mercado negro do que recebia do Estado pelo produto final. Muitas famílias campesinas tiveram de vender seu magro patrimônio, que na maioria das vezes se limitava a uma cabana, dois cordeiros e uma vaca esquelética vítima do esgotamento dos campos, para fazer frente ao ávido afã expropriador do governo. As Granjas Estatais, às quais já mencionei, fracassaram quase desde o primeiro dia. A sua má gestão interna se somou ao fato de que muitos etíopes, em especial de etnias conflitivas como os Oromo, foram forçados a trabalhar nelas em condições que poderíamos qualificar sem temor de equívoco como escravidão.

A chegada da seca mudou o panorama para pior. Mengistu, sentado em sua poltrona dourada de Addis Abeba ou talvez voando rumo a Cuba em uma de suas viagens de vassalagem ao tirano de Havana, concebeu um plano alternativo. Para que avergonhar-se e ocultar a tragédia de que padecia seu povo quando podia aproveitá-la em benefício próprio? A final de contas o próprio Lenin, o pai de todas as revoluções, havia organizado a grande fome em 1921 e bons créditos obteve com ela. A fome é, como muito ajustadamente apontou Jean François Revel, o capital mais precioso do socialismo [4]. No outono de 1984 quando os efeitos da seca combinados com as transferências de população alcançavam seu ponto alto de desespero e morte a notícia saltou para a ocidente. Os meios de comunicação apontavam insistentemente que a fome havia sido provocada por uma inoportuna seca combinada com a queda do preço do café nos mercados internacionais. Uma vez mais o pobre campesino cafeeiro arruinado pela voracidade e pela cegueira assassina dos mercados. Durante dias os jornais bombardearam a opinião pública ocidental com imagens que escandalizavam por sua crueza. Crianças literalmente mortas de fome devorados pelos mosquitos, mulheres com os seios secos tentando em vão alimentar seu bebê morto, pilhas de cadáveres jazindo em meio a lugar nenhum… Coisas demais apra a sobremesa. Dez anos depois da Revolução Socialista na Etiópia os resultados da mesma se mostravam a um mundo incrédulo com toda a severidade devida a semelhante acontecimento. O Aniversário foi celebrado com pompa por Mengistu e alto escalão do Partido em Addis Abeba dias antes da emissão das imagens. Ouropéis, carros de combate, caças russos pilotados por cubanos sulcando o céu, embaixadas de todo o Pacto de Varsóvia e música, muita música marcial enquanto meio país morria de fome fritando no meio do deserto. A reação ocidental foi imediata. ONG’s, governos, paróquias de bairro e associações comunitárias se voltaram ao drama etíope. Até as estrelas da música entonaram para o mundo inteiro seu conhecido e repetitivo We are the world, we are the children.

Quando na Etiópia se massacrou a oposição num expurgo digno dos tempos áureos do estalinismo ninguém fez nada. Quando os somalis de Ogaden capitularam ante a maquinária bélica cubano-soviética ninguém fez nada. Quando a Eritréia foi massacrada de modo impiedoso por tropas do governo apoiadas por Havana e Moscou ninguém fez nada. Quando se começou a mudar à força a população com objetivo de controlá-la melhor ninguém fez nada. Quando se concentrou a produção agrícola em Granjas Estatais que se valiam de mão de obra escrava ninguém fez nada. Em 1984 quando se fez a colheita de dez longos anos de despropósito, guerra e experimento socialista, o ocidente ao fim fez algo. Deu dinheiro, alimentos e remédios ao causador de todos os males. Como prêmio talvez? O fato é que milhões de dólares em ajuda humanitária voaram para as bondosas mãos de outros tantos milhões de ocidentais para as mãos de Mengistu que o recebeu como um agasalho, uma doação desinteressada à qual não tardou em dar um uso nefasto. Organizações internacionais como Médicos sem Fronteiras que não engoliram a história e decidiram não ir à Etiópia foram non gratas pelo governo de Mengistu e vituperadas sem medida no ocidente. A administração Reagan que clamou no deserto considerar a petição de ajuda do governo etíope como um ardil para captar fundos foi taxada de capitalista infame, de reacionária e de inimiga da humanidade. Viver para ver e sobreviver para recordar.

Ditadores socialistas matando milhões de pessoas de fome, e a culpa da miséria é de você aí vivendo na “sociedade de consumo”. Dá pra acreditar?

A lição que o mundo inteiro, em especial os países africanos, obteve depois do episódio etíope foi triste. A partir de então muitos são os governos africanos que, à imagem e semelhança de Mengistu, utilizam as desgraças de seu povo em benefício próprio.

A decomposição do Regime
Dois anos depois da grande fome que custou a vida de mais de meio milhão de pessoas Mengistu se atrevia ainda a dirigir-se ao mundo nestes termos ao falar de suas trasferências de população: […] (O camponês tem de) mudar sua vida e seu pensamento e abrir um novo capítulo no estabelecimento de uma sociedade moderna nas zonas rurais e ajudar na edificação do socialismo […][5]. Não deu o braço a torcer. A socialização continuou durante toda a década de oitenta até o colapso da economia etíope. Em 1987, apenas tres anos depois da catástrofe humanitária que comoveu o mundo, se desencadeou uma nova fome que conforme os passos da já conhecido valsa macabra foi primeiro ocultada e depois aproveitada pelo governo. De novo a ajuda internacional foi desviada para o exército e a nomenclatura do partido. A pegadinha humanitária voltava a ser feita… e a funcionar! Como prêmio e justa recompensa a Federação Sindical Mundial, composta por sindicatos de toda Europa, outorgou a Mengistu em 1988 a medalha de ouro da Federação por […]sua contribuição à luta pela paz e segurança dos povos […][6] O ocidente não só não aprendia como se deleitava com prazer no sofrimento dos famintos etíopes.

O ocaso de seu regime, que definhou até 1991, vai de mãos dadas com a desintegração da União Soviética. A chegada de Gorbachev e o rearmamento moral do ocidente patrocinado pela Casa Blanca fizeram a URSS tirar seus olhos do continente africano. Sem o apoio gratuito de cubanos e soviéticos a guerra na Eritréia se reativou. Todo o terreno ganho na campanha genocida de 77 foi pouco a pouco perdendo-se entre a ineptidão dos comandantes etíopes e o empuxo da guerrilha. Em 1988 a renovada Frente Popular de Libertação da Eritréia se apoderou da cidade de Afabet e destruiu três divisões inteiras do exército de Mengistu. Em 1990 lidando já com a subverssão interna os rebeldes conquistaram o estratégico porto de Masava. No ano seguinte a mobilização foi completa, se fecharam os colégios e institutos para que até as crianças ajudassem a frente a defender a causa de Mengistu. Não funcionou. O país, depois de 17 anos de loucura coletivista, estava exausto, faminto e arruinado. Em fevereiro caíram Gondar e Gojam, as últimas cidades eritréias em poder do governo e apenas quatro meses depois, em 28 de maio, Mengistu assediado dentro e fora da capital desapareceu. Solicitou a seu antigo amigo Robert Mugabe asilo político e se exilou no Zimbábue. Dias depois começou a ingente tarefa de reconstrução da Etiópia, 24 grupos étnicos e políticos se reuniram em Addis Abeba para constituir um primeiro governo provisional até a convocatória de eleições livres. O 28 de maio, día da fuga de Mengistu, passou a ser e segue sendo a festa nacional da Etiópia.

Mengistu, mais um socialista para o rol dos genocidas.

Em 1993 se reconheceu a independência da Eritréia, última nação africana a incorporar-se à comunidade internacional. Em 1995 um tribunal de Addis Abeba abriu o processo para julgar o assassinato de Negus e os crimes cometidos durante a época do chamado Terror Vermelho (1977-1979). Mengistu refugiado em Harare foi julgado in absentia e condenado à morte. O governo etíope, presidido por Meles Zenawi, solicitou em várias ocasiões a extradição de Mengistu. O regime de Mugabe a negou repetidamente apesar da campanha que a Anistia Internacional levou a cabo nos últimos dez anos. As chancelarias ocidentais contudo se mostram atentas e obsequiosas aos requerimentos do presidente da antiga Rodésia britânica. O ano passado por motivo da Cúpula de Johannesburg Robert Mugabe se exibiu orgulhoso entre ONG’s e governos europeus enfermos de terceiro-mundismo caipira. A ninguém pareceu importar que Mugabe proteja e ampare um genocida condenado pelos mesmos crimes que os hierarcas nazis. Do mesmo modo, e nessa mesma ocasião nem o Secretário Geral da ONU Koffi Annan, nem Nelson Mandela nem o príncipe herdeiro da coroa holandesa se incomodaram por compartilhar a mesa e o debate com um racista declarado cujo programa máximo é limpar de granjeiros brancos as férteis e produtivas planícies do Zimbábue. Mas Mugabe não é o único apoio com o qual conta Mengistu, o tirano e genocida etíope tem hoje bons e poderosos padrinhos. Em 1999 coincidindo com uma visita de Mengistu a seu médico na África do Sul o governo de Addis Abeba requiriu a captura e extradição do ex-presidente etíope. A África do sul não o fez arguindo que a solicitação lhe chegou à tarde quando Mengistu havia abandonado ao meio-dia. Numa entrevista concedida há quatro anos à cadeia britânica BBC confessava que os componentes do atual governo sul-africano são […] seus camaradas de armas, seus amigos, seus colegas […][7] e ainda afirmava que pretendia voltar à Etiópia apesar da condenação capital que pende sobre sua cabeça.

Hoje, com 66 anos de idade Hailé Mengistu Mariam, o responsável direto por centenas de milhares de mortes em sua pátria natal, o único Chefe Estado vivo condenado por crimes contra a humanidade, o presidente da Etiópia que mais e melhor matou em sua longa história vive comodamente em Harare, capital do Zimbábue, protegido pelo presidente Robert Mugabe. Seu ostracismo voluntário está cheio de curiosas e nada edificantes anedotas. Em uma recente entrevista à publicação africana Chewata o ex-ditador etíope lamenta não continuar à frente do governo de seu país natal, […] se estivesse no poder hoje em dia cada camponês etíope teria um computador e seu próprio site da web […][8] afirma com un descaro delirante. Mas as vivências de Mengistu no Zimbábue não se limitaram a fantasiosos sonhos carentes de sentido. À pergunta do jornalista sobre o assassinato de cinco de seus guarda-costas o líder exilado respondeu sem pestanejar:

[…] matei sozinho dois deles, os três restantes escaparam e pediram asilo na embaixada dos Estados Unidos em Harare. […]

Deixando as alucinações próprias do desterro e os crimes próprios do desequilíbrio mental, Mengistu leva uma vida tranquila e relaxada no Zimbábue. Em seu tempo livre, que é o dia todo, se dedica a ler a Bíblia, a escutar música cristã e a brincar com seu filho pequeno. No ocidente, como sempre, ninguém faz nada.

Referências:

[1] Yves Santamaría, Afrocomunismos: Etiopía, Angola y Mozambique en El Libro Negro del Comunismo, Espasa Calpe – Ed. Planeta, 1998 Madrid-Barcelona pp 771
[2] Juan F. Benemelis, Castro, subversión y terrorismo en África, Ed. San Martín. Madrid 1988 pp 399
[3] Diario Granma, La Habana, 29 de abril de 1978
[4] Jean François Revel, El conocimiento inútil, Espasa Calpe, Madrid 1993 pp 142
[5] Informe del presidente Mengistu Haile Mariam al Comité central del Partido de los Trabajadores de Etiopía, 14 de abril de 1986
[6] Yves Santamaría, Afrocomunismos: Etiopía, Angola y Mozambique en El Libro Negro del Comunismo, Espasa Calpe – Ed. Planeta, 1998 Madrid-Barcelona pp 772
[7] BBC News Online – Africa, 8 de diciembre de 1999
[8] Chewata, enero de 2003, Exclusive interview with former president Mengistu

Magatte Wade, uma voz africana pelo livre-mercado

Magatte Wade nasceu no Senegal, estudou na Alemanha e na França, e começou sua carreria empresarial em São Francisco, Estados Unidos, onde fundou a Adina World Beverages depois de trabalhar com start-ups no Vale do Silício. Esta criando a sua segunda empresa, a Tiossano, uma marca de produtos cosméticos que integra as três culturas que a formara, Dakar, Paris e São Francisco. Ela é fluente e conduz negócios em wolof – a língua indígena predominante em Senegal -, francês e inglês.

Traduzindo uma entrevista de Magatte Wade concedida ao site Libre Mercado (www.libremercado.com):

Magatte Wade, empresária senegalesa de grande sucesso. Considerada uma das 20 mulheres mais influentes da África pela Forbes.

I. Magatte, como uma pessoa que nasceu, cresceu e segue muito vinculada a Senegal, qual é sua impressão sobre o porquê da África ser tão pobre?

Tentar fazer negócios em Senegal, assim como em grande parte da África, é uma odisséia. É excepcionalmente difícil conseguir fazer qualquer coisa. Por exemplo, pode custar meses conseguir ter eletricidade em funcionamento, a não ser que dê “presentes” às pessoas certas.

Outro exemplo disto é o fato de que a polícia rodoviária pára constantemente os carros de forma aleatória. Se não tiver os papéis do seu carro em perfeição, tem que pagar à polícia uma quantia em dinheiro para continuar o trajeto. Dado que manter estes papéis via de regra requer muitos dias de longas esperas em filas, a maioria das pessoas simplemente prefere pagar à polícia um dólar a cada vez que lhes param, para poder continuar.

Multiplique esses problemas por mil e você pode ter uma idéia do que é fazer negócios na África. Tenha em mente que cada fabricante e prestador de serviços precisa pular obstáculos semelhantes. Então você percebe por que temos tão pouca atividade industrial ou de serviços profissionais.

Por causa desta burocracia sem sentido e regulamentação excessiva, a grande maioria dos africanos trabalha na economia informal. Então eles não podem obter empréstimos bancários, de seguros ou proteção legal para qualquer de suas atividades. A economia informal funciona, à sua maneira, mas impede que o africano médio crie empresas que possam ter sucesso e crescer para aproveitar as economias de escala e obter ganhos em eficiência.

Nos Estados Unidos, assim como na África, quase todo mundo é um empresário na família. A diferença crucial é que as empresas americanas podem obter empréstimos, sua propriedade é protegida por lei e pode ser segurada, e se a sua empresa cresce pode acessar os mercados de capitais desenvolvidos. Nada disso está disponível para os africanos.

II. Agora você é uma empresária com um forte compromisso com seus concidadãos senegaleses. Que projetos empresariais você criou ou tem em marcha e qual tem sido o seu impacto sobre Senegal?

Com minha primeira empresa, Adina World Beverages, reativei a indústria do hibisco (um gênero de plantas que cresce no Senegal). Em uma viajem a meu país natal descobri que o bissap, a tradicional bebida senegalesa feita de hibisco, estava sendo substituída pela Coca-Cola e a Fanta. Fiquei furiosa, e então me dei conta de que só quando as tradicões de Senegal fossem respeitadas no Ocidente, os senegaleses voltariam a respeitar sua própia cultura.

Por isto criei a Adina, para comercializar nos Estados Unidos bebidas de hibisco procedentes do meu país. Quando comecei, este tipo de bebida estava quase morto, mas depois de trabalhar com sócios em Senegal e da Universidade de Rutgers conseguimos fazer ressurgir uma indústria de hibisco orgânico em Senegal que agora emprega mais de 4.000 mulheres.

Atualmente, estou trabalhando em minha segunda empresa, Tiossano, que está comercializando no mercado estadunidense produtos para o cuidado da pele baseados em receitas tradicionais de Senegal. Meu objetivo é criar uma cadeia de fornecimento completa localizada em Senegal e, em última instância, criar milhares de empregos.

Para a fase de prova do conceito estamos fabricando nos EUA, mas logo que possam me permitir criar a infraestrutura para fazê-lo no Senegal levaremos a produção para lá. Também estou dedicando 50% dos benefícios da Tiossano para contribuir para impulsionar uma educação inovadora em Senegal, baseada no trabalho de meu marido, Michael Strong.

III. O que podem fazer os países desenvolvidos para ajudar aos mais pobres? O que recomendaria aos indivíduos que querem o bem para a África?

O mais importante que se pode fazer é que os indivíduos comprem produtos de qualidade feitos na África e que invistam em empresários e companhias africanas. O capitalismo é o único caminho para criar prosperidade, e a África necessita urgentemente de mais capitalismo. As pessoas também podem apoiar o movimento das Cidades Livres como estratégia para criar lugares com sistemas legais de alta qualidade.

Ao contrário, não deveriam apoiar a ajuda externa de governo a governo, dado que a maior parte dela vai manter o mesmo velho sistema corrupto. Respeito as ONGs, mas enquanto sinto grande respeito com relação às que se dedicam a ajuda humanitária urgente, não me convence o desempenho da maioria das ONGs na África.

Com frequência, estas pagam a jovens incompetentes, mas idealistas, de países desenvolvidos para dizer a nossa gente o que há de ser feito. Consiste mais em fazer que os doadores e jovens idealistas se sintam bem consigo mesmo que em beneficiar nossos países e a nossa população. Salvo que as ONGs sejam ou estritamente humanitárias ou verdadeiramente efetivas, na hora de ajudar-nos a construir negócios reais preferiria que ficassem de fora.

Em dado momento calculei que havia cerca de 500.000 cooperadores na África. Se tivéssemos 500.000 empresários, cada um com os 100.000 dólares de capital que, provavelmente, absorvem anualmente cada um de seus cooperadores, estaríamos muito melhor.

IV. Nos seus textos, você enfatiza a importância dos empresários. Por que são tão importantes para sair da pobreza e desenvolver-se?

Todo o progresso tem lugar através da destruição criativa. Se as novas empresas não tirassem do mercado as velhas, estaríamos com as mesmas coisas que tínhamos a cem ou duzentos anos atrás.

Michael e eu visitamos Ruanda, um dos países mais pobres da terra, faz alguns anos. Sabe, ainda se dedicam à agricultura de subsistência por todo o país, fazendo quase o mesmo que faziam a dois mil anos atrás exceto pelo fato de agora terem enxadas de ferro e alguns tem bicicletas para levar os bens ao mercado.

Do que necessitam en Ruanda? Empresários que criem empregos industriais de forma que possam abandonar a vida agrícola para melhorar sua condição. No lugar de cultivar batatas e milho para comer só o suficiente para sobreviver, necessitam cultivar café, chá, e óleos essenciais para a exportação, além de fazer o máximo possível do processamento destes bens no país para beneficiar-se dos preços mais altos que obteriam por agregar valor a estas commodities. Esta é a única forma para converterem-se num povo orgulhoso e próspero neste mundo moderno.

V. E o que os políticos deveriam fazer?

Os tomadores de decisões políticas têm que facilitar aos empresários as coisas para que façam seu trabalho. Direitos de propriedade seguros, estado de direito e liberdade econômica é tudo o que se necessita para gerar prosperidade através do trabalho dos empresários.

Parece muito simples, mas muitos governos de todo o mundo não parecem entender e pioram as coisas. Hong Kong e Cingapura eram quase tão pobres como muitos dos países africanos em 1960, e agora são dois dos lugares mais ricos da terra, assim como dois dos países mais livres econômicamente.

Leia na íntegra aqui.