Democracia Ocidental

Certamente a democracia representativa, na maneira como se apresenta, é repleta de problemas. A cada dia que passa mais pessoas desiludem-se acerca da suposta perfeição desse sistema, que por muito tempo foi propagandeada. Há um descrédito quase que total no sistema, na representação exercida pelos políticos e na legitimidade dos mesmos. Se isso era um fenômeno que considerávamos exclusivo do Brasil, hoje o vemos ao redor do mundo inteiro. O que fazer então? Qual a solução? Devemos defender nossa democracia com todas as forças.

Há um certo pensamento se espalhando de que tudo se resolve na base da revolução, de se fazer tabula rasa da sociedade. De que nossa democracia tem problemas e por isso deve ser totalmente substituída por uma nova utopia. Não precisamos de outra: o próprio Estado Democrático de Direito se guia por uma, tentando conciliar a mais tradicional antítese de valores da modernidade, sendo eles a liberdade e a igualdade. Uma utopia já é mais do que o necessário.

Esse pensamento em muito se espalha pelos escândalos que vemos diariamente. Políticos usam de seus cargos apenas para seus próprios interesses e daqueles que estão em conluio com eles, a economia a esfarelar, serviços básicos não conseguem atender nem mesmo a poucos usuários que possam tentar usá-los (quem dirá toda a massa que deles necessita). É natural, diante disso, que haja descrença. Não há como culpar o cidadão pela frustração que sente perante a situação. Mas em certos momentos é necessário parar para refletir. O que há de bom? Quais as vantagens? Quais as alternativas?

Pode até ficar irritante, mas gosto de insistir na prudência. Esse é um valor quase que esquecido no ocidente, mas que está presente desde tempos imemoriais nas mais variadas culturas. A democracia representativa foi pensada para ser neutra, para ampliar a participação ao mesmo tempo que proporciona o tempo necessário para a pessoa se preocupar com suas necessidades materiais. Mais uma vez tenta o impossível, a utopia. É evidente que não existe neutralidade, bastando ver a promiscua relação entre o governo e alguns grandes empresários, que sugam a população. O segundo objetivo, então, é como dar uma procuração para alguém dizer o que quiser em seu nome, chamando isso de representação. Mas mesmo assim, essas duas utopias resultam em algo importantíssimo: mesmo que o arranjo se torne um sistema, mesmo que esse sistema não seja neutro, ele permite a existência do dissidente. É pouco, você pode pensar. Mas não.

O século XX foi, dentre outros vários rótulos, o século dos totalitarismos. Mas o fenômeno que declaro não ocorreu apenas nos Estados totalitários. Ocorreu de maneira generalizada em todos os países onde a Democracia foi relativizada. Os sistemas que se apresentaram como alternativa à democracia ocidental, via de regra, não aceitavam a mera existência não só da oposição, mas do ser que a exercia. Em outras palavras, o indivíduo insatisfeito, inconformado, não possuía o direito sequer de existir. E apenas nesse ponto, já vemos que nossa democracia é infinitamente superior ao que se apresentou, até hoje como alternativa.

Outro motivo, é que cada vez que rompemos com um paradigma iniciando a sociedade do zero descaracterizamos mais a civilização (apenas descaracterizamos pois mesmo quando se pretende reiniciar a civilização ela mantém muitos de seus traços), e vemos um ser cada vez mais sem referências morais e espirituais. O resultado é o ser cada vez mais materialista, que encara como solução à desmoralização iluminista da sociedade (justamente a ideologia que por pouco mais de dois séculos promoveu essa visão do homem) a mera distribuição de um pouco mais de pão. As bandeiras políticas se tornam patéticas: um grita que faz com seu pão o que quiser, e o outro que tem que dar pão igual pra todo mundo. E todos os problemas da humanidade passam a se resumir a isso, mesmo que diversos fatos atestem o contrário; atestem que, apesar de existirem problemas causados pelo material, existem problemas de outras ordens, de ordens superiores (o que é a indiferença senão um problema de ordem moral?).

Por isso é importante agir com calma e tranquilidade. A serenidade é importante nesse momento crítico, para que não venhamos a cair na lábia de um grande líder qualquer que venha a nos prometer o mundo. Não há como abraçar o mundo. Se temos à disposição um sistema com funcionamento razoável, precisamos apenas pensar como melhorá-lo dentro de nossas limitações. Como atrelá-lo às noções de justiça e como legitimar os nossos representantes desde a base. Não há como transformarmos a terra em um paraíso, mas podemos ao menos tentar torná-la tolerável, como diz Russel Kirk.

Ocidente Inerte: Parte II – Alteridade

Um dos maiores corruptores da civilização ocidental durante o século XX foi o pensamento da Escola de Frankfurt. Apesar de se mostrarem como “socialistas moderados”, pessoas em busca de uma “terceira via”, seu modelo não apenas sedimentou-se como bastante pendente a um dos extremos (socialismo), mas adotou uma economia semelhante à fascista (que tanto diziam repudiar) e caminha cada vez mais no sentido de restringir as liberdades individuais e submeter totalmente o cidadão ao Estado. Essa escola de pensamento introduziu no Ocidente, com bastante sucesso, a ética da alteridade.

Parece nobre, em um primeiro momento. Uma ética que busca olhar para o outro, colocar-se em seu lugar para entender sua situação. Ajudá-lo. Fosse apenas isso, mostraria-se algo que fortaleceria nossa sociedade e formaria uma coletividade ainda mais forte, com o máximo respeito não apenas pela individualidade própria, mas por toda expressão da individualidade. Todos os indivíduos e todas as culturas seriam respeitados. Mas não é isso o que ocorre.

“Conhece-te a ti mesmo”, é o que estaria escrito no Oráculo de Delfos. Não há como conhecer o outro sem conhecer, primeiramente, a si. O conhecimento do exterior passa, sempre, primeiramente pela individualidade. Mas não há esse compromisso dos intelectuais em conhecer de forma sincera o Ocidente, quando usam-se da alteridade para justificar e tomar como modelo práticas de outras culturas. Isso porque já partem de um pressuposto negativo à respeito de sua própria civilização, a vilã do Planeta Terra. Já acreditam saber, de antemão o que são as instituições e o que cada uma delas supostamente mascara. Não buscam uma análise fria e racional.

O resultado disso é que sua alteridade não é desinteressada. O que querem não é o bem do outro, mas a destruição de si. Deve existir respeito a toda manifestação cultural, menos àquela que é tradicional. Deve existir respeito a todas as civilizações, menos à ocidental. Acusa de etnocentrismo o Ocidente, mas ignora que essa é uma característica inerente a todos os agrupamentos humanos: ver o mundo e as outras culturas com os próprios olhos. Afinal de contas, julgar ser capaz de, mesmo estando fora, ver o mundo com os olhos do outro, seria de uma extrema presunção. Essa alteridade já possui como pressuposto um opressor e um oprimido e, ao invés de buscar ver a situação de um “excluído” e incluí-lo, busca incitar o ódio entre dois polos de uma opressão inventada.

Existem conceitos interessantes de alteridade. Inclusive, a uma sociedade fundada em preceitos judaico-cristãos, a alteridade não é estranha. Apenas o que ocorre é que aquele que ajuda, que se coloca na situação do “outro”, não precisa se ver como vilão, pois não é responsável pela situação do “outro”. Não é um opressor. O ódio entre as supostas classes não é natural, é criado e incitado. Não há porque rechaçar a noção de alteridade, de que o ser humano interage e interdepende de outros seres humanos, de que existe uma coletividade e que ela é saudável para o indivíduo. Apenas essa nova alteridade que julga que “o outro é sempre bonitinho” (Como disse Pondé, não com essas exatas palavras).

Ocidente Inerte: Parte I

Algo que tem me causado profunda preocupação é a aparente incapacidade do Ocidente de se reinventar, principalmente quando comparamos a atualidade com épocas passadas. O resultado disso é que, diferentemente dos tempos remotos, a probabilidade de o socialismo triunfar é alta, e ele triunfa diante de nossos olhos, mas sob uma roupagem elegante. A esquerda hoje se veste bem e tem a barba feita.

O socialismo, em sua gênese, sempre foi um movimento revolucionário. Seu objetivo sempre foi o de uma engenharia social abrupta, de uma profunda mudança nas instituições e modo de se comportar da sociedade. A esquerda era sempre conhecida como radical, um grupo que propunha impor a igualdade com todos os custos que isso fosse importar. Esse custo é por nós muito conhecido: corpos e sangue. Podemos visualizar esse comportamento nas revoluções do início ao meio do século XX. O saldo de mortos em nome de uma causa nunca havia sido tão alto na história, e provavelmente jamais será superado. A civilização ocidental, após conhecer das barbáries, imediatamente condenou os métodos da esquerda e, após a queda do muro de Berlim, comemorou a vitória da democracia liberal sobre o totalitarismo igualitário. Após esse evento tudo parecia resolvido, e o fim da história com a ascensão do liberalismo se mostrou aparentemente real, como havia previsto Hegel. Mas, em realidade, foi nesse momento que o ocidente chegou a seus momentos derradeiros, após um século terrível.

O século XX foi, em sua totalidade, determinante para o declínio que vivenciamos nos dias de hoje. Temos alguns fatores que vejo como principais: as grandes guerras, que transformaram a Europa em destroços (de modo a jamais recuperar sua glória) e a ascensão, nessa mesma Europa, de um socialismo novo, diferente, mais amigável.

As grandes guerras tiveram um papel evidente. A Europa é inegavelmente o centro do Ocidente. Seu berço se deu lá, e sua influência projetou sua cultura para o mundo. O problema é que após a queda da Europa decorrente da Segunda Guerra Mundial (desfecho inevitável da primeira grande guerra), os Estados Unidos assumiram o posto de grande potência e centro cultural do ocidente. Isso não é um problema por um prisma supostamente antiamericano. O que ocorre como resultado dessa “virada copernicana” do centro do ocidente é que, apesar de serem notáveis cientistas, a produção filosófica americana nunca foi das mais brilhantes. Enquanto o socialismo se reinventava, se apropriava de conceitos ocidentais, o ocidente nada fez para ganhar uma nova cara: continuou repetindo os cada vez mais estigmatizados (porém jamais refutados) conceitos dos séculos XVIII e XIX. Nada fez para combater a nova subversão, que passou a vir de todos os lados: originou-se na, agora quase marginal Europa, e passou a reproduzir-se no novo centro da Civilização, alastrando-se nas fileiras de ambos os principais partidos daquele que era, até então, o grande baluarte da civilização ocidental.

Já o novo socialismo tem seu embrião na Sociedade Fabiana inglesa. Sua proposta de socialismo gradual aos poucos se alastrou, e na Alemanha ganhou um forte corpo teórico. O principal golpe que sofremos foi com o nascimento da Escola de Frankfurt. Pois em Marx o Ocidente evoluiria para o socialismo: Em sua fase mais jovem, dizia que através da revolução sangrenta; em sua fase mais madura, dizia que o capitalismo destruiria a si mesmo dando lugar ao comunismo. Mas o que os socialistas do início do século XX perceberam (e assim deram o embasamento necessário à escola de Frankfurt) foi que a destruição do Ocidente como o conhecemos é necessário à implantação do socialismo e, posteriormente, do comunismo. Crentes de que a doutrina de Marx se mostraria infalível com uma Grande Guerra, situação em que os operários finalmente se revoltariam ao redor do planeta, viram que o sentimento nacional uniu os “proletários” aos “burgueses” na defesa de suas terras. Foi então que Rosa Luxemburgo percebeu aquilo que era o alicerce da civilização ocidental (e apontada por Marx no Manifesto Comunista) que deveria ser destruído: a família tradicional. Mudaram, então seu campo de atuação. Agora não eram mais revolucionários, mas sim subversivos.

Hoje vivemos o resultado disso. As instituições políticas estão descreditadas, o meio acadêmico serve exclusivamente à causa da esquerda, a família encontra-se cada vez mais fragilizada pelos constantes bombardeios midiáticos e contestadores ao modelo tradicional, a economia é cada vez mais induzida a um beco sem saída em negociatas obscuras e expansões artificiais (e um frequente inchaço governamental). O Ocidente encontra-se à beira do colapso. E o grande problema é: a academia, que antes formava grandes pensadores (que a tempo combatiam o pensamento socialista ao longo da história), agora forma meros robôs repetidores de clichês sinistros. Quando a Civilização possuía suas instituições intactas, tinha plena capacidade de se reinventar. Hoje se mostra inerte.

Um Novo Renascimento – Parte Introdutória

A cultura ocidental corre sérios riscos. Se o século XX teve o último suspiro daquilo que o ocidente produziu de nobre, o futuro guarda um caminho tortuoso, tenebroso, após um século XXI que marca a sedimentação de uma cultura viciada. A produção cultural de hoje é o retrato do que se tornou a nossa civilização: subvertida, em frangalhos. O que se tem, hoje, por erudito, é uma desconstrução de nossa própria cultura. A resultante do movimento modernista e contemporâneo, por exemplo, nada mais é do que a zombaria para com as tradições que produziram o auge do ocidente. O último prego no caixão de um movimento que, debilmente, tentou dar seus últimos suspiros e implorou para que fosse salvo do eterno esquecimento.

A Criação de Adão, uma das obras mais famosas do renascimento

Com esse cenário em vista, venho a trazer uma série remontando à alta cultura ocidental. Pretendo, semanalmente, elaborar um artigo sobre um período que moldou o ocidente como foi em seu auge. E o primeiro, de forma simbólica, será o do Renascimento. Quem sabe assim paramos para olhar ao passado e o tenhamos com respeito e como influência. Quem sabe assim atentamos mais às tentativas de destruir essa grande civilização ao destruir suas instituições e suas culturas, dando a devida atenção àquilo que é essencial. A luta contra a esquerda não se resume a discussões econômicas. A questão mais importante é, sem dúvida, a cultural. Todo o resto é resultado.

Johann Sebastian Bach – O nome mais influente do período barroco, e um dos mais influentes da história

A Neutralidade do Liberalismo Diante das Diferentes Concepções do Bem, do Mal e das Diferentes Culturas

Venho, nesse artigo, mudar um pouco o foco de minhas últimas publicações no site e retornar ao que fazia mais no início: explorar concepções da filosofia política. Normalmente tenho como parâmetro o pensamento conservador e, dessa vez, apesar de analisar o paradigma liberal, não mudo o filtro: a análise do pensamento liberal, deixo claro desde já, será através dos olhos de um conservador. Tendo isso em vista, apresentarei duas possíveis consequências do viés liberal de tolerância sempre pautado na sociedade como a conhecemos, dispensando o excesso teórico e analisando resultados reais dessa neutralidade herdada dos iluministas.

Para entender essa neutralidade, acredito ser necessário voltarmos aos primórdios da filosofia como a conhecemos: Com Sócrates, buscando o melhor conceito; com Platão, buscando o absoluto; com Aristóteles, buscando o justo meio e a prudência. Então a filosofia se dividiu em diversos ramos, alguns continuando em sua busca por aquilo que é absoluto, outros negando a possibilidade de conhecer tal conceito, abrindo espaço para o relativismo, entre outros. O debate sempre existiu. Mas depois de algum tempo passou a ser praticamente unanimidade a impossibilidade de conhecermos aquilo que é absoluto, e a ética e a moral passaram a um subjetivismo excessivo. Chegamos ao ponto em que nem mesmo a vida, ideal supremo dos liberais, é um valor absoluto.

Com o iluminismo, principalmente Voltaire, foi sedimentado o ideal de tolerância. Tolerância não só ao comportamento diferente, mas às diferentes concepções do bem e do mal. Das diferentes morais e culturas. A tolerância é, certamente, uma virtude. Mas até que ponto?

Desde o advento do capitalismo, alguns filósofos procuraram diversas maneiras de destruí-lo, a começar pelos socialistas utópicos. Mas a primeira teoria a causar um impacto real no sistema vigente foi a de Marx e sua tese da exploração. Apesar de se sustentar sobre uma teoria de valor equivocada e uma lógica duvidosa, foi um verdadeiro arrasta-quarteirões. Desde então os socialistas buscaram diversas maneiras de induzir o trabalhador ocidental à revolução. As principais durante o século XX foram a Escola de Frankfurt, Gramsci, e suas teses sobre a desconstrução da cultura ocidental. Voltamos a eles depois.

Esses dois pensamentos me levam a conclusões divergentes à respeito dos efeitos da tolerância que passou a fazer parte do comportamento do ocidental. A primeira é de uma liquidez benéfica resultante dessa neutralidade. O ocidente liberal tem a liberdade como tão alto valor, que passou a encarar os movimentos de contra cultura de forma natural. E não só isso, passou a englobá-los e torná-los parte da própria cultura, de modo a tornar seus efeitos inofensivos. Mais ainda, passou a lucrar sobre esses movimentos. Um grande exemplo foi o movimento punk. Se ele começou como uma luta contra o capitalismo, logo apareceram os Sex Pistols justamente para ganhar dinheiro em cima dessa imagem. Pouco tempo depois os punks já estavam associados à cultura ocidental, principalmente como movimento artístico, através de sua música. Os hippies foram outro desses exemplos.

Por outro lado, existe a possibilidade de, ao tolerar e englobar cada vez mais culturas, mais concepções morais contraditórias (as considerando como apenas questões de foro íntimo), a cultura ocidental tornar-se autofágica. Após a superação das terríveis teorias racialistas, a antropologia se pôs a estudar outras culturas com o objetivo velado de criticar a ocidental. Passamos a entender as outras culturas, pregar o respeito a todas elas, menos à nossa própria. E toleramos esse comportamento dentro de nossa própria cultura. Um comportamento autodestrutivo que se instala sem resistências e corrói os princípios da civilização ocidental, um a um, a partir do momento que desconstrói a moral judaico-cristã (pilar da civilização ocidental) e como consequência relativiza valores que nos são basilares como a vida (através do aborto), a liberdade (através do paradigma da igualdade) e da propriedade (através da imposição das ideias socialistas). E o impacto que isso possui na democracia é visível: a democracia é usada para, ao invés de pacificar e conciliar os conflitos sociais, fomentar disputas de classe semelhante à que propôs Marx, mas baseada na moral e não na renda.

Dentre as duas, qual a mais provável? Vejo na segunda, infelizmente, um grande potencial vindo a confirmar a tese dos embusteiros de Frankfurt. Nesse ritmo, daqui algumas décadas, o socialismo será visível. Mas não através da revolução, mas sim porque a sociedade se degradará cada vez mais em conflitos dentro do próprio pensamento ocidental, que permitirá que os políticos socialistas, gradualmente, implantem seus pensamentos. Então, no fim, a tolerância Iluminista teria sido deturpada de modo a valer apenas para um dos lados, enquanto abarca cada vez um número maior de pensamentos morais contraditórios entre si que viriam a lutar através do sistema democrático e degradar a sociedade.

Direito Penal do Coitadinho

Uma doutrina muito forte no Direito Penal da atualidade é a auto-proclamada doutrina crítica (está na moda ser crítico, ao que parece…), que segue uma tendência abolicionista. Muito mal se fala nesse meio do Direito Penal do Inimigo, sendo este, para eles, qualquer escola penal que vise a punição (diferente do significado original do termo, que procurava punir com severidade aquele que era considerado um inimigo público; em contraponto ao cidadão comum que viesse a cometer um deslize, mas continuasse apto à vida em sociedade). Associam essa escola com o autoritarismo, e a opõe ao Estado de Direito. Mas, em sua crítica desmedida, pouco faz para apresentar uma solução. Aliás, o faz, mas nos devaneios que caracterizam a esquerda, vertente política que mais se posiciona nesse lado do direito, ao propor que o direito penal seja gradualmente abolido. E, nesse movimento, criam o Direito Penal do Coitadinho, um direito tão radical quanto o outro, severo, mas com sinal contrário.

O abolicionismo penal, lutando pelos “Direitos dos Manos”, visa proteger os criminosos e expor a sociedade, a grande culpada por “corromper o homem”.

Cada dia sentimos mais dificuldade de viver em sociedade. A bandidagem não só se organiza de forma assustadora, mas também forma, em diversas localidades (principalmente em favelas, mas não exclusivamente nelas), estrutura semelhante à do Estado impondo sua própria lei, uma mais brutal que qualquer uma que o governo venha a impor. Mas isso pouco importa para aqueles que defendem que estes continuem em liberdade e que a repressão estatal desapareça de uma hora para outra. A tese deles basicamente se resume em “A violência Estatal protege o capital, logo é ilegítima, mas a violência do criminoso resulta de um sistema opressor que força o delinquente a o ser, então é legítima”. O objetivo não é mais humanizar a pena ou o sistema, apenas destruir a propriedade. Propõe outros métodos para a resolução de ataques à propriedade, como a justiça cível. Mas me respondam, como pode alguém que precisa roubar ressarcir um bem através da justiça cível? Eles basicamente defendem uma humanização da lei penal que vai garantir a existência de sistemas punitivos de extrema brutalidade no meio do tráfico.

O Estado deve proteger a vida de seus cidadãos. Baseados nisso, firmamos um teórico contrato social, ou formamos o Estado para viver em sociedade, independente da visão que cada um tenha sobre o assunto. É nesse sentido (sem entrar nos méritos da eficiência desse método) que existe o sistema prisional, o de afastar da sociedade aqueles que impõe um risco à mesma. Não no sentido de educar, de garantir ressocialização. Isso se faz na escola, em casa. O objetivo é proteger os três pilares da civilização ocidental: A Vida, a Liberdade e a Propriedade. Os pilares do Estado liberal, pelo qual a Europa foi banhada em sangue. Os pilares que garantem nossa prosperidade.

Sete razões para não temer os muçulmanos

Nota de 27/01/2017: Este artigo foi escrito 4 ou 5 anos ANTES da crise migratória européia (2016-?) e, portanto, não leva em consideração a imigração massiva de países muçulmanos para a Europa. A assimilação pacífica da comunidade muçulmana aos países europeus e americanos só foi possível em séculos anteriores porque esta migração se dava de maneira individual e paulatina, não massiva e repentina como vem ocorrendo nos últimos anos. Sobre o caráter islâmico (ou não) do terrorismo, o autor em breve publicará uma revisão deste artigo.


1 – O terrorismo “islâmico” não existe
Yuri Bezmenov, dissidente do serviço secreto soviético, já explicava isso décadas atrás: “Believe me please, there was no grass, no root, no revolution, and least of all Islam. There is no such thing as an Islamic revolution. Revolution has nothing to do with Islam. There is no such thing as Islamic terrorists. (Em negrito: “Não há revolução islâmica. Revolução não tem nada a ver com Islã. Não existem terroristas islâmicos.”)

Diversos líderes de movimentos africanos, indianos, árabes e sul-americanos de “libertação nacional” foram treinados por oficiais da própria KGB (no caso dos sul-americanos, em Cuba) em seus centros de formação de líderes políticos durante a Guerra Fria. Eestes mesmos líderes levaram adiante guerras civis, golpes e revoluções armadas de todo tipo a seus países de origem para desestabilizar os regimes e, se possível, instalar um governo socialista alinhado com o Kremlin.

Hoje, membros destes mesmos grupos “islâmicos” operam redes internacionais de terrorismo. Portanto, é mais fácil traçar a origem dos terroristas “islâmicos” até a KGB ou a CIA do que ao Corão.

2 – Religião islâmica e lei islâmica não são sinônimos
Dos aproximadamente cinquenta Estados de população majoritariamente islâmica, apenas 6 são Estados islâmicos. E destes seis, dois são aliados dos EUA (Arábia Saudita e Paquistão). Outros doze tem o islamismo como religião oficial. Vinte são Estados seculares.

Dos estados do mundo, cerca de 14 adotam leis religiosas. Dentre estes, os mais conhecidos são o Irã, a Arábia Saudita, o Iêmen e o Vaticano. O mais poderoso destes, em relação ao Oriente Médio e toda a Liga Árabe, é a Arábia Saudita, país que mantém sólidas relações comerciais e diplomáticas com os EUA.

3 – Muçulmanos são tão diversos quanto os cristãos
Assim como entre os cristãos, há diferentes denominações muçulmanas.

A maior delas é o Sunni (sunitas). É considerada a versão “ortodoxa” da religião. Os sunitas acreditam que após a morte de Maomé, o novo líder religioso seria eleito e não um descendente, parente ou indicado do profeta Maomé. Possui quatro escolas de pensamento: Hanafi, Maliki, Shafi’i e Hanbali. Há uma quinta, ultra-ordoxa, a Wahabbi.

Os sunitas acreditam na autoridade religiosa da razão e da legalidade.

Os xiitas são a segunda maior denominação muçulmana. Compoem de 10 a 20% da população muçulmana mundial. Creem na infalibilidade do Imam (seu líder religioso) – descendente de Ali, o sucessor de Maomé na liderança dos muçulmanos.

Os xiitas acreditam na autoridade religiosa hereditária e divina.

Além dos sunitas e xiitas, há os sufis, os ahmadiyya, os ibadi, os coranistas, etc.
Some a isso as culturas locais de povos que vão desde os africanos do Mali até os indonésios passando pelos turcos, persas e uigures.

Diferenças entre culturas: tártaras em trajes típicos, uma albanesa votando e iranianas comprando cosméticos e maquiagens.

4 – Os muçulmanos são bons de negócio

Reformas: Metade das economias no mundo árabe reformaram suas regulamentações em termos de negócio nos anos de 2009 e 2010, mais do que na América Latina e no Caribe.[1]

Liberdade econômica: De acordo com o ranking da Heritage de liberdade econômica, Irã, Turcomenistão, Mauritânia, Iêmen, Indonésia, Marrocos, Jordânia e Catar apresentaram melhorias.

Bahrain e Catar fazem parte dos países majoritariamente livres (score entre 79.9 e 70)

Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Turquia, Marrocos, Quirguistão, Malta, Arábia Saudita e Líbano fazem parte dos países moderadamente livres (grupo que inclui Israel, Coréia do Sul e África do Sul).

Azerbaijão, Egito, Tunísia, Iêmen, Paquistão, Tadjiquistão, Bangladesh, Mauritânia, Indonésia e Mali se encontram no grupo majoritariamente reprimido. Fazem parte deste grupo membros do BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China).[2]

Desenvolvimento econômico: A Liga Árabe, composta por países muçulmanos em maioria, é a 6ª organização com maior PIB, estando à frente da Rússia. Em termos de PIB per capita, está à frente da China e da Índia. A mesma mantém relações comerciais com a União Africana, a União Européia, os Estados Unidos, a China e a UNASUL.

Direitos de propriedade: Com relação à defesa dos direitos de propriedade, os países do norte da África e do Oriente Médio (muçulmanos em sua maioria) estão melhores do que a América Latina e Caribe. De acordo com o International Property Rights Index de 2011, a região Norte da Áfica e Oriente Médio tem uma média de 5.7, superando os 5 pontos da América Latina e Caribe.[4]

Comparando-se o PIB per capita, o “mundo islâmico” não se sai tão mal quando comparado com os países do BRIC:

Os países mais próximos do roxo são os com o mair PIB per capita. Em comparação com os BRICS, o mundo islâmico não está muito atrasado, inclusive contando com membros excepcionais que se aproximam mais dos níveis europeus.

Com relação ao IDH, muitos países tipicamente muçulmanos são mais desenvolvidos do que os tais BRICs. A Rússia é o membro do BRIC com o maior IDH (0.755), e está atrás da Líbia (0.760) que é o 6º país muçulmano num ranking de IDH. À frente da Líbia ainda está o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrain, o Catar e o mais desenvolvido deles, os Emirados Árabes Unidos com invejáveis 0.855. Para se ter uma idéia, o IDH do Brasil (2º entre os BRICs) é de 0.718 e o da Índia (menor entre os BRICs) é de 0.547. [5]

Vale lembrar que um dos maiores parceiros comerciais dos EUA no mercado de Petróleo é a Arábia Saudita. [6]

5 – Judaísmo, cristianismo e islamismo são parentes
Judaísmo, cristianismo e islamismo fazem parte de um mesmo grupo de doutrinas religiosas. São as chamadas religiões abrâmicas (relativo a Abraão). Abraão é o profeta que “faz a liga” entre estas três religiões.

Ainda que elas tenham grandes diferenças entre si, há também pontos em comum. O deus, por exemplo, é o mesmo. O deus dos judeus é o mesmo deus dos cristãos e o mesmo deus dos muçulmanos. A palavra “Allah” vem do árabe e significa simplesmente “deus”.

Abraão. Pintura de József Molnár.

Basicamente, os muçulmanos não afirmam que judaísmo ou cristianismo são religiões falsas. Na concepção muçulmana, estas religiões estão ligadas ao islamismo. Os muçulmanos usam a expressão “adeptos do livro” ou “seguidores do livro” para referir-se a judeus e cristãos. Mas porque não usam a palavra “infiel”? Por que consideram que há três livros sagrados, revelados progressivamente: o primeiro é a Torá, o segundo é a Bíblia (no caso, o Novo Testamento) e o terceiro é o Corão.

Os muçulmanos não aceitam Jesus como filho de Deus, mas o aceitam como profeta e duvidam da sua morte carnal afirmando que ele ascendeu aos céus diretamente para a presença de Allah. Jesus é considerado um profeta do Islã, como é Maomé. O motivo pelo qual os muçulmanos dão tanta atenção a Maomé é porque ele é considerado nesta religião o último profeta a receber revelações diretamente de Allah. A crença é de que Allah tenha ditado o livro sagrado (Corão) para Maomé ao longo de um período de 23 anos nas peregrinações entre duas cidades (Medina e Meca).

O que o Islã condena não é o judaísmo ou o cristianismo, mas o politeísmo e o ateísmo (a palavra “infiel” se refere a quem não é adepto dos livros sagrados).

Outras coisas que podemos constatar: a proibição do consumo da carne de porco e a cultura de cobrir a cabeça das mulheres vem desde o judaísmo. Ainda hoje, judeus e muçulmanos não comem carne de porco – algo comum para cristãos. Judias ortodoxas cobrem a cabeça até hoje. Entre as cristãs, o costume de cobrir a cabeça ficou restrito às freiras, não sendo imposto às cristãs leigas.

As três religiões abrâmicas tinham a cultura do véu. Com o tempo, o costume do uso foi sendo abandonado por correntes do judaísmo, e entre os cristãos o seu uso acabou restrito a freiras e irmãs. Entre a maioria dos muçulmanos esta cultura resiste. Em países como a Albânia e a Turquia, o uso varia conforme as tradições familiares.

Tanto cristianismo quanto o islamismo são religiões expansionistas, o que significa que ambas buscam expandir o número de fiéis através da conversão. Longe de serem ideologias destrutivas ou xenofóbicas, elas buscam a assimilação e são universalistas.

A julgar que, historicamente, entre os cristãos católicos e protestantes já houveram grandes e violentos conflitos que acabaram posteriormente sendo esquecidos para dar lugar à convivência pacífica sob o princípio do ecumenismo, não é difícil conceber que se possam conciliar as três religiões abrâmicas como outrora foi feito na Espanha moura, durante o período conhecido como La Convivencia.

6 – O que muçulmanos vestem, comem ou fazem não é da nossa conta

É tão simples quanto poderia ser: cada cultura tem seus códigos de etiqueta, sua culinária, sua música e claro, seu código alimentar e de vestuário. O fato de nós ocidentais termos mais liberdade em vestir o que nos convém não indica que há algo no hijab, niqab ou na burqa que os torne intrinsecamente ruins e opressores.

Escoceses usam kilt, árabes usam dishdasha. Problem?

Devemos entender que para a maioria das mulheres muçulmanas, vestir-se do modo como se vestem é normal, digno e belo. Dentro da cultura ocidental, com o regimento das leis, estas mulheres tem o direito de recusar o uso dos mesmos, mas obrigá-las a tirar (como foi feito na França) é uma tirania. Se somos pela liberdade, não podemos jamais admitir que o governo dite o que um cidadão deve ou não deve vestir.


O mesmo vale para a alimentação. Muçulmanos, assim como os judeus, não comem carne de porco porque ela vai contra um código alimentar instituído pela religião e pela tradição. No caso dos judeus, é o kashrut e no caso dos muçulmanos, é o halal. Para os muçulmanos, a carne precisa ser preparada de um modo especial para que possa ser consumida (halal = permitido), do contrário ela não pode ser consumida por um muçulmano (haram = proibido). Isto significa que para atender a um consumidor muçulmano ou judeu, certas regras e padrões culturais devem ser atendidos no preparo das refeições. É um direito do consumidor escolher não consumir os produtos que vão contra a sua crença religiosa, e isso é de fundamental importância.

Por último, mas não menos importante, é a questão da política e da religião. Por mais que as leis dos países islâmicos possam nos ser estranhas (sobretudo naqueles onde a Sharia é a lei), temos que entender que as leis serão estranhas para nós em qualquer sistema político diferente daquele que estamos acostumados.

Nós ocidentais temos padrões ocidentais e leis que seguem escolas de pensamento ocidentais. Os muçulmanos, que são africanos, orientais e asiáticos em sua maioria, não seguem os mesmos padrões que nós. Os sistemas políticos que se desenvolveram nestas culturas está adaptado a elas e foi desenvolvido e mantido por elas. Cabe a elas decidir quando, como e o que mudar.

Amamos a democracia e a liberdade de expressão e culto, e devemos assegurá-la sobretudo aqui nas Américas ou na Europa, mas não temos nem o dever e nem o direito de querer impor nossos sistemas na “casa” dos outros. Contanto que a democracia, o rigor da lei, a liberdade e a propriedade estejam asseguradas no Ocidente – para os muçulmanos que aqui vivem, inclusive – estaremos com nosso dever cumprido. Antes de nos preocuparmos com o que se passa lá, temos que dar especial atenção aos valores que cultivamos aqui: liberdade de culto, liberdade de expressão, liberdade de escolha.

7 – Eles estão entre nós
Na Europa: Dentro da Europa, as tradições islâmicas são encontradas sobretudo em territórios que já estiveram sob administração do Império Otomano, como os balcãs, e no tartaristão (Federação Russa). A península ibérica também já foi islâmica, tendo sido reintegrada à Cristandade durante a Reconquista.

Na Albânia, o congresso muçulmano sediado na capital (Tirana) rompeu com o Califado em 1923, estabelecendo uma nova forma de culto, banindo a poligamia e instituindo o uso do véu para as mulheres em público.

Na Polônia, as tradições sunitas tártaras foram preservadas. Isto levou à formação de uma distinta cultura muçulmana na Europa Central, na qual elementos da ortodoxia muçulmana misturaram-se à tolerância religiosa de uma sociedade relativamente liberal. Os tártaros polacos são considerados um exemplo de sucesso na integração sócio-cultural com a sociedade cristã.

1 – uma pequena mesquita na Polônia. 2 – a grande mesquita Qolşärif em Kazan, capital do Tataristão. 3 – Um casamento tártaro. Os tártaros são um povo majoritariamente muçulmano que vive na Rússia, na Ucrânia e na Polônia.

Entre os europeus, acredita-se que esteja emergindo uma nova ramificação do islã que combina os princípios e deveres desta religião com valores da Europa pós-iluminista como direitos humanos, o estado de direito, a democracia e a igualdade entre homens e mulheres.

Acredita-se que a população muçulmana na Europa hoje seja superior a 53 milhões, mais de 7% da população. Em alguns países europeus esta proporção é ainda maior: Bulgária, Montenegro e Rússia tem entre 10% e 20% de população muçulmana. O Chipre, entre 20% e 30%. Macedônia, entre 30% e 40%, Bósnia e Herzegóvina entre 40% e 50%, na Albânia são entre 80% e 90%, e em Kosovo chega a 95%.

Nos Estados Unidos: Entre os anos de 1880 e 1914, milhares de muçulmanos migraram do Império Otomano para os Estados Unidos, assimilando-se à sociedade. Graças à imigração, a conversão e altas taxas de natalidade, os Estados Unidos viram a sua população muçulmana crescer muito nos séculos XX e XXI. Só em 2005, o número de novos residentes muçulmanos legais nos estados unidos foi de aproximadamente 96.000: mais do que em qualquer ano das duas décadas anteriores.

O seriado “All-American Muslim” foca no dia-a-dia de americanos muçulmanos.

A mais duradoura comunidade muçulmana incorporada à sociedade norte-americana é a dos bósnios, que em 1906 criaram a Džemijetul Hajrije (Jamaat al-Khayriyya), uma organização de serviços sociais para muçulmanos bósnios. Os muçulmanos bósnios também abriram a primeira escola dominical muçulmana com currículos e literatura muçulmana. A primeira organização muçulmana em Nova Iorque, a Sociedade Maometana Americana, foi fundada em 1907 por tártaros Lipka da região de Podlasie (Polônia). Em 1915 foi fundada aquela que provavelmente é a primeira mesquita americana, por muçulmanos albaneses em Biddeford, Maine. Um cemitério muçulmano ainda existe lá. E esta história se arrasta pelo século seguinte.

O número estimado de muçulmanos vivendo nos EUA hoje é de 2,6 milhões – menos de 1% da população.

Centro Islâmico da América em Dearborn, Michigan

No Brasil: A imigração árabe no Brasil tem início com a chegada de imigrantes árabes que começaram a desembarcar no País em fins do século XIX. No início do século XX, esse fluxo imigratório cresceu e passou a se tornar importante. Um fator predominante foi a Primeira Guerra Mundial, que acelerou a imigração de pessoas que viviam no Império Otomano. Outros conflitos que causaram aumento na imigração de muçulmanos foram as guerras no Oriente Médio (Guerra do Líbano, conflitos entre árabes e israelenses, conflitos no Iraque).

Porém, a imigração de muçulmanos para o Brasil é muito anterior. Muitos dos negros escravizados na África e trazidos para o Brasil já eram muçulmanos. A chamada Revolta dos Malês de 24 a 25 de janeiro de 1835, ocorrida na cidade de Salvador, foi uma sublevação de escravos africanos de religião islâmica. “Malê” era o termo que se utilizava para referir-se aos escravos muçulmanos.

Atualmente, 15 milhões de brasileiros possuem ascendência árabe. A maioria é de origem libanesa, enquanto o restante é, predominantemente, de origem síria. O Islã no Brasil conta com 27.239 seguidores, segundo dados do censo demográfico de 2000 do IBGE. Porém, algumas instituições islâmicas brasileiras consideram que o número de seguidores é muito superior a isso. A Federação Islâmica Brasileira defende que há cerca de 1,5 milhão de fiéis do Islã no país.

Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, em Foz do Iguaçu, Paraná. A cidade abriga a maior comunidade muçulmana do Brasil.

Na cidade de São Paulo existem cerca de dez mesquitas, dentre as quais a Mesquita Brasil, na Avenida do Estado (centro da cidade) – cujas obras de construção começaram em 1929 e que foi a primeira mesquita edificada na América Latina.

No mundo: Somos praticamente 7 bilhões. Cristãos são entre 1,9 e 2,1 bilhões – ou seja, de 29% a 32% da população do mundo. Os muçulmanos são cerca de 1,57 bilhões – de 20 a 25%. Com toda essa gente, é melhor arranjar uma maneira de conviver. Para isto, existe o que chamamos de diálogo inter-religioso. Com relação à Igreja Católica, já existe uma iniciativa de diálogo entre católicos e muçulmanos: em 2008 reuniram-se no Vaticano autoridades religiosas católicas e islâmicas para um diálogo inter-religioso, e há uma iniciativa para que esta cúpula seja permanente. A primeira cúpula produziu um documento que afirma um compromisso mútuo de incentivo à tolerância. O mesmo pode ser lido em inglês aqui.

Não fuja do conflito: Talvez você tenha vizinhos muçulmanos, ou já os tenha visto caminhando nas ruas da sua cidade. É possível que você passe pela frente de centros muçulmanos sem nem perceber. Para vencer as barreiras impostas pela caricaturização típica da propaganda de guerra com que somos bombardeados diariamente, é necessário conhecer “o inimigo”. Ouse ler o Corão, permita-se conversar com muçulmanos, visite um centro islâmico. Você verá que mais do que diferenças, há muitas semelhanças entre você e eles: a valorização da família, um senso de responsabilidade, um desejo forte de ascender na vida honestamente, a dedicação aos estudos, etc. Encerro este artigo com uma citação de Chesterton:

A Bíblia nos manda amar nosso próximo, e também nossos inimigos; provavelmente porque eles são, geralmente, a mesma pessoa.

– G. K. Chesterton