Taleb para Políticos: Terceiro e Último Princípio

Estratégia Barbell: Intervenção onde Interessa

Investidores costumam adotar uma estratégia chamada de “estratégia Barbell”. Esta estratégia consiste em investir a maior parte do seu dinheiro em investimentos mais conservadores, seguros, e cujos ganhos são mínimos porém certos. A outra parte é investida em ações de alto risco, sem retorno garantido, mas cujos ganhos potenciais são enormes. Há 10 ou 20 anos, seria como investir 90% do seu dinheiro na Poupança da Caixa e os outros 10% em uma startup como Facebook ou Google. Quem fez isso nas décadas de 90 e 2000, certamente está milionário hoje. [17]

barbell stratey

A estratégia Barbell é a aplicação da “Regra 80/20” dentro do contexto dos investimentos. A “Regra 80/20” determina que 80% das consequências vem de 20% das causas. Nas empresas com grandes contratos, 80% da receita vem de 20% dos clientes; num programa de computador, 80% dos bugs vem de 20% do código; numa família de 10 pessoas, 80% dos problemas vem de 20% dos integrantes (a sogra e o cunhado); e assim por diante. Nos investimentos que aplicam a estratégia Barbell, o investidor espera que 80% a 90% dos ganhos virão de 10% a 20% dos investimentos. Segundo Taleb, a “Regra 80/20” e a estratégia Barbell podem ser aplicados para tornar a sociedade mais resistente a Cisnes Negros.

A aplicação desta estratégia em políticas públicas deve ter como fim evitar tragédias sociais, econômicas, ambientais, etc. Estamos falando de uma exceção à regra da não-intervenção, a parte “conservadora” do investimento. Neste caso a intervenção tem o fim claro de evitar impactos extremos sobre a sociedade, e deve ser aplicada mesmo que não haja nenhum benefício no caso da tragédia não acontecer. Na política, a estratégia Barbell não tem o objetivo de gerar ganhos do ponto de vista econômico, mas evitar catástrofes que comprometeriam de modo crítico o bem-estar da população. Alguns exemplos de sua aplicação vão a seguir:

  • Segurança pública – Proibir a posse/porte de armas somente aos cidadãos que tenham histórico de crime violento.
  • Saúde pública – Financiar ou subsidiar somente cirurgias, tratamentos e medicamentos relacionados a problemas de saúde com altas taxas de mortalidade ou transmissão.
  • Habitação – Construir habitações populares com o único propósito de relocar pessoas residentes em áreas de alto risco ambiental.

Dos conceitos de Cisne Negro e Estratégia Barbell formulamos o terceiro e último princípio de atuação política exposto no livro Antifrágil de Nassim Taleb:

III. Prevenção: evitar o mal. Buscar possíveis falhas ou omissões que impliquem em riscos e vulnerabilidades sistêmicas e saná-las antes de que os riscos se convertam em danos, sempre levando em consideração a não-linearidade entre probabilidade e risco (“Regra 80/20”), para que a intervenção seja eficiente e oportuna.

Conclusão e Resumo

As três regras que podemos aprender da leitura do livro são as seguintes:

  1. Não causar o mal.
  2. Não perpetuar o mal.
  3. Evitar o mal.

As regras estão em ordem de importância e de execução. Considerando esta hierarquia, todas as regras devem ser aplicadas. A não aplicação de uma das regras, ou a sua aplicação sem consideração pela hierarquia de importância e precedência resulta nos seguintes erros, muito comuns na política:

  • Sob o mandamento da regra 1, não agir quando se deve agir (2 e 3). Falhar em intervir preventivamente ou em realizar as reformas quando necessário.Ex.:
    Em nome da não-intervenção, impedir o estabelecimento de novas leis para impedir a ocupação habitacional de zonas de risco geológico (falha da regra 3).Em nome da não-intervenção, permitir que os governos municipais continuem protegendo cartéis e monopólios privados no setor de transporte coletivo (falha da regra 2).
  • Sob o mandamento da regra 2, falhar em avaliar o mal menor na aplicação das outras regras (1 e 3). Ao fazer uma reforma, causar um novo mal paralelo ao já existente, gerando um círculo vicioso. Falhar em adotar medidas preventivas por focar exclusivamente nos males já em curso.Ex.:
    Buscando remover habitantes das zonas de risco para reassentá-los em zonas habitáveis, utilizar a força e causar conflitos entre a população local e a polícia, resultando em mortos e feridos (falha da regra 1).Na saúde pública, aumentar a atenção aos pacientes com doenças respiratórias, mas na política ambiental falhar em adotar medidas para reduzir a poluição do ar (falha da regra 3).
  • Sob o mandamento da regra 3, falhar em aplicar as outras regras (1 e 3). Tentar impedir o mal sem avaliar o potencial dano iatrogênico da intervenção, resultando em uma intervenção nociva que agrava os males em curso ou cria novos males. Tentar impedir o mal sem antes cessar os males atuais, permitindo que os mesmos se perpetuem e sigam crescendo, resultando em uma intervenção ineficiente.Ex.:
    Buscando evitar uma futura escassez de água, estatizar todo o serviço de purificação e distribuição de água, causando escassez atual (falha da regra 1).Forçar os bancos públicos a adotar políticas mais rígidas para as futuras análises de crédito, mas continuar cobrindo suas perdas por inadimplência de empréstimos contraídos no passado (falha da regra 2).

Com base na interpretação do seu livro, chegamos então à conclusão de que o autor não defende uma política de completa não-intervenção. Uma política “talebiana” se basearia no princípio da não-maleficiência para evitar intervenções nocivas, no princípio da via negativa para realizar reformas regressivas, e na estratégia Barbell para realizar intervenções críticas para o bem-estar da sociedade.

O resultado desejado seria um ambiente econômico dinâmico e de rápido crescimento, cheio de riscos e oportunidades, antifrágil; e uma sociedade menos vulnerável e mais protegida contra catástrofes naturais ou antropogênicas, resiliente.


NOTAS:

[17] Acertar em qual empresa apostar seria um “Cisne Negro positivo”, pois:

  1. Devido ao risco, o sucesso do seu investimento era imprevisível ou improvável.
  2. O impacto do investimento sobre o seu dinheiro será extremamente positivo, já que os ganhos eram impossíveis de estimar. Provavelmente, o investimento mínimo que você fez trará muito mais benefício que os 90% investidos nas opções seguras.
  3. Estaremos tentados a cair na falácia narrativa de acreditar que o investidor pôde “prever” o sucesso da empresa, quando na verdade ele simplesmente estava fazendo um uso racional do risco, um “chute inteligente”.

Leia os outros artigos da série:


Gostou deste artigo? Receba nossas atualizações por e-mail assinando o nosso boletim:
Boletim Direitas Já!

Taleb para Políticos: Segundo Princípio

Via Negativa: Melhora pela subtração

Charlatões só dão conselhos “positivos”. Eles somente recomendam aquilo que você deve fazer, não o contrário, porque eles não tem conhecimento prático e empírico sobre aquilo que aconselham. Eles não podem dizer o que você não deve fazer porque eles não sabem o que não funciona. Somente quem tem conhecimento e experiência em primeira mão de uma determinada atividade sabe o que não funciona, o que não se deve fazer, o que é contraindicado. Pessoas que tem know-how e um interesse sincero no nosso desenvolvimento podem dar o feedback quando estamos errando. O poder de educar e de liderar reside sobretudo na capacidade de reconhecer e corrigir erros, incluindo os próprios.

A verdade é que podemos melhorar muito nossa vida não fazendo coisas. Se a iatrogenia é o mau não intencional causado por uma ação bem intencionada, também há o bem não intencional causado por uma omissão. Ele não tem nome, mas podemos percebê-lo em diversas áreas da nossa vida. Entretanto, é difícil prever quais benefícios podem vir da não intervenção e é isso que torna a defesa da não intervenção uma tarefa árdua. Os prejuízos evitados e os benefícios potenciais da não intervenção são desconhecidos, enquanto a intervenção produz benefícios diretamente reconhecíveis, ainda que seus efeitos sejam superficiais ou efêmeros. [9]

A Via Negativa consiste em melhorar por meio da subtração de coisas que causam dano. Abandonar hábitos nocivos, livrar-se de dívidas, cortar gastos, trabalhar menos horas são algumas de suas aplicações. Por exemplo, você pode melhorar muito mais a sua saúde não fumando e não comendo porcaria do que tomando mais remédios ou aumentando a carga de exercícios físicos. A Via Negativa pode ser aplicada em praticamente todas as áreas da nossa vida: você se torna um melhor cônjuge não traindo, um homem honesto não roubando e um melhor jogador não perdendo.

A Via Negativa está embutida em diversos regramentos morais [10]. Dela extraímos nosso segundo princípio:

II. Princípio da subtração: não perpetuar o mal. Aplicar o princípio anterior a toda política que já esteja em vigor para revogar más políticas que estejam causando danos ou provocando injustiças. Isto inclui, mas não se limita a: derrubar barreiras comerciais protecionistas, eliminar subsídios, diminuir ou extinguir impostos, reconsiderar proibições em vigor e reavaliar os salários do setor público. Cessada a causa, cessa o efeito.

Cisnes Negros e perus

Um dos conceitos fundamentais desenvolvidos por Nassim Taleb, e aquele que o tornou famoso, é o de “Cisne Negro”. Segundo o autor, os três atributos que definem um Cisne Negro são:

  1. É um outlier [11], pois está fora do universo de expectativas reais, já que nada no passado poderia indicar a sua possibilidade.
  2. Seu impacto é extremo.
  3. Apesar do seu status de outlier, a natureza humana nos leva a explicar a sua ocorrência após o fato, tornando-o “explicável” e “previsível”.

A terceira característica dos Cisnes Negros é amplamente explorada por formadores de opinião como jornalistas, políticos, economistas, “intelectuais de esquerda” e outros charlatões cuja especialidade é prever retroativamente o passado. Resumindo, os Cisnes Negros são eventos extremamente raros e improváveis, e cujos efeitos são imprevisíveis e devastadores. A falácia narrativa, nossa tendência de explicar catástrofes retrospectivamente e de forma simplista, torna as pessoas ainda mais vulneráveis a estes eventos.

Imagine um peru sendo criado em uma granja. Quanto mais se aproxima o Natal, melhor o granjeiro o aquece e alimenta. Nenhuma evidência indica que o granjeiro quer o mal dos perus, afinal, e o peru dorme tranquilamente sem a menor noção do risco que a sua vida corre quanto mais se aproxima a noite da ceia. A sua sensação de segurança é máxima justamente quando o seu risco é máximo. Mas a ausência de evidência não é evidência de ausência: na véspera de Natal, um “outlier” da análise de risco feita pelo nosso amigo peru lhe trará desastrosas consequências. A mesma situação se compara com cidades que, pelo fato de nunca terem registrado terremotos, não se preparam para o evento de um. Ao mesmo tempo que a sensação de segurança da população é máxima, a sua vulnerabilidade a um terremoto também é. Quando vem o terremoto, não importam os registros sísmicos passados, a falsa “evidência de ausência”, e sim o dano que ele causa e que poderia ter sido evitado.

O que propõe Taleb é que nos preparemos para eventos improváveis ou mesmo imprevisíveis, mas cujos efeitos seriam devastadores. Tenha seguro de vida e plano de saúde, mesmo que viva em um lugar seguro e tenha um estilo de vida saudável. Tenha uma reserva de dinheiro para o evento de ficar desempregado por 3 meses mesmo que você tenha um emprego estável em uma grande empresa ou no setor público, tenha peças de reposição adicionais para o seu carro e comida não perecível de reserva. Enfim, não seja um peru.

Mas como aplicamos estas políticas preventivas em políticas públicas?


NOTAS:

[9] Se você deixa a economia operar livremente, você não pode prever os benefícios que virão dela. A maioria dos produtos e serviços oferecidos no mundo ocidental hoje em dia eram simplesmente inimagináveis décadas atrás. Por outro lado, em uma economia estatizada se pode prever os benefícios, limitados, mas muitas vezes não se pode calcular os prejuízos nem mesmo no momento em que eles estão ocorrendo. Uma economia estatizada, basicamente, é como pilotar um avião com os olhos vendados.

[10] Nos Dez Mandamentos: não matar, não roubar, não cobiçar a mulher do próximo. Na Regra de Ouro: não fazer para os outros o que não gostaria que fizessem para você. Na Austeridade: não gastar mais do que ganha. Na Frugalidade: não acumular mais do que necessita. Na Temperança: não comer mais do que o necessário para se saciar. No juramento de Hipócrates: antes de tudo, não causar dano. E assim por diante.

[11] Em estatística, um outlier, valor aberrante ou valor atípico é uma observação que apresenta um grande afastamento das demais observações de uma série. Um outlier é útil para denunciar erros experimentais ou teóricos, sempre e quando não adotemos a falácia narrativa da “exceção que confirma a regra”.


Leia os outros artigos da série:


Gostou deste artigo? Receba nossas atualizações por e-mail assinando o nosso boletim:
Boletim Direitas Já!

O que realmente é o capitalismo?

Texto publicado também no blog Mundo Analista. Para ler a publicação original, clique aqui.

Uma das maiores dificuldades que a direita tem para conseguir aceitação de suas idéias é que a maioria das pessoas não sabe o que é capitalismo. Falo por experiência própria. Pelo menos 95% das pessoas que conheço crêem que capitalismo é um sistema econômico cujas bases podem ser resumidas em três palavras: egoísmo, consumismo e materialismo (no sentido comercial da palavra). Essa é a definição mais popular que existe de capitalismo. Até aqueles que não sabem quase nada de política e economia conhecem essa definição. Todavia, qualquer pessoa que parar um pouquinho para refletir, verá que existe algo muito errado aqui: como é que uma doutrina econômica vai ser definida por posturas individuais?

Este é o “x” da questão. A definição popular de capitalismo na verdade não é a definição de uma doutrina econômica, mas sim de uma postura individual. Ser egoísta, consumista e materialista não depende de qual doutrina econômica você escolhe para seguir. Pode-se ser um comunista, mas só pensar em si mesmo e dar um enorme valor ao consumo e às coisas materiais. Não é porque o comunista acredita em uma economia igualitária que ele se tornará uma pessoa altruísta e desapegada dos bens materiais.

Imagine que um trabalhador se sinta injustiçado por trabalhar tanto e não ter direito de comprar uma Ferrari, tal como seu patrão. Ele pode se tornar um comunista apenas por querer comprar coisas boas como seu patrão. O fato de ele se unir a outros comunistas não implica em que ele seja um indivíduo de moral elevada que se importa profundamente com o sofrimento de cada trabalhador. O que o move é a vontade de ter algo que não pode ter. Ele se une aos outros por uma questão de identificação, mas pode muito bem ser uma pessoa extremamente insensível, egocêntrica e olho grande. Não é preciso ter um bom caráter para almejar igualdade econômica. Basta querer ter o que não pode ter.

Da mesma maneira, alguém pode concordar com uma economia capitalista, mas ser muito desapegado de bens materiais, comprar pouco, consumir só o que precisa, ser uma pessoa humanitária, ajudar aos necessitados e se importar de verdade com cada pessoa (boa parte dos padres católicos apresentam esse perfil, aliás). Pode-se, inclusive, ser um burguês que paga muito bem aos seus funcionários e que acredita de verdade em projetos beneficentes. Não vejo nenhuma contradição aqui.

Então, fica muito claro que a definição popular de capitalismo é falsa. Ela não descreve uma doutrina econômica, mas sim um conjunto de posturas individuais pouco louváveis, que uma pessoa pode ter independentemente de ser capitalista, comunista ou qualquer outra coisa. Mas de onde surgiu essa definição popular? Pasme o leitor, ela surgiu dos escritos de um intelectual: Karl Marx. Vamos entender.

Marx empregou a palavra capitalismo para descrever um sistema econômico que vinha se consolidando em sua época. Esse sistema pode ser chamado de liberalismo ou economia de livre mercado. Juntamente com seu amigo Engels, ele definiu esse sistema como uma doutrina que se baseava no lucro da classe burguesa (os donos dos meios de produção) em cima do trabalho da classe proletária (os donos da força de trabalho). O nome capitalismo vinha da palavra “capital”, que nos remete à dinheiro, investimento e lucro. Em outras palavras, capitalismo seria uma doutrina baseada no lucro exploratório de uma classe sobre outra.

A partir daí, fazendo uso de um extremo economicismo (isto é, a economia seria a responsável pelo modo como todas as coisas se dão: religião, cultura, hábitos…), Marx conclui que o sistema capitalista seria altamente egoísta e consumista. Em um capítulo de O Capital, ele e seu companheiro se dedicam inteiramente a falar sobre o Fetichismo da economia capitalista, que seria, grosso modo, a mentalidade gerada pelo sistema de fazer as pessoas terem vontade de comprar mais do que necessitam. A conclusão de Marx levou todos os marxistas posteriores a relacionarem, como ele, consumismo e egoísmo com o sistema capitalista.

Não é objetivo desse texto, analisar propriamente as idéias de Marx. Mas quero dizer que a definição de Marx está completamente errada. A definição correta de capitalismo, ou melhor, de liberalismo econômico (o termo adequado) é: uma doutrina que se baseia na liberdade do indivíduo de fazer coisas como comprar, vender, trabalhar para uma indústria, montar seu próprio negócio e concorrer comercialmente, sem que o governo intervenha nessas escolhas individuais (seja auxiliando ou prejudicando). Essa é a definição correta do sistema que Marx tentou descrever.

As idéias de exploração, egoísmo, materialismo comercial e consumismo não fazem parte da definição do sistema econômico de livre mercado. Tais posturas têm a ver com caráter individual, natureza humana, moral, ética, cultura, contexto e etc. Ver o capitalismo como um sistema que se baseia nessas posturas é confundir sistema com conduta pessoal.

Da parte da população leiga, isso é ingenuidade. Da parte das pessoas que realmente acreditam no marxismo, isso idiotice. Mas da parte dos estudiosos marxistas, isso é desonestidade mesmo. O estudioso marxista sabe que relacionar o capitalismo com o consumismo, egoísmo e exploração, por mais que tais condutas independam dos sistemas econômicos adotados, cria uma distorção enorme no entendimento do que seria uma economia de livre mercado. Diversas vezes ouvi pessoas dizendo: “Olha aí como o nosso governo beneficia os grandes empresários! Olha quantos escândalos envolvendo empresas privadas e governo! Bando de porcos capitalistas! Nosso governo é muito capitalista mesmo!”. Percebe a distorção? As pessoas acreditam que o capitalismo é culpado exatamente por aquilo que, na verdade, ele condena: a intervenção do governo.

Também ouço demais as pessoas dizendo: “É rapaz, vivemos em um mundo capitalista. As pessoas só pensam em comprar. Só pensam em bens materiais”. Ou mesmo: “Esse mundo é capitalista. Todo mundo só pensa em si mesmo. Não se tem amor ao próximo”. Uma mulher que compra dois mil pares de sapato ou um homem que troca de carro de seis em seis meses são considerados frutos do sistema capitalista. Um rico empresário que se recusa a ajudar necessitados é culpa do capitalismo. Ninguém diz que a culpa, na verdade, é toda do indivíduo. Ninguém diz que é ele que apresenta uma conduta deplorável em relação à oferta de produtos ou à riqueza. Ninguém lembra que é a pessoa que escolhe como ela irá agir. A culpa é do capitalismo. Porque é o capitalismo que é consumista e não as pessoas, segundo a lógica marxista.

O marxismo usa as idéias de fetiche da economia capitalista e de alienação do proletariado para provar que todos nós somos apenas marionetes de um sistema exploratório, sem opinião e sem direito de escolha. O marxismo tenta vender a idéia de que você não tem autonomia: se existem muitas empresas, muita variedade de produtos e muita propaganda, você, inevitavelmente se tornará consumista e egoísta. A não ser que aceite o comunismo e se empenhe em destruir o capitalismo. Porque é no sistema capitalista que reside o egoísmo, o consumismo e a exploração. Se você se opõe a ele, você se torna uma pessoa de bom caráter e seus pecados são justificados. Você aceitou o Santo Comunismo Cristo, todo-poderoso. É o que te salva. Os capitalistas, entretanto, são os ímpios. Estes deverão sofrer condenação por seu pecado “capital”.

O leitor percebe o truque? Uma simples definição errônea do sistema capitalista é o suficiente para que a economia de livre mercado seja considerada o grande mal do mundo. E por mais contraditório que seja, a definição errônea nos leva a acreditar que liberalismo econômico é tudo aquilo que não é comunismo. Não importa o quanto o governo intervenha na economia com regulamentações, burocracia, altíssimos impostos e parcerias com empresas privadas, nós continuamos a acreditar que isso é o mais puro capitalismo existente. O marxismo nos fez acreditar que qualquer sistema exploratório é capitalismo. Pode ser a economia menos livre do mundo, onde o governo intervém até nos preços dos alimentos: se há exploração, o sistema é capitalista.

Então, para tentar desfazer essa distorção na cabeça do leitor que aprendeu desde pequeno a pensar nesses moldes, ratifico: capitalismo não é sinônimo de exploração, consumismo e egoísmo. Capitalismo é liberalismo econômico. E liberalismo econômico é sinônimo de pouca burocracia para montar negócios, pouca regulamentação, ausência de empresas e/ou parcerias público-privadas, baixos impostos, livre concorrência entre as empresas privadas, poucos serviços públicos, poucos gastos públicos, enfim, pouca intervenção governamental. Isso é o capitalismo em seu estado mais puro. Quanto mais um governo se distancia desses padrões, menos capitalista ele se torna. Há índices que medem isso, como o índice de liberdade econômica, o índice de facilidade de se abrir negócios e etc.

Por fim, o leitor pode até não concordar com o sistema capitalista, achar que ele traz muitos problemas e entender que o governo precisa intervir (não é a minha opinião, mas eu respeito). Agora, o que é inconcebível é discordar do capitalismo sem entender o que ele, de fato, significa. O leitor acha ruim a exploração, o egoísmo, o consumismo e o apego aos bens materiais? Eu também. Mas isso não é uma discussão econômica. Se vamos discutir sobre capitalismo, então vamos discutir sobre livre mercado. Essa é a definição correta. O que passar disso, provém do maligno.

Entrevista com Marcelo Mota Ribeiro, representante do CONS

Entrevista realizada em 16 de junho de 2013. Por motivos de estilo e legibilidade, esta entrevista foi editada. Para lê-la no formato original de perguntas e respostas, clique aqui.

Marcelo Mota Ribeiro.

Nosso entrevistado, Marcelo Mota Ribeiro, é mineiro de Muriaé e tem 33 anos. É graduado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, trabalha há dez anos na área de TI como Desenvolvedor de Software em Belo Horizonte, cidade onde atualmente reside. É graduando em Direito pela UNA/BH, onde presidiu o Diretório Acadêmico Mirtes de Campos. Filiado ao PFL, posteriormente ao Democratas, foi Presidente Municipal e Vice-Presidente Estadual da Juventude do partido em seu Estado, onde coordenou diversas campanhas eleitorais. É o atual coordenador nacional do CONS.

O CONS é um movimento espontâneo que surgiu em meados de 2009, quando diversos indivíduos declaradamente conservadores passaram a se reunir na rede social do Orkut assumindo este acrônimo como uma identidade mútua.

Atualmente participam de um grupo de discussão que reúne mais de duas mil pessoas, embora em seu cadastro oficial – lançado recentemente – constem trezentos registros de membros apoiadores dispostos a trabalhar diretamente na causa. Seu coordenador nacional, Marcelo Mota Ribeiro, considera que o movimento ainda está em uma fase embrionária de concepção e maturação. Apesar do senso de urgência, aponta que o movimento privilegia a solidificação de seus pilares em detrimento de agir com pressa para ver as coisas acontecerem o que, segundo ele, foi a causa do fracasso de muitas outras iniciativas de direita.

Segundo Marcelo, é impreciso apontar uma data precisa da fundação do movimento. Os membros do CONS pretendem realizar, com previsão para 31 de março de 2014, o seu primeiro Encontro Nacional para oficializar a fundação.

Quais são as ideias e os objetivos do CONS?

As ideias do grupo podem ser melhor conhecidas no seu site, indicado ao final deste artigo. Elas estão agrupadas hierarquicamente em três níveis: elementares, fundamentais e políticas. O nível mais baixo agrupa os fins, enquanto os outros agrupam os princípios e os meios.

No primeiro nível, elementar, advogam a proteção de valores inalienáveis como a vida, a liberdade religiosa, a autonomia da família e a dignidade da pessoa humana. No plano fundamental, a liberdade e a propriedade. Por fim, no nível político, a segurança jurídica, o império das leis e a limitação da intervenção governamental na vida social, cultural e política.

O objetivo do movimento é levar pessoas conservadoras a assumir uma identidade política, uma marca, que seria o CONS. Segundo Marcelo, os conservadores brasileiros estão alheios à militância em defesa de suas ideias e de seus valores, e a ausência desta identidade dificulta uma interação colaborativa que permita uma atuação organizada.

Quais são as figuras inspiradoras do CONS? O que leem os conservadores?
O CONS é um grupo heterogêneo. Pessoas de diferentes vertentes que bebem de diferentes fontes, embora comunguem de ideias fundamentais que são comunitárias.

Influências nacionais na filosofia conservadora: Olavo de Carvalho, Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos.

Marcelo fala apenas por si quando afirma que muito aprendeu com a leitura dos apontamentos de Olavo de Carvalho, embora este autor seja notável influência para grande parte dos conservadores brasileiros. No âmbito nacional, Marcelo adiciona as influências de Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos, dentre outros. Pensadores conservadores de fora do Brasil incluem Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk e, no campo econômico, Milton Friedman, Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek, os quais Marcelo considera leituras fundamentais.

Influências internacionais na filosofia conservadora: Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk.

Outras figuras em atividade que inspiram o movimento com suas críticas políticas são Bruno Garschagen, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé, Roger Scruton e outros articulistas. No campo político, personalidades do século XX como Winston Churchill, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Carlos Lacerda também servem de inspiração.

Quais são os símbolos e cores dos conservadores no Brasil?

Uma marca, representada por uma Harpia, águia típica do norte do Brasil, combinada em círculo de fundo azul com as estrelas que representam nossos Estados. As cores, derivadas da bandeira nacional, são o azul, o amarelo e o branco.

Como o CONS pode fazer do Brasil um país melhor?

Objetivamente: contribuindo com ações que permitam o fortalecimento do pensamento conservador, na esfera cultural e no plano político. Os conservadores entendem que o equilíbrio entre forças progressistas e conservadoras é requisito essencial para uma sociedade prosperar. A preponderância de uma delas leva a um sistema “manco”, sem sensatez e ponderação nas decisões econômicas e políticas.

Acreditam que toda sociedade próspera se funda em uma base de valores bem definida, com conceito claro do que é certo e do que é errado, semeando, assim, entre seus membros, o interesse em uma colaboração pacífica, em atitudes propositivas e construtivas que, independente de arranjos políticos e ideológicos, acabam por ensejar o desenvolvimento intelectual e material enquanto nação, pois os participantes se consideram mutuamente como partes de um mesmo fim.

O Brasil, infelizmente, ainda não construiu essa base de valores e por isso tem um sistema cultural e político débil, que não nos permite identificar de forma clara e real qual é a “nossa” identidade, qual é o norte que estamos a seguir.
Vivemos, não como uma nação mas, como um bando de pessoas de diferentes “nações”, vendo-nos como concorrentes, passando uns por cima de outros, sempre quando há uma chance. Não definimos, por exemplo, se o “jeitinho brasileiro” é atitude desonesta ou mérito. Não sabemos se elogiamos alguém que cria riqueza, ou se o chamamos de explorador. E, é dessa confusão que originam-se todos os demais problemas, como os relacionados à corrupção, à violência e à falta de desenvolvimento econômico. O discurso político atual, todavia, só trata da superfície e não ataca os problemas que existem na base. Por isso nada funciona, porque não é edificado sobre uma sustentação sólida e aderente ao que desejam as pessoas.

Precisamos de políticos menos proselitistas e que trabalhem mais pela construção de uma nação do que de uma carreira pessoal que só vise vencer eleições. Criando um movimento conservador, acreditam oferecer, em um futuro breve, esse tipo de agente cultural e político, que servirá de exemplo para que outras pessoas sigam o mesmo caminho e aceleremos assim a edificação desse necessário sentimento de nação, de forma livre e espontânea, de baixo para cima, do povo para o Estado, não vice-versa como se tem tentado há quinhentos anos.


Acesse o site do CONS: 
www.conservadores.com.br

Site dos articulistas mencionados no artigo:

Olavo de Carvalho;
Plínio Corrêa de Oliveira;
Bruno Garschagen;
João Pereira Coutinho;
Luiz Felipe Pondé;
Roger Scruton (em inglês).


Leia também: