Hayek sobre as origens socialistas do nazismo

Artigo original de Byron Chiado, publicado em inglês no seu blog. Para ler o artigo original, clique aqui.

poster nazista trabalhador

O Caminho da Servidão, de F.A. Hayek, é um dos livros mais envolventes e acessíveis na tradição econômica austríaca. A maior parte do livro constrói o argumento de que o planejamento central e o intervencionismo inevitavelmente levam ao autoritarismo, em uma linguagem clara e simples que influenciou a venda de mais de 350.000 cópias da obra.

Ao final do livro, ele se dirige aos inegáveis autoritários do seu tempo e exibe o movimento nacional-socialista como um movimento construído sobre a aversão ao liberalismo. Nascido em Viena e educado na Universidade de Viena, Hayek se apoia em uma íntima educação na tradição socialista alemã para ilustrar suas origens como fundamentalmente antagônicas ao laissez faire, e especificamente seus proponentes mercantis ingleses. Ele inclui nesta linhagem o Partido Nazista, que estava no poder na época em que o livro foi escrito.

As doutrinas que guiaram os governantes na Alemanha desde a última geração não se opunham ao socialismo no Marxismo, mas aos seus elementos liberais, seu internacionalismo e sua democracia.

Seu primeiro estudo de caso é Werner Sombart, tido por Friedrich Engels como “o primeiro professor universitário alemão a ver, nos escritos de Marx, o que Marx realmente disse”.  Tendo realizado sua dissertação sobre Marx, Sombart promoveu e contribuiu ao programa marxista até 1909.

Ele fez mais do que qualquer outro para difundir as ideias socialistas e o ressentimento anti-capitalista de todos os matizes por toda a Alemanha; e se o pensamento alemão impregnou-se de elementos marxistas de uma maneira nunca antes vista até a Revolução Russa, isto foi em boa parte graças a Sombart.

Sombart, como muitos alemães do início do século XX, foi atraído pela proposta de uma guerra entre a Inglaterra e a Alemanha tendo como fundamento a ideia de que a Inglaterra havia perdido todo o instinto guerreiro em sua busca pela felicidade individual, o que ele via como uma doença contraída por uma sociedade construída sobre o comercialismo. O laissez-faire era uma ordem anárquica e anti-natural que produzia parasitas e mercadores desonestos, enquanto o conceito alemão de Estado derivava de uma aristocracia natural e heroica jamais redutível a esta baixeza.

O Estado alemão é a Volksgemeinschaft, ou “Comunidade Popular”, onde o indivíduo não tem direitos, só deveres. Hayek credita a formação desta linha de pensamento a Johan Fichte, Ferdinand Lasalle e Johann Karl Rodbertus, entre outros notáveis socialistas alemães.

Para Sombart, a guerra é a consumação do modo de vida heroico, e a guerra contra a Inglaterra é a guerra contra o ideal antagônico, o ideal comercial da liberdade individual e do conforto inglês, que em sua visão têm sua expressão mais desprezível nas lâminas de barbear encontradas nas trincheiras inglesas.

Ele continua o estudo com outro marxista, o sociólogo Johann Plenge, e seu livro que detalha o conflito entre as “Ideias de 1789” e as “Ideias de 1914”.  No livro de Plenge, 1789 e 1914: Os Anos Simbólicos na História da Mentalidade Política, o ideal de 1789 era a liberdade, e as ideias modernas de 1914 apoiam o ideal da organização. Plenge afirma, corretamente segundo Hayek, que a organização é a verdadeira essência do socialismo. Hayek afirma que todos os socialistas até Marx compartilhavam esta ideia, e que Marx tentou em vão abrir um espaço para a liberdade na sua moderna ideia alemã de uma grande organização.

Começando com a mesma linguagem liberal de Marx, Plengue paulatinamente abandonou o uso de termos liberais e burgueses, abraçando desavergonhadamente os domínios totalitários que atraíram a tantos líderes marxistas:

Já é passada a hora de reconhecer o fato de que o socialismo é uma política de poder, porque é organização. O socialismo precisa ganhar poder: jamais destruir o poder às cegas.

Hayek demonstra em seguida como um político do Partido Social Democrata, Paul Lensch, aplica uma análise marxista às políticas de planejamento e protecionismo industrial de Otto Von Bismarck:

O resultado da decisão de Bismarck no ano de 1879 foi que a Alemanha assumiu um papel revolucionário; ou seja, o de um Estado cuja posição em relação ao resto do mundo é a de representante de um sistema econômico mais avançado e mais elevado. Entendendo isto, devemos perceber que na atual Revolução Mundial a Alemanha representa o lado revolucionário, e seu maior antagonista, a Inglaterra, o contrarrevolucionário.

Esta unidade entre a identidade nacional prussiana e o projeto revolucionário socialista guia o pensamento de figuras importantes do Partido Nazista, como A. Moeller van den Bruck.  Hayek cita e parafraseia do seu livro Prussianismo e Socialismo:

“O antigo espírito prussiano e a convicção socialista, que hoje se odeiam como irmãos, são um só.” Os representantes da civilização ocidental na Alemanha, os liberais alemães, são “o exército inglês invisível, deixado atrás por Napoleão em solo alemão após a batalha de Jena”

Hayek fundamenta mais esta versão dos eventos, antes de alertar a Inglaterra de que o “socialismo conservador” em voga na época era uma exportação alemã, a qual, por razões que ele detalha ao longo do livro, inevitavelmente se tornará totalitária. É interessante notar que a obra foi escrita antes de que os grandes crimes do Holocausto viessem a conhecimento público e o regime nazista fosse universalmente execrado.

Esta não foi uma tentativa sensacionalista de provar seu argumento. Hayek costumava argumentar e demonstrar comedidamente o tipo de governo que se poderia esperar de uma sociedade que abriu mão do liberalismo em troca do planejamento. Os alertas mais extremos de Hayek em O Caminho da Servidão terminaram se tornando realidade no caso da Alemanha dos anos 1940.


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O nazismo e o fascismo no espectro político

Texto publicado também no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

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Já escrevi alguns textos sobre a relação entre nazismo, fascismo, direita e esquerda [1]. Como está na moda da semana, resolvi sintetizar aqui o que sei. Antes de começar, julgo importante explicar algo. Muitas pessoas tem dito que é inútil discutir qual é a posição do fascismo e do nazismo no espectro, pois cada lado diz uma coisa, não há consenso, tampouco utilidade prática em buscar uma resposta final. Mas na verdade a discussão é importante sim. Não pelo rótulo, mas pelo mapeamento das ideias.

Pouco importa os nomes que fascismo e nazismo receberão, mas é muito relevante descobrir de onde suas ideias se originaram, a fim de que possamos evitar o surgimento de movimentos semelhantes. A classificação é possível mediante modelos baseados no diagrama de Nolan, no qual há quatro quadrantes, dividindo os dois lados do espectro em pelo menos dois grandes grupos. Dito isso, começo a elencar os pontos principais.

Pontos principais sobre nazismo e fascismo

1. A teoria nazista, exposta por Adolf Hitler em sua obra Mein Kampf, faz parte da tradição de ideologias seculares redentoras que se iniciou a partir do iluminismo e teve seu ponto alto no século XX. Essas ideologias possuem em comum os seguintes pressupostos: (A) a sociedade precisa ser redimida do mal e reestruturada; (B) há um inimigo que perpetra esse mal, mantendo uma velha estrutura social; (C) o ser humano pode redimir o mal da sociedade e reestruturá-la através de um bom projeto de governo nesse sentido e governantes capazes de representar fielmente os anseios do povo; (D) esse governo redentor deve ter grande poder político, econômico e cultural para emplacar esse grande projeto. Em suma, a ação política salvará o mundo.

Fizeram/fazem parte dessa tradição o jacobinismo, os diversos tipos de socialismo, o positivismo, o marxismo, o darwinismo social, o sindicalismo revolucionário, a socialdemocracia original, o fascismo italiano, o nazismo e outras correntes. Todas elas podem ser conceituadas como religiões políticas.

2. Ainda conforme as ideias expostas em Mein Kampf, os judeus pretendiam subordinar todas as nações ao que Hitler chamava de “Capitalismo Internacional Judaico”. Ou seja, para o nazismo hitlerista havia um plano judaico de dominação mundial. Hitler chega a essa conclusão baseado no fato de que os judeus estavam espalhados por toda a Europa, ocupando posições importantes como donos de jornais, banqueiros, políticos, sindicalistas, etc. Então, era um povo gigante fora de sua terra de origem, sugando as riquezas de outros povos e ocupando todas as posições.

3. Segundo a doutrina nazista, o marxismo e a socialdemocracia eram dois movimentos mentirosos, criados por judeus para dar uma falsa impressão de luta contra o capitalismo é a favor do proletariado. A intenção, contudo, era a mesma dos judeus burgueses: subordinar o mundo ao grande capital internacional judaico. A prova disso, conforme a explicação dada em Mein Kampf, era justamente o fato de que as lideranças desses movimentos todos tinham raízes judaicas. Karl Marx, aliás, era de família judia, o que só reforçava o mito criado por Hitler.

4. A oposição da doutrina nazista em relação ao marxismo e a socialdemocracia, portanto, não se dava pelos princípios proclamados de luta contra a desigualdade ou da defesa de uma economia planificada, do controle governamental sobre o empresariado e da construção de uma nova sociedade (mais justa). A oposição se dava, conforme explicado detalhadamente em Mein Kampf, por esses dois movimentos serem falsos, ferramentas judaicas para engano do povo. Daí a conclusão de que o único socialismo verdadeiro era o nacional socialismo (nazismo).

5. O nazismo se colocava como o socialismo verdadeiro porque lutava de verdade contra o capitalismo mundial. Combater de fato esse sistema global era, para o movimento, se opor ao internacionalismo, que atendia aos interesses dos capitalistas imperialistas, desejosos de um mundo sem fronteiras dominado por meio de seus escritórios. Combater de fato esse sistema global era atacar os principais capitalistas imperialistas do mundo: os judeus. Combater o capitalismo realmente era se opor à farsa do marxismo e da socialdemocracia, que de socialistas não tinham nada, pois defendiam o internacionalismo, dando assim o poder nas mãos do imperialismo judaico.

6. A doutrina nazista, à semelhança da marxista, buscava se firmar “cientificamente” também. Para Marx, o comunismo não era uma ideia. Já que ideias, para Marx, apenas justificavam as condições materiais de determinado tempo. O comunismo era uma ciência, uma ciência exata, a observação dos fatos como eles são. Essa definição está clara no Manifesto do Partido Comunista e também é uma tradição iniciada no iluminismo. Cada autor procurava dar à sua ideologia de redenção um status de ciência exata. Isso pode ser visto claramente, por exemplo, no positivismo, de Comte, e no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Rousseau.

Seguindo a tradição, o nazismo se fiou no darwinismo social. Para a doutrina, o ser humano era composto por raças mais evoluídas e menos evoluídas. A raça ariana, da qual fazia parte os alemães, era o supra sumo da humanidade em inteligência, moralidade, força, beleza, etc. A raça judaica, por sua vez, era a pior das raças, a mais depravada. Talvez por isso tenham se tornado capitalistas. O nazismo, portanto, combatia não apenas um sistema econômico com sanha imperialista, mas um sistema econômico usado por uma raça vil e ordinária.

7. O projeto econômico nazista era de cunho antiliberal. O livre mercado era um mal. Apenas o forte controle do Estado poderia impedir distorções sociais, manter a ordem e usar empresários e empregados para o bem da sociedade.

8. O fascismo italiano, proposto por Benito Mussolini, mantinha pelo menos uma grande diferença em relação ao nazismo de Hitler: não focava nos judeus como o grande mal do mundo. Pelo menos não em sua origem. A visão fascista de combate era mais generalista: o capitalismo internacional é o monstro. E contra esse grande monstro as armas eram o socialismo e o nacionalismo.

9. Para entender o socialismo fascista é preciso entender o processo de mutação pelo qual passou o pensamento de Benito Mussolini. O ditador italiano foi um marxista ortodoxo e militante durante toda a juventude, fazendo parte do PSI (Partido Socialista Italiano) e editando jornais socialistas. No entanto, influenciado por ideais revolucionários mais pragmáticos, como o “sindicalismo revolucionário”, de Georges Sorel, ele passou a defender conceitos que se distanciavam do marxismo ortodoxo. A expulsão de Mussolini do PSI se deu após sua forte adesão à participação da Itália na Primeira Guerra Mundial. Para o partido, aquela guerra era capitalista e a Itália não deveria se intrometer. Para Mussolini, contudo, a participação poderia trazer benefícios à Itália.

10. O pragmatismo adotado por Mussolini o levou a desenvolver um novo tipo de socialismo, menos utópico e mais realista. Na nova doutrina, concebia-se o Estado como uma entidade insuperável, em oposição ao mito utilizado por marxistas de que o Estado se desfaria naturalmente após a ditadura do proletariado. Ele percebeu que isso era mentira e que o objetivo do socialismo é (e sempre foi) o poder supremo do Estado.

Pelo pragmatismo soreliano, Mussolini moldou sua visão sobre o uso de mitos políticos como força motriz para a condução das massas. Para Sorel, que foi um sindicalista revolucionário e marxista heterodoxo, o mito político era um conjunto de imagens com capacidade para gerar reações antes de qualquer análise refletida. Em outras palavras, não importava que uma ideia fosse mentirosa. Desde que ela servisse para impulsionar as massas, isso era suficiente para os fins desejados pelo socialismo. Mussolini captou essa ideia e, por esta razão, passou a se utilizar das ideias de religião, pátria e raça, que evocavam sentimentos fortes e capazes de unir a sociedade italiana em prol do projeto político fascista.

11. Na visão econômica, o fascismo italiano entendeu que se o Estado concentrava tudo em suas mãos, não havia necessidade de uma estatização direta da economia. Um controle corporativista se mostrava mais simples, eficiente e gerava uma aparência aceitável para o empresariado. Tanto o fascismo italiano, quanto o nazismo alemão perceberam que a manutenção de empresas privadas na sociedade não só evitaria uma difícil e custosa luta contra grandes empresários, como também abriria a possibilidade de o Estado se beneficiar do dinheiro, da organização, do poder e do apoio desses grandes empresários para os fins do regime. Para isso, bastaria garantir seus lucros e a proteção contra a concorrência, o que uma economia planificada faz muito bem.

12. A visão econômica proposta pelo fascismo e o nazismo são exatamente a mesma de outros tipos de socialismo e do marxismo em seu estágio intermediário. Todo socialismo propõe uma intervenção cada vez maior e mais ampla do governo na economia até o estágio de uma economia planificada. O marxismo, o mais extremo dos socialismos na área econômica, sustenta não só a escalada até uma economia planificada, mas até uma economia totalmente estatizada. O que difere cada tipo de socialismo, na área econômica, é apenas o grau de intervenção e o objetivo final. Isso implica que o natural de uma economia marxista é que ela passe por estágios corporativistas.

Na verdade, essa é a lógica inescapável da planificação da economia. Na medida em que o governo intervém mais com impostos, regulações, burocracias, agências reguladoras, expansão de crédito, etc., mais dificulta a atividade empresarial no geral, o que torna o empreendedorismo uma atividade restrita à poucos grandes homens com boas relações com o governo. Estes darão ao governo apoio moral e financeiro. Receberão do governo a garantia de que nenhuma outra grande corporação aparecerá para tirar seus lucros. Sem o governo, essas grandes corporações não existem, pois é a relação com o governo que decide quem sobrevive. Então, elas se tornam sustentáculos do regime. Aqui já se encontra a planificação da economia. Lenin chamava esse estágio de capitalismo de Estado e o definia como o estágio anterior ao socialismo. As relações entre a planificação da economia e os diversos tipos de socialismo é lógica e perceptível.

Considerações sobre os pontos elencados

No lado direito do Diagrama de Nolan há o quadrante dos conservadores e o quadrante dos liberais. Os conservadores se definem historicamente por ser contrários à ideologias políticas redentoras, revoluções sanguinárias como métodos eficientes para reestruturar a sociedade e qualquer projeto que intente resolver problemas sociais destruindo pilares da sociedade, tais como a família, a religião e a moral judaico-cristã. A política conservadora é a política da prudência, da forte orientação pelos ensinamentos do passado e das reformas necessárias sempre baseadas na conservação dos pilares sociais.

Uma leitura nos escritos de Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Eric Voegelin, Erik von Kuehnelt-Leddihn, José Ortega Y Gasset, Raymond Aron e Russell Kirk, grandes nomes do conservadorismo, deixam claro esse espírito de prudência e anti utopia presente nessa posição política. Um mergulho em escritos políticos de filósofos cristãos anteriores ao iluminismo também demonstram a inexistência de um ideal de redenção política, já que para a visão judaico-cristã, o mundo sempre terá problemas, a redenção plena vem apenas de Deus e o paraíso não será erguido por nós. É nesta visão judaico-cristã cética e prudente em relação ao ser humano e o mundo que o conservadorismo mantém suas raízes. O conservadorismo, em suma, é a política do possível.

Ante o exposto, parece bastante claro que nazismo e fascismo não se enquadrariam jamais no quadrante conservador do lado direito. Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno faria, certamente, as mesmas criticas que fez à Revolução Francesa em relação a esses movimentos que, aliás, descendem de uma mesma tradição de políticas redentoras surgidas no iluminismo. Winston Churchill, primeiro ministro britânico entre os anos de 1940-1945 e 1951-1955, é a maior prova de que, na prática, o conservadorismo rechaçava o nazismo e o fascismo. Um dos maiores nomes do conservadorismo, Churchill lutou vorazmente contra os dois movimentos e como governante se limitou a fazer a política do possível.

O fato de o nazismo e o fascismo terem flertado com algumas (poucas) posições e discursos geralmente defendidas por conservadores não faz desses movimentos conservadores, já que as principais características que definem o conservadorismo político eram rechaçadas pelas duas ideologias. Não só o discurso e as ações propostas, mas o próprio modus operandi do nazismo e do fascismo eram revolucionários. Eram dois movimentos baseados na rebelião das massas, algo típico da Revolução Francesa e das rebeliões socialistas, atitudes nada conservadoras.

Ainda no lado direito, há também os liberais. Historicamente, esse grupo sempre se definiu por ser contra uma forte intervenção do governo na economia. A economia deveria ser o mais livre quanto possível, a fim de gerar maior competição, um dos fatores responsáveis pelo surgimento de mais empregos, melhores produtos e serviços, avanços tecnológicos e maiores salários. Os liberais também perceberam, com o tempo, que governos antiliberais não só atrasavam o desenvolvimento econômico da sociedade, como se tornavam autoritários. Não demorou para que o liberalismo econômico entendesse que quanto mais poder econômico tinha o Estado, mais poder político ele também o tinha. E isso certamente descambaria em tirania estatal. Aliás, todos os projetos redentores de governo propunham exatamente isso: tirania estatal para salvar o mundo. Uma leitura nos escritos de Adam Smith, Frederic Bastiat, Carl Menger, Eugen Von Bohn Bawerk, Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek, grandes nomes do liberalismo econômico, demonstra como esta corrente sempre defendeu um estado pequeno e uma economia livre.

Então, fica claro que também é impossível incluir o nazismo e o fascismo no quadrante liberal da direita, já que esses regimes eram absolutamente contrários ao livre mercado e um Estado pequeno. Todo o pensamento nazista e fascista está baseado em um altíssimo grau de controle estatal da economia e da sociedade, e na visão de que o capitalismo liberal é o grande mal do mundo. Mises e Hayek, que viveram à época do nazismo e do fascismo, destacaram o antliberalismo desses movimentos e como esse tipo de política econômica altamente interventora sempre gera autoritarismo e despotismo políticos.

O fato de, vez ou outra, o nazismo e o fascismo terem se utilizado de algumas decisões mais liberais não torna esses movimentos liberais, já que no quadro geral a economia não tem liberdade. Governos intervencionistas usam um pouco de pragmatismo econômico sempre que necessário, já que economias planificadas não se sustentam por muito tempo. Uma privatização aqui para reduzir gastos e contar com a melhor organização do setor privado ou uma redução de impostos sobre um setor ali para criar incentivo são atos que podem ser colocados em prática de modo bem controlado, quando for preciso. O próprio Lenin retrocedeu um pouco ao capitalismo após a revolução russa através da NEP (Nova Política Econômica), já que a estatização radical gerou uma crise.

Pequenas concessões à práticas do liberalismo econômico são aceitáveis pelo socialismo quando controláveis. Desde que o poder continue firme nas mãos do estado, não há problema. Daí os novos governos marxistas pós-URSS não mais pregarem a estatização completa da economia e a destruição do empresariado, mas uma sociedade em que o governo “faça justiça social com a ajuda de empresários responsáveis”, o que na prática significa um amplo controle sobre a economia de modo indireto. Na prática, em suma, corporativismo, o mesmo modelo adotado pelo fascismo e pelo nazismo. O fato inescapável é que todos os governos de esquerda são, em maior ou menor grau, corporativistas. E no corporativismo, os mais sórdidos ditadores, políticos e empresários saem ganhando. Só quem perde é o povo.

Ora, se nazismo e fascismo não se encaixam em nenhum dos dois quadrantes da direita, devem se encaixar em algum dos dois quadrantes da esquerda. Bom, há o quadrante comunitário (ou autoritário) e o quadrante liberal/libertário. Os libertários de esquerda são aqueles que se dedicam hoje mais ao discurso de defesa de minorias e questões culturais do que aos discursos econômicos. É a nova esquerda, germinada por autores como Lukacs e Gramsci, e concebida por homens como Marcuse, Adorno e Foucault. É a esquerda que toma o lugar dos comunistas de discurso mais ortodoxo e economicista, passando a focar mais em temas como feminismo, aborto, divórcio, revolução sexual, homossexualidade, liberação das drogas, religiões alternativas, etc. A intenção é moldar a cultura da sociedade, forjar uma aparência de defesa das minorias, da democracia e da liberdade, ganhar apoio popular por meio de jovens libertários e ascender ao poder através de um discurso mais ameno. Quando no poder, colocarão em prática o mesmo tipo de planificação da economia.

Obviamente, por ser um fenômeno mais moderno, nazismo e fascismo não se enquadram nesse grupo. Como também não se enquadra o comunismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Nenhum desses regimes se preocupou com aparência democrática, guerra cultural e o discurso de defesa de minorias. O discurso era radical. Lênin, por exemplo, entendia que o poder deveria ser tomado pela força, tão logo uma vanguarda revolucionária se formasse e tivesse condições de empurrar a população nessa direção. Nesses regimes, houve perseguição aberta de judeus, homossexuais e etnias religiosas. O tipo de discurso moldado pela nova esquerda ainda não existia. Ele nasceria a partir do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, quando a própria esquerda contestaria a eficácia do modus operandi dos regimes comunistas mais velhos. Assim, todos os movimentos de redenção anteriores, incluindo aí o fascismo e o nazismo, não se enquadram na nova esquerda.

Sobra, por fim, o quadrante comunitário/autoritário do lado esquerdo do diagrama. Os movimentos presentes nesse quadrante se caracterizam pelo viés mais coletivista e radical de seu discurso e ação. Não se fala muito em direitos em individuais, mas sempre na luta coletiva contra o sistema capitalista. O foco não são minorias, mas o povo trabalhador no geral. Essa é a massa a ser defendida pelo discurso. Aqui a mudança não vem pela cultura. A cultura só é realmente importante depois que o partido ascende ao poder, pois o regime controlará a vida cultural. Assim o discurso é mais autoritário e despudorado. A mudança vem pela força, pela ruptura radical com a política e a economia atuais, com um governo que se oponha fisicamente aos que não desejam a mudança. Não há verniz democrático para disfarçar o regime autoritário, nem antes do poder, nem durante. O golpe de força não está descartado como forma de se alcançar o governo absoluto.

Nesse quadrante se encontram os comunismos descritos há pouco: leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Uma frase de Engels sintetiza o tipo de discurso e ação presentes nesse grupo: “A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado” [2]. Pois é exatamente nesse quadrante que o nazismo e o fascismo melhor se enquadram. O quadrante revolucionário e abertamente autoritário, que enxerga a sociedade apenas de maneira coletiva, e não procura esconder seus objetivos totalitários. O quadrante da economia extremamente planificada, seja de modo direto ou indireto. O quadrante que vende o discurso utópico de uma sociedade ideal. O quadrante da tradição iluminista de ideologias redentoras, da religião política, da salvação pelo Estado. O quadrante antiliberal e anticonservador por excelência. Esse quadrante está na esquerda e não há como negar isso.

Assim, o nazismo e o fascismo se originam a partir do ninho de projetos diferentes das mais diversas esquerdas para redimir a sociedade do caos. Não há, nesses movimentos, nada realmente basilar que venha da direita. Não há o compromisso conservador com os pilares, com a prudência, com a política do possível. Não há o compromisso liberal econômico com um Estado pequeno e uma economia livre. São projetos absolutamente revolucionários e estatistas. Qualquer comparação destes movimentos com ideias de direita é superficial. Quando, por exemplo, Donald Trump ou governos de países como Polônia, Hungria e República Tcheca tomam decisões pela soberania de seus países (tidas como nacionalistas), não o fazem por alguma ideologia de supremacia étnica ou por uma luta contra o capitalismo mundial. Trata-se apenas de defesa contra políticas diretamente prejudiciais às suas nações. E isso é o que se espera de todos os governantes: que zelem por suas nações. Não há nada de fascista ou nazista nisso.

O conhecimento das origens do fascismo e do nazismo, como já dito na introdução desse texto, nos ajuda na missão de evitar o aparecimento de regimes semelhantes. Fica claro, após essa análise, que os responsáveis pela concepção desses movimentos foram ideais utópicos de sociedade, rebeliões das massas, estatismo, intervencionismo exagerado, etc. Pois são contra essas ideias que devemos lutar. Nazismo e fascismo surgiram das ideias da esquerda. São de esquerda. Embora hoje, felizmente, esquerdistas não defendam esses movimentos, defendem regimes autoritários originados das mesmas bases. Por isso a discussão não é inútil. As ideias não surgem num vácuo. Elas possuem lastro. Elas possuem origem. Devemos estar sempre atentos a isso.

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Referências:

1. Publiquei os seguintes textos sobre o tema:

2. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 101.

Apoie a criminalização da apologia ao comunismo

Ideia Legislativa publicada no portal e-Cidadania pelo brasiliense Felipe Porto propõe a criminalização da apologia ao comunismo. A proposta, inspirada por leis similares adotadas em países europeus que viveram sob os regimes totalitários comunistas, aprimora a lei atual que criminaliza a divulgação do nazismo.

Comunismo_Holodomor

Se adotada, as duas ideologias responsáveis pelos maiores crimes contra a humanidade do século XX, nacional-socialismo e comunismo, passariam a ser tratadas da mesma maneira pela lei brasileira, o que representaria um grande passo para a democracia no país. Entre outras consequências previsíveis de uma lei como essas, seria o reconhecimento histórico dos crimes cometidos pelos regimes comunistas, como o Holodomor. Para entender mais sobre a importância de criminalizar a apologia ao comunismo e ao nazismo, recomendamos a leitura da Declaração de Praga, que está disponível no nosso site.

Atualmente a ideia conta com mais de 7.800 apoios. São necessários pelo menos 20.000 apoios para que a ideia se converta em sugestão legislativa e seja submetida à análise do Senado Federal.

Apoie a ideia acessando o link:

Ideia Legislativa – Criminalização da Apologia ao Comunismo

O Fascismo nasce da Esquerda

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

LEIA ANTES DE PROSSEGUIR: Esta resenha foi escrita e publicada por Erwin Robertson, um historiador chileno pró-fascista em uma revista de igual alinhamento ideológico e, portanto, NÃO REPRESENTA a opinião do blog Direitas Já! e de seus articulistas.

O autor do livro objeto da resenha, Zeev Sternhell, judeu polaco nacionalizado israelense, é uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o fascismo e portanto publicamos este material para que seja de conhecimento público o que é o fascismo, como ele surgiu e qual é a sua relação histórica e ideológica com a esquerda política.

Que Mussolini foi membro do partido socialista é um fato conhecido. Fato problemático, em especial para uma das interpretações dominantes do fascismo; a saber, que este foi a reação alentada ou dirigida pelo grande capital contra o avanço do proletariado. Em tal evento, aquele fato e sua evolução consecutiva deviam ser entendidos como oportunismo, incoerência ou, no melhor dos casos, como uma questão de conversão que não deixa marcas no passado de um homem. A obra de Zeev Sternhell – professor na Universidade Hebraica de Jerusalém – e seus colaboradores colocou toda esta matéria sob outro ângulo. Em sua interpretação, a compreensão histórica do fascismo não pode dissociar esta ideologia de suas origens de esquerda.

Desde o princípio, toda uma plêiade de historiadores e filósofos abordou já há tempo o problema do fascismo: cada um segundo suas orientações espirituais particulares, com seus próprios pontos de vista e seus preconceitos pessoais, mas não sem altura: Ernst Nolte, Renzo de Felice, James A. Gregor, Stanley Payne, Giorgio Locchi e “last but not least”, o jovem pesquisador hispano-sueco Erik Norling, entre outros. Não que a “vulgaris opinio” aludida acima goze hoje de autoridade intelectual. Mas Sternhell vem a aportar a valorização de fontes até aqui descuidadas e, com elas, a nova interpretação que é objeto deste comentário. Estudioso em particular do nacionalismo francês (são suas as obras “Maurice Barrés et le nationalisme français”, “La droite revolutionarie” e “Ni droite ni gauche, L’ideologie fasciste en France”), o professor israelita não se preocupa com os critérios do politicamente correto. É notável ler sobre o tema páginas em que está ausente a edificação moral, nas quais não se há estimado oportuno advertir ao leitor que está adentrando terrenos perigosos; nos quais não há, em suma, demonização ou pressa de meter polemicamente à esquerda uma vizinhança incômoda.

O que é, então, o fascismo na interpretação de Sternhell? Nem anomalia na história contemporânea, nem “infecção” (Croce), nem resultado da crise de 1914-1918, nem reflexo ou reação contra o marxismo (Nolte). O fascismo é um fenômeno político e cultural que goza de plena autonomia intelectual (p.19); ou seja, que pode ser estudado em si mesmo, não como produto de outra coisa ou epifenômeno. Por certo, e logo de início, para Sternhell é preciso distinguir o fascismo do nacional-socialismo (Sternhell diz “nazismo”, acomodando-se ao uso contra o qual, no entanto, se rebela honestamente um Nolte). Com todos os aspectos que um e outro tem em comum, a pedra de toque está no determinismo biológico: um marxista pode converter-se ao nacional-socialismo, mas não um judeu (por outro lado, existiram fascistas judeus). O racismo não é um elemento essencial do fascismo, ainda que contribua à ideologia fascista. E algumas páginas mais adiante o autor aponta que um dos elementos constitutivos do fascismo é o nacionalismo tribal; isto é, um nacionalismo baseado no sentido de pertencimento, a “terra e os mortos” de Barrés, o “sangue e solo” do nacional-socialismo. Este sentido organicista é compartilhado com os nacionalismos de finais do século XIX, germânicos e latinos, Maurras e Corradini, Vacher de Lapouge e Treitschke. O próprio Sternhell debilita assim a distinção que acaba de fazer (reparemos, de passagem, na delicadeza do adjetivo “tribal”: seria pouco oportuno de nossa parte lembrar que uma tradução de “tribal” é “gentil”, de “gentio”?)

O fascismo então é uma síntese deste nacionalismo “tribal” ou “orgânico” e de uma revisão anti-marxista do marxismo. Sternhell se estende explicando que a finais do século XIX as previsões de Marx não se haviam cumprido: o capitalismo não parece cair, nem o empobrecimento é o sinal característico da população, enquanto o proletariado se integra política e culturalmente nas sociedades capitalistas ocidentais. Daí a aparição do “revisionismo”. Seguindo o exemplo do SPD, o partido social-democrata alemão, o conjunto do socialismo ocidental se faz reformista; isto é, sem renunciar aos princípios teóricos do marxismo, aceita os valores do liberalismo político, e em consequência, tacitamente, a ordem vigente. Mas uma minoria de marxistas irá recusar o compromisso e irá querer permanecer fiel à ortodoxia – cada um a seu modo; são os Rudolf Hilferding e os Otto Bauer, os Rosa Luxemburgo e os Karl Liebknecht, os Lenin e os Trotsky, todos da Europa Oriental.

Ao mesmo tempo, na França e logo na Itália surgem aqueles que, de dentro do marxismo, empreenderão sua revisão em sentido não materialista nem racionalista, sem discutir a propriedade privada ou a economia de mercado, mas conservando o objetivo da derrubada violenta da ordem burguesa: são os sorelianos, os discípulos de Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário e autor das célebres “Reflexões sobre a violência”.

As diferenças entre os dois setores revolucionários são grandes. Os primeiros, quase todos membros da “intelligentsia” judaica, destaca Sternhell, mantém o determinismo econômico de Marx, a ideia da necessidade histórica, o racionalismo e o materialismo, enquanto os sorelianos começam por uma crítica à economia marxiana que chega a esvaziar o marxismo de grande parte do seu conteúdo, reduzindo-o fundamentalmente a uma teoria da ação. Os primeiros pensam em termos de uma revolução internacional, têm “um horror a esse nacionalismo tribal que florece ao longo da Europa, tanto no campo subdesenvolvido do leste como nos grandes centros industriais do oeste… Não se ajoelham jamais ante a coletividade nacional e sua torrão, seu fervor religioso, suas tradições, sua cultura popular, seus cemitérios, seus mitos, suas glórias e animosidades” (p.48). Os segundos, comprovando que o proletariado já não é uma força revolucionária, o substituirão pela Nação como mito em uma luta contra a decadência burguesa e assim confluirão finalmente no movimento nacionalista.

Tal é a tese fundamental de Sternhell. No desenvolvimento de “O nascimento da ideologia fascista”, o capítulo I está dedicado à análise da obra de Sorel: talvez não propriamente um filósofo nem autor de um corpus ideológico fechado, sua verdadeira originalidade, assinala Sternhell, reside em ter constituído uma espécie de “lago vivente”, receptor e fonte de ideias na gestação das novas sínteses ideológicas do século XX. Nietzsche, Bergson e William James o marcaram sem dúvida mais profundamente que Marx, com ânimo de julgar o que considerava um sistema inacabado.

O autor de “Reflexões sobre a violência”, de “As ilusões do progresso”, de “Materiais de uma teoria do proletariado”, etc., se sublevava contra o marxismo vulgar (que enfatiza o determinismo econômico) e sustentava que o socialismo era uma “questão moral”, no sentido de uma “transvaloração de todos os valores”. A luta de classes era para ele questão principal e, por extensão, saber mobilizar o proletariado na guerra contra a ordem burguesa.

Em um contexto social em que os operários mostram um alto grau de militância sindical (1906, o ano de edição de “Reflexões sobre a violência”, marca também na França o recorde de greves que frequentemente supõem enfrentamentos sangrentos com as forças da ordem), mas também onde uma economia em crescimento permite à classe dirigente fazer concessões que reduzem a combatividade operária, não bastam a análise econômica nem a previsão do curso racional dos acontecimentos.

Sorel descobre então a noção do “mito social”, esta imagem que põe em jogo sentimentos e instintos coletivos, capaz de suscitar energias sempre novas na luta cujos resultados não chegam a divisar-se. Como o mito do apocalipse para os primeiros cristãos, o mito da greve geral revolucionária será para o proletariado esta imagem mobilizadora e fonte de energias. Com fervor análogo ao das ordens religiosas do passado, com um sentimento parecido ao do amor à glória dos exércitos napoleônicos, os sindicatos revolucionários, armados do mito, se lançarão à luta contra a ordem burguesa.

Assim, à mentalidade racionalista, que o socialismo reformista compartilha com a burguesia liberal, Sorel opõe a mentalidade mítica, até mesmo religiosa. Sua crítica ao racionalismo que remonta a Descartes e Sócrates e, contra os valores democráticos e pacificistas, reivindica os valores guerreiros e heróicos. De boa vontade reivindica também o pessimismo dos gregos e dos primeiros cristãos, porque só o pessimismo suscita as grandes forças históricas, as grandes virtudes humanas: heroísmo, ascetismo, espírito de sacrifício.

Sorel vê na violência um valor moral, um meio de regenerar a civilização, já que a luta, a guerra por causas altruístas, permite ao homem alcançar o sublime. A violência não é a brutalidade nem a ferocidade, não é o terrorismo; Sorel não sente nenhum respeito pela Revolução Francesa e seus “provedores de guilhotinas”. É, em suma e no fundo, contra a decadência da civilização que Sorel dirige seu combate; decadência na qual a burguesia arrasta atrás de si o proletariado. E não será surpreendente encontrar aos discípulos de Sorel reunidos com os nacionalistas de Charles Maurras no “Círculo Proudhon”, que leva o nome do grande socialista francês anterior a Marx. Tampouco será estranho que em seus últimos anos Sorel lance seu alegado “Pro Lenin”, desejando ver a humilhação das “democracias burguesas”, ao mesmo tempo que reconhecia que os fascistas italianos invocavam suas próprias idéias sobre a violência.

A síntese Nacional e Social

Estes discípulos são também estudados por Sternhell (capítulo II). São os “revisionistas revolucionários”, a “nouvelle école” que tentou tornar operacional uma síntese nacional e social, não sem tropeços e desilusões. Ali está Edouard Berth, que junto a Georges Valois, militante maurrasiano (futuro fundador do primeiro movimento fascista francês, morto em um campo de concentração alemão), deu vida ao “Círculo Proudhon”, órgão de colaboração entre sindicalistas revolucionários e nacionalistas radicais nos anos anteriores a 1914.

Aventada esta experiência pela guerra européia, Berth passará pelo comunismo antes de voltar ao sorelismo. Está também Hubert Lagardelle, editor da revista “Mouvement Socialiste”, homem de luta no interior do partido socialista, onde se esforçou por fazer triunfar as teses do sindicalismo revolucionário (pelo contrário, em 1902 triunfaram as teses de Jaurés, que apresentam o socialismo como complemento da Declaração dos Direitos do Homem). Ante a colaboração sorelista-nacionalista, Lagardelle se recolhe a posições mais convencionais; mas no pós-guerra o encontraremos na redação da revista “Plans”, expressão de certo fascismo “técnico” e vanguardista – nela colaborarão nada menos que Marinetti e Le Corbusier – e, durante a guerra, terminará sua carreira como titular do ministério do trabalho do regime de Vichy.

Trejetórias em aparência confusas mas que revelam a busca sincera do “novo”. Da Alemanha vem a eles o reforço do socialista Robert Michels, quem, à espera de construir sua obra prima “Os partidos políticos”, anuncia o fracasso do SPD, o partido de Engels, Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Michels observará também que só o egoísmo econômico de classe não basta para alcançar fins revolucionários; daí a discussão sobre se o socialismo pode ser independente do proletariado.

O ideal sindical não implica forçosamente a abdicação nacional, nem o ideal nacionalista comporta necessariamente um programa de paz social (julgado conformista), explica por sua vez Berth, quem espera um despertar conjunto dos sentimentos guerreiros e revolucionários, nacionais e operários, o fim da “era dourada”. Em fim, a “nova escola” desenvolve as ideias de Sorel, por exemplo, na fundamental distinção entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Resume Sternhell sua contribuição: “… a esta revolta nacional e social contra a ordem democrática e liberal que eclode na França (antes de 1914, é bom lembrar) não falta nenhum dos atributos clássicos do fascismo mais extremo, nem sequer o anti-semitismo” (p.231). Nem a concepção de um Estado autoritário e guerreiro.

No entanto, no geral, os revisionistas revolucionários franceses foram teóricos, sem experiência real com movimentos de massa. De outro modo ocorre com o sindicalismo revolucionário na Itália (capítulos III e IV da obra de Sternhell). Ali Arturo Labriola encabeça desde 1902 a ala radical do partido socialista; com Enrico Leone e Paolo Orano levam adiante a luta contra o reformismo, o qual acusam de apoiar-se exclusivamente nos operários industriais do norte, em desfeita ao sul camponês, e pelo triunfo de sua tese de que a revolução socialista só seria possível por meio de sindicatos de combate.

De Sorel tomam essencialmente o imperativo ético e o mito da greve geral revolucionária. A experiência da greve geral de 1904, das greves camponesas de 1907 e 1908, inflamam os dirigentes sindicalistas revolucionários, entre os quais a nova geração de Michele Bianchi, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. À margem do Partido Socialista Italiano e de sua central sindical a CGL – ancorados em posições reformistas, os radicais formam a USI (União Sindical Italiana), que chegará a contar com 100.000 membros em 1913.

Por sua vez, os sindicalistas revolucionários animam jornais e revistas. Labriola e Leone empreendem a revisão da teoria econômica marxiana, especialmente a teoria do valor, seguindo ao economista austríaco Böhm-Bawerk; daí, diz Sznajder, o aspecto mais original da contribuição italiana à teoria do sindicalismo revolucionário. Aí se encontra também a noção de “produtores” (potencialmente todos os produtores), contraposta à classe “parasitária” dos que não contribuem ao processo de produção. Por fim a tradição antimilitarista e internacionalista, cara à toda a esquerda européia, não será mais unanimemente compartilhada pelos sindicatos revolucionários. Em 1911, a guerra da Itália contra o Império Otomano pela posse da Líbia produzirá uma crise no sindicalismo revolucionário: alguns dirigentes (Leone, De Ambris, Corridoni), fiéis à tradição socialista, se opõem energicamente a esta empresa – por mais que lhes desagrade estar junto aos socialistas reformistas; outros (Labriola, Olivetti, Orano) estão pela guerra, tanto por razões morais (a guerra é uma escola de heroísmo) como por razões econômicas (a nova colônia contribuirá para a elevação do proletariado italiano), e assim coincidem com os nacionalistas de Enrico Corradini, a quem já se haviam aproximado pela crítica ao liberalismo político.

Mas em agosto de 1914 ainda aqueles que – no seio do sindicalismo revolucionário – haviam militado contra a guerra da Líbia, estão a favor da intervenção no conflito europeu ao lado da França e contra a Alemanha e a Áustria; o combate contra o feudalismo e o militarismo alemão se agrega à possibilidade de completar graças à guerra a integração nacional italiana e de forjar uma nova elite proletária que substituirá a burguesia no poder. Em outubro de 1914, um manifesto do recém fundado Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, assinado pelos principais dirigentes sindicalistas revolucionários, proclama: “… Não é possível ir mais além dos limites das revoluções nacionais sem primeiro passar pela etapa da própria revolução nacional… Ali onde cada povo não vive no quadro de suas próprias fronteiras, formadas pela língua e pela raça, ali onde a questão nacional não foi resolvida, o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal do movimento de classe não pode existir…” Nação, Guerra e Revolução… já não serão mais idéias contraditórias.

Até o final da guerra o sindicalismo revolucionário deve ser considerado já um nacional-sindicalismo, enquanto a Nação figura para eles em primeiro plano. Seja como for, os nacional-sindicalistas aceitam que a guerra há de trazer transformações internas: desde 1917 De Ambris lançou a consigna “Terra dos Camponeses”; e em seguida elabora um programa de “expropriação parcial” tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que se dirige ex proposito contra o capital especulativo e em benefício dos camponeses e operários que deram seu sangue pela Itália. Se trata também de manter e estimular a produção.

O “produtivismo” é um dos fatores que leva os sindicalistas revolucionários a opor-se à revolução bolchevique, que julgam destrutiva e caótica. Frente à ocupação de fábricas do biennio rosso de 1920-1921, Labriola, que chegou a ser Ministro do Trabalho no governo do liberal Giolitti, apresenta um projeto que reconhece aos operários o direito de participar na gestão das empresas. Parlamento com representação corporativa, “classes orgânicas” que enquadrem a população, um Estado que seja responsável por assignar aos proprietários capazes de produzir o direito de usar os meios de produção, são, por outra parte, as bases do programa do “sindicalismo integral” que propõe Panunzio em 1919. Por fim, o sindicalismo revolucionário vibra com a aventura do comandante Gabriele D’Annunzio em Fiume (1920-1921). De Ambris participa na redação da “Carta de Carnaro”, este fascinante documento literário que é a constituição que o poeta e herói de guerra outorga à Regência de Fiume. É um projeto político que, coerente ao ideal do sindicalismo revolucionário, quer resolver de uma vez a questão nacional e a questão social.

Nestas lutas do imediato pós-guerra, os sindicalistas revolucionários coincidiram com os fascistas. Mas a tomada do poder pelo fascismo acarretára a dissolução do sindicalismo revolucionário. De Ambris e seu grupo passarão à oposição; o primeiro terminará exilando-se. Labriola também partirá para o exílio, e só na guerra da Etiópia se reconciliará com o regime. Por outro lado, Bianchi aparece em 1922 como um dos quadrumviri que organiza a Marcha sobre Roma, Panunzio se apresenta junto a Gentile como um dos intelectuais oficiais do fascismo, Orano (que era judeu), alcança altos postos no partido fascista, enquanto Michels, antigo membro do SPD, professor na Universidade de Perusa, se inscreve como afiliado no PNF (Partido Nacional Fascista).

A Encruzilhada Mussoliniana

Assinala Sternhell que sempre se tendeu a subestimar o papel central que Mussolini desempenhou entre todos os revolucionários italianos. O futuro Duce “aporta à dissidência esquerdista e nacionalista italiana o que sempre faltou a seus homólogos franceses: um chefe”. Um homem de ação, um líder carismático, mas ao mesmo tempo um intelectual capaz de lidar com intelectuais e ganhar o respeito de homens como Marinetti, o fundador do futurismo, Michels, o antigo militante do SPD alemão tornado um dos clássicos da ciência político, ou ainda Croce, representante oficial da cultura italiana sob o fascismo. E Mussolini é toda uma evolução intelectual, não o achado repentino de uma verdade, nem o oportunismo, nem sequer a conjuntura do pós-guerra.

Mussolini é antes de mais nada um militante socialista, mesmo como líder dos fascistas. Quando jovem se tem evidentemente por marxista, de um marxismo revisto por Leone e, sobretudo, por Sorel, em quem vê um antídoto contra a perversão social-democrata alemã do socialismo. Outra influência decisiva é Wilfredo Pareto e sua teoria de circulação das elites (por outro lado, Sternhell não destaca a influência de Nietzsche, a quem Mussolini leu prematuramente na Suíça). O jovem socialista se situa portanto na órbita do sindicalismo revolucionário, ainda quando discrepa das táticas: duvida da virtude das organizações econômicas por si e vê no Partido um instrumento revolucionário.

O jovem Mussolini é o líder indiscutível que se opõe à greve geral contra a intervenção na Líbia, pois crê que a tentativa burguesa de desencadear uma guerra pode gerar uma situação revolucionária. Em 1912 é o principal líder do partido socialista, impondo-se sobre os reformistas e fazendo-se com a direção do seu jornal oficial “Avanti!” o líder indiscutido de toda a esquerda revolucionária italiana, mas ao mesmo tempo o mais forte crítico da ortodoxia marxista.

Mussolini publica desde as páginas do “Avanti!” sua profunda decepção com a atitude da classe operária para “moldar a história” e valoriza a idéia de Nação: “Não há um evangelho socialista único ao qual todas as nações devam conformar-se sob pena de excomunhão”. A finais de 1913 Mussolini lança a revista “Utopia”, com a intenção de propôr uma “revisão revolucionária do socialismo”. Ali reúne a futuros comunistas como Bordiga, Tasca e Liebknecht; futuros fascistas como Panunzio, futuros dissidentes do fascismo como seu velho professor Labriola.

Em junho de 1914 Mussolini crê que é chegado o momento da insurreição, comprometendo-se na settimana rossa contra a opinião do congresso do Partido Socialista Italiano. Quando eclode a guerra européia, as dissidências são já tão palpáveis que Mussolini é desautorizado oficialmente pelo partido, e não hesita em romper com seus antigos companheiros para unir-se aos sindicalistas revolucionários na campanha a favor da entrada da Itália na guerra.

Sternhell assinal que o nacionalismo de Mussolini não é o nacionalismo clássico da direita. Ocorre que ante as novas realidades nacionais e sociais a análise marxista demonstrou-se falha, pois as classes operárias na Alemanha, França e Inglaterra marcham alegremente para a guerra. Mussolini não renuncia ao socialismo, mas o seu é um socialismo nacionalista, obra dos combatentes do front: “Os milhões de trabalhadores que regressarão aos sulcos dos campos depois de ter vivido nos campos das trincheiras darão lugar à síntese da antítese classe e nação”, escreve em 1917.

E não será a revolução bolchevique a levar Mussolini à direita, dado que o essencial do seu pensamento se forjou antes de 1917: idéias de hierarquia, de disciplina, de colaboração das classes como condição da produção… Os Fasci Italiani di Combattimento, fundados em março de 1919, recolhem todas as idéias do sindicalismo revolucionário e se situam inclusive à esquerda do partido socialista (defendem sufrágio universal para ambos os sexos, abolição do senado, constituição de uma Milícia Nacional, conselhos corporativos com funções legislativas, jornada laboral de 8 horas, confisco de espólios de guerra, etc). Mas com o biennio rosso as filas fascistas se transbordam com a afluência das classes médias, especialmente de jovens oficiais desmobilizados.

O Partido Nacional Fascista, organizado como tal em 1921, conhecerá um sucesso (eleitoral incluso) vetado aos primitivos “Fascis”. “Esta mutação não deixa de recordar-nos a dos partidos socialistas no início do século: a virada à direita constitui o preço habitual do sucesso” (p.400). Mussolini, homem de realidades que antepõe a prática à teoria, viu fracassar a ocupação “vermelha” de fábricas como a gesta nacionalista de Fiume, e decide levar a cabo a revolução possível. Assim, na perspectiva de Sternhell, a captura do poder pelo chefe fascista não é tanto o resultado de um golpe de Estado como de um processo; é a simpatia de uma ampla parte da massa política, dos meios intelectuais, dos centros de poder, o que permite a Mussolini instalar-se e sustentar-se no governo. Para Sternhell é sintomática a atitude do senador Croce que, ainda em junho de 1924, deu seu voto de confiança ao primeiro ministro quando o caso Mateotti pôs em crise o governo e Mussolini estava a ponto de ser deposto pelo rei, porque, pensava Croce, “havia de dar tempo ao fascismo para completar sua evolução rumo à normalização”.

A idéia de Estado, que parece ser característica só do fascismo é, entretanto, o último elemento que toma forma na ideologia fascista. Em todo caso assinala Sternhell que toda a ideologia fascista estava elaborada antes da tomada do poder: “A ação política de Mussolini não é o resultado de um pragmatismo grosseiro ou de um oportunismo vulgar mais do que foi a de Lenin.”(p.410)

O jurista Alfredo Rocco, proveniente das filas nacionalistas, “codificou” e traduziu em leis e instituições os princípios fascistas e nacionalistas (visão mítica e orgânica da nação, afirmação da primazia da coletividade sobre o indivíduo, recusa total e sem paliativos da democracia liberal). Mas é um Estado que, ao mesmo tempo, se quer reduzido somente a sua expressão jurídica e política; que quer renunciar a toda forma de gestão econômica ou de estatização, como anunciava Mussolini desde 1921. Não é, portanto, ou não ainda, o Estado totalitário.

O fascismo no poder, em suma, não se assemelha ao fascismo de 1919, menos ainda ao sindicalismo revolucionário de 1910. Mas, pergunta Sternhell: “o bolchevismo no poder reflete exatamente as idéias que, dez anos antes da tomada do Palácio de Inverno, animavam a Plekhanov, Trotsky ou Lenin?” Houve uma grande evolução, sem dúvida. E contudo – conclui o autor -, o regime mussoliniano dos anos 30 está muito mais próximo do sindicalismo revolucionário ou do “Círculo Proudhon” que o regime estalinista está dos fundamentos do marxismo.

O encanto secreto do Fascismo

Como conclusão, Sternhell lança um olhar sobre as relações entre o fascismo e as correntes estéticas de vanguarda no século XX. O futurismo, desde cedo (futuristas e fascistas lutaram juntos pelo “intervencionismo”, e Marinetti é um dos fundadores dos Fasci), mas também o vorticismo, lançado em Londres por Ezra Pound, que é em certo modo uma réplica ao futurismo, ainda que compartilhe com ele alguns traços essenciais. “Os dois atacam de frente a decadência, o academicismo, o esteticismo imóvel, o morno, a moleza geral… tem uma mesma voz de ordem: energia, e um mesmo objetivo: curar a Itália e a Inglaterra de sua languidez” (p.424). De Pound conhecemos de sobra sua opção política.

Sternhell destaca também o papel de Thomas Edward Hulme, antirromântico, antidemocrata em política, tradutor ao inglês de Sorel. “Revolucionário antidemocrata, absolutista em ética, que fala com desprezo do modernismo e do progresso e utiliza conceitos como da honra sem o menor toque de irrealidade”(p.429). Hulme é, portanto, para o autor, um representante desta rebelião cultural que brota por toda parte, antirracionalista, antiutilitarista, antihedonista, antiliberal, classicista e nacionalista e que precede a rebelião política.

As gerações dos anos 20 e 30, que já conhecem a experiência fascista, refazem o caminho do inconformismo. Assim um Henri de Man, em 1938 presidente do partido socialista belga, um dos grandes teóricos do socialismo na época, menor somente que Gramsci e Lukacs, reemprende sua própria revisão do marxismo e não será ilógico que, quando seu país capitule ante a Alemanha em 1940 convide os militantes socialistas belgas a aceitar a nova situação como um ponto de partida para construir uma nova ordem: “O caminho está livre para as duas causas que resumem as aspirações do povo: a paz europeia e a justiça social.” Não muito diferente é na França no caso de Doriot.

Como pôde surgir o fascismo na história européia e mundial? A explicação conjuntural não pode senão desembarcar em trivialidades. Deve-se compreender o fascismo primeiro como um fenômeno cultural. É, de início, uma rejeição à mentalidade liberal, democrática e marxista; rejeição da visão mecanicista e utilitarista da sociedade. Mas expressa também “a vontade de ver a instauração de uma civilização heróica sobre as ruínas de uma civilização baixa e materialista. O fascismo quer moldar um novo homem, ativista e dinâmico.” Apesar de apresentar esta vertente tradicionalista, este movimento contém em suas origens um caráter moderno muito pronunciado, e sua estética futurista foi o melhor cartel para a captura de intelectuais, de uma juventude que se sente submetida às baixezas da burguesia.

O elitismo, no sentido de que uma elite não é uma categoria social definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, senão um estado de espírito, é outro componente maior desta força de atração. O mito, como chave de interpretação do mundo; o corporativismo, como ideal social que dá a amplas camadas da população o sentimento de que há novas oportunidades de crescimento e participação, constituem também parte do segredo do fascismo, porque o fascismo reduz os problemas econômicos e sociais a questões sobretudo de ordem psicológica. E, sobretudo, “servir à coletividade formando um corpo com ela, identificar os próprios interesses aos da pátria, comungar no mesmo culto os valores heróicos, com uma intensidade que toma o lugar do boletim de voto na urna”.

É por tudo isto que o estilo político desempenha um papel tão essencial no fascismo. O fascismo veio a provar que existe uma cultura não fundamentada nos privilégios do dinheiro ou do nascismento, senão sobre o espírito de grupo, de camaradagem, de comunidade orgânica, de “Bund”, como se dizia na Alemanha da época.

Estes valores presentes no fascismo tocam a sensibilidade de muitos europeus. É pouco conhecido que em 1933 Sigmund Freud saudava a Mussolini como um “herói da cultura”. Se fosse mesmo, porque Croce teria votado contra ele em 1924, porque Pirandello teria recusado o assento que o Duce lhe ofereceu na Academia Italiana? As realidades dos países europeus entre as duas guerras não são de uma mesma peça: a cultura italiana está representada por Marinetti, Gentili e por Pirandello não menos que por Croce, e por Croce senador não menos que por Croce antifascista, do mesmo modo que pela cultura alemã podem falar tanto Spengler, Heidegger ou Moeller van der Bruck como os irmãos Mann, e a cultura francesa é tanto Gide, Sartre o Camus como Drieu la Rochelle, Brasillach ou Céline…

Assim, “O nascismento da Ideologia Fascista” outorga a seu objeto uma dignidade que nem sempre se encontra nos variados estudos sobre o tema. Isto só pode ser saudável para a história das idéias. Façamos por nosso lado algumas observações. Primeiro, que, como é evidente, Sternhell trata na sua obra do fascismo latino, isto é, das correntes inconformistas surgidas na França e na Itália. Um tema de discussão é ver se o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão são coisas totalmente diferentes (esta é a tese de De Felice), ou se o nacional-socialismo é uma espécie dentro do fascismo genérico (tese de Payne e Nolte). Do nacional-socialismo se discutiu se foi “antimoderno” ou se apresentava traços de uma modernidade radical, dado que é inegável que o movimento desenvolveu um radicalismo antiburguês operativamente muito atrativo para os militantes comunistas.

O fascismo nasce à esquerda, a partir de uma revisão do marxismo. Este revisionismo se desenvolve e se constitui em uma corrente intelectual e política independente à qual concorrem outras tendências que cohabitam com o socialismo: Nietzsche, Bergson, James, e o nacionalismo integral. A respeito é interessante comparar as diferentes evoluções do marxismo que seguiu sendo tal e as diferentes ramificações “apóstatas”. O fascismo em uma revisão do marxismo descobriu que todos os partidos socialistas consideravam o marxismo uma herança a qual deviam permanecer fiéis. Entretanto, em sua evolução recente todos estes partidos renunciaram à herança de Marx, acomodando-se à economia neoliberal. Seguem apegados, desde sempre, à matriz iluminista, materialista e igualitária. Ao contrário, os fascistas, animados de outra cultura, mantiveram sempre o espírito revolucionário de ruptura com a ordem burguesa.

Sternhell insiste permanentemente no respeito dos sindicalistas revolucionários, dos socialistas nacionais e dos fascistas pela propriedade privada e pelo capitalismo. Não haveria que distinguir entre propriedade privada e capitalismo que, no fim das contas, historicamente não se identificam? Todos os fascismos sublinharam sempre a diferença entre a propriedade ligada ao homem e a propriedade ligado ao grande capital financeiro; entre o trabalho produtivo e a servidão ao interesse do dinheiro (G. Feder). Não parece adequado ignorar isto. Talvez Payne tenha sido o autor mais justo neste sentido.

Finalmente, é verdade que uma coisa é reconhecer o componente irracional da vida humana e outra fazer do antirracionalismo uma política. Sternhell, que durante toda sua obra se mantém distanciado de qualquer afeição moralizante, ao final nos adverte do perigo do irracionalismo: “Quando o antirracionalismo se converte em um instrumento político, um meio de mobilização das massas e uma máquina de guerra contra o liberalismo, e marxismo e a democracia; quando se associa a um intenso pessimismo cultural a par de um culto pronunciado pela violência, então o pensamento fascista fatalmente toma forma.”(p.451). A questão seria se só os valores políticos do iluminismo e do liberalismo são legítimos; se só o plano otimismo hedonista pode passar por perspectiva cultural, se as massas só devem ser mobilizadas em nome do esporte.

Aqui, obviamente, a ciência não pode dizer nada: estamos no campo da opção política.


Algumas obras citadas no artigo (em ordem de aparição):

Outras obras e documentos de interesse:

Leia também

Violência Revolucionária

ARENDT, Hannah. As origens do totalitarismo, 2012, p. 435 e 436.

hannah arendt

A atração que o mal e o crime exercem sobre a mentalidade da ralé não é novidade. Para a ralé, os “atos de violência podiam ser perversos, mas eram sinal de esperteza”. Mas o que é desconcertante no sucesso do totalitarismo é o verdadeiro altruísmo dos seus adeptos. É compreensível que as convicções de um nazista ou bolchevista não sejam abaladas por crimes cometidos contra inimigos do movimento; mas o fato espantoso é que ele não vacila quando o monstro começa a devorar seus próprios filhos, nem mesmo quando ele próprio se torna vítima da opressão, quando é incriminado e condenado, quando é expulso do partido e enviado para um campo de concentração ou de trabalhos forçados. (…) Mas, dentro da estrutura organizacional do movimento enquanto ele permanece inteiro, os membros fanatizados são inatingíveis pela experiência e pelo argumento; a identificação com o movimento e o conformismo total parecem ter destruído a própria capacidade de sentir, mesmo que seja algo tão extremo como a tortura ou o medo da morte.

O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

Texto de Davi Caldas (colaborador do “Direitas Já!”), também publicado em seu blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.
Ronald Reagan, presidente dos EUA entre os anos de 1981 e 1989. Um dos maiores expoentes do conservadorismo politico moderno.

Normalmente livros e professores de história nos dizem que nazistas e fascistas eram conservadores e, portanto, de direita. E ai do aluno que tentar dizer algo contra esta concepção! Será taxado de revisionista, falsificador da história e etc. Mas será que é isso mesmo? Será que os dois movimentos realmente foram conservadores e isso é tão evidente que não pode ser questionado? Para responder a essa pergunta é necessário primeiro saber o que é conservadorismo.

1) Definindo Conservadorismo

Não existe um só conservadorismo. Esse é o primeiro fato que devemos ter em mente. Podemos falar em pelo menos três tipos de conservadorismos diferentes um do outro: o conservadorismo político, o conservadorismo moral e o conservadorismo religioso. Vamos observar cada um deles.

1.1) Conservadorismo Político

O primeiro tipo de conservadorismo diz respeito apenas à política. Ele se define por ser uma posição cética a mudanças abruptas e irrefletidas na sociedade, bem como a projetos que intencionam uma completa remodelação na estrutura social tradicional à qual estamos acostumados. Por quê? Existem três motivos básicos. O primeiro é a experiência. Para o conservador, o passado tem muito a nos ensinar, pois é por meio da observação do que já passou que podemos saber o que provavelmente dá certo e o que provavelmente dá errado em termos de vida social. Também é por meio da observação do que já passou que podemos entender como as coisas costumam a ser. Por exemplo, o conservador sabe que o ser humano, no geral, não costuma a ser confiável. Ele sabe disso porque tem sido assim há milênios e continua sendo assim hoje.

O conservador também sabe que existe um senso moral básico na humanidade porque, da mesma maneira, tem sido assim há milênios e continua ser. Não importa se ele vai acreditar que tal senso moral provém de Deus, ou existe por si só, ou é fruto da evolução; o fato é que a experiência mostra que este senso existe. E por aí vai.

O segundo motivo seria o medo dos excessos. O conservador entende que mudanças abruptas e irrefletidas podem gerar excessos sociais e políticos, tais como vandalismos, conflitos freqüentes, desordens urbanas, desrespeito às autoridades, desrespeito às leis, excesso de poder, autoritarismo e genocídios (excessos que podem ser cometidos tanto pelos governantes, quanto pela população). Por mudanças abruptas podemos entender modificações profundas feitas sem um processo de transição. Por mudanças irrefletidas podemos entender modificações que não se baseiam no que o passado nos ensinou, mas tão-somente em especulações e idealismos.

Por fim, o terceiro motivo são os pilares sociais. Para o conservador, a sociedade foi sendo erigida sobre certos pilares. Esses pilares, evidentemente, não podem ser destruídos, do contrário a sociedade entra em colapso. Podemos citar como pilares sociais a moral geral, o direito a vida, o Estado, as leis, a subordinação do ser humano às leis, a hierarquia, as forças armadas, o direito à propriedade privada, a cultura local, as crenças religiosas, a família e etc.

O conservador entende que esses fatores desempenham papel fundamental no funcionamento da sociedade tal como conhecemos. Por esse motivo são considerados pilares. Sua destruição não nos dá qualquer garantia de que poderemos ter uma sociedade melhor (ou mesmo que poderemos ter uma sociedade). Na realidade, o conhecimento experiencial de que o ser humano não perfeito (tampouco perfectível), parece indicar que tais fatores protegem os homens uns dos outros, de modo que, se forem atacados, farão levarão a espécie humana ao completo estado de caos.

É por causa desses três motivos básicos que o conservador político se opõe a políticas de viés revolucionário, socialista, progressista ou qualquer outro que apresente uma postura idealista. Elas são consideradas políticas mirabolantes e perigosas, porque idealizam um paraíso na terra (ou algo próximo a isso) e sustentam que o homem é capaz de alcançar este paraíso através da destruição e recriação da sociedade, fazendo uso do Estado como ferramenta para tal.

Em prol da reconstrução da sociedade, o governo idealista torna-se destruidor da experiência humana, dos pilares da sociedade e dos valores humanos mais básicos, passando por cima do que aprendemos com as gerações anteriores e o passado. Torna-se também coletivista e classista, obrigando o indivíduo a subordinar toda a sua vida a construção dessa sociedade ideal e criando uma série de inimigos que precisam ser destruídos (burgueses, religiosos, conservadores, judeus, negros, estrangeiros…), a fim de que a nova sociedade possa se consolidar. Neste ponto, o Estado se transforma em um Deus que controla o destino de todos os indivíduos.

Os revolucionários anti-religiosos da Revolução Francesa e os revolucionários maoístas chineses da metade do século XX são bons exemplos de idealistas que enchem os conservadores de horror. Em ambos os casos, tais revolucionários pretendiam moldar uma nova sociedade, destruindo o que conhecemos e impondo um novo sistema de crenças unificado. O resultado foi desastroso e só confirmou a importância, para os conservadores, de se conservar a sociedade que conhecemos.

É preciso enfatizar que o próprio conservadorismo político pode ser dividido em dois subtipos: o conservadorismo absolutista e o conservadorismo pós-absolutista (que podemos chamar de conservadorismo moderno). Em essência não há diferença entre eles. Ambos se tratam de uma posição cuidadosa em relação a mudanças sociais, que procura conservar o que julga ser mais garantido do ponto de vista da experiência. No entanto, o conservadorismo absolutista acreditava que o regime que melhor servia para os seus propósitos conservadores era a monarquia absolutista. O conservadorismo moderno quebrou com essa concepção.

Em princípio, a posição absolutista não apresentava argumentos muito fortes a seu favor. O poder absoluto do rei era justificado com base em uma suposta vontade divina de que as coisas fossem daquela forma. Com a chegada do iluminismo, alguns pensadores absolutistas foram desenvolvendo argumentos mais fortes. Thomas Hobbes, por exemplo, em sua obra Leviatã, entendia que o absolutismo tornava o Estado mais forte no que tange à manutenção da ordem e, consequentemente, da paz. Como para ele a única função do Estado era garantir minimamente o direito do cidadão à vida, então se fazia necessário a mão forte de um rei absoluto.

Curiosamente, os argumentos que Hobbes oferece ao longo de sua obra para defender a necessidade de um rei absoluto levam em conta um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano, o que, certamente pode ser utilizado contra o próprio absolutismo. De fato, muitos autores iluministas que foram surgindo durante esta época fizeram exatamente isso: sustentaram que o poder deveria ser limitado para se evitar o despotismo.

É exatamente aí que surgem os conservadores modernos. Sem deixarem de ser conservadores, eles percebem, com base na experiência, que a monarquia absolutista levava ao abuso de poder. Percebem também que, embora o absolutismo já durasse muitas gerações, ele não se tratava do único regime que já existira, tendo existido outros que funcionaram de melhor maneira. Isso tornava a decisão de romper com este regime, um tanto refletida e, portanto, de acordo com o princípio conservador.

Essa ampla e prudente reflexão dos conservadores modernos sobre os perigos de se concentrar muito poder nas mãos de governantes criou um forte ceticismo em relação a Estados intervencionistas, centralizados e com muitas funções. Reconhecia-se que um Estado assim levaria facilmente ao abuso de poder. Deste modo, a defesa de um Estado mínimo e descentralizado logo se tornou uma das principais marcas do conservadorismo político moderno. Quando, por exemplo, a constituição americana foi formulada, grande cuidado houve para que o Estado não tivesse possibilidades de se tornar despótico.

É importante ressaltar que houve um choque entre esses dois subtipos de conservadorismo e que, inevitavelmente, os conservadores modernos foram taxados de revolucionários pelos conservadores absolutistas. Evidentemente, ambos ficaram em lados opostos na guerra política. É por este motivo que conservadores modernos, que eram partidários do liberalismo econômico, ficaram ao lado de revolucionários radicais e socialistas a princípio.

O posterior declínio do absolutismo inaugurou um novo contexto político, no qual os recém-criados termos políticos, “direita” e “esquerda”, passariam a ser usados para expressar a oposição entre os conservadores modernos (adeptos do liberalismo econômico – o “capitalismo”) e os idealistas revolucionários.

O conservadorismo absolutista não desapareceu de todo. Mesmo com a total destruição do absolutismo como forma de governo, resquícios de seu pensamento foram atravessando as décadas, se misturando a outras ideologias e mantendo viva uma posição que já não podemos nem chamar de conservadora, mas sim retrógrada. E, por assim ser, sequer encontra muita definição no espectro moderno. São reminiscências de outro contexto político, em que nem faria sentido falar em direita e esquerda.

Mas voltando ao conservadorismo pós-absolutista, ou moderno, algumas leituras são indispensáveis para que se tenha um panorama geral desta posição política. Iniciar com Edmund Burke é aconselhável. Em sua obra “Reflexões sobre a Revolução em França”, o político e pensador britânico expõe suas críticas à Revolução Francesa, que baseada em um idealismo cego e destruidor, gerou um banho de sangue. Sua defesa da prudência política é brilhante. Ao mesmo tempo, deixa claro o seu incondicional apoio ao sistema parlamentarista de governo, em lugar do despotismo monárquico. Em Burke achamos o equilíbrio entre liberdade política e ordem social que faltou à França.

Partindo de Burke, as considerações do francês Alexis de Tocqueville também são imprescindíveis, seguindo Smith, Jefferson, Lincoln e Hume, e avançando para Böhm-Bawerk, Voegelin, Ruy Barbosa, Churchill, Mises, Hayek, Kirk, F. F. Bunckley, Olavo de Carvalho, Reagan e Thatcher. Todos estes foram expoentes do moderno conservadorismo político. A leitura deles nos oferece um padrão de pensamento contínuo que é seguido desde a fase de declínio do absolutismo até os dias de hoje. Não houve grandes mudanças no interior do conservadorismo moderno de lá para cá.

1.2) Conservadorismo Moral

O segundo tipo de conservadorismo é o moral. Este é totalmente distinto do político. Embora muitos conservadores políticos sejam também conservadores morais, não é necessário ser ambos. O conservadorismo moral diz respeito à conservação da moral judaico-cristã. O adepto desta posição não apenas acredita em um conjunto de valores morais gerais, como o conservador político, mas também crê em um conjunto de valores morais mais específicos, que se encontram dentro da tradição judaico-cristã.

Desta forma, conservador moral vai condenar o aborto, a eutanásia, a venda e o consumo de drogas, a livre venda de órgãos, o consumo excessivo de álcool (ou até mesmo o consumo de álcool), o fumo, o jogo de azar, o divórcio, o homossexualismo, o casamento gay, a adoção de crianças por casais homossexuais, a bigamia, a poligamia, o poliamor, a pedofilia, a bestialidade, a pornografia, os palavrões, os filmes, desenhos e jogos violentos, o topless, o nudismo, a promiscuidade, a boemia e etc.

Como afirmei e o leitor pode constatar, há valores mais gerais, que são cridos pela grande maioria das pessoas, e valores mais específicos. Assim, é perfeitamente possível concordar com muitas posições do conservadorismo moral e ainda assim não ser um conservador moral.

Aqui, mais uma vez, podemos e devemos dividir o conservadorismo moral em dois subtipos (pelo menos): o moral passivo e o moral ativo. O passivo seria aquele em que o conservador apenas tem uma opinião moral conservadora, mas não acha que a maioria dos valores em que acredita deve se tornar lei. Eu, por exemplo, sou um cristão conservador moral e acredito que fumar e beber são hábitos moralmente degradáveis, contudo, não defendo a proibição da venda de álcool e cigarros. Cada um que escolha o que acha melhor para si (desde que não afete diretamente a liberdade do outro).

Já o conservadorismo moral ativo seria aquele em que o conservador acredita que a maioria dos valores morais que sustenta precisa estar na lei. Não obstante, outras subdivisões ainda podem ser feitas, já que um conservador poderia ser extremamente ativo ou extremamente passivo ou mesmo moderado. Eu acredito que a maioria dos cristãos seja composta por conservadores morais moderados.

Distinguir o conservadorismo político do conservadorismo moral é de suma importância para estabelecer a posição política de uma pessoa. Porque as aquelas posições morais que são mais específicas e individuais pouco importam para definir uma pessoa no espectro (ao contrário das posições mais gerais, como a do aborto, por exemplo, que lida com a questão do direito a vida).

1.3) Conservadorismo Religioso

Por fim, há o conservadorismo religioso. Este é o que menos tem a ver com política. Ele se refere tão somente à defesa da religião tradicional tal como ela é, sem abrir concessões a sincretismos e secularismos. O conservador religioso deseja apenas que sua religião seja respeitada e, dentro dela, procura incentivar que seus adeptos a sigam sem distorções.

Normalmente a esquerda associa este último conservador ao conservadorismo político e à direita, dizendo que conservadores religiosos pretendem impor sua religião a toda a sociedade. Há três mentiras aqui. Em primeiro lugar, não é necessário ser um conservador religioso para ser um conservador político e um direitista. E o oposto é verdadeiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em segundo lugar, ser um conservador religioso não é ser um fanático. É simplesmente não querer ver sua religião mutilada por outras crenças. Finalmente, a imposição religiosa, sobretudo, através do Estado, não é algo que agrada ao conservador político moderno. Afinal, o conservador morre de medo de um Estado que se intrometa na vida individual. E um governo que tivesse o direito de impor uma religião, poderia impor qualquer outra coisa, destruindo assim o individualismo.

2) O que importa para a política

Uma vez entendido que existem tipos de conservadorismo diferentes e que eles não devem ser mesclados em uma coisa só, devemos agora separar o que realmente é importante para a política e o que não é. A resposta me parece ser bem óbvia. Se nós queremos saber a posição política de uma pessoa, o que realmente importa é o seu conservadorismo político. Podemos citar alguns exemplos.

O filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé é conhecido por suas posições abertamente direita. Ele se define politicamente como um “liberal conservate” e explica o termo: “Conservador na política e liberal em todo o resto”. Fato incontestável. Pondé é um extremo pessimista antropológico, antimarxista, antissocialista, antiprogressista, admirador de Burke, capitalista, opositor a idealismos de “mundo melhor”, defensor da meritocracia e do livre mercado, opositor do assistencialismo e respeitador da religião tradicional. Sem dúvida, um conservador político.

Não obstante, Pondé não tem nenhuma religião, não acha errado a prática homossexual (tampouco o casamento legal e a adoção de filhos), nem o divórcio, o sexo antes do casamento e etc. Embora apresente um profundo respeito pelas religiões e pela moral judaico-cristã, ele não acredita em grande parte de seus dogmas, tampouco os defende como políticas públicas. Assim, Pondé é um conservador político, mas não um conservador moral ou religioso.

Não foi o caso do Woodrow Wilson, presidente dos EUA entre os anos de 1912 e 1920. Wilson, embora fosse um cristão tradicional e um conservador moral, também era um progressista político. Ele entendia que o Estado deveria ser mais presente, mais forte e mais centralizador, pois aperfeiçoaria a política e tornaria o Estado muito mais útil aos interesses gerais. Durante sua presidência, tomou muitas medidas autoritárias, desfigurando aos poucos a idéia de um Estado pequeno e descentralizado, e criando no Partido Democrata uma linha mais intervencionista, que depois seria retomada por Franklin Roosevelt, tornando-se marca registrada dos democratas americanos.

Talvez o leitor discorde dessa visão de conservadorismo, alegando que a moral é parte importante do conservadorismo político e que, por isso, o mesmo é indissociável do conservadorismo moral. De fato, a moral é parte importante do conservadorismo político, mas apenas a moral geral. O fato, por exemplo, de um conservador defender o casamento gay não implica o abandono de valores atemporais básicos como o direito a vida e o individualismo, tampouco implica o menosprezo da experiência passada e dos pilares da sociedade. A essência do conservadorismo político permanece de pé.

É válido ressaltar que alguns conservadores políticos defendem determinadas posições do conservadorismo moral, nem tanto pela moral, mas porque acreditam que tais posições, se não defendidas, podem destruir a sociedade. Por exemplo, Olavo de Carvalho é contrário a legalização do casamento gay porque isso abriria precedente para os mais diversos tipos de uniões civis, desde casamentos poliafetivos, até casamentos entre pessoas e animais. E isso, segundo ele, certamente causaria um caos jurídico e social. Deste modo, a preocupação de Olavo de Carvalho se encontra dentro do campo do conservadorismo político. Ele teme a desestruturação da sociedade.

No entanto, um conservador que não creia na probabilidade desse caos jurídico, não poderia ser chamado de falso conservador só por isso. Ele continua conservador, mas abre concessão à legalização do casamento gay por não ver nesta concessão riscos à ordem social. Se os visse, certamente seria contrário à concessão. É aqui que reside a diferença entre esse conservador e um revolucionário. O revolucionário não está nem aí para os pilares da sociedade ou a sua ordem. Pelo contrário, ele quer destruir tudo, porque acredita com todas as forças que dá para fazer uma nova sociedade e que ela irá funcionar de maneira perfeita, tal como na música “Imagine”, de John Lennon. Não é o caso do conservador político, ainda que ele seja favorável ao casamento gay.

Outra crítica que o leitor poderia levantar é que com tais definições, até mesmo libertários e anarcocapitalistas seriam considerados conservadores. Mas não é bem assim. Libertários e anarcocapitalistas se distinguem de conservadores porque levam a confiança no livre mercado e no ideal de liberdade até as últimas conseqüências, o que acaba implicando a defesa de projetos e reformas muito radicais. Um conservador político, por exemplo, jamais iria defender uma sociedade sem Estado (como defendem os anarcocapitalitas), mesmo que tal sociedade fosse regida pelas leis do mercado. O seu pessimismo em relação a capacidade humana e o seu respeito pela antiguidade do Estado, faz ter desconfiança de tal projeto e achá-lo sem grandes garantias.

Além do mais, o conservador político certamente estaria mais disposto a aceitar alguns pontos do conservadorismo moral (mesmo que não fosse um conservador moral ou religioso) a permitir que em nome do livre mercado, valores sociais importantes fossem destruídos. Por exemplo, um libertário pode defender a livre venda de órgãos e o livre aborto em nome da liberdade, ao passo que, o conservador político pode ser contrário a isso por temer o desenvolvimento de uma banalização da vida individual, sentimento que é base para sistemas coletivistas de governo.

Enfim, o conservador político é basicamente alguém que só toma decisões muito bem refletidas e baseadas na experiência, ao passo que, libertários e anarcocapitalistas tomam decisões baseadas no anseio de uma sociedade totalmente livre. É por isso que pessoas como Mill, Popper e Rothbarth, embora tenham sido expoentes do liberalismo econômico e da direita, dificilmente poderiam ser chamados de conservadores. Havia um pouco de euforia e idealismo que lhes afastava da posição conservadora.

3) A análise dos movimentos Nazifascistas

Agora que sabemos o que é conservadorismo político estamos em boa posição para analisar se os movimentos fascistas e nazistas eram conservadores políticos e, por conseqüência, direitistas. Podemos começar perguntando: como esses movimentos viam a sociedade que conhecemos? Para eles, a sociedade que conhecemos era uma estrutura antropológica complexa, baseada em pilares que passaram pelos testes do tempo e da experiência, devendo assim ser conservada? Ou será que, para eles, a visão nazifascista da sociedade que conhecemos era a de um sistema cultural, político e econômico infectado por fatores externos à natureza geral do ser humano, que poderia e deveria ser totalmente destruída e reformulada?

Certamente, a visão nazifascista de sociedade era a segunda. Nazistas e fascistas não estavam interessados em conservar a sociedade que conhecemos. Havia em sua ideologia um elemento redentor. Eles acreditavam, tal como Rousseau, Robespierre e Marx, que em algum ponto da história humana, o homem corrompeu suas relações com o próximo, criando uma sociedade corrupta. O problema estava na sociedade e não no ser humano. Esta sociedade precisava ser destruída, para dar lugar a outra, reformulada, justa, ideal.

O fascismo italiano propunha como solução a intervenção estatal em todas as áreas da sociedade, a fim de reformulá-la. O Estado seria o redentor. Ele resolveria os conflitos entre patrões e empregados, abraçaria os pobres, dinamizaria a economia e uniria todas as classes sob um só sentimento de irmandade nacional. O nacionalismo deveria servir não apenas de ferramenta para a resolução de diferenças entre classes, mas como o motor para a transformação do próprio mundo. Afinal, se a suposição de que a raça italiana era superior estava certa, então o nacionalismo italiano teria poder para colocar todo o mundo nos eixos.

Sem grandes diferenças, o nacional-socialismo alemão propunha como solução, em primeiro lugar, o extermínio das raças consideradas inferiores, sobretudo, a raça dos judeus (que pretendiam, conforme Hitler, impor seu domínio ao mundo). Este seria o primeiro passo no processo de destruição desta sociedade e sua reformulação. O Estado, evidentemente, seria a ferramenta humana utilizada nesse processo. Destruídas as raças inferiores, o homem ariano, biologicamente superior, estaria livre para consertar todos os problemas sociais causados pelos “desviantes biológicos”, continuando o trabalho iniciado pelo Estado.

Aqui, mais uma vez, o Estado é responsável por resolver os conflitos entre patrões e empregados, abraçar os pobres, dinamizar a economia e unir as classes sob um só sentimento de irmandade nacional (e racial), bem como o de chamar a atenção das classes para um objetivo supremo: a construção de uma nova sociedade (no caso do nazismo, o Terceiro Reich).

A isenção da natureza humana como a única culpada pelo mal, a transformação do Estado em um redentor, o ímpeto de destruir a sociedade que nós conhecemos há milênios e a idealização de uma nova sociedade, justa e perfeita, são marcas típicas de revolucionários, progressistas e socialistas. São marcas típicas da esquerda. Não há nada de conservador nestas visões.

Um segundo questionamento que podemos fazer é sobre a visão que fascistas e nazistas tinham sobre alguns pilares sociais e direitos inalienáveis. De maneira geral, eles pretendiam conservá-los ou não? A história confirma que não. O nazifascismo, para começar, não valorizava o individualismo. O indivíduo deveria servir aos propósitos do Estado, que era o detentor do “bem comum” e do “objetivo supremo”. Ora, se o bem era comum e o objetivo era supremo, então qualquer que quisesse outro bem para si e almejasse outro objetivo em detrimento do supremo, era um inimigo da sociedade. É óbvio também que o nazifascismo não valorizava o direito à vida. Tal “direito” se submetia à vontade do Estado.

Alguns esquerdistas têm sustentado que nazistas e fascistas eram conservadores porque eram contrários à prática homossexual. Mas há vários erros aqui. Em primeiro lugar, ser contrário à prática homossexual é uma posição do conservadorismo moral e não do conservadorismo político. Como já vimos, um conservador político pode ser bem liberal em nesses aspectos morais mais específicos e pessoais.

Em segundo lugar, ser contrário à prática homossexual não é o mesmo que ser hostil ao homossexual ou querer que o Estado o condene por sua prática. Na verdade, é ridículo pensar que um conservador político seria favorável a um Estado que condena pessoas por escolhas tão pessoais como esta. Mesmo que um conservador possa ser particularmente muito preconceituoso contra homossexuais e insensível a ponto de desejar seu extermínio, ele sabe que se der ao Estado poder para punir homossexuais, estará dando ao mesmo Estado poder para se meter na vida de qualquer indivíduo, o que, obviamente, ele não vai querer (a não ser que abandone o conservadorismo).

Em terceiro lugar, sabemos que o nazifascismo fazia dos homossexuais mais uma classe inimiga. Essa visão classista de sociedade, na qual sempre há uma classe boa lutando contra uma ou mais classes ruins, não faz parte da concepção conservadora de mundo. Para o conservador, a sociedade não pode ser vista pela ótica das classes, mas pela ótica dos indivíduos. A noção de indivíduo é tão forte no conservadorismo que muitos esquerdistas chamam o pensamento conservador de “egoísta”.

Um terceiro questionamento que podemos fazer é: o nacionalismo nazifascista é uma característica do conservadorismo político moderno, como costumam alegar os esquerdistas? A resposta é não. O nacionalismo se origina na Revolução Francesa como uma ideologia revolucionária de oposição ao feudalismo e ao domínio cultural da Igreja Católica. Esta ideologia entendia que o sistema de feudos e a extensão da ICAR criavam um grande império cultural que destruía diversas culturas e impediam que as pessoas de um mesmo país mantivessem laços mais próximos e se unissem em prol de interesses em comum.

Em resumo, o nacionalismo surgiu como uma ideologia anti-imperialista, que buscava na “identidade nacional” um novo elo social. Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, o conceito de identidade nacional se constituiu, para os nacionalistas, um “sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade”.

Embora, posteriormente alguns daqueles antigos conservadores absolutistas tenham agregado às suas crenças o sentimento nacionalista (com os devidos reparos), a ideologia não deixou de ser revolucionária. Ela foi agregada pela grande maioria dos revolucionários que lutou pelas independências nacionais e coloniais na América Latina e, mais tarde, incorporou uma nova postura anti-capitalista: o inimigo não era mais o imperialismo cultural católico, sustentado pelo regime feudal, mas sim o imperialismo cultural, político e econômico dos países capitalistas, principalmente, a Inglaterra e os EUA. Em oposição a este imperialismo, tais revolucionários nacionalistas costumam supervalorizar sua cultura, em detrimento de tudo o que vem de fora, e a defenderem uma economia fechada, a fim de proteger a nação das garras do capitalismo global ou de nações vizinhas não confiáveis.

No início do século XX, esta ideologia entrou em um grande confronto com o marxismo ortodoxo, que era internacionalista e, como é comum nas rixas entre revolucionários, cada qual acusava um ao outro de não ser revolucionário. Entretanto, com a crise do marxismo ortodoxo, em vista das dificuldades práticas que essa teoria apresenta, muitos internacionalistas se renderam a um nacionalismo velado. Stálin, por exemplo, defendeu a tese do “socialismo em um país só”. A sua ideia era primeiro aprofundar a experiência socialista na URSS e transformar a nação em uma grande potência global, a fim de fazer frente aos países capitalistas.

No Brasil, durante a ditadura, diversos simpatizantes do marxismo também se mostraram influenciados pelo nacionalismo. Defendiam fortemente a cultura nacional, almejavam uma economia mais fechada para estrangeiros e relacionavam capitalismo, imperialismo americano e direita. Atualmente, países que ainda conservam um regime comunista, como Cuba e Coréia do Norte, são nacionalistas em muitos aspectos.

Enfim, a idéia de que nacionalismo é uma posição conservadora e inerente à direita é, no mínimo, contestável. É certo que formas de nacionalismo podem surgir entre regimes mais alinhados à direita e, de fato, muitos direitistas acabaram por se tornar ardorosos nacionalistas. Contudo, tanto a história quanto a estrutura classista e coletivista do nacionalismo testificam que tal visão tem DNA revolucionário e não conservador. O nacionalismo é um desvio do conservadorismo pleno.

Aliás, devemos nos lembrar que existe uma diferença entre nacionalismo e patriotismo. Historicamente, o segundo tem sido definido como um sentimento de amor e respeito à pátria. Não implica, necessariamente, em menosprezar outras nações, ser xenófobo e enxergar o mundo de modo classista e coletivista. Já o nacionalismo se baseia mais no ódio às outras nações e no conflito do que no amor a pátria. Para um conservador político puro, isso é estranho, visto que odiar classes não faz sentido para quem é individualista. Assim, quanto mais nacionalista um conservador se tornar, mais estará deturpando as idéias básicas do conservadorismo.

Feitas essas observações, no mínimo, devemos reconhecer que o nacionalismo nazifascista não prova que este era um movimento conservador e de direita. Ora, levando ainda em conta as demais idéias revolucionárias do nazifascismo e o modo como o nacionalismo deste movimento estava intimamente ligado aos seus ideais de reconstrução do mundo, torna-se inevitável concluir que seu nacionalismo não era fruto de algum tipo patriotismo conservador extremado, mas fruto da mentalidade idealista e revolucionária.

Aqui há algo notável e que devemos ter sempre em mente. A esquerda, por se basear em idealismo e revolução, acaba gerando uma miríade de projetos diferentes de remodelação da sociedade. É por esse motivo muitas vezes um movimento de esquerda pode ser frontalmente contrário ao outro, criando a ilusão de que um representa a direita e outro, a esquerda, quando, na realidade, temos apenas uma cisão entre revolucionários com projetos diferentes. Este parece ser o caso de nazismo, fascismo e comunismo.

Um quarto questionamento que podemos fazer é quanto a temas como elitismo, justiça social, igualdade econômica e classes pobres. O nazifascismo é freqüentemente associado ao conservadorismo e a direita por ser elitista e contrário a justiça e igualdade social, em oposição aos regimes de esquerda, como o comunismo, que seriam a favor do direito dos pobres e etc. Há muito que se dizer aqui. Em primeiro lugar, do ponto de vista da prática, nenhum governo de esquerda cumpriu o que prometeu em relação à justiça e igualdade social e ao fim do elitismo. Sobretudo os regimes comunistas, que criaram uma classe de burocratas com poder absoluto, generalizaram a pobreza, causaram fome, mataram inocentes, pisaram na democracia, proibiram greves de operários e etc. Então, colocar os regimes de esquerda do lado dos pobres e o nazifascismo como elitista e injusto é apenas um truque retórico.

Em segundo lugar, se por um lado podemos citar algumas reformas sociais feitas por regimes de esquerda (como o comunismo) em seus países, por outro lado, também podemos citar algumas reformas sociais feitas por nazistas e fascistas. Foi o fascismo, por exemplo, que criou a Carteira de Trabalho (“Carta de Lavouro”). E o nazismo pagava férias assalariadas. Então, parece haver um padrão comum entre regimes de esquerda e o nazifascismo: não cumpriram o que prometeram no que tange a elitismo, justiça e igualdade social, mas fizeram algumas reformas sociais.

Em terceiro lugar, do ponto de vista teórico, tanto os regimes de esquerda como o nazismo e o fascismo almejavam justiça e igualdade social. O fato de o nazifascismo falar abertamente que o poder deveria estar nas mãos de poucos, enquanto outros regimes de esquerda, como o comunismo, falarem de “povo no poder”, a concepção de poder dos líderes de cada um desses regimes era exatamente a mesma. Eles se achavam representantes do povo e entendiam que para suas reformas serem feitas era inevitável que o poder estivesse centralizado. A diferença do nazifascismo para os demais regimes é que o primeiro não distorcia o entendimento de democracia, mas sim se opunha a ela de modo direto, enquanto os demais idealizavam a existência de uma democracia dentro de um Estado centralizador e totalitário. Ou seja, para o regime comunista, por exemplo, sua ditadura era democrática e o povo estava no poder. Trata-se de uma distorção.

Por fim, é questionável dizer que o conservadorismo é elitista e contrário aos pobres porque se opõe a projetos de plena igualdade social. Afinal, esses projetos nunca alcançaram seus objetivos, como já vimos. Então, não faz sentido dizer que quem se opõe a eles é elitista. Pelo contrário, na visão do conservador, tais projetos não têm capacidade alguma de gerar tal igualdade e, por isso, sempre acabam sendo usados justamente por líderes e governos elitistas (como no comunismo).

Diante dessas observações, concluímos que a posição do nazifascismo sobre temas como elitismo, justiça e igualdade social era bem semelhante a de outros regimes de esquerda (sobretudo o comunismo), tanto na teoria, como na prática; uma posição que poderia ser resumida na crença de que “quando o partido assumir o poder, tudo será diferente”.

Até aqui, tudo o que analisamos indica que os movimentos nazistas e fascistas não eram conservadores, mas sim idealistas e revolucionários. Mas ainda há alguns pontos que precisamos analisar. Um deles é a posição nazifascista favorável à família e a religião. São posições tradicionalmente conservadoras. O que dizer disso? Vamos por partes.

Com relação à defesa da família, devemos entender o contexto dessa defesa. Sabemos que os marxistas da época não eram muito simpáticos à família. Cria-se que a família, tal como a conhecemos, era uma criação burguesa (ou, no mínimo, estava grandemente infectada pelos valores da burguesia). Como a burguesia era uma classe inimiga para os marxistas, então a família acabava recebendo certa oposição.

Entretanto, para nazistas e fascistas, a burguesia não era uma classe inimiga. O nazifascismo acreditava que burguesia e proletariado poderiam laborar juntos, sob a orientação do Estado, na construção da sociedade renovada e no engrandecimento da nação. Bastava o Estado estar na equação, interferindo em conflitos e explorando o que de melhor havia das duas classes. Deste modo, lutar contra a família não fazia muito sentido. Era desnecessário. Como também a defesa da família em duas nações que eram cristãs (Itália e Alemanha) era uma ótima propaganda contra comunistas, a posição foi enfatizada. Isso parece ser muito mais uma expressão de estratégia do que uma defesa conservadora da família.

O mesmo pode se dizer com relação à religião. Como o nazifascismo não via a religião como criação burguesa e nem a burguesia como um inimigo a ser destruído, mas como um servo do Estado, lutar contra a religião era desnecessário. Mais que isso, lutar contra a religião era contraproducente, já que os religiosos eram maioria. Aliás, a defesa da religião era ainda mais pragmática do que a defesa da família. Tanto que era plano dos regimes instituir uma religião estatal, uma estatolatria, que elevasse o Estado, o regime e o líder do regime à posições divinas. Hitler, por exemplo, chegou a ordenar que as músicas natalinas na Alemanha passassem a exaltar o regime e ele. A idéia era claramente infectar a religião tradicional com as ideologias do governo até ao ponto de desfigurá-la totalmente, transformando-se em uma religião política. Certamente isso não é uma expressão de conservadorismo político, mas nos lembra muito, sem dúvida, a posição dos revolucionários franceses, que almejavam criar uma religião secular na França e colocá-la no lugar do cristianismo.

Há um último questionamento. A visão de economia do nazifascismo expressava conservadorismo e ideais de direita? Marxistas geralmente dizem que sim porque os regimes nazifascistas não queriam destruir o capitalismo e a burguesia. Como podemos ver, a pressuposição aqui é que para ser de esquerda é necessário querer destruir a burguesia e o capitalismo. Evidentemente isso está longe de ser verdade. Nem toda a doutrina de esquerda é comunista. Na verdade, a maioria dos regimes de esquerda não pretendeu destruir o capitalismo, mas controlá-lo através do Estado, a fim de “fazer justiça social”. Isso é fato, sobretudo hoje, no contexto pós-comunismo soviético.

Muito embora as esquerdas preservem, em geral, um espírito anticapitalista, isso não implica em querer destruí-lo. Quando se tem um inimigo, pode-se optar por dois modos diferentes de combate: ou (1) matá-lo, ou (2) torná-lo um escravo. Um regime anticapitalista não precisa optar pela primeira opção, como fez o comunismo. A segunda opção é perfeitamente viável, pois o Estado estará no controle de seu inimigo e poderá extrair dele benefícios. Assim, para um regime ser de esquerda e até revolucionário, não é preciso ser comunista, querendo destruir a burguesia e o capitalismo. Basta querer escravizar a economia capitalista.

Ora, como o leitor já deve saber, tornar o sistema capitalista um escravo do Estado significa criar um governo extremamente intervencionista. Ou seja, por mais que a burguesia não seja destruída e a propriedade privada continue existindo, tudo está sob um forte controle do Estado, que pode guiar todos os setores da forma como melhor julgar, de acordo com seus propósitos de mundo melhor. Esse tipo de visão econômica, que era a base dos regimes nazifascistas, de forma alguma faz parte do conservadorismo político. Embora certamente nem todo o conservador seja defensor do laissez-faire e totalmente contrário ao intervencionismo, o extremo intervencionismo econômico, sobretudo aquele que é abertamente orientado para um projeto de remodelação da sociedade, é uma característica de movimentos de esquerda.

A leitura de “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, é imprescindível para entendermos os motivos pelos quais um genuíno conservador político rechaça essa visão econômica de que o capitalismo deve ser escravo do Estado. Com propriedade, o economista liberal mostra como que esse intervencionismo leva, invariavelmente, à perda de liberdades individuais e a regimes totalitários. Ora, isso é básico para qualquer conservador político moderno. Além do mais, o conservador (e o direitista, em geral) não acredita nessa idéia de que o governo vai conseguir criar um paraíso através de uma forte intervenção. Isso é idéia de progressista. Por isso, as economias nazistas e fascistas não podem ser consideradas expressões de conservadorismo e da direita em hipótese nenhuma. São economias progressistas e idealistas. São expressões da esquerda.

Considerações Finais

Não há como fazer uma análise completa dos movimentos nazistas e fascistas em uma dúzia de páginas. Contudo, os pontos básicos que vimos neste texto nos são mais que suficientes para compreender que estes movimentos estavam bem distantes do conservadorismo político moderno e da direita. Talvez, em uma análise mais extensa, possam ser encontrados alguns poucos elementos tradicionalmente da direita nesses movimentos. Mas certamente não são muitos, tampouco justificam que o nazifascismo seja posto, no espectro político, ao lado de governos conservadores como o de Margaret Thatcher e o de Ronald Reagan, e, no campo das idéias, ao lado de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Böhm-Bawerk, Alexis de Tocqueville, Edmund Burke, David Hume e Adam Smith.

A verdade é que os fatores determinantes para que a história aceitasse a idéia de nazifascismo como um movimento conservador e direitista foram: (1) o conflito interno esquerdista entre o nazifascismo e o comunismo, que criava uma falsa aparência de polarização “esquerda x direita”; (2) a hegemonia dos ideais comunistas dentro da esquerda, que acabou ofuscando por um bom tempo todos os movimentos da esquerda que não eram comunistas e tornando esquerdismo sinônimo de comunismo; (3) o fato de que a URSS ganhou a segunda guerra mundial contra o nazifascismo, abrindo assim o caminho para demonizar os movimentos derrotados, associá-los ao capitalismo e exaltar o comunismo como o regime que venceu os “capitalistas nazifascistas” (aqui, mais uma vez, a polarização cria uma falsa aparência de “esquerda x direita”).

A influência desses fatores na historiografia é tão clara que qualquer livro ou site que critica a idéia de que o nazifascismo era de esquerda, apela para o “argumento” de que o nazifascismo não defendia a destruição da burguesia e do capitalismo, como se ser de esquerda se limitasse a ser comunista (hegemonia). Em outras palavras, a maioria dos historiadores interpreta a história do ponto de vista da propaganda comunista. Não obstante, do ponto de vista do que realmente é conservadorismo e direita, colocar o nazifascismo como um movimento conservador político e de direita é negligenciar toda uma literatura conservadora de mais de duzentos anos e ignorar toda influência dos ideais revolucionários sobre o nazifascismo. Ora, se isso é considerado correto do ponto de vista historiográfico, não sei mais o que é bom senso e honestidade intelectual.

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Sugestões de Leitura

Livros

  1. Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França.
  2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão.
  3. Kirk, Russell. The Conservative Mind: From Burke to Santayana.
  4. Pereira, João Coutinho; Pondé, Felipe Luiz; Rosenfield, Denis. Por que virei à direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo
  5. Tocqueville, Alexis de. O antigo Regime e a Revolução.
  6. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América.
  7. Goldbert, Jonah. Fascismo de Esquerda.
  8. Mises, Ludwig. As Seis Lições.
  9. Voegelin, Eric. As Religiões Políticas.
  10. Johnson, Paul. Tempos Modernos.
  11. Gray, John. Cachorros de Palha.
  12. Gray, John. A Missa Negra.
  13. Overy, Richard. Os Ditadores – A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler.
  14. Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social.
  15. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism.

Artigos

  1. Confusões clássicas sobre direita e esquerda
  2. Que é fascismo?
  3. A Mentalidade Revolucionária
  4. Ainda a Mentalidade Revolucionária
  5. Lindeza de Estupidez
  6. A tentação Totalitária
  7. Do mito ao fetiche
  8. Um texto fundamental de Pondé para facilitar a compreensão da essência deste blog: “Do mito ao fetiche”
  9. Quando o fascismo era de esquerda
  10. Tudo o que você deveria saber sobre o fascismo, mas não quer
  11. O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de direita?
  12. Será o nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior
  13. O sucesso como a maior das semelhanças entre o nazismo e o comunismo do século XX
  14. Como a dinâmica social resolve o problema da rotulagem equivocada de nazismo e fascismo como regimes de direita
  15. Entra em cena o ceticismo plítico para resolver de vez o problema da falsa rotulagem de nazismo e fascismo como regimes de direita
  16. Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?
  17. Socialismo no Terceiro Reich
  18. As raízes socialistas de Benito Mussolini
  19. As raízes do Estado intervencionista moderno
  20. Nazismo e suas raízes marxistas

OS COMUNISTAS VENCEDORES NÃO ESTÃO FELIZES, PARECE QUE NÃO GOSTARAM DO BEBÊ DE ROSIMARY!

Fico honrado em publicar o artigo de um nobre professor e amigo que honra a profissão e nos faz ter esperança no futuro do país:

Itamar Flávio da Silveira*

Em conversas com alguns amigos socialistas (eles preferem ser chamados de socialista democráticos, do que de comunistas) noto que eles não se sentem vencedores e nem se sentem felizes. Trata-se de um fato, no mínimo, curioso. Ora, venceram todas as trincheiras, como dizia Gramsci, e não conseguem comemorar.
Se analisarmos com cuidado, observando a pauta do marxismo cultural e leninista, vamos perceber que já está tudo dominado e que eles hoje são vencedores incontestáveis.

Vejamos: dominam toda a imprensa brasileira; escrevem todos dos livros didáticos utilizados nas escolas públicas e particulares; dão o norte político de quase toda a produção nacional de filmes; tem hegemonia na produção televisa brasileira, escapando apenas alguns programas de humor, afinal eles também precisam rir de suas próprias patifarias; dominam todas as revistas científicas das áreas das ciências humanas; controlam todos os sindicatos e as centrais sindicais; impuseram a nova língua do politicamente correto a todos os segmentos da sociedade; compraram algumas dezenas de milhões de pobres com a Bolsa Família; compraram outro número astronômico de jovens com o PROUNI (Programa Universidade para Todos), com o Ciência Sem Fronteiras; apossaram de outros milhões com o programa subsidiado do Minha Casa Minha Vida; compraram os empresários com a bolsa BNDES; ditam todas as regras da educação nacional, inclusive impondo a antecipação para 4 anos de idade o início obrigatório da criança no ensino regular; governam o país há 11 anos no plano federal; controlam o Congresso Nacional, com seus próprios parlamentares e com a compra dos adversários através dos repasses de propinas (mensalões) e da liberação de verbas de emendas ao orçamento; impuseram ao país a agenda da engenharia global; esgarçaram por completo os valores ocidentais judaico-cristãos; convenceram todos os formadores de opinião da agenda mentirosa anticapitalista do IPCC, sobre o aquecimento global; deram todo poder aos delinquentes ao impossibilitar a punição da quase totalidades dos criminosos; transformaram o Ministério Público num trincheira de luta contra o capitalismo; aparelharam o Poder Judiciário, dando aos juízes o poder de legislar em favor das causas “sociais justas” ao invés de se limitar ao cumprimento da lei, para apressar a execução da agenda gramsciniana; estabeleceram normas para que a marginalidade possa crescer, florescer e se multiplicar e aterrorizar as pessoas de bem.
A escalada da luta anticapitalista continua crescendo mas, mesmo assim, eles não estão felizes. Por que será que os socialistas continuam com suas caras amargas? Será que são vitoriosos e não sabem? Apesar do sucesso acachapante, tem um detalhe muito chato: eles estão piorando a sociedade, eles tomaram como parceiros os piores membros da sociedade, têm como companheiros de jornadas as pessoas mais vis, mais inescrupulosas e mais violentas que, são capazes de tudo.

Eles se confundem com seus aliados porque eles são igualmente perversos. Eles sabiam disto tudo, mas aboletados pela adrenalina de poder atropelar o pensamento conservador muitos não calcularam que a sociedade revolucionária é bem mais entediante e brutal do que imaginavam.

Não é possível ir ao inferno apenas para dar uma voltinha, é preciso sentar no colo do capeta. Talvez seja por causa disto que eles não manifestam felicidade. Nasceu o esperado filho, mas a mamãe não consegue se empolgar, não consegue regozijar com o rebento. Nasceu o Bebê de Rosimary, lapidado pelos adorados intelectuais Hebert Marcuse, Jean-Paul Sartre, Antonio Gramsci, Georg Lukács, George Bernad Shaw, Sidney e Beatrice Webb e idealizado por Marx, Engels, Lênin, Trótski etc.

*Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (UEM).