O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

Texto de Davi Caldas (colaborador do “Direitas Já!”), também publicado em seu blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.
Ronald Reagan, presidente dos EUA entre os anos de 1981 e 1989. Um dos maiores expoentes do conservadorismo politico moderno.

Normalmente livros e professores de história nos dizem que nazistas e fascistas eram conservadores e, portanto, de direita. E ai do aluno que tentar dizer algo contra esta concepção! Será taxado de revisionista, falsificador da história e etc. Mas será que é isso mesmo? Será que os dois movimentos realmente foram conservadores e isso é tão evidente que não pode ser questionado? Para responder a essa pergunta é necessário primeiro saber o que é conservadorismo.

1) Definindo Conservadorismo

Não existe um só conservadorismo. Esse é o primeiro fato que devemos ter em mente. Podemos falar em pelo menos três tipos de conservadorismos diferentes um do outro: o conservadorismo político, o conservadorismo moral e o conservadorismo religioso. Vamos observar cada um deles.

1.1) Conservadorismo Político

O primeiro tipo de conservadorismo diz respeito apenas à política. Ele se define por ser uma posição cética a mudanças abruptas e irrefletidas na sociedade, bem como a projetos que intencionam uma completa remodelação na estrutura social tradicional à qual estamos acostumados. Por quê? Existem três motivos básicos. O primeiro é a experiência. Para o conservador, o passado tem muito a nos ensinar, pois é por meio da observação do que já passou que podemos saber o que provavelmente dá certo e o que provavelmente dá errado em termos de vida social. Também é por meio da observação do que já passou que podemos entender como as coisas costumam a ser. Por exemplo, o conservador sabe que o ser humano, no geral, não costuma a ser confiável. Ele sabe disso porque tem sido assim há milênios e continua sendo assim hoje.

O conservador também sabe que existe um senso moral básico na humanidade porque, da mesma maneira, tem sido assim há milênios e continua ser. Não importa se ele vai acreditar que tal senso moral provém de Deus, ou existe por si só, ou é fruto da evolução; o fato é que a experiência mostra que este senso existe. E por aí vai.

O segundo motivo seria o medo dos excessos. O conservador entende que mudanças abruptas e irrefletidas podem gerar excessos sociais e políticos, tais como vandalismos, conflitos freqüentes, desordens urbanas, desrespeito às autoridades, desrespeito às leis, excesso de poder, autoritarismo e genocídios (excessos que podem ser cometidos tanto pelos governantes, quanto pela população). Por mudanças abruptas podemos entender modificações profundas feitas sem um processo de transição. Por mudanças irrefletidas podemos entender modificações que não se baseiam no que o passado nos ensinou, mas tão-somente em especulações e idealismos.

Por fim, o terceiro motivo são os pilares sociais. Para o conservador, a sociedade foi sendo erigida sobre certos pilares. Esses pilares, evidentemente, não podem ser destruídos, do contrário a sociedade entra em colapso. Podemos citar como pilares sociais a moral geral, o direito a vida, o Estado, as leis, a subordinação do ser humano às leis, a hierarquia, as forças armadas, o direito à propriedade privada, a cultura local, as crenças religiosas, a família e etc.

O conservador entende que esses fatores desempenham papel fundamental no funcionamento da sociedade tal como conhecemos. Por esse motivo são considerados pilares. Sua destruição não nos dá qualquer garantia de que poderemos ter uma sociedade melhor (ou mesmo que poderemos ter uma sociedade). Na realidade, o conhecimento experiencial de que o ser humano não perfeito (tampouco perfectível), parece indicar que tais fatores protegem os homens uns dos outros, de modo que, se forem atacados, farão levarão a espécie humana ao completo estado de caos.

É por causa desses três motivos básicos que o conservador político se opõe a políticas de viés revolucionário, socialista, progressista ou qualquer outro que apresente uma postura idealista. Elas são consideradas políticas mirabolantes e perigosas, porque idealizam um paraíso na terra (ou algo próximo a isso) e sustentam que o homem é capaz de alcançar este paraíso através da destruição e recriação da sociedade, fazendo uso do Estado como ferramenta para tal.

Em prol da reconstrução da sociedade, o governo idealista torna-se destruidor da experiência humana, dos pilares da sociedade e dos valores humanos mais básicos, passando por cima do que aprendemos com as gerações anteriores e o passado. Torna-se também coletivista e classista, obrigando o indivíduo a subordinar toda a sua vida a construção dessa sociedade ideal e criando uma série de inimigos que precisam ser destruídos (burgueses, religiosos, conservadores, judeus, negros, estrangeiros…), a fim de que a nova sociedade possa se consolidar. Neste ponto, o Estado se transforma em um Deus que controla o destino de todos os indivíduos.

Os revolucionários anti-religiosos da Revolução Francesa e os revolucionários maoístas chineses da metade do século XX são bons exemplos de idealistas que enchem os conservadores de horror. Em ambos os casos, tais revolucionários pretendiam moldar uma nova sociedade, destruindo o que conhecemos e impondo um novo sistema de crenças unificado. O resultado foi desastroso e só confirmou a importância, para os conservadores, de se conservar a sociedade que conhecemos.

É preciso enfatizar que o próprio conservadorismo político pode ser dividido em dois subtipos: o conservadorismo absolutista e o conservadorismo pós-absolutista (que podemos chamar de conservadorismo moderno). Em essência não há diferença entre eles. Ambos se tratam de uma posição cuidadosa em relação a mudanças sociais, que procura conservar o que julga ser mais garantido do ponto de vista da experiência. No entanto, o conservadorismo absolutista acreditava que o regime que melhor servia para os seus propósitos conservadores era a monarquia absolutista. O conservadorismo moderno quebrou com essa concepção.

Em princípio, a posição absolutista não apresentava argumentos muito fortes a seu favor. O poder absoluto do rei era justificado com base em uma suposta vontade divina de que as coisas fossem daquela forma. Com a chegada do iluminismo, alguns pensadores absolutistas foram desenvolvendo argumentos mais fortes. Thomas Hobbes, por exemplo, em sua obra Leviatã, entendia que o absolutismo tornava o Estado mais forte no que tange à manutenção da ordem e, consequentemente, da paz. Como para ele a única função do Estado era garantir minimamente o direito do cidadão à vida, então se fazia necessário a mão forte de um rei absoluto.

Curiosamente, os argumentos que Hobbes oferece ao longo de sua obra para defender a necessidade de um rei absoluto levam em conta um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano, o que, certamente pode ser utilizado contra o próprio absolutismo. De fato, muitos autores iluministas que foram surgindo durante esta época fizeram exatamente isso: sustentaram que o poder deveria ser limitado para se evitar o despotismo.

É exatamente aí que surgem os conservadores modernos. Sem deixarem de ser conservadores, eles percebem, com base na experiência, que a monarquia absolutista levava ao abuso de poder. Percebem também que, embora o absolutismo já durasse muitas gerações, ele não se tratava do único regime que já existira, tendo existido outros que funcionaram de melhor maneira. Isso tornava a decisão de romper com este regime, um tanto refletida e, portanto, de acordo com o princípio conservador.

Essa ampla e prudente reflexão dos conservadores modernos sobre os perigos de se concentrar muito poder nas mãos de governantes criou um forte ceticismo em relação a Estados intervencionistas, centralizados e com muitas funções. Reconhecia-se que um Estado assim levaria facilmente ao abuso de poder. Deste modo, a defesa de um Estado mínimo e descentralizado logo se tornou uma das principais marcas do conservadorismo político moderno. Quando, por exemplo, a constituição americana foi formulada, grande cuidado houve para que o Estado não tivesse possibilidades de se tornar despótico.

É importante ressaltar que houve um choque entre esses dois subtipos de conservadorismo e que, inevitavelmente, os conservadores modernos foram taxados de revolucionários pelos conservadores absolutistas. Evidentemente, ambos ficaram em lados opostos na guerra política. É por este motivo que conservadores modernos, que eram partidários do liberalismo econômico, ficaram ao lado de revolucionários radicais e socialistas a princípio.

O posterior declínio do absolutismo inaugurou um novo contexto político, no qual os recém-criados termos políticos, “direita” e “esquerda”, passariam a ser usados para expressar a oposição entre os conservadores modernos (adeptos do liberalismo econômico – o “capitalismo”) e os idealistas revolucionários.

O conservadorismo absolutista não desapareceu de todo. Mesmo com a total destruição do absolutismo como forma de governo, resquícios de seu pensamento foram atravessando as décadas, se misturando a outras ideologias e mantendo viva uma posição que já não podemos nem chamar de conservadora, mas sim retrógrada. E, por assim ser, sequer encontra muita definição no espectro moderno. São reminiscências de outro contexto político, em que nem faria sentido falar em direita e esquerda.

Mas voltando ao conservadorismo pós-absolutista, ou moderno, algumas leituras são indispensáveis para que se tenha um panorama geral desta posição política. Iniciar com Edmund Burke é aconselhável. Em sua obra “Reflexões sobre a Revolução em França”, o político e pensador britânico expõe suas críticas à Revolução Francesa, que baseada em um idealismo cego e destruidor, gerou um banho de sangue. Sua defesa da prudência política é brilhante. Ao mesmo tempo, deixa claro o seu incondicional apoio ao sistema parlamentarista de governo, em lugar do despotismo monárquico. Em Burke achamos o equilíbrio entre liberdade política e ordem social que faltou à França.

Partindo de Burke, as considerações do francês Alexis de Tocqueville também são imprescindíveis, seguindo Smith, Jefferson, Lincoln e Hume, e avançando para Böhm-Bawerk, Voegelin, Ruy Barbosa, Churchill, Mises, Hayek, Kirk, F. F. Bunckley, Olavo de Carvalho, Reagan e Thatcher. Todos estes foram expoentes do moderno conservadorismo político. A leitura deles nos oferece um padrão de pensamento contínuo que é seguido desde a fase de declínio do absolutismo até os dias de hoje. Não houve grandes mudanças no interior do conservadorismo moderno de lá para cá.

1.2) Conservadorismo Moral

O segundo tipo de conservadorismo é o moral. Este é totalmente distinto do político. Embora muitos conservadores políticos sejam também conservadores morais, não é necessário ser ambos. O conservadorismo moral diz respeito à conservação da moral judaico-cristã. O adepto desta posição não apenas acredita em um conjunto de valores morais gerais, como o conservador político, mas também crê em um conjunto de valores morais mais específicos, que se encontram dentro da tradição judaico-cristã.

Desta forma, conservador moral vai condenar o aborto, a eutanásia, a venda e o consumo de drogas, a livre venda de órgãos, o consumo excessivo de álcool (ou até mesmo o consumo de álcool), o fumo, o jogo de azar, o divórcio, o homossexualismo, o casamento gay, a adoção de crianças por casais homossexuais, a bigamia, a poligamia, o poliamor, a pedofilia, a bestialidade, a pornografia, os palavrões, os filmes, desenhos e jogos violentos, o topless, o nudismo, a promiscuidade, a boemia e etc.

Como afirmei e o leitor pode constatar, há valores mais gerais, que são cridos pela grande maioria das pessoas, e valores mais específicos. Assim, é perfeitamente possível concordar com muitas posições do conservadorismo moral e ainda assim não ser um conservador moral.

Aqui, mais uma vez, podemos e devemos dividir o conservadorismo moral em dois subtipos (pelo menos): o moral passivo e o moral ativo. O passivo seria aquele em que o conservador apenas tem uma opinião moral conservadora, mas não acha que a maioria dos valores em que acredita deve se tornar lei. Eu, por exemplo, sou um cristão conservador moral e acredito que fumar e beber são hábitos moralmente degradáveis, contudo, não defendo a proibição da venda de álcool e cigarros. Cada um que escolha o que acha melhor para si (desde que não afete diretamente a liberdade do outro).

Já o conservadorismo moral ativo seria aquele em que o conservador acredita que a maioria dos valores morais que sustenta precisa estar na lei. Não obstante, outras subdivisões ainda podem ser feitas, já que um conservador poderia ser extremamente ativo ou extremamente passivo ou mesmo moderado. Eu acredito que a maioria dos cristãos seja composta por conservadores morais moderados.

Distinguir o conservadorismo político do conservadorismo moral é de suma importância para estabelecer a posição política de uma pessoa. Porque as aquelas posições morais que são mais específicas e individuais pouco importam para definir uma pessoa no espectro (ao contrário das posições mais gerais, como a do aborto, por exemplo, que lida com a questão do direito a vida).

1.3) Conservadorismo Religioso

Por fim, há o conservadorismo religioso. Este é o que menos tem a ver com política. Ele se refere tão somente à defesa da religião tradicional tal como ela é, sem abrir concessões a sincretismos e secularismos. O conservador religioso deseja apenas que sua religião seja respeitada e, dentro dela, procura incentivar que seus adeptos a sigam sem distorções.

Normalmente a esquerda associa este último conservador ao conservadorismo político e à direita, dizendo que conservadores religiosos pretendem impor sua religião a toda a sociedade. Há três mentiras aqui. Em primeiro lugar, não é necessário ser um conservador religioso para ser um conservador político e um direitista. E o oposto é verdadeiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em segundo lugar, ser um conservador religioso não é ser um fanático. É simplesmente não querer ver sua religião mutilada por outras crenças. Finalmente, a imposição religiosa, sobretudo, através do Estado, não é algo que agrada ao conservador político moderno. Afinal, o conservador morre de medo de um Estado que se intrometa na vida individual. E um governo que tivesse o direito de impor uma religião, poderia impor qualquer outra coisa, destruindo assim o individualismo.

2) O que importa para a política

Uma vez entendido que existem tipos de conservadorismo diferentes e que eles não devem ser mesclados em uma coisa só, devemos agora separar o que realmente é importante para a política e o que não é. A resposta me parece ser bem óbvia. Se nós queremos saber a posição política de uma pessoa, o que realmente importa é o seu conservadorismo político. Podemos citar alguns exemplos.

O filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé é conhecido por suas posições abertamente direita. Ele se define politicamente como um “liberal conservate” e explica o termo: “Conservador na política e liberal em todo o resto”. Fato incontestável. Pondé é um extremo pessimista antropológico, antimarxista, antissocialista, antiprogressista, admirador de Burke, capitalista, opositor a idealismos de “mundo melhor”, defensor da meritocracia e do livre mercado, opositor do assistencialismo e respeitador da religião tradicional. Sem dúvida, um conservador político.

Não obstante, Pondé não tem nenhuma religião, não acha errado a prática homossexual (tampouco o casamento legal e a adoção de filhos), nem o divórcio, o sexo antes do casamento e etc. Embora apresente um profundo respeito pelas religiões e pela moral judaico-cristã, ele não acredita em grande parte de seus dogmas, tampouco os defende como políticas públicas. Assim, Pondé é um conservador político, mas não um conservador moral ou religioso.

Não foi o caso do Woodrow Wilson, presidente dos EUA entre os anos de 1912 e 1920. Wilson, embora fosse um cristão tradicional e um conservador moral, também era um progressista político. Ele entendia que o Estado deveria ser mais presente, mais forte e mais centralizador, pois aperfeiçoaria a política e tornaria o Estado muito mais útil aos interesses gerais. Durante sua presidência, tomou muitas medidas autoritárias, desfigurando aos poucos a idéia de um Estado pequeno e descentralizado, e criando no Partido Democrata uma linha mais intervencionista, que depois seria retomada por Franklin Roosevelt, tornando-se marca registrada dos democratas americanos.

Talvez o leitor discorde dessa visão de conservadorismo, alegando que a moral é parte importante do conservadorismo político e que, por isso, o mesmo é indissociável do conservadorismo moral. De fato, a moral é parte importante do conservadorismo político, mas apenas a moral geral. O fato, por exemplo, de um conservador defender o casamento gay não implica o abandono de valores atemporais básicos como o direito a vida e o individualismo, tampouco implica o menosprezo da experiência passada e dos pilares da sociedade. A essência do conservadorismo político permanece de pé.

É válido ressaltar que alguns conservadores políticos defendem determinadas posições do conservadorismo moral, nem tanto pela moral, mas porque acreditam que tais posições, se não defendidas, podem destruir a sociedade. Por exemplo, Olavo de Carvalho é contrário a legalização do casamento gay porque isso abriria precedente para os mais diversos tipos de uniões civis, desde casamentos poliafetivos, até casamentos entre pessoas e animais. E isso, segundo ele, certamente causaria um caos jurídico e social. Deste modo, a preocupação de Olavo de Carvalho se encontra dentro do campo do conservadorismo político. Ele teme a desestruturação da sociedade.

No entanto, um conservador que não creia na probabilidade desse caos jurídico, não poderia ser chamado de falso conservador só por isso. Ele continua conservador, mas abre concessão à legalização do casamento gay por não ver nesta concessão riscos à ordem social. Se os visse, certamente seria contrário à concessão. É aqui que reside a diferença entre esse conservador e um revolucionário. O revolucionário não está nem aí para os pilares da sociedade ou a sua ordem. Pelo contrário, ele quer destruir tudo, porque acredita com todas as forças que dá para fazer uma nova sociedade e que ela irá funcionar de maneira perfeita, tal como na música “Imagine”, de John Lennon. Não é o caso do conservador político, ainda que ele seja favorável ao casamento gay.

Outra crítica que o leitor poderia levantar é que com tais definições, até mesmo libertários e anarcocapitalistas seriam considerados conservadores. Mas não é bem assim. Libertários e anarcocapitalistas se distinguem de conservadores porque levam a confiança no livre mercado e no ideal de liberdade até as últimas conseqüências, o que acaba implicando a defesa de projetos e reformas muito radicais. Um conservador político, por exemplo, jamais iria defender uma sociedade sem Estado (como defendem os anarcocapitalitas), mesmo que tal sociedade fosse regida pelas leis do mercado. O seu pessimismo em relação a capacidade humana e o seu respeito pela antiguidade do Estado, faz ter desconfiança de tal projeto e achá-lo sem grandes garantias.

Além do mais, o conservador político certamente estaria mais disposto a aceitar alguns pontos do conservadorismo moral (mesmo que não fosse um conservador moral ou religioso) a permitir que em nome do livre mercado, valores sociais importantes fossem destruídos. Por exemplo, um libertário pode defender a livre venda de órgãos e o livre aborto em nome da liberdade, ao passo que, o conservador político pode ser contrário a isso por temer o desenvolvimento de uma banalização da vida individual, sentimento que é base para sistemas coletivistas de governo.

Enfim, o conservador político é basicamente alguém que só toma decisões muito bem refletidas e baseadas na experiência, ao passo que, libertários e anarcocapitalistas tomam decisões baseadas no anseio de uma sociedade totalmente livre. É por isso que pessoas como Mill, Popper e Rothbarth, embora tenham sido expoentes do liberalismo econômico e da direita, dificilmente poderiam ser chamados de conservadores. Havia um pouco de euforia e idealismo que lhes afastava da posição conservadora.

3) A análise dos movimentos Nazifascistas

Agora que sabemos o que é conservadorismo político estamos em boa posição para analisar se os movimentos fascistas e nazistas eram conservadores políticos e, por conseqüência, direitistas. Podemos começar perguntando: como esses movimentos viam a sociedade que conhecemos? Para eles, a sociedade que conhecemos era uma estrutura antropológica complexa, baseada em pilares que passaram pelos testes do tempo e da experiência, devendo assim ser conservada? Ou será que, para eles, a visão nazifascista da sociedade que conhecemos era a de um sistema cultural, político e econômico infectado por fatores externos à natureza geral do ser humano, que poderia e deveria ser totalmente destruída e reformulada?

Certamente, a visão nazifascista de sociedade era a segunda. Nazistas e fascistas não estavam interessados em conservar a sociedade que conhecemos. Havia em sua ideologia um elemento redentor. Eles acreditavam, tal como Rousseau, Robespierre e Marx, que em algum ponto da história humana, o homem corrompeu suas relações com o próximo, criando uma sociedade corrupta. O problema estava na sociedade e não no ser humano. Esta sociedade precisava ser destruída, para dar lugar a outra, reformulada, justa, ideal.

O fascismo italiano propunha como solução a intervenção estatal em todas as áreas da sociedade, a fim de reformulá-la. O Estado seria o redentor. Ele resolveria os conflitos entre patrões e empregados, abraçaria os pobres, dinamizaria a economia e uniria todas as classes sob um só sentimento de irmandade nacional. O nacionalismo deveria servir não apenas de ferramenta para a resolução de diferenças entre classes, mas como o motor para a transformação do próprio mundo. Afinal, se a suposição de que a raça italiana era superior estava certa, então o nacionalismo italiano teria poder para colocar todo o mundo nos eixos.

Sem grandes diferenças, o nacional-socialismo alemão propunha como solução, em primeiro lugar, o extermínio das raças consideradas inferiores, sobretudo, a raça dos judeus (que pretendiam, conforme Hitler, impor seu domínio ao mundo). Este seria o primeiro passo no processo de destruição desta sociedade e sua reformulação. O Estado, evidentemente, seria a ferramenta humana utilizada nesse processo. Destruídas as raças inferiores, o homem ariano, biologicamente superior, estaria livre para consertar todos os problemas sociais causados pelos “desviantes biológicos”, continuando o trabalho iniciado pelo Estado.

Aqui, mais uma vez, o Estado é responsável por resolver os conflitos entre patrões e empregados, abraçar os pobres, dinamizar a economia e unir as classes sob um só sentimento de irmandade nacional (e racial), bem como o de chamar a atenção das classes para um objetivo supremo: a construção de uma nova sociedade (no caso do nazismo, o Terceiro Reich).

A isenção da natureza humana como a única culpada pelo mal, a transformação do Estado em um redentor, o ímpeto de destruir a sociedade que nós conhecemos há milênios e a idealização de uma nova sociedade, justa e perfeita, são marcas típicas de revolucionários, progressistas e socialistas. São marcas típicas da esquerda. Não há nada de conservador nestas visões.

Um segundo questionamento que podemos fazer é sobre a visão que fascistas e nazistas tinham sobre alguns pilares sociais e direitos inalienáveis. De maneira geral, eles pretendiam conservá-los ou não? A história confirma que não. O nazifascismo, para começar, não valorizava o individualismo. O indivíduo deveria servir aos propósitos do Estado, que era o detentor do “bem comum” e do “objetivo supremo”. Ora, se o bem era comum e o objetivo era supremo, então qualquer que quisesse outro bem para si e almejasse outro objetivo em detrimento do supremo, era um inimigo da sociedade. É óbvio também que o nazifascismo não valorizava o direito à vida. Tal “direito” se submetia à vontade do Estado.

Alguns esquerdistas têm sustentado que nazistas e fascistas eram conservadores porque eram contrários à prática homossexual. Mas há vários erros aqui. Em primeiro lugar, ser contrário à prática homossexual é uma posição do conservadorismo moral e não do conservadorismo político. Como já vimos, um conservador político pode ser bem liberal em nesses aspectos morais mais específicos e pessoais.

Em segundo lugar, ser contrário à prática homossexual não é o mesmo que ser hostil ao homossexual ou querer que o Estado o condene por sua prática. Na verdade, é ridículo pensar que um conservador político seria favorável a um Estado que condena pessoas por escolhas tão pessoais como esta. Mesmo que um conservador possa ser particularmente muito preconceituoso contra homossexuais e insensível a ponto de desejar seu extermínio, ele sabe que se der ao Estado poder para punir homossexuais, estará dando ao mesmo Estado poder para se meter na vida de qualquer indivíduo, o que, obviamente, ele não vai querer (a não ser que abandone o conservadorismo).

Em terceiro lugar, sabemos que o nazifascismo fazia dos homossexuais mais uma classe inimiga. Essa visão classista de sociedade, na qual sempre há uma classe boa lutando contra uma ou mais classes ruins, não faz parte da concepção conservadora de mundo. Para o conservador, a sociedade não pode ser vista pela ótica das classes, mas pela ótica dos indivíduos. A noção de indivíduo é tão forte no conservadorismo que muitos esquerdistas chamam o pensamento conservador de “egoísta”.

Um terceiro questionamento que podemos fazer é: o nacionalismo nazifascista é uma característica do conservadorismo político moderno, como costumam alegar os esquerdistas? A resposta é não. O nacionalismo se origina na Revolução Francesa como uma ideologia revolucionária de oposição ao feudalismo e ao domínio cultural da Igreja Católica. Esta ideologia entendia que o sistema de feudos e a extensão da ICAR criavam um grande império cultural que destruía diversas culturas e impediam que as pessoas de um mesmo país mantivessem laços mais próximos e se unissem em prol de interesses em comum.

Em resumo, o nacionalismo surgiu como uma ideologia anti-imperialista, que buscava na “identidade nacional” um novo elo social. Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, o conceito de identidade nacional se constituiu, para os nacionalistas, um “sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade”.

Embora, posteriormente alguns daqueles antigos conservadores absolutistas tenham agregado às suas crenças o sentimento nacionalista (com os devidos reparos), a ideologia não deixou de ser revolucionária. Ela foi agregada pela grande maioria dos revolucionários que lutou pelas independências nacionais e coloniais na América Latina e, mais tarde, incorporou uma nova postura anti-capitalista: o inimigo não era mais o imperialismo cultural católico, sustentado pelo regime feudal, mas sim o imperialismo cultural, político e econômico dos países capitalistas, principalmente, a Inglaterra e os EUA. Em oposição a este imperialismo, tais revolucionários nacionalistas costumam supervalorizar sua cultura, em detrimento de tudo o que vem de fora, e a defenderem uma economia fechada, a fim de proteger a nação das garras do capitalismo global ou de nações vizinhas não confiáveis.

No início do século XX, esta ideologia entrou em um grande confronto com o marxismo ortodoxo, que era internacionalista e, como é comum nas rixas entre revolucionários, cada qual acusava um ao outro de não ser revolucionário. Entretanto, com a crise do marxismo ortodoxo, em vista das dificuldades práticas que essa teoria apresenta, muitos internacionalistas se renderam a um nacionalismo velado. Stálin, por exemplo, defendeu a tese do “socialismo em um país só”. A sua ideia era primeiro aprofundar a experiência socialista na URSS e transformar a nação em uma grande potência global, a fim de fazer frente aos países capitalistas.

No Brasil, durante a ditadura, diversos simpatizantes do marxismo também se mostraram influenciados pelo nacionalismo. Defendiam fortemente a cultura nacional, almejavam uma economia mais fechada para estrangeiros e relacionavam capitalismo, imperialismo americano e direita. Atualmente, países que ainda conservam um regime comunista, como Cuba e Coréia do Norte, são nacionalistas em muitos aspectos.

Enfim, a idéia de que nacionalismo é uma posição conservadora e inerente à direita é, no mínimo, contestável. É certo que formas de nacionalismo podem surgir entre regimes mais alinhados à direita e, de fato, muitos direitistas acabaram por se tornar ardorosos nacionalistas. Contudo, tanto a história quanto a estrutura classista e coletivista do nacionalismo testificam que tal visão tem DNA revolucionário e não conservador. O nacionalismo é um desvio do conservadorismo pleno.

Aliás, devemos nos lembrar que existe uma diferença entre nacionalismo e patriotismo. Historicamente, o segundo tem sido definido como um sentimento de amor e respeito à pátria. Não implica, necessariamente, em menosprezar outras nações, ser xenófobo e enxergar o mundo de modo classista e coletivista. Já o nacionalismo se baseia mais no ódio às outras nações e no conflito do que no amor a pátria. Para um conservador político puro, isso é estranho, visto que odiar classes não faz sentido para quem é individualista. Assim, quanto mais nacionalista um conservador se tornar, mais estará deturpando as idéias básicas do conservadorismo.

Feitas essas observações, no mínimo, devemos reconhecer que o nacionalismo nazifascista não prova que este era um movimento conservador e de direita. Ora, levando ainda em conta as demais idéias revolucionárias do nazifascismo e o modo como o nacionalismo deste movimento estava intimamente ligado aos seus ideais de reconstrução do mundo, torna-se inevitável concluir que seu nacionalismo não era fruto de algum tipo patriotismo conservador extremado, mas fruto da mentalidade idealista e revolucionária.

Aqui há algo notável e que devemos ter sempre em mente. A esquerda, por se basear em idealismo e revolução, acaba gerando uma miríade de projetos diferentes de remodelação da sociedade. É por esse motivo muitas vezes um movimento de esquerda pode ser frontalmente contrário ao outro, criando a ilusão de que um representa a direita e outro, a esquerda, quando, na realidade, temos apenas uma cisão entre revolucionários com projetos diferentes. Este parece ser o caso de nazismo, fascismo e comunismo.

Um quarto questionamento que podemos fazer é quanto a temas como elitismo, justiça social, igualdade econômica e classes pobres. O nazifascismo é freqüentemente associado ao conservadorismo e a direita por ser elitista e contrário a justiça e igualdade social, em oposição aos regimes de esquerda, como o comunismo, que seriam a favor do direito dos pobres e etc. Há muito que se dizer aqui. Em primeiro lugar, do ponto de vista da prática, nenhum governo de esquerda cumpriu o que prometeu em relação à justiça e igualdade social e ao fim do elitismo. Sobretudo os regimes comunistas, que criaram uma classe de burocratas com poder absoluto, generalizaram a pobreza, causaram fome, mataram inocentes, pisaram na democracia, proibiram greves de operários e etc. Então, colocar os regimes de esquerda do lado dos pobres e o nazifascismo como elitista e injusto é apenas um truque retórico.

Em segundo lugar, se por um lado podemos citar algumas reformas sociais feitas por regimes de esquerda (como o comunismo) em seus países, por outro lado, também podemos citar algumas reformas sociais feitas por nazistas e fascistas. Foi o fascismo, por exemplo, que criou a Carteira de Trabalho (“Carta de Lavouro”). E o nazismo pagava férias assalariadas. Então, parece haver um padrão comum entre regimes de esquerda e o nazifascismo: não cumpriram o que prometeram no que tange a elitismo, justiça e igualdade social, mas fizeram algumas reformas sociais.

Em terceiro lugar, do ponto de vista teórico, tanto os regimes de esquerda como o nazismo e o fascismo almejavam justiça e igualdade social. O fato de o nazifascismo falar abertamente que o poder deveria estar nas mãos de poucos, enquanto outros regimes de esquerda, como o comunismo, falarem de “povo no poder”, a concepção de poder dos líderes de cada um desses regimes era exatamente a mesma. Eles se achavam representantes do povo e entendiam que para suas reformas serem feitas era inevitável que o poder estivesse centralizado. A diferença do nazifascismo para os demais regimes é que o primeiro não distorcia o entendimento de democracia, mas sim se opunha a ela de modo direto, enquanto os demais idealizavam a existência de uma democracia dentro de um Estado centralizador e totalitário. Ou seja, para o regime comunista, por exemplo, sua ditadura era democrática e o povo estava no poder. Trata-se de uma distorção.

Por fim, é questionável dizer que o conservadorismo é elitista e contrário aos pobres porque se opõe a projetos de plena igualdade social. Afinal, esses projetos nunca alcançaram seus objetivos, como já vimos. Então, não faz sentido dizer que quem se opõe a eles é elitista. Pelo contrário, na visão do conservador, tais projetos não têm capacidade alguma de gerar tal igualdade e, por isso, sempre acabam sendo usados justamente por líderes e governos elitistas (como no comunismo).

Diante dessas observações, concluímos que a posição do nazifascismo sobre temas como elitismo, justiça e igualdade social era bem semelhante a de outros regimes de esquerda (sobretudo o comunismo), tanto na teoria, como na prática; uma posição que poderia ser resumida na crença de que “quando o partido assumir o poder, tudo será diferente”.

Até aqui, tudo o que analisamos indica que os movimentos nazistas e fascistas não eram conservadores, mas sim idealistas e revolucionários. Mas ainda há alguns pontos que precisamos analisar. Um deles é a posição nazifascista favorável à família e a religião. São posições tradicionalmente conservadoras. O que dizer disso? Vamos por partes.

Com relação à defesa da família, devemos entender o contexto dessa defesa. Sabemos que os marxistas da época não eram muito simpáticos à família. Cria-se que a família, tal como a conhecemos, era uma criação burguesa (ou, no mínimo, estava grandemente infectada pelos valores da burguesia). Como a burguesia era uma classe inimiga para os marxistas, então a família acabava recebendo certa oposição.

Entretanto, para nazistas e fascistas, a burguesia não era uma classe inimiga. O nazifascismo acreditava que burguesia e proletariado poderiam laborar juntos, sob a orientação do Estado, na construção da sociedade renovada e no engrandecimento da nação. Bastava o Estado estar na equação, interferindo em conflitos e explorando o que de melhor havia das duas classes. Deste modo, lutar contra a família não fazia muito sentido. Era desnecessário. Como também a defesa da família em duas nações que eram cristãs (Itália e Alemanha) era uma ótima propaganda contra comunistas, a posição foi enfatizada. Isso parece ser muito mais uma expressão de estratégia do que uma defesa conservadora da família.

O mesmo pode se dizer com relação à religião. Como o nazifascismo não via a religião como criação burguesa e nem a burguesia como um inimigo a ser destruído, mas como um servo do Estado, lutar contra a religião era desnecessário. Mais que isso, lutar contra a religião era contraproducente, já que os religiosos eram maioria. Aliás, a defesa da religião era ainda mais pragmática do que a defesa da família. Tanto que era plano dos regimes instituir uma religião estatal, uma estatolatria, que elevasse o Estado, o regime e o líder do regime à posições divinas. Hitler, por exemplo, chegou a ordenar que as músicas natalinas na Alemanha passassem a exaltar o regime e ele. A idéia era claramente infectar a religião tradicional com as ideologias do governo até ao ponto de desfigurá-la totalmente, transformando-se em uma religião política. Certamente isso não é uma expressão de conservadorismo político, mas nos lembra muito, sem dúvida, a posição dos revolucionários franceses, que almejavam criar uma religião secular na França e colocá-la no lugar do cristianismo.

Há um último questionamento. A visão de economia do nazifascismo expressava conservadorismo e ideais de direita? Marxistas geralmente dizem que sim porque os regimes nazifascistas não queriam destruir o capitalismo e a burguesia. Como podemos ver, a pressuposição aqui é que para ser de esquerda é necessário querer destruir a burguesia e o capitalismo. Evidentemente isso está longe de ser verdade. Nem toda a doutrina de esquerda é comunista. Na verdade, a maioria dos regimes de esquerda não pretendeu destruir o capitalismo, mas controlá-lo através do Estado, a fim de “fazer justiça social”. Isso é fato, sobretudo hoje, no contexto pós-comunismo soviético.

Muito embora as esquerdas preservem, em geral, um espírito anticapitalista, isso não implica em querer destruí-lo. Quando se tem um inimigo, pode-se optar por dois modos diferentes de combate: ou (1) matá-lo, ou (2) torná-lo um escravo. Um regime anticapitalista não precisa optar pela primeira opção, como fez o comunismo. A segunda opção é perfeitamente viável, pois o Estado estará no controle de seu inimigo e poderá extrair dele benefícios. Assim, para um regime ser de esquerda e até revolucionário, não é preciso ser comunista, querendo destruir a burguesia e o capitalismo. Basta querer escravizar a economia capitalista.

Ora, como o leitor já deve saber, tornar o sistema capitalista um escravo do Estado significa criar um governo extremamente intervencionista. Ou seja, por mais que a burguesia não seja destruída e a propriedade privada continue existindo, tudo está sob um forte controle do Estado, que pode guiar todos os setores da forma como melhor julgar, de acordo com seus propósitos de mundo melhor. Esse tipo de visão econômica, que era a base dos regimes nazifascistas, de forma alguma faz parte do conservadorismo político. Embora certamente nem todo o conservador seja defensor do laissez-faire e totalmente contrário ao intervencionismo, o extremo intervencionismo econômico, sobretudo aquele que é abertamente orientado para um projeto de remodelação da sociedade, é uma característica de movimentos de esquerda.

A leitura de “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, é imprescindível para entendermos os motivos pelos quais um genuíno conservador político rechaça essa visão econômica de que o capitalismo deve ser escravo do Estado. Com propriedade, o economista liberal mostra como que esse intervencionismo leva, invariavelmente, à perda de liberdades individuais e a regimes totalitários. Ora, isso é básico para qualquer conservador político moderno. Além do mais, o conservador (e o direitista, em geral) não acredita nessa idéia de que o governo vai conseguir criar um paraíso através de uma forte intervenção. Isso é idéia de progressista. Por isso, as economias nazistas e fascistas não podem ser consideradas expressões de conservadorismo e da direita em hipótese nenhuma. São economias progressistas e idealistas. São expressões da esquerda.

Considerações Finais

Não há como fazer uma análise completa dos movimentos nazistas e fascistas em uma dúzia de páginas. Contudo, os pontos básicos que vimos neste texto nos são mais que suficientes para compreender que estes movimentos estavam bem distantes do conservadorismo político moderno e da direita. Talvez, em uma análise mais extensa, possam ser encontrados alguns poucos elementos tradicionalmente da direita nesses movimentos. Mas certamente não são muitos, tampouco justificam que o nazifascismo seja posto, no espectro político, ao lado de governos conservadores como o de Margaret Thatcher e o de Ronald Reagan, e, no campo das idéias, ao lado de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Böhm-Bawerk, Alexis de Tocqueville, Edmund Burke, David Hume e Adam Smith.

A verdade é que os fatores determinantes para que a história aceitasse a idéia de nazifascismo como um movimento conservador e direitista foram: (1) o conflito interno esquerdista entre o nazifascismo e o comunismo, que criava uma falsa aparência de polarização “esquerda x direita”; (2) a hegemonia dos ideais comunistas dentro da esquerda, que acabou ofuscando por um bom tempo todos os movimentos da esquerda que não eram comunistas e tornando esquerdismo sinônimo de comunismo; (3) o fato de que a URSS ganhou a segunda guerra mundial contra o nazifascismo, abrindo assim o caminho para demonizar os movimentos derrotados, associá-los ao capitalismo e exaltar o comunismo como o regime que venceu os “capitalistas nazifascistas” (aqui, mais uma vez, a polarização cria uma falsa aparência de “esquerda x direita”).

A influência desses fatores na historiografia é tão clara que qualquer livro ou site que critica a idéia de que o nazifascismo era de esquerda, apela para o “argumento” de que o nazifascismo não defendia a destruição da burguesia e do capitalismo, como se ser de esquerda se limitasse a ser comunista (hegemonia). Em outras palavras, a maioria dos historiadores interpreta a história do ponto de vista da propaganda comunista. Não obstante, do ponto de vista do que realmente é conservadorismo e direita, colocar o nazifascismo como um movimento conservador político e de direita é negligenciar toda uma literatura conservadora de mais de duzentos anos e ignorar toda influência dos ideais revolucionários sobre o nazifascismo. Ora, se isso é considerado correto do ponto de vista historiográfico, não sei mais o que é bom senso e honestidade intelectual.

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Sugestões de Leitura

Livros

  1. Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França.
  2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão.
  3. Kirk, Russell. The Conservative Mind: From Burke to Santayana.
  4. Pereira, João Coutinho; Pondé, Felipe Luiz; Rosenfield, Denis. Por que virei à direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo
  5. Tocqueville, Alexis de. O antigo Regime e a Revolução.
  6. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América.
  7. Goldbert, Jonah. Fascismo de Esquerda.
  8. Mises, Ludwig. As Seis Lições.
  9. Voegelin, Eric. As Religiões Políticas.
  10. Johnson, Paul. Tempos Modernos.
  11. Gray, John. Cachorros de Palha.
  12. Gray, John. A Missa Negra.
  13. Overy, Richard. Os Ditadores – A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler.
  14. Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social.
  15. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism.

Artigos

  1. Confusões clássicas sobre direita e esquerda
  2. Que é fascismo?
  3. A Mentalidade Revolucionária
  4. Ainda a Mentalidade Revolucionária
  5. Lindeza de Estupidez
  6. A tentação Totalitária
  7. Do mito ao fetiche
  8. Um texto fundamental de Pondé para facilitar a compreensão da essência deste blog: “Do mito ao fetiche”
  9. Quando o fascismo era de esquerda
  10. Tudo o que você deveria saber sobre o fascismo, mas não quer
  11. O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de direita?
  12. Será o nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior
  13. O sucesso como a maior das semelhanças entre o nazismo e o comunismo do século XX
  14. Como a dinâmica social resolve o problema da rotulagem equivocada de nazismo e fascismo como regimes de direita
  15. Entra em cena o ceticismo plítico para resolver de vez o problema da falsa rotulagem de nazismo e fascismo como regimes de direita
  16. Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?
  17. Socialismo no Terceiro Reich
  18. As raízes socialistas de Benito Mussolini
  19. As raízes do Estado intervencionista moderno
  20. Nazismo e suas raízes marxistas

Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?

Autor: ALEXANDRE BORGES *

Uma das maldições da segunda-feira é o Roda Viva da TV Cultura, em quase todas as edições um convescote de esquerdistas que atestam a debilidade da alta cultura e do jornalismo no país. Há duas semanas, o convidado foi o ex-presidente e imortal Fernando Henrique Cardoso, que estufa o peito e se autodeclara “progressista”, um intelectual iluminista acima das ideologias que busca apenas o bem comum.

Não é de hoje que o progressismo é a bandeira dos que entendem a história como uma locomotiva que segue em direção a um futuro glorioso, racional, em que as ideologias são superadas, assim como as religiões, o nacionalismo, e uma sociedade próxima da perfeição emerge. Quem se coloca contra essa visão progressista da vida é um inimigo do futuro, um obstáculo a ser removido, uma pedra no caminho, uma inquietante voz do passado a ser calada. Quando FHC diz no Roda Viva que progressista é quem “olha para frente”, meus caros, é isso que ele quer dizer.

O progressismo pode ser entendido como um fenômeno típico do final do século XIX até os anos 30 do século XX, mesmo que suas raízes possam ser traçadas nas décadas e até séculos anteriores e muitos esquerdistas até hoje, como FHC, prefiram se apresentar assim.

Muitos enxergam no progressismo também um desdobramento do socialismo fabiano, a vertente criada pelo grupo britânico fundado há 130 anos que contou com intelectuais como H.G. Wells, Bertrand Russell e George Bernard Shaw, e que defendia que o socialismo seria uma evolução natural e inexorável do capitalismo e que, portanto, não seria necessário pegar em armas para que seu tempo chegasse. Para os fabianos, reformas graduais seriam o caminho indicado para a implementação do socialismo – como, por exemplo, a esterilização dos “povos inferiores” para não se ter que matá-los, já que bastava impedir que se reproduzissem.

Mesmo tendo um parentesco próximo com a social-democracia européia, o progressismo americano trazia a ideia do encantamento arrogante e quase religioso com a razão, com a ciência e o deslumbramento com a tecnologia, embalado pela época que traz descobertas como as do telefone (1876), do fonógrafo (1877), da lâmpada elétrica (1879), do gramofone (1887), do cinematógrafo (1895), do avião (1906), entre outros. Em 1889, comemorando o centenário da revolução francesa, acontece também a Exposição Universal de Paris, visitada por 28 milhões de pessoas e que construiu nada menos que a Torre Eiffel para a entrada.

O termo progressismo é entendido hoje como um contraponto ao conservadorismo, mas é, para todos os efeitos, um descendente legítimo do Positivismo “original”, aquele da escola de pensamento fundada pelo inventor da sociologia, o francês Augusto Comte (1798-1857), que traz a ideia do “governo científico” liderado por uma aristocracia intelectual que possui todas as respostas do mundo e que pode cuidar de tudo enquanto você, pobre mortal, vai tocando sua vida bovina e ruminante, obedecendo o grande plano traçado pelos guardiões da sociedade, sem questionar nada para que o governo não tenha que se livrar de você.

A ideia de um governo de reis-filósofos pode ser encontrada em tempos tão remotos quanto em “A República” de Platão (427-347 a.C.), que imagina a “cidade ideal”, uma pretensa sociedade justa e saudável em que o estado provê as necessidades básicas do cidadão enquanto ele é destinado a realizar tarefas simples baseadas nas suas habilidades. O indivíduo abre mão da sua liberdade e aceita ser parte integrante de um plano maior estatal, desenhado e gerenciado por uma aristocracia de notáveis. Sedutor para alguns na teoria, é na prática um regime totalitário.

Mais prisões políticas que Mussolini

Um dos mais poderosos e influentes políticos “progressistas” da história, abertamente entusiasta da visão política de que “seres superiores” deveriam governar sem limites em nome do bem estar social, foi Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA de 1913 a 1921, um dos políticos que, quanto mais você conhece, mais se assusta com o fato de que alguém como ele tenha ocupado a Casa Branca. Um presidente americano que encarcerou mais inimigos políticos por delito de opinião que Benito Mussolini merece atenção.

Wilson foi uma criança disléxica que só aos 10 anos de idade aprendeu a ler mas que viria a ser um ensaísta, autor de livros políticos influentes, além de um acadêmico que se tornou reitor da Universidade de Princeton e o primeiro PhD a chegar a presidência dos EUA. Em resumo, o primeiro intelectual a comandar o país.

Woodrow Wilson era, como os fascistas, assumidamente racista e comprometido intelectualmente com teses de supremacia branca e eugenia. Criado num lar de pais sulistas e confederados que pegaram em armas em defesa dos escravistas contra Abraham Lincoln, o voto dos negros para ele foi “o pior mal que aconteceu na história do país”. Ele era um defensor, por exemplo, da “purificação darwiniana das raças inferiores”.

Os pais fundadores da nação e a Constituição, para ele, eram motivo de chacota e desprezo por serem “antiquados”. A Declaração da Independência e o Bill of Rights eram recheados de “nonsense” e um eco do século XVIII que precisava ser superado. Para ele, nada deveria limitar os poderes do presidente, apenas sua própria capacidade e vontade. A própria divisão da república em três poderes seria um anacronismo incômodo, já que o Congresso não deveria atrapalhar o caminho inexorável para o futuro que o presidente representaria. “Se você não é um progressista, é melhor você tomar cuidado”, ameaçou Wilson já no seu discurso de posse.

Este intelectual também acreditava, como comunistas e fascistas, que havia povos atrasados que mereciam ser subjugados e ter seus territórios invadidos para que sociedades “adultas” pudessem cuidar destes que estavam na “infância” do desenvolvimento. Como presidente, invadiu a Nicarágua, o México, o Panamá e o Haiti e foi o comandante-em-chefe do país na Primeira Guerra Mundial.

Sua visão do povo era tão autoritária quanto possível e quase inimaginável para um presidente americano. Chegou a afirmar que a população, para um verdadeiro líder, era uma “ferramenta do estado”, numa simbiose perfeita que fazia do governo um organismo vivo e inseparável na nação, entre outras ideias típicas de um rei absolutista. Dizia também, quando presidente, que sua gestão representava a “mão de Deus” e que ser contra ele, portanto, era não só ser contra o estado mas ser contra Deus.

Segundo ele, que enquanto presidente montou uma das maiores máquinas de propaganda política que se tem notícia, o povo não precisava saber de toda verdade, com todas as visões e lados da questão, que isso confundiria o cidadão comum. Uma meia verdade, que mais apelasse para a emoção do que para a razão, e que motivasse o povo a seguir o caminho traçado pelo governo, era o mais recomendável. Seu ídolo e líder inspirador era ninguém menos que Otto von Bismarck.

Do positivismo ao progressismo e, depois, fascismo.

Poucos termos são tão desgastados quando “fascista”, que hoje em dia virou nada mais que um xingamento. Mesmo assim, o entendimento do fenômeno fascista ainda desafia os historiadores: o que é, afinal, esse tal de fascismo?

Mesmo com diferenças pontuais, é possível traçar como características comuns dos regimes fascistas italiano e alemão:

  1. A identificação clara de inimigos internos e externos do estado, que deveriam ser perseguidos, calados, presos e, em última instância, eliminados.
  2. A criação ou fomento de mitos que encarnassem os “valores nacionais” e que simbolizassem o orgulho da nação.
  3. Um projeto de reeducação da sociedade, que deveria aceitar um novo conjunto de valores culturais e morais impostos pelo estado.
  4. Liderança política exercida de forma carismática e personalista, com forte apelo ao culto à autoridade maior do regime.
  5. Militarização da sociedade, com a criação de milícias apartadas das forças armadas tradicionais do país e comandadas diretamente pelo líder do regime.

Em maior ou menor grau, diversos ditadores além de Mussolini e Hitler poderiam ser classificados como fascistas – ou como você definiria, por exemplo, o Getúlio Vargas do Estado Novo, o general argentino Leopoldo Galtieri ou o coronel Hugo Chávez? Mas colocar essa pecha num governo americano, do Partido Democrata, é ser politicamente incorreto, mesmo que essa seja totalmente defensável.

Woodrow Wilson não entrou para a história como um fascista (em parte, um erro resgatado por Jonah Goldberg em “Liberal Fascism”), mas seu governo puxou a democracia americana até o limite e além, quase duas décadas antes de Mussolini e Hitler chegarem ao poder.

Para resumir o que esse progressista fez na Casa Branca, ele foi o primeiro presidente americano a:

  • Ridicularizar os pais fundadores e a Constituição, lutando ferozmente para apagar o legado de ambos.
  • Criar um departamento estatal de propaganda política e controle da imprensa
  • Prender opositores por crime de opinião como em qualquer estado policial
  • Criar milícias para espionar cidadãos comuns e descobrir “traidores da nação” (quase 200 mil americanos foram presos por acusações de traição)
  • Inaugurar uma política de intervenção e controle estatal da economia e controle de preços
  • Instituir a famigerada Lei Seca
  • Last but not least, idealizou o conteúdo do que viria a ser o Tratado de Versailles, que humilhou a Alemanha no final da Primeira Guerra e que, em última instância, causou a Segunda Guerra Mundial.

Em 1933, o ex-ministro de Wilson, Franklin Delano Roosevelt, devolve a presidência ao Partido Democrata depois de três gestões republicanas seguidas. Com FDR, parte do kit fascista é reeditado, especialmente no cenário econômico caótico do que viria a ser a Grande Depressão, que afundou a economia americana até o final dos anos 30 e deu aos anticapitalistas Mussolini e Hitler o discurso que precisavam para demonizar a economia de mercado e subir ao poder.

Os regimes fascistas de Mussolini e Hitler, a despeito do governo de Woodrow Wilson, foram devidamente condenados pelo tribunal da história. Tanto a Alemanha quanto a Itália aprenderam tão duramente a lição que é difícil imaginar que políticos com as mesmas características consigam novamente densidade eleitoral. Mas os EUA, aprenderam com a sua própria experiência fascista?

É possível garantir que hoje o povo americano está livre para sempre de aventuras que incluam presidentes festejados em cultos populistas à personalidade em regimes que demonização adversários, têm relações promíscuas com a imprensa, constroem de grandes aparatos de espionagem e controle dos cidadãos com forte intervenção e regulação estatal da economia?

Respostas para a Avenida Pensilvania, 1600.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

A Dog Whistle To The Left

Considerações sobre os termos Direita e Esquerda

Recentemente esse espaço tem sido palco de um embate à respeito dos termos Direita e Esquerda. Gostaria, então, de oferecer minha contribuição, focando nos problemas da Direita.

Introdução: História

Antes de começar a analisar o cenário contemporâneo, é necessário entender a origem da divisão, que remete à Revolução Francesa. O cenário, aqui, de pré-revolução, adota uma definição bastante simplista, que não apenas ignora muitos fatores, mas que por ser simplista facilita a campanha política e a definição de um inimigo. Atirar libelos quando se considera que todos os diferentes são um é muito mais fácil.

Com isso em mente, a divisão se deu de maneira tranquila: os revolucionários se sentariam à esquerda do rei, e os conservadores à direita. Pouco importaria que dentre os revolucionários houvesse das maiores divergências possíveis (burgueses liberais, anarquistas, socialistas), mas sua união era imprescindível para desbancar um Estado que era fortíssimo, não apenas pela autoridade que emanava de seu soberano, mas pela prosperidade de seu povo no momento histórico.

Aqui, discordo de Davi Caldas: os termos não se restringem às propostas de uma construção de um novo mundo, mas sim caracterizam a reação do antigo regime ao mundo novo. Essa reação não é desimportante para ser descartada, e é, em verdade, o momento que caracteriza maior diferença, maior separação ideológica e doutrinária, um momento realmente digno de separar a política em direita e esquerda.

Ambos liberais e socialistas da época beberam das mesmas fontes, dos libelos iluministas contra a ordem vigente. Ambos, durante a revolução, levantaram a mesma bandeira republicana, ambos bradavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, embora depois fosse descoberto que essas palavras, inicialmente vazias, se encheram de significados distintos que vieram a os separar logo após a Revolução. E enquanto os futuros antagonistas estavam unidos em torno de um ideal supostamente igual, os conservadores se amparavam nos escritos de Jean Bodin e Jacques Bossuet, no poder divino dos reis, na monarquia absolutista.

Pode-se dizer, então, que após Napoleão sedimentar a nova ordem liberal, a antiga direita desapareceria, e daria lugar a uma nova, à direita liberal influenciada por Adam Smith, John Locke, e a esquerda então seria monopolizada pelos socialistas. Nada mais errôneo. Os ideais do antigo regime ainda perduravam, e nos escritos de Joseph de Maistre e Louis de Bonald encontraram as forças para reagir e restaurar a monarquia hereditária. Os ideais revolucionários ainda não haviam se sedimentado a ponto de se considerarem dominantes: o status quo ainda era a monarquia absolutista, mesmo que algumas delas houvessem se apropriado de algumas noções do liberalismo econômico.

Frente a esse cenário, não há como negar que sim: a direita pode ser caracterizada como conservadora. E mesmo que se considere a divisão concernente apenas à criação de um novo regime, não há como negar as influências das reações conservadoras na criação desse novo regime.

1. Os Conservadores

Se houve um argumento que me satisfez quanto à divisão entre esquerda e direita, foi o argumento do otimismo/pessimismo antropológico. Esse argumento é bastante esclarecedor, mas leva a conclusões diferentes das proporcionadas por Davi Caldas.

Quando se divide a direita e a esquerda entre o pessimismo e o otimismo, respectivamente, exclui-se, de imediato, qualquer liberalismo clássico puro do campo da direita. Todo o liberalismo inglês e francês da época se pautou em um otimismo, e na menos otimista das hipóteses, na tabula rasa. O fato de a análise de Smith se utilizar do egoísmo humano para o equilíbrio da economia não parte do pressuposto de que o ser humano é egoísta por natureza, mas porque as circunstâncias do momento o levam a ser egoísta e isso, de algum modo, gera um equilíbrio. Sua análise era descritiva, não positiva. Dentre os iluministas mais aceitos pelos liberais de hoje predomina a noção de que não há natureza humana, e que a bondade ou a maldade se fazem pelas circunstâncias.

Frente a essa argumentação, pode-se dizer que então não há direita já que o debate político é pautado, geralmente, nas visões políticas de liberais ou socialistas. É verdade que a influência do tradicionalismo decaiu muito na política atual, mas o pensamento sobreviveu e continuou sendo desenvolvido. Os pensadores que se pautavam em um pessimismo continuaram a escrever, mesmo que ostracizados.

No início do século XX, na França, houve um levante conservador liderado por Charles Maurras. Pouco se parece com as ideias liberais, no entanto. Seu corporativismo rejeita totalmente o liberalismo (sendo anti-liberal), mas também nada se parece com o coletivismo marxista. Sua ideia de sociedade paira na ideia de corporação, muito semelhante à noção das corporações de ofício medievais: a sociedade, espontaneamente, cria corporações, entes coletivos, instituições, e essas são protegidas pelo Estado, que não só garante a existência das mesmas, mas o não conflito entre as mesmas e a representação das mesmas mediante o poder.

Aqui, aproveito para contrapor o colunista Rodrigo Viana: o conservadorismo antigo não é coletivista. A rejeição ao individualismo não faz com que a ideologia busque a supressão do mesmo. O pensamento conservador paira entre os dois, lembrando sempre a importância tanto da pessoa quanto de sua inserção em um meio social. Não existe no pensamento conservador um coletivo pelo qual se governa, não existe essa noção de “massa”. Existem diversos pequenos corpos coletivos autônomos que exigem representação, mas não um ente abstrato. O importante é a noção de Pessoa.

Além de Maurras, diversos outros pensadores construíram sobre as bases do antigo pensamento conservador, dentre eles o altamente rejeitado Julius Evola e o cada vez mais aceito Carl Schmitt. Todos são antiliberais, mas se encontram à direita no espectro político.

Mas nem só de autoritarismo é feita a direita conservadora, mas também de conservadores que se aproximaram de conceitos liberais. Edmund Burke é um grande exemplo.

É simplista também definir conservadores como pessoas que desejam manter o status quo. A conservação se refere muito mais a princípios civilizacionais e instituições políticas, e para isso muitas vezes podem ser exigidas reformas, até profundas. Não se deve perder de vista que por de trás de todo pensamento conservador há uma ideologia política, por mais moderada que possa ser.

Essa discussão se faz necessária não para excluir os liberais totalmente da direita, mas para mostrar que um pensamento que, mesmo pertencente à velha ordem, não pode ser excluído de uma classificação política da atualidade, principalmente quando volta a ganhar certo prestígio e a cada pouco mostra lampejos na política de hoje.

2. Os Liberais

Adotando a classificação conforme a visão da natureza humana, a impressão que surge é a de que liberais não pertencem à direita, logo devem estar à esquerda. Isso seria simplista.

O que ocorre é que os liberais de hoje não adotam um otimismo quanto à natureza humana, mesmo sendo essa a visão dos primeiros liberais. Outro aspecto é que, apesar de não serem tradicionalistas, muitos liberais de hoje seguem a linha de Edmund Burke, que é conservadora. A esmagadora maioria dos liberais de hoje não são liberais clássicos, mas sim liberais-conservadores. Não são adeptos de um exagerado humanismo, mas do liberalismo econômico investido de conservadorismo moral ou político.

A crença, agora, não é a de que o ser humano é necessariamente bom e por isso deve ser deixado livre, mas que a maldade do ser humano não qualifica um a estar em posição de poder sobre outro, impor sua visão de finalidade da humanidade sobre outros. A concorrência extrairia o bem geral da ganância humana. É por isso que os liberais hoje podem ser colocados na direita, diferentemente de outrora.

Pouco importa aqui se são reformadores.

3. O problema dos Fascistas

Os fascistas são o típico patinho feio. Ninguém os quer, por isso ninguém os aceita. Não colocarei, portanto minha visão pessoal sobre a posição dos mesmos no espectro, apenas traçarei algumas considerações.

O fascismo nasce do corporativismo medieval, revivido por Maurras, mas inverte sua lógica. Se a lógica corporativista é, através dos entes coletivos intermediários, evitar o Estado Total, em um modelo de baixo para cima (corporações surgem espontaneamente e são defendidas pelo Estado), o fascismo vê na ideia de corporação a realização do Estado Total: o Estado cria as corporações, único meio possível para exercício da vida pública. O modelo fascista é de cima para baixo.

Os fascistas também encontram bastante inspiração nos conservadores, apesar de essa admiração não costumar ser recíproca. Joseph de Maistre foi uma importante influência, apesar de ser fácil de perceber que, dentro de seu catolicismo radical (mesmo sendo autoritário), não aprovaria um culto ao deus Estado. O totalitarismo em muito difere das monarquias absolutistas de outrora, é muito mais abrangente e muito mais brutal.

Uma marca do pensamento fascista que o diferencia bastante do conservadorismo é seu apelo à massa. Ele busca uma redução do indivíduo frente ao Estado, uma verdadeira “demência espacial” frente à grandiosidade da nação e do coletivo. Não existe essa desvalorização do indivíduo em nenhuma corrente presente nem na esquerda e nem na direita.

A luta comum à da esquerda foi a luta contra o capitalismo internacional. Mesmo assim, o fascismo era uma doutrina anticomunista e, principalmente, antimarxista. Apesar do intervencionismo na economia, essa não é uma bandeira exclusiva da esquerda, sendo bastante presente nos conservadores.

4. O problema Nazista

Sim, diferente do que comumente se pensa, é necessário que se dedique um trecho somente aos nazistas. Definir o mesmo como um tipo de fascismo é extremamente simplista, já que dele muito se difere. São ideologias distintas, então focarei na diferenciação da mesma, o que para o intuito deste artigo será o suficiente.

Apesar de serem ambas totalitárias e nacionalistas, existe um aspecto primário que é essencial na distinção entre as duas: a noção de inimigo. O fascismo busca o exercício da exaltação da nação através da exaltação do Estado. O Estado é tudo, não o povo. O nazismo contém muito mais elementos que se referem ao povo e a supremacia de sua raça: possui o ódio aos judeus e estrangeiros como elemento determinante e necessário ao sucesso do pensamento.

O nazismo pouco se baseia no corporativismo medieval. Não é uma adaptação do mesmo ao mundo industrial. É a criação de uma sociedade inteiramente nova baseada na raça. Uma verdadeira anomalia política.

Outra diferença um pouco menos importante é econômica: o fascismo é intervencionista, enquanto o nazismo se tornou dirigista e planificador.

As alianças políticas nunca podem servir de base para definir a visão ideológica, apenas mostram colaborações de circunstância. Muitas vezes tentam pintar o nazismo como conservador por ter se aliado a conservadores. Mas conservadores foram os responsáveis pela Operação Valquíria. A Alemanha de Hitler se aliou aos soviéticos, e no momento seguinte esteve a atacá-la.

5. Conclusão

O objetivo não era esgotar o tema (até porque não se faz isso em um mero artigo de blog), mas oferecer algumas pontuações que julguei pertinentes e levantar alguns questionamentos a mais.

A Guerra de Três Lados – Parte II

Dando continuidade a nossa série de artigos sobre a Segunda Guerra Mundial, nesta segunda parte analisaremos os conflitos e alianças estabelecidos pelas Potências do Eixo e por países na região dos Balcãs e do Mar Adriático. Desta vez, veremos um tipo de relação política muito distinta daquela que vimos no primeiro artigo: aqui não há espaço para democracias e repúblicas parlamentares, aqui a disputa é entre ditaduras monárquicas e regimes nacionalistas em uma encarniçada relação fratricida de submissão, adulação e confronto.

Europa II – Balcãs e Adriático

1. Invasão da Albânia
A Itália começou a penetrar na economia deste país em 1925 através de acordos que permitiam à Itália explorar seus recursos minerais, seguidos do Primeiro Tratado de Tirana de 1926 e do Segundo Tratado de Tirana de 1927, que colocavam Itália e Albânia em uma aliança defensiva. O rei Zog I da Albânia, no entanto, recusou uma renovação do Tratado de Tirana em 1931.

Durazzo,_Albania,_April_1939,_Italian_soldiers_entering_the_city

Após assinar acordos com a Iugoslávia e a Grécia em 1934, Mussolini tentou intimidar os albaneses enviando uma frota de encouraçados ao país. Cinco anos mais tarde Mussolini decidiu anexar a Albânia, proposta esta criticada pelo rei da Itália (Vitor Emanuel III). Roma enviou um ultimado a Tirana em 25 de março de 1939. Zog recusou a proposta e o conflito, ocorrido entre 7 e 12 de abril de 1939, foi vencido rapidamente pelos italianos.

O Parlamento da Albânia votou pela deposição de Zog e pela união da nação com a Itália “em união pessoal”, oferecendo a coroa da Albânia ao rei da Itália. Ficava assim a Albânia submetida ao Reino da Itália.

Posição política da Albânia

Ahmet-Zogu-1895---1961
Rei Zog I da Albânia

A Albânia vivia sob uma monarquia constitucional desde 1928: a nova constituição aboliu o senado albanês, criando uma assembléia unicameral, mas o rei Zog I manteve os poderes ditatoriais que já possuía como presidente.

O reino era apoiado pelo regime fascista na Itália, e ambos os países matinham relações próximas até a sua invasão em 1939. A economia era totalmente dependente da Itália e as suas forças armadas eram treinadas por instrutores italianos. Para equilibrar a relação de poder, Zog mantinha oficiais britânicos na gendarmeria, apesar da pressão italiana para removê-los.

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Shefqet Vërlaci, primeiro-ministro após a unificação dos Reinos da Albânia e da Itália.

Como a Albânia não conseguia pagar as dívidas contraídas com a Itália, Roma a pressionava para adotar medidas pró-italianas como a nomeação de italianos para a gendarmeria, cessão dos monopólios sobre açúcar, telégrafos e energia elétrica à Itália, ensino da língua italiana em todas as escolas, admissão de colonos italianos, etc. Zog recusou, e ainda ordenou um corte no orçamento nacional de trinta por cento, demitiu os conselheiros militares italianos e nacionalizou escolas católicas geridas pela Itália no sul do país. Não demorou muito para que Mussolini decidisse invadir o país.

Não querendo tornar-se um fantoche da Itália, o rei Zog e sua família fugiram para a Grécia e então para Londres. Com a sua deposição pelo Parlamento e a subsequente decisão de ceder a coroa da Albânia ao rei Vitor Emanuel III da Itália, os italianos montaram um governo fascista com Shefqet Vërlaci como primeiro ministro até 1941. Este, por sua vez, foi sucedido por Mustafa Merlika-Kruja que assumiu o cargo até 1943.

2. Guerra Greco-Italiana e Batalha da Grécia
Conflito entre a Itália e a Grécia, ambos regimes autoritários de inspiração fascista, de 28 de outubro de 1940 a 23 de abril de 1941. Marca o início da campanha dos Balcãs da Segunda Guerra Mundial e a contra-ofensiva inicial grega é considerada a primeira campanha terrestre bem sucedidade contra o Eixo.

O conflito conhecido como Batalha da Grécia começa com a intervenção do III Reich em 6 de abril de 1941 e termina no dia 30 do mesmo mês com vitória do Eixo sobre a Grécia e os Aliados (Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália).

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A invasão da Grécia continental pelo III Reich, ou Operação Marita, foi complementada pela invasão da ilha de Creta pelo III Reich, a Operação Merkur. Juntamente com a invasão da Iugoslávia, estas duas operações foram parte da Campanha dos Balcãs.

Posição política da Grécia

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Rei Jorge II da Grécia

Após um disputado plebiscito, Jorge II retornou para tomar o trono em 1935. Temendo os comunistas, Jorge II apontou Metaxas, o ministro da guerra, como primeiro ministro em 13 de abril de 1936, indicação esta confirmada pelo parlamento grego.

Metaxas, com apoio do rei, declara um estado de emergência em 4 de agosto de 1936, suspende o parlamento e vários artigos da constituição. O regime criado como resultado deste auto-golpe ficou conhecido como “o 4 de agosto”. A propaganda do regime apresentava Metaxas como “o Primeiro Camponês”, “o Primeiro Operário” e “o Pai Nacional” dos Gregos. Metaxas adotou o título de Arkhigos, nome grego para “líder” ou “capitão”, e clamou por uma “Terceira Civilização Helênica”, sucessora da Grécia Antiga e do Império Grego Bizantino na Idade Média.

Metaxas baniu partidos políticos, proibiu greve e introduziu a censura da mídia. Junto com o anti-parlamentarismo, o anti-comunismo formava a segunda maior agenda política do regime: a supressão do comunismo foi seguida pela campanha contra literatura ‘anti-grega’. O próprio Metaxas tornou-se Ministro da Educação em 1938 e reescreveu textos escolares para se adaptarem à ideologia do regime.

Metaxas
Ioannis Metaxas

Tentando construir um estado corporativo e assegurar o apoio popular, Metaxas adotou ou adaptou muitas instituições da Itália fascista: o Serviço de Trabalho Nacional, jornada de trabalho de oito horas, melhorias compulsórias nas condições de trabalho, o instituto de segurança social.

Metaxas era neutro na política externa, tentando um equilíbrio entre Reino Unido e Alemanha. O próprio Metaxas tinha uma reputação de germanófilo, mas o rei Jorge e as elites do país eram anglófilas, e a predominância da Royal Navy britânica no Mediterrâneo não podia ser ignorada por um país marítimo como a Grécia. Os objetivos expansionistas de Mussolini inclinaram a Grécia a uma aliança franco-britânica, embora a literatura do regime fosse elogiosa a estados autoritários, especialmente os de Franco, Mussolini e Hitler.

3. Invasão da Iugoslávia
Ataque do Eixo liderado pelo III Reich ao Reino da Iugoslávia que se iniciu em 6 de abril de 1941. A invasão começou com um ataque aéreo da Luftwaffe (força aérea alemão) à cidade de Belgrado e às instalações da Força Aérea Real Iugoslava, além das forças terrestres alemãs estacionadas no sudoeste da Bulgária, seguidas de invasões alemãs partindo da Romênia, Hungria e Áustria (então parte do III Reich).

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As forças italianas se limitaram a ataques aéreos e de artilharia até 11 de abril, quando o exército italiano atacou Ljubljana. No mesmo dia, forças húngaras entraram em Bačka e Baranya, mas como os italianos não encontraram resistêncio. Um ataque iugoslavo no norte do protetorado italiano da Albânia foi inicialmente bem sucedido, mas inconsequente devido ao colapso do resto das forças iugoslavas.

A invasão terminou com a rendição incondicional do Exército Real Iugoslavo em 17 de abril de 1941. A Iugoslávia foi então ocupada e dividida pelas potências do Eixo. Algumas áreas foram anexadas por países vizinhos, outras permaneceram ocupadas e em outras, estados-fantoche como o Estado Independente da Croácia (Nezavisna Država Hrvatska, or NDH) foram criados.

Posição política da Iugoslávia

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Príncipe regente Paulo da Iugoslávia

A Iugoslávia vivia sob uma ditadura monárquica até que o rei e ditador Alexandre I da dinastia sérvia de Karađorđević foi assassinado na França, em 1934, por um membro da IMRO (Organização Revolucionária Interna Macedônia), em conluio com a Ustasha – movimento revolucionário banido do país, e que viria a governar o Estado-fantoche da Croácia após a invasão nacional-socialista. Como o filho mais velho de Alexandre, Pedro II, era menor de idade, um conselho regente composto de três pessoas assumiu o governo. O conselho era dominado pelo primo do rei de jure, Príncipe Paulo.

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Ante Pavelič, líder da Ustaša e do Estado-fantoche da Croácia

Temendo uma invasão do Eixo, o príncipe regente Paulo assinou o Pacto Tripartite em 1941, jurando cooperação com o Eixo. Em 27 de março, o regime foi derrubado por um golpe militar com apoio britânico. Pedro II, então com 17 anos, foi declarado maior e posto no comando do país. O Reino da Iugoslávia removeu seu apoio de facto ao Eixo sem renunciar formalmente ao Pacto Tripartite.

O novo governo se opunha à Alemanha Nazista, mas temia um ataque à Iugoslávia e tampouco o Reino Unido estava em condições de ajudar. Hitler não arriscou esperar a decisão dos britânicos e atacou.


Comentário:

Diferente do que vimos na primeira parte desta série, nestes outros três casos tivemos dois conflitos praticamente fratricidas entre regimes nacionalistas e um caso onde a oposição ao nacional-socialismo foi forte o suficiente a ponto de derrubar um governo pró-nazi.

No caso da Albânia, uma monarquia constitucional praticamente submetida à autoridade italiana, bastou uma resistência maior ao controle italiano para que o seu Estado tutelar a invadisse e obtivesse do Parlamento de bom grado o governo do país e a deposição do antigo monarca. No caso da Grécia, também uma monarquia com um governo fascista, seria fácil para o Eixo obter uma aliança não fosse a presença dos britânicos no Mediterrâneo – aqui tivemos um exemplo claro de um governo fascista que se aliou a uma democracia ocidental para defender-se da agressão de outro governo fascista. No caso da Iugoslávia, o regime monárquico pró-nazismo e potencial aliado do III Reich foi deposto – supostamente com intervenção britânica – para dar lugar a um outro regime monárquico,  anti-nazista porém moderado. Uma manobra política que, ainda que bem intencionada, não preservou o país da reação de Hitler: a imediata invasão do país.


Leia também:

As raízes socialistas de Benito Mussolini

Escrito por Bryan Caplan, professor de Economia na George Mason University. Revisão por Renan Felipe dos Santos.

Mussolini não era só mais um socialista; ele era o Lênin italiano – o líder da facção revolucionária mais rígida. E Mussolini não era só um “jornalista”; ele era o editor do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista.

Quando eu estava na 6ª série, uma cópia de 1967 do livro “The Pageant of World History” (por Gerald Leinwand) chegou-me as mãos. Embora eu tenha aprendido muito com o mesmo, ele contém omissões chocantes. Eis aqui o que Leinwand diz dos anos iniciais de Mussolini:

Mussolini, que a dada altura havia sido um socialista, e um jornalista, escreveu alguns artigos apelando à subversão do capitalismo.

Tudo verdade, mas muito enganador. Da forma como Leinwand escreve, ficamos com a impressão de que Mussolini havia sido um jornalista menor que, por acaso, havia sido um membro do partido socialista. Só décadas mais tarde, quando descobri os trabalhos de A. James Gregor, especialmente o seu Young Mussolini and the Intellectual Origins of Fascism, é que fiquei sabendo da história toda.

Felizmente para os alunos que atualmente se encontram no 6º ano, a Wikipédia tem consigo os fatos que Leinwand deixou de fora.

Mussolini não era só mais um socialista; ele era o Lênin italiano – o líder da facção revolucionária mais rígida. E Mussolini não era só um “jornalista”; ele era o editor do Avanti!, o jornal oficial do Partido Socialista.

Por volta de 1910, ele era considerado um dos mais proeminentes socialistas de Itália. Em setembro de 1911, Mussolini participou de um motim, liderado por socialistas, contra a guerra italiana à Líbia. Ele denunciou amargamente a “guerra imperialista” italiana feita para capturar a capital da Líbia (Tripoli), ação esta que lhe custou 5 meses de prisão.

Depois de liberto, ele ajudou a expulsar das fileiras do partido socialista dois “revisionistas” que haviam apoiado a guerra, Ivanoe Bonomi, e Leonida Bissolati. Como resultado, ele foi recompensado com o lugar de editor do jornal do Partido Socialista, Avanti!. Sob a sua liderança, a circulação do jornal subiu de 20 mil para 100 mil exemplares.

O artigo da Wikipédia em torno do Partido Socialista Italiano contém ainda mais detalhes em torno do expurgo de “revisionistas” levado a cabo por Mussolini:

No princípio do século XX, no entanto, o PSI escolheu não se opor de modo vigoroso ao governo liderado pela quinta vez pelo primeiro ministro Giovanni Giolitti. Esta conciliação com o governo existente e o aumento da sua influência eleitoral, ajudaram a estabelecer o PSI como um partido italiano “mainstream” por volta do início da década de 1910.

No entanto, apesar da melhoria dos resultados eleitorais, o PSI permaneceu divido em dois ramos distintos: os reformistas, liderados por Filippo Turati, e bastante influentes junto dos sindicatos e dentro do grupo parlamentar, e os maximalistas, liderados por Costantino Lazzari, afiliados ao “London Bureau” de grupos socialistas, uma associação internacional de partidos socialistas.

Em 1912 os maximalistas, liderados por Benito Mussolini, prevaleceram na convenção do partido, o que levou à divisão do Partido Socialista Reformador Italiano.Para os socialistas, obviamente, a apostasia de Mussolini nada mais prova que o fato dele ser o mal encarnado. Para todos os outros, a história em torno das origens de Mussolini coloca toda a sua carreira sob uma nova luz. Quem vê as coisas de fora, observa aquilo que quem se encontra do lado de dentro se nega a admitir: a fruta apóstata raramente cai longe da árvore ortodoxa.

Sim, Mussolini percebeu que o socialismo mais o nacionalismo tinha um apelo de massas superior ao socialismo puro e simples. Sim, Mussolini percebeu que o socialismo ficaria mais forte se ele se aliasse com a Igreja em vez de tentar destruí-la. Sim, Mussolini percebeu que a apropriação em massa da propriedade privada devastaria a economia.
E sim, Mussolini percebeu que a palavra “socialismo” alienaria milhões de italianos que estariam de outro modo receptivos à sua mensagem. Mas isto não faz de Mussolini um socialista radical que traiu tudo aquilo em que acreditava, mas sim um socialista radical que se livrou de dogmas socialistas periféricos como forma de desbravar o caminho entre ele e o poder absoluto.

Se ele tivesse mantido a etiqueta socialista e tivesse evitado a aliança com Hitler (outro socialista), Mussolini hoje poderia ser um ícone esquerdista tão grande como Che Guevara.


Da Library of Economics and Liberty.
Tradução e divulgação: blog O Marxismo Cultural

As raízes do estado intervencionista moderno

por Professor Dr. Antony P. Mueller. Doutor em economia pela Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, e atualmente atua como professor na Universidade Federal de Sergipe (UFS). É o fundador do Continental Economics Institute e mantém os blogs Economia NovaCash and Currencies e Sociologia econômica.

Desde o fim do padrão-ouro, que foi abandonado com o início da Primeira Guerra Mundial, a posição intervencionista teve hegemonia na política econômica. A tese de que a economia e a sociedade precisam de correção tem sido a crença dominante durante o século passado até aos nossos tempos. Por sua própria natureza, o Estado moderno de bem-estar e de guerra é um Estado intervencionista. Como não consegue seu objetivo, e cada intervenção requer uma nova intervenção, este tipo de Estado é expansionista e autodestrutivo ao mesmo tempo.

Economia de guerra

O início da Primeira Guerra Mundial marcou o início da economia de guerra. Os governos começaram a intervir cada vez mais na economia e, antes que o comunismo soviético fosse lançado em 1917, os países beligerantes já tinham instalado sistemas de comunismo de guerra. De fato, para os revolucionários russos, a economia de guerra representou o ideal de uma economia planificada e um exemplo que deveria ser seguido também em tempos de paz.

O caos intervencionista na economia global continuou depois da Primeira Guerra Mundial ter terminado. O comunismo não gerou bem-estar geral como prometido, mas a coletivização na União Soviética provocou pobreza e fome em massa em dimensões que beiravam o genocídio. Depois da destruição da guerra, a Alemanha foi devastada mais uma vez pela hiperinflação e pelas indenizações de guerra. O grande império austro-húngaro tornou-se uma colcha de retalhos de países. Já nos anos 1920, a economia do Reino Unido se encontrou em estagnação antes mesmo de ter sido atingida pela Grande Depressão dos anos 30. Em muitos países as relações políticas domésticas foram marcadas pela desconfiança entre as classes sociais e guerras civis. Agressões profundas dominavam as relações internacionais. Dos combatentes, somente os Estados Unidos haviam atingido o seu objetivo de guerra. Com os rivais europeus desintegrados, os Estados Unidos tinham o caminho aberto para se tornar a grande superpotência do século 20 em diante.

O surgimento da classe burocrática e militar

Já antes da Primeira Guerra Mundial as ideias intervencionistas começavam a florescer na classe intelectual. O imenso progresso econômico que chegou com a revolução industrial inspirou a fantasia dos intelectuais e incendiou os desejos das massas de criar um Estado de bem-estar que não viria da economia de mercado e da laboriosidade e criatividade dos empresários e dos trabalhadores, mas do Estado com seus políticos e burocratas. Muitos intelectuais escolheram o lado do Estado porque foi o Estado quem lhes ofereceu emprego. O Estado moderno intervencionista se tornou operacional baseado na burocracia e na educação pública. Com a expansão da atividade estatal veio a criação de posições poderosas para os burocratas legalmente treinados como funcionários públicos. Com o Estado moderno surgiu a existência da burocracia ao lado da antiga classe militar.

As raízes fascistas do Estado moderno

Os pronunciamentos iniciais do fascismo refletem a sua ligação com o socialismo revolucionário e a sua pretensão de proporcionar bem-estar através de uma nova organização da sociedade e da Economia. Controlar a Economia, colocando-a sob a autoridade do Estado enquanto no mesmo deixando a propriedade privada formalmente intacta é a característica específica do capitalismo de Estado fascista.

Manifesto Fascista, proclamado em 1919 por Alceste De Abris e Filippo Tommaso Marinetti, exigia o sufrágio universal e a representação proporcional do eleitorado. Os autores exigiam o estabelecimento de um sistema corporativista de “conselhos nacionais” formados por especialistas que deveriam ser eleitos a partir das suas organizações profissionais. O Manifesto pedia uma jornada de oito horas de trabalho e um salário mínimo. Exigia também a representação dos trabalhadores na gestão industrial e a igualdade dos representantes dos sindicatos industriais com executivos empresariais e funcionários públicos. Os autores do Manifesto Fascista exigiam uma tributação progressiva, seguro de invalidez e aposentadoria antecipada.

Em 1922, Benito Mussolini chegou ao poder na Itália e começou a realizar a maior parte do programa fascista. Hitler tomou o poder ditatorial na Alemanha em 1933 e instalou a radicalização da agenda fascista em forma do nacional-socialismo. Ao início dos anos 1930, o intervencionismo fascista junto com o planejamento central do comunismo se tornou um movimento global. No mundo em desenvolvimento, o presidente brasileiro Getúlio Vargas introduziu uma disposição vasta das leis trabalhistas de proteção, que lhe valeu o apoio dos sindicatos e da classe trabalhadora, e organizou o Estado corporativista. Vargas criou a versão brasileira do fascismo como “integralismo” através da instalação do “Estado Novo“. O legado de Vargas vive até hoje no Brasil. Depois de várias tentativas nas décadas anteriores, foi a vez de Juan Domingo Perón estabelecer inteiramente um Estado intervencionista na Argentina nos anos 50, e criar um sistema que continua a bloquear o progresso econômico deste país até hoje, em um labirinto apertado de regulamentações e intervenções.

Intervencionismo macroeconômico

Enquanto a depressão continuava nos Estados Unidos, o desemprego na Alemanha foi reduzido à metade já em 1935 e a economia aproximou-se do pleno emprego em 1936 — o mesmo ano em que John Maynard Keynes publicou sua teoria sobre como superar depressões. No prefácio da edição alemã da “Teoria Geral”, Keynes elogiou o sucesso da ditadura em combater o desemprego com obras públicas.

Os programas de governo para estimular a economia marcaram o regime de Hitler. Na verdade, ele apenas tinha que tirar os planos para obras públicas das gavetas da burocracia dos governos anteriores. Embora estes projetos tenham sido concebidos anos antes, não foram realizados por temor de uma nova hiperinflação. O regime ditatorial de Hitler conseguiu realizar as obras públicas por ter imposto um controle ditatorial sobre preços e salários. Desta forma as consequências inflacionárias e as profundas distorções microeconômicas desta política permaneceram escondidas e o mito do sucesso do combate ao desemprego com obras públicas nasceu.

Hoje em dia, o Estado intervencionista está presente em todos os lugares da sociedade, a compor um novo tipo de totalitarismo. Tornou-se comum esperar emprego, saúde, educação, segurança interna e externa e muito mais do Estado. Mas esta expansão do intervencionismo acontece por causa da lógica perversa de que quanto maior o fracasso de uma medida intervencionista, maior o estímulo para se ampliar o intervencionismo. Nada se resolve com a nova medida, mas a presença da política cresce.

Conclusão

O nazismo e o comunismo desaparecerem pela sua própria natureza autodestrutiva. O Estado intervencionista de hoje opera de maneira mais sutil, mas o Estado intervencionista moderno nunca perdeu sua marca de nascença obtida na Primeira Guerra Mundial, com as características essenciais adquiridas no período da instalação do comunismo e do fascismo.

Em sua versão moderna o Estado não é muito menos totalitário do que era em suas raízes históricas. Em vez de vir de um único partido, o totalitarismo moderno se expressa intelectualmente em sua universalidade reclamada pelo politicamente correto e economicamente pelo sua onipresença.