A Guerra de Três Lados – Parte Final

No último artigo desta série sobre a Segunda Guerra Mundial analisaremos os regimes dos países do Eixo e dos Aliados com o propósito de demonstrar que a Segunda Guerra foi um conflito não bilateral como normalmente se apresenta, mas ao menos trilateral. A peça chave neste estudo é o comunismo soviético.

I. O primeiro lado: Aliados

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com regimes pluripartidários e parlamentos e regimes coloniais.

Aliados em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Aliados em sua máxima extensão, no final da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam as monarquias constitucionais, as repúblicas federativas e os governos coloniais. Há participação menor de governos fascistas ou análogos não alinhados ao Eixo como os de Getúlio Vargas (Brasil), Antônio de Oliveira Salazar (Portugal), Fulgêncio Batista (Cuba) e Chiang Kai-shek (China).

Ideologias predominantes: conservadorismo, social-democracia, social-liberalismo e colonialismo.

Localização: Europa Ocidental, América do Norte e colônias européias na África e na Ásia, posteriormente América Latina.

Membros mais notáveis: EUA, Inglaterra, França.
Membros menores: Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Índia, China.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta conter o expansionismo alemão através da política de concessões. Declara guerra ao III Reich em 1939 quando este invade a Polônia. Alia-se à União Soviética em julho de 1941 em decorrência da invasão desta pelo III Reich. Declara guerra ao Japão no mesmo ano após o ataque a Pearl Harbor. Ao final do conflito divide a Alemanha com a URSS e deixa a parte leste sob domínio soviético.

II. O segundo lado: Eixo

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com governos fascistas instaurados no período entre guerras. No caso do III Reich, Estado totalitário implantado a partir de 1933 e no caso do Japão, regime absolutista vigente desde 1926.

Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam os Estados Corporativos, as monarquias constitucionais e as ditaduras totalitárias, bem como o absolutismo nacionalista japonês. Também instauraram Estados-fantoche republicanos e apoiaram movimentos independentistas em colônias dos países Aliados.

Ideologias predominantes: integralismo, fascismo, nacional-socialismo e absolutismo.

Localização: Europa Central e Ocidental, Sudeste Asiático.

Membros mais notáveis: III Reich, Itália, Japão.
Membros menores: Romênia, Hungria, Tailândia.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de demandas diplomáticas. Depois, estabelece um pacto com a União Soviética dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e entra em guerra declarada com os Aliados na Europa Ocidental, obtendo uma vitória decisiva que obriga a retirada dos Aliados do continente. Tenta invadir a Inglaterra a partir de 1940, sem sucesso. Sem previsão de avanços no Oeste, uma ofensiva no Leste começa em 1941 violando o Pacto estabelecido 2 anos antes com a URSS. Após uma grande e violenta expansão em território soviético, sucessivas derrotas comprometem o avanço e forçam um recuo que só terminará em Berlim com a derrota do Eixo.

III. O terceiro lado: Comunistas

Situação: Regime soviético unificado instaurado em 1922 a partir da união das repúblicas soviéticas transcaucausiana, russa, ucraniana e bielo-russa. Movimentos comunistas marginais na Europa e na China. Ganhos contínuos de território na China até o fim da Guerra Civil Chinesa em 1949 e na Europa até a instauração dos governos socialistas do “Bloco do Leste” (Polônia, Romênia, Húngria, Bulgária, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Albânia e Alemanha Oriental).

Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.
Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.

Formas de governo: predomina a ditadura socialista aos moldes soviéticos.

Ideologias predominantes: marxismo-leninismo e maoísmo.

Localização: Europa Oriental, Ásia.

Membros mais notáveis: União Soviética.
Membros menores: Comunistas chineses, partisans.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de suporte a movimentos comunistas estrangeiros. Depois, estabelece um pacto com o III Reich dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e inicia a invasão da Finlândia no mesmo ano, que não avançará significativamente até 1940. Com a invasão do III Reich em 1941, busca aliança com a Inglaterra e depois com os EUA. Após sofrer grandes baixas e perdas de território para a ofensiva alemã, a reação soviética começa a impor duras derrotas e avançar para o Oeste em direção à Alemanha. Com a derrota do III Reich, a Alemanha é dividida entre os Aliados e a URSS e a Europa Oriental é submetida a governos-satélite de Moscou e aliados comunistas como Enver Hoxha na Albânia.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a atuação comunista chinesa continuará até a sua vitória na Guerra Civil Chinesa em 1949. No Sudeste asiático os movimentos comunistas continuarão avançando e estabelecendo Estados comunistas com apoio sino-soviético no norte do Vietnã e da Coréia.

Conclusões

A partir da análise das políticas adotadas pelos principais envolvidos neste grande conflito histórico, podemos chegar às seguintes conclusões:

Sobre os Aliados

1. Ao contrário do Eixo ou dos Comunistas, as potências Aliadas não tinham um plano ou agenda política universal a ser posto em prática na sua área de influência. Não havia uma ideologia, forma de governo ou política econômica que se pretendia implantar nos países vizinhos. A maioria deles já estava bem estabelecido.

2. A aliança entre diversas nações na luta contra o Eixo foi muitas vezes ambígua e meramente casual, como ilustram os membros fascistas e socialistas no bloco Aliado. O que difere o fascista no lado Aliado do fascista no lado do Eixo ou do socialista no seu próprio bloco é que este não tem um projeto de poder expansionista, por mais ditatorial que seja o seu governo.

3. Os aliados tiveram que lutar contra o imperialismo japonês na Ásia e ao mesmo tempo conter os sentimentos independentistas nas suas colônias. De um certo modo, foi a própria estrutura colonial européia que fomentou o colaboracionismo com o invasor japonês.

Sobre o Eixo

1. Concebido inicialmente como uma aliança anti-comunista no Pacto Anti-Comintern (Antikominternpakt) de 1936  entre o III Reich e o Império do Japão, o Eixo acabou convertendo-se em uma mera aliança militar para apoiar os propósitos expansionistas destes dois países. A Itália assinaria o pacto um ano depois. O Pacto seria revisado em 1941, quando contaria com a adesão de diversos outros aliados e satélites da Alemanha, da Itália e do Japão.

2. O III Reich violou os termos do Antikominternpakt ao assinar secretamente o Pacto Ribbentrop-Molotov com a URSS. Qualquer negociação territorial com a URSS era vetada pelo pacto anterior. Havia um flagrante conflito de interesses entre os próprios membros do Eixo, não raramente um tentando obter territórios do outro ou violando sua soberania, como foi o caso da Hungria e da Romênia.

3. Assim como houveram fascistas do lado Aliado, algumas nações sem governo análogo ao fascismo ou ao nacional-socialismo buscaram o apoio do Eixo para defender-se ou do expansionismo soviético, ou de guerrilhas comunistas ou para buscar sua independência, ou mesmo apenas para industrializar-se. Exemplos incluem a Finlândia, que buscou na Alemanha o seu apoio contra a invasão soviética, a China que cooperou com a Alemanha até 1941 e inúmeros grupos separatistas e independentistas na Ásia que buscaram apoio alemão ou japonês para se livrar do domínio da metrópole britânica, francesa, holandesa, etc.

Sobre os Comunistas

1. Os soviéticos tinham seu próprio projeto de expansão no Leste Europeu e na Ásia. O projeto de expansão no Leste Europeu foi facilitado pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, ao passo que o projeto de expansão na Ásia foi atrasado pela resistência dos nacionalistas chineses e pela invasão japonesa. O projeto seria retomado após a estabilização da China comunista, que apoiará guerras de procuração no Vietnã e na Coréia.

2. Desde antes da Segunda Guerra, socialistas chineses tentavam derrubar o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek, o que seria concluído em 1949. Um ano depois a China invadirá o Tibet. A nova China comunista buscará relações estáveis com a URSS que se manterão pelo menos até 1960.

3. Com o fim da Segunda Guerra, a URSS manterá o domínio sobre os territórios “libertados”  da ocupação nacional-socialista sob a forma de Estados-satélite ou zonas de influência no Leste Europeu. Outras forças socialistas instalarão governos próprios na Albânia e na antiga Iugoslávia. A porção oriental da Alemanha se manterá sob domínio comunista até 1990. Seu expansionismo continuará após a Segunda Guerra, o que gerará o conflito com os antigos Aliados (agora OTAN) e engendrará uma série de guerras de procuração durante a Guerra Fria.


Leia também:

Tudo que você deveria saber sobre o fascismo mas não quer

Benito Mussolini (1883-1945), Italian statesman.

NOTA: Quem não teve contato com textos prévios meus sobre o fascismo se poderá surpreender com algumas das minhas constatações. No final do artigo há uma lista de artigos recomendados sobre assuntos correlatos. Este artigo não consiste em apologia do fascismo. Pelo contrário, por meio dele busco demonstrar como muitos daqueles que se dizem antifascistas ou acusam os demais de fascistas na verdade seguem, mesmo sem saber, doutrinas políticas muito similares ao fascismo.

Compartilho com os leitores o resultado de meus estudos sobre o fascismo até agora. Cobrirei muitos tópicos: como surgiu, o modo de governar, o método de ascensão ao poder, as características econômicas, as relações com a arte e a religião no e as diferenças com relação a nacional-socialismo e integralismo, bem como o seu “tempo de vida”, principais teóricos e influência fora do Ocidente. Considerações sobre o “neofascismo” serão deixadas para futuros artigos.

1. Como surgiu
Quando Eugen von Böhm-Bawerk, um liberal, publicou sua refutação à teoria marxista da formação de preços, juros e salários, o marxismo entrou em crise e passou por revisões na década de 1890. Um dos mais famosos revisores do marxismo foi Eduard Bernstein, importante contribuidor para o pensamento social-democrata.

Muitos revisionistas marxistas, como Bombacci, Sombart e Sorel, se aproximaram do nacionalismo criando um socialismo nacionalista cuja primeira expressão relevante se daria na França tendo como principais expoentes Aguste-Maurice Barrès e Pierre Biétry. Os movimentos revolucionários, socialistas e nacionalistas, que surgiram deste processo se apropriaram da teoria leninista do Partido de Vanguarda. Cada movimento destes teve um nome distinto de acordo com o país em que se instalou: na Espanha se chamaram falangistas, na Itália se chamaram fascistas, na Romênia se chamaram legionários. A esta família de ideologias que poderia ser chamada de corporativismo ou nacional-socialismo deu-se o nome de “fascismo”, estendendo o nome do movimento italiano a todos os outros.

Árvore evolutiva do fascismo
Árvore evolutiva do fascismo

Da vertente nacional-socialista (corporativista, fascista, etc) austríaca nasceria o nacional-socialismo alemão a partir da infusão do nacionalismo étnico e do pangermanismo. Apesar das significativas diferenças entre o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão, estas duas ideologias costumam ser agrupadas sob um mesmo rótulo: “nazi-fascismo”.

2. Modo de governar
Com relação ao modo de governar, houveram dois tipos de fascismo: o partidocrata e o personalista. O fascismo partidocrata é aquele que institui um partido único e seu líder como o condutor da sociedade. É o caso do fascismo italiano sob regime de Mussolini.

O fascismo personalista é aquele que institui o líder condutor da sociedade mas abole todos os partidos em detrimento de uma ditadura personalista, o que inclui o próprio partido fascista do qual este veio. É o caso do fascismo brasileiro sob regime de Vargas. O fascismo romeno sob governo de Antonescu experimentou ambas as formas.

Ambas as formas de governo são amparadas tanto pelo uso intensivo da propaganda ideológica (publicidade, marchas, feriados comemorativos, eventos esportivos) quanto da repressão à oposição. O uso intensivo da propaganda é uma contribuição da antirracionalismo prático para a política do século XX e entrou no fascismo através da “teoria do mito” do sindicalista revolucionário George Sorel. Por sua vez a “teoria do partido de vanguarda” de Lenin é o motor por trás das formas partidocratas de fascismo, sendo o seu exemplo mais flagrante o “nacionalismo chinês” do Kuomintang, de inspiração claramente leninista.

3. Método de ascensão
Quanto ao método de ascensão ao poder, houve o fascismo monárquico, o fascismo republicano e o fascismo militar.

O fascismo monárquico alcança o poder através da obtenção do máximo cargo executivo dentro de uma monarquia – normalmente o de primeiro-ministro – por nomeação do monarca, espontânea ou coagida. Outro método é a assunção da regência ou um trono vacante. O primeiro caso é o caso do fascismo italiano e da ditadura espanhola de Primo de Rivera, e o segundo é caso do fascismo húngaro sob os regimes de Horthy e Szálasi.

O fascismo republicano é o que ascende ao poder ante a queda de uma monarquia determinada por golpe ou revolução, ou através da ascensão ao poder dentro de uma República. Exemplos destes são o segundo governo fascista de Mussolini na República Social Italiana e os Estados Novos de Salazar e Vargas em Portugal e Brasil, respectivamente.

O fascismo militar é o que se caracteriza pela ascensão ao poder através de golpe ou revolução militar e se mantém no governo através de um regime militar. O exemplo mais marcante é o de Francisco Franco.

4. Economia
Quanto a economia, os fascismos coincidem no que são todos notoriamente progressistas e aparecem como uma alternativa modernizadora às nações de baixo desenvolvimento industrial e comercial. O Estado cumpre papel essencial na Economia, dirigista e corporativista, através da regulamentação, subsídio, fiscalização ou mesmo gestão direta.

As classes produtivas são organizadas em sindicatos verticais alinhados com o governo, denominados corporações, que agrupam empresários e operários. O Estado determina as políticas a serem adotadas com respeito a produção e comercialização de bens, bem como as que dizem respeito aos direitos trabalhistas. Em teoria, o objetivo do fascismo é conciliar o interesse conflitante da “burguesia” e do “proletariado” sob os interesses do Estado visando uma revolução nacional. Os direitos trabalhistas são vistos como sinal de desenvolvimento sócio-econômico e uma positiva intervenção do Estado em favor das classes mais desfavorecidas, sendo sempre uma das principais bandeiras das ideologias fascistas.

A reforma agrária não é uma proposta estranha a estas ideologias e frequentemente é encarada como necessária para o desenvolvimento nacional. Nas vertentes populistas que se desenvolveram na América Latina, esta é uma característica marcante: a luta contra as oligarquias agrárias. O protecionismo é bastante valorizado por esta ideologia, já que é visto como essencial para a proteção da economia nacional e como instrumento de resistência ao capitalismo internacional. Outras políticas econômicas que se podem encontrar no fascismo são a socialização dos meios de produção através da nacionalização ou estatização, ou da participação operária nas ações das empresas. Em conformidade com uma ideologia nacionalista e revolucionária está o “produtismo” em total oposição às greves comunistas, que paralisam a produção em vez de continuá-la sob gestão operária.

5. Arte
Assim como muitos movimentos totalitários, o fascismo manifestou-se na arte através da “estética totalitária” da qual o nacional-socialismo alemão e o socialismo soviético são também grandes expoentes. Via de regra estas artes são baseadas no realismo e procuram transmitir as idéias, os valores e os ideais pregados pela ideologia oficial do Estado.

Porém, assim como o socialismo soviético e o falangismo espanhol, o fascismo italiano teve uma relação fértil com a arte modernista de vanguarda da primeira metade do século XX. O primeiro movimento modernista de grande repercussão foi justamente o futurismo italiano, cujo principal expoente era Filippo Marinetti. Marinetti e os futuristas não apenas inspiraram o modelo de ação dos primeiros fascistas – exaltando a modernidade, a tecnologia, a velocidade e a violência – como esta vertente artística permaneceu influente no Fascismo italiano mesmo depois da cisão entre o movimento artístico e o movimento político que culminaria com uma ideologia política futurista própria (a defendida pelo Partido Futurista Italiano). Um dos expoentes de dito partido era justamente um dos mentores econômicos do Fascismo: Giuseppe Bottai. Uma análise do programa do partido deixa clara a semelhança com o Partido Nacional Fascista.

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“Pessimismo e Otimismo” (1923), obra de um dos maiores pintores do movimento futurista, Giacomo Balla.

A arquitetura fascista, sobretudo, é modernista. Um de seus traços marcantes é a simetria racionalista que a distingue radicalmente de arquiteturas mais “orgânicas” e de design mais rebuscado. Este movimento arquitetônico também teve sua influência na Alemanha nacional-socialista, cujo maior expoente foi o arquiteto Albert Speer. Na Itália, os grandes nomes da arquitetura modernista fascista foram Giuseppe Terragni e Marcello Piacentini.

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Exemplos da estética totalitária, mesclando modernismo e realismo: os pavilhões do III Reich e da União Soviética na Exposição Internacional, Paris, 1937.

Exemplos da arquitetura modernista fascista incluem o Colosseo Quadrato na Itália, o Olympiastadium e o Germanstadium na Alemanha.

Na Espanha, os expoentes do modernismo falangista foram os escritores Agustín de Foxá, Rafael Sánchez Mazas e Eugenio Montes, bem como os poetas Luis Rosales. Na Itália, os principais artistas do movimento foram os poetas e autores Filippo Marinetti, Farfa, Paolo Buzzi e Armando Mazza, bem como os pintores Umberto Boccio (também escultor), Gino Severini, Giacomo Balla e Carlo Carrà e os arquitetos Ottorino Aloisio, Giacomo Matté-Trucco, Virgilio Marchi e Giuseppe Terragni.

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Grandes nomes do futurismo italiano. Da esquerda para a direita: L. Russolo, C. Carrà, F. T. Marinetti, U. Boccioni e G. Severini.

No Brasil, o modernismo também recebeu sua inspiração do nacionalismo ufanista, mas não chegou a associar-se com movimentos análogos ao fascismo em sua primeira fase, embora estivesse bem perto disso: o movimento chamado “verde-amarelismo” ou “Grupo da Anta” era formado por Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo, e por Plínio Salgado, o futuro líder da Ação Integralista Brasileira. Sua proposta era de um nacionalismo primitivista e ufanista, com uma idolatria do tupi e da anta como símbolo nacional.

6. Religião
Enquanto seu predecessor político-ideológico (o integralismo maurrasiano) advoga um nacionalismo integral que incorpora a religião local como elemento essencial da tradição, o fascismo tem uma relação mais distante com a Religião. Segundo o próprio Mussolini em sua “Doutrina do Fascismo” (1932), o Estado fascista defende e protege a Religião porque a vê como manifestação da espiritualidade popular e portanto defende “o Deus dos ascetas, dos santos e heróis” bem como o “Deus concebido pelo coração ingenioso e primitivo do povo, o Deus para o qual as orações são feitas”. Não havia portanto qualquer preocupação com uma ortodoxia religiosa específica (o Catolicismo Romano), apenas a sua manutenção como instrumento de coesão social.

Esta abordagem pragmática da religião, que é consequência lógica do antirracionalismo prático soreliano, difere radicalmente da política religiosamente inspirada de fato como são exemplos a democracia cristã, o distributismo ou a lei islâmica.

7. Diferenças entre fascismo, nacional-socialismo e integralismo

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O integralismo, ou nacionalismo integral, é uma doutrina desenvolvida originalmente na França por Charles Maurras. Caracteriza-se pelo nacionalismo integral (cívico, étnico e religioso), a diferenciação social (hierarquia institucionalizada), corporativismo econômico e político e tradicionalismo. Alguns o consideram uma forma de proto-fascismo no contexto europeu e de para-fascismo no contexto sul-americano.

Seus principais expoentes foram Charles Maurras (na França), Hipólito Raposo (em Portugal) e Plínio Salgado (no Brasil). Como o integralismo se atrela ao caráter histórico dos povos, sua forma de governo ou religião pode variar conforme o lugar em que se instala. O integralismo francês, bem como o português, era tanto monárquico quanto católico ao passo que o integralismo brasileiro era republicano.

  • Principais semelhanças com o fascismo: economia corporativista e nacionalismo cívico.
  • Principais diferenças com relação ao fascismo: nacionalismo religioso, tendência antirrepublicana e anticonstitucionalista.

O nacional-socialismo, ou socialismo nacionalista não tem uma origem certa ou um pensador fundador conhecido, tendo sua origem mais provável no Império Austro-Húngaro entre nacionalistas alemães e tchecos. O primeiro movimento de relevância a se declarar nacional socialista foi fundado na França em 1903 por Pierre Biétry e também era conhecido como “socialismo amarelo”, para diferenciá-lo do “socialismo vermelho” marxista e internacionalista. Neste ponto, a origem do fascismo e do nacional-socialismo pode ser traçada a este ancestral comum na França. A diferenciação ocorreria entre os austríacos de etnia e língua alemã que viviam no Império Austro-Húngaro através do movimento pangermanista que inspirou Adolf Hitler.

Através da inspiração do movimento pangermanista, os nacional-socialistas alemães transcendem o nacionalismo cívico e o transformam em um nacionalismo étnico. Deixa de tratar-se, portanto, de apenas mais uma variante particularista de socialismo e torna-se uma verdadeira forma de “socialismo racial”: se os fascistas levaram a guerra de classes para o nível nacional, os nazistas a levaram ao nível racial. Mais importante do que um Estado perfeito era um povo perfeito composto por uma raça perfeita. E esta é a razão pela qual não só o antissemitismo do socialismo alemão atingiu o ponto de advogar o extermínio de “raças perniciosas” (leia-se, judeus) como estava desde antes disso determinado a aperfeiçoar a própria raça através da seleção artificial dos melhores e supressão dos piores: mestiços, judeus, gays, deficientes mentais, etc.

  • Principais semelhanças com o fascismo: economia corporativista e antirracionalismo prático.
  • Principais diferenças com relação ao fascismo: nacionalismo étnico, eugenia e higienismo (antitabagismo, antialcoolismo).

8. Governos fascistas
Os exemplos históricos de governos fascistas são os que serão listados abaixo. No entanto, é notável que em muitos governos que não são considerados fascistas pela historiografia mainstream encontrem-se traços ou tendências tipicamente fascistas. Há quem afirme que governos tradicionalmente descritos como socialistas na verdade estão bem mais próximos do fascismo, como por exemplo os de Tito (Iugoslávia), Pol Pot (Camboja), Hoxha (Albânia) ou mesmo o do próprio Stalin (União Soviética). Isto se daria pela aproximação dos seus governos aos ideais nacionalistas e seu distanciamento com a política socialista “pura” de gestão operária. Neste sentido, governos como o de Chávez (Venezuela) e Castro (Cuba) também poderiam entrar na definição. A diferença entre um “nacionalismo de esquerda” e o fascismo propriamente dito parece mais nominal do que semântica.

Muitos governos autoritários tipicamente descritos como fascistas, como os Regimes Militares do Cone Sul, no entanto, não tem inspiração teórica ou ideológica fascista e são melhores descritos como “Estados Burocrático-Autoritários”, classificação criada pelo politólogo argentino Guillermo O’Donnell para descrever tais regimes.

Governos historicamente fascistas:

  • Estado Livre de Fiume (região de Rijeka na atual Croácia) – sob Riccardo Zanella de 1921 a 1922, sob Giovanni Giurati durante 1922 e sob governo militar de Gaetano Giardino de 1923 a 1924.
  • Reino da Itália – sob o mandato de primeiro-ministro de Benito Mussolini de 1922 a 1943.
  • República Social Italiana (região norte da Itália) – sob presidência de Benito Mussolini de 1943 a 1945.
  • Reino da Espanha – sob governo militar de Primo de Rivera de 1923 a 1930 e sob presidência Francisco Franco de 1939 a 1975.
  • Reino da Bulgária – sob o reinado de Boris III até 1943 e sob governos de Aleksandar Tsankov de 1923 a 1934 e de líderes do movimento Zveno de 1934 a 1935 durante este período.
  • República da China – sob presidência de Chiang Kai-shek de 1926 a 1949.
  • Estado Novo Português – sob as presidências de Antônio de Oliveira Salazar de 1933 a 1968 e sob Marcello Caetano de 1968 a 1974.
  • Estado Novo Brasileiro – sob presidência de Getúlio Vargas de 1937 a 1945.
  • Áustria – sob chancelaria de Engelbert Dollfuss de 1932 a 1934 e sob presidência de Wilhelm Miklas de 1934 a 1938.
  • Reino da Albânia – reino submetido à coroa do Reino da Itália de 1939 a 1943.
  • Reino da Romênia – sob presidência de Ion Antonescu de 1940 a 1944.
  • Reino da Grécia – sob ministério de Ioannis Metaxas de 1936 a 1941.
  • República Eslovaca – sob presidência de Jozef Tiso de 1939 a 1945.
  • Estado Francês (governo de Vichy) – sob presidência de Philippe Pétain de 1940 a 1944.
  • Estado Independente da Croácia – sob reinado de Tomislav II de 1941 a 1943 e com Ante Pavelić como primeiro ministro de 1941 a 1943, e Nikola Mandić de 1943 a 1945.
  • Reino da Hungria – sob regência de Miklós Horthy de 1941 a 1944.
  • Argentina – sob as presidências de Pedro Pablo Ramírez de 1943 a 1944, de Edelmiro Julián Farrell de 1944 a 1946 e de Juan Domingo Perón de 1946 a 1955 e de 1973 a 1974.

9. Tempo de vida
Se considerarmos fascismo como uma família de ideologias políticas que abarque também o integralismo e o nacional-socialismo, seu ciclo de vida politicamente ativa  sem participação no governo inicia-se em 1899 e se estende até hoje, num total de 114 anos. Com participação em governo, inicia-se efetivamente em 1919 com a participação da Action Française no parlamento francês e termina em 1975 com o governo de Francisco Franco, somando 56 anos.

Se considerarmos somente os movimentos corporativistas sem relação com o integralismo e o nazismo, sua vida política sem participação no governo se estende de 1901 (fundação do movimento corporativista francês de Pierre Biétry) até hoje somando 112 anos e com participação no governo desde 1921 (fundação do Estado Livre de Fiume) até 1975 (fim do governo franquista), somando 54 anos.

Cronologia do fascismo

Fases:
Maturação e Ascensão
Passa por uma fase inicial de maturação das idéias que dura desde o final do século XIX (1899) até 1921 quando é implantado o primeiro governo fascista (Estado Livre de Fiume), marco da fase de ascensão que se caracteriza pela instauração do fascismo na Itália e do Estado Novo Português e dura até 1936, ano que marcará o início da fase seguinte.

Apogeu
O ano de 1936, marcado pelo início da Guerra Civil Espanhola é o primeiro ano da fase de apogeu do fascismo com sua implantação na Espanha e na Grécia. Esta fase durará até 1945 (fim da Segunda Guerra) e verá o nascimento de governos fascistas na França, na Áustria, Hungria, na Romênia, na Argentina e no Brasil.

Declínio
Com o fim da Segunda Guerra Mundial e os países do Eixo ocupados pelas potências Aliadas, o fascismo tem sua vida política ativa no governo praticamente extinta, sobrevivendo somente nos países neutros durante a guerra (Espanha e Portugal) e na Argentina onde durará até 1955 e viverá uma curta reaparição no final da década de 70, apenas para dar um último respiro: até 1975, todos os três regimes cairão.

Após isso o que passa a existir são movimentos “neofascistas” (termo tão enganoso quanto “neoliberal”) marginalizados e radicais frequentemente envolvidos com atos de terrorismo e guerrilha.

10. Principais teóricos e intelectuais
Muitos intelectuais contribuiram para a formação teórica do fascismo, seja no campo da economia, da sociologia, da filosofia ou da arte. Para sua economia corporativista foram importantes as contribuições de Alfredo Rocco, de Giuseppe Bottai e do Papa Leão XIII. Para a idéia de um socialismo nacionalista os fundamentos vieram de Ferdinand Lasalle, Werner Sombart, Nicolas Bombacci e Charles Péguy. O sindicalismo revolucionário se fundamentava no pensamento de Hubert Lagardelle e Georges Sorel, que juntamente com Gustave Le Bon e Henri Bergson fundamentou o antirracionalismo prático. O tradicionalismo e a idéia da guerra civilizacional encontram entre seus teóricos Julius Evola, Oswald Spengler, Charles Maurras e o já mencionado economista alemão Werner Sombart.

11. Fora do Ocidente
Sabe-se que o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão tem uma forte ligação com movimentos e partidos nacional-socialistas que atualmente existem no mundo árabe. O termo “islamofascismo” é frequentemente empregado para descrever estes movimentos, embora seja erroneamente aplicado também às monarquias absolutistas e teocráticas desta região. Exemplos bastante claros da mescla desta ideologia ocidental com o Islã são o socialismo ba’ath e o pan-arabismo.

Baath-Kuomintang-Taisei_Yokusankai
As bandeiras do baathismo, do nacional-leninismo chinês e do taisei yokusankai. Apesar de haver inspiração fascista no movimento pan-arabista e no nacionalismo chinês,  o regime japonês coetâneo ao fascismo não pode ser considerado um tipo de fascismo. É, isto sim, uma forma de monarquia absolutista e teocrática comparável a alguns Estados islâmicos modernos.

Na China, o Partido Nacionalista (Kuomintang) era de inspiração claramente fascista e também leninista, abraçando abertamente a teoria leninista do Partido de Vanguarda. Sua forma autocrática e autoritária de governo se manteve no Taiwan após a derrota para os comunistas na Guerra Civil que ocorreu na China continental. Somente em 1975 o Taiwan passaria por uma redemocratização.

O que comumente chamam de fascismo japonês, na verdade, tem pouco a ver com socialismo nacionalista ou o corporativismo europeu do século XX. No Japão vigorava uma monarquia absolutista e teocrática que buscava modernizar sua economia e expandir seu território através da industrialização e do militarismo. Sua associação com o fascismo é mais diplomática do que ideológica.

12. Principais obras e documentos do fascismo:

  • Il manifesto dei fasci italiani di combattimento (Manifesto das Fasci Italianas de Combate) – por Alceste De Ambris e Filippo Tommaso Marinetti.
  • Carta del Carnaro (Carta de Carnaro) – por Gabriele D’Annunzio.
  • La dottrina del fascismo (A Doutrina do Fascismo) – por Giovanni Gentile e Benito Mussolini.
  • Manifesto di Verona (Manifesto de Verona) – por Manlio Sargenti, Angelo Tarchi, Carlo Alberto Biggini, Francesco Galanti e Nicola Bombacci.

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A Guerra de Três Lados – Parte IV

Está lá nas cartilhas do colégio: as potências que compunham o Eixo eram Alemanha, Itália e Japão. O termo designa os principais signatários do Pacto Tripartite de 1940 que foi assinado um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial. O Pacto foi assinado mais tarde também por outras nações como Hungria, Romênia e outros governos de inspiração fascista que já antecipavam o conflito iminente com os comunistas. Posteriormente integradas ao Eixo, à marra, foram as nações ocupadas pelos nacional-socialistas – como a Holanda – e governos colaboracionistas – como o da França. Incluem-se aí também inúmeros Estados-fantoche.

O que é que França, Holanda e Inglaterra tinham em comum, além de estarem sob assédio militar da Alemanha Nacional-Socialista? Todas estas nações possuíam colônias na Ásia. E estas colônias interessavam muito ao Japão, fosse por causa dos recursos ou por causa de sua posição estratégica. Em vez de aproveitar a aproximação diplomática com as metrópoles pró-Eixo, o Japão preferiu invadir as colônias e favorecer aliados na região.

Ásia II – Índia, Indochina e Pacífico

1. Invasão japonesa à Indochina Francesa (1940-1945)
Para evitar que a República da China importasse armas ou combustível através da Indochina Francesa, os japoneses invadiram este país em setembro de 1940, embora ele fosse uma colônia da França de Vichy, pró-Eixo.

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As tropas japonesas, no início de 1940, estavam se movendo para cercar Longzhou (na China), onde um braço da estrada de Hanoi alcançava a fronteira. A resistência chinesa, abastecida desde a Indochina, foi férrea.

Então, em 22 de junho, a França assinou um armistício com o III Reich, aliado do Japão no Eixo. Isto estabeleceu o governo pró-Eixo da França, a “França de Vichy”, no território francês não ocupado militarmente. Este governo pró-Eixo controlava as posses ultramarinas francesas, incluindo a Indochina.

Com a captura de Longzhou, restava livre a ferrovia que supria Yunnan. O Japão pressionou Vichy para fechá-la, mas não obteve sucesso. Por isso, os japoneses prepararam uma invasão à Indochina. Ante a ameaça, a França cedeu: assinou um acordo garantindo ao Japão o direito de estacionar e movimentar tropas e suprimentos em território indochinês, embora com limitações, prontamente violadas. Isso colocou Vichy e Japão em oposição na Batalha de Lang Son: tropas coloniais francesas e da Legião Estrangeira enfrentaram o Exército Imperial Japonês até 25 de setembro do mesmo ano. A vitória japonesa abriu caminho para Hanoi, mas Vichy ainda possuía defensores. Os conflitos continuaram, envolvendo combate aéreo e marítimo no Golfo de Tonquim e bombardeios em Haiphong, enquanto Vichy buscava negociação com o Japão.

O Japão acabou ocupando o norte da Indochina, restringindo ainda mais seu bloqueio contra a China, e ali permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial.

2. Guerra Franco-Tailandesa (1940-1941)
Conflito entre a Tailândia e a França de Vichy sobre certas áreas da Indochina Francesa que pertenceram à Tailândia no passado. Após a Queda da França em 1940, o Major-General Plaek Phibunsongkhram (“Phibun”), o primeiro ministro da Tailândia, decidiu que a derrota da França deu aos tailandeses uma outra chance de recuperar territórios perdidos.

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A ocupação da metrópole francesa pela Alemanha tornou o controle das possessões ultramarinas francesas uma tarefa mais complicada: a administração colonial, isolada, não podia obter suprimentos ou ajuda externa. Após a invasão da Indochina pelos japoneses, em setembro de 1940, os franceses foram forçados a permitir a instalação de bases militares japonesas. Isto deixou claro para o regime de Phibun que a França de Vichy não resistiria a um confronto com a Tailândia, que era relativamente bem equipada.

O conflito, que durou cerca de oito meses, foi encerrado por um cessar-fogo mediado pelos japoneses com resultado positivo para a Tailândia: os territórios disputados na Indochina Francesa foram cedidos.

Posição Política da Indochina Francesa

A Indochina Francesa era mantida como uma colônia de exploração da França. Logo após a Queda da França em 1940, assumiu como governador-geral o militar Jean Decoux, leal ao regime colaboracionista de Pétin.

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Philippe Pétain

O regime de Pétain, a “França de Vichy”, era um Estado-fantoche do III Reich, não menos autoritário. Sua soberania só se estendia sobre as zonas livres que não haviam sido ocupadas militarmente pelos alemães durante a invasão da França, o que incluia as colônias na Ásia e na África. No entanto, em novembro de 1942 também a “zona livre” seria ocupada militarmente e portanto supervisionada de perto pelos alemães.

 

Marechal Pétain colaborou com as forças de ocupação alemãs, inclusive ajudando a perseguir judeus e outros inimigos políticos. As forças militares coloniais francesas se opuseram ativamente aos Aliados, mas um conflito de interesses entre o Japão e a França de Vichy acabou por colocar ambos em guerra.

Encerrada a Segunda Guerra Mundial em 1945, a França pediu a anulação do Tratado Franco-Siamês de 1938 e tentou reassumir sua posição na região, mas entrou em conflito com o Viet Minh, uma coalização de comunistas e nacionalistas vietnamitas sob liderança de Ho Chi Minh. O Viet Minh obtivera apoio dos EUA durante a Segunda Guerra para combater os japoneses e era a guerrilha dominante nas zonas rurais.

Com a inviabilização diplomática, para a França, de reaver suas colônias perdidas, esta desistiu do conflito. Como resultado, a Indochina foi particionada em três estados independentes (Camboja, Laos e Vietnam). Estes ainda viveriam muitos conflitos militares consecutivos na Guerra Fria – as duas Guerras do Vietnã – devido a atuação de guerrilhas comunistas. De uma forma ou de outra, todos os países que compunham a península da Indochina acabaram caindo sob regimes comunistas.

3. Ocupação da Tailândia (1941-1945)
Confrontos esporádicos entre forças tailandesas e francesas irromperam ao longo da fronteira leste da Tailândia em outubro de 1940, e culminaram com a invasão ao Laos e ao Camboja em janeiro de 1941. Ainda que as forças francesas tenham sofrido nos combates em terra, sua marinha obteve uma vitória esmagadora sobre a principal frota tailandesa em Koh Chang, obrigando os japoneses a intervir e mediar o conflito.

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Apesar da mediação ter garantido conquistas territoriais para o regime tailandês, o seu desejo por mais se viu impedido por um Japão simpático ao regime francês pró-Eixo.  Os interesses militares dos japoneses na região, no entanto, não poderiam ser satisfeitos sem o acesso a portos estratéticos e o posicionamento de tropas. Assim, em dezembro de 1941 o Japão invadiu a Tailândia e, após poucas horas, venceu a batalha e ocupou o país.

Com a assinatura do armistício tailandês com o Japão, as esperanças inglesas de obter uma aliança com a Tailândia desapareceram. O país seria usado como base de operações japonesas para invadir a Malásia e a Singapura. A partir de então, uma aliança formal entre Tailândia e Japão entrou em vigor, com o primeiro oferecendo inclusive tropas para a campanha na Birmânia e declarando guerra aos EUA e ao Reino Unido.

Posição Política da Tailândia

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Plaek Phibunsongkhram

No início da Segunda Guerra, a Tailândia era regida por um governo autoritário. Seu primeiro-ministro era Plaek Phibunsongkhram, um oficial militar que nutria admiração pelo fascismo e pelo rápido desenvolvimento nacional que este parecia oferecer. Consequentemente, Phibun cultivou e intensificou o militarismo e o nacionalismo e construiu um verdadeiro culto à sua personalidade usando modernas técnicas de propaganda. O irredentismo também era uma bandeira, tipicamente francofóbica, que tinha como objetivo a restauração de territórios no Camboja e no Laos.

 

Buscando apoio contra a França e confrontada com a oposição americana e a hesitação britânica, a Tailândia buscou ajuda japonesa no confronto com a Indochina Francesa.

O Japão usou sua influência no regime de Vichy para obter concessões à Tailândia. A recuperação destes territórios e a aparente vitória do regime sobre uma potência colonial européia aumentaram a reputação de Phibun. Como o regime tailandês não se contentava com o que obteve, acabou gerando um distanciamento na sua relação com o Japão que, a esta altura, buscava fortalecer suas relações com o regime de Vichy na França colaboracionista. Este desgaste levaria à ocupação do país pelos japoneses.

4. Invasão da Malásia Britânica (1941-1942)
Conflito iniciado logo após o ataque a Pearl Harbor, é considerado a primeira grande batalha da Guerra do Pacífico. Opôs o Exército Britânico Indiano e a Austrália ao Império do Japão na região da Kota Bharu, Malásia.

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A região da Malásia era uma importante base de operações para a Royal Air Force (RAF) britânica e para a Royal Australian Air Force (RAAF) da Austrália, e portanto de grande importância estratégica. Apoiado pela Tailândia e por facilidades obtidas na Indochina através da conivência do regime de Vichy, o Japão pretendia agora usar o território tailandês para atacar a  Malásia.

Com o sucesso da operação, a Tailândia também enviou suas tropas para ocupar os estados malaios de Perlis, Terengganu, Kedah e Kelantan, sob controle britânico desde o Tratado Anglo-Siamês de 1909. Ao fim da primeira semana de janeiro de 1942, toda a região norte da Malásia já havia sido tomada pelos japoneses, enquanto Tailândia e Japão assinavam um Tratado de Amizade para consolidar sua aliança militar.

Em meados de janeiro, os japoneses já haviam alcançado o estado malaio sulista de Johore, onde enfrentaram oposição da 8ª Divisão Australiana. Em 31 de janeiro as últimas forças aliadas organizadas deixaram a Malásia e explodiram a ponte que ligava Johore a Singapura.

Em menos de dois meses, a Batalha da Malásia terminou com a derrota das forças da Commonwealth e sua retirada da península da Malásia para os fortes da Singapura. Os japoneses invadiriam a ilha de Singapura em 7 de fevereiro e completariam a conquista da ilha no dia 15 do mesmo mês.

Posição Política da Malásia

A Malásia Britânica compreendia, na época, um conjunto de Estados na península malaia e na ilha de Singapura que foram colocadas sob controle britânico entre os séculos XVIII e XX. O termo frequentemente é usado para se referir aos estados malaios sob governo indireto britânico bem como aos Estabelecimentos dos Estreitos. O território todo estava dividido em três tipos de administração colonial.

Os Estados Malaios Federados, que compreendiam Selangor, Perak, Negeri Sembilan e Pahang foram estabelecidos pelo governo britânico em 1895. O Reino Unido era responsável pelos assuntos externos e pela defesa da federação, enquanto os estados continuavam responsáveis pelas políticas domésticas. Cada um destes estados era administrado por um residente britânico. À época da invasão japonesa, Norman Rowlstone Jarett era o residente de Selangor, Marcus Rex era o residente de Perak, John Vincent Cowgill era o residente de Negeri Sembilan e C. C. Brown o residente de Pahang.

Os Estados Malaios não Federados compreendiam outros cinco protetorados britânicos na penínusla da Malásia: Johor, Kedah, Kelantan, Perlis e Terengganu. Não tinham instituições comuns e não formavam um estado único na lei internacional. Os quatro estados de Kelantan, Terengganu, Kedah e Perlis, obtidos do Sião pelos britânicos em 1909, foram temporariamente devolvidos aos tailandeses com a ajuda dos japoneses.

Os Estabelecimentos dos Estreitos compreendiam quatro territórios britânicos na região: Malaca, Penang, Singapura e Labuan. Eram colônia da Coroa e portanto respondiam diretamente ao Colonial Office em Londres, em vez do governo indiano sediado em Calcutá. Seu último governador geral foi Sir Shenton Thomas, feito prisioneiro quando da ocupação japonesa de Singapura.

A Malásia, ao contrário de outras regiões ocupadas pelo Japão, não teve Estados-fantoche estabelecidos. Foi mantida sob administração militar japonesa, com exceção dos estados do norte que foram reincorporados à Tailândia.

5. Invasão de Bornéu (1942)

A campanha japonesa na ilha de Bornéu se concentrou na vitória sobre o Reino de Sarawak, Bornéu do Norte e a parte ocidental de Kalimantan, que era parte das Índias Orientais Holandesas.

Em 1941, Bornéu estava dividida entre as índias Orientais Holandesas, protetorados britânicos (Bornéu do Norte, Sarawak e Brunei) e uma colônia da coroa britânica (Labuan).

Posição Política de Bornéu

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Charles Vyner Brooke, o último rajá branco

Os chamados “rajás brancos”, da família Brooke, estavam no comando de Sarawak a quase um século sob o Sultanato de Brunei, e desde 1888 como protetorado do Império Britânico. No momento da invasão japonesa estava no governo o terceiro (e último) rajá branco: Charles Vyner Brooke. Quando da invasão, estava visitando a Austrália e lá permaneceu até que pudesse retornar ao seu reino – ocupado pelos japoneses até 1945 -somente para abdicar no ano seguinte e incorporar seu país à coroa britânica.

 

Bornéu do Norte era, desde 1882, outro protetorado britânico. Sua administração – com exceção da política externa – estava nas mãos da North Borneo Chartered Company, uma companhia majestádica submetida à coroa britânica. O país foi ocupado pelos japoneses de 1942 a 1945, e depois de libertado pelas tropas aliadas permaneceu sob administração militar britânica até que fosse reincorporado à administração colonial.

O resto da ilha, conhecido como Kalimantan, estava sob domínio holandês.

6. Invasão das Filipinas (1941-1942)

A invasão das Filipinas iniciou em 8 de dezembro de 1941 dez horas depois do ataque de Pearl Harbor. Assim como no ataque de Pearl Harbor, as aeronaves americanas foram severamente danificadas no ataque inicial japonês: com pouca cobertura, a Frota Asiática Americana nas Filipinas se retirou para Java quatro dias depois do início do conflito. A rendição das últimas tropas filipinas e americanas em Bataan ocorreu em 9 de abril de 1942.

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O Japão ocupou as Filipinas por três anos até sua rendição no fim da guerra. Uma efetiva campanha de guerrilha das forças de resistência das Filipinas controlova sessenta porcento das ilhas, sobretudo áreas de selva e montanha. O general MacArthur as supria via submarino, enviando também reforços e oficais. Os filipinos se mantiveram leais aos Estados Unidos, parcialmente por causa da garantia de independência dada pelos americanos.

Posição Política das Filipinas

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Manuel Luis de Quezón y Molina, presidente à época da invasão japonesa.

Estabelecida em 1935, a Commonwealth das Filipinas era um Estado em comunidade com os Estados, porém com governo próprio. Durante sua década de existência, a Commonwealth possuía um forte executivo e uma Suprema Corte. Sua legislatura, primeiramente unicameral e posteriormente bicameral, era dominada pelo Partido Nacionalista, conservador de centro-direita. Seu primeiro e único presidente foi Manuel Luis Quezón y Molina, que a governou por nove anos, dois dos quais (1942-1945) em exílio.

 

 

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José Paciano Laurel y García, presidente do Estado-fantoche japonês, a Segunda República Filipina.

Quando os japoneses invadiram, instauraram um Estado-fantoche denominado Segunda República Filipina. A Commonwealth foi dissolvida e uma Comissão Executiva Filipina foi instaurada como governo, tendo Jorge B. Vargas (o prefeito da capital, Manila) como presidente. Formou-se então o KALIBAPI (sigla para “Organização a Serviço das Novas Filipinas”) pela Proclamação No. 109 da Comissão Executiva Filipina que ao mesmo tempo bania todos os partidos políticos então existentes. O Partido Ganap, pró-japonês, foi absorvido pelo KALIBAPI, que preparou a Constituição do novo Estado. O primeiro e único presidente desta república autoritária de partido único foi José P. Laurel, que apesar de ser considerado por muitos como um colaboracionista e traidor, obteve apoio popular nas eleições do pós-guerra.

7. Invasão da Indonésia (1942-1945)
Os japoneses ocuparam a Indonésia, então conhecida como Índias Orientais Holandesas, de março de 1942 até sua rendição em 1945. Este foi um dos períodos mais críticos da História da Indonésia. Sob ocupação alemã, a Holanda tinha pouca capacidade para defender sua colônia contra o exército japones, e em menos de três meses após os primeiros ataques em Bornéu o exército e a marinha japonesa venceram as forças aliadas e holandesas.

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Entre 1944 e 1945, as tropas aliadas optaram por contornar a Indonésia, não entrando em partes mais populosas como Java e Sumatra. Por isso, a maior parte da Indonésia ainda estava sob ocupação japonesa quando o Império Japonês se rendeu em agosto de 1945.

A ocupação foi o primeiro desafio sério aos holandeses na Indonésia e acabou com seu governo colonial na região. Esta ocupação causou mudanças tão numerosas e profundas que tornou possível a Revolução Indonésia, impensável apenas três anos antes. Ao contrário dos holandeses, os japoneses facilitaram a politização dos indonésios até mesmo nos vilarejos. Particularmente em Java, e em menor extensão em Sumatra, os japoneses educaram, treinaram e armaram jovens indonésios e deram voz política para seus líderes nacionalistas. A ocupação, portanto, criou as condições para a independência da Indonésia, declarada dias após a rendição japonesa no Pacífico. A Holanda tentou reaver as ‘Índias’, mas um conflito social, militar e diplomático de cinco anos acabou resultando no reconhecimento da soberania indonésia em dezembro de 1949.

Posição Política da Indonésia

Colônia holandesa desde o fim do século XVIII, a Indonésia era parte do território denominado Índias Orientais Holandesas. A ordem social colonial se baseava em rígidas estruturas sociais e raciais com uma elite holandesa vivendo separada do restante dos nativos.

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Sukarno

As políticas e estratégias coloniais eram de responsabilidade do Ministério das Colônias sediado em Hague. No século XX a colônia se desenvolveu gradualmente como um estado distinto da metrópole: em 1922 a colônia foi posta em pé de igualdade com a Holanda na Constituição, ainda que permanecesse sob o Ministério das Colônias. Mesmo com a introdução de um Conselho Popular (Volksraad) em 1918, a participação de nativos era muito restrita. Apesar das decisões serem tomadas pelo governo holandês, o governador-geral deveria consultar a Volksraad sobre questões mais importantes. O Volksraad foi dissolvido em 1941 pelas forças de ocupação japonesa.

A Holanda havia sido invadida pelo III Reich em 1940 e estava sob um regime de ocupação. Ainda assim declarou guerra ao Japão tão logo este invadiu suas colônias. Porém, as Forças Livres Holandesas – compostas por remanescentes da Marinha Real Holandesa e do Exército Real das Índias Orientais Holandesas – continuaram a luta ao lado dos Aliados (americanos, britânicos e australianos).

Com o fim da Segunda Guerra e da ocupação japonesa em 1945, ocorre a Revolução Nacional Indonésia, conflito que opõe movimentos independentistas e nacionalistas indonésios às forças coloniais holandesas e seus aliados britânicos. O líder da Indonésia independente seria uma figura nacionalista expressiva, já em formação desde a ocupação japonesa (com a qual colaborou): Kusno Sosrodihardjo, o Sukarno.

8. Ocupação da Birmânia (1942-1945) e Invasão à Índia (1944)
O Japão decidiu invadir a Birmânia, então possessão do Império Britânico, para obter recursos naturais como petróleo e cobalto, mas também para proteger o seu flanco no ataque à Malásia e Cingapura.

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Um fator adicional foi  a finalização da Estrada da Birmânia em 1938, que ligava o país à província chinesa de Yunnan. Esta estrada era usada para levar apoio e munição às forças nacionalistas chinesas que combatiam os japoneses. Por isto, os japoneses precisavam cortar esta rota de suprimentos.

Os japoneses ocuparam o norte da Tailândia, que possuíam um tratado de amizade com o país desde 1941 e daí atacariam a Birmânia pelo sul. Depois do sucesso inicial na invasão e ocupação do território em 1942, os japoneses e seus aliados (birmaneses e indianos colaboracionistas) conseguiram defender este território das investidas Aliadas (EUA, Império Britânico e República da China) até 1944, ano em que o Japão tentou, sem sucesso, invadir a Índia – também possessão britânica. Após perder batalhas em Imphal e Kohima, os japoneses gradualmente perderam este território para as ofensivas Aliadas.

Política da Índia

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Archibald Wavell, o último governador-geral e vice-rei da Índia.

O subcontinente da Índia, que incluia o Paquistão e a Birmânia, caiu sob domínio britânico em 1858 e foi administrado como uma colônia britânica até sua independência em 1947. Quando do início da Segunda Guerra Mundial, as tensões sociais geradas no país quase culminaram em uma guerra separatista, uma vez que nesta mesma época não só os hindus buscavam mais autonomia como os muçulmanos do país tentavam obter o status de estados independentes, o que seria obtido em 1947 com a separação do Paquistão. Entre 1936 e 1943 foi governada pelo governador-geral e vice-rei da índia, o Segundo Marquês de Linlithgow, Victor Alexander John Hope, sucedido no cargo pelo marechal de campo e Primeiro Conde Wavell, Sir Archibald Percival Wavell, que governou até a independência do país em 1947.

Estima-se que mais de dois milhões de indianos prestaram serviço militar voluntário no Exército Britânico, desempenhado grande papel em numerosas campanhas, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África.

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Subhas Chandra Bose

Por outro lado, uma força nacionalista, emancipacionista e pró-japonesa também existia: era o Exército Nacional Indiano formado em 1942 por ex-prisioneiros de guerra capturados pelos japoneses na Malásia e em Singapura. Este exército era também parte de um governo nacionalista provisório em exílio, o Azad Hindi ou Governo Provisório da Índia Livre, apoiado pelo Japão e sediado na Singapura ocupada. Seu líder era Subhas Chandra Bose, um nacionalista que recorreu ao III Reich, à União Soviética e ao Império do Japão para obter apoio à sua causa: a expulsão dos britânicos e a independência da Índia.

Em 1942, uma missão britânica (a Missão Cripps) se encarregou de assegurar a cooperação de nacionalistas indianos no esforço de guerra em troca de uma prometida independência após o fim da guerra. No mesmo ano, seria lançado o movimento “Quit India” (saia da índia) que exigia a imediata retirada dos britânicos da índia sob ameaça de massiva desobediência civil. A repressão política não tardou a colocar milhares de pessoas na cadeia até pelo menos 1945: o país se viu atordoado por protestos violentos de estudantes e camponeses, rapidamente contidos pelo Exército Britânico. Nada disso, no entanto, parece ter reduzido os esforços de guerra britânicos.

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Mahatma Gandhi

Durante o longo processo político que culminou com a independência do país, um nome se destaca. Exercendo ativismo político pacífico, mas radical, Mahatma Gandhi é talvez o indiano mais conhecido ao redor de todo o mundo: suas marchas e protestos contra o colonialismo no país já eram conhecidas desde a década de 30. Manteve sua posição pró-independência mesmo no auge da Segunda Guerra, em 1942, quando chegou a ser preso por dois anos.

No final de 1945 a Inglaterra ofereceria à India uma limitada autonomia dentro do Império Britânico, prontamente rejeitada. Em 1946, motins explodiriam entre os militares em Bombay, Calcutá, Madras e Karachi, sendo rapidamente reprimidos. As tensões levariam o governo trabalhista britânico a agir mais rápido, convocando novas eleições na Índia e agilizando o processo de independência. Conforme as tensões entre hidus e muçulmanos cresciam, Jawaharlal Nehru assumiu o governo interino como primeiro ministro.

Em 1947 os britânicos transferiram o poder sobre o país para o governo local, não sem antes mediar a partição do país entre hindus, sikhs e muçulmanos, separando o Paquistão do restante do país. Em áreas fronteiriças, no entanto, os conflitos religiosos perdurariam.

Política da Birmânia

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Ba Maw

Os britânicos mantiveram a Birmânia como uma província da Índia, também sua colônia, desde 1886 até 1937 quando o país recebeu uma nova constituição e uma assembléia própria. Embora ainda fosse uma colônia britânica, possuía mais autonomia do que quando era uma província.

O país foi governado pelo primeiro-ministro Ba Maw até 1940. Ba Maw, do “Partido do Homem Pobre”, se opunha à participação da Grã-Bretanha e, por extensão, da Birmânia na Segunda Guerra Mundial. Por este motivo, foi preso por sedição em 1940. Quando o país foi invadido pelo Japão em 1942, Ba Maw foi libertado pelos japoneses e posto na administração provisória do território.

Em 1943, o Império do Japão estabeleceu um Estado-fantoche, o Estado da Birmânia. Ba Maw, ex-premiê da colônia, foi feito chefe de Estado nominal. A promessa era de independência para a Birmânia ao final da guerra, o que não se concretizaria sob o mando japonês que se retirou em 1945, o que levaria o Estado-fantoche ao colapso.

Conclusão:
O Império Japonês foi muito mais hábil que as outras potências do Eixo ao mobilizar forças nativas contra os Aliados porque contava com o sentimento anticolonialista de diversos grupos asiáticos vivendo sob mando francês, britânico, holandês, etc. A sua “Esfera de Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental” oferecia uma alternativa de independência aos regimes coloniais e foi de fato muito atrativa para diversos movimentos nacionalistas que viam na aliança com o Japão – a primeira e única superpotência asiática capaz de enfrentar e vencer os ocidentais – a oportunidade de engrandecer suas nações e se livrar de uma história humilhante de submissão ao estrangeiro.

Por isto, o Japão estabeleceu muito mais Estados-fantoches que as potências do Eixo na Europa: para os países da Ásia, a simples oportunidade de ter um autogoverno limitado por uma potência asiática era um grande avanço com relação ao governo colonial sediado na Europa. Como o colonialismo é propício para acender os ânimos nacionalistas, a Commonwealth britânica vivia sob o perigo constante de ter suas colônias arrebatadas por algum movimento nacionalista e independentista que as colocasse nas mãos do Japão, e a situação não era muito diferente para a França ou a Holanda.

Ao contrário do que se pensa, o Japão cometeu falhas mais insensatas do que outras potências do Eixo. Por não ter articulado suas ações com os regimes pró-Eixo da França e da Holanda – potenciais aliados em manobras militares contra britânicos, americanos e chineses – guerreou contra forças coloniais que poderiam ser suas aliadas. Uma falha maior do que as trapalhadas italianas na África, mas que não impediu o Japão de manter-se em guerra até mesmo depois da rendição da Alemanha.


Leia também:

A Guerra de Três Lados – Parte III

Não faz sentido dizer a um asiático que o início da Segunda Guerra Mundial é marcado pela invasão da Polônia. A Coréia foi anexada pelo Japão em 1910. ainda no governo do Imperador Meiji, continuando sob domínio japonês durante o Taishou e o Shouwa até sua independência em 1945. Os chineses viveram um período conturbado e cheio de conflitos desde o fim do Império Qing, sofrendo invasões soviéticas, tibetanas, japonesas, além de revoluções islâmicas e comunistas. De conflitos internos entre senhores da guerra a guerra civil, passando por invasões estrangeiras, movimentos emancipacionistas e revoluções islâmicas, tudo foi experimentado pelos chineses.

Faz sentido, portanto, retroceder um pouco no tempo e voltar para o início da década de 30, porque a República da China é reconhecida na história oficial como um dos Aliados na luta contra o Eixo (neste caso, o Japão) a partir de 1941. Porém, a China já enfrentava o Japão desde pelo menos 1931… foram os Aliados ocidentais que entraram no conflito 10 anos depois. E também porque outro reconhecido “Aliado”, a União Soviética, faz uma pontinha nesta história tanto se defendendo dos ataques japoneses quanto investindo contra os chineses.

Ásia I – China, Mongólia e União Soviética

1. Guerra Sino-Soviética – nacionalistas contra comunistas em uma das fronteiras mais instáveis da Ásia
Dois anos antes do Japão invadir a Manchúria, a China entrou em conflito com a União Soviética nesta mesma região, em 1929. Este conflito, mais especificamente entre a União Soviética e o senhor da guerra chinês Zhang Xuelian, ocorreu por causa de uma linha ferroviária de grande importância econômica na região, a Ferrovia Trans-Manchuriana.

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Quando os chineses confiscaram a Trans-Manchuriana em 1929, uma rápida intervenção militar soviética pôs fim à crise e forçou os chineses a aceitaram a restauração da administração conjunta da ferrovia.

2. Invasão de Xinjiang – rebeliões islâmicas, colaboracionistas e invasão soviética
A invasão soviética à Xingjiang foi uma campanha militar na região sudoeste da China, em 1934.

A sua raíz remonta à Revolta de Kumul. Nesta revolta, uigures realistas partidários do Khanato de Kumul – um feudo monárquico islâmico semi-autônomo dentro da extinta Dinastia Qing- lutavam para manter sua independência que estava ameaçada pelo governador provincial pró-soviético de Xinjiang, Jin Shuren, e seu sucessor também pró-soviético Sheng Shicai. Os rebeldes islâmicos foram apoiados em sua jihad pelo governo nacionalista chinês.

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Uma vez deposto Jin Shunren na batalha de Urumqi em 1933, seu sucessor Sheng Shicai manteve-se em confronto com os islâmicos buscando tomar o controle de Xinjiang, apoiado com tropas, tanques, aviões e artilharia soviética. No entanto, como a guerra parecia inconclusiva, a província de Xinjiang acabou sendo dividida em duas e um cessar-fogo foi acordado.

Outro conflito entre islâmicos apoiados por nacionalistas, o governo provincial pró-soviético e a União Soviética ocorreria ainda em 1937. Desta vez, com o regime pró-soviético de Sheng Shicai vitorioso, toda a província de Xinjiang caiu sob domínio soviético.

Posição Política de Xinjiang

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Muçulmano e senhor da guerra, o general Ma Zhongying liderou tropas muçulmanas contra o governo provincial de Xinjiang.

A província chinesa de Xinjiang foi um verdadeiro caldeirão de conflitos políticos. Nesta região, uma nascente república islâmica lutava por seu espaço: a República Islâmica do Turquestão Oriental. Somada a ela, outros islâmicos lutavam por sua autonomia, tanto com relação aos senhores da guerra, quanto com relação ao governo nacionalista chinês, quanto com relação à vizinha União Soviética.

Os islâmicos não possuíam alianças formais nem eram uma potência unificada, atuando como milícias pouco coesas e muitas vezes combatendo entre si. Do lado do governo nacionalista chinês, de certo modo, os senhores da guerra do clã Ma (Ma Bufang, Ma Zhongying, Ma Hushan, Ma Zhangcan) lograram uma cooperação entre os rebeldes islâmicos e o governo nacionalista chinês na luta contra os soviéticos e seus colaboradores chineses.

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Sheng Shicai, o governador provincial comunista de Xinjiang. Na prática, um fantoche do governo soviético.

O governador provincial pró-soviético, Jin Shuren, bem como seu sucessor Sheng Shicai, colocaram o destino desta região, gradualmente, nas mãos da União Soviética. Em seu governo despótico, as disputas étnicas por territórios acabaram se agravando. Para resolver seus problemas internos, Jin recorreu a um tratado ilegal com a União Soviética, obtendo deste país armamento para suprimir revoltas internas. Deposto, acabou preso pelo governo nacionalista chinês quando retornou à China, porém foi solto em breve.

Seu sucessor, o senhor da guerra Sheng Shicai, era um de seus subordinados antes de sua deposição. Responsável por reprimir a Revolta de Kumul, obteve o governo sobre a província de Xinjiang através de uma série de acordos ilegais com a União Soviética sendo o segundo no comando logo após o Consul soviético, que era o líder de facto. Xinjiang, na verdade, passou a ser um estado satélite soviético.

3. Invasão da Manchúria – O Japão ocupa o “pote de mel” da Ásia.
A invasão do Império Japonês à Manchúria, que era então uma província da República da China, começou em 19 de setembro de 1931 logo após o que ficou conhecido como “incidente de Mukden”. O Império Japonês instaurou aí um Estado-fantoche chamado Manchukuo, que se manteve ocupado pelo menos até o fim da Segunda Guerra. Devido a conflitos diplomáticos consequentes desta operação militar, o Japão se retirou da Liga das Nações.

Posição Política da Manchúria

Emperor Henry Pu Yi, Puppet Monarch
Puyi, o último herdeiro do Império Qing, reabilitado como imperador de Manchukuo.

Um terreno disputado historicamente pela Rússia, pela China e pelo Japão – devido a fartura em recursos minerais e importância estratégica, esta região viveu poucos momentos de paz no século XX.

Desde 1922, sua independência foi mantida pelo seu senhor da guerra Zhang Zuolin. Em 1928, no entanto, a província da Manchúria figurava entre as recentes conquistas do governo nacionalista de Chiang Kai-shek. Zhang Zuolin foi morto em um ataque a bomba – perpetrado pelos japoneses – que pretendia desestabilizar as relações políticas na região em favor do Japão, que invadiria  região em 1931.

Durante a ocupação japonesa da Manchúria, que durou de 1932 a 1945, um Estado-fantoche pró-japonês foi estabelecido. Sua forma de governo nominal era uma monarquia constitucional, embora na prática fosse uma ditadura de partido único liderada pelo Associação Concórdia, um partido nacionalista e monárquico. O líder nominal da nação, Puyi, era o último imperador do regime Qing derrubado em 1912. Na prática, funcionava como um território japonês dentro da Ásia continental, por onde as forças militares japonesas poderiam transitar e operar livremente, bem como explorar recursos naturais em benefício do Império Japonês.

4. Guerra Nipo-Soviética – Os japoneses se aventuram pela Sibéria e pela Mongólia

Antes da ocupação japonesa da Manchúria, a União Soviética havia entrado em conflito com a China nesta região. Após a ocupação japonesa da Manchúria, o Japão voltou seus interesses militares aos territórios soviéticos, e pequenos conflitos ocorreram na fronteira da Manchúria de 1932 até 1937. A Manchúria fazia fronteira com a Mongólia, um Estado-fantoche da União Soviética.

Khalkhin_Gol_Soviet_offensive_1939

A primeira grande Batalha, no entanto, foi a do Lago Xasan – que durou de julho a agosto de 1938 -, quando tropas de Manchukuo tentaram uma incursão militar em território soviético, sem sucesso.

A segunda foi a Batalha de Xalxin Gol, que durou de maio a setembro de 1939. Nesta segunda, a causa teria sido a penetração de uma unidade de cavalaria mongol em território manchu. Tropas manchus a fizeram recuar para além do rio Xalxin Gol, mas os mongóis retornaram em maior número. O conflito foi escalando, com o aumento de tropas japonesas, mongóis e soviéticas crescendo até que o conflito tomou grande proporção.

A vitória dos soviéticos e mongóis assegurou a integridade do território soviético e mongol da invasão japonesa e contribui significantemente para a mudança da estratégia do Império do Japão, que passou a priorizar ações no Sudeste Asiático e no Pacífico, em vez de tentar avanços pela Sibéria. A situação se normalizaria com o Pacto de Não-Agressão entre Japão e URSS de 1941.

Posição Política da Mongólia

Um país que viveu muito tempo sob tutela da China, a Mongólia só conseguiu obter sua independência quando o Império Qing ruiu em 1911. Mesmo assim, sua autonomia foi prontamente violada pela nascente República da China, que o ocupou de 1919 a 1921 até que uma revolução comunista, apoiada pelo Exército Vermelho soviético, instaurou um novo regime e fez dela a República Popular Mongol.

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Xorloogiin Choibalsan

Durante o período que vai de 1931 (ocupação japonesa da Manchúria) a 1941 (assinatura do pacto de não-agressão nipo-soviético), o país teve vários chefes de Estado, passando por Losolyn Laagan (1930-1932), Anandyn Amar (1932-1936), Dansranbilegiin Dogsom (1936-1939) e Gonchigiin Bumtsend (1940-1953). Amar e Dogsom não puderam reagir enquanto os soviéticos orquestravam os expurgos na Mongólia, que por fim alcançariam eles próprios, ambos condenados por crimes “contrarrevolucionários”, presos e executados.

Bumtsend não possuía já poder algum quando de sua eleição para o cargo, já que a maioria dos poderes haviam sido transferidos ao cargo de primeiro-ministro. Este foi ocupado de  1939 até 1952 por Xorloogiin Choibalsan, “o Stalin da Mongólia”, que logrou uma ascenção meteórica ao poder no país ao colaborar com o expurgo soviético que eliminou Amar e Dogsom, e foi também o responsável pela quase extinção do Budismo no país, bem como a perseguição de minorias étnicas como buriatos e cazaques, além de dissidentes políticos.

Não demoraria para a presença japonesa na Manchúria justificar a presença de tropas soviéticas no país, que passaria a ser um Estado-fantoche da URSS.

5. Segunda Guerra Sino-Japonesa
A Segunda Guerra Sino-Japonesa começa com a Invasão da Manchúria, mas não se limita a ela. O combate se intensificaria a partir de julho de 1937, quando tropas japonesas dominaram as cidades de Beijing e Tianjin no que ficou conhecido como o incidente da ponte Marco Polo.

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Apesar dos japoneses estarem relutantes, de início, em escalar o conflito da Manchúria para uma guerra total, Chiang Kai-shek – líder do governo nacionalista chinês – mobilizou rapidamente o exército e a força aérea do governo sob seu comando direto e atacou tropas marítimas japonesas em Shanghai (agosto de 1937), levando à Batalha de Shanghai – vencida pelos japoneses depois de três meses de combate extenuante e um grande número de baixas.

Os japoneses capturaram a capital do governo nacionalista, Nanjing (Nanquim) e Shanxi do Norte no final do mesmo ano de 1937. Neste processo ocorreu o que ficou conhecido como Massacre de Nanquim (ou Estupro de Nanquim). Com a sucessiva captura de Wuhan em 1938, o governo nacionalista mudaria então sua capital para Chongqing, que logo também seria alvo de ataques aéreos.

No início de 1939 a guerra entraria em nova fase com as derrotas japonesas inesperadas em Changsha e Guangxi, o que incentivaria uma contra-ofensiva chinesa – mal sucedida – em 1940. Devido à problemática administrativa dos territórios tomados, os japoneses optaram pela estratégia de criar governos fantoches nos territórios conquistados, o mais proeminente sendo o Governo Nacional Reorganizado da China. Todos eles eram extremamente impopulares e inefetivos, sendo o único sucesso político japonês na região o recrutamento de um grande exército colaboracionista para manter a segurança nas áreas ocupadas.

Em 1941, o Japão controlava a maior parte das áreas costeiras da China e do Vietnã, mas guerrilhas continuaram a operar nestas áreas, de modo similar ao que ocorria na França ocupada. Até esta época, antes da entrada dos Aliados na guerra contra o Japão, a China tinha que se contentar com parcos apoios soviéticos ou nazistas aos seus esforços de guerra, que chegavam tanto para o governo nacionalista quanto para milícias revolucionárias comunistas. Neste momento, o conflito entre nacionalistas e comunistas havia dado lugar a luta contra um inimigo comum, embora sem nenhuma cooperação.

Com a entrada dos Aliados no conflito contra o Japão, a China passa a fazer parte do Teatro de Operações China-Birmânia-Índia e consegue reverter a situação com o apoio anglo-americano: as tropas japonesas se renderiam antes mesmo de serem expulsas do continente, por causa do bombardeio atômico. A China se livrava do invasor japonês para então ver-se novamente mergulhada na guerra civil entre nacionalistas e comunistas.

Posição Política da China

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Chiang Kai-shek. Líder do Kuomintang, o partido “nacional-leninista” da República da China.

A República da China, fundada em 1912 quando uma revolução derrubou o Império Qing, era governada então pelo Partido Nacionalista (Kuomintang). Para estabelecer uma autoridade em todo o território chinês foi necessário derrubar um líder revolucionário com pretensões imperialistas (Yuan Shikai), bem como senhores da guerra hostis ao governo.

Estabelecido um governo central unificado e sediado em Nanquim, Chiang cortou relações com os comunistas e os expulsou do Partido Nacionalista. Desde então haveriam conflitos constantes entre o governo, nacionalista, e o Partido Comunista da China. Os conflitos escalariam para uma Guerra Civil entre comunistas e nacionalistas em 1927, interrompida para combater os invasores japoneses.

Mao
Mao Tsé-tung, o líder revolucionário comunista que derrubou o governo nacionalista e fundou a República Popular da China.

Apesar do nome, o governo chinês, obra de Sun Yat-sen, foi inspirado no modelo soviético e no leninismo, tendo o Partido como o centro da atividade política e a ditadura como modus operandi. Apesar de cooperar com a Alemanha intensivamente após a ascensão dos nacional-socialistas ao poder, a aliança do III Reich com o Japão em plena guerra sino-japonesa minou as relações do governo chinês com o governo alemão. Isto foi compensado com a colaboração americana e soviética nos esforços de guerra contra os japoneses.

Segundo a ideologia de Sun Yat-sen, era objetivo final do governo o estabelecimento de uma democracia, e foi isso que o Partido tentou: a Constituição promulgada em 1947 estipulava um sistema pluriparditário onde todos os partidos tivessem igual status, e o Exército Nacional Revolucionário – que era do Partido Nacionalista – foi devolvido ao controle civil como Exército da República da China.

Wang Jingwei
Wang Jingwei

Durante a ocupação japonesa, pelo menos quatro Estados-fantoche foram criados em territórios da China. Destes, um era Manchukuo (Manchúria), e outros três (Governo Reformado da República da China, Governo Provisório da República da China e Mengjiang) foram unificados no Governo Nacional Reorganizado da China (GNRC). O GNRC era nominalmente presidido pelo nacionalista Wang Jingwei, mas o poder era de fato exercido pelo comandante japonês das forças estacionadas na China.

A Guerra Civil Chinesa, reacendida logo após a expulsão do inimigo japonês, colocou o país sob um regime militar do Partido Nacionalista durante o “período de mobilização” (1947-1949). Neste período crítico, os nacionalistas perderam o poder da China continental para os comunistas e moveram-se para o Taiwan, que viveria sob lei marcial até 1991. A China continental, por sua vez, cairía sob as mãos dos comunistas e seria liderada pelo ditador Mao Zedong até 1976.


Comentário:

Estudar a posição da China no conflito nos dá a oportunidade de ver a complexidade das alianças na Segunda Guerra. O governo “nacional-leninista” chinês flertou com a Alemanha Nazista, a União Soviética e por fim recebou o apoio militar das democracias ocidentais (Inglaterra, Reino Unido, Austrália) para combater os japoneses. Mas não sem pagar o preço pela sua ambiguidade: dividido, o governo foi vitimado por secessões colaboracionistas tanto por parte dos comunistas pró-soviéticos como dos nacionalistas pró-japoneses, além de uma guerra civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista que culminaria com a divisão das “duas Chinas”. O resultado deste conflito interno perdura até hoje: a China continental comunista ou República Popular da China separou-se de facto  da China insular nacionalista (Taiwan) ou República da China.

Também é interessante notar a atuação da União Soviética. Apoiou o governo nacionalista chinês contra os japoneses, ao mesmo tempo que alimentava seus inimigos do Partido Comunista a ponto de transformar parte do território chinês em um Estado-fantoche. Através de um tratado de neutralidade com o Japão, reconheceu como legítimo o Estado-fantoche de Manchukuo (região ocupada na China), em troca do reconhecimento do seu próprio Estado-fantoche na Mongólia.


Leia também:

A Guerra de Três Lados – Parte II

Dando continuidade a nossa série de artigos sobre a Segunda Guerra Mundial, nesta segunda parte analisaremos os conflitos e alianças estabelecidos pelas Potências do Eixo e por países na região dos Balcãs e do Mar Adriático. Desta vez, veremos um tipo de relação política muito distinta daquela que vimos no primeiro artigo: aqui não há espaço para democracias e repúblicas parlamentares, aqui a disputa é entre ditaduras monárquicas e regimes nacionalistas em uma encarniçada relação fratricida de submissão, adulação e confronto.

Europa II – Balcãs e Adriático

1. Invasão da Albânia
A Itália começou a penetrar na economia deste país em 1925 através de acordos que permitiam à Itália explorar seus recursos minerais, seguidos do Primeiro Tratado de Tirana de 1926 e do Segundo Tratado de Tirana de 1927, que colocavam Itália e Albânia em uma aliança defensiva. O rei Zog I da Albânia, no entanto, recusou uma renovação do Tratado de Tirana em 1931.

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Após assinar acordos com a Iugoslávia e a Grécia em 1934, Mussolini tentou intimidar os albaneses enviando uma frota de encouraçados ao país. Cinco anos mais tarde Mussolini decidiu anexar a Albânia, proposta esta criticada pelo rei da Itália (Vitor Emanuel III). Roma enviou um ultimado a Tirana em 25 de março de 1939. Zog recusou a proposta e o conflito, ocorrido entre 7 e 12 de abril de 1939, foi vencido rapidamente pelos italianos.

O Parlamento da Albânia votou pela deposição de Zog e pela união da nação com a Itália “em união pessoal”, oferecendo a coroa da Albânia ao rei da Itália. Ficava assim a Albânia submetida ao Reino da Itália.

Posição política da Albânia

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Rei Zog I da Albânia

A Albânia vivia sob uma monarquia constitucional desde 1928: a nova constituição aboliu o senado albanês, criando uma assembléia unicameral, mas o rei Zog I manteve os poderes ditatoriais que já possuía como presidente.

O reino era apoiado pelo regime fascista na Itália, e ambos os países matinham relações próximas até a sua invasão em 1939. A economia era totalmente dependente da Itália e as suas forças armadas eram treinadas por instrutores italianos. Para equilibrar a relação de poder, Zog mantinha oficiais britânicos na gendarmeria, apesar da pressão italiana para removê-los.

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Shefqet Vërlaci, primeiro-ministro após a unificação dos Reinos da Albânia e da Itália.

Como a Albânia não conseguia pagar as dívidas contraídas com a Itália, Roma a pressionava para adotar medidas pró-italianas como a nomeação de italianos para a gendarmeria, cessão dos monopólios sobre açúcar, telégrafos e energia elétrica à Itália, ensino da língua italiana em todas as escolas, admissão de colonos italianos, etc. Zog recusou, e ainda ordenou um corte no orçamento nacional de trinta por cento, demitiu os conselheiros militares italianos e nacionalizou escolas católicas geridas pela Itália no sul do país. Não demorou muito para que Mussolini decidisse invadir o país.

Não querendo tornar-se um fantoche da Itália, o rei Zog e sua família fugiram para a Grécia e então para Londres. Com a sua deposição pelo Parlamento e a subsequente decisão de ceder a coroa da Albânia ao rei Vitor Emanuel III da Itália, os italianos montaram um governo fascista com Shefqet Vërlaci como primeiro ministro até 1941. Este, por sua vez, foi sucedido por Mustafa Merlika-Kruja que assumiu o cargo até 1943.

2. Guerra Greco-Italiana e Batalha da Grécia
Conflito entre a Itália e a Grécia, ambos regimes autoritários de inspiração fascista, de 28 de outubro de 1940 a 23 de abril de 1941. Marca o início da campanha dos Balcãs da Segunda Guerra Mundial e a contra-ofensiva inicial grega é considerada a primeira campanha terrestre bem sucedidade contra o Eixo.

O conflito conhecido como Batalha da Grécia começa com a intervenção do III Reich em 6 de abril de 1941 e termina no dia 30 do mesmo mês com vitória do Eixo sobre a Grécia e os Aliados (Reino Unido, Nova Zelândia e Austrália).

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A invasão da Grécia continental pelo III Reich, ou Operação Marita, foi complementada pela invasão da ilha de Creta pelo III Reich, a Operação Merkur. Juntamente com a invasão da Iugoslávia, estas duas operações foram parte da Campanha dos Balcãs.

Posição política da Grécia

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Rei Jorge II da Grécia

Após um disputado plebiscito, Jorge II retornou para tomar o trono em 1935. Temendo os comunistas, Jorge II apontou Metaxas, o ministro da guerra, como primeiro ministro em 13 de abril de 1936, indicação esta confirmada pelo parlamento grego.

Metaxas, com apoio do rei, declara um estado de emergência em 4 de agosto de 1936, suspende o parlamento e vários artigos da constituição. O regime criado como resultado deste auto-golpe ficou conhecido como “o 4 de agosto”. A propaganda do regime apresentava Metaxas como “o Primeiro Camponês”, “o Primeiro Operário” e “o Pai Nacional” dos Gregos. Metaxas adotou o título de Arkhigos, nome grego para “líder” ou “capitão”, e clamou por uma “Terceira Civilização Helênica”, sucessora da Grécia Antiga e do Império Grego Bizantino na Idade Média.

Metaxas baniu partidos políticos, proibiu greve e introduziu a censura da mídia. Junto com o anti-parlamentarismo, o anti-comunismo formava a segunda maior agenda política do regime: a supressão do comunismo foi seguida pela campanha contra literatura ‘anti-grega’. O próprio Metaxas tornou-se Ministro da Educação em 1938 e reescreveu textos escolares para se adaptarem à ideologia do regime.

Metaxas
Ioannis Metaxas

Tentando construir um estado corporativo e assegurar o apoio popular, Metaxas adotou ou adaptou muitas instituições da Itália fascista: o Serviço de Trabalho Nacional, jornada de trabalho de oito horas, melhorias compulsórias nas condições de trabalho, o instituto de segurança social.

Metaxas era neutro na política externa, tentando um equilíbrio entre Reino Unido e Alemanha. O próprio Metaxas tinha uma reputação de germanófilo, mas o rei Jorge e as elites do país eram anglófilas, e a predominância da Royal Navy britânica no Mediterrâneo não podia ser ignorada por um país marítimo como a Grécia. Os objetivos expansionistas de Mussolini inclinaram a Grécia a uma aliança franco-britânica, embora a literatura do regime fosse elogiosa a estados autoritários, especialmente os de Franco, Mussolini e Hitler.

3. Invasão da Iugoslávia
Ataque do Eixo liderado pelo III Reich ao Reino da Iugoslávia que se iniciu em 6 de abril de 1941. A invasão começou com um ataque aéreo da Luftwaffe (força aérea alemão) à cidade de Belgrado e às instalações da Força Aérea Real Iugoslava, além das forças terrestres alemãs estacionadas no sudoeste da Bulgária, seguidas de invasões alemãs partindo da Romênia, Hungria e Áustria (então parte do III Reich).

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As forças italianas se limitaram a ataques aéreos e de artilharia até 11 de abril, quando o exército italiano atacou Ljubljana. No mesmo dia, forças húngaras entraram em Bačka e Baranya, mas como os italianos não encontraram resistêncio. Um ataque iugoslavo no norte do protetorado italiano da Albânia foi inicialmente bem sucedido, mas inconsequente devido ao colapso do resto das forças iugoslavas.

A invasão terminou com a rendição incondicional do Exército Real Iugoslavo em 17 de abril de 1941. A Iugoslávia foi então ocupada e dividida pelas potências do Eixo. Algumas áreas foram anexadas por países vizinhos, outras permaneceram ocupadas e em outras, estados-fantoche como o Estado Independente da Croácia (Nezavisna Država Hrvatska, or NDH) foram criados.

Posição política da Iugoslávia

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Príncipe regente Paulo da Iugoslávia

A Iugoslávia vivia sob uma ditadura monárquica até que o rei e ditador Alexandre I da dinastia sérvia de Karađorđević foi assassinado na França, em 1934, por um membro da IMRO (Organização Revolucionária Interna Macedônia), em conluio com a Ustasha – movimento revolucionário banido do país, e que viria a governar o Estado-fantoche da Croácia após a invasão nacional-socialista. Como o filho mais velho de Alexandre, Pedro II, era menor de idade, um conselho regente composto de três pessoas assumiu o governo. O conselho era dominado pelo primo do rei de jure, Príncipe Paulo.

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Ante Pavelič, líder da Ustaša e do Estado-fantoche da Croácia

Temendo uma invasão do Eixo, o príncipe regente Paulo assinou o Pacto Tripartite em 1941, jurando cooperação com o Eixo. Em 27 de março, o regime foi derrubado por um golpe militar com apoio britânico. Pedro II, então com 17 anos, foi declarado maior e posto no comando do país. O Reino da Iugoslávia removeu seu apoio de facto ao Eixo sem renunciar formalmente ao Pacto Tripartite.

O novo governo se opunha à Alemanha Nazista, mas temia um ataque à Iugoslávia e tampouco o Reino Unido estava em condições de ajudar. Hitler não arriscou esperar a decisão dos britânicos e atacou.


Comentário:

Diferente do que vimos na primeira parte desta série, nestes outros três casos tivemos dois conflitos praticamente fratricidas entre regimes nacionalistas e um caso onde a oposição ao nacional-socialismo foi forte o suficiente a ponto de derrubar um governo pró-nazi.

No caso da Albânia, uma monarquia constitucional praticamente submetida à autoridade italiana, bastou uma resistência maior ao controle italiano para que o seu Estado tutelar a invadisse e obtivesse do Parlamento de bom grado o governo do país e a deposição do antigo monarca. No caso da Grécia, também uma monarquia com um governo fascista, seria fácil para o Eixo obter uma aliança não fosse a presença dos britânicos no Mediterrâneo – aqui tivemos um exemplo claro de um governo fascista que se aliou a uma democracia ocidental para defender-se da agressão de outro governo fascista. No caso da Iugoslávia, o regime monárquico pró-nazismo e potencial aliado do III Reich foi deposto – supostamente com intervenção britânica – para dar lugar a um outro regime monárquico,  anti-nazista porém moderado. Uma manobra política que, ainda que bem intencionada, não preservou o país da reação de Hitler: a imediata invasão do país.


Leia também:

A Guerra de Três Lados – Parte I

Quando estudamos a Segunda Guerra Mundial, normalmente vemos tudo em preto e branco: de um lado estavam os Aliados (os caras legais) e do outro lado estava o Eixo (os caras maus). Entre os Aliados, conta-se supostamente que estavam “as democracias ocidentais” e os comunistas, ao passo que o Eixo era composto pelas “forças nazi-fascistas”. Mas a coisa não era bem assim. Pode-se muito bem não só dividir a Segunda Guerra Mundial em diversos conflitos (Guerra de Inverno, Guerra de Continuação, Segunda Guerra Sino-Japonesa, etc) como se pode analisá-la como um conjunto de conflitos envolvendo muito mais do que dois lados. E é isso que faremos nesta pequena série de artigos sobre a Segunda Guerra.

Primeiramente analisaremos os conflitos que compõem a Segunda Guerra Mundial, individualmente, atendo-nos a posição política dos envolvidos (foco nos que não são esclarecidos nas aulas de História). Depois, analisaremos as alianças e antagonismos estabelecidos antes e durante o conflito.

Conflitos Precedentes

A Segunda Guerra foi um conjunto de conflitos militares em escala global que, tradicionalmente, considera-se como tendo iniciado em 1939 com a invasão da Polônia pelo III Reich Alemão. Esta divisão, bastante discreta, não faz sentido para os chineses, por exemplo, que já estavam em guerra formal com o Império Japonês desde pelo menos 1931.

Alguns conflitos que antecederam a Segunda Guerra Mundial foram verdadeiros ensaios militares, tecnológicos e políticos para o conflito que viria. A batalha ideológica entre fascistas e socialistas já havia ensaiado alguns passos nas Guerras Civis Chinesa (1927-1950), Austríaca (1934) e Espanhola (1936-1939).

O poderio militar comunista já havia sido testado na Guerra Civil Russa (1917-1921), na Guerra Ucrano-Soviética (1917-1921), na Guerra Civil Finlandesa (1918), nas Guerras de Independência da Estônia (1918-1920) e da Letônia (1918-1920). O expansionismo soviético ainda avançaria sobre a Polônia (1920) antes da Segunda Guerra, contra a Geórgia (1921) e a China (1929).

O expansionismo fascista já havia sido posto em marcha na Segunda Guerra Ítalo-Etíope (1935-1936) e na Invasão da Manchúria (1931). São incontáveis também os conflitos coloniais ou emancipacionistas que envolveram potencias coloniais – como a França e a Inglaterra – na África e na Ásia.

Conflitos Concomitantes

A Segunda Guerra Mundial, na verdade, é uma sobreposição de diversos conflitos que iniciam e encerram em períodos diferentes. Alguns deles tem uma relação próxima, como a Guerra no Atlântico e a Batalha da Grã-Bretanha, outros nem tanto como a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra de Inverno. Cada um destes conflitos envolve diferentes beligerantes, diferentes agentes políticos. Nesta primeira parte, abordaremos…

Europa I – Polônia, Finlândia e Países Bálticos

1. Invasão da Polônia – Uma joint venture bolchevo-nazista.

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Parada militar germano-soviética em Brest-Litovsk, Polônia. 22 de setembro de 1939.

Foi a invasão da Polônia pelo III Reich Alemão, pela União Soviética e por um pequeno contingente eslovaco que marcou o início da Segunda Guerra na Europa. A invasão alemã começou em 1º de Setembro de 1939, uma semana após a assinatura do Pacto Ribbentrop-Molotov, enquanto a invasão soviética começou no dia 17 do mesmo mês. A campanha terminou no dia 6 de outubro de 1939, com o III Reich e a União Soviética dividindo e anexando toda a Polônia.

Posição política da Polônia

A Segunda República Polaca enfrentou a Rússia e a Ucrânia soviéticas entre 1919 e 1921, obtendo uma vitória limitada. O chefe de Estado, Józef Klemens Piłsudski, já havia lutado pela independência do país em 1918.

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Józef Klemens Piłsudski

As políticas territoriais e étnicas do governo polaco no período entreguerras contribuíram para as más relações com os vizinhos e para a difícil cooperação com centros de poder mais distantes como a França, a Inglaterra e a Liga das Nações.

 

Houve um curto período (1921-1926) de ordem constitucional e democracia parlamentar. Em maio de 1926, Piłsudski derrubou o governo e instaurou um regime autoritário, embora instituições e partidos políticos ainda funcionassem.  Ciente dos conflitos internos do país, a Polônia assinou tratados de não-agressão com a União Soviética (1932) e com o III Reich (1934).

Em 1939, o governo polonês recusou uma aliança com a Alemanha. Antes da guerra eclodir, entrou em aliança militar com a França e a Grã-Bretanha, que tentavam barrar o poder do III Reich. Andando no meio da pista, acabou atropelada pelos dois lados.

2. Guerra de Inverno – Os soviéticos tentam na Finlândia o que fizeram na Polônia.
Ocorreu entre a União Soviética e a Finlândia. O conflito começou com uma ofensiva soviética em 30 de novembro de 1939 – dois meses após a invasão soviética da Polônia – e terminou em 13 de março de 1940 com o Tratado de Paz de Moscou. Considerado ilegal pela Liga das Nações, esta invasão rendeu à União Soviética a expulsão da liga em 14 de dezembro do mesmo ano.

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3. Guerra de Continuação – Soviéticos revidam o ataque alemão e tentam, de quebra, ocupar a Finlândia.
Foi o segundo conflito armado ocorrido entre a União Soviética e a Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética o viu como parte de sua luta contra o III Reich e seus aliados, enquanto o III Reich via a operação na região como parte de seus esforços de guerra no front oriental, providenciando grande apoio material e cooperação militar à Finlândia.

Os atos de guerra entre recomeçaram em 22 de junho de 1941, dia que o III Reich lançou sua invasão à União Soviética. Operações finlandesas desfizeram as concessões pós-Guerra de Inverno à União Soviética. Os finlandeses pararam sua ofensiva a 30 km de Leningrado, na fronteira estabelecida entre União Soviética e Finlândia antes da Guerra de Inverno, mantendo seu território com as fronteiras estabelecidas como antes da Guerra de Inverno.

Em 1944, forças aéreas soviéticas conduziram raids em Helsinque e outras cinco grandes cidades finlandesas. Por fim, no verão de 1944, a ofensiva dos soviéticos removeu os finlandeses da maior parte do território que eles haviam recuperado. O Exército Finlandês lutou contra a ofensiva soviética até obter um armistício em julho de 1944. Um cessar-fogo pôs fim às hostilidades em 5 de setembro, e foi seguido pelo Armistício de Moscou em 19 de setembro.

4. Guerra da Lapônia – Tropas alemãs se retiram da Finlândia e aproveitam para fazer um estrago no meio do processo.
Foi o conflito entre a Finlândia e o III Reich Alemão que durou de setembro de 1944 a abril de 1945 na províncio da Lapônia, norte da Finlândia.

Enquanto o III Reich e a Finlândia combatiam a União Soviética na Guerra de Continuação, o alto comando alemão começava a traçar planos para uma reação no caso da Finlândia fazer um acordo de paz em separado com a União Soviética. O plano era retirar as forças alemãs para o norte e defender as minas de níquel próximas a Petsamo. Posições defensivas e planos de evacuação nesta área estavam todos compreendidos na Operação Birke.

As forças alemãs se retiraram para a Noruega, e a Finlândia pode assim manter sua parte das obrigações no Armistício de Moscou.

Posição política da Finlândia

A Finlândia era uma república presidencial multipardária e democrátic

Risto Ryti
Risto Ryti

a desde o início dos conflitos. Na época da Guerra de Inverno estava em cargo o quarto presidente do país, Kyösti Kallio, líder do partido Liga Agrária. Seu sucessor foi Risto Ryti, do Partido Nacional Progressista, que governou o país de 1940 a 1944 – período da Guerra de Continuação. Ryti fortaleceu relações com o III Reich, mais por necessidade do que por associação ideológica.

 

Uma das mais importantes contribuições do governo do presidente Ryti foi o fato de manter a Finlândia como uma democracia genuína, diferente do que ocorreu com outros países europeus.

Manteve sua neutralidade enquanto foi possível, recorreu ao apoio alemão quando foi necessário, expulsou os alemães quando lhe era benéfico, defendeu o seu território e a sua população sem se deixar tomar por nenhuma das duas ideologias totalitárias.

5. Ocupação do Báltico – objeto de disputa entre dois expansionistas.
Ocupação militar dos três estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) pela União Soviética sob os auspícios do Pacto Molotov-Ribbentrop em 14 de junho de 1940, seguida de sua incorporação à União Soviética.

Em 22 de junho de 1941 o III Reich Alemão atacou a União Soviética e dentro de semanas ocupou os territórios bálticos. Em julho de 1941 o território báltico foi incorporado ao III Reich. Como resultado da Ofensiva do Báltico de 1944, a União Soviética recapturou a maior parte dos territórios bálticos.

A partir de 1944 ocorreu a Guerrilha do Báltico: após a conquista dos territórios bálticos pelos soviéticos em 1944, uma insurgência envolvendo partisans nacionais se iniciou e arrastou-se até mesmo após o fim da Segunda Guerra. Esta guerrilha continuou como um conflito organizado até 1956 quando a superioridade militar soviética forçou a população nativa a adotar outras formas de resistência.

A ocupação soviética dos estados bálticos durou até agosto de 1991, quando estes estados recuperaram a sua independência.

A Irmandade do Bosque, Grupo de partisans estonianos, letões e lituanos que mantinham operações de guerrilha contra o regime soviético nos territórios bálticos durante e depois da invasão e ocupação da Segunda Guerra Mundial.

Posição política da Estônia

A República da Estônia, constituída em 1920, possuía um governo parlamentar democrático.  No entanto, iniciando um referendo em 1933, o Movimento Vaps conseguiu uma aprovação de 72,7% para a proposta de mudança do governo, que passou a ser presidencial. Esperava-se para 1934 uma eleição presidencial, que não ocorreu por causa de um golpe liderado por Konstantin Päts, do Partido dos Fazendeiros Unidos, que instaurou seu próprio governo autoritário.

Konstantin Päts
Konstantin Päts

Durante o que ficou conhecido como “Era do Silêncio”, os partidos políticos foram banidos e o parlamento não exercia suas atividades: o país era governado por decretos. Nesta época o Movimento Vaps foi oficialmente banido e então dissolvido.

A Estônia buscou uma política de neutralidade, o que foi inútil após a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, já que neste acordo secreto figurava como um dos Estados dentro da “esfera de influência soviética”. Recebeu um ultimato da URSS que ameaçava invadi-la a menos que permitisse bases militares soviéticas no país.

Aceitando o ultimato, o governo lituano condenou o seu povo a uma verdadeira ocupação militar soviética a partir de 1940, seguida de uma invasão alemã, depois de outra ocupação soviética que durou até a década de 90, somando mais de 50 anos de terror.

Posição política da Letônia

Uma nação republicana com constituição democrática promulgada em 1922, a Letônia caiu sob o regime ditatorial de Kārlis Ulmanis, do partido de centro União dos Fazendeiros Letões, em 1934, que alegava estar protegendo o país de um golpe de “extremistas de direita” chamados de Legião.

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Kārlis Ulmanis

Como Primeiro Ministro, Ulmanis dissolveu o parlamento e estabeleceu seu governo autoritário: todos os partidos políticos, inclusive o seu próprio “União dos Fazendeiros” foram proibidos, parte da Constituição e as liberdades civis foram suspensas, todos os jornais pertencentes a partidos ou organizações políticas foram fechados. Social-democratas, radicais “de direita” e ativistas pró-nazismo foram todos enviados para campos de detentação. Seu governo era especialmente duro com extremistas, sobretudo nazistas e comunistas.

Ulmanis acatou o ultimato soviético para instalar bases militares na Letônia, de modo que em 1940 o país já estava completamente ocupado pela União Soviética, tendo o mesmo destino da Estônia.

Posição política da Lituânia

A Lituânia era uma nação democrática com um parlamento eleito até 1926. O Parlamento elegia o presidente da República. As relações com a Polônia eram tensas, e também com a Alemanha, já que o país detinha um território que este perdeu com o Tratado de Versalhes (o território de Klaipeda).

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Antanas Smetona

O terceiro Parlamento foi eleito em maio de 1926 e pela primeira vez os democratas cristãos perderam a maioria e passaram à oposição. Com a assinatura do pacto de não-agressão com a URSS, o governo foi acusado de bolchevizar o país. Com o crescimento das tensões, o governo foi deposto no mesmo ano por um golpe militar apoiado pelos nacionalistas e pelos democratas-cristãos. Antanas Smetona foi instalado como presidente e, autoritário, suprimiu a oposição até 1940.

Na tentativa de evitar conflitos, a Lituânia cedeu a um ultimato da Polônia (1938) e normalizou as relações diplomáticas com este país. Ainda mais irresistível foi o ultimato oral de Ribbentrop: a Lituânia foi forçada a ceder novamente à Alemanha a região de Klaipeda. Mas isto foi só o princípio, uma vez que o país já estava entregue à URSS de acordo com o Pacto Molotov-Ribbentrop.


Comentário:

Destes conflitos abordados, na Polônia, na Escandinávia e no Báltico, já se pode tirar algumas conclusões sobre o que mencionamos no início deste artigo. Podemos identificar, a princípio, dois lados – União Soviética e III Reich – que são potências militares expansionistas e de inspiração ideológica.

Entre estas duas partes, bem identificáveis, existem outras que tentam resistir ao assalto de ambos os lados: as resistências nacionais polacas, finlandesas, estonianas, letãs e lituanas. Elas não tem uma relação firme entre si além do fato de estarem sendo comprimidas por um inimigo comum. No caso dos países bálticos, houve uma possibilidade maior de aproximação dadas as condições geográficas e a aproximação histórica entre os povos que habitam a região, o que não poderia acontecer entre eles e os finlandeses, ou poloneses.


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