Anticapitalismo é auto-sabotagem

O que acontece quando o ambiente de um país é hostil aos negócios, cheio de burocracia, impostos e proibições? Naturalmente, menos negócios abrirão ou permanecerão aí. Logo, haverá menos empregos e portanto menos demanda por mão-de-obra.

Mas o que isso significa para mim enquanto trabalhador assalariado? Menos demanda por mão-de-obra significa que haverá muito mais concorrência por vagas cada vez mais escassas e salários reais cada vez mais baixos. Haverá aqueles que argumentam que há empregos, mas falta mão-de-obra qualificada para ocupar as vagas. Porém, o mesmo efeito descrito acima para o mercado de trabalho afeta o principal responsável pela capacitação dos profissionais: a educação. A burocracia, os impostos, a hipertrofia regulamentar e a reduzida concorrência são fatores que contribuem para o encarecimento da formação de novos profissionais qualificados. A escassez de emprego e os baixos salários encarecem e dificultam a capacitação do profissional ou dos seus filhos, gerando um ciclo vicioso: a queda dos salários resulta em menor capacitação profissional, que faz com que no país parmençam empregos mais escassos e de salários mais baixos.

Não se engane, portanto, pensando que indicadores como liberdade econômica, facilidade de abrir negócios e defesa do direito de propriedade são de pouca importância para quem trabalha como assalariado. O principal afetado em um ambiente hostil aos negócios não é quem decide investir em outro lugar, mas aqueles que são privados do investimento: os trabalhadores e consumidores locais. O resultado desta hostilidade aos negócios e aos investimentos é uma Economia onde os bens, serviços e empregos são cada vez mais caros, escassos e de baixa qualidade.

Direito ao Trabalho

Uma das preocupações do homem, em qualquer época, é prover o próprio sustento. O meio empregado para prover o próprio sustento, em uma sociedade civilizada, é o exercício de uma profissão, um ofício, que permita ao homem ou produzir o que necessita para viver ou produzir o que os outros necessitam para viver e, por fim, trocar o produto do seu trabalho pelo produto do trabalho de outros.

labor right

Decorre disto que a sobrevivência do homem, em sociedade, é praticamente impossível sem o trabalho. Assim como a sua integridade física (a segurança da sua vida), a liberdade para agir e a propriedade, o trabalho é essencial para a vida humana ainda que seja apenas um mal necessário. Talvez haja um dia em que a quantidade de trabalho necessária para o sustento de uma sociedade seja negligível o suficiente para declararmos a extinção do trabalho… mas, até lá, temos que lidar com esta questão.

Suscitamos aqui um problema: o homem tem um “direito ao trabalho”? A resposta para esta pergunta depende de como conceituamos o direito. Se estamos falando de um direito positivo que implique a obrigatoriedade do setor público garantir o emprego de um cidadão, seja empregando-o no setor público ou forçando um contrato no setor privado, está claro que este direito simplesmente inexiste. E se existe, é irrealizável e mesmo indesejável: suporia uma reabilitação da Escravidão e a total obliteração do direito de livre associação. Mas, se estamos falando de um direito negativo que implique que ninguém pode impedir uma pessoa de exercer pacificamente um ofício ou profissão, então a resposta é óbvia: o homem tem o direito (negativo) ao trabalho.

Se o homem tem o direito negativo ao trabalho podemos analisar um cenário e dizer se nele tal direito é respeitado ou desrespeitado. Tomemos o Brasil como exemplo. Há pessoas ou instituições que possam, legalmente, impedir você de trabalhar? Infelizmente, sim. São inúmeros os exemplos de mecanismos institucionais que tem o objetivo de impedir certas pessoas de trabalhar, ou mesmo certos ofícios. Por exemplo, você não pode exercer a profissão de advogado sem a aprovação de uma instituição chamada OAB, a única guilda defendida até na Constituição. Você também não pode oferecer serviços de transporte usando o seu carro. Você também não pode ser camelô sem ter de se preocupar com batidas da polícia. Todas estas restrições, é claro, existem para proteger certas pessoas e instituições: a restrição ao exercício da advocacia é uma medida protecionista que favorece o monopólio da OAB na certificação de profissionais desta área, a criminalização do transporte “clandestino” supostamente protege o oligopólio do transporte público ou o monopólio da prefeitura sobre o serviço de táxi, a perseguição ao comerciante informal visa impedir que a cultura da “sonegação” se espalhe para outros comércios. Tudo isto é violação, em primeiro lugar, do direito de trabalhar e, em segundo lugar, do direito de adquirir pacificamente o produto do trabalho alheio.

O motivo pelo qual tais restrições ainda existem é porque, infelizmente, as pessoas tendem a pensar como produtores e não consumidores. Existe uma cultura corporativista que faz com que o taxista e o cobrador de ônibus pensem que só podem beneficiar-se do negócio de transporte se os “caroneiros clandestinos” forem punidos por fazer concorrência. Nenhum setor escapa: pergunte a um professor, do setor público ou privado, se ele aceitaria concorrer no mercado com um instrutor informal. Pergunte a um médico se ele acha “justo” que pessoas possam exercer a sua profissão sem o carimbo do Conselho Regional de Medicina. No Brasil, se bobear, até freelancer quer que sua profissão seja regulamentada e sindicalizada. O resultado disso é uma Economia onde os bens e serviços são cada vez mais caros, escassos e de baixa qualidade e onde praticamente metade da riqueza da população é literalmente destruída em burocracia, impostos e serviços públicos de última.

Se nossa Constituição fosse um pingo mais liberal e menos anti-empreendedora, incluiria entre os direitos do cidadão aquele de trabalhar sem ser interrompido e prejudicado pela polícia, pelo sindicato, pelas corporações de ofício e pelos grevistas com sanha piromaníaca. O verdadeiro direito ao trabalho só pode ser garantido e exercido dentro de uma economia de livre onde a liberdade de empresa, a liberdade de associação e a liberdade de escolha são respeitadas.

Trabalhadores e consumidores

Na política ouvimos muito o discurso da defesa dos trabalhadores. É muito raro, porém, um partido que prometa defender os consumidores. Isto se dá por um problema já bem antigo.

A divisão do trabalho e o comércio colocam o homem nesta condição: ele não produz mais para suprir suas próprias necessidades imediatas, mas para trocar o produto do seu trabalho pelo produto do trabalho de outros. Por isto o homem raciocina, politicamente, não como consumidor, mas como produtor. O homem comum acaba preferindo um aumento nominal no seu salário do que um aumento real do seu poder de compra, proporcionado pelo aumento de produtividade.[1]

Por isto, analisaremos o que é mais benéfico para a população em geral: se pensar a política em termos “trabalhistas” ou em termos “consumistas”.

1. Quem são e quantos são os trabalhadores?
“Classe trabalhadora” é um termo sócio-econômico usado para descrever pessoas em uma classe social marcada por empregos de baixa renda, que demandam pouca formação e trabalho braçal. Pessoas desempregadas sustentadas por programas governamentais são frequentemente incluídas neste grupo.[2]

Segundo dados do IBGE, o número de pessoas ocupadas no Brasil – ou seja, trabalhadores ativos – é de 80 milhões de pessoas[3], o que corresponde a 41,95% dos 190,7 milhões de habitantes do país [4]. Destes, 39,1 milhões tem carteira assinada[3].

2. O que querem os trabalhadores?
O homem enquanto trabalhador é um produtor. Ele tem interesse em vender o seu produto, a sua força de trabalho, pelo preço mais elevado possível[1]. A conclusão lógica disso é que uma das demandas básicas do trabalhador é o aumento de salário ou a redução de carga horária.

Segundo a lei de oferta e demanda, é possível aumentar artificialmente o preço de um bem restringindo a sua oferta. Ou seja, tornando-o escasso. Se pensarmos nele como produtor é de seu interesse que o mercado para seu produto seja grande e que a concorrência seja zero: assim ele pode vender o seu produto a um preço alto. É de seu interesse que haja grande demanda pela sua mão-de-obra e concorrência mínima.

Como trabalhadores restringem a concorrência? Ou, como tornam a oferta de trabalho mais escassa? Pressionam o governo por leis trabalhistas. Criam reservas de mercado dificultando o exercício da profissão, impondo restrições a novos concorrentes.

3. Quem são e quantos são os consumidores?
O consumidor é quem compra produtos ou serviços para uso pessoal, não para a manufatura ou revenda. Um consumidor também pode ser definido como quem faz a decisão de comprar ou não um produto em uma loja, e alguém que pode ser influenciado pelo marketing e pela publicidade. Sempre que alguém vai a uma loja e compra comida, roupa, bebida ou qualquer outra coisa, está fazendo esta decisão como consumidor.[5]

Em termos econômicos, só é definido consumidor quem efetiva a compra dos bens. Assim, a criança que ainda não tem seu próprio dinheiro para comprar, não é considerada uma consumidora, embora seus pais sejam. O aposentado, que já não faz parte da população economicamente ativa, também é um consumidor. Todo trabalhador é consumidor, mas nem todo consumidor é trabalhador.

Podemos generalizar e dizer que todo brasileiro com mais de 15 anos é um consumidor. Isso significa aproximadamente 167,24 milhões de pessoas ou 87,7% da população[6].

4. O que querem os consumidores?
O homem enquanto consumidor tem interesse em comprar o produto do trabalho dos outros pelo preço mais baixo possível. A conclusão lógica disso é que o desejo básico do consumidor é a redução dos preços, tarifas e impostos.[1]

É possível reduzir o preço de bens aumentando a sua oferta no mercado. Ou seja, tornando-os mais abundantes. É do interesse do consumidor que a produção do bem que ele procura seja abundante: assim ele pode comprar o produto a um preço baixo. É de seu interesse que haja grande oferta da mão-de-obra dos outros produtores: do padeiro, do jornaleiro, do açougueiro, etc.

Como consumidores devem proceder, na política, para aumentar a concorrência, ou seja, tornar a oferta de produtos mais abundante? Exigindo leis que beneficiem a produtividade, a livre empresa, a concorrência e o livre comércio.[1] É importante notar que, diferente de restringir o acesso a um produto, democratizar o acesso a ele requer um aumento verdadeiro de sua produção e comercialização, e não apenas um aparato legal e policial impedindo a sua entrada no mercado. Isto só é possível removendo as barreiras que impedem os homens de produzir.

Estas medidas implicam na redução do custo e da dificuldade do exercício de qualquer atividade produtiva. Conseqüências disso são o aumento do emprego, a migração do trabalho informal para o formal, a redução da ilegalidade e a atração de investimentos estrangeiros, enriquecendo a sociedade com novos produtos e serviços, maior abundância e maior qualidade, mais desenvolvimento tecnológico e mais empregos.[7]

5. Produzir ou consumir?
Se pudéssemos seguir consumindo sem jamais produzir (e trabalhar), com certeza faríamos isso. A resposta para a pergunta “você prefere trabalhar mais ou consumir mais?”, deve ser óbvia.

O homem aprimorou o trabalho até o ponto em que ele só precisa produzir o que não supriria nem a mais básica de suas necessidades em estado natural. Um homem depende do trabalho dos outros para consumir o necessário para viver, e se vale da produtividade da indústria alheia para manter o seu padrão de vida. Se pudéssemos aumentar a produtividade infinitamente, teríamos tal abundância de bens de consumo que o trabalho seria praticamente eliminado e ainda assim viveríamos muito bem. O fato é que o trabalho é apenas um mal necessário, um meio para atingir um fim. O fim da economia é o consumo.

6. Conflito de interesses: porque o consumidor deve ser priorizado
Na maioria dos casos, os interesses dos produtores (trabalhadores) e dos consumidores são antagônicos.[1] O homem que trabalha como cobrador de ônibus adoraria comprar roupas mais baratas, mas não gostaria de ser substituído por um “caixa eletrônico” que trabalha de graça. Ao mesmo tempo, o funcionário da indústria de roupas adoraria um transporte coletivo mais barato, mas não gostaria de ser substituído por uma máquina que produz bem mais do que ele.

Se levássemos em conta só os interesses deles como consumidores, o que teríamos? Teríamos transporte coletivo mais barato e roupas mais baratas para todos os que usufruem destes bens. Inegavelmente o número de pessoas que se beneficiariam destas mudanças seria muito maior do que aquelas que foram prejudicadas. A eliminação de uma centena de empregos, sem perda na produtividade, implica reduzir o custo de vida e aumentar o poder de compra de milhares ou até milhões de pessoas.

Não há dúvidas de que a sociedade como um todo se beneficia mais deste aumento de produtividade do que sacrificando-o para sustentar o padrão de vida de um grupo minoritário como os cobradores de ônibus, os operários das fábricas de tecido, os agricultores, etc. Mas seria justo beneficiar a maior parte da população, causando prejuízo a uma outra parte, ainda que seja pequena?

7. Rotatividade no mercado de trabalho
O brasileiro permanece em média 5,1 anos em cada emprego.[8] Isto significa que dos 20 aos 65 anos ele terá passado, em média, por nove empregos. A ideia de um emprego fixo e vitalício já não é parte das sociedades modernas há um bom tempo.

Mesmo assim, as pessoas ainda se espantam com a “eliminação de empregos” que a concorrência externa e a tecnologia gera. O que é eliminado é um emprego, não o empregado. A função, não o funcionário. Uma função obsoleta é extinta para dar lugar a outras mais úteis, que agregam mais valor à sociedade. A extinção de funções obsoletas em uma sociedade não torna a força de trabalho inerte, mas a libera para outras tarefas – mais úteis – que antes não podiam ser realizadas porque esta força de trabalho estava ocupada em outro lugar.[9]

O processo de realocação da força de trabalho, o período em que o trabalhador busca por outro emprego, tem sido bastante reduzido: o tempo médio para encontrar um emprego é de um mês [10]. Em muitos casos, a prática do outplacement tem simplesmente eliminado este processo todo: uma empresa dá assistência para que o funcionário dispensado encontre um novo emprego, tudo pago pelo antigo empregador.[11]

8. Conclusão
Se pensarmos menos como trabalhadores (produtores) e mais como consumidores, estaremos defendendo uma alocação mais inteligente de força de trabalho e uma maior produtividade que gera abundância de bens e serviços a um preço mais acessível, o que aumenta o poder de compra e melhora o padrão de vida das pessoas. É um duplo ganho.


Bibliografia:

[1] Bastiat, Frédéric. Abundância, miséria.
[2] Investopedia – Working-class
[3] Extra – Censo: 63,9% dos trabalhadores têm carteira assinada
[4] IBGE – Censo 2010: população do Brasil é de 190.732.694 pessoas
[5] InvestWords – Consumer
[6] IBGE – Censo 2010: pirâmide etária
[7] Libertarianismo – Liberdade Econômica & Qualidade de Vida
[
8] Folha de S. Paulo – Rotatividade no emprego aumenta no país
[
9] Bastiat, Frédéric. As máquinas.
[10] Exame – Tempo médio para encontrar emprego cai para 1 mês
[
11] Investopedia – Outplacement definition

Para ler uma versão mais completa deste artigo, clique aqui.

Necessitamos gerar riqueza, não trabalho

As idéias que predominam na sociedade não são as que se tem demonstrado úteis as cidadãos, senão as que permitem aos políticos chegar ao poder.

Um exemplo de idéia absurda é o mantra sobre a imperiosa necessidade de gerar emprego. Se confunde o desejo de uma boa parte da população de perceber uma retribuição de forma estável e periódica, que lhes assegure uma vida confortável, com o fim último da economia nacional. A propaganda tem ido tão fundo, que até muitos empresários se vangloriam de que um de seus objetivos principais é criar postos de trabalho.

Claro, esta peculiar forma de pensar só se aplica à política; se qualquer pessoa vê a seu vizinho cavar um buraco na metade de seu jardim para em seguida enchê-lo novamente, imediatamente pensará que o pobre homem está transtornado. Infelizmente, a porcentagem de indivíduos que chegaria a esta conclusão baixaria consideravelmente se soubessem que a prefeitura lhe paga para fazer isto, afim de integrá-lo à lista de servidores públicos.

Para conseguir que a porcentagem de entusiastas deste tipo de política seja ainda maior, deve-se recorrer a adornar os empregos com certo valor social. Alguém pode se opôr a pagar um salário para cavar e preencher buracos, mas é muito mais difícil fazê-lo quando se tem calçadas novas ou se criam setores que supostamente trazem inovação.

O problema é que, em tempos de crise como o atual, não há dinheiro público para pagar trabalhos nos quais não se crie riqueza de forma objetiva; ou se emprega o tempo em algo pelo qual alguém esteja disposto a renunciar à parte de sua riqueza, ou não haverá forma de encontrar um emprego.

Por causa disto, os políticos optam por outra via para não renunciar a intervir no processo: incentivar a contratação, seja eliminando barreiras, postas por eles mesmos, em forma de regulações, reduzindo impostos trabalhistas como os benefícios sociais ou concedendo incentivos fiscais às empresas que criem postos de trabalho.

O mito de que o governo cria empregos é um exemplo típico de falácia da janela quebrada: o salário dos ‘cavadores de buraco’ seria dinheiro melhor aproveitado em setores produtivos e melhor alocados pela iniciativa privada.

À simples vista, medidas que reduzem impostos e eliminam regulações não parecem más. Mas se analiza-se com atenção a realidade é outra.

A redução das regulamentações para diminuir a superproteção dos trabalhadores por parte do Estado não tem efeitos benéficos a não ser que uma maioria da sociedade entenda que esta superproteção é injusta e prejudicial. Injusta para os empresários e trabalhadores que queiram acertar suas próprias condições fora do controle estatal (e seus satélites sindicais) e prejudicial para a economia, porque não permite a flexibilidade necessária para ter uma economia dinâmica e competitiva.

Ao não produzir-se este entendimento, as reformas trabalhistas não são mais que uma tentativa do governo do momento para evitar que as vacas morram de fome. Por isto a deixa sair a pastar cinco minutos por dia. É melhor que nada, mas a vaca acabará morrendo igualmente.

O mesmo acontece com a redução dos impostos trabalhistas, ou benefícios de segurança social, por parte do empresário. O sistema de segurança social é um esquema de pirâmide. Não sou eu quem diz, é o que todos dizem. Potanto, livrar os empresários de pagar parte deste esquema sem reconhecer que o sistema é inviável e permitir que os atuais beneficiários busquem uma alternativa sensata (capitalização) é condenar-nos a pagar, via IVA ou qualquer outro imposto, as atuais pensões e as futuras. Uma vez mais, se tenta manter o sistema operativo até que ele quebre, e não dar-lhe uma solução real.

Sauron criando milhões de empregos, estimulando a demanda agregada e pondo em prática o keynesianismo de guerra.

Por último, conceder incentivos fiscais a uma empresa pelo fato de criar empregos é absurdo e injusto. Absurdo, porque criar um posto de trabalho por criar só beneficia a pessoa contratada. Injusto, porque a economia não melhora pelo fato de que uma empresa cria um posto de trabalho: a economia melhora se um empresário é capaz de construir um modelo de negócio pelo qual gera-se mais riqueza do que se consome. Ou, dito de outra maneira: uma empresa que é capaz de ganhar 10 milhões de euros com 10 trabalhadores é muito mais benéfica para a economia que outra que ganhe o mesmo com 10.000 trabalhadores. Por que premiar à segunda e não à primeira com um incentivo fiscal?

A triste resposta é a antítese ao título deste comentário: o Estado não quer gerar riqueza, quer gerar emprego. E o quer porque seu poder se baseia em que milhões de pessoas creiam que sua subsistência depende de sua benevolência e capacidade de gestão, em vez de crer em sua própria capacidade de gerar riqueza para viver sem depender de ninguém. De ser livres.

Artigo original postado no site do Centro Diego de Covarrubias. Para ler o original em espanhol, clique aqui.

A teoria do valor e o mito da mais-valia

por  João Luiz Mauad

O preço de venda de qualquer bem depende da avaliação subjetiva que tanto compradores quanto vendedores fazem dele, e não apenas do custo de produção nele embutido e, muito menos, do tal “valor-trabalho”.

Adam Smith e David Ricardo lançaram, nas suas investigações econômicas, os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.

Vladímir Ilitch Ulianov, dito Lênin

É quase impossível acreditar que dois dos maiores gênios que a ciência econômica já conheceu estiveram na raiz de toda essa baboseira teórica chamada “mais-valia”. Por mais inverossímil que pareça, no entanto, quanto a isso não há em que desmentir o maestro do bolchevismo, autor da epígrafe. Marx realmente apoiou a sua tese fundamental sobre as teorias dos dois economistas clássicos, torcendo e contorcendo argumentos à exaustão, evidentemente, como era do seu feitio.

Naquela época, a maioria dos economistas acreditava que os bens valiam o quanto custava para produzi-los, ou seja, tinham um valor intrínseco. Muito embora Adam Smith tenha partido de um “insight” perfeito, quando inferiu que o trabalho é o meio que tem todo indivíduo para alcançar o verdadeiro fim, ou seja, o consumo das coisas que lhe garantirão o bem-estar, sua dedução sobre o “valor real” dos bens como função exclusiva do “valor-trabalho” neles embutido estava obviamente equivocada, dentre outras coisas, por desconsiderar fatores como as diferenças de produtividade do trabalho ou as preferências individuais.

(Aliás, se o estimado leitor me permite uma rápida digressão, o erro de Smith e Ricardo só vem comprovar aquilo que muitos já sabem, mas que outros tantos ainda insistem em recusar: nenhum homem, por mais sábio que seja, estará certo 100% do tempo. Nem mesmo os maiores filósofos e os melhores cientistas estão imunes ao erro. Alguns acertaram mais do que erraram e outros estiveram equivocados quase o tempo todo. A ciência é uma obra em permanente construção, em que a dúvida e a investigação têm papel decisivo, cabendo aos estudiosos que se debruçam sobre ela separar o joio do trigo e fazê-la evoluir. Nesse contexto, não se pode, por exemplo, considerar a obra de Marx uma completa “nulidade”, malgrado ela carregue em seu bojo uma imensidão de equívocos. “O Capital”, principalmente, traz algumas contribuições ao pensamento econômico, notadamente em relação à história do capitalismo ainda em seus primórdios. O que não dá é para transformar uma obra que já se provou ultrapassada em Bíblia de economia, como é feito amiúde nas nossas universidades.)

Segundo a Teoria do Valor-Trabalho, os objetos possuem valores intrínsecos relacionados com o seu esforço de produção. Assim, o valor de um carro é o de seu custo de produção, e o valor do metal e da borracha empregados na produção do carro é o de seu custo de produção, e assim sucessivamente numa relação de causa-efeito infindável que nos remete aos tempos da pedra lascada.

Mas, voltando à mais-valia, mais incrível ainda do que o erro dos economistas clássicos é constatar que há, em pleno século XXI, certos “intelequituais” que nunca ouviram falar da teoria marginalista ou em valoração subjetiva, e continuam apostando todas as fichas numa extemporânea luta de classes, apoiada no suposto antagonismo entre capital e trabalho, burguesia e proletariado, cuja gênese está justamente na tese espúria da “mais-valia” e sua idiota interpretação de que o lucro não é outra coisa senão a exploração do trabalho, quando na verdade ele é fruto da satisfação do consumidor e da eficiência empresarial.

Foram os liberais austríacos que derrubaram a teoria do valor-trabalho de Smith e Ricardo, demonstrando, por tabela, que a base sobre a qual Marx ergueu a tese da mais-valia e tudo que dela deriva, inclusive – e principalmente – a existência de um conflito de classes inexorável (que povoa ainda hoje os sonhos revolucionários de um monte de gente), é uma tremenda furada. A “revolução” austríaca está, basicamente, no “insight” de que a pedra angular da teoria econômica é a avaliação (individual) subjetiva. Fiquemos com uma síntese de Murray Rothbard:

A ciência econômica não trata das coisas ou dos objetos materiais. Ela analisa os atributos lógicos e as conseqüências da valoração individual. Evidentemente, as “coisas” fazem parte do problema, já que não pode haver valoração sem que existam objetos a serem valorados. Entretanto, a essência e a força propulsora da ação humana – e, portanto, do mercado – são as avaliações dos indivíduos. A ação humana é resultado de escolhas entre alternativas, que refletem valores, ou seja, preferências individuais.

Resumidamente, o que os austríacos fizeram foi demonstrar que o valor de troca dos bens é função de parâmetros outros, que não apenas os custos diretos dos mesmos e, muito menos, a quantidade de trabalho neles embutida, como inferiu equivocadamente Adam Smith. Dentre outras coisas, mostraram que, se o valor dos bens dependesse exclusivamente do seu custo, circunstâncias como escassez, abundância, utilidade ou preferências subjetivas não teriam qualquer relevância na formação do valor de troca e, conseqüentemente, nos preços dos bens. Um diamante bruto, achado ao acaso, por exemplo, jamais poderia valer mais do que, digamos, um par de sapatos ou uma bisnaga de pão.

O valor subjetivo que atribuímos às coisas varia em função de diversas circunstâncias, como clima (invernos amenos costumam fazer encalhar coleções inteiras), estado psicológico do consumidor (euforia ou depressão), etc. Quem nunca notou, por exemplo, que é muito mais difícil resistir àqueles lindos salgados da vitrine de qualquer boa padaria antes do almoço do que depois dele? Por conta desse detalhe simples, famílias precavidas e econômicas estabelecem como norma que as compras do supermercado sejam feitas somente de barriga cheia, a fim de evitar que as guloseimas expostas nas prateleiras se transformem em tentações irresistíveis.

Ademais, se a satisfação do comprador ou a escassez de determinado produto não tivessem qualquer interferência na formação do valor de troca, como desejava Marx, nenhuma empresa jamais teria problemas para vender seus produtos, bastando ofertá-los no mercado a preço de custo, mais uma módica margem de lucro e os clientes fariam fila na sua porta. Até mesmo a venda de geladeiras para esquimós seria possível e lucrativa, já que as necessidades e preferências do consumidor não teriam qualquer peso.

Partindo da premissa de que havia um componente subjetivo na formação de valor de todos os bens, os economistas austríacos desenvolveram também o que se convencionou chamar de “teoria marginalista”, ou “lei da utilidade marginal decrescente”, a qual, resumidamente, estabelece que “cada unidade extra de um determinado bem proporciona menor benefício subjetivo que a unidade anterior”. Imagine um homem perdido no meio do deserto, sedento e cansado. Ele provavelmente seria capaz de pagar uma fortuna ao primeiro “capitalista” que aparecesse em seu caminho para vender-lhe uma simples garrafa de água gelada, mas não pagaria o mesmo valor por uma segunda e assim sucessivamente.

“Os Marginais” Jevons, Menger e Walras, economistas que defenderam a teoria da utilidade marginal e lideraram a “Revolução Marginalista” da Economia.

Em resumo, o preço de venda de qualquer bem depende da avaliação subjetiva que tanto compradores quanto vendedores fazem dele, e não apenas do custo de produção nele embutido e, muito menos, do tal “valor-trabalho”. Se entro numa loja e compro um par de sapatos é porque valorizo mais o produto do que o dinheiro pago por ele, enquanto o comerciante valoriza mais o dinheiro do que a mercadoria. Quem quer que já tenha precisado vender com urgência um bem de menor liquidez (imóvel, veículo, etc.) sabe que o valor que atribuímos a ele se reduz à medida que o tempo se esgota.

De tão óbvias e elementares que são as evidências acima, a impressão que se tem é que os acadêmicos marxistas e sua profusão de acólitos são viajantes do tempo. É como se eles não fossem do presente, mas seres do passado. Em matéria de economia, estão ainda na pré-história. Comparando com a astronomia, por exemplo, eles seriam de uma era anterior a Galileu.

Artigo publicado originalmente no site Mídia Sem Máscara. Para ler o artigo original, clique aqui.