Karl Popper e a liberdade econômica irrestrita

Acredito que o aspecto injusto e desumano de um ‘sistema capitalista’ irrestrito como o descrito por Marx é inquestionável. Mas isto pode ser interpretado à luz do que chamamos, no capítulo anterior, de paradoxo da liberdade. Vimos que a liberdade acaba consigo mesma se for ilimitada. Liberdade ilimitada significa que o forte é livre para agredir o fraco e roubar sua liberdade. Por isto que exigimos que o estado limite a liberdade até certo ponto, para que a liberdade de todos seja protegida pela lei. Ninguém deveria estar à mercê dos outros, mas todos deveríamos ter o direto à proteção do estado. Acredito que estas considerações, originalmente aplicadas ao contexto da força bruta e da intimidação física, devem ser aplicadas também ao contexto econômico.

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Mesmo que o estado proteja seus cidadãos de sofrer agressão física (como de fato se protege, em princípio, sob um sistema de capitalismo irrestrito), seria contraproducente se ele falhasse em protegê-los do abuso de pdoer econômico. Nesta condição, o economicamente mais forte continua livre para agredir o economicamente mais fraco, e roubar sua liberdade. Sob estas circunstâncias, a liberdade econômica irrestrita é tão contraproducente quanto a liberdade física irrestrita, e o poder econômico pode ser tão perigoso quanto a violência física, pois aqueles que possuem um excedente de comida podem forçar os famintos a aceitar ‘livremente’ a servidão sem precisar recorrer à violência. E assumindo que o estado limita suas atividades à supressão da violência (e a proteção da propriedade), uma minoria economicamente forte pode assim explorar a maioria dos economicamente fracos.

Se esta análise está correta, então a solução é clara. A solução deve ser política: uma solução similar à que adotamos contra a violência física. Devemos construir instituições sociais, reforçadas pelo poder do estado, para a proteção dos economicamente fracos frente aos economicamente fortes. O estado deve garantir que ninguém necessite entrar em um acordo desigual por medo da foma ou da ruína econômica.
Isto, é claro, significa que o princípio da não-intervenção, de um sistema econômico irrestrito, deve ser abandonado; se desejamos salvaguardar a liberdade, devemos exigir que a política de liberdade econômica irrestrita seja substituída por uma intervenção econômica planejada do estado. Devemos exigir que o capitalismo irrestrito dê lugar a um intervencionismo econômico. E isto é precisamente o que aconteceu.


Fonte:
Karl Popper, ‘The Open Society and Its Enemies’, capítulo 17.
Tradução livre de Renan Felipe dos Santos.


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O conservador, a prudência e a reforma agrária

Texto publicado também no blog “Mundo Analista“. Para ler por lá, clique aqui.

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Uma das maiores virtudes do conservador político é a prudência. Ser prudente, entre outras coisas, é ver além do óbvio, além do aqui e agora; é avaliar os possíveis desdobramentos de uma ação antes de realizá-la, usando a lógica, a moral e experiência.

Para exemplificar, vamos pegar um tema concreto. Reforma Agrária. Quando eu era pequeno ouvia falar nessa reforma com muitos louvores. E, nos meios universitários, isso é visto como inquestionavelmente bom. A ideia, como vocês sabem, é expropriar (arrancar, tirar) terras de grandes latifundiários para redistribuir aos sem terra e pessoas pobres. Se haverá indenização ao latifundiário por parte do Estado, não importa para esta definição, pois a medida não deixa de ser expropriação e uma imposição por parte do Estado. Na cabeça de quem defende, três atos de justiça: punir o rico, ajudar o pobre e criar igualdade.

Para o conservador, essa ideia é absurda. Por quê?

Em primeiro lugar, ela é um roubo. Ser rico e ter muitas terras não é um crime. A não ser que se prove que aquela pessoa enriqueceu ilicitamente.

Apelar para o passado não adianta aqui. Não podemos punir alguém hoje por erros cometidos por seus antepassados. Isso implicaria ter de investigar minuciosamente a vida dos antepassados de cada indivíduo da sociedade para saber se houve alguma injustiça que gerou favorecimento para a pessoa.

Essa investigação teria de alcançar todas as gerações até os primórdios do mundo e precisaria lidar com dificuldades de deslocamentos entre nações e continentes. Impossível, claro. Mas, mesmo que isso fosse possível, resultaria em ter de colocar funcionários do governo para entrar nas casas de todo o tipo de pessoa para arrancar bens, o que não incluiria só ricos, mas qualquer que tenha um benefício advindo de uma injustiça cometida por um antepassado. Será que todos estariam dispostos a isso?

Ademais, a ideia ainda esbarra na questão da culpa: que culpa um indivíduo tem dos erros cometidos por seus antepassados?

Então, não, não se pode fazer esse acerto de contas retroativo. O que vale é o que cada pessoa faz em sua própria vida. Isso nos leva a concluir que expropriar as terras de um rico só porque ele é rico é roubo. E, obviamente, qualquer rico tem direito de achar isso ruim e errado.

Em segundo lugar, mesmo que aceitemos, à título de argumentação, que é justificável roubar ricos para ajudar pobres, que o ato é válido porque visa o bem maior da igualdade social, pense nas implicações disso. Dar a um governo e ao Estado o poder de tomar propriedades de uns para dar a outros é algo muito perigoso. Um governo e um Estado que podem expropriar terras podem fazer qualquer coisa. Esse poder absurdamente grande escancara  portas para outras ações autoritárias como a expropriação de lojas, fábricas, empresas em geral, casas, prédios, poupança bancária, móveis e bens. Escancara portas também para prisões arbitrárias, perseguição à dissidentes do governo, cassação dos mandatos de políticos opositores e o uso crescente das forças policiais e militares para reprimir o cidadão. E se tudo isso se origina de uma luta pelo bem comum, e por isso é legitimado, o governo terá prerrogativa para fazer o que julgar necessário para alcançar esse bem.

Daí decorre que o governo poderá intervir em diversos aspectos da economia e da vida individual, a fim de acabar com desigualdades e garantir a manutenção das reformas (bem como estendê-las). Ações como aumentar impostos de grandes empresas, proibir demissões, impor admissões, tabelar preços são algumas das políticas que serão usadas. E quando isso acabar falindo diversas empresas, aumentar os impostos de todos os cidadãos para ajudar as empresas em apuros será a regra, claro.

Aqui é interessante ressaltar: quando é dado ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum, ele poderá expropriar o que achar necessário e de quem achar necessário. Isso inclui também os pobres. O governo poderá fazer isso através de aumento dos impostos (e vai fazer) ou de maneira direta, quando um pobre estiver, de algum modo, atrapalhando seus planos. E na medida em que a economia entrar em colapso, o número de ricos diminuir e o número de pobres aumentar, só sobrará mesmo os pobres para expropriar. Em suma, se o governo antes tirava dos ricos para dar aos pobres, agora tirará dos pobres para dar a alguns ricos, a fim de salvar a economia.

Em terceiro lugar, há que se diferenciar governo de Estado. O governo é formado pelo conjunto de governantes de uma determinada época e lugar. O Estado é formado pelo corpo de leis que, além de delimitar uma sociedade, prescreve os direitos e deveres dos governantes e governados da mesma sociedade. Ora, os governos mudam na medida em que mudam os governantes. Mas o Estado pode permanecer o mesmo por décadas, séculos, milênios. Por que é importante saber disso? Porque ainda que um governo conduza a reforma agrária (ou alguma outra reforma de cunho totalitário) e não se torne tão poderoso e opressor como descrevi, esse governo um dia será substituído. Sobretudo se for um governo democrático de um Estado democrático, onde há constante troca de governantes. Então, quando um governo dá ao Estado qualquer poder, não está dando poder apenas para si, mas para governos que virão; está criando um sistema novo, que poderá ser usado de maneira mais intensa e extrema por governos futuros.

Em quarto lugar, um governo que aumente seu poder dessa maneira inevitavelmente viverá com medo de levantes, revoltas e oposição. Isso o conduzirá a criar um estado policial e a restringir a liberdade de seus cidadãos (pobres e ricos). Algumas dessas restrições provavelmente serão: desarmamento da população, imposição do ensino formal às crianças, proibição de saída do país e, no futuro, proibição de greves e manifestações. Uma característica interessante do totalitarismo é que ele só pode ser sustentando com cada vez mais totalitarismo. A tendência, então, são as restrições só aumentarem.

Em quinto lugar, dar ao estado o direito de expropriar em prol do bem comum o coloca acima da lei, criando instabilidade jurídica e dando margem para o surgimento de déspotas e de governantes irresponsáveis. Além disso, o direito à propriedade privada é solapado e deixa de fazer sentido. Não há mais qualquer garantia de que o que é seu é seu. Na verdade, tudo pertence ao Estado e você só usufrui enquanto o Estado lhe permite. Aliás, isso já é algo bem próximo do comunismo, não?

Em sexto lugar, dar ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum vai gerar, inevitavelmente, agitação social e conflitos entre grupos. Afinal, interesses opostos estarão em jogo e o uso da força será usado. E, para completar, o governo não se privará de usar e incentivar o ódio entre classes, a fim de evitar o foco do povo nas suas ações totalitárias e garantir apoio de uma classe. Em outras palavras, o governo alimentará, por um tempo, a agitação social, o conflito e o ódio entre grupos.

Reformas sociais que se baseiam em ódio entre grupos, conflitos físicos, agitações populares, extorsão de propriedade privada, autoritarismo, violência civil, desprezo das leis, sentimento de revanche e ações abruptas e impensadas dificilmente terão como efeito uma sociedade pacífica, estável, respeitadora da lei, com um Estado que garante o direito individual e governos que não excedem os limites do poder. Os efeitos das reformas mencionadas acima geralmente são o sentimento generalizado de desconfiança, a instabilidade das instituições, a falta de disciplina do povo, o autoritarismo estatal e o risco sempre alto de golpes de Estado e brigas ilícitas pelo poder. Foi o que aconteceu após a Revolução Francesa. E também a Russa.

Em sétimo lugar, o empreendedorismo e o lucro passam a ser desestimulados entre empresários e cidadãos comuns. Como o governo pode tirar tudo o que um indivíduo tem, quase ninguém quer correr o risco de investir. Nem os de dentro da nação, nem os de fora. Esse desestímulo ao investimento cria a necessidade do governo fazer algo para garantir a saúde da economia antes que ela entre em colapso. Dessa necessidade quase sempre surge uma relação promiscua entre o governo e alguns grandes empresários que começam a ser protegidos pelos governantes em troca de ajudá-los a gerir a economia. O resultado é a consolidação de um mercado pouco competitivo e  alguns grandes monopólios privados que irão extorquir o cidadão com preços altos e produtos/serviços de péssima qualidade.

Outras ações desse tipo de governo para tentar evitar um futuro colapso na economia seriam: criar diversas empresas estatais, estatizar empresas que considera estratégicas, implementar inúmeras obras públicas, aumentar os gastos do governo e reduzir de modo artificial as taxas de juros através da inflação de moeda. As bases que orientam essas ações são: (1) Se o meio privado não está criando empregos suficientes, o governo pode e deve criá-los. Fará isso através da instituição de empresas estatais, de obras públicas e do aumento de gastos do governo. Tudo isso gerará empregos. (2) O governo tem muita aptidão para administrar empresas, inclusive mais aptidão do que o meio privado, que é ganancioso e irresponsável. Portanto, é bom que o governo crie estatais e que estatize empresas privadas de ramos considerados estratégicos. (3) A derrubada de juros irá criar incentivo para que o meio privado invista, o que o fará respirar.

Essas três ideias possuem graves problemas. A primeira, por exemplo, ignora que para o governo manter qualquer empresa estatal, implementar obras públicas e aumentar gastos do governo, ele precisa arrumar dinheiro. E qual é a única fonte de dinheiro de qualquer governo? O dinheiro do povo; os impostos. Ou seja, para criar os tais empregos, o governo precisa tirar dinheiro das pessoas (o que inclui os pobres). E quanto mais ele se meter na economia, mais impostos ele precisará cobrar do trabalhador. Procedendo assim, o governo dá empregos para uns arrancando o dinheiro de outros. Nisso, o setor privado é muito mais justo, pois cria empregos com capital privado e se mantém com o dinheiro daqueles que escolhem, por conta própria, comprar seus produtos/serviços.

A segunda ideia ignora que a gestão pública tende a ser menos eficiente que a gestão privada. Por várias razões. Para começar, empresas públicas não vão à falência quando dão prejuízos (como é o caso das empresas privadas). Elas recebem mais dinheiro do governo para cobrir seus déficits. Isso não apenas torna mais custoso para o cidadão o serviço prestado pela empresa, como premia a ineficiência. Não importa o quão ruim seja a empresa, ela continuará recebendo dinheiro. Sem risco de falência e sem precisar concorrer com outras empresas para se manter à frente, é comum que tanto os gestores, como os funcionários de empresas públicas, não se esforcem tanto para obter bons resultados como nas empresas privadas. Alguns sequer se esforçarão.

O relaxamento e a falta de cuidado com os gastos também sempre tenderá a ser maior nas empresas públicas, já que o dinheiro vem do governo e é ilimitado. Costumamos a cuidar mais dos gastos e do que compramos quando o dinheiro é limitado e, sobretudo, quando o dinheiro é nosso. Afinal, sabemos o quão duro foi conseguir nosso dinheiro e como ele pode acabar rápido se não formos responsáveis. Não se tem essas noções nas empresas públicas.

Outra razão é que na coisa pública é mais fácil ocorrer corrupção. Obras podem ser superfaturadas, empresas podem servir como cabides de emprego, verbas podem ser desviadas. No setor privado isso é mais difícil, pois os gestores e donos tomam todos os cuidados possíveis para não permitir roubos no interior da empresa, o que colocaria em risco a vida da instituição. Como esses riscos não existem na coisa pública, tampouco a coisa pública tem donos específicos, a fiscalização é bem mais frágil. Do ponto de vista do governo, aliás, é muito difícil fiscalizar todos os agentes que fazem parte de cada instituição pública. A estrutura pública é muito grande e complexa, o que permite que diversos desvios éticos sejam perpetrados em cada ponto distante dessa enorme teia de pessoas, cargos, lugares e funções.

Conta-se que quando o Regime Militar brasileiro reuniu sua cúpula para decidir sobre a instituição do AI-5 (que pretendia aumentar os poderes do presidente), o civil Pedro Aleixo, vice-presidente do General Costa e Silva, se colocou contra. Alguns na sala perguntaram se Aleixo desconfiava da integridade do General. Ele teria respondido o seguinte: “Não desconfio da integridade e das boas intenções do Sr. Presidente, mas tenho desconfiança do guarda da esquina”. O princípio é claro. Por mais que um regime realmente tenha boas intenções, quando ele aumenta seu poder político ou o tamanho do aparato estatal, cria brecha para que diversas pessoas que tem alguma participação na coisa pública, cometam desvios éticos. E isso é praticamente incontrolável.

A terceira ideia, por fim, ignora que derrubar juros expandindo moeda gera inflação de preços. Embora, num primeiro momento, a derrubada artificial de juros pode gerar um efeito positivo na economia, incentivando o investimento, a inflação acabará aparecendo e destruindo a vida do cidadão comum e dos próprios empresários. Não obstante, para um governo interventor, expandir moeda sempre parecerá uma medida tentadora e, de certa forma, inevitável. Uma das razões para isso é que, quando o governo já não tem como arcar com as dívidas criadas pela má gestão pública e pela corrupção, imprimir dinheiro resolve temporariamente o seu problema: as dívidas são pagas. Resultado: a hiperinflação será cada vez mais comum na medida em que o Estado aumentar a sua máquina pública.

O conservador como profeta político

Ao perceber a inviabilidade moral da reforma agrária (o exemplo que usamos nesse texto) e todos os seus efeitos desagradáveis, o conservador se torna um profeta político. Ancorado na lógica e, muitas vezes, no que ele já viu acontecer em outras partes do mundo e/ou em outras épocas, ele se torna capaz de prever o futuro e avisar aos seus conterrâneos e contemporâneos da desgraça iminente.

Aqui está a grande virtude do conservador: ele vê além do óbvio. Muitas vezes o que, inicialmente, pode parecer uma ideia, acaba se mostrando imoral e extremamente perigosa. São estas nuances, estes detalhes e efeitos não visíveis em um primeiro momento, que um conservador observa, antes de defender uma reforma.

Apresentei o exemplo da reforma agrária, do qual queria falar há algum tempo, mas o mesmo tipo de análise pode (e deve) ser aplicada sobre qualquer reforma ou ação governamental. E é por essa razão que conservadores geralmente são avessos à políticas baseadas em estatismo e intervenção governamental. As consequências desse tipo de política quase sempre são os mesmos que elencamos nesse texto.

A modernidade é uma ideia velha

Artigo do historiador Caco Tirapani:

O ‪‎feminismo‬ é só mais um sintoma de um problema sistêmico: a mentalidade moderna. Mas o que é isso? É a noção de que a felicidade nasceu no mundo com a Tomada da Bastilha. Pode parecer exagero – picardia, galhofa, zoação ou trollagem – mas Saint-Just disse exatamente isso em 1793: “a felicidade é uma ideia nova na Europa”. Ele discursava na tribuna da Convenção revolucionária, e seu discurso foi considerado pela historiografia como o que levou o rei Luís XVI – aquela bichona‬ emperucada – para a guilhotina. Curiosamente, o homem que declarava o “nascimento da felicidade” teria sua bela e jovial cabeça separada do corpo na mesma guilhotina, no ano seguinte, junto com outros amantes da revolução. Ironia que Saint-Just tenha morrido pela mesma fúria revolucionária que ele alimentou, e da qual era um dos mais temidos (e ingênuos) representantes.

A ‪‎modernidade‬, desde então, vem sofrido da síndrome de Saint-Just: sonhamos em reformular a realidade pela política, e nos fodemos com isso. Cada problema que temos, é produzido pela tentativa de corrigi-lo a despeito da natureza – que revela uma mentalidade gnóstica. Para o revolucionário, a política trará a redenção do gênero humano, que é oprimido por Deus, pela Natureza, e pelo Destino. Saint-Just era amante espiritual de Rousseau, e um entusiasta da civilização pagã greco-romana. Nasce então a mentalidade revolucionária, que é o elemento cultural predominante na modernidade. Essa mentalidade é herdada diretamente pelos ‪‎socialistas utópicos, e depois por Marx, e o resto já sabemos: 100 milhões de mortos no século XX, ditaduras, bizarrices, campos de concentração, terrorismo, fome, mentiras, e ódio.

Para a mentalidade revolucionária, o importante é “transformar”, mesmo que pra isso tenha que se “quebrar alguns ovos”. A novidade é boa em si mesma, enquanto o antigo é mau em si mesmo. E de todas as ideias antigas e maléficas, Deus é a mais antiga, e consequentemente a mais maléfica. Deus representa não apenas a velharia, mas de tudo quanto é velho, o mais velho. Deus, o ancião dos dias, precisa ser destronado pelo novo ‪‎Prometeu‬. Se a felicidade é uma ideia nova, me parece que a modernidade já é uma ideia velha. Proudhon, um socialista utópico antes de Marx, se imaginava este novo Prometeu. Marx também exalta Prometeu, símbolo do proletariado, como o verdadeiro santo e mártir, que não foi supliciado em obediência a Zeus – como foi ‪‎Jesus‬ em obediência a seu Pai – mas em desobediência ao velho deus, e em favor dos homens. Por isso que para Dawkins‬, Deus é o personagem mais desagradável de toda a ficção: “ciumento e orgulhoso disso; um maníaco por controle, miserável e injusto; um abusador vingativo, eugenista sedento por sangue, misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e caprichosamente malévolo.” Ou seja, Deus é o arquétipo do machista‬ falocêntrico de direita que estupra‬ as pessoas.

Dentre as coisas velhas e ultrapassadas que a mentalidade revolucionária quer destruir, está a família – fonte geradora de cidadãos conscientes e livres – e é aí que entra o feminismo. Para derrubar a família, não adianta atacar a propriedade privada, porque até escravos na senzala, totalmente despossuídos, amam e fazem filhos. Descobriu-se que para detonar a família é preciso atacar sua base: a mulher, a geradora da vida. Transformar a geradora da vida numa criatura fútil, narcisista, egocêntrica, e histérica é a finalidade do feminismo. Torná-la uma criatura insaciável no campo sexual e afetivo, não apenas pelo desejo infinito, mas pela incapacidade de realizá-lo. O feminismo não é o ódio ao homem, é o ódio, antes de tudo, à mulher.

Mas atenção: o feminismo não nasceu revolucionário! O feminismo nasceu do pensamento liberal, e lá atrás, antes da década de 60, o feminismo era um movimento de mulheres que não estavam revoltadas com sua condição de mulheres, mas desejavam direitos jurídicos. Pois bem, conquistados estes direitos, o feminismo acabou, coisa que a própria Simone de ‪‎Beauvoir‬ afirmou no seu livro “o segundo sexo”. Mas tão logo as antigas feministas voltaram às suas vidas normais, começou naquele momento um novo movimento, conhecido como a “segunda onda” do feminismo. Foi exatamente quando iniciou no Ocidente a Revolução Sexual da década de 60. Mas que “coincidência” não?

Coincidência nenhuma, essa revolução sexual foi pensada e produzida por “intelectuais” que traziam a herança do velho Marx e sua mentalidade revolucionária. Os jovens desse período, universitários ligados a essa corrente de pensamento, buscaram como resposta para o vazio de suas vidas a “solução” das drogas e do sexo livre. A ideia era “desconstruir” a moral, porque é a moral que garante a manutenção da família e da ordem. Desde então, odeia-se a moral com força de um fanatismo jihadista. O que vimos foi um tsunami cultural: do movimento ‪‎hippie, à Valesca Popozuda. Quais foram os espólios? Disso saíram 3 epidemias: a AIDS, as drogas, e o aumento da violência. E qual a solução? Mais esquerdismo. É a síndrome de Saint-Just.

O feminismo sofre desse delírio moderno. A feminista acha que pode reformular a natureza humana, a ponto de criar uma sociedade em que você pode sexualizar o comportamento a níveis estratosféricos, sem ter com isso nenhuma consequência real. E para resolver o problema do estupro, como faz? Com mais delírio esquerdista. A ideia de “ensinar o homem a não estuprar” é um exemplo de como funciona a mentalidade fantasiosa dessa gente. O que há por trás disso? A noção de que todo homem é um estuprador, e precisa ser domesticado. Se é preciso ensinar o homem a “não fazer” algo, supõe-se que este algo participa da própria natureza do homem. Mas nós sabemos que o homem não é, pela sua natureza, um estuprador, mas que o ‪‎estupro‬ é consequência de uma grau de ‪‎sociopatia‬. Acontece que é impossível “ensinar” a um sociopata a sentir empatia pelas suas vítimas. As feministas esquecem que o estuprador é um homem que carece de senso moral, e por causa disso ele está impossibilitado de sentir compaixão‬ por qualquer pessoa que não seja ele mesmo. Isso não reduz a culpa dele, mas nós sabemos que ele não pode “perceber” o sofrimento que ele causa. O estupro pra ele é uma diversão.

Ora, mas se lutamos tanto para destruir o senso moral da sociedade, como é possível imaginar que isso não iria produzir sociopatas em massa? Como é possível esperar compaixão se estamos, o tempo todo, condenando e anulando todo senso moral? Será que é preciso ser um gênio para entender que sofremos a consequência de nossas teorias geniais para corrigir a natureza? A cada problema que resolvemos, criamos outro com a “solução” anterior. E depois seremos punidos pelo tribunal inquisitório da santíssima revolução.

O apelo à ‪‎culpa masculina‬ que se prega diariamente nessas redes sociais conseguirá duas coisas: produzir mais estupradores, e colocar no homem comum tanta culpa que ele não poderá mais se relacionar com a mulher. O homem civilizado de amanhã vai sentir culpa no ato mesmo da penetração. Ora, quando o homem for capaz de sentir vergonha pelo instinto mais básico de sua natureza, ele será ainda mais capaz de ignorar qualquer apelo emocional de sua vítima. Logo, produzir-se-á mais e mais sociopatas. É nosso admirável mundo novo, seja bem-vindo.

O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de Direita?

Texto meu (Davi Caldas) publicado também no blog “Mundo Analista”. Para ler o texto original, clique aqui.

Hitler e Stálin – Líderes do Nacional Socialismo e do Socialismo Marxista, respectivamente

A esquerda nos diz que Hitler e o seu movimento Nacional Socialista eram de direita ou, para ser mais exato, de extrema-direita. Um dos argumentos mais frequentemente utilizados para sustentar esta alegação é o fato de que Hitler (e, por conseqüência, o Nacional Socialismo) era antimarxista. Ora, poderíamos descartar o argumento logo de início, pois o mesmo parte do falso pressuposto de que o marxismo é a única doutrina de esquerda que existe e que, portanto, qualquer que seja contrário a ela é, automaticamente, de direita. Tal pressuposto é falso porque, desde seu surgimento, a esquerda sempre contou com doutrinas políticas que não intentavam implantar o comunismo. Os jacobinos da época da revolução francesa (pré-marxistas, pode-se dizer) e os democratas americanos a partir dos 1920 são apenas alguns exemplos de esquerdistas que não podem ser chamados de marxistas, ainda que encontremos em suas doutrinas algumas semelhanças com a ideologia do pensador alemão.

Na realidade, contanto que uma pessoa preserve traços esquerdistas básicos (como, por exemplo, a crença de que o governo deve multiplicar suas funções e impostos, a fim de fazer “justiça social”) é perfeitamente possível que essa pessoa seja esquerdista e, ao mesmo tempo, uma opositora ferrenha do marxismo. Como? Vejamos. Eu, por exemplo, acredito que a teoria de Marx é impossível de se realizar na prática, tal como ele havia pensado. Ele imaginava uma espécie de “ditadura democrática”, na qual todo o proletário iria governar, e que seria temporária, dando lugar ao posterior comunismo. Para mim, é óbvio que isso não daria certo em hipótese alguma, porque o homem tende a abusar do poder e uma ditadura do proletariado certamente se tornaria uma ditadura de líderes que se dizem “representantes” do proletariado.

Assim, mesmo que eu fosse esquerdista (como, de fato, já fui, embora não o soubesse) provavelmente seria veementemente contrário ao marxismo, dada a minha crença na impossibilidade prática do mesmo. Ainda assim, eu poderia crer na capacidade do Estado de fazer justiça social, votar em candidatos trabalhistas, ser contrário ao livre mercado, querer mais intervenção governamental, lutar por mais empresas e serviços públicos e etc. De fato, a maioria dos esquerdistas atuais tem esse perfil. Não querem destruir o capitalismo. Querem apenas “domá-lo”.

Então, apontar Hitler e o Nazismo como antimarxistas em nada prova que eles eram de direita e não de esquerda. É preciso cavar mais fundo na questão. E eu acredito que uma boa forma de começar a cavar é indo até o livro em que Adolf Hitler expõe seus ideais nazistas, o Mein Kampf (Minha Luta). O que será que ele diz sobre o marxismo? Será que o livro deixa claro que Hitler era contra o marxismo, justamente porque era de direita? Vamos ver.

Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.

Esse primeiro trecho é interessante porque dá a tônica para o restante do livro de Hitler. Conforme veremos, Adolf Hitler enxergava uma relação entre o movimento marxista, o movimento social-democrata (que, na época, era uma variante menos radical do marxismo) e o povo judeu. Ao longo do livro ele vai explicando esse ponto de vista e mostrando como chegou a essa conclusão.

[…] a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado – como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora – pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico […].

Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.

Aqui Adolf Hitler afirma que em sua juventude, ele não tinha nada contra o movimento social-democrata (a não ser o fato de que eles não eram nacionalistas) e que não conhecia o marxismo. Mas prepara o terreno para mostrar que sua concepção logo mudaria. É interessante ressaltar como ele mostra uma inclinação à esquerda julgar positiva a preocupação social-democrata com o proletariado. Não que a preocupação com trabalhadores seja monopólio esquerdista, mas um direitista jamais iria admirar a “preocupação” da esquerda com os mesmos, já que a “preocupação” esquerdista com os trabalhadores implica em ser contrário ao livre mercado e a favor do intervencionismo estatal. Então, já aqui começa a ficar claro que Hitler não se tornaria antimarxista por ser favorável às doutrinas econômicas de direita. Em outro ponto, Hitler afirma:

Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória, mas arrastará a humanidade à ruína. Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida. Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.

A relação que Adolf Hitler trava entre marxismo, social-democracia e o povo judeu começa a ficar mais explícita neste ponto. Perceba que Hitler fala em “propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia”, o que quer dizer que o líder nazista era adepto de uma teoria da conspiração. Ele achava que a social-democracia, bem como o marxismo escondiam seus verdadeiros objetivos que estavam ligados, de alguma forma, a objetivos também escondidos do povo judeu. Ele continua em outra parte:

Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.

Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.

Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do “povo escolhido”, quer se tratasse de membros do “Reichscrat”, de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória. Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão.

Só então compreendi quais eram os corruptores do povo. Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.

É preciso entender o raciocínio de Hitler dentro de seu contexto. Em sua época, os judeus estavam espalhados por toda a Europa. Havia realmente muitos judeus e nas mais diversas camadas sociais. Isso incomodava muitos europeus, que preservavam um espírito um pouco xenófobo. Deste modo, o pensamento anti-semita não era incomum e nem recente, mas vinha se desenvolvendo havia algumas décadas.

Não sabemos ao certo se havia algo mais que fazia Hitler odiar os judeus, mas é neste contexto de diversos judeus espalhados pela Europa e de xenofobia crescente, que Hitler começa a crer que existia um enorme plano maquiavélico judaico para dominar o mundo. A presença de judeus em diversas profissões e camadas sociais seria parte do plano. Cada qual estaria estrategicamente posicionado, infiltrando na cultura suas idéias, enriquecendo e tomando conta de espaços e trabalhos. Desta forma, social-democracia e marxismo seriam apenas dois instrumentos nas mãos dos judeus para alcançar sua meta suprema. Por isso, ele alerta:

Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter. A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio. Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

Fica evidente que Hitler enxergava o marxismo e todas as suas variações como braços do plano judaico de dominação mundial. Era isso que o fazia ser contrário ao marxismo. E para ele, a sua conclusão era fruto de muito estudo, conforme afirma em outro ponto:

Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Conforme vai chegando ao fim do livro, Hitler vai se tornando cada vez mais enfático quanto a relação entre marxismo e judaísmo. Diz:

O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão.

Sua concepção do assunto englobava tudo. Ele acreditava ter descoberto todos os enlaces do suposto plano judaico de dominação mundial. Ele fala, por exemplo, da questão econômica:

Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital” – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.

O entendimento de Hitler sobre a economia marxista era mais ou menos assim: o judeu encenava que estava lutando a favor do proletariado e que colocaria a economia em suas mãos. Ao mesmo tempo desprezava nacionalidades, criando uma mentalidade internacionalista. A idéia era quebrar as fronteiras entre países para que quando o judeu, em qualquer país, dominasse a economia, tivesse facilidade de dominar a economia de outras partes do mundo, já que não nacionalidades não mais importam e a economia marxista deve ser uma só. A isso Adolf Hitler denominava “capitalismo internacional judaico”. Vejamos:

O que a chamada imprensa liberal fez antes da guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus.

Em outro trecho, Hitler repete a dose:

Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.

Ainda em outro trecho é possível ler:

Se a fúria dos aproveitadores internacionais em Versalhes se dirigia contra o antigo exército alemão é que este era o último reduto das nossas liberdades na luta contra o capitalismo internacional. Não fosse essa força ameaçadora, a Intenção de Versalhes se teria realizado muito antes. O que o povo alemão deve ao exército pode-se resumir nesta palavra: tudo.

Hitler também fala em seu livro sobre como entendia a atuação dos judeus na imprensa. O seu raciocínio, embora fantasioso, não deixa de ser interessante. Ele cria que os judeus criavam uma aparência de luta entre burgueses e proletários, a fim de sempre ter a imprensa em suas mãos. Assim, se qualquer das classes, por algum motivo, perdesse uma batalha política, isso não iria afetar o plano judaico, pois na derrota de uma a outra permanecia. Ele escreve:

A conduta dos representantes do governo [alemão] falhou […]. De quando em vez, quando gravemente ofendidos, eles punham no xadrez algumas víboras jornalísticas [marxistas] por algumas semanas, ou mesmo meses, mas deixavam sempre o seu ninho em paz.

Tudo isso era a conseqüência, por um lado, da tática astuciosa dos judeus e, por outro, da conselheira estupidez ou da ingenuidade do mundo oficial. O judeu era esperto bastante para não consentir que toda a sua imprensa fosse, ao mesmo tempo, manietada. Uma parte da mesma estava sempre livre para acobertar a outra. Enquanto os jornais marxistas, da maneira mais baixa, combatiam o que de mais sagrado poderia parecer aos homens, investiam, pelos processos mais infames contra o governo e açulavam grandes setores da população uns contra os outros, as folhas democrático-burguesas dos judeus davam a aparência da mais notável preocupação com esses fatos, concentravam todas as suas forças, sabendo exatamente que os imbecis só sabem julgar pelas aparências, e jamais são capazes de penetrar no âmago das coisas. É a essa fraqueza humana que os judeus devem a consideração em que são tidos.

Um trecho interessante que mais uma vez demonstra o viés esquerdista de Hitler, mesmo sendo antimarxista, é quando ele começa a falar sobre como acreditava que se deveria agir contra a imprensa judaica. Afirma:

Um dia virá em que o judeu gritará bem alto nos seus jornais, quando sentir que uma mão forte está disposta a pôr fim a esse vergonhoso uso da imprensa, pondo esse instrumento de educação a serviço do Estado, retirando-o das mãos de estrangeiros e inimigos da nação. Acredito que essa empresa, para nós jovens, será menos incômoda do que o foi aos nossos pais. Uma granada de trinta centímetros fala mais alto do que mil víboras da imprensa judaica.

Neste trecho, o esquerdismo de Hitler é latente. Seu pensamento segue o molde de todas as doutrinas de esquerda. A esquerda se define pelo pressuposto básico de que o homem é capaz de resolver a crueldade e as injustiças sociais através de alguma ferramenta. Essa ferramenta quase sempre é o governo, que deve receber o máximo de funções possíveis, a fim de conquistar essa meta. A crueldade e as injustiças, por sua vez, são sempre causadas por inimigos que precisam ser combatidos. Assim, em todo governo esquerdista, sempre há uma luta apocalíptica entre o governo e os “inimigos” do bem-estar social.

O que difere as várias doutrinas esquerdistas uma das outras é a visão que cada uma delas possui sobre quem são os inimigos do bem-estar social. Para marxistas, os inimigos são os burgueses, os líderes religiosos e os conservadores. Para Adolf Hitler, no entanto, os inimigos eram os judeus, os estrangeiros que residiam na Alemanha, os negros, os deficientes e todos os que se afastavam do “perfil ariano”.

Então, perceba que Hitler define os inimigos do bem estar social, apresenta a mão forte do governo como a grande solução para o problema e afirma que a nova imprensa estaria a serviço do Estado, o que nada mais é do que intervencionismo estatal, controle de empresas privadas e oposição ao livre mercado. Tudo isso “em prol” do bem estar social. Ora, isso é economia de esquerda pura!

A coisa vai ficando mais interessante na medida em que Hitler começa a apontar o socialismo pregado pelo marxismo como algo falso, que, na realidade, pretende fazer exatamente o inverso do que prega: fortalecer o capitalismo. Torna-se claro que Hilter é um socialista que deseja implantar o que ele julga ser o verdadeiro socialismo. Ele diz:

Doravante, só resta ao operário a tarefa de pelejar pelo futuro do povo judeu. Sem se aperceber, entra a serviço da potência que ele tem a ilusão de combater. Com a aparência de deixá-la atacar o capital, é que se pode melhor fazê-la lutar pelo mesmo. Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa e a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional.

O processo aí empregado pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

Apresentando-a inseparavelmente ligada a toda uma série de exigências sociais bem legítimas, vai ele favorecendo sua propaganda e, por outro lado, despertando a aversão da humanidade bem intencionada em satisfazer aquelas exigências, que, expostas da maneira por que o são, aparecem desde o inicio, como injustas, e mesmo de impossível realização.

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores.

Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de “doutrina”. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.

Essa doutrina pode ser julgada justamente pelos seus desvarios em matéria econômica e política. Todos os que, de fato, são inteligentes hesitam em entrar no seu séquito, e os outros, a quem falta suficiente atividade intelectual ou preparo econômico, precipitam-se ao seu encontro. O judeu, dentro de suas próprias fileiras, “sacrifica” o elemento inteligente ao movimento, pois mesmo semelhante movimento não se pode manter sem inteligência. Assim cria-se um verdadeiro movimento trabalhista, sob a chefia de judeus. Aparentam visar à melhora das condições dos operários, tendo na mente, porém, em verdade, a escravização e o aniquilamento de todos os povos que não são judeus.

Impressionante esse trecho! Hitler deixa claro que não critica o marxismo tanto por seu conteúdo, mas por sua mentira. Ou seja, Hitler está querendo dizer que concorda com as propostas sociais marxistas, mas que se opõe ao marxismo porque, segundo ele, tudo não passa de um embuste judaico para escravizar as nações. É como se Hitler estivesse dizendo: “Ei! Vocês não são socialistas de verdade! São exploradores do povo!”. Para Hitler era claro que o “socialismo” marxista não passava de capitalismo judeu. A análise que ele faz do panorama mundial da época leva em conta essa concepção.

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional.

Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos.

As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça.

Que Hitler era anticapitalista fica claro aqui. Ele não pretendia destruir todo o sistema capitalista, é verdade. Mas para ser anticapitalista não é necessário ter essa intenção. Basta encarar o capitalismo em seu estado puro como algo ruim e procurar domá-lo através do governo, intervindo intensamente na economia e engessando o livre mercado e a livre concorrência. É aquela velha retórica esquerdista de controlar o “capitalismo selvagem” em prol da sociedade.

Também fica claro aqui que a briga entre marxistas e nacional socialistas era, na verdade, uma disputa entre duas doutrinas de esquerda que almejavam o status de “verdadeiro socialismo”, acusando-se um ao outro de “capitalista”. Esse tipo de disputa dentro do próprio pensamento de esquerda sempre foi muito comum. Revolucionários franceses dividiram-se em jacobinos e girondinos; revolucionários russos dividiram-se em bolcheviques e mencheviques; revolucionários bolcheviques dividiram-se em stalinistas e trotskistas; stalinistas também passaram a fazer oposição aos fascistas (que tinham profundas raízes marxistas). E por aí vai. Nenhuma dessas disputas, contudo, mudou o fato de que todas essas visões são de esquerda.

Hitler continua a acusar o marxismo de ser um socialismo de fachada:

De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas, mas, em verdade, constituem um bloco único: o movimento dos políticos e o dos sindicatos. Esse último é um trabalho de aliciamento. Na dura luta pela existência, que o operário tem que enfrentar, devido à ganância e à miopia de muitos patrões, o movimento lhe propõe ajuda e proteção e a possibilidade de combater por uma melhora nas suas condições de vida. […].

Na mesma proporção, a chamada burguesia nacional, cega pelo dinheiro, põe os maiores obstáculos a essa luta pela vida, opondo-se contra todas as tentativas de abreviação do horário de trabalho, desumanamente longo, supressão do trabalho infantil, segurança e proteção da mulher, melhoramento das condições sanitárias em oficinas e moradias, etc.

O judeu, mais inteligente, toma a defesa dos oprimidos. Aos poucos, torna-se o chefe do movimento social. Isso lhe é fácil, pois não se trata, na realidade, de combater com boa intenção as chagas sociais, mas somente de selecionar uma tropa de combate, nos meios proletários, que lhe seja cegamente devotada na campanha de destruição da independência econômica do país. Enquanto a chefia de uma sã política social não aceitar firmemente estas duas diretrizes: conservação da saúde do povo e segurança de uma independência nacional no terreno econômico, o judeu na sua luta não só descurará completamente esses dois problemas, como fará de sua supressão uma verdadeira finalidade. Não deseja ele a conservação de uma economia nacional independente, mas, ao contrário, o seu aniquilamento.

Em conseqüência, não há escrúpulos de consciência que possam demovê-lo, como chefe do movimento proletário, de fazer exigências, não só exorbitantes, como praticamente irrealizáveis e próprias a acarretar a ruína da economia nacional. Não cogita ele de ver uma geração sadia e robusta, deseja somente um rebanho contaminado e apto a ser subjugado. Com esse desideratum, faz exigências tão destituídas de senso que sua realização (ele não o ignora) se torna impossível e não pode provocar nenhuma modificação do estado de coisas existente. Serve apenas para excitar a massa popular até ao desvario. Isso, porém, é o que ele quer e não a modificação para melhor da situação do proletariado.

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é como Hitler se coloca como um genuíno socialista em suas descrições, em oposição aos marxistas, que seriam, segundo ele, embusteiros. O segundo é como Hitler liga cuidadosamente um ponto ao outro. Enquanto ele monta um perfil do inimigo supremo da sociedade (o judeu), dando crédito as suas palavras através de uma análise minuciosa dos mecanismos de engano supostamente usados por este povo, prepara o campo para suas idéias de governo. O parágrafo subseqüente diz:

A chefia do judeu na questão social se manterá até o dia em que uma campanha enorme em prol do esclarecimento das massas populares se exerça instruindo-as sobre sua miséria infinita, ou até que o Estado aniquile tanto o judeu como sua obra. É claro que, enquanto durar a falta de perspicácia do povo, e o Estado se conservar indiferente como o tem sido até hoje, as massas seguirão sempre de preferência aquele, cujas promessas, de ordem econômica, forem as mais audaciosas. Nisso, aliás, o judeu leva a palma, pois nenhum escrúpulo moral entrava a sua ação.

Mais uma vez o esquerdismo de Hitler é patente aqui. Ele invoca o poder do Estado mais uma vez para esclarecer às massas sobre suas misérias e para aniquilar o judeu. O Estado não pode “se conservar indiferente como o tem sido até hoje”. A partir daí, Hitler começa a investir pesado na “justificação” de seu racismo. E ele vai tão longe que afirma que o objetivo do Estado é preservar a raça pura. Diz:

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais, Ela vê, no Estado, em princípio, apenas um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme à eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos.

O Estado como ferramenta para o novo mundo e a luta entre raças nos oferece o tom de esquerdismo do nacional socialismo. No marxismo temos classes sociais. No nazismo temos raças. Mas, no fim das contas, temos em ambas as visões de mundo uma polarização da sociedade e um conflito que deve ser travado para que se alcance uma sociedade reformada. Neste momento que entra a função do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães:

Mas a organização de uma concepção do mundo só pode efetuar-se duradouramente sobre a base de uma fórmula definida e clara. Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a Religião. Por isso, a concepção racista do mundo tem de tornar-se um instrumento que permita ao Partido as devidas possibilidades de luta, tal como a organização partidária marxista abre o caminho para o internacionalismo. Esse fim visa o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Estava demorando! Depois de fazer toda a análise do problema da sociedade, Hitler vem com a solução, claro! A solução estava em um partido forte, regido por princípios quase religiosos, que iria transformar o Estado em um verdadeiro Estado socialista. Não há nada original neste ponto. O elogio ao fascismo italiano segue os moldes do pensamento esquerdista:

[…] a perseguição da imprensa internacionalista, assim como o constante combate ao marxismo internacional, por outro lado a constante consolidação da doutrina fascista, habilitarão, no curso dos anos, o governo italiano a, cada vez mais, poder servir aos interesses do seu povo, sem receio da hidra judaica.

Veja o raciocínio de Hitler: lutar contra os marxistas era possibilitar o governo a servir aos interesses do povo. Por quê? Porque o marxismo era apenas socialismo de fachada, uma doutrina político-econômica judaica de dominação mundial. A análise de Hitler é extensa. Ele não cita apenas a Itália, mas vários países europeus, explicando que em cada país os judeus agiam de uma maneira diferente para conseguir seus objetivos, sempre de acordo com as características do país. Então, cita a Rússia, falando sobre o perigo do bolchevismo russo para o mundo. Conclui:

Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser.

Acredito que estes textos deixam bem claro que o antimarxismo de Adolf Hitler nem chega perto de colocá-lo na posição de direitista. A verdade é que Hitler era um esquerdista fervoroso, que considerava o Nazismo como o verdadeiro socialismo e o marxismo como uma doutrina judaica de dominação mundial, a qual ele freqüentemente denominava como capitalismo judaico internacional.

Um pequeno adendo           

Achei por bem colocar um adendo no fim desse artigo. Há pessoas que podem continuar insistindo que Hitler era antimarxista por ser direitista, baseando-se em alguns trechos de Mein Kempf que são apontados por esquerdistas como prova de que Hitler comungava de idéias básicas da direita. Eu gostaria de analisar pelo menos dois desses trechos, a fim de não deixar dúvidas sobre o esquerdismo de Hitler. Os dois trechos que escolhi me parecem ser os mais contundentes e acredito que a análise deles poderá servir de base para a análise de outros que o leitor poderá fazer por si próprio, quando ler o livro. O primeiro trecho é esse:

A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.

Alegam os esquerdistas que esse trecho é uma prova de que Hitler era de direita por três motivos. Em primeiro lugar, porque ele defende o “princípio aristocrático da natureza”, que seria um princípio no qual a direita acredita e a esquerda repele. Em segundo lugar, porque exalta o individualismo, criticando o marxismo por sua noção coletivista de sociedade. E, em terceiro lugar, porque exalta nacionalidades e raças, que é algo considerado conservador por quem é de esquerda.

Todos esses pontos, contudo, são falhos. Vamos começar pelo tal “princípio aristocrático da natureza”. O que viria a ser isso? Bem, para Hitler esse princípio tinha a ver com a alegação de que existem raças diferentes de homens e que algumas raças são superiores às outras. O pensamento fundamental de direita, no entanto, jamais defendeu uma sandice dessas. Embora seja verdade que muitos direitistas, ao longo da história, tenham sido racistas, tais concepções não passavam de opiniões pessoais que nada tinham a ver com a visão de mundo da direita. Até porque, ser racista independe de posição política. Pode-se ser tanto um direitista racista como um esquerdista racista.

O que a esquerda faz aqui é, na verdade, uma grande confusão. Ela confunde o “princípio aristocrático da natureza”, de Hitler, com o “princípio da diversidade natural”, este sim, defendido pelo pensamento de direita. Segundo tal princípio, os seres humanos nascem com diferenças de habilidades e, dentro dessas habilidades, há ainda quem seja melhor do que o outro. Isso é óbvio e não há preconceito nesta idéia. Por exemplo, em uma sala de aula nem todos são bons em química. Talvez, de 30 alunos, apenas 10 se dêem bem nesta matéria. E dentro destes 10, certamente há um ou dois que é melhor do que os outros. Isso vale para qualquer habilidade. É por isso que existem hierarquias, divisões de funções e até mesmo uma divisão desigual de riquezas. Não obstante, acreditar nisso não significa acreditar em raças naturalmente inferiores ou superiores.

Ironicamente, a idéia de usar o racismo dentro da política para criar grupos de conflito no mundo é uma idéia que encontra maior aporte na esquerda. Afinal, a direita rechaça a idéia de ver o mundo como uma enorme luta entre classes, ao passo que a esquerda se baseia nisso. Burgueses x Proletários; Religiosos x Ateus; Conservadores x Radicais; Brancos x Negros; Heterossexuais x Homossexuais; Machistas x Feministas; Pró-vida x Pró-escolha e etc. O mundo esquerdista é polarizado. Tem que haver um grupo oprimido, que precisa se proteger e se vingar, e um grupo opressor, que precisa ser combatido. O mundo direitista não tem grupos. Só indivíduos. Assim, o princípio de Hitler é apenas uma variação da mentalidade grupal (ou classista) da esquerda.

Quanto à questão da exaltação do individualismo, feita por Hitler, há aqui um paradoxo. Todos reconhecem que o Nacional Socialismo não foi uma doutrina que defendeu a liberdade individual. O simples fato de criar um objetivo único para todos é uma prova de que o regime não tinha a intenção de dar autonomia de pensamento ao indivíduo, mas pretendia controlar sua vida através do Estado. Então, o que será que Hitler quis dizer quando criticou o marxismo por negar o valor do indivíduo?

A explicação é simples. Hitler havia reparado que a doutrina marxista criava uma enorme massa amorfa de pessoas através da mistura de nacionalidades e culturas diferentes. Tudo se perdia nessa mistura, pois a doutrina enxergava a todos como apenas proletários. Raça, cultura, língua, hábitos e nacionalidade eram engolidos por essa massa proletária. Como Hitler era essencialmente nacionalista e racista, ele precisava fazer seus leitores se sentirem desconfortáveis em relação à maneira como o marxismo via as pessoas. O que ele faz? Primeiro, ele mostra como que o indivíduo não tem valor no marxismo, pois é apenas mais um proletário. Depois define o indivíduo em termos de nacionalidade, raça, cultura, língua e hábitos (tudo o que a massa amorfa do marxismo não levava em conta). Por fim, apresenta o nazismo como uma ideologia que valorizava o indivíduo, já que levava em conta o que o definia.

A mágica estava feita. Com essa retórica, Hitler conseguiu fazer as pessoas se sentirem valorizadas dentro do nazismo. Como, de fato, existe um senso muito maior de aproximação entre pessoas de mesma nacionalidade, cultura e etc., elas não se sentiam dentro de uma massa amorfa, mas dentro de uma grande família. Contudo, o suposto individualismo de Adolf Hitler é refutado em seu próprio texto. Observe esse trecho:

O Estado nacionalista racista tem que cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, em tudo em que reconhecer o valor da personalidade, e, assim, introduzir, em todos os campos de atividade, aquela produtiva capacidade de direção que só ao indivíduo é concedida.

Veja a contradição: Hitler fala em valorizar a personalidade, o indivíduo, mas deixa claro que isso é obrigação do Estado, bem como é sua obrigação cuidar do bem-estar dos cidadãos. Sabemos o que eles quer dizer com essas palavras. Sua intenção é se intrometer na vida dos cidadãos, através do governo, ditando aquilo que o Estado acha que é bom para o indivíduo. Isso nada mais é do que coletivismo! Individualismo é o Estado deixar o indivíduo por si próprio.

Com relação à defesa de nacionalidades e raças feitas por Hitler, mais uma vez, isso não é doutrina de direita. A direita acredita em diferenças de habilidades entre as pessoas (o que leva à existência de hierarquia) e no patriotismo, que é bem diferente de nacionalismo. O patriotismo é o amor pela nação, enquanto o nacionalismo é a criação de uma classe política nacional que se opõe às outras nações. E eu torno a dizer que tal visão classista é uma variante da mentalidade classista comum à esquerda.

O segundo trecho que quero analisar é este:

A ação destruidora do judaísmo em vários aspectos da vida do povo, deve ser vista como um esforço constante para minar a importância da personalidade nas nações que os acolhem e substituí-la pela vontade das massas.

Os esquerdistas alegam aqui que a esquerda sempre prega que o poder seja dado ao povo, ao passo que Hitler abominava isso. Seria esta uma prova de que ele não era de esquerda, mas de direita. Verdade seja dita, Hitler não pregava que o povo tomasse o poder. Mas isso, no máximo, fazia dele um esquerdista mais sincero que os outros neste ponto. Afinal, todos os líderes esquerdistas que prometeram dar o poder ao povo, se tornaram ditadores. Eles não se consideraram ditadores, claro. Eram “representantes” do povo. Mas o fato é que jamais se viu o próprio povo governar. E certamente todo líder sabe que, ao fim de uma revolução, alguém vai ter que tomar as rédeas do governo e receber poderes despóticos. Hitler apenas não fingiu que isso não ocorreria. Foi direto ao ponto: tem que haver um líder.

Isso só reforça seu esquerdismo. Para a direita, a idéia de colocar todo o poder nas mãos do governo, seja por meio de uma só pessoa ou de um só partido, é ridícula, extremamente ridícula. Lembremo-nos dos pais fundadores dos EUA, conservadores até os cabelos. Eles tinham um medo terrível do despotismo. Por isso projetaram uma nação federalista e com um governo central bem limitado. Lógico que os EUA não são mais assim há tempos! Mas eram. E eram porque seus fundadores eram direitistas.

Então, se um homem pretende dar ao Estado um poder ilimitado e se tornar o grande líder da nação, a fim de mudar os problemas do mundo, isso certamente não é nem um pouco conservador. Na verdade, é progressista. O conservador tem medo desse tipo de revolução insana e prefere sempre a prudência.

Como seria um bom governo de direita? – Parte 4 (Final)

Winston Churchill – Primeiro Ministro Britânico em 1940-45 e 1951-55. Ícone do conservadorismo anglo-britânico, se posicionou veementemente contra o nazismo, o fascismo, o comunismo e a segunda guerra mundial.

Esta é a quarta e última parte da série “Como seria um bom governo de direita”. A proposta da série, como já dito, foi mostrar ao leitor idéias típicas do pensamento de direita que certamente fariam parte do programa de governo de um bom governo de direita.

Digo bom governo porque não basta um governo dizer-se de direita ou ser chamado de direita pelos adversários. Um bom governo de direita é, de fato, um governo que põe em prática aquilo que a ideologia direitista vem pregando há pelo menos dois séculos: governo limitado, com poucas funções; baixos e poucos impostos; leis rígidas contra criminosos; incentivo à iniciativa privada; pouca burocracia e regulamentações; liberdade individual e etc. Sendo assim, descrevi aqui algumas ações básicas que precisariam ser tomadas para que tais idéias se fizessem realidade.

Nesta última parte, mais alguns tópicos importantes para o pensamento de direita e as ações políticas que eles engendram. Os tópicos abordados, como já previsto na terceira parte serão: Individualismo, Estado Democrático de Direito, Discriminações e Religião. Comecemos, então, a exposição dos tópicos.

13) Individualismo

Se me pedissem para escolher uma ideia de direita que fosse capaz de definir e sintetizar todo o seu pensamento, eu provavelmente escolheria “descrença no homem”. Afinal, é a descrença no homem que faz a direita clamar por um governo limitado, temendo que o aumento de poder governamental acabe com a liberdade do indivíduo. Mas, se por um lado a descrença no homem é, para mim, a ideia que melhor sintetiza o pensamento de direita, por outro lado, acredito que o individualismo é o principal valor que define a direita. Porque, como já dito, é este valor que move a direita a desconfiar do ser humano e, consequentemente, do governo. É o medo de perder a sua liberdade e/ou de ver seus semelhantes perderem suas liberdades. É o medo de deixar de ser tratado como um indivíduo, para ser tratado como parte de uma classe qualquer homogênea e inimiga de alguma outra classe.

É justamente por isso que a direita é geralmente chamada de conservadora, reacionária e defensora do status quo. Porque, enquanto a esquerda, em seu eterno estado de destruição de pilares sociais, não vê mal em castrar a liberdade do indivíduo em prol de seu desejo utópico de transformar o mundo em um paraíso igualitário, a direita continua a conservar o princípio da liberdade individual. Assim, ela é vista como a ideologia dos monstros que não querem ajudar a mudar o mundo. São os conservadores da classe, da desigualdade, dos problemas sociais.

Mas a verdade é que a direita é a apenas uma ideologia política que entende o individualismo como um bem inalienável. É uma coluna da sociedade. Se a arrancamos fora, tudo o que construímos vai por água a baixo. A verdade é que a direita é cética quanto ao céu esquerdista. Ela sabe que todas as tentativas de fazer da terra um paraíso, o tornam um inferno. Exemplos empíricos não faltam. O partido jacobino matou mais de 40 mil pessoas no espaço de um ano, na revolução francesa. O nazismo matou mais de 40 milhões de pessoas. O comunismo matou mais de 100 milhões de almas. Tudo em prol da massa, da classe, da raça. Tudo em oposição ao direito individual.

O individualismo é, acima de tudo, uma defesa contra a tirania. Não devemos ser obrigados a fazer o que o governo quer. Devemos ser os donos de nossas próprias vidas. Nosso direito, desde que não afete diretamente o direito do outro, não deve ser refreado. Se abrimos mão deste princípio básico, damos margem para que o governo faça as escolhas por nós. E, definitivamente, isso não é bom.

Quando um direitista abre mão do individualismo, portanto, afasta-se da direita. Já não pode ser chamado de direitista, pois abandonou o princípio primordial da ideologia direitista. Gradualmente, todos os seus demais princípios serão destruídos, porque todos os outros, de algum modo se ligam a este.

Por esse motivo, um governo de direita, acima de tudo, sempre se guiará pelo individualismo. E a cultura que será formada em um bom governo de direita será uma cultura individualista. Não egoísta. Egoísmo é não se importar com os outros. Individualismo é respeitar o indivíduo. A si próprio e aos demais.

14) O Estado Democrático de Direito

O Estado Democrático de Direito é uma consequencia lógica de se adotar o individualismo. Se o respeito ao indivíduo é um princípio primordial para um governo e para uma cultura, esse mesmo governo não pode ser ditatorial, totalitário, unitarista. Individualismo e governo autoritário, centralizador, são duas coisas diametralmente opostas. Segue-se, portanto, que um governo genuinamente de direita, sempre será descentralizado, limitado e servo das leis. O autoritarismo, de modo nenhum é algo que pertença a ideologia de direita. O individualismo não o permite.

Isso pode gerar certa confusão no leitor. Afinal, muitos governos pelo mundo a fora foram definidos (e até auto-definidos) como de direita, embora tenham sido extremamente autoritários. O governo nacional socialista alemão, o governo fascista italiano e a ditadura militar brasileira são alguns exemplos clássicos.

Entretanto, todos esses regimes tiveram poucas ideias de direita aplicadas. O principal motivo pelo qual foram definidos como regimes de direita era que eles eram anti-marxistas. E para o senso comum, se um regime é contra o socialismo marxista (ou comunista), é de direita. Um grande equívoco, por certo. É perfeitamente possível ser anti-marxista e de esquerda. A esquerda não é só feita de marxistas. Há quem ache o marxismo utópico demais e até perigoso, sendo assim, contrário a ele. No entanto, a mesma pessoa pode querer um governo bastante intervencionista, inchado, com muitas funções, muitos serviços públicos e altíssimos impostos. Ou seja, ela é anti-marxista, mas é tão de esquerda quanto qualquer comunista.

Uma vez entendido isso, não há dúvidas de que os regimes citados jamais foram de direita. Pelo contrário, suas principais características eram de esquerda: a visão do Estado como um agente transformador do mundo, os altos impostos, as muitas empresas estatais, o foco na educação pública, o forte intervencionismo econômico, a visão classista de mundo, a definição de classes inimigas que se constituem os responsáveis pelo mal no mundo, a desvalorização do indivíduo… Tudo isso são características de esquerda e não de direita. E são justamente essas características que levam o regime a se tornar autoritário e centralizador.

Portanto, fica claro que um regime realmente de direita sempre terá um Estado Democrático de Direito. Este Estado é garantido pelos princípios do individualismo, do Estado limitado e descentralizado, do governo não interventor e com poucas funções e etc. Não há como descambar para o totalitarismo e o autoritarismo seguindo essa receita.

15) Discriminação

Há no código de Hamurabi uma lei civil que afirma: “Olho por olho, dente por dente”. A mesma frase foi utilizada por Moisés, na Bíblia, para resumir o princípio jurídico que iria reger a punição para determinados tipos de crime. Não era, como muitos pensam, um incentivo à vingança própria, mas um princípio a ser usado por juízes, em julgamentos e dentro das prerrogativas da lei civil.

Entretanto, desde que o mundo é mundo, muitas pessoas tem utilizado essa mentalidade como regra moral para a sua vida. Em outras palavras, se fulano errou comigo, eu tenho o direito de cometer o mesmo erro contra ele.

É justamente esta mentalidade que a esquerda adota, a partir de meados do século XX, para lidar com o problema das discriminações. Partindo de sua premissa classista, ela passa a colocar na cabeça das pessoas que “se a classe Y foi humilhada durante os séculos pela classe Z, então a classe Y está legitimada a dar o troco. E assim vencemos o preconceito”.

É, na verdade, uma questão de estratégia. Tendo compreendido que uma revolução proletária mundial só seria possível após uma intensa revolução cultural pelo mundo (através do qual se disseminaria o marxismo entre o “povão”), a esquerda marxista passou a ramificar o conceito de guerra de classes, criando uma série de sub antagonismos dentro da guerra principal entre burguesia e proletariado.

Surgem assim, o antagonismo brancos x negros, homens x mulheres, religiosos x antirreligiosos e, mais recentemente, heterossexuais e homossexuais. E rapidamente todas as vertentes da esquerda entendem que explorar o campo emocional das “classes oprimidas” e incentivar o ódio entre “oprimidos” e “opressores” é uma ótima estratégia para se conseguir poder.

Do ponto de vista da luta contra discriminação, no entanto, a mentalidade de esquerda só serve para intensificar todos os preconceitos enraizados na sociedade. Não se luta contra discriminações, discriminando. Isso é tão lógico que me ofende ter que explicar.

A essência do problema da discriminação é a criação de uma desigualdade cultural e legislativa entre dois grupos distintos, a legitimação dessa desigualdade e a exploração do ressentimento mútuo e a legitimação dessa desigualdade. Todas as discriminações que existiram ao longo da história apresentaram essa “fórmula mágica”. E tudo o que a esquerda tem feito hoje no que diz respeito à “luta contra discriminação” apresenta essa fórmula. Vai mudar alguma coisa? Não vai.

A ação da direita quanto à discriminação é muito mais lógica. Se há grupos discriminados, vamos trata-los de maneira estritamente igual. Nenhum é superior ao outro. Na verdade, sequer devem existem grupos aos olhos de um governo de direita e de uma cultura de direita. Um cidadão, para o governo, não é um negro, ou um branco, ou um homossexual, ou um hetero, ou uma mulher, ou um homem. É simplesmente um cidadão igual a qualquer outro e sujeito às mesmas leis. Qualquer tipo de discriminação deve ser punida da mesma forma: com rigor. Afinal, discriminar é quase sempre formar classes; e para a direita, formar classes é destruir o individualismo, o pilar da direita.

16) Religião

Julgo interessante fechar a série de tópicos que vimos durante essas quatro postagens com o tema religião. A visão que esquerda e direita apresentam de religião é dos um maiores divisores de águas entre os dois posicionamentos políticos, de forma que vale à pena citar como um bom governo de direita encararia a questão.

Não raro os esquerdistas associam a direita à religião e os direitistas ao fundamentalismo religioso. Em outras palavras, a direita seria um posicionamento político religioso por natureza. A associação é descabida. O real posicionamento da direita em relação á religião é apenas de respeito. Afinal de contas, a maioria das religiões prega o amor, a compaixão, a misericórdia e o perdão, que são sentimentos nobres. Desses sentimentos nobres pregados pelas religiões surgem diversas escolas, hospitais e instituições de caridade, financiados pelo dinheiro de fiéis que se preocupam em ajudar ao próximo. Não há como se negar a enorme contribuição humanitária que as religiões têm dado ao mundo.

Alguém poderia contestar, dizendo que a religião também causou muitas guerras. Mas isso é uma distorção dos fatos, típica de quem é de esquerda. Na imensa maioria dos casos, a causa da guerra não é a religião, mas o religioso, o que é bem diferente. A religião em si só é capaz de causar guerra se esta for a doutrina ensinada por ela. Mas alguém conhece alguma religião que nos ordene odiar o próximo, matar, torturar? Definitivamente esta não é a doutrina das principais religiões do mundo. Cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, espiritismo – todas essas religiões pregam o amor, a compaixão e a paz.

Agora, o homem tem livre arbítrio. Ele pode escolher se desviar dos princípios básicos da própria filosofia que segue. Tal é o caso de alguns religiosos, que se enveredam por caminhos criados por suas próprias interpretações delirantes, distorcendo suas religiões e agindo justamente de contrária ao que suas religiões pregam.

Então, para a direita, dificilmente, é a religião que causa guerras ou qualquer outro mal social como fome, discriminação, desigualdade e etc. Esses males são causados pela própria maldade inerente do ser humano. Culpar a religião é tentar tirar o erro das costas do homem.

Por esse motivo, a direita não vê problema em reconhecer a importância da religião no mundo, respeitando a existência da mesma. Isso está longe de significar que ser de direita é ser religioso ou que a direita é posicionamento político que tem a ver com religião.

Não obstante, a esquerda não entende o assunto dessa forma. Como para ela o mal não está no próprio ser humano, mas em algo externo, tudo o que religiosos fanáticos, ignorantes, loucos ou mal caráter fazem, é tido como culpa da religião. Assim, a religião seria uma grande pedra no sapato do mundo.

Esse é o princípio do posicionamento esquerdista. Mas é claro que nem todo o esquerdista é antirreligioso. Do ponto de vista estratégico, isso nem seria bom para a esquerda, pois perderia adeptos religiosos. Assim, o que a esquerda faz é se dividir em vertentes quanto à visão sobre religião. São três as vertentes, todas igualmente importantes para ela: a visão liberal, a visão sincretista e a visão antirreligiosa em si.

Todas essas vertentes visam enfraquecer as religiões de raízes judaico-cristã, visto que a moral judaico-cristã entre em conflito direto com os interesses dos esquerdistas mais radicais.

O resultado desse “antirreliogismo” de esquerda não poderia ser diferente: gera-se preconceitos e conflitos até onde não existia e a liberdade religiosa vai por água abaixo. E uma vez travada (ou reduzida) a liberdade religiosa, o governo tem o caminho aberto substituir o culto a Deus pelo culto ao Estado, ao governo, ao partido e ao líder. Foi o que aconteceu em todos os países que tiveram regimes comunistas e é o que acontece em grande parte das democracias ocidentais, embora de maneira camuflada e sem o uso de coerção física (ainda…). À pretexto de tornar o Estado “laico” (como se laico significasse “anti-religioso”) os esquerdistas tem avançado em limitar cada vez mais a expressão das religiões tradicionais e, consequentemente, tornando os Estados mais autoritários.

Aqui é possível entender que o respeito da direita pela religião existe não apenas pelo que a religião representa para a humanidade (independente se há alguma religião correta ou não), mas, sobretudo, porque não respeitá-la é tirar a autonomia do indivíduo e abrir caminho para um agigantamento do poder do Estado. Assim, um bom governo de direita, que realmente prezasse pelos seus princípios, jamais enveredaria por esse caminho. O respeito à religião aqui entra como respeito ao indivíduo. Não há negociação.

Conclusão

Eu tive dois objetivos básicos durante essa série. O primeiro foi fazer o leitor conhecer um pouco mais sobre as propostas de direita e o que a direita pensa sobre os principais temas políticos. A segunda foi deixar claro que na medida em que um governo se afasta dos princípios expostos nesta série, se afasta também da direita. Entender isso evita confusões como a de chamar o Nacional-Socialismo de regime de direita (o que é ridículo). Termino com um breve resumo das ações que vimos:

1)    Diminuição da interferência do governo na economia

2)    Redução da carga tributária e cortes em gastos públicos

3)    Modelo de financiamento público individual na educação

4)    Criação de concorrência no sistema público privado

5)    Endurecimento das leis civis e penais

6)    Privatizações

7)    Concessões de curto prazo

8)    Presídios terceirizados

9)    Abertura para empresas e produtos estrangeiros

10)  Evitar e combater crises através da pouca intervenção

11)  Proteção à natureza através do sistema de lotes

12)  Fim da Previdência Pública obrigatória

13)  Incentivo ao individualismo

14)  Incentivo ao Estado Democrático de Direito

15)  Combate às discriminações através da igualdade cultural e legal

16)  Respeito à religião

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Links para as outras partes dessa série:

Como seria um bom governo de direita – Parte 1

Como seria um bom governo de direita – Parte 2

Como seria um bom governo de direita – Parte 3

A Droga da Mentalidade Classista

Pedro Bandeira é um famoso escritor de livros infanto-juvenis com temática predominantemente voltada para romances policiais, suspense e mistério. Uma de suas obras mais conhecidas chama-se “A Droga da Obediência”. O título, um tanto sugestivo, faz referência a uma droga que, no livro, fazia as pessoas obedecerem a um comando.

Por algum motivo, a lembrança do livro de Bandeira, me fez atinar para o fato de que a mentalidade classista (ou coletivista, se preferir) também é uma droga. Para quem não sabe, mentalidade classista é a tendência de encarar os indivíduos sempre como representantes de uma classe homogênea e uniforme. Ora, se a classe é homogênea e uniforme, todos os indivíduos serão tratados como se fossem exatamente iguais. Logo, o indivíduo deixa de existir e a classe passa a existir em seu lugar.

Dando continuidade ao raciocínio, averigüei que, semelhantemente às drogas, a mentalidade classista causa vício e leva o indivíduo a querer usar cada vez mais da droga. Vou mais longe: a mentalidade classista entorpece as pessoas de tal modo que seus cérebros são levados a criar alucinações. O resultado é que o classista começa a desenvolver graves psicoses, como a síndrome da perseguição. Um exemplo disso pode ser visto neste vídeo:

Perceba que no vídeo, a mocinha não reconhece a existência de indivíduos, mas apenas de classes. No caso específico, as classes são: negros e brancos. Os negros são definidos como indivíduos pobres, injustiçados e trabalhadores, ao passo que os brancos são definidos como bem abastados, “filhinhos-de-papai”, exploradores, parasitas e vagabundos.

Qualquer pessoa sã consegue perceber o delírio aqui. Não podemos reunir um monte de pessoas diferentes, cuja maioria nós sequer conhecemos, e traçar um perfil igual para todas elas. Há negros honestos e desonestos. Há brancos ricos e pobres. E por aí vai. Mas a idéia delirante de enxergar os indivíduos como classes, impele a jovem a traçar um perfil específico para cada classe.

É daí que se iniciam as psicoses. Em geral começa com a síndrome maniqueísta, isto é, a mania de entender as interações humanas em termos de bem versus mal. O seu cérebro aqui monta um cenário onde a classe a que você pertence é a classe dos caras do bem, os mocinhos. As demais classes são dos malvados, os vilões. E a história se resume a essa luta entre a classe boa e a classe má.

A síndrome maniqueísta desencadeia a síndrome da perseguição. A pessoa começa a se enxergar como explorado, perseguido e injustiçado. Isso resulta em vários problemas. O primeiro é que a pessoa se torna paranóica. Ela enxerga discriminação e exploração contra a sua classe em tudo. Qualquer fala, qualquer opinião, qualquer gesto, pode servir como base para que o indivíduo alegue injustiça.

O segundo é a perda de percepção do tempo. O indivíduo não consegue mais entender o que é passado. Por exemplo, se um etíope matou um egípcio há 400 anos, os egípcios de hoje são os injustiçados e os etíopes de hoje são os vilões. Não importa se foi há 400 anos. Não importa se o evento envolveu só duas pessoas. Não importa se as pessoas de hoje em dia nada tem a ver com o evento. Estamos falando de classes. O que um faz, todos fazem, em todos os tempos.

O terceiro problema que a síndrome da perseguição gera em uma pessoa é a idéia de que os fins justificam os meios. Ora, se você está sendo perseguido por um inimigo sórdido, cruel e explorador, seu cérebro vai impelir você a acreditar que pode fazer qualquer tipo de atrocidade para com ele. Aliás, você pode fazer até injustiças porque, em sua mente, o injustiçado é você e assim sempre será.

A síndrome da perseguição e todos os seus efeitos desencadeiam o ódio extremo à classe inimiga e o culto extremo a sua própria classe. A sua classe se torna uma classe superior e a classe inimiga se torna inferior. Na verdade, já era assim antes, quando você via sua classe como a classe dos caras bons. Mas, como já disse, a mentalidade classista é uma droga, e a droga torna a dependência do indivíduo gradualmente maior. O último estágio deste drogado é a hábito discriminatório, o preconceito.

É a hora em que nos perguntamos: não foi exatamente este o processo pelo qual passou Adolf Hitler? E não é exatamente este o processo pelo qual passam todos os genocidas? Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung, Pol Pot… A mentalidade classista tem várias faces, cada qual com suas classes e seus antagonismos entre classes. Negros x Brancos; Mulheres x Homens; Homossexuais x Heterossexuais; Religiosos x Anti-religiosos; Ricos x Pobres; Patrões x Funcionários; Nativos x Estrangeiros; Saudáveis x Doentes; Esquerdistas x Direitistas e etc. Mas a droga é a mesma, bem como os seus efeitos.

Uma Tendência Humana
Pode-se perguntar: “Mas agrupar-se e enxergar as pessoas em grupos não é uma tendência humana?”. A resposta é sim. Em geral, desejamos estar com pessoas que tem os mesmos gostos que nós, a fim de podermos compartilhar o que nos agrada com elas e de nos sentir parte de um grupo. Gostamos de estar em grupos. E é normal valorizar os grupos em que nos enquadramos. Certamente é por isso que tendemos a agrupar as pessoas em nosso cérebro.

Entretanto, seguir essa tendência natural humana é diferente de adulterá-la por meio de uma mentalidade psicótica, tornando-a um elemento discriminador. Este é o x da questão. Querer estar em um grupo ou reconhecer a existência de grupos no mundo nada tem a ver com enxergar o indivíduo como o grupo. O reconhecimento de grupos não pode substituir o reconhecimento do indivíduo. Classe não é indivíduo e indivíduo não é classe. Entende?

Eu posso fazer parte da classe dos rockeiros, mas devo ser analisado, tratado e julgado como Davi Caldas e não como rockeiro. Conforme afirmei uma vez em uma breve reflexão, eu não sou negro, nem branco, nem alemão, nem italiano, nem ariano, nem proletariado, nem burguesia, nem machista, nem feminista, nem gayzista, nem uma ONG, nem uma ideologia, nem um partido, nem uma religião, nem o povo, nem a massa, nem a comunidade, nem a sociedade, nem a humanidade…

Posso até fazer parte dessas classes, mas não sou uma abstração coletivista. Eu sou eu. Eu sou Davi Caldas, um indivíduo, com toda a sua individualidade. Por isso, me recuso a ser caracterizado, conhecido, definido, analisado e julgado como mais um número dentro de algum rótulo coletivista.

A minha individualidade está acima da coletividade onde me encontro. Isso não é egoísmo. Isso é o entendimento de que cada pessoa deve ser tratada, definida e respeitada como uma pessoa e não como parte de uma massa amorfa, abstrata e indefinida. Se um dia todos entendessem isso, o preconceito diminuiria muito e a manipulação de massas não lograria mais êxito algum. O ator Morgan Freeman diz isso de modo simples e direito nesta entrevista:

A Mentalidade Classista e a Esquerda
Compreendendo que a mentalidade classista é uma droga perigosa, que pode levar algumas pessoas a contraírem sérios distúrbios e psicoses, como já evidenciado, nossos olhos se voltam imediatamente para a esquerda política. A esquerda tem em seu DNA a mentalidade classista. Desde que o seu pensamento começou a se desenvolver, com Rousseau, Robespierre, Fourier e Marx, a idéia de enxergar os indivíduos como massa e o mundo como um campo de batalha entre classes antagônicas sempre esteve em sua base. E assim é até hoje. Não há esquerda se não houver a psicose classista.

Invariavelmente esse posicionamento nos tem levado às discriminações, aos regimes antidemocráticos, às perseguições, aos genocídios; ao culto ao partido que está no poder, ao governo, ao Estado, ao líder; à homogeneização forçada do mundo. A liberdade de expressão é destruída. A sociedade vira palco de uma luta sangrenta na qual uma classe deverá sucumbir para que a paz no mundo seja alcançada. Esse é o projeto da esquerda.

A Mentalidade Classista e a Direita
A direita rechaça e sempre rechaçou a mentalidade classista. Digo a direita e não os direitistas (notou a diferença?). É certo que há direitistas que foram contaminados pela droga da mentalidade classista, afastando-se dos ideais originais da direita. Mas o pensamento da direita encara a mentalidade classista como um delírio. Desde Smith e Burke até Churchill, Kirk, Thatcher e Reagan, a idéia de que o indivíduo deve ser valorizado acima da classe sempre foi a base do pensamento da direita.

Para a direita o mundo pode até ser um campo de batalha, mas entre indivíduos e não entre classes. Porque a classe, seja esta a burguesia, o proletariado, a mulherada ou uma nação inteira, ela não define todos os indivíduos. Isso é generalizar. É olhar para uma favela e dizer que lá só tem bandido. A mentalidade classista é o princípio de quase todos os preconceitos. “Todo religioso é burro”, “todo padre é pedófilo”, “todo pastor é ladrão”, “todo ateu é imoral”, “todo rico é explorador”. São preconceitos típicos de quem se droga com a mentalidade classista. É o que a direita rechaça.

Que fique claro que não estou dizendo que nenhum direitista é preconceituoso ou que todo o esquerdista o é. Longe de mim, fazer tal generalização (o que, iria ruir com todo o meu texto, aliás). Apenas estou dizendo que o pensamento da esquerda se baseia na mentalidade classista e o da direita não.

Para aqueles que querem seguir fielmente os seus princípios, isso precisa ser esclarecido. Um direitista que siga total e irrestritamente os ideais de direita, não poderá se drogar com a mentalidade classista, ao passo que um esquerdista que siga total e irrestritamente os ideais de esquerda, não poderá se abster de usar a droga da mentalidade classista. Este é um dos motivos pelos quais escolhi ser de direita.

Marxistas de mercado

É notório que para nós, direitistas, a guerra de classes não passa de conto de fadas. Os escritos de Marx são por nós rejeitados já a muito, desde que nasceram, e combatidos por diversos autores liberais e conservadores. Mas é inegável que seu pensamento influenciou muitos, infelizmente. E não digo muitos socialistas, ou neutros politicamente. Não, bom fosse apenas isso. O seu pensamento, após décadas de subversão, enraizou-se na civilização ocidental e passou a corroê-la por dentro, corromper aqueles dentre os que mais a defendem.

Um dos pensamentos essenciais para a formação do pensamento ocidental foi o liberal. A quebra para com as tradições absolutistas e arbitrárias dos Ancien Régime europeus elevou a status quo um paradigma até então inteiramente novo: o individualismo. Esse individualismo fez com que se fragilizasse uma noção até então persistente de hierarquia baseada em castas, de mobilidade social quase nula, para uma nova hierarquia baseada em uma ordem espontânea, algo como uma aristocracia natural. A casta agora pouco importava: ergueu-se o império do indivíduo. Este era o fim último. A proteção das prerrogativas básicas daquela que era agora a célula essencial da sociedade fazia-se imperativa. A legitimação do poder através de Deus deu lugar à restrição do poder pelos direitos naturais e inalienáveis do homem. Estes eram a vida, a liberdade e a propriedade privada.

O problema é que entre supostos liberais mais radicais de hoje em dia esse império do indivíduo ruiu. Pouco se fala em liberdades civis e econômicas, proteção dos direitos básicos, e aspectos do gênero. O indivíduo, lentamente, deu lugar a uma classe que supostamente o representa: o mercado. E “o mercado”, agora, está em uma constante guerra contra o Estado, outra classe. A relação entre Estado e indivíduos não é tratada como uma relação entre indivíduos, mas como uma guerra de classes, em que o Estado supostamente tenta a qualquer custo destruir o mercado. Em uma lógica maniqueísta, o mercado, representante dos indivíduos, deve ser defendido a qualquer custo.

Esquece-se, então, que o mesmo Estado é formado por indivíduos. Longe daquela velha mentira contada pelo Estado, de que nós somos o governo. Ingenuidade demais seria acreditar em um absurdo como esse. Mas nunca podemos perder de vista que o governo, representante do Estado, é composto por indivíduos. Não é uma entidade mágica má por natureza. É justamente a deformidade e a corruptibilidade da natureza humana que o faz falível, corrupto e abusivo.

Digo que o acima exposto é um problema pois assim os liberais analisam a sociedade da exata mesma maneira que o fazem os marxistas, apenas alterando os sujeitos dessa suposta guerra eterna que seria a locomotiva da história.  Esse pensamento os transformaria em, simplesmente, marxistas de mercado.