Resumo do que penso sobre 1964

Texto escrito pelo filósofo Olavo de Carvalho ao jornal estudantil gaúcho “Bah!” em 2004, a respeito de sua opinião sobre o chamado golpe militar de 1964 e a ditadura militar que se sucedeu depois do mesmo. Para ler o original, clique aqui.

Olavo de Carvalho – filósofo e escritor brasileiro

Tudo o que tenho lido sobre o movimento de 1964 divide-se nas seguintes categorias: (a) falsificação esquerdista, camuflada ou não sob aparência acadêmica respeitável; (b) apologia tosca e sem critério, geralmente empreendida por militares que estiveram de algum modo ligados ao movimento e que têm dele uma visão idealizada.

Toda essa bibliografia, somada, não tem valor intelectual nenhum. Serve apenas de matéria-prima, muito rudimentar, para um trabalho de compreensão em profundidade que ainda nem começou.

Para esse trabalho, a exigência preliminar, até hoje negligenciada, é distinguir entre o golpe que derrubou João Goulart e o regime que acabou por prevalecer nos vinte anos seguintes.

Contra o primeiro, nada se pode alegar de sério. João Goulart acobertava a intervenção armada de Cuba no Brasil desde 1961, estimulava a divisão nas Forças Armadas para provocar uma guerra civil, desrespeitava cinicamente a Constituição e elevava os gastos públicos até as nuvens, provocando uma inflação que reduzia o povo à miséria, da qual prometia tirá-lo pelo expediente enganoso de dar aumentos salariais que a própria inflação tornava fictícios. A derrubada do presidente foi um ato legítimo, apoiado pelo Congresso e por toda a opinião pública, expressa na maior manifestação de massas de toda a história nacional (sim, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” foi bem maior do que todas as passeatas subseqüentes contra a ditadura). É só ler os jornais da época – os mesmos que hoje falsificam sua própria história – e você tirará isso a limpo.

O clamor geral pela derrubada do presidente chegou ao auge em dois editoriais do Correio da Manhã que serviram de incitação direta ao golpe. Sob os títulos “Basta!” e “Fora!”, ambos foram escritos por Otto Maria Carpeaux, um escritor notável que depois se tornou o principal crítico do novo regime. Por esse detalhe você percebe o quanto era vasta e disseminada a revolta contra o governo.

O golpe não produziu diretamente o regime militar. Este foi nascendo de uma seqüência de transformações – quase “golpes internos” – cujas conseqüências ninguém poderia prever em março de 1964. Na verdade, não houve um “regime militar”. Houve quatro regimes, muito diferentes entre si: (1) o regime saneador e modernizador de Castelo Branco; (2) o período de confusão e opressão que começa com Costa e Silva, prossegue na Junta Militar e culmina no meio do governo Médici: (3) o período Médici propriamente dito; e (4) a dissolução do regime, com Geisel e Figueiredo.

Quem disser que no primeiro desses períodos houve restrição séria à liberdade estará mentindo. Castelo demoliu o esquema político comunista sem sufocar as liberdades públicas. Muito menos houve, nessa época, qualquer violência física, exceto da parte dos comunistas, que praticaram 82 atentados antes que, no período seguinte, viessem a ditadura em sentido pleno, as repressões sangrentas, o abuso generalizado da autoridade. O governo Médici é marcado pela vitória contra a guerrilha, por uma tentativa fracassada de retorno à democracia e por um sucesso econômico estrondoso (o Brasil era a 46ª. economia do mundo, subiu para o 8º. lugar na era Médici, caindo para o 16º. de Sarney a Lula). Geisel adota uma política econômica socializante da qual pagamos o prejuízo até hoje, tolera a corrupção, inscreve o Brasil no eixo terceiro-mundista anti-americano e ajuda Cuba a invadir Angola, um genocídio que não fez menos de 100 mil vítimas (o maior dos crimes da ditadura e o único autenticamente hediondo — contra o qual ninguém diz uma palavra, porque foi a favor da esquerda). Figueiredo prossegue na linha de Geisel e nada lhe acrescenta – mas não se pode negar-lhe o mérito de entregar a rapadura quando já não tinha dentes para roê-la.

É uma estupidez acreditar que esses quatro regimes formem unidade entre si, podendo ser julgados em bloco. Na minha opinião pessoal, Castelo foi um homem justo e um grande presidente; Médici foi o melhor administrador que já tivemos, apesar de mau político. Minha opinião sobre Costa, a Junta Militar, Geisel e Figueiredo não pode ser dita em público sem ferir a decência.

Em 1964 eu estava na esquerda. Por vinte anos odiei e combati o regime, mas nunca pensei em negar suas realizações mais óbvias, como hoje se faz sem nenhum respeito pela realidade histórica, nem em ocultar por baixo de suas misérias os crimes incomparavelmente mais graves praticados por comunistas que agora falseiam a memória nacional para posar de anjinhos.

Quem ousa defender a liberdade de expressão de Yoani Sanchez?

A blogueira cubana Yoani Sanchez, famosa pela sua oposição ao regime castrista através do blog Generación Y e pela perseguição sistemática que sofria sob tal ditadura, finalmente obteve permissão para sair da ilha e viajar a outros países.

Quando desembarca no Brasil, “uma das maiores democracias do mundo”, é surpreendida por nada mais nada menos que uma turba enlouquecida de esquerdistas, defensores ferrenhos da ditadura comunista no país, que a ofenderam de todas as impropéries que podiam e não podiam. A blogueira limitou-se a dizer que desejava que em seu país houvesse liberdade para fazer o mesmo.

No entanto, caros amigos, ainda existe vida inteligente no Brasil. Há gente neste país que mais do que se preocupar com a liberdade humana está empenhada em defendê-la de fato. Refiro-me aqui à exemplar manifestação de apoio do Liber à Yoani Sanchez ocorrida hoje pela tarde (21 de fevereiro de 2013) em São Paulo.

Só pela coragem de sair em manifestação sabendo que encontrariam forte oposição dos “revolucionários” chegados em um regime militar, os libertários já merecem elogios. Este ato, pequeno porém importante, marca o início de um novo ciclo na política brasileira. Acreditem, parece exagero mas não é: este ato marca o início da retomada do ambiente público e da opinão pública, pelos valores liberais. Largar um pouco os blogs, as palestras, as editoras, para arregaçar as mangas, fazer placas e cartazes e sair em uma manifestação deste tipo leva os valores liberais a um outro nível, muito mais próximo do público do que a velha estratégia de gastar horrores com ciclos de palestra e publicações de livros que só os convertidos leem. Paramos, enfim, de pescar dentro do aquário.

Gostaria portanto de, em nome do Direitas Já, parabenizar os membros do Liber pela mobilização. A causa da Liberdade tem muito a agradecer a vocês.

Confira algumas fotos da manifestação:
espioes CIA

Há também um vídeo disponível no YouTube: