O que é ordem espontânea?

É a ordem que surge como resultado das atividades voluntárias dos indivíduos e que não é criada de maneira hierárquica ou centralizada como o governo. Outra maneira de descrevê-la é o surgimento de ordem a partir do caos aparente e através da auto-organização. É uma das ideias fundamentais da tradição liberal clássica e da economia de livre mercado.

Petrus van Schendel - mercado ao atardecer
“Mercado ao atardecer”, de Petrus van Schenden.

A ideia remonta à época medieval, mas é mais comumente associada aos pensadores do Iluminismo Escocês do século XVIII como Bernard Mandeville, David Hume, Adam Ferguson e Adam Smith. Em A Riqueza das Nações, Smith usou a famosa analogia da “mão invisível” para ilustrar esta ideia:

“Todo indivíduo necessariamente trabalha no sentido de fazer com que o rendimento anual da sociedade seja o maior possível. Na verdade, ele geralmente não tem intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir dar sustento mais à atividade doméstica que à exterior, ele tem em vista apenas sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que sua produção seja de maior valor possível, ele tem em vista apenas seu próprio lucro, e neste caso, como em muitos outros, ele é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção. E o fato de este fim não fazer parte de sua intenção nem sempre é o pior para a sociedade. Ao buscar seu próprio interesse, freqüentemente ele promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.”

Em seu Ensaio sobre a História da Sociedade Civil, Ferguson usou a frase que seria posteriormente usada por Hayek, onde afirma que a ordem espontânea é “o resultado da ação humana, mas não a execução de qualquer propósito”. Ou seja, a ordem espontânea não é planejada, não é o fruto da busca consciente por um determinado propósito, não é o resultado direto das intenções humanas, mas o fruto da ação e do comportamento humano que emerge como resposta ao ambiente, ao meio social, ou um problema que precisa ser resolvido.

A ordem espontânea emerge porque seres humanos livres, dotados de razão e interessados em seu próprio bem-estar tendem a se organizar de modo a assegurar uma existência pacífica, próspera e benéfica para todos, ou pela necessidade pragmática de fazer com que certas coisas funcionem de maneira eficiente. São frequentemente citados como exemplos de ordem espontânea a evolução da linguagem humana, o surgimento do direito, a economia de mercado, a divisão do trabalho e, mais recentemente, os softwares livres e colaborativos.


NOTA: Parte deste artigo foi retirada, adaptada e traduzida do artigo “Spontaneous Order” publicado na Online Liberty Library, a quem pertencem os direitos autorais. Para acessar o artigo original, em inglês, clique aqui.

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Conhecimento Econômico I: Geração de Riqueza

Este texto também foi publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler por lá, clique aqui. 

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Você sabe como o salário e a qualidade de vida dos trabalhadores aumenta? Qual é a fórmula, por exemplo, dos países com a melhor qualidade de vida do mundo? Você acha que é através de um governo que aprova leis aumentando o salário mínimo e dando mais garantias aos trabalhadores? Eu preciso te dizer que não é assim. Vou explicar resumidamente como funciona. Essa será a primeira de uma série de conhecimentos de economia que obtive lendo (não na faculdade, obviamente, já que não aprendo muita coisa útil lá).

Em primeiro lugar, você precisa ter em mente um fato básico: o estado natural do ser humano é a miséria. Por quê? Porque é preciso fazer algum trabalho para se ter as coisas. Isso não é novidade do mundo globalizado. Um primitivo homem de alguma tribo no interior da África há 4 mil anos precisava forjar sua lança e sair em busca de animais para caçar e terra nova para plantar. Alimento, roupa e objetos não se fazem sozinhos. É preciso produzi-los ou, no mínimo, se dispor a ir atrás deles.

Na medida em que as sociedades crescem, também cresce o número de coisas que precisamos e desejamos. E na medida em que as sociedades crescem, o que estava pronto na natureza passa a não ser mais suficiente para suprir o contingente de pessoas. Isso implica a necessidade de mais trabalho ou de um trabalho mais efetivo em produzir o suficiente para a demanda.

A evolução da sociedade não trará apenas novos tipos de produtos, mas também serviços. Isso porque naturalmente é mais fácil dividir as tarefas para diversas pessoas da sociedade do que cada um fazer tudo sozinho. Em vez de eu fazer minhas próprias roupas, móveis, utensílios e alimento, posso focar apenas em uma coisa e adquirir o restante através do trabalho de outras pessoas. Além do mais, nem todos os lugares são igualmente ricos em tudo (naturalmente falando). Daí se iniciarão as trocas. Eu produzo equipamentos de ferro. Você produz roupas de lã. Eu troco algum utensílio de ferro que você queira por alguma roupa que preciso ou desejo. As sociedades se desenvolverão desta maneira, com pessoas se especializando na produção de algum bem ou serviço e trocando com outras.

Em pouco tempo esse sistema se mostrará problemático por não oferecer um parâmetro único para valorar os produtos e serviços trocados. Quantas túnicas valem um boi? Quantos bois valem um camelo? Quantos camelos valem uma safra de milho? Quantas espigas de milho valem um boi? Confuso. É aí que surge uma das melhores invenções do mundo: o dinheiro.

O dinheiro é um símbolo. Ele em si não vale nada. É apenas um pedaço de metal (hoje em dia, um pedaço de papel). Seu valor está justamente no que ele simboliza: os produtos e serviços. A invenção é genial porque através dela é possível valorar todos os produtos e serviços com um denominador comum. Assim, o valor do boi não será mais medido em mil produtos e serviços diferentes. Será medido em um valor monetário. Isso facilita muito a vida, pois estabelecerá uma relação entre os preços de cada coisa. Por exemplo, eu não sei quantas espigas valem um boi. Mas se fixarmos que um boi vale cem moedas de prata e uma espiga vale uma moeda de prata, então eu sei que vendendo um boi eu compro cem espigas. Vendendo cem espigas, eu compro um boi. Se uma casa custa cem mil moedas de prata, eu sei que isso equivale a mil bois e a cem mil espigas de milho.

Percebe? Com os preços, é possível relacionar tudo. Além do mais, o dinheiro resolve uma limitação da negociação por trocas: no sistema de trocas, se eu quero algo seu, mas só posso trocar por algo que você não quer, que não tem valor para você, então nada feito. Mas com o dinheiro, qualquer troca é possível, já que de posse do meu dinheiro você pode comprar para si algo que eu não tenho para trocar. O dinheiro, portanto, dinamiza todo o sistema de troca de bens e serviços, tornando-o mais fácil, eficiente, justo e expansivo.

Acha que saí do assunto? Não saí. Tem a ver. Eu comecei dizendo que o ser humano é naturalmente miserável. Ele precisa fazer algo (trabalho) para sair dessa condição. Ou seja, ele precisa produzir riqueza. Riqueza não é dinheiro. Riqueza são produtos e serviços. O dinheiro é apenas um símbolo para esses produtos e serviços, um meio para valorá-los sob um denominador comum.

Aqui está o “x” da questão. Se dinheiro é só um símbolo, o aumento do dinheiro na sociedade sem o equivalente aumento de produtos e serviços não fará com que magicamente surjam mais produtos e serviços. Você aumentou o símbolo, não as coisas que o símbolo compra. Em outras palavras, não houve geração de riqueza.

Esse é um erro infantil, no sentido literal do termo. Toda criança pensa que se poderia resolver os problemas do mundo imprimindo mais dinheiro, cunhando mais moedas. Assim, elas pensam, todos poderiam comprar mais. O problema está justamente nisso: do que adianta ter o meio para comprar, mas não ter o próprio objeto disponível para compra?

O aumento de salário mínimo via canetada do governo não tem o poder de gerar riqueza, portanto. Se, por exemplo, pegarmos um país miserável e elevarmos os salários de todos para o que seria equivalente a 3 mil reais no Brasil hoje, o que ocorrerá é que diversas pequenas e medias empresas irão falir, haverão demissões em massa, os produtos e serviços serão vendidos mais caros, muitas pessoas migrarão para o trabalho informal (sem carteira assinada, ou o que o valha), sobrarão algumas poucas empresas grandes que dominarão o mercado consumidor e o mercado de trabalho, haverá menos concorrência entre empresas (pois sobrarão poucas) e o povo perderá muito de seu poder de escolha. Isso sem contar com o fato de que quando você cria dificuldades para empresários, os grandes tentarão comprar facilidades junto ao governo. Tudo isso com uma canetada do governo. Por quê? Porque obrigou-se muitos a pagarem o que não tinham.

O que se pode argumentar aqui é que aumento do salário pelo governo, embora não gere riqueza, corrige distorções. Ou seja, em uma economia em que se está produzindo bastante riqueza, o aumento do salário pelo governo iria impedir que empresas que possuem condição de pagar melhor, pagassem menos.

Este argumento é até plausível. Mas a verdade é que o fator primordial para o salário se elevar não são as canetas do governo. É sim a concorrência. Explico.

Na medida em que o governo não impõe muitas dificuldades ao empreendedorismo, a tendência e o surgimento de mais empresas. Com mais empresas, o trabalhador pouco a pouco ganhará mais opções de lugares para trabalhar, o que não o deixará refém de um emprego que lhe pague muito pouco. Essa maior flexibilidade para o trabalhador acarretará uma disputa, entre as empresas, pelos melhores funcionários. Sabendo que não conseguirão mantê-los pagando pouco, terão que elevar seus salários. Como a economia vai bem, eles poderão fazer isso, pois há riqueza suficiente gerada.

Ao mesmo tempo, o aumento de empresas forçará o preço dos produtos para baixo. Por duas razões: (1) a abundância e (2) a concorrência. Quanto mais fácil é achar algo no mercado, mais barato tende a ser, pois tem aos montes. E quanto mais empresas vendem determinado produto ou serviço, mais cada uma delas procurará não vender a um preço exorbitante e até procurar meios de baratear para ganhar da concorrência (ou, no mínimo, para não perder).

Com os produtos mais baratos, as pessoas poderão comprar mais, ter acesso à mais coisas que precisam e/ou desejam, viver melhor. Poderão, inclusive, buscar especialização e estudo que as tornarão profissionais mais valorizados; ou investir em um negócio, gerando mais empregos. Nos dois casos, ela estará contribuindo para a elevação de salário da sociedade, ou por aumentar o nível de instrução e especialização, ou por abrir mais uma empresa que forçará, por meio de concorrência, as demais a venderem mais barato e pagarem melhor seus funcionários. A concorrência tende a tornar as coisas mais justas, colocando preços e salários nos patamares convenientes à saúde da economia.

O resultado não é o fim da pobreza ou da desigualdade social, mas sim a elevação da qualidade de vida de pobres e ricos. Na verdade, a própria definição de pobre muda. O pobre passa a ter muito mais capacidade de aquisição de bens e serviços do que antes. Torna-se rico em relação ao passado. Os pobres passam a sê-lo apenas em relação aos mais ricos, mas terão a mesma dignidade de vida.

Marx acreditava que esses sistema, ao qual chamava de capitalismo, inevitavelmente formaria monopólios. Na sua visão, o crescimento das grandes empresas inviabilizaria a vida das pequenas e médias, pois elas conseguiriam vender mais barato. E assim as poucas grandes empresas que sobrassem iriam permanecer explorando os trabalhadores.

Há dois erros nesse pensamento. O primeiro é que Marx não previu que o aumento da complexidade social cria necessidades distintas. Por exemplo, um mercadinho pode vender as coisas um pouco mais caras num bairro, mas ser preferência daquele casal de velhinhos que não tem disposição para ir até o centro comercial da cidade. Pode ser preferência daquele indivíduo mais preguiçoso ou que possui menos tempo para se deslocar. O mercadinho pode contar com um produto local bom que não é vendido pelos mercados grandes. Pode haver nesse mercado um confeiteiro que faz bolos muito bons. O mercado pode se especializar em algum produto ou serviço distinto. Algumas pessoas podem preferi-lo por ser mais vazio. O bom atendimento pode ser um diferencial. Os preços podem não ser tão divergentes, não fazendo tanta diferença no final. E o salário dos funcionários (bem como o lucro dos donos) pode ser menor, o que reduz os custos e possibilita produtos mais baratos. Em suma, há muitas nuances. E, de fato, a história comprova que essas nuances fizeram a diferença, já que a concorrência, onde pôde operar, gerou mais empresas e elevou a qualidade de vida da sociedade.

O segundo erro de Marx foi não ter percebido que seu próprio argumento favorecia a ideia de concorrência. Ora, se as grandes empresas ganhariam a concorrência por venderem mais barato, isso é um benefício para o consumidor. Eis, aliás, uma questão curiosa: embora possa, à priori, parecer interessante aos patrões (do ponto de vista mercadológico) pagar os menores salários possíveis, esse tipo de sistema logo se mostra inviável. Afinal, se todos os trabalhadores forem miseráveis, quem comprará os produtos? Assim, a elevação de salários segue seu rumo natural numa economia de mercado, sem poder ser contida em conjunto, sob o risco de reduzir os lucros de todos e ocasionar falências.

Mas voltando à questão da concorrência, como Marx não trabalha com a noção da melhora natural da qualidade de vida das pessoas, não consegue prever que isso possibilita o surgimento de novos ricos e de empreendedores habilidosos. Ou seja, em um sistema de mercado livre (onde o governo não intervirá favorecendo uns é prejudicando outros), quem chega ao topo não está seguro para sempre no topo. A melhora da qualidade de vida da sociedade implica mais concorrência, criando um ciclo positivo.

A história mostrou que estás elucubrações não são apenas teóricas. De fato, esses sistema pós industrial baseado em divisão de tarefas, livre mercado e o bom e velho dinheiro (sistema que chamamos de capitalismo) tirou o ser humano de uma produção ínfima que não mais supria a demanda, para uma produção muito mais abundante. Isso gerou uma redução da miséria, uma elevação do padrão de vida e uma mobilidade social jamais antes vistas no mundo.

Agora, atenção: isso não é um argumento contra a existência de um salário mínimo estipulado pelo governo e garantias legais. É apenas a constatação de que as canetadas do governo não se constituem fator fundamental para a elevação dos salários e da qualidade de vida. Isso não impede a existência de argumentos à favor de determinado grau de intervenção governamental no sentido de coibir abusos. A limitação de horas de trabalho por dia e a garantia de um salário mínimo digno me parecem ideias legítimas. Por outro lado, é preciso entender que no mundo real nem sempre existem soluções plenamente satisfatórias para os problemas. Estipular um salário mínimo também pode implicar menor número de empregados, já que algumas empresas não suportarão o ônus. Para quem está desempregado e nada recebe, poder receber algo, ainda que abaixo do mínimo, seria interessante.

Ficamos então em um impasse: ou melhoramos a vida de quem já está empregado (via canetada do governo) e aumentamos o desemprego, ou reduzimos o desemprego e pioramos a vida dos empregados. Se escolhemos a primeira opção, podemos evitar que empresários maus explorem seus funcionários, mas também atrapalharemos a vida de empresários bons que não possuem condição de pagar muito. Se escolhermos a segunda, fica bem mais fácil conseguir emprego, mas abre-se possibilidade de trabalhos bastante exploradores.

Por outro prisma, também existe a possibilidade de que a redução do número de desempregados e o aumento do número de empresas torne os empregados mais disputados e valorizados, o que tenderá a elevar os preços por meio da pressão da concorrência. O contraponto é que essa elevação pode demorar algum tempo, o que manterá muitas pessoas em situação degradante. Mas há também outra nuance: a situação da maioria das pessoas antes do capitalismo era muito ruim. O capitalismo não tem como mudar tudo de uma hora para a outra.

Ficam as dúvidas: tentamos proibir explorações correndo o risco de atrasar o desenvolvimento e a consequente elevação da qualidade de vida? Ou deixamos a economia o mais livre possível, abrindo riscos de exploração, mas acelerando o processo de enriquecimento de todos? Há um modo de equilibrar as duas coisas? São perguntas difícies. Não há como negar que os primeiros estágios do capitalismo foram bem ruins. Mas não há como negar que os estágios anteriores ao capitalismo também eram igualmente ruins. Tampouco há como negar que os países com melhor qualidade de vida do mundo são os que possuem legislação trabalhista mais frouxa. Em muitos deles nem salário mínimo estipulado pelo governo há, como na Suíça. E então?

Como eu disse: não há solução plenamente satisfatória. Eu, Davi, procuraria uma espécie de equilíbrio. Trazendo a questão para o Brasil, creio que o maior entrave para a economia não é o atual salário mínimo estipulado pelo governo ou os direitos trabalhistas. O maior entrave está sim nos altos impostos e na excessiva burocracia e regulamentação para se abrir e manter negócios. É isso que dificulta a sobrevivência das empresas (sobretudo pequenas e médias), bem como a entrada de novos concorrentes no mercado. É por causa desse excesso de tributação, burocracia e regulamentação que o Brasil se encontra nas posições 118 e 122 nos rankings de liberdade economica (Economic Fredom) e facilidade de fazer negócios (Doing Business). Gerar empregos e riqueza assim é muito complicado.

Outro problema que a intervenção governamental traz é a manutenção de alguns monopólios estatais e a proteção de monopólios e oligopólios privados através de agencias reguladoras. Tais políticas tiram da sociedade a capacidade de gerar mais empresas, empregos, serviços, produtos, qualidade, concorrência. E os consumidores ficam à mercê dessas grandes empresas, com pouca ou nenhuma liberdade de escolha, se sujeitando a preços altos e qualidade péssima.

O governo também, por gastar demais, cria déficits que acabam sendo pagos por nós. E é o governo o grande responsável por criar inflação (algo que será abordado no Conhecimento II), que reduz nosso poder de compra. Ademais, os direitos trabalhistas atrapalham mais pelo modo como foram formulados do que propriamente pela sua existência. Por exemplo, o INSS e o FGTS são descontados obrigatoriamente do trabalhador, indo para o governo. O funcionário deveria ter o direito de escolher ter esse dinheiro descontado ou não, contribuir para a previdência ou não. A previdência, aliás, deveria funcionar de modo individual, onde cada um contribuiria para a sua própria e não para a de outros. Já que todos os direitos do trabalhador são o seu salário compartimentado, ele deveria poder fazer uso dele integralmente.

Atacando esses problemas, a economia se tornará muito saudável, não sendo necessário mexer nos direitos trabalhistas. Estes, por sua vez, se tornarão quase inócuos, já que o que faz a sociedade ficar rica não são as canetadas do governo. Se causarem algum problema, será muito pequeno, sendo logo compensado pelo rápido desenvolvimento do capitalismo. Se ajudarem a evitar abusos (ainda que não constituam o fator primordial para nosso desenvolvimento), saímos no lucro. Em todo o caso, o que fica claro aqui é: o que melhora a vida da sociedade é o capitalismo.

Eleições Municipais 2016

ELEIÇÕES-2016

Eleições municipais estão chegando, galera! Já sabem, né? Nada de votar em socialistas. Evitem também votar em candidatos estatistas que já estão há anos no poder e só fazem aumentar o Estado. Evitem também votar em quem não quer ver vagabundo preso e é a favor dos direitos dos manos. Também não votem em quem diz que não existe doutrinação ideológica nas Escolas. E muito menos em quem deseja implantar ideologia de gênero na educação pública. Querem que eu dê nome aos bois? Não votem em ninguém do PT, Rede, PCdoB, PCB, PSOL e PDT. E em nenhum socialista de qualquer outra sigla.

Não tenho indicação de partido bom. Garimpem candidatos nos partidos menos ruins. Há alguns (poucos) que se salvam no PP, PSC, PMDB, PSDB e DEM. O NOVO e o PSL têm me decepcionado muito com sua cegueira em relação à guerra cultural contra a esquerda. Mas creio que possam haver alguns bons candidatos por lá. Aqui no Rio, para prefeito, há duas opções: o Flávio Bolsonaro (PSC) e o Rodrigo Mezzomo, que vai tentar concorrer sem partido (fará a petição ao STF nos próximos dias). São dois candidatos honestos (até onde se sabe) e de direita. Ou seja, não há necessidade de votar em ninguém do PSDB ou do PMDB por falta de opção. Hora de tirar o PMDB da prefeitura do Rio, portanto.

Não deixem de dar importância para os vereadores. Não é só o prefeito que importa. Uma câmara municipal cheia de imbecis e corruptos atrapalha muito o trabalho de um bom prefeito.

A força de um indivíduo

Texto de Flávio Quintela, originalmente publicado no Gazeta do Povo. Para ler o original, clique aqui.

Macri

Já ouvi muitas vezes, durante conversas sobre política, que o Brasil não tem jeito, que não adianta mudar o presidente, que uma pessoa só não consegue fazer nada porque o sistema inteiro está podre etc. É claro que essas afirmações têm seus componentes verdadeiros, dado que nossa estrutura político-administrativa estimula e facilita práticas funestas como a corrupção, as trocas de favores entre os poderes e o aparelhamento da máquina pública. Mas não se pode minimizar a importância da Presidência da República nas decisões que afetam diretamente todos os cidadãos, e é justamente neste, que é o mais alto de todos os cargos eletivos brasileiros, que a força (ou fraqueza) de um indivíduo é aumentada exponencialmente.

Nossos vizinhos de continente, os argentinos, completaram um mês de governo com seu novo presidente, Mauricio Macri. Um alto membro do Banco Central argentino deu uma declaração que resume bem o nível de efetividade do novo presidente. Diz ele: “Não consigo crer: apertamos um botão e começamos a girar dinheiro. Nos últimos quatro anos dediquei uns 30% de meu tempo e energia pedindo autorizações para fazer isso; agora posso voltar a pensar em como ajudar os negócios do país a crescer”.

O “botão” a que ele se refere foi a decisão de Macri de abolir o cepo cambiário, que era o controle do governo sobre o mercado de dólares implementado por Cristina Kirchner em 2011, uma esquisitice econômica que infernizou a vida dos argentinos por quatro anos.

Outras medidas e decisões presidenciais tomadas no primeiro mês de governo foram: supressão dos impostos e cotas de exportação (os impostos chegavam a 30% do valor exportado e as cotas fixavam limites de venda de produtos agrícolas ao exterior); demissão de 10 mil funcionários públicos contratados irregularmente por Kirchner, mesmo sob uma legislação que torna a demissão quase impossível no funcionalismo público; terminação do tratado econômico com o Irã, decisão que deve levar à reabertura de uma denúncia judicial contra Cristina Kirchner, acusada de ter conseguido o referido tratado em troca de favorecer cinco agentes iranianos que participaram de um atentado a uma organização judaica em Buenos Aires; pedido de suspensão da Venezuela do Mercosul, que depois foi reconsiderado em virtude da vitória oposicionista nas eleições para o parlamento venezuelano; descredenciamento de médicos cubanos – participantes de um programa similar ao Mais Médicos – para “não financiar ditaduras”; derrubada, por decreto, da lei dos meios audiovisuais, uma das peças legislativas mais antidemocráticas do governo anterior.

Com essas e outras decisões, e com a escolha de uma equipe economicamente liberal, Mauricio Macri mostra que tem uma compreensão muito clara do poder da presidência e do poder de um indivíduo. A política argentina também é corrupta e cheia de conchavos; os últimos 12 anos dos argentinos também foram marcados pelo governo de uma única dupla; o alinhamento do país também era bolivariano; e a crise econômica também era uma realidade. É claro que todos os problemas não serão resolvidos desta forma, com medidas rápidas e pontuais. Mas esse tipo de decisão mostra o tipo de gestão que o presidente pretende fazer. Na era da globalização, em que meras percepções causam o movimento de volumes enormes de dinheiro, Macri coloca a Argentina em posição de receber novamente a confiança e os recursos dos investidores estrangeiros, e prepara o caminho para uma recuperação econômica. Além disso, mostra respeito à liberdade de expressão e desprezo por tiranias e ditaduras, sensatez elementar que não tem feito parte do governo brasileiro.

Avante, hermanos! Invejinha de vocês

Resumão sobre o Minarquismo

Este texto foi postado originalmente no blog “Mundo Analista“. Clique aqui se quiser ler por lá também.

Singapura
Singapura – nação que costuma a estar, anualmente, em primeiro ou segundo lugar nos rankings mundiais de liberdade econômica (fator fundamental para a existência de uma minarquia).

Escrevi um texto grande outro dia falando sobre, entre outras coisas, o minarquismo. Vou resumir aqui.

Minarquismo é um sistema de governo onde o Estado financia e administra apenas um número bem reduzido de coisas; coisas essenciais e que não podem ser desempenhadas pelo setor privado.

Entre os minarquistas há diferenças de grau. Alguns são radicais e não aceitam que o Estado coloque a mão em nada além de:

– Juízes, Tribunais e (talvez) Cartórios;
– Legisladores e Assembleias Legislativas;
– Força Policial, Força Militar, Delegacias e Quarteis;
– Manutenção de Ruas e Estradas;
– Administradores de verbas e regras para estes setores.

Outros minarquistas, como eu, são conservadores. Os conservadores são avessos à mudanças abruptas e entendem que além do mercado livre e de um Estado reduzido, também devemos pensar na dignidade daqueles que hoje se encontram sem a mínima condição de se bancarem sozinhos.

Por isso, defendemos que o Estado, à princípio, continuaria financiando educação e saúde. Mas de modo diferente. Gradualmente, o Estado deixaria de financiar hospitais e escolas públicas, passando a pagar bolsas e planos de saúde para os mais pobres em escolas e hospitais privados (à escolha do indivíduo ou da família).

Isso reduziria gastos e responsabilidades administrativas do governo, sem deixar os que dependem das coisas públicas hoje sem assistência. Também daria oportunidade de escolha para as pessoas, reduziria a quase zero a má gestão e corrupção e impediria que as escolas fossem usadas para servirem de meio para doutrinação ideológica por parte do governo.

Como a mudança ocorreria de modo gradual, as escolas e hospitais públicos que restassem passariam por reformas para descentralizá-las das mãos do governo. No que se refere às escolas, uma parte delas seria entregue à administração direta do corpo de professores de cada unidade (com presidência de um diretor escolhido por esse corpo), cabendo ao Estado apenas financiar, auditar e não permitir abusos ideológicos ou de outros tipos. Outra parte seria entregue à gestão militar, que sabe dar mais limites aos alunos e administrar com mais ordem e decência.

Quanto aos hospitais, o mesmo poderia ser feito. Uma parte seria administrada pelo corpo de médicos e enfermeiros (com presidência de um diretor escolhido por esse corpo) e outra passaria à gestão militar. O Estado apenas cuidaria do financiamento, auditoria e impedimento de abusos. Cada unidade escolar e hospitalar teria grande independência e autonomia para tomar decisões. O currículo escolar, por exemplo, seria escolhido pelo corpo de professores de cada unidade, em diálogo com os pais e o grêmio estudantil também da unidade, sem intromissão do governo.

O que tenho proposto é o seguinte: privatizar 50% das escolas e hospitais e passar seus alunos e pacientes para o sistema de bolsas e planos já mencionado. Passar 25% para a gestão militar e outros 25% para a gestão autônoma de cada unidade.

Na medida em que a economia for melhorando, outras escolas e hospitais vão sendo privatizados e o sistema vai passado para bolsas e planos de saúde. E na medida em que as pessoas saem da pobreza, as bolsas vão diminuindo.

Nem é necessário abolir a CLT (que está longe de representar o nosso maior problema, conforme expliquei no outro texto). E a bolsa família pode continuar por um tempo para quem está abaixo da linha da pobreza (pois realmente faz diferença para essas pessoas).

Afora isso, o governo deve parar de financiar todas as outras coisas, privatizando empresas estatais (ou terceirizando), abrindo o mercado em todos os setores e cortando gastos desnecessários. Também deve cortar burocracias e regulamentações desnecessárias, que atrapalham o surgimento e a manutenção de empresas, e inviabiliza a existência de concorrência. Tais medidas aumentariam o número de empresas, pois haveria mais competição e liberdade de empreender. Por exemplo, não haveria uma empresa estatal de entrega de cartas, mas várias privadas. Não haveria uma empresa estatal de coleta de lixo, mas várias privadas. Qualquer pessoa em dia com os documentos do carro, sem antecedentes criminais e mentalmente saudável poderia usar seu carro para oferecer serviços de transporte, não necessitando de qualquer outro requisito.

Com os cortes e mais o dinheiro arrecado dos impostos sobre as novas empresas privadas, o governo poderia dobrar o salário de médicos, enfermeiros, professores e policiais, sem dificuldade, além de investir em melhores equipamentos e instalações.

Tem dúvidas? Acha que não seria uma economia tão estrondosa? Pois então preste a atenção. Seriam cortados os gastos estatais com:

– Fundo Partidário,
– 25 dos 37 Ministérios Federais;
– 15 das 25 Secretarias do Estado (no caso do Estado Rio de Janeiro);
– 15 das 26 Secretarias Municipais (no caso da cidade do Rio de Janeiro);
– Todas as propagandas de empresas estatais;
– Carnaval;
– Artistas;
– Shows;
– Turnês;
– Filmes e Documentários;
– Comlurb (empresa de coleta de lixo);
– Correios;
– BNDES;
– Banco do Brasil;
– Caixa Econômica Federal;
– Petrobras;
– Eletrobras;
– Agências Reguladoras (tais como a Anatel);
– INSS (seria substituído por vários bancos e empresas de previdência que se cadastrariam em um órgão do governo, caso cumprissem requisitos básicos, para oferecer aposentadoria e demais direitos ao cidadão);
– Presídios;
– Portos;
– Museus;
– Zoológicos;
– Institutos de Artes;
– Institutos de Ciências;
– Diversos Fundos Especiais;
– Diversas empresas estatais.

Hoje, só de impostos federais pagamos quase 2 trilhões de reais por ano. Se fossem feitos esses cortes e as mudanças já mencionadas na gestão de escolas e hospitais públicos, economizaríamos no mínimo (sendo muito pessimista) 50% desses gastos, além da economia dos gastos nas esferas estadual e municipal. No mínimo, algo em torno de 1,5 trilhão de reais. É dinheiro de sobra para pagar todas as dívidas de nossos governos, dobrar o salário das categorias já mencionadas e ainda reduzir os impostos de cidadãos e empresas.

Pagando menos impostos e com menos burocracias e regulamentações estatais, a sociedade teria mais condição de empreender, gerando mais empregos e, por consequência, mais concorrência, que, por sua vez, melhora a qualidade dos serviços e produtos, torna-os mais comuns e reduz o preço. O aumento do número de empresas, por conseguinte, reduz a relação desempregados-empresas, o que gera concorrência por funcionários e, com isso, tende a elevar os salários.

O Estado reduzido e limitado não traz risco de retirar a liberdade individual e se tornar totalitário, evitando assim o surgimento de autoritarismo. E isso tudo, lembrando, sem a necessidade de retirar dos mais pobres a assistência e sem abolir a CLT.

A tendência desse Estado é reduzir e se limitar cada vez mais até chegar ao ponto do estritamente necessário. Isso é minarquia ou minarquismo.

O oposto desse sistema é o estatismo. O estatismo é o sistema que prevê um Estado gigante, com milhares de áreas de atuação, financiando, gerindo, regulando e burocratizando centenas de empresas e setores. Esse sistema é o que facilita a má gestão, a irresponsabilidade, os déficits públicos, o desvio de verba pública, a corrupção e o totalitarismo. Quanto o maior o Estado, mais esses problemas tendem a aumentar. É desse mal que padece o nosso Brasil. O estatismo é o nosso grande inimigo. Você está sendo assaltado, extorquido, explorado, oprimido, pisoteado, desrespeitado por um Estado-monstro.

Socialismo e emoção: o exemplo do Sudeste Asiático

Esse artigo foi publicado originalmente no site Viagem Lenta e pode ser lido aqui.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático
Comiserados comunistas no Vietnã

Quais os motivos da dominância da mente socialista? Infância cultural, baixo IDP, auto-engano ou ineficiência dos discursos liberais? Ou uma combinação de todos esses? Socialismo e emoção no Sudeste Asiático.

 

Minha passagem aos três países da península da Indochina reforçou na minha mente uma das muitas ideias e características relacionadas ao socialismo e aos seus defensores: a impossibilidade de aceitar que durante todo o tempo eles estiveram (e estão) equivocados em sua visão de sociedade ideal, cuja viabilidade em tempos atuais é facilmente desconstruída apenas pela observação histórica e um mínimo de bom senso na observação do mundo atual.

Comecemos a análise pelos nomes oficiais dos países da península da Indochina: República Socialista do Vietnã, República Popular do Camboja e República Democrática Popular do Laos, denominações claramente socialistas/comunistas. Os governos, ostentam o orgulho de sua “revolução” na década de 70 e 80, exibem em inúmeros locais fotos dos seus líderes (o culto à personalidade já característico do sistema) e das bandeirinhas vermelhas da foice e do martelo, símbolo arcaico e ridículo de um sistema que já foi responsável pela morte de milhões e milhões de pessoas direta e indiretamente ao redor do mundo, e que, incrivelmente, ainda atrai seguidores, muitos deles por aqui… Como Millor Fernandes disse uma vez, “uma ideologia quando fica velhinha vem morar no Brasil” – e nos nossos vizinhos da América do Sul. Arrebatados desde o período escolar, infelizmente a grande maioria de seus discípulos desconhece o real significado e as consequências históricas desses movimentos, como a gradual perda de liberdade de cada indivíduo.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático
Propagandas de empresa de telefonia celular no Laos

Esses governos porém, assim como o chinês, perceberam algo rapidamente: que o socialismo é impraticável economicamente – como bem observou Mises quase um século atrás, e apenas aprofunda a miséria na sociedade.  Foram muito mais ágeis, portanto, que Cuba (que só agora começa a admitir seu fracasso como país após a Revolução de 1959) e da Coréia do Norte, que sempre dependeu de ajuda externa para alimentar sua população. Possivelmente receberam o incentivo na década de 80 da pressão da população no leste europeu, e em certa medida da então URSS, que despertaram antes do próprio governo. Uma outra influência poderosa foi o despertar do vizinho chinês no final da década de 70, quando Deng Xiaoping aprovou os primeiros experimentos capitalistas na China. O fato é que na mesma década, os estados asíaticos alteraram sua rota, uma vez que sua própria existência poderia estar ameaçada.

O resultado hoje é que, na antiga Indochina, o capitalismo está por toda a parte. Na publicidade da telefonia celular no ponto de ônibus, na propaganda de cerveja, na lixeira das ruas, na importação de carros de luxo, nas lojas que vendem os últimos modelos de computadores e tablets e nas hábeis negociações de produtos dos inúmeros vendedores pelas ruas. A consequência dessa mudança de visão é notória: o crescimento dos países acelerou-se após as reformas de viés capitalista, com grandes melhorias correspondentes no IDH. Como exemplo, em 1986, o 6º Congresso do Partido Comunista do Vietnã aprovou várias diretrizes com profundas mudanças na sua economia, que foram ampliadas com mais intensidade nos anos seguintes, em um plano que ficou conhecido como “Doi Moi” ou “Renovação”. Essas medidas guiaram-se totalmente em prol a uma maior liberalização so sistema, direcionando-o para uma economia de mercado e abandonando na prática tudo o que o marxismo-socialismo preconiza. Curiosamente no entanto, o artigo 4º da constituição de 1992 prega que:

“O Partido Comunista do Vietnã, vanguarda da classe trabalhadora, fiel representante da classe operária, do povo trabalhador e da nação inteira, iluminado pela doutrina marxista-leninista e pelo pensamento de Ho Chi Minh, é a força diretriz do Estado e da sociedade”

 

Temos duas alternativas para entender tais declarações. Ou eles não conhecem nada da doutrina marxista-leninista ou são fanfarrões ao extremo, assim como muitos dos veículos de comunicação comunistas/socialistas de vários países, que aplaudem as reformas no Vietnã, como se fossem realizações baseadas na sua ideologia, afrontando totalmente o reconhecimento que foram justamente as mudanças capitalistas que fizeram com que o crescimento do país acontecesse. Vejam o que diz o jornal oficial cubano Granma, um dos sites esquerdistas na rede e de um encontro do Partido Comunista do Brasil. A leitura desses textos desnuda sua comicidade e avança para uma dramaticidade quando refletimos na lavagem cerebral que produzem em seus seguidores. Vale dar uma olhada.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático
Invasão capitalista tupiniquim no Vietnã

Mas o assunto desse artigo é… por que esses governos continuam a se autodenominarem socialistas? Para os governos em si, uma simples tese mostra-se razoável: governos só se mantém através do exercício do poder aceito pela maioria da população. Assim, admitir um erro dessa natureza leva à sua desmoralização e enfraquecimento. Ocultar erros e apresentar-se como uma entidade onisciente e onipotente é uma das estratégias do Estado para manter-se no poder e ocultar a fraude de sua administração aos seus súditos. Admitir o capitalismo propiciaria uma fissura capaz de modificar a estrutura de poder e o seu domínio pelo Partido Comunista. Assim, a legitimidade do Estado deve ser construída e mantida através de uma ideologia, mesmo que afronte as mínimas verdades inseridas dentro de um conhecimento básico de economia.

Mas… e as pessoas? O que leva pessoas a não admitir os erros teóricos de uma utopia, sua impossibilidade de implantação e as nefastas consequências de todas essas tentativas? Mesmo as tentativas de disfarces hoje usadas, através dos governos sociais-democratas, não mostram um resultado econômico nada razoável, apesar de terem resolvido parcialmente o problema das liberdades individuais antes não existentes. A psicologia deveria interessar-se nisso, pois há muito a ser explorado para procurar um melhor entendimento desse tipo de comportamento.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático
Centro “capitalista” de compras noturnas no Camboja

Uma das explicações possíveis para isso é o conceito de Infância Cultural, construído pelo professor Milton José de Almeida(1), uma metáfora para diversos estados sociais e psicológicos. Nesses estados, as pessoas alienam-se da realidade totalmente, através de três caminhos, uma vez que:

1) Rejeitam a realidade e evitam demandar esforços de entendimento, sensibilidade ou atenção como em filmes ou textos considerados difíceis e complexos;

2) Sentem insegurança e medo ante objetos da cultura que não se apresentem já legitimados e autorizados pelos produtores de opinião ou pelo mercado (e aqui a nossa fraca imprensa tem papel fundamental na manutenção dessa ideologia);

3) Vivenciam dificuldades em ter uma visão pessoal, levando à busca de juízos de autoridade ou a defender-se em conceitos opacos como: “de esquerda”, elitista, popular, reacionário, conservador, progressista, etc, que produzem no usuário a sensação de segurança intelectual.

Em geral, uma discussão com alguém militante de “esquerda” leva o mesmo a usar frequentemente acusações “espantalho”, “ad hominem” ou “ad populum”. Veja uma lista completa das táticas defensivas nessa excelente lista (2). Posteriormente, escrevi muitos textos sobre tal mentalidade e discursos, e um deles mostra como esses pensamentos pode levar à Idiocracia, uma sociedade de medíocres.

Outra possível explicação é o desejo de manter-se longe do poder e das decisões. Isso gera um aumento de um índice denominado IDP (Índice de distância do poder), conceito facilmente pesquisado na web. Em países de IDP alto, a cultura da hierarquia é forte e as pessoas são menos propensas a pensar por elas mesmas e resolver os problemas individualmente. Um Estado que mantém a hierarquia e a dependência como condição primária para sua existência e estabilidade, promove um IDP alto e evita um grau de liberdade maior de pensamento. E isso ocorre muitas vezes conscientemente, isso é, as pessoas simplesmente decidem que não querem pensar no assunto, e permanecem em um estado tal como as pessoas deliberadamente dopadas da realidade através do consumo do “soma” da obra de Aldous Huxley (veja o artigo Admirável Mundo Novo: até quando uma ficção?). Livro excelente, escrito na década de 30 do século passado e sugestão de leitura. Não sem dúvidas, estou confiante de que estamos acordando desse sono ideológico profundo aqui na América Latina.

Outra forma de procurar entender tais atitudes é não admitir uma falha em algo em que você fez uma grande aposta sentimental. Abandonar essa esperança de algo que poderia ser bom, abandonar o próprio discurso, seja público ou entre pessoas próximas leva à uma dor lascinante, uma vez que sua identidade está amalgamada com essa ideologia, que deu sentido à sua trajetória de vida. Repudiar de forma repentina e convincente tal engano é correr o risco de sabotar toda sua estrutura mental e expor verdades que podem levar o indivíduo a um estado de depressão ou desorientação mental completa. Auto-enganos são cometidos constantemente em nossas vidas, mas na maioria dos casos, limitam-se ao nosso ambiente individual, particular. O auto-engano socialista, ao contrário, é um auto-engano coletivo, um caldeirão recheado de auto-enganos individuais que propagam os delírios da esquerda aos quatro cantos do mundo. Para aprofundamento, vale a leitura do livro de Eduardo Gianetti.

Um quarto e último ponto é um contra-argumento, ou seja, a incapacidade das pessoas que defendem ideias opostas serem eficientes em seus discursos. O discurso socialista, progressista, ou simplesmente de “esquerda”, é muito poderoso e competente. Baseado no coletivismo e na associação de todos os males do mundo com teorias contrárias às suas doutrinas (opa, esse liberalismo…!), prega suas propostas através da emoção, nunca através da lógica. No fundo, precisamos melhorar muito nossa competência em mostrar que toda a crise econômica que o mundo mergulhou no final da década passada – assim como toda a estrutura e simbiose empresas-Estado, não é função dos capitalistas malvados, e sim dos governos.

O socialismo disfarçado de capitalismo no Sudeste Asiático
Grandes marcas capitalistas de consumo junto ao foice e ao martelo

Somos incompetentes em elucidar que os capitalistas “malvados” não são os responsáveis pelo aumento de preços, que por sua vez não é inflação, e sim a consequência da inflação. A causa principal da inflação é o descontrole fiscal do governo. Somos incompetentes em esclarecer que o conjunto de serviços ruins e caros que temos não é função do desejo de lucro de empresários insensíveis, e sim do nosso mercado fechado, que impede a entrada da livre concorrência. Com livre concorrência, somos incompetentes em provar que o desejo do lucro é nosso aliado, pois os empresários vão disputar os consumidores entre si livremente, sem pensar em fazer lobbies no governo. Para lucrarem mais e sobreviverem, serão mais eficientes em nos oferecer um produto melhor e mais barato.

E o pior, muitos que tendem a pensar de forma oposta ao pensamento coletivista são inibidos e desencorajados por essa fanática cruzada compostas por falsos intelectuais e militantes que se auto apregoam paladinos do bem, que não se permitem ao diálogo e recusam-se a aceitar outra forma de pensamento ao qual foram doutrinadas. A tática mais usada, como comentei acima, é a apelação da emoção – falsamente colocada, para criar no oponente um sentimento de culpa, contaminando jornalistas, pensadores e outros formadores de opinião.

Sinto uma mudança no ar desse pensamento, e a internet, até então livre, tem sido essencial na disseminação desses conceitos que para muitos, até ontem, seriam arduamente assimilados. Espero que essa fresta de luz brilhe cada vez mais forte para os que insistem em acreditar nessa ideologia das trevas.

Sobre liberdade, política e Estado, visite no site Viagem Lenta essa página.

(1) Ver nota na página 21

Política e corrupção: com o atual modelo mental estatista, há solução?

O modelo mental estatista é a causa principal da corrupção. Mais Estado, mais favores, mais propinas, mais política, menos justiça.

Este texto também foi publicado no blog “Viagem Lenta“, e pode ser lido aqui.

O modelo mental estatista é a causa principal da corrupção. Mais Estado, mais favores, mais propinas, mais política, menos justiça.
Corrupt Legislation, de Elihu Vedder

A íntima conexão entre política e corrupção só poderá ser enfraquecida quando a mentalidade estatista for varrida do modelo mental da maioria da população.


Em comentários de postagens, em conversas nas redes e em meu blog pessoal, tenho enfatizado constantemente a relação da maciça influência do Estado em nossa vida, o que gera um notável e intrincado convívio entre a política e corrupção. Apesar de eu perceber tal relação – do Estado, do poder e da corrupção, uma manifestação tão evidente quanto óbvia, sou consciente de que faço parte da minoria da população, que vê o Estado como o grande provedor de suas necessidades e supressão de suas angústias. É primordial que tais correspondências sejam melhor elucidadas, ratificando a afirmação de que, quem luta por menos corrupção mas insiste em manter o Estado como uma força motriz na economia, defendendo suas políticas intervencionistas, tem grandes problemas no seu modelo mental de percepção de mundo. E as mais prováveis e evidentes consequências de suas demandas são mais e mais corrupção.

A estrutura estatal, arquitetada sobre uma fachada de incentivo ao crescimento da economia e virtuoso assistencialismo social, ramifica-se em diversas áreas e encontra-se presente por toda parte. O poder executivo federal assusta com seus quase 40 ministérios, e fornece um sinistro exemplo para as esferas estaduais, municipais e aos demais poderes, que, da mesma forma, não são exemplos de eficiência. Tal inchaço não deve ter paralelo no mundo. Os tentáculos e o poder dessa imensa estrutura alcançam muito além do círculo político eleito, com as nomeações de todos os cargos comissionados de empresas como Petrobrás, Eletrobrás, Correios, CEF e BB, designados totalmente para fins políticos em troca de favores. Agências reguladoras, como ANATEL e ANEEL têm um imenso poder sobre várias empresas privadas, enquanto toda a rede de assistência social, da educação e da saúde expõem infindáveis casos de imoralidades, onde uma pequena parte, apenas, é revelada pela mídia.

É notório o poder que todo esse arcabouço sórdido exala. Em todos os níveis hierárquicos, as facilidades vendidas pelos burocratas estão disponíveis para quitar favores anteriores e para gerar outros benesses futuros, enriquecendo paralelamente, os próprios ocupantes desses cargos. O universo da corrupção abrange desde fatos constantemente expostos na mídia, como o Petrolão que irradia-se para outras empresas estatais, até a  divulgação de episódios muitas vezes desconhecidos pelo grande público, como as irregularidades de hospitais na compra de medicamentos de laboratórios. Soma-se a isso o poder mais perverso: a distribuição de “bondades” visando a formação de um curral de eleitores para garantir os votos da próxima eleição. Um extenso livro poderia ser escrito sobre todas as falcatruas existentes, e o leitor poderia citar muitas delas de cabeça, principalmente se faz parte da estrutura governamental. Ambas, política e corrupção, fornecem material abundante para tal pesquisa. Não é o objetivo desse espaço, entretanto.

O ponto principal é que esse jogo político é de claro prognóstico, uma vez que as pessoas reagem ao ambiente e às facilidades. O tamanho do Estado brasileiro entrega poder excessivo aos atores públicos, na forma de acordos de propinas – e suas tantas variações, para empresas e pessoas. Nesse círculo de concentração de poder, até os mais dispostos a lutar pela honestidade e pela lisura das ações tornariam-se vulneráveis e se perverteriam dentro desse sistema, mesmo que seja de uma forma oculta. Como explicar o silêncio ou a conivência do meio artístico, por exemplo, com a presença de leis como a Rouanet? Exceções existem, claro, mas como o próprio nome revela, são apenas exceções.

A única forma de interromper essa forma degradante de produzir política e corrupção é a diminuição extrema do poder estatal. Isso obstruiria o fluxo da corrupção, envolto principalmente no próprio enriquecimento ilícito e nos “favores” que envolvem tanto o setor público em si quanto o setor privado, de forma que o governo não se utilize de seus cargos e contratos para expandir seu poder.

Privatizar as empresas estatais seria umas das principais ações. Uma privatização de fato “para” a população, dividindo e entregando suas ações a cada CPF, cujo dono poderia comercializá-las da forma que melhor lhe conviesse. Privatizar inclusive as estruturas da saúde e educação, onde em um período de transição o papel do governo deveria ser apenas de distribuir vouchers à população realmente carente, ideia defendida por Milton Friedman. E, entre outras medidas, eliminar todas as agências de regulação e implantar de fato, o livre mercado no país, estabelecendo o (real) conceito de uma livre concorrência, onde o consumidor – e não os patetas do Poder Executivo, ditará os rumos da economia. Isso geraria inclusive uma mudança no gerenciamento de negócios das empresas: ao invés de se preocuparem em alimentar lobbies no governo, investirão seu tempo e riqueza em produtividade, proporcionando melhores produtos a preços mais justos.

Com essa gradual diminuição de poder governamental, verificaremos, eleição a eleição, uma mudança no perfil de candidatos. Uma vez que os futuros políticos conscientizarem-se que manobra ilícitas são cada vez mais inacessíveis, e o que lhes é devido são “apenas” seus próprios salários, teremos naturalmente pessoas mais dispostas a trabalhar de fato para uma melhor administração, e não para seus próprios bolsos. Não é uma mudança rápida, porém é um caminho efetivo e estável, uma vez que ataca a real raiz do problema. Os elos entre um e outro, política e corrupção, começarão a ser desfeitos nessa nova ordenação.

Mas para isso, a grande maioria da população precisa mudar radicalmente o seu modelo mental de achar que as coisas devem ser resolvidas pelo Estado. A transformação vem de baixo para cima. As pessoas precisam assumir que sua desilusão com a política provém da expectativa que possui em relação ao governo. E, principalmente, assumir a responsabilidade pelas suas próprias escolhas, pelo seu destino, tornando-se protagonista de sua existência.