Como seria um bom governo de direita? – Parte 4 (Final)

Winston Churchill – Primeiro Ministro Britânico em 1940-45 e 1951-55. Ícone do conservadorismo anglo-britânico, se posicionou veementemente contra o nazismo, o fascismo, o comunismo e a segunda guerra mundial.

Esta é a quarta e última parte da série “Como seria um bom governo de direita”. A proposta da série, como já dito, foi mostrar ao leitor idéias típicas do pensamento de direita que certamente fariam parte do programa de governo de um bom governo de direita.

Digo bom governo porque não basta um governo dizer-se de direita ou ser chamado de direita pelos adversários. Um bom governo de direita é, de fato, um governo que põe em prática aquilo que a ideologia direitista vem pregando há pelo menos dois séculos: governo limitado, com poucas funções; baixos e poucos impostos; leis rígidas contra criminosos; incentivo à iniciativa privada; pouca burocracia e regulamentações; liberdade individual e etc. Sendo assim, descrevi aqui algumas ações básicas que precisariam ser tomadas para que tais idéias se fizessem realidade.

Nesta última parte, mais alguns tópicos importantes para o pensamento de direita e as ações políticas que eles engendram. Os tópicos abordados, como já previsto na terceira parte serão: Individualismo, Estado Democrático de Direito, Discriminações e Religião. Comecemos, então, a exposição dos tópicos.

13) Individualismo

Se me pedissem para escolher uma ideia de direita que fosse capaz de definir e sintetizar todo o seu pensamento, eu provavelmente escolheria “descrença no homem”. Afinal, é a descrença no homem que faz a direita clamar por um governo limitado, temendo que o aumento de poder governamental acabe com a liberdade do indivíduo. Mas, se por um lado a descrença no homem é, para mim, a ideia que melhor sintetiza o pensamento de direita, por outro lado, acredito que o individualismo é o principal valor que define a direita. Porque, como já dito, é este valor que move a direita a desconfiar do ser humano e, consequentemente, do governo. É o medo de perder a sua liberdade e/ou de ver seus semelhantes perderem suas liberdades. É o medo de deixar de ser tratado como um indivíduo, para ser tratado como parte de uma classe qualquer homogênea e inimiga de alguma outra classe.

É justamente por isso que a direita é geralmente chamada de conservadora, reacionária e defensora do status quo. Porque, enquanto a esquerda, em seu eterno estado de destruição de pilares sociais, não vê mal em castrar a liberdade do indivíduo em prol de seu desejo utópico de transformar o mundo em um paraíso igualitário, a direita continua a conservar o princípio da liberdade individual. Assim, ela é vista como a ideologia dos monstros que não querem ajudar a mudar o mundo. São os conservadores da classe, da desigualdade, dos problemas sociais.

Mas a verdade é que a direita é a apenas uma ideologia política que entende o individualismo como um bem inalienável. É uma coluna da sociedade. Se a arrancamos fora, tudo o que construímos vai por água a baixo. A verdade é que a direita é cética quanto ao céu esquerdista. Ela sabe que todas as tentativas de fazer da terra um paraíso, o tornam um inferno. Exemplos empíricos não faltam. O partido jacobino matou mais de 40 mil pessoas no espaço de um ano, na revolução francesa. O nazismo matou mais de 40 milhões de pessoas. O comunismo matou mais de 100 milhões de almas. Tudo em prol da massa, da classe, da raça. Tudo em oposição ao direito individual.

O individualismo é, acima de tudo, uma defesa contra a tirania. Não devemos ser obrigados a fazer o que o governo quer. Devemos ser os donos de nossas próprias vidas. Nosso direito, desde que não afete diretamente o direito do outro, não deve ser refreado. Se abrimos mão deste princípio básico, damos margem para que o governo faça as escolhas por nós. E, definitivamente, isso não é bom.

Quando um direitista abre mão do individualismo, portanto, afasta-se da direita. Já não pode ser chamado de direitista, pois abandonou o princípio primordial da ideologia direitista. Gradualmente, todos os seus demais princípios serão destruídos, porque todos os outros, de algum modo se ligam a este.

Por esse motivo, um governo de direita, acima de tudo, sempre se guiará pelo individualismo. E a cultura que será formada em um bom governo de direita será uma cultura individualista. Não egoísta. Egoísmo é não se importar com os outros. Individualismo é respeitar o indivíduo. A si próprio e aos demais.

14) O Estado Democrático de Direito

O Estado Democrático de Direito é uma consequencia lógica de se adotar o individualismo. Se o respeito ao indivíduo é um princípio primordial para um governo e para uma cultura, esse mesmo governo não pode ser ditatorial, totalitário, unitarista. Individualismo e governo autoritário, centralizador, são duas coisas diametralmente opostas. Segue-se, portanto, que um governo genuinamente de direita, sempre será descentralizado, limitado e servo das leis. O autoritarismo, de modo nenhum é algo que pertença a ideologia de direita. O individualismo não o permite.

Isso pode gerar certa confusão no leitor. Afinal, muitos governos pelo mundo a fora foram definidos (e até auto-definidos) como de direita, embora tenham sido extremamente autoritários. O governo nacional socialista alemão, o governo fascista italiano e a ditadura militar brasileira são alguns exemplos clássicos.

Entretanto, todos esses regimes tiveram poucas ideias de direita aplicadas. O principal motivo pelo qual foram definidos como regimes de direita era que eles eram anti-marxistas. E para o senso comum, se um regime é contra o socialismo marxista (ou comunista), é de direita. Um grande equívoco, por certo. É perfeitamente possível ser anti-marxista e de esquerda. A esquerda não é só feita de marxistas. Há quem ache o marxismo utópico demais e até perigoso, sendo assim, contrário a ele. No entanto, a mesma pessoa pode querer um governo bastante intervencionista, inchado, com muitas funções, muitos serviços públicos e altíssimos impostos. Ou seja, ela é anti-marxista, mas é tão de esquerda quanto qualquer comunista.

Uma vez entendido isso, não há dúvidas de que os regimes citados jamais foram de direita. Pelo contrário, suas principais características eram de esquerda: a visão do Estado como um agente transformador do mundo, os altos impostos, as muitas empresas estatais, o foco na educação pública, o forte intervencionismo econômico, a visão classista de mundo, a definição de classes inimigas que se constituem os responsáveis pelo mal no mundo, a desvalorização do indivíduo… Tudo isso são características de esquerda e não de direita. E são justamente essas características que levam o regime a se tornar autoritário e centralizador.

Portanto, fica claro que um regime realmente de direita sempre terá um Estado Democrático de Direito. Este Estado é garantido pelos princípios do individualismo, do Estado limitado e descentralizado, do governo não interventor e com poucas funções e etc. Não há como descambar para o totalitarismo e o autoritarismo seguindo essa receita.

15) Discriminação

Há no código de Hamurabi uma lei civil que afirma: “Olho por olho, dente por dente”. A mesma frase foi utilizada por Moisés, na Bíblia, para resumir o princípio jurídico que iria reger a punição para determinados tipos de crime. Não era, como muitos pensam, um incentivo à vingança própria, mas um princípio a ser usado por juízes, em julgamentos e dentro das prerrogativas da lei civil.

Entretanto, desde que o mundo é mundo, muitas pessoas tem utilizado essa mentalidade como regra moral para a sua vida. Em outras palavras, se fulano errou comigo, eu tenho o direito de cometer o mesmo erro contra ele.

É justamente esta mentalidade que a esquerda adota, a partir de meados do século XX, para lidar com o problema das discriminações. Partindo de sua premissa classista, ela passa a colocar na cabeça das pessoas que “se a classe Y foi humilhada durante os séculos pela classe Z, então a classe Y está legitimada a dar o troco. E assim vencemos o preconceito”.

É, na verdade, uma questão de estratégia. Tendo compreendido que uma revolução proletária mundial só seria possível após uma intensa revolução cultural pelo mundo (através do qual se disseminaria o marxismo entre o “povão”), a esquerda marxista passou a ramificar o conceito de guerra de classes, criando uma série de sub antagonismos dentro da guerra principal entre burguesia e proletariado.

Surgem assim, o antagonismo brancos x negros, homens x mulheres, religiosos x antirreligiosos e, mais recentemente, heterossexuais e homossexuais. E rapidamente todas as vertentes da esquerda entendem que explorar o campo emocional das “classes oprimidas” e incentivar o ódio entre “oprimidos” e “opressores” é uma ótima estratégia para se conseguir poder.

Do ponto de vista da luta contra discriminação, no entanto, a mentalidade de esquerda só serve para intensificar todos os preconceitos enraizados na sociedade. Não se luta contra discriminações, discriminando. Isso é tão lógico que me ofende ter que explicar.

A essência do problema da discriminação é a criação de uma desigualdade cultural e legislativa entre dois grupos distintos, a legitimação dessa desigualdade e a exploração do ressentimento mútuo e a legitimação dessa desigualdade. Todas as discriminações que existiram ao longo da história apresentaram essa “fórmula mágica”. E tudo o que a esquerda tem feito hoje no que diz respeito à “luta contra discriminação” apresenta essa fórmula. Vai mudar alguma coisa? Não vai.

A ação da direita quanto à discriminação é muito mais lógica. Se há grupos discriminados, vamos trata-los de maneira estritamente igual. Nenhum é superior ao outro. Na verdade, sequer devem existem grupos aos olhos de um governo de direita e de uma cultura de direita. Um cidadão, para o governo, não é um negro, ou um branco, ou um homossexual, ou um hetero, ou uma mulher, ou um homem. É simplesmente um cidadão igual a qualquer outro e sujeito às mesmas leis. Qualquer tipo de discriminação deve ser punida da mesma forma: com rigor. Afinal, discriminar é quase sempre formar classes; e para a direita, formar classes é destruir o individualismo, o pilar da direita.

16) Religião

Julgo interessante fechar a série de tópicos que vimos durante essas quatro postagens com o tema religião. A visão que esquerda e direita apresentam de religião é dos um maiores divisores de águas entre os dois posicionamentos políticos, de forma que vale à pena citar como um bom governo de direita encararia a questão.

Não raro os esquerdistas associam a direita à religião e os direitistas ao fundamentalismo religioso. Em outras palavras, a direita seria um posicionamento político religioso por natureza. A associação é descabida. O real posicionamento da direita em relação á religião é apenas de respeito. Afinal de contas, a maioria das religiões prega o amor, a compaixão, a misericórdia e o perdão, que são sentimentos nobres. Desses sentimentos nobres pregados pelas religiões surgem diversas escolas, hospitais e instituições de caridade, financiados pelo dinheiro de fiéis que se preocupam em ajudar ao próximo. Não há como se negar a enorme contribuição humanitária que as religiões têm dado ao mundo.

Alguém poderia contestar, dizendo que a religião também causou muitas guerras. Mas isso é uma distorção dos fatos, típica de quem é de esquerda. Na imensa maioria dos casos, a causa da guerra não é a religião, mas o religioso, o que é bem diferente. A religião em si só é capaz de causar guerra se esta for a doutrina ensinada por ela. Mas alguém conhece alguma religião que nos ordene odiar o próximo, matar, torturar? Definitivamente esta não é a doutrina das principais religiões do mundo. Cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, espiritismo – todas essas religiões pregam o amor, a compaixão e a paz.

Agora, o homem tem livre arbítrio. Ele pode escolher se desviar dos princípios básicos da própria filosofia que segue. Tal é o caso de alguns religiosos, que se enveredam por caminhos criados por suas próprias interpretações delirantes, distorcendo suas religiões e agindo justamente de contrária ao que suas religiões pregam.

Então, para a direita, dificilmente, é a religião que causa guerras ou qualquer outro mal social como fome, discriminação, desigualdade e etc. Esses males são causados pela própria maldade inerente do ser humano. Culpar a religião é tentar tirar o erro das costas do homem.

Por esse motivo, a direita não vê problema em reconhecer a importância da religião no mundo, respeitando a existência da mesma. Isso está longe de significar que ser de direita é ser religioso ou que a direita é posicionamento político que tem a ver com religião.

Não obstante, a esquerda não entende o assunto dessa forma. Como para ela o mal não está no próprio ser humano, mas em algo externo, tudo o que religiosos fanáticos, ignorantes, loucos ou mal caráter fazem, é tido como culpa da religião. Assim, a religião seria uma grande pedra no sapato do mundo.

Esse é o princípio do posicionamento esquerdista. Mas é claro que nem todo o esquerdista é antirreligioso. Do ponto de vista estratégico, isso nem seria bom para a esquerda, pois perderia adeptos religiosos. Assim, o que a esquerda faz é se dividir em vertentes quanto à visão sobre religião. São três as vertentes, todas igualmente importantes para ela: a visão liberal, a visão sincretista e a visão antirreligiosa em si.

Todas essas vertentes visam enfraquecer as religiões de raízes judaico-cristã, visto que a moral judaico-cristã entre em conflito direto com os interesses dos esquerdistas mais radicais.

O resultado desse “antirreliogismo” de esquerda não poderia ser diferente: gera-se preconceitos e conflitos até onde não existia e a liberdade religiosa vai por água abaixo. E uma vez travada (ou reduzida) a liberdade religiosa, o governo tem o caminho aberto substituir o culto a Deus pelo culto ao Estado, ao governo, ao partido e ao líder. Foi o que aconteceu em todos os países que tiveram regimes comunistas e é o que acontece em grande parte das democracias ocidentais, embora de maneira camuflada e sem o uso de coerção física (ainda…). À pretexto de tornar o Estado “laico” (como se laico significasse “anti-religioso”) os esquerdistas tem avançado em limitar cada vez mais a expressão das religiões tradicionais e, consequentemente, tornando os Estados mais autoritários.

Aqui é possível entender que o respeito da direita pela religião existe não apenas pelo que a religião representa para a humanidade (independente se há alguma religião correta ou não), mas, sobretudo, porque não respeitá-la é tirar a autonomia do indivíduo e abrir caminho para um agigantamento do poder do Estado. Assim, um bom governo de direita, que realmente prezasse pelos seus princípios, jamais enveredaria por esse caminho. O respeito à religião aqui entra como respeito ao indivíduo. Não há negociação.

Conclusão

Eu tive dois objetivos básicos durante essa série. O primeiro foi fazer o leitor conhecer um pouco mais sobre as propostas de direita e o que a direita pensa sobre os principais temas políticos. A segunda foi deixar claro que na medida em que um governo se afasta dos princípios expostos nesta série, se afasta também da direita. Entender isso evita confusões como a de chamar o Nacional-Socialismo de regime de direita (o que é ridículo). Termino com um breve resumo das ações que vimos:

1)    Diminuição da interferência do governo na economia

2)    Redução da carga tributária e cortes em gastos públicos

3)    Modelo de financiamento público individual na educação

4)    Criação de concorrência no sistema público privado

5)    Endurecimento das leis civis e penais

6)    Privatizações

7)    Concessões de curto prazo

8)    Presídios terceirizados

9)    Abertura para empresas e produtos estrangeiros

10)  Evitar e combater crises através da pouca intervenção

11)  Proteção à natureza através do sistema de lotes

12)  Fim da Previdência Pública obrigatória

13)  Incentivo ao individualismo

14)  Incentivo ao Estado Democrático de Direito

15)  Combate às discriminações através da igualdade cultural e legal

16)  Respeito à religião

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Links para as outras partes dessa série:

Como seria um bom governo de direita – Parte 1

Como seria um bom governo de direita – Parte 2

Como seria um bom governo de direita – Parte 3

Entrevista com Marcelo Mota Ribeiro, representante do CONS

Entrevista realizada em 16 de junho de 2013. Por motivos de estilo e legibilidade, esta entrevista foi editada. Para lê-la no formato original de perguntas e respostas, clique aqui.

Marcelo Mota Ribeiro.

Nosso entrevistado, Marcelo Mota Ribeiro, é mineiro de Muriaé e tem 33 anos. É graduado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, trabalha há dez anos na área de TI como Desenvolvedor de Software em Belo Horizonte, cidade onde atualmente reside. É graduando em Direito pela UNA/BH, onde presidiu o Diretório Acadêmico Mirtes de Campos. Filiado ao PFL, posteriormente ao Democratas, foi Presidente Municipal e Vice-Presidente Estadual da Juventude do partido em seu Estado, onde coordenou diversas campanhas eleitorais. É o atual coordenador nacional do CONS.

O CONS é um movimento espontâneo que surgiu em meados de 2009, quando diversos indivíduos declaradamente conservadores passaram a se reunir na rede social do Orkut assumindo este acrônimo como uma identidade mútua.

Atualmente participam de um grupo de discussão que reúne mais de duas mil pessoas, embora em seu cadastro oficial – lançado recentemente – constem trezentos registros de membros apoiadores dispostos a trabalhar diretamente na causa. Seu coordenador nacional, Marcelo Mota Ribeiro, considera que o movimento ainda está em uma fase embrionária de concepção e maturação. Apesar do senso de urgência, aponta que o movimento privilegia a solidificação de seus pilares em detrimento de agir com pressa para ver as coisas acontecerem o que, segundo ele, foi a causa do fracasso de muitas outras iniciativas de direita.

Segundo Marcelo, é impreciso apontar uma data precisa da fundação do movimento. Os membros do CONS pretendem realizar, com previsão para 31 de março de 2014, o seu primeiro Encontro Nacional para oficializar a fundação.

Quais são as ideias e os objetivos do CONS?

As ideias do grupo podem ser melhor conhecidas no seu site, indicado ao final deste artigo. Elas estão agrupadas hierarquicamente em três níveis: elementares, fundamentais e políticas. O nível mais baixo agrupa os fins, enquanto os outros agrupam os princípios e os meios.

No primeiro nível, elementar, advogam a proteção de valores inalienáveis como a vida, a liberdade religiosa, a autonomia da família e a dignidade da pessoa humana. No plano fundamental, a liberdade e a propriedade. Por fim, no nível político, a segurança jurídica, o império das leis e a limitação da intervenção governamental na vida social, cultural e política.

O objetivo do movimento é levar pessoas conservadoras a assumir uma identidade política, uma marca, que seria o CONS. Segundo Marcelo, os conservadores brasileiros estão alheios à militância em defesa de suas ideias e de seus valores, e a ausência desta identidade dificulta uma interação colaborativa que permita uma atuação organizada.

Quais são as figuras inspiradoras do CONS? O que leem os conservadores?
O CONS é um grupo heterogêneo. Pessoas de diferentes vertentes que bebem de diferentes fontes, embora comunguem de ideias fundamentais que são comunitárias.

Influências nacionais na filosofia conservadora: Olavo de Carvalho, Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos.

Marcelo fala apenas por si quando afirma que muito aprendeu com a leitura dos apontamentos de Olavo de Carvalho, embora este autor seja notável influência para grande parte dos conservadores brasileiros. No âmbito nacional, Marcelo adiciona as influências de Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos, dentre outros. Pensadores conservadores de fora do Brasil incluem Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk e, no campo econômico, Milton Friedman, Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek, os quais Marcelo considera leituras fundamentais.

Influências internacionais na filosofia conservadora: Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk.

Outras figuras em atividade que inspiram o movimento com suas críticas políticas são Bruno Garschagen, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé, Roger Scruton e outros articulistas. No campo político, personalidades do século XX como Winston Churchill, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Carlos Lacerda também servem de inspiração.

Quais são os símbolos e cores dos conservadores no Brasil?

Uma marca, representada por uma Harpia, águia típica do norte do Brasil, combinada em círculo de fundo azul com as estrelas que representam nossos Estados. As cores, derivadas da bandeira nacional, são o azul, o amarelo e o branco.

Como o CONS pode fazer do Brasil um país melhor?

Objetivamente: contribuindo com ações que permitam o fortalecimento do pensamento conservador, na esfera cultural e no plano político. Os conservadores entendem que o equilíbrio entre forças progressistas e conservadoras é requisito essencial para uma sociedade prosperar. A preponderância de uma delas leva a um sistema “manco”, sem sensatez e ponderação nas decisões econômicas e políticas.

Acreditam que toda sociedade próspera se funda em uma base de valores bem definida, com conceito claro do que é certo e do que é errado, semeando, assim, entre seus membros, o interesse em uma colaboração pacífica, em atitudes propositivas e construtivas que, independente de arranjos políticos e ideológicos, acabam por ensejar o desenvolvimento intelectual e material enquanto nação, pois os participantes se consideram mutuamente como partes de um mesmo fim.

O Brasil, infelizmente, ainda não construiu essa base de valores e por isso tem um sistema cultural e político débil, que não nos permite identificar de forma clara e real qual é a “nossa” identidade, qual é o norte que estamos a seguir.
Vivemos, não como uma nação mas, como um bando de pessoas de diferentes “nações”, vendo-nos como concorrentes, passando uns por cima de outros, sempre quando há uma chance. Não definimos, por exemplo, se o “jeitinho brasileiro” é atitude desonesta ou mérito. Não sabemos se elogiamos alguém que cria riqueza, ou se o chamamos de explorador. E, é dessa confusão que originam-se todos os demais problemas, como os relacionados à corrupção, à violência e à falta de desenvolvimento econômico. O discurso político atual, todavia, só trata da superfície e não ataca os problemas que existem na base. Por isso nada funciona, porque não é edificado sobre uma sustentação sólida e aderente ao que desejam as pessoas.

Precisamos de políticos menos proselitistas e que trabalhem mais pela construção de uma nação do que de uma carreira pessoal que só vise vencer eleições. Criando um movimento conservador, acreditam oferecer, em um futuro breve, esse tipo de agente cultural e político, que servirá de exemplo para que outras pessoas sigam o mesmo caminho e aceleremos assim a edificação desse necessário sentimento de nação, de forma livre e espontânea, de baixo para cima, do povo para o Estado, não vice-versa como se tem tentado há quinhentos anos.


Acesse o site do CONS: 
www.conservadores.com.br

Site dos articulistas mencionados no artigo:

Olavo de Carvalho;
Plínio Corrêa de Oliveira;
Bruno Garschagen;
João Pereira Coutinho;
Luiz Felipe Pondé;
Roger Scruton (em inglês).


Leia também:

A situação do Catolicismo na China

A República Popular da China é um Estado oficialmente ateu onde todas as religiões sofrem intervencionismo do governo. A Constituição Chinesa de 1982 só permite o culto a cinco religiões e mesmo assim sem que estas sofram qualquer tipo de influência estrangeira. Vamos falar nesse artigo da situação dos católicos que vivem neste país de regime comunista.

Logo que um bebê nasce na China e ele é de família católica, automaticamente ele é “filiado” à Associação Católica Patriota Chinesa que é a Igreja oficial do país, ou seja, uma Igreja Católica distorcida, pois por sofrer intervencionismo do Partido Comunista, seus fieis são impedidos de seguir o catolicismo segundo as orientações do Vaticano. Os padres da igreja oficial do partido comunista não podem, por exemplo, falar contra o aborto, pois esta prática é OBRIGATÓRIA no país para controle de natalidade e muitos destes sacerdotes são casados.

Os católicos que desejam seguir sua religião a risca devem se reunir clandestinamente. Muitos católicos da igreja clandestina se reúnem em piqueniques, ou nas casas de outros católicos, para poderem rezar a missa segundo as orientações do Vaticano. O Estado não aceita a autoridade do Papa.

Procissão realizada pela Igreja Católica Clandestina

Muitas dessas pessoas, principalmente líderes religiosos, sofrem perseguição, sendo elas prisões, internação em campos de reeducação, tortura e morte. Muitos estão desaparecidos há anos. Há uma estimativa que na China há cerca de 8 milhões de Católicos clandestinos e 5 milhões oficiais.

Somente em Macau e Hong Kong há liberdade religiosa, pois lá ela é defendida pelos seus textos constitucionais e por tratados internacionais.

O vídeo abaixo explica como se dá a prática religiosa do catolicismo nesses país.

Religião e Libertarianismo

por Walter Block. Texto original, em inglês, disponível aqui.

A relação entre libertarianismo e religião é longa, antiga e tormentosa.

É inegável que Ayn Rand teve uma duradoura, forte e profunda relação com o libertarianismo.  Embora ela nos rejeitasse e nos tratasse como “hippies da direita”, muitos de nós ainda somos fascinados com ela, inspirados por ela e em dívida para com ela por ter nos apresentado a defesa moral da livre iniciativa.  Eu certamente me incluo nessa categoria.

Uma das mais fortes influências que ela teve sobre o movimento libertário foi o seu ateísmo beligerante.  Para muitos seguidores da filosofia da liberdade, uma agressiva rejeição a Deus e a todas as coisas religiosas pode perfeitamente ser vista como um axioma básico dessa visão de mundo.  Confesso que essa também foi a minha posição nesse assunto durante muitos anos.

Essa era também a posição de um rico e potencial doador do Mises Institute, o qual teria contribuído fartamente caso o Instituto mudasse sua visão em relação a esse assunto e passasse a adotar uma postura agressivamente contrária a todas as religiões.  Felizmente, Lew Rockwell se recusou a desvirtuar a missão de seu Instituto em relação a esse quesito, e ficou sem a doação.  Embora seja ele próprio um católico devoto, Rockwell se manteve fiel aos seus princípios: o Mises Institute continuaria envolvido nos estudos da ciência econômica e da liberdade, e nada teria contra qualquer religião em absoluto.

O que fez com que eu mudasse minha postura?  Por que continuo hoje sendo tão ateu quanto sempre fui, porém, ao mesmo tempo, um amigo e defensor da religião?  Nada tem a ver com o fato de que, dos últimos 19 anos, passei 15 deles sendo empregado por instituições jesuítas católicas.  Fui professor do College of the Holy Cross de 1991 a 1997 e, desde 2001, sou professor da Universidade Loyola em Nova Orleans.

Para alguns — aqueles ainda encantados com a visão randiana acerca de religião e liberdade —, já é ruim o suficiente que um libertário tenha uma visão positiva sobre a religião.  Para a maioria, pode parecer uma total contradição lógica um ateu como eu ser um grande defensor e até mesmo um admirador da religião.  Permita-me explicar tudo.

Nesse assunto em especial, sou guiado pelo aforismo “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.  Embora tal raciocínio nem sempre seja verdadeiro, nesse caso em específico creio que seja.

Assim, qual instituição é a maior inimiga da liberdade humana?  Só pode haver uma resposta: o estado em geral; e, em particular, a versão totalitária deste.  Talvez não haja melhor exemplo de tal governo do que a URSS e seus principais ditadores, Lênin e Stalin (embora a supremacia em termos de números absolutos de inocentes assassinados pertença à China de Mao).  Podemos em seguida perguntar: quais instituições esses dois respeitáveis russos escolheram para o opróbrio?  Em primeiro lugar, a religião.  Em segundo lugar, a família.  Não foi nenhuma coincidência os soviéticos terem aprovado leis que premiavam os filhos que delatassem os pais por atividades anticomunistas.  Certamente não há melhor maneira de destruir uma família do que por meio dessa política diabólica.  E como eles tratavam a religião?  Essa é uma pergunta meramente retórica: a religião foi transformada no inimigo público número um, e seus praticantes foram cruelmente caçados e exterminados.

É possível a liberdade plena sem a liberdade de crer? John Locke afirma categoricamente: não.

Por que escolheram a religião e a família?  Porque ambas são as principais concorrentes do estado na busca pela lealdada e obediência das pessoas.  Os comunistas estavam totalmente corretos — se formos nos basear em suas próprias perspectivas diabólicas — em centrar sua artilharia sobre essas duas instituições.  Todas as pessoas que são inimigas de um estado intrusivo, portanto, fariam bem em abraçar a religião e a família como seus principais amigos, sejam essas pessoas ateias ou não, pais ou não.

A principal razão por que a religião é um contínuo e eterno incômodo para os líderes seculares advém do fato de que essa instituição define a autoridade moral independentemente do poder dessa gente.  Todas as outras organizações da sociedade (com a possível exceção da família) veem o estado como a fonte suprema das sanções éticas.  Não obstante o fato de que alguns líderes religiosos de fato já se ajoelharam perante oficiais de governo, existe uma hostilidade natural e básica entre essas duas fontes de autoridade.  O papa e outros líderes religiosos podem não ter nenhum regimento de soldados, mas eles têm algo que falta aos presidentes e primeiros-ministros, para grande desespero destes.

Eis aí minha posição.  Eu rejeito a religião, todas as religiões, pois, como ateu, não estou convencido da existência de Deus.  Aliás, vou mais fundo.  Sequer sou agnóstico: estou convencido da não-existência Dele.  Entretanto, como um animal político, eu entusiasticamente abraço essa instituição.  Trata-se de um baluarte contra o totalitarismo.  Aquele que deseja se opor às depredações do estado não poderá fazê-lo sem o apoio da religião.  A oposição à religião, mesmo se baseada em fundamentos intelectuais e não almejada como uma posição política, ainda assim equivale a um apoio prático ao estado.

Gálatas 5:1

Mas e quanto ao fato de que a maioria das religiões, senão todas, apóia a existência do estado?  Não importa.  Apesar de que algumas religiões organizadas podem frequentemente ser vistas como defensoras do estatismo, o fato é que esses dois ditadores, Lênin e Stalin, já haviam entendido tudo: não obstante o fato de pessoas religiosas frequentemente apoiarem o governo, essas duas instituições, estatismo e religião, são, no fundo, inimigas.  “Concordo” com Lênin e Stalin nesse quesito.  Estritamente do ponto de vista deles, ambos estavam totalmente corretos ao suprimirem brutalmente as práticas religiosas.  Isso faz com que seja ainda mais importante que todos nós libertários, ateus ou não, apoiemos aqueles que adoram a Deus.  O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Bem sei que, nesse ponto, muitos ateus irão energicamente protestar apontando para o fato de que inúmeras pessoas inocentes foram assassinadas em nome da religião.  É verdade.  Infelizmente, é muito verdade.  Entretanto, seria válido colocarmos um pouco de perspectiva nessa conjuntura.  Quantas pessoas foram mortas por excessos religiosos, tais como a Inquisição?  Embora as estimativas variem amplamente, as melhores (ver aqui) dão conta de que o número de mortes ocorridas durante essa triste época, a qual durou vários séculos, está entre 3.000 e 10.000.  Alguns especialistas, aqui, garantem números ainda mais baixos, como 2.000.

É claro que estamos falando de seres humanos assassinados, e cada assassinato deve ser lamentado; porém, se considerarmos apenas as magnitudes relativas, podemos positivamente dizer que tais números são completamente insignificantes quando comparados à devastação infligida à raça humana pelos governos.

De acordo com as melhores estimativas (ver aquiaquiaquiaquiaqui e aqui), as vítimas do estatismo apenas no século XX se aproximam do ultrajante marco de 200 milhões.  Não, não houve erro tipográfico.  200 milhões de cadáveres produzidos diretamente pelo estado!  Querer comparar algumas milhares de mortes injustificáveis produzidas pela religião com várias centenas de milhões produzidas pelo estado é algo totalmente desarrazoado.  Sim, o assassinato de uma única pessoa é deplorável.  Porém, se quisermos comparar religião e governo, devemos ter em mente essas diferenças astronômicas.

Eis uma lista de pessoas devotamente religiosas que eu conheço pessoalmente e que fizeram grandes contribuições para a causa da liberdade:

William Anderson, Peter Boettke, Art Carden, Stephen W. Carson, Alejandro Chafuen, Paul Cwik, Gary Galles, Jeff Herbener, Jörg Guido HülsmannRabino Israel KirznerRobert MurphyGary NorthRon Paul, Shawn Rittenour, Lew Rockwell, Joann Rothbard, Hans Sennholz, Edward Stringham, Timothy Terrell, David Theroux, Jeff TuckerLaurence VanceTom Woods, Steven Yates.

Ron Paul, o candidato mais libertário a disputar as Primárias Republicanas, é cristão, foi obstetra e claro, é pró-vida.

E não podemos também deixar de mencionar a Escola de Salamanca, povoada e divulgada, principalmente, por padres como estes:

Dominicanos: Francisco de Vitoria, 1485—1546; Domingo de Soto, 1494—1560; Juan de Medina, 1490—1546; Martin de Azpilcueta (Navarrus), 1493—1586; Diego de Covarrubias y Leiva, 1512—1577; Tomas de Mercado, 1530—1576.

Jesuítas: Luis Molina (Molineus), 1535—1600; Cardeal Juan de Lugo, 1583—1660; Leonard de Leys (Lessius), 1554—1623; Juan de Mariana, 1536—1624.

Essa escola de pensamento é genuinamente nossa predecessora moral e intelectual.  Para a contribuição da Escola de Salamanca para o movimento austro-libertário, ver aquiaquiaquiaqui e aqui.

Juan de Mariana, um dos grandes nomes da Escola de Salamanca.

Já é hora — aliás, já passou da hora — de o movimento austro-libertário rejeitar a virulenta oposição randiana à religião.  Sim, Ayn Rand fez grandes contribuições para os nossos esforços.  Não precisamos agir precipitadamente; não precisamos jogar fora o bebê junto com a água da banheira.  Mas é certo que o sentimento anti-religião pertence a essa última atitude, e não à primeira.

As opiniões acima expressadas são consistentes com o ponto de vista do meu eterno mentor, Murray Rothbard.  Esse brilhante erudito, que frequentemente era chamado de “Senhor Libertário”, justamente por representar a epítome do libertarianismo, era uma pessoa extremamente favorável à religião, sendo especialmente pró-catolicismo.  Ele atribuía os conceitos do individualismo e da liberdade (bem como quase tudo de positivo que havia na civilização ocidental) ao cristianismo, e argumentava com veemência que, enquanto os libertários fizessem do ódio à religião um princípio básico de organização, eles não chegariam a lugar algum, dado que a vasta maioria das pessoas em todas as épocas e lugares sempre foi religiosa.