Subversão ideológica e Yuri Bezmenov – o atalho a um estado totalitário

Como a teoria de subversão ideológica de Yuri Besmenov explica os métodos utilizados pela Revolução Cultural no despertar de um estado totalitário.

Como a teoria da subversão ideológica, relatada por Yuri Besmenov, ajuda a elucidar os métodos utilizados pelos partidários da Revolução Cultural, o despertar de um estado totalitário e a consequente asfixia das liberdades individuais.

Yuri Besmenov é um ex-agente da KGB, serviço secreto da antiga União Soviética. Sua existência sob uma outra roupagem, mais “globalista”, ainda é defendida por muitos estudiosos. Analisando-se as recentes movimentações da Rússia e uma manifestação mais evidente e crescente do movimento eurasiano, não é algo difícil de acreditar. Afinal, quanto mais poderoso e onipresente é um órgão, mais ele terá a força de negar sua própria existência.

Mas não é sobre a KGB ou o eurasianismo que escrevo hoje, e sim sobre as táticas que um Estado totalitário usa para erradicar a liberdade de seus cidadãos. A importância do tema advém do fato de que a compreensão desse processo e a vigilância constante são altamente necessárias para resguardar nossos direitos naturais. Uma condição que ninguém devia desejar perder.

Yuri Bezmenov, a subversão ideológica e a Revolução Cultural

Bezmenov, após sua deserção para o Ocidente, ficou famoso nos anos 80 por revelar tais estratégias, mas é solenemente ignorado por quase toda a mídia na análise política. Tenho insistido em meus textos nesse blog que em diversos países existem grupos no poder que não respeitam a liberdade individual e a “democracia” tal como entendemos hoje, mas agem silenciosamente na construção da Revolução Cultural. E há uma conivência assustadora da sociedade com essa situação.

Difundida no século passado por Antonio Gramsci, a Revolução Cultural semeia nas pessoas premissas como a inevitabilidade da presença permanente do Estado em suas vidas. Impede, entretanto, que elas percebam que tal crença as levarão fatalmente à supressão de sua própria autonomia. Bezmenov apresenta essas técnicas empregadas por esses grupos através do conceito de “subversão”. Independente do nome utilizado, o objetivo é a manipulação cultural e psicológica das massas propiciando o estabelecimento de regimes revolucionários.

As estratégias utilizadas pela Revolução Cultural

Bezmenov elucidou as estratégias de subversão ideológica utilizadas pelos partidários da Revolução Cultural. O conceito negativo de subversão não é percebido, entretanto, pelos seus agentes. Existe um método muito eficaz de assimilação, através da manipulação de ideias e das palavras (recordar aqui de George Orwell e de seu termo duplipensar pode ajudar tal percepção para quem se dá o tempo e o trabalho de observá-la – Besmenov considerava-se, inclusive, um novo Winston Smith, protagonista do romance 1984).

Segundo ele, os subversores principais não são os bandidos que queimam ônibus. Gramsci já havia percebido que o meio belicoso para se atingir tais fins não era o mais eficiente. Os subversores podem estar ocultos sob as atividades de um jornalista, um professor ou um astro da mídia. Tais agentes, vendidos como o lado bem-intencionado da sociedade, possuem o aparato estabelecido como moral e legal para subverter as mentes. Mentes que, a cada consentimento, reforçam ainda mais o poder do agente manipulador.

O ponto-chave do sucesso dessa manipulação, contudo, é garantir que tais agentes não possuam plena consciência do papel que representam. Talvez os leitores já tenham ouvido o termo “idiotas úteis”. Como fantoches, são, ao mesmo tempo, manipuladores e manipulados, e usam o seu capital social para canalizar as piores influências na sociedade que os venera.

Veremos como se dá esse processo.

As etapas da subversão ideológica

1. A desmoralização da sociedade

A primeira etapa compreende o trabalho através de um tempo suficiente para educar ao menos uma geração de estudantes (15 a 20 anos), estabelecendo e construindo sua mentalidade e sua personalidade, que refletirá adiante, em um modelo mental necessário à revolução.

 

Como a teoria de subversão ideológica de Yuri Besmenov explica os métodos utilizados pela Revolução Cultural no despertar de um estado totalitário.
Arrependeu-se depois, mas apoiou os black blocks 

Os “idiotas úteis” citados anteriormente, são os agentes principais utilizados para os ataques aos conceitos de auto-responsabilidade, à crença e à família.  São esses famosos “inteligentinhos”, para usar um termo de Pondé, travestidos com um senso moral dentro da sociedade, os mais efetivos instrumentos para a transformação das mentes. Para isso, utilizam vários meios como o sistema educacional ou a mídia, onde a opinião pública é formada e moldada.

O apoio ao feminismo, ao politicamente correto, a grupos como blackblocks, MST, MPL, ao desarmamento civil, o suporte à irracionalidade que se transformou a ideologia de gênero, raça e religião, enfim… Tudo isso colaborará com a transposição da lei e da ordem e a inversão da ética e da moral.

2. A desestabilização do sistema

No passo seguinte, a inversão de valores assume seu protagonismo. Com as mentes já amaciadas, é fácil criar um valor, rotulá-lo como o lado do “bem” e considerar todos aqueles que não compactuem com esse valor, como pessoas do lado do “mal”. A divisão da sociedade, em raças, classes e direitos, é intensificada. Discursos como “nós” e “eles” tornam-se populares, com grande aplauso das massas. O maniqueísmo beira à loucura. Algo soa familiar nos últimos anos de nosso país?

Inicia-se o ataque das instituições e a desorganização econômica, com a necessidade de atacar o sistema político e social clamando por “reformas”. Cria-se uma situação onde os acordos deixam de ser o objetivo final para tornarem-se confrontos, quase sempre através da agressão moral das liberdades individuais. Tais embates são vistos como necessários pela sociedade, consentidos pela etapa anterior da subversão ideológica: a desmoralização do sistema social estabelecido.

A desestabilização do sistema alcança enfim o aparelhamento das instituições, onde é criada uma estrutura de poder e corrupção com o objetivo de financiar e propagar ainda mais a Revolução Cultural, inclusive para outros Estados. Novamente, leitor, isso soa familiar nos últimos anos de nosso país?

3. A etapa da crise

Segue-se assim, a etapa de crise, onde a estrutura imoral anteriormente edificada sobre a corrupção nos órgãos de poder inicia sua degradação ética. É o momento de implantar estruturas de poder paralelas, como comitês não eleitos. Quem conheceu o Decreto 8.243 outorgado pelo PT há pouco tempo e posteriormente derrubado na Câmara percebeu a estratégia.

O custeio governamental para a Militância de Ambientes Virtuais foi uma outra forma de suporte à revolução. Se o poder total lhes é negado pela “democracia”, as autoridades principais procuram de todas as formas, estabelecer um poder paralelo. O Brasil esteve, até o impeachment, nesse terceiro estágio: o balanço de poder alternava-se constantemente.

4. A normalização

Em função da extensão da terceira etapa de crise e do imenso caldo cultural que foi implantado nas mentes das pessoas dos últimos anos, o sucesso da Revolução Cultural ainda é plenamente possível. A população dividida procura um salvador, cujo sucesso pode manifestar-se sob qualquer manto que leve palavras dóceis para as pessoas.

A implantação de uma nova ordem seria a consolidação da última etapa da subversão: a normalização, ironicamente entendida como o restabelecimento da sociedade. À força, naturalmente. E com os meios de exploração do país ampliados.

A Venezuela encontra-se exatamente nesse estágio atualmente, com o ditador tentando dar o golpe final com uma nova constituinte. Esperamos que a população resista. No Brasil, até a definição de um presidente com a força necessária para definir o rumo que seguiremos, ficaremos em estado de espera.

Sabemos, porém, quem são os agentes mais interessados na implantação de uma ditadura do povo. Semana passada, o PT e outros partidos vermelhinhos ratificaram o apoio à ditadura de Nicolas Maduro. Alcançou-se um ponto em que a implantação da revolução não é mais algo oculto. Só continua desconhecido para quem realmente não quer compreender a situação.

Yuri Besmenov e seus vídeos – Conclusão

Os vídeos completos de Besmenov estão agrupados nesse link do You Tube e são excelentes para entender a fundo como os conceitos de subversão ideológica dão suporte à Revolução Cultural. Em alguns deles, o responsável pela edição do vídeo relacionou-os com alguns momentos que vivemos há pouco tempo no Brasil. Pela internet, é fácil achar fragmentos de tais palestras e entrevistas, caso o leitor não possua muito tempo.

Porém, é revelador como ele explica a substituição da responsabilidade individual por uma tal de responsabilidade coletiva, capitaneada pelos burocratas do governo, com o aumento crescente de seu poder. Como os órgãos e as instituições públicas, que deveriam servir as pessoas, servem à consolidação de uma supremacia ainda maior. Como o relativismo cultural corrói, dia a dia, os pilares éticos da sociedade. Como a ideologia revela que os desejos de mudar o mundo não está sustentado na liberdade individual, mas simplesmente, são investidas para uma maior dominação. Como a igualdade deveria ser entendida como um direito às mesmas oportunidades e não como uma condição de existência. Como a violência não poderia justificar uma suposta justiça social.

Meu objetivo não é estender ainda mais o artigo, pois desejo incentivar a visualização do vídeo, que é uma aula de racionalidade. É um discurso realizado de forma didática e principalmente, com uma análise de ambos os lados da moeda. Sou crítico em alguns aspectos, principalmente quando ele defende algum grau de intervenção externa em países em crise e na supressão de direitos de grupos específicos, uma vez que não concordo com a generalização de rótulos.

Não atingir uma situação que hoje vive nossa vizinha Venezuela depende, entretanto, de uma absorção maior da razão no seio da sociedade. Eliminar toda essa bagagem que foi ensinada nas escolas e universidades nas últimas 3 ou 4 décadas, infelizmente, não é algo trivial. Porém precisamos oferecer informação para que ao menos, uma parte da sociedade entenda todo esse jogo político que culmina na implantação da revolução cultural, não sendo somente um fantoche ou vítima do processo. E que sempre lembrem que a base de tudo, é a preservação de nossa liberdade individual.

 

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Esse texto foi escrito em 2014 e republicado em Julho de 2017 no blog Viagem Lenta.

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Fabricantes de Pobreza

Por Alberto Medina Mendez. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPublicado originalmente no site Existe Otro Camino. Para ler o artigo original em espanhol, clique aqui.

O pseudo-progressismo se tornou o maior gerador de pobreza deste tempo. O faz diariamente, e apesar das irrefutáveis evidências que confirmas está visão, os progressistas estão convencidos de estar fazendo o caminho inverso. Definitivamente montaram um culto à indigência. Depois de tudo, nutrem-se dela.

As nações que lograram vencer o subdesenvolvimento, que progrediram a sério, não o fizeram construindo uma indústria de dádivas, nem gerindo um furacão de privilégios, muito menos concebendo condições ideais para esta sociedade injusta na qual os que se esforçam obtém o mesmo que os que não o fazem.

Esta casta de dirigentes ruins que povoam as bancas legislativas e os escritórios públicos, a imensa maioria deles, incapazes de exibir um êxito profissional em suas vidas, dispõem do dinheiro de todos, fundamentalmente do dos mais pobres, para seguir empobrecendo-os, em uma lógica que, a estas alturas, já deveria ter caído por seu próprio peso.

Aos que menos tem, castigam com uma carga tributária inexplicável. Fazem pagar os mais pobres, os que com muito esforço podem se sustentar, impostos que tem como destino o desperdício de sempre, este que permite exercer distorcidas práticas políticas, favorecer amigos do manda-chuva da vez, ou alimentar a epidemia da corrupção.

Eles, a classe política de diferentes espaços, que governa estes países há tempo demais, construiu um emaranhado de regras de jogo para manter-se ali, empobrecendo os que produzem, mas também aos que dizem beneficiar.

São os setores mais empobrecidos os que pagam com maior força este sistema que supõem que os defende. Impostos, inflação, desperdício e corrupção. É difícil identificar nesta lista em que lugar está a tão mencionada defesa dos que menos possibilidades tem con a qual enchem a boca os dirigentes deste tempo.

Projetaram um sistema para enriquecer como funcionários, que se sustenta sobre a base de subjugar os mais pobres. Não geraram as condições para que deixem de sê-lo, muito pelo contrário, criaram um sistema para que os sigam sendo pobres e permaneçam escravizados, nas mãos do clientelismo e do assistencialismo que se ocuparam de edificar durante décadas.

Um país rico e próspero, como o que sustenta o relato, não saqueia os pobres com impostos e inflação para logo subsidiá-los, não os humilha, nem os impulsiona a converterem-se em mendigos da política.

O país no qual querem nos fazer acreditar que vivemos, não existe. Somos parte de uma sociedade onde um pobre é induzido a votar em um candidato partidário em troca de um plano social estatal ou de uma mera promessa.

Os que se ufanam de fazer política a sério, organizam, qual associação ilícita, um afinado método para entregar uma bolsa de alimentos no dia das eleições para obter um maior caudal eleitoral. Tentam arrebanhar os cidadãos como gado, em veículos. Todo esse show com dinheiro público muitas vezes, confirmando esta cruel sociedade entre a política e a corrupção.

Temos de ser menos piedosos com essa classe política. Se trata de uma perversa casta, uma verdadeira cicatriz social, apoiada por muitos cidadãos, a maioria deles cúmplices involuntários desta paródia.

Esta caterva de dirigentes políticos não tem autoridade moral para falar de progresso. Se encarregam todo dia de de tratar à gente como “uma coisa”, de condená-los a manter-se em uma vida desprezível, de fazer-lhes promessas que intencionalmente não cumprirão, e fundamentalmente de convencer-lhes de que são uns inúteis, que não serve para nada e que só podem tentar seguir em frente recebendo favores, vivendo de empréstimos e só na medida em que continuem votando em seus humilhadores para que os sigam destratando.

Quando estes corruptos finalmente se forem e estiverem finalmente desmascarados, quando os que ainda os sustentam conseguirem se dar conta da imoralidade que geraram, esta sociedade deverá ainda lutar para vencer as temíveis sequelas e este legado lamentável que deixarão como herança.

Os depredadores da política e da sociedade convenceram os mais pobres de que são ineptos, imprestáveis, e levará muito tempo para recuperar a auto-estima, a fé em si mesmos, a fortaleza para dar a maior das batalhas e sair da pobreza sem favores dos outros.

Em todo este tempo, lhes roubaram a maior riqueza de que um ser humano pode dispor, sua dignidade.  E é difícil recuperar esta virtude quando foi pisoteada, arrastada e ultrajada durante gerações.

Não se necessitam governos que se aproveitem da pobreza do povo, em todo caso se necessita uma classe dirigente que deixe de lado seu apelo messiânico e interminável vaidade, sua soberba inesgotável de crer que é o centro da criação, a dona das verdades e proprietário do monopólio das soluções.

Às pessoas de bem resta uma dura tarefa pela frente, ajudar a reconstruir o otimismo, o pouco que resta, e devolver a fé aos que a perdem todo dia, a alimentar a confiança em si mesmos e a imprescindível atitude, que é a mãe da riqueza.

O combate será difícil, porque enquanto muitos cidadãos estão dispostos a ser protagonistas da mudança, outros decidiram dedicar-se ao ócio cívico, fomentando o conformismo crônico e sendo cúmplices de tanto desatino.

É tempo de focar-se em não baixar a guarda. Os que realmente creem que a história pode mudar tem um duro desafio pela frente. Enquanto isso, do outro lado, boa parte desta classe política contemporânea, alimentada pelo populismo vigente, se dedicará a aperfeiçoar a arte de ser fabricantes de pobreza.

Movimentos liberais crescem no Brasil

Ultimamente vem ocorrendo um crescimento significativo nos movimentos liberais do Brasil, principalmente na internet. Em redes sociais como o Facebook, podem-se encontrar dezenas de páginas liberais onde há desde membros libertários até conservadores. Há também um crescimento no número de blogs e vlogs liberais pela internet, assim como o crescimento de visitas nos mesmos. Pode-se inferir que isso se deve ao grande número de informações que a internet disponibiliza hoje em dia. Há uma maior disponibilidade de textos e artigos do que haviam há alguns anos atrás, além do número de usuários da rede ter aumentado.

A cada dia, pessoas – principalmente jovens – estão descobrindo e se aprofundando em relação às idéias e autores liberais principalmente através da internet, deixando de lado toda aquela educação anti-liberal que encontramos na sociedade brasileira. Isso é um sinal de que pelo menos uma fração dos brasileiros está de certa forma abrindo os olhos e percebendo os males que ocorrem em uma nação onde não há uma devida liberdade econômica. Uma parte destes “novos liberais” já tinha certa simpatia pelas idéias liberais antes de conhecê-las essencialmente, como é o caso dos que foram adeptos de partidos políticos de centro-esquerda. Estes partidos de certa forma reúnem um grupo de pessoas que tendem a ter idéias liberais e que, por falta de escolha, votam em candidatos destes partidos.

Apesar desta boa notícia, ainda não podemos ver uma mudança significativa no cenário político brasileiro: ainda é muito raro encontrar candidatos de viés liberal. Além disso, não há nenhum partido político que defenda realmente essas idéias. Partidos como o Partido Libertário ainda não foram oficializados por falta de assinaturas, e a única coisa que se tem são aqueles partidos que, de certa forma, se “aproximam” das idéias liberais, como os partidos de centro-esquerda, erroneamente taxados de “direitistas” e “neoliberais” por membros da extrema-esquerda.

Ainda há muito a ser feito para que as idéias liberais possam realmente ter peso no cenário político brasileiro. Já foi dado um passo, mas é preciso dar outro para disseminar esses ideais não só através da internet, mas principalmente também em escolas e universidades que hoje estão dominadas pela educação marxista. Enquanto os liberais não adentrarem realmente nesses meios para fazer uma oposição a esta grande maioria marxista, será impossível mudar a realidade que é a política brasileira de hoje.

Os problemas essenciais da existência humana

Por Ludwig von Mises. Transcrição do Capítulo XXXIX do livro Ação Humana.

I – A ciência e a vida

Costuma-se censurar a ciência moderna por ela se abster de expressar julgamentos de valor. Essa neutralidade em relação a valor (Wertfreiheit), dizem os críticos, de nada serve ao homem que vive e que age, pois o homem precisa de que se lhe digam quais devem ser os seus objetivos. A ciência, se não puder responder a essa questão, é estéril. Essa objeção não tem fundamento. A ciência não formula julgamentos de valor, mas provê o agente homem com informações necessárias para que ele faça a sua própria valoração. Só não pode ajudar o homem quando este pergunta se a vida vale ou não a pena ser vivida.

Essa questão, evidentemente, tem sido suscitada, e continuará sendo. Para que servem todos esses esforços e atividades humanas se, ao final de tudo, ninguém escapa da morte e da decomposição? O homem vive à sombra da morte. Quaisquer que tenham sido as suas realizações ao longo de sua peregrinação, terá de morrer um dia e abandonar tudo o que construiu. Cada momento pode ser o seu último momento. O futuro só contém uma certeza: a morte. Visto desse ângulo, todo esforço humano parece ter sido vão e fútil.

Além disso, a ação humana deveria ser considerada como algo inútil, mesmo quando julgada do ponto de vista dos objetivos que pretendia atingir. A ação humana jamais poderá produzir uma satisfação completa; serve apenas para reduzir parcial e temporariamente o desconforto. Logo que um desejo é satisfeito, surgem outros. A civilização, costuma-se dizer, torna as pessoas mais pobres porque multiplica as necessidades; desperta mais desejos do que os que consegue mitigar. Toda essa azáfama de homens diligentes e trabalhadores, toda essa pressa, esse dinamismo, esse alvoroço, não têm o menor sentido porque não traz felicidade e nem paz. Não se pode alcançar a paz de espírito e a serenidade pela ação e pela ambição temporal; só através da renúncia e da resignação. O único tipo de conduta adequada ao sábio é o recolhimento à inatividade de uma vida puramente contemplativa.

Entretanto, todos esses receios, dúvidas e escrúpulos são superados pela força irresistível da energia vital do homem. Certamente, o homem não poderá escapar da morte. Mas, no momento, está vivo; é a vida e não a morte que se apodera dele. Qualquer que seja o futuro que lhe tenha sido reservado, não pode fugir das necessidades da hora presente.

Enquanto tiver vida, o homem não pode deixar de obedecer ao seu impulso básico, o elã vital. É da natureza do homem procurar preservar e fortalecer a sua vida; procurar diminuir o seu desconforto; buscar o que possa ser chamado de felicidade. Em cada ser humano existe um id, inexplicável e não analisável, que é a fonte de todos os impulsos, a força que nos impele à vida e à ação, a ânsia original e permanente por uma existência mais plena e mais feliz. Existe enquanto o homem vive e só desaparece quando sua vida se extingue.

A razão humana está a serviço desse impulso vital. A função biológica da razão é preservar e promover a vida e adiar a sua extinção tanto quanto possível. O pensamento e a ação não conflitam com a natureza; ao contrário, são o principal traço da natureza humana. O que mais apropriadamente distingue o homem dos demais seres vivos é o fato de conscientemente lutar contra as forças hostis à sua vida.

Portanto, tudo o que se tem dito sobre o primado dos elementos irracionais é vazio de significado. No universo, cuja existência a nossa razão não pode explicar, analisar ou conceber, há um pequeno setor nos limites do qual o homem pode, numa certa medida, diminuir o seu desconforto. Esse setor, reservado ao homem, é o domínio da razão e da racionalidade, da ciência e da ação propositada. A sua mera existência, por mais exígua que seja, por deficientes que sejam os seus resultados, não permite que o homem se entregue à resignação e à letargia. Nenhuma sutileza filosófica poderá jamais impedir um indivíduo sadio de recorrer às ações que ele mesmo considera adequadas para satisfazer as suas necessidades. Pode ser que no recôndito da alma humana exista o desejo de uma existência vegetativa, inativa e pacífica. Mas, no ser humano, esses desejos, quaisquer que possam ser, são superados pelo afã de agir e de melhorar as condições de sua própria vida. Quando prevalece o espírito de renúncia, o homem morre; ele não se transforma num vegetal.

É claro que a praxeologia e a economia não informam ao homem se ele deve preservar ou renunciar à vida. A vida em si e todas as forças desconhecidas que a originam e que a mantêm é um dado irredutível, e, como tal, fora do âmbito da ciência. O tema central de que se ocupa a praxeologia é exclusivamente a ação – a mais típica manifestação da vida humana.

II – A economia e os julgamentos de valor

Embora haja muitas pessoas que condenam a economia por sua neutralidade em relação a julgamentos de valor, há também os que a condenam por sua suposta indulgência em relação aos mesmos. Uns dizem que a economia deve necessariamente expressar juízos de valor e que, portanto, não é realmente uma ciência, uma vez que a ciência tem que ser indiferente a valores. Outros sustentam que a verdadeira ciência econômica deve e pode ser imparcial e que só os maus economistas infringem esse postulado.

A confusão existente na discussão desses problemas é de natureza semântica e se deve à forma inadequada de muitos economistas empregarem certos termos. Suponhamos que um economista investigue se uma medida pode produzir um resultado para cuja realização foi recomendada; e que chegue à conclusão de que não resultará em p, mas em g, um efeito que mesmo os que propõem a medida consideram indesejável. Se esse economista enunciar o resultado de sua investigação dizendo que é uma medida “má”, não estará formulando um juízo de valor. Estará apenas dizendo que, do ponto de vista dos que desejam atingir o resultado p, a medida é inadequada. É nesse sentido que os economistas que defendem o livre comércio condenam o protecionismo. Eles demonstram que a proteção, ao contrário do que pensam os seus adeptos, diminui, em vez de aumentar, a quantidade total de produtos e que, portanto, é indesejável do ponto de vista dos que preferem que a oferta de produtos seja a maior possível. Os economistas criticam as políticas em função dos resultados que pretendem atingir. Quando, por exemplo, um economista diz que uma política de salários mínimos é má, o que está dizendo é que os seus efeitos contrariam os propósitos dos que a recomendam.

É sob esse mesmo prisma que a praxeologia e a economia consideram o princípio fundamental da existência humana e da evolução social, qual seja, que a cooperação sob a divisão social do trabalho é um modo de ação mais eficiente do que o isolamento autárquico dos indivíduos. A praxeologia e a economia não dizem que o homem deveria cooperar pacificamente no contexto da sociedade; dizem apenas que o homem deve agir dessa maneira se deseja atingir resultados que de outra forma não conseguiria. A obediência às regras morais necessárias ao estabelecimento, à preservação e à intensificação da cooperação social não é considerada um sacrifício a uma entidade mítica qualquer, mas o recurso ao meio mais eficiente, como se fosse um preço a ser pago para receber em troca algo a que se dá mais valor.

Todos os dogmatismos e todas as escolas antiliberais uniram as suas forças para impedir que as doutrinas heteronômicas do intuicionismo e dos mandamentos revelados fossem substituídas por uma ética autônoma, racionalista e voluntarista. Todas elas condenam a filosofia utilitarista pela impiedosa austeridade de sua descrição e análise da natureza humana e das motivações últimas da ação humana. Não há necessidade de acrescentar nada, em refutação a essas críticas, ao que está contido nas páginas deste livro. Um ponto apenas precisa ser novamente mencionado, porque, de um lado, representa a essência da doutrina de todos os mistificadores contemporâneos e, de outro, oferece ao intelectual comum uma bem-vinda desculpa para não ter que se submeter à incômoda disciplina dos estudos econômicos.

Dizem esses críticos que a economia, no seu apriorismo racionalista, pressupõe que os homens visem unicamente, ou pelo menos primordialmente, ao bem-estar material. Mas, na realidade, os homens preferem os objetivos irracionais aos objetivos racionais. São guiados mais pela necessidade de atender a mitos e a ideais do que pelo desejo de ter um melhor padrão de vida.

Em resposta, o que a economia tem a dizer é o seguinte:

1 – A economia não pressupõe, e nem considera um postulado, que os homens visem unicamente, ou pelo menos primordialmente, ao que é denominado de bem-estar material. A economia, enquanto ramo da ciência geral que estuda a ação humana, lida com a ação humana, isto é, com a ação propositada do homem no sentido de atingir os objetivos escolhidos, quaisquer que sejam esses objetivos. Aplicar aos fins escolhidos o conceito de racional ou irracional não faz sentido. Podemos qualificar de irracional o dado irredutível, isto é, aquelas coisas que o nosso pensamento não pode analisar e nem decompor em outros dados irredutíveis. Nesse sentido, todos os objetivos escolhidos pelo homem são, no fundo, irracionais. Não é mais nem menos racional desejar a riqueza como o fez Creso ou aspirar à pobreza como o faz um monge budista.

2 – O que os críticos têm em mente ao empregar o termo objetivos racionais é o desejo de maior bem-estar material e de melhor padrão de vida. Para saber se a sua afirmativa – de que os homens em geral e os nossos contemporâneos em particular estão mais interessados em mitos e sonhos do que em melhorar o seu padrão de vida – é ou não correta, basta verificar os fatos. Não há necessidade de muita inteligência para saber a resposta certa, e não precisamos aprofundar a discussão. Mesmo porque a economia nada tem a dizer a favor ou contra os mitos em geral; mantém a sua neutralidade em relação à doutrina sindical, à doutrina de expansão dos meios de pagamento, e a todas as outras doutrinas, na medida em que os seus partidários as considerem e as defendam como mitos. A economia só lida com essas doutrinas na medida em que sejam consideradas como um meio para atingir determinados fins. A economia não afirma que o sindicalismo trabalhista seja um mau mito; afirma apenas que é um meio inadequado para aumentar os salários dos que desejam ter salários maiores. Compete a cada indivíduo decidir se prefere seguir o mito ou se prefere evitar as consequências inevitáveis que advirão de sua realização.

Nesse sentido, podemos dizer que a economia é apolítica ou não política, embora seja a base de todo tipo de ação política. Podemos ainda dizer que a economia é perfeitamente neutra em relação a todos os julgamentos de valor, uma vez que ela se refere sempre aos meios e nunca à escolha dos objetivos últimos que o homem pretende atingir.

III – O conhecimento econômico e a ação humana

A liberdade de o homem escolher e agir sofre restrições de três tipos. Em primeiro lugar, estão as leis físicas a cujas inexoráveis determinações o homem tem que se submeter se quiser permanecer vivo. Em segundo lugar, estão as características e aptidões congênitas de cada indivíduo e sua inter-relação com o meio ambiente; tais circunstâncias, indubitavelmente, influenciam tanto a escolha dos fins e a dos meios, embora nosso conhecimento de como isso se processa seja bastante impreciso. Finalmente, existe a regularidade das relações de causa e efeito entre os meios utilizados e os fins alcançados; ou seja, as leis praxeológicas, que são distintas das leis físicas e fisiológicas.

A elucidação e o exame formal dessa terceira categoria de leis do universo é o objeto de estudo da praxeologia e do seu ramo mais bem desenvolvido até o momento, a economia.

O conhecimento acumulado pela ciência econômica é um elemento essencial da civilização humana; é a base sobre a qual se assentam o industrialismo moderno, bem como todas as conquistas morais, intelectuais, tecnológicas e terapêuticas dos últimos séculos. Cabe aos homens decidirem se preferem usar adequadamente esse rico acervo de conhecimento que lhes foi legado ou se preferem deixá-lo de lado. Mas, se não conseguirem usá-lo da melhor maneira possível ou se menosprezarem os seus ensinamentos e as suas advertências, não estarão invalidando a ciência econômica; estarão aniquilando a sociedade e a raça humana.

Da Sociedade e da Civilização

Extraído da segunda parte de Os Direitos do Homem, onde Thomas Paine expõe que a ordem naturalmente observada na sociedade humana não é o resultado do governo e sim “existia antes do governo, e continuaria existindo se a formalidade do governo fosse abolida.”

Grande parte da ordem que reina entre os homens não é efeito do governo. Tem sua origem nos princípios da sociedade e na constituição natural do homem. Existia antes do governo, e continuaria existindo se a formalidade do governo fosse abolida. A dependência mútua e o interesse recíproco que homem tem sobre o homem, e que todas as partes da comunidade civilizada têm umas sobre as outras, criam aquela grande cadeia de conexão que os mantém unidos. O proprietário de terras, o lavrador, o fabricante, o mercador, o vendedor, e toda ocupação, prospera pela ajuda que cada uma recebe da outra, e do todo. O interesse comum regula suas preocupações, e forma suas leis; e as leis que o uso comum ordena tem uma maior influência que as leis do governo. A sociedade faz por si praticamente tudo que é atribuído ao governo.

Para entender a natureza e a quantidade de governo própria para o homem, é necessário observar o seu caráter. Como a Natureza o criou para a vida social, ele está adaptado para ela. Em todos os casos a Natureza fez seus desejos naturais maiores que suas capacidades individuais. Nenhum homem é capaz, sem ajuda da sociedade, de suprir todas as suas necessidades, e estas necessidades, agindo sobre cada indivíduo, compelem os homens para a sociedade, tal e qual a gravidade atrai as coisas para o centro da Terra.

Mas a Natureza foi mais longe. Ela não só forçou o homem à sociedade pela diversidade de necessidades que a ajuda recíproca de cada um pode suprir, mas também implantou nele um sistema de afeições sociais que, apesar de não serem necessários à sua existência, são essenciais para sua felicidade. Não há um período ao longo da vida em que este amor pela sociedade cessa. Ele começa e termina com nosso ser.

Se examinarmos com atenção a composição e a constituição do homem, a diversidade de necessidades, e a diversidade de talentos em homens diferentes para acomodar reciprocamente as necessidades uns dos outros, sua propensão à sociedade, e consequentemente à preservação das vantagens dela resultantes, descobriremos facilmente que a maior parte do que é chamado governo é mera imposição.

O governo não é necessário mais do que para suprir as poucas funções que a sociedade e a civilização não são conseguem suprir; e não faltam exemplos para mostrar que tudo que o governo pode adicionar de útil pode ser feito pelo consentimento da sociedade, sem governo.

Por mais de dois anos desde o início da Guerra Americana de Independência, e por um período mais longo em vários dos Estados Americanos, não havia formas estabelecidas de governo. Os governos antigos tinham sido abolidos, e o país estava muito ocupado com a defesa para empregar a sua atenção no estabelecimento de novos governos. Mas ainda assim durante este intervalo a ordem e a harmonia foram preservados tão inviolados como em qualquer país da Europa. Há uma aptidão natural no homem, e mais ainda na sociedade, porque abrange uma variedade maior de habilidades e recursos, para adaptar-se a qualquer situação. No instante em que o governo formal é abolido, a sociedade começa a agir: uma associação geral ocorre, e o interesse comum produz a segurança comum.

Está tão longe da verdade, como se pretende dar a entender, que a abolição do governo formal é a dissolução da sociedade, quanto está a afirmação de que este age por um impulso contrário e produz uma maior união da sociedade. Toda aquela parte de sua organização que foi confiada ao governo lhe é devolvida, e age por seu intermédio. Quando os homens, tanto por instinto natural quanto por causa dos benefícios recíprocos, estão habituados à vida social e civilizada, há sempre o suficiente de seus princípios em prática para mantê-los em qualquer mudança que possa ser necessária no novo governo. Ou seja, o homem é tão arraigado à sociedade que é praticamente impossível tirá-lo dela.

O governo formal constitui apenas uma pequena parte da vida civilizada, e mesmo quando se estabelece o melhor que a sabedoria humana pode conceber, é uma coisa mais nominal e ideal do que factual. É dos grandes e fundamentais princípios da sociedade e da civilização – do uso comum consentido universalmente, e mútua e reciprocamente preservado, do incessante fluxo do interesse que, passando através de um milhão de canais, fortalece a massa total de homens civilizados – é de todas essas coisas, infinitamente mais que de qualquer coisa que possa fazer mesmo o melhor dos governos instituídos, que dependem a segurança e a prosperidade do indivíduo e do todo.

Quanto mais perfeita for a civilização, menos necessitará de governo, porque regulará melhor seus próprios assuntos e governará melhor a si mesma; mas tão contrária à razão é a prática dos governos antigos que seus gastos crescem na proporção em que deveriam diminuir. São apenas leis de utilidade tão comum que, quer sejam impostas pelas formas de governo quer não, o efeito será quase o mesmo. Se examinarmos quais são os princípios que primeiramente concentram os homens na sociedade e quais são os motivos que posteriormente regulam suas relações mútuas, descobriremos, quando chegarmos ao que é chamado governo, que quase todo o processo é realizado pelo funcionamento natural das partes umas sobre as outras.

Com relação a todas estas questões, o homem é uma criatura mais consistente do que ele mesmo sabe ou do que os governos desejariam que ele acreditasse. Todas as grandes leis da sociedade são leis da natureza. As do intercâmbio e do comércio, das relações entre indivíduos ou entre nações são leis de interesses mútuos e recíprocos. São seguidas e obedecidas porque agir assim é do interesse das partes, e não porque seus governos possam impor ou interpor alguma lei formal.

Mas quão frequente a propensão natural à sociedade é perturbada ou destruída em diversas épocas, descobriremos que não se originaram da falta de um governo, mas que o próprio governo foi sua causa: em lugar de consolidar a sociedade, ele a dividiu; privou-a de sua coesão natural e gerou descontentamentos e desordens que, de outra maneira, não teriam existido. Naquelas associações promíscuas que os homens formam com propósito comercial ou com qualquer outro fim que não tenha nada a ver com o governo, e nas quais atuam meramente com base nos princípios da sociedade, observamos quão naturalmente as várias partes se unem. Isso mostra, por comparação, que os governos, longe de serem sempre a causa ou meio da ordem, são muitas vezes sua destruição. Os motins de 1780 não tiveram outra fonte senão os resquícios dos preconceitos que o próprio governo tinha estimulado. Mas, quando falamos da Inglaterra, também há outras causas.

O excesso e a desigualdade dos impostos, por mais disfarçados que sejam seus meios, nunca deixam de aparecer em seus efeitos. Como uma grande massa da comunidade é assim lançada na pobreza e no descontentamento, ela está constantemente à beira da convulsão. Despojada, como infelizmente está, dos meios de informação, é facilmente inflamada até a ofensa. Qualquer que seja a causa aparente dos distúrbios, a verdadeira é sempre a falta de felicidade. Indica que alguma coisa está erada no sistema de governo que prejudica a felicidade pela qual a sociedade deve ser mantida.

Contudo, como o fato é superior ao raciocínio, o exemplo da América se apresenta como confirmação dessas observações. Se há um país no mundo onde a concórdia, de acordo com o cálculo comum, seria menos esperada, esse país é a América. A união dos povos que o constituem – de diferentes nações, acostumados a diferentes formas e hábitos de governo, falando distintas línguas e bastante heterogêneos quanto aos seus cultos religiosos – pareceria inviável. Entretanto, graças à simples operação de erigir o governo sobe os princípios da sociedade e os direitos do homem, toda dificuldade é afastada e todas as partes são postas em harmonioso uníssono. Os pobres não são oprimidos; os ricos não são privilegiados. As atividades laboriosas não são mortificadas pela extravagância esplendorosa de uma corte que esbanja às suas expensas. Seus impostos são poucos, porque seu governo é justo. E como não há nada que os faça infelizes, não há nada que gere agitações e tumultos.

Um homem metafísico, como o Sr. Burke, teria torturado a sua imaginação para descobrir como um povo assim poderia ser governado. Suporia que alguns deveriam ser manipulados pela fraude, outros pela força e todos mediante algum artifício; e que gênios deveriam ser contratados para enganar a ignorância e fascinar o vulgo com espetáculos e desfiles. Perdido na abundância de suas investigações, ele teria analisado e reanalisado, mas terminaria deixando de ver o caminho claro e simples diante dos seus olhos.

Uma das grandes vantagens da Revolução Americana foi ter levado a uma descoberta dos princípios e exposto a opressão dos governos. Todas as revoluções até então tinham ocorrido na atmosfera de uma corte, e nunca no palco maior de uma nação. As partes pertenciam sempre às classes dos cortesãos, e fosse qual fosse sua ânsia pela reforma, preservavam cuidadosamente a fraude da profissão.

Em todos os casos tratavam de representar o governo como algo cheio de mistérios, que somente eles compreendiam. E ocultavam do entendimento da nação a única coisa benéfica de saber, isto é, que o governo nada mais é do que uma associação nacional que funciona com base nos princípios de sociedade.
Tendo assim me esforçado para demonstrar que o estado social e civilizado do homem é capaz de realizar por si mesmo quase tudo que é necessário à sua proteção e governo, será adequado, por outro lado, analisar os atuais governos velhos e examinar se os seus princípios e a sua prática podem fazer o mesmo.

Liberdade Econômica Contra a Desigualdade Racial

Walter Williams é um radical. Na juventude, preferia o incendiário Malcolm X ao pacifista Martin Luther King. Hoje, aos 74 anos, Williams admira os dois líderes negros, repudia a violência e se define como um libertário radical, como os americanos se referem aos que se opõem ao excesso de ativismo do estado e propugnam mais liberdade individual. Fiel ao seu ideário, é contra ações afirmativas e cotas raciais, e diz que o melhor instrumento para vencer a desigualdade racial é o livre mercado: “A economia de mercado é o grande inimigo da discriminação”. Criado pela mãe na periferia de Filadélfia, Williams acaba de publicar uma autobiografia em que narra sua trajetória da pobreza à vida de professor universitário (desde 1980, leciona economia na Universidade George Manson, na Virgínia). Com 1,98 metro de altura, voz de barítono, bom humor, ele demonstra muita coragem nesta entrevista.

Quem lê sua autobiografia fica com a impressão de que ser negro nos Estados Unidos das décadas de 40 e 50 era melhor do que ser negro hoje.
Claro que os negros estão muito melhor agora, mas não em todos os aspectos. Hoje, se os negros americanos fossem uma nação à parte, seriam a 15ª mais rica do mundo. Entre os negros americanos, há gente riquíssima, como a apresentadora Oprah Winfrey. Há famosíssimos como o ator Bill Cosby, que, como eu, vem de Filadélfia. Colin Powell, um negro, comandou o Exército mais poderoso do mundo. O presidente dos Estados Unidos é negro. Tudo isso era inimaginável em 1865, quando a escravidão foi abolida. Em um século e meio, fizemos um progresso imenso, ao contrário do que aconteceu no Brasil ou no Caribe, onde também houve escravidão negra. Isso diz muito sobre os negros americanos e sobre os Estados Unidos.

Em que aspectos a vida dos negros hoje é pior?
Cresci na periferia pobre de Filadélfia entre os anos 40 e 50. Morávamos num conjunto habitacional popular sem grades nas janelas e dormíamos sossegados sem barulho de tiros nas ruas. Sempre tive emprego, desde os 10 anos de idade. Engraxei sapatos, carreguei tacos no clube de golfe, trabalhei em restaurantes, entreguei correspondência nos feriados de Natal. As crianças negras de hoje que vivem na periferia de Filadélfia não têm essas oportunidades de emprego. No meu próximo livro, Raça e Economia, que sai no fim deste mês, mostro que em 1948 o desemprego entre adolescentes negros era de 9,4%. Entre os brancos, 10,4%. Os negros eram mais ativos no mercado de trabalho. Hoje, nos bairros pobres de negros, por causa da criminalidade, boa parte das lojas e dos mercados fechou as portas. Outra mudança dramática é a queda na qualidade da educação oferecida às crianças negras e pobres. Atualmente, nas escolas públicas de Washington, um negro com diploma do ensino médio tem o mesmo nível de proficiência em leitura e matemática que um branco na 7ª série. Os negros, em geral, estão muito melhor agora do que há meio século. Mas os negros mais pobres estão pior.

Para o professor Williams, as principais questões políticas, sociais e econômicas atuais deveriam ser analisadas e corrigidas levando-se em consideração que tudo é “uma questão de se respeitar a propriedade privada”. Para ele o livre mercado é o melhor instrumento regulador para qualquer tipo de relação, seja humana ou mercantil.
“Quanto menos intervenção do Estado – em qualquer área – melhor”, defende ele.

O estado de bem-estar social, com toda a variedade de benefícios sociais criados nas últimas décadas, não ajuda a aliviar a situação de pobreza dos negros de hoje?
Todos os economistas, sejam eles libertários, conservadores ou liberais, concordam que sempre cai a oferta do que é taxado e aumenta a oferta do que é subsidiado. Há anos, os Estados Unidos subsidiam a desintegração familiar. Quando uma adolescente pobre fica grávida, ela ganha direito a se inscrever em programas habitacionais para morar de graça, recebe vale-alimentação, vale-transporte e uma série de outros benefícios. Antes, uma menina grávida era uma vergonha para a família. Muitas eram mandadas para o Sul, para viver com parentes. Hoje, o estado de bem-estar social premia esse comportamento. O resultado é que nos anos da minha adolescência entre 13% e 15% das crianças negras eram filhas de mãe solteira. Agora, são 70%. O salário mínimo, que as pessoas consideram uma conquista para os mais desprotegidos, é uma tragédia para os pobres. Deve-se ao salário mínimo o fim de empregos úteis para os pobres. A obrigação de pagar um salário mínimo ao frentista no posto de gasolina levou à automação e ao self-service. O lanterninha do cinema deixou de existir não porque adoramos tropeçar no escuro do cinema. É por causa do salário mínimo. Na África do Sul do apartheid, os grandes defensores do salário mínimo eram os sindicatos racistas de brancos, que não aceitavam filiação de negros. Eles não escondiam que o salário mínimo era o melhor instrumento para evitar a contratação de negros, que, sendo menos qualificados, estavam dispostos a trabalhar por menos. O salário mínimo criava uma reserva de mercado para brancos.

As ações afirmativas e as cotas raciais não ajudaram a promover os negros americanos?
A primeira vez que se usou a expressão “ação afirmativa” foi durante o governo de Richard Nixon (1969-1974). Os negros naquele tempo já tinham feito avanços tremendos. Um colega tem um estudo que mostra que o ritmo do progresso dos negros entre as décadas de 40 e 60 foi maior do que entre as décadas de 60 e 80. Não se pode atribuir o sucesso dos negros às ações afirmativas.

As ações afirmativas não funcionam?
Os negros não precisam delas. Dou um exemplo. Houve um tempo em que não existiam jogadores de basquete negros nos Estados Unidos. Hoje, sem cota racial nem ação afirmativa, 80% são negros. Por quê? Porque são excelentes jogadores. Se os negros tiverem a mesma habilidade em matemática ou ciência da computação, haverá uma invasão deles nessas áreas. Para isso, basta escola, boas escolas, grandes escolas. Há um aspecto em que as ações afirmativas são até prejudiciais. Thomas Sowell, colega economista, tem um estudo excelente sobre o assunto. Mostra como os negros se prejudicam com a política de cotas raciais criada pela disputada escola de engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), uma das mais prestigiosas instituições acadêmicas dos Estados Unidos. Os negros recrutados pelo MIT estão entre os 5% melhores do país em matemática, mas mesmo assim precisam fazer cursos extras por alguns anos. Isso acontece porque os brancos do MIT estão no topo em matemática, o 1% dos melhores do país. Os negros, mesmo sendo muito bons, estão abaixo do nível de excelência do MIT. Mas eles podiam muito bem estudar em outras instituições respeitáveis, onde estariam na lista dos candidatos a reitor e sem necessidade de cursos especiais. Por causa de ações afirmativas, muitos negros estão hoje em posição acima de seu potencial acadêmico. Se você está aprendendo a lutar boxe e sua primeira luta é contra o Mike Tyson, você está liquidado. Você pode ter excelente potencial para ser boxeador, mas não dá para começar contra Tyson. As ações afirmativas, nesse sentido, são cruéis. Reforçam os piores estereótipos raciais e mentais.

O senhor já teve alguma experiência pessoal nesse sentido?
Quando eu dava aula na Universidade Temple, em Filadélfia, tive uma turma com uns trinta alunos, todos brancos, à exceção de um. Nas primeiras aulas, eles me fizeram uma bateria de perguntas complexas. Você pode achar que era paranoia minha, mas eu sei que o objetivo deles era testar minhas credenciais. A cada resposta certa que eu dava, eu podia ver o alívio no rosto do único aluno negro da classe. De onde vinha esse sentimento, esse temor do aluno negro de que seu professor, sendo negro, talvez não fosse suficientemente bom? Das ações afirmativas. Não entrei na universidade via cotas raciais. Por causa delas, a competência de muitos negros é vista com desconfiança.

Num país como o Brasil, onde os negros não avançaram tanto quanto nos Estados Unidos, as ações afirmativas não fazem sentido?
A melhor coisa que os brasileiros poderiam fazer é garantir educação de qualidade. Cotas raciais no Brasil, um país mais miscigenado que os Estados Unidos, são um despropósito. Além disso, forçam uma identificação racial que não faz parte da cultura brasileira. Forçar classificações raciais é um mau caminho. A Fundação Ford é a grande promotora de ações afirmativas por partir da premissa errada de que a realidade desfavorável aos negros é fruto da discriminação. Ninguém desconhece que houve discriminação pesada no passado e há ainda, embora tremendamente atenuada. Mas nem tudo é fruto de discriminação. O fato de que apenas 30% das crianças negras moram em casas com um pai e uma mãe é um problema, mas não resulta da discriminação. A diferença de desempenho acadêmico entre negros e brancos é dramática, mas não vem da discriminação. O baixo número de físicos, químicos ou estatísticos negros nos Estados Unidos não resulta da discriminação, mas da má formação acadêmica, que, por sua vez, também não é produto da discriminação racial.

Qual o meio mais eficaz para promover a igualdade racial?
Primeiro, não existe igualdade racial absoluta, nem ela é desejável. Há diferenças entre negros e brancos, homens e mulheres, e isso não é um problema. O desejável é que todos sejamos iguais perante a lei. Somos iguais perante a lei, mas diferentes na vida. Nos Estados Unidos, os judeus são 3% da população, mas ganham 35% dos prêmios Nobel. Talvez sejam mais inteligentes, talvez sua cultura premie mais a educação, não interessa. A melhor forma de permitir que cada um de nós — negro ou branco, homem ou mulher, brasileiro ou japonês — atinja seu potencial é o livre mercado. O livre mercado é o grande inimigo da discriminação. Mas, para ter um livre mercado que mereça esse nome, é recomendável eliminar toda lei que discrimina ou proíbe discriminar.

O senhor é contra leis que proíbem a discriminação?
Sou um defensor radical da liberdade individual. A discriminação é indesejável nas instituições financiadas pelo dinheiro do contribuinte. A Universidade George Manson tem dinheiro público. Portanto, não pode discriminar. Uma biblioteca pública, que recebe dinheiro dos impostos pagos pelos cidadãos, não pode discriminar. Mas o resto pode. Um clube campestre, uma escola privada, seja o que for, tem o direito de discriminar. Acredito na liberdade de associação radical. As pessoas devem ser livres para se associar como quiserem.

Inclusive para reorganizar a Ku Klux Klan?
Sim, desde que não saiam matando e linchando pessoas, tudo bem. O verdadeiro teste sobre o nosso grau de adesão à ideia da liberdade de associação não se dá quando aceitamos que as pessoas se associem em torno de ideias com as quais concordamos. O teste real se dá quando aceitamos que se associem em torno de ideais que julgamos repugnantes. O mesmo vale para a liberdade de expressão. É fácil defendê-la quando as pessoas estão dizendo coisas que julgamos positivas e sensatas, mas nosso compromisso com a liberdade de expressão só é realmente posto à prova quando diante de pessoas que dizem coisas que consideramos absolutamente repulsivas.

O senhor exige ser chamado de “afro-americano”?
Essa expressão é uma idiotice, a começar pelo fato de que nem todos os africanos são negros. Um egípcio nascido nos Estados Unidos é um “afro-americano”? A África é um continente, povoado por pessoas diferentes entre si. Os vários povos africanos estão tentando se matar uns aos outros há séculos. Nisso a África é idêntica à Europa, que também é um continente, também é povoada por povos distintos que também vêm tentanto se matar uns aos outros há séculos.

A presença de Obama na Casa Branca não ajuda os negros americanos?
Na autoestima, talvez. Mas não por muito tempo, o que é lamentável. Em 1947, quando Jackie Robinson se tornou o primeiro negro a jogar beisebol na liga profissional, ele tinha a obrigação de ser excepcional. Hoje, nenhum negro precisa ser tão bom quanto Robinson e não há perigo de que alguém diga “ah, esses negros não sabem jogar beisebol”. No caso de Obama, vale a mesma coisa. Por ser o primeiro negro, ele não pode ser um fracasso. O problema é que será. Aposto que seu governo, na melhor das hipóteses, será um desastre igual ao de Jimmy Carter. Vai ser ruim para os negros.

FONTE:
André Petry – Páginas Amarelas, Revista Veja, Edição 2207 – 9 de março de 2011