OS GULAGS – CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO COMUNISTA


Uma boa dica para assistir é “Caminho da Liberdade”, um filme do diretor Peter Weir. O filme faz uma leve descrição dos campos de concentração comunista (os Gulags). Para aqueles que querem começar a se familiarizar com o assunto, este me parece bem interessante.

Muito mais duradouros e tão cruéis como os campos de concentração dos nazistas, os gulags foram omitidos na história geral, e ainda são na maior parte dos países do mundo. Campos de concentração são específicos para aprisionar milhares de pessoas pelas mais diferentes razões, estas razões podem ser políticas, raciais, ou simplesmente ocasionais, entre outras razões evidentemente. Nos campos nazistas é clara a razão racial, já nos campos comunistas é clara a razão política, esta última, por simplesmente se considerar inimigos todo agricultor economicamente ativo. Estes eram entendidos como “inimigos do povo” (uma explicação muito genérica, mas muito utilizada pelos comunistas).

Longe de ser um filme que descreve minuciosamente estes campos, “Caminho da Liberdade” aponta algumas informações importantes para o cidadão comum, aquele que não está familiarizado com as informações mais técnicas da história específica destes campos. A primeira cena do filme já ilustra muito bem, quando um dos condenados é denunciado pela própria esposa, esta que certamente foi torturada psicologicamente. Alexandre Soljenítsin descreveu estas técnicas de tortura psicológica de forma extremamente detalhada no livro “Arquipélago Gulag” (publicado em 1975). Ademais, fica claro para quem assiste ao filme atentamente, que uma das características mais marcantes do sistema prisional soviético era a prisão aleatória, e sem qualquer razão justificável. A única explicação observada na literatura específica é que tais presos eram tachados de “inimigos do povo”, ou seja, inimigos do comunismo (estes poderiam ser anarquistas, socialistas não radicais, burgueses, aristocratas, engenheiros, religiosos, fazendeiros e assim vai, a lista é interminável).

Outra característica observada no filme, é que os chamados prisioneiros, que de fato eram criminosos, tinham nos gulags uma espécie de vantagem. Estes, eram avaliados por Lênin como subproduto da burguesia, sendo assim, acabando com a burguesia se eliminaria seu efeito (os criminosos). Contudo, “Caminho da Liberdade”, mesmo sendo um filme que se apresenta de forma tímida em meio a um abismo de informações a respeito dos campos de concentração comunista, ele já cumpre um papel de grande relevância frente à realidade silenciosa que o assunto expõe. É bom lembrar que os campos soviéticos chegaram a um número impressionante, atesta-se que foram aproximadamente 470.

Fontes Consultadas

SOLJENÍTSIN, A. Arquipélago Gulag. São Paulo – Círculo do Livro, 1975.

Filme dirigido por: Peter Weir. Caminho da Humanidade. Califórnia Filmes, 2011.

O comunismo tal como apresentado em “Manifesto do Partido Comunista”

Texto de Davi Caldas publicado também em seu blog “Mundo Analista“.

Karl Marx e Friedrich Engels

Comunismo, ditadura e autoritarismo

O comunismo até hoje é visto como uma teoria político-econômica bem intencionada que só não deu certo porque foi deturpada. A ditadura e o autoritarismo dos governos comunistas ao longo do século XX sempre foram maquiados pelos marxistas com o rótulo de regimes legitimamente representantes do povo, de modo que, suas ações aparentemente autoritárias eram da vontade do proletariado e, portanto, democráticas. Na medida em que esta maquiagem foi se tornando cada vez mais insustentável, muitos marxistas passaram a sustentar que estes regimes comunistas autoritários não foram comunistas de verdade; eles deturparam o verdadeiro marxismo.

Mas a verdade é que o comunismo é autoritário e ditatorial por natureza. Não houve uma deturpação. Ele se tornou, na prática, o que foi projetado para ser na teoria. A obra marxista mais famosa do mundo (“Manifesto do Partido Comunista”), que apresenta um passo a passo bem objetivo do que os comunistas pretendiam fazer, comprova isso. Analisemos alguns trechos:

Vimos acima que o primeiro passo na revolução operária é a elevação do proletariado a classe dominante, a conquista da democracia. O proletariado utilizará seu domínio político para arrancar pouco a pouco todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível a massa das forças produtivas.

Isso naturalmente só poderá ser realizado, no princípio, por uma intervenção despótica no direito de propriedade e nas relações burguesas de produção, isto é, por medidas que parecem economicamente insuficientes e insustentáveis, mas que, no curso do movimento, ultrapassam a si mesmas e são inevitáveis para revolucionar todo o meio de produção. [1].

Esse texto começa traçando um objetivo: dar ao proletariado o poder político, de modo que ele se torne classe dominante. Mas é óbvio que Marx e Engels, ao escreverem isso, não achavam que cada um dos proletários existentes iria receber literalmente uma parte do poder político. É claro que nenhum marxista achava que todos os proletários em cada país iriam se tornar políticos e se reunirem todos os dias, aos milhões, em uma câmara maior que dez estádios do maracanã para discutir propostas políticas e econômicas. Isso é inviável! Da mesma forma, seria inviável que cada país comunista adotasse um modelo federalista e descentralizado de Estado, a fim de que em cada pequena região do país todos os proletários pudessem participar ativamente das decisões políticas. Afinal, o comunismo tinha que seguir um único rumo para vigorar.

Então, o que o texto na verdade pressupõe é que o proletariado alcançará poder político de modo indireto, através da ascensão de uma parte dele, isto é, de alguns representantes da classe, que terão a incumbência de fazer a sua vontade. Esses representantes formam o partido. E é evidente que o partido terá um líder, que fatalmente acabará se tornando o líder da nação quando o partido alcançar a hegemonia política. Em resumo: o poder político concentrado nas mãos do proletariado significa o poder político concentrado nas mãos do partido político, da sua cúpula central e, sobretudo, do seu líder.

Marx e Engels não eram idiotas. Sabiam disso. Só que eles acreditavam (ou fingiam acreditar) que um partido proletário, uma vez no poder, iria inevitavelmente fazer a vontade de sua classe. É por isso que eles diziam que isso era democracia: se o partido faria a vontade do povo, o povo estaria no poder.

Se você entendeu essa relação, então agora entende que quando Marx e Engels dizem que o proletário tiraria pouco a pouco o capital da burguesia, centralizaria os meios de produção nas mãos do Estado, aumentaria a massa das forças produtivas, interviria de maneira despótica e tomaria medidas que “parecem” economicamente insuficientes, estão dizendo, de maneira velada, que o sujeito de todas essas ações é o partido. Tenho para mim que o nome da obra “Manifesto do Partido Comunista” é uma evidência disso. Por que não “Manifesto do Proletariado Comunista”?

Em seguida, o documento começa a enumerar as ações autoritárias que colocaria em prática gradualmente, quando o partido estivesse no poder, até conseguir estatizar toda a economia. Vejamos o passo a passo por partes [2]:

1. Expropriação da propriedade fundiária e emprego da renda da terra nas despesas do Estado.

2. Imposto fortemente progressivo.

A expropriação de terras dos ricos já é, por si só, um roubo. O fato de um proprietário ser rico não dá direito ao Estado de tomar aquilo que lhe pertence. Mas ainda que nós concordemos, para o bem do argumento, que esta ação se justifica, pois visa o bem estar dos pobres, perceba que o governo pretendia usar a renda das terras nas despesas gerais do Estado e taxar, progressivamente, os trabalhadores. Ou seja, o trabalhador, no fim das contas, seria marionete do Estado, que é o partido.

Os países em que estas duas medidas foram aplicadas de maneira mais rigorosa foram a Ucrânia, entre 1931 e 1933, a China, entre 1958 e 1960 e o Camboja, em 1975. O resultado foi aterrador: cerca de 36 milhões de pessoas morreram vítimas de repressão, fome forçada, miséria causada pela ineficiência do sistema.

3. Abolição do direito de herança.

4. Confisco da propriedade de todos os emigrados e rebeldes.

Olhe que legal: você não tem mais direito de deixar o que conquistou na vida para quem você ama. Se você morre, seus bens vão para o Estado, que é o partido. Isso se você conseguir juntar alguma coisa em um regime comunista, o que é bem difícil, diga-se de passagem. O estrangeiro também sai perdendo, é evidente. Mas o que me impressiona mais aqui é o confisco da propriedade dos chamados “rebeldes”. Neste ponto, Marx e Engels estão dizendo o seguinte: se você discordar do regime, o Estado vai tirar tudo o que você tiver. Amigos, se isso não é a total legitimação da opressão estatal, então eu sou o Napoleão Bonaparte e tomei vinho com Platão ontem, no Planalto Central.

5. Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e monopólio exclusivo.

Quando chegamos neste momento, percebemos que o proletário já não tem para onde fugir da presença do Estado. Ele trabalha para manter os custos do governo, é taxado de maneira cada vez mais forte e o pouco dinheiro que lhe resta fica em um banco estatal, que pode, evidentemente, usurpar seu salário na hora que bem entender.

6. Centralização dos meios de transporte nas mãos do Estado.

7. Multiplicação das fábricas nacionais e dos instrumentos de produção; cultivo e melhoramento das terras segundo um plano comum.

Quando Marx e Engels disseram que as medidas tomadas pelo governo pareceriam economicamente insuficientes e insustentáveis, eles sabiam muito bem do que estavam falando. É preciso muita confiança na capacidade administrativa do governo para crer que o Estado pode gerir todas as empresas e setores da sociedade, conduzindo milhares de segmentos segundo um único e gigantesco plano administrativo. É a mesma coisa que acreditar que uma única dona de casa seria capaz de administrar todas as cozinhas e cozinheiras da cidade de São Paulo ou que o presidente da Google poderia chefiar sozinho todos os setores e funcionários de sua multinacional. Isso é loucura!

Pedagogia Infantil Comunista

Pulo para o passo número 10 para mudar um pouco de assunto e falar sobre a pedagogia infantil comunista. Observe o que Marx e Engels afirmam:

10. Educação pública e gratuita de todas as crianças. Eliminação do trabalho das crianças nas fábricas em sua forma atual. Combinação da educação com a produção material, etc.

Na edição que tenho de “Manifesto do Partido Comunista”, há alguns anexos interessantes na obra. Um deles é o texto “Os princípios do comunismo”, escrito por Engels no final de outubro de 1847 em uma reunião da Liga dos Comunistas, onde se discutia um projeto de “Confissão de fé comunista”. Sobre a educação pública para as crianças, Engels afirma que ela deveria ocorrer “a partir do instante em que [as crianças] possam prescindir dos cuidados maternos, em estabelecimentos nacionais e a cargo do Estado” [3]. Em outras palavras, elas deveriam ser doutrinadas pelo Estado desde bem pequenas.

Um trecho interessante de “O Manifesto” afirma o seguinte sobre a doutrinação das crianças pelo Estado:

Mas dizeis que abolimos as mais sublimes relações ao substituirmos a educação doméstica pela educação social. E vossa educação, não é ela também determinada pela sociedade? […] Os comunistas não inventaram a influência da sociedade sobre a educação; procuram apenas transformar o seu caráter, arrancando a educação da influência da classe dominante [4].

Quer dizer: a educação estatal é importantíssima para o comunismo, nem tanto por uma preocupação com o acesso das crianças aos estudos, mas muito porque o Estado comunista precisa se certificar que você não estará dando uma educação burguesa ao seu filho. Então, você não tem o direito de educar seu filho em casa, mas deve deixá-lo aos cuidados do Estado desde a mais tenra idade.

Não é à toa que O Manifesto também afirma que uma das medidas básicas do regime seria instituir o trabalho obrigatório igual para todos. Ou seja, a mãe não tinha a opção de só ficar em casa, educando o filho. Ela deveria trabalhar como qualquer outra pessoa e o filho, assim que desmamasse, deveria ser introduzido à educação estatal. Isso é curioso, porque logo em seguida Marx e Engels criticam a burguesia por romperem os laços familiares dos proletários através da exploração que empunham aos mesmos (sobretudo às crianças). O que se está propondo aqui, portanto, é substituir seis por meia dúzia.

A verdade é que Marx e Engels estavam pensando mais em uma estratégia para manter o regime comunista do que nas relações familiares. Então, pouco importava se o regime comunista acabaria mantendo os pais tão longe dos filhos quanto no capitalismo (ou até mais). A questão principal não era resolver este problema. A questão principal era que as crianças precisavam ser doutrinadas pelo Estado desde pequenas.

E o que as crianças aprenderiam na educação estatal obrigatória dos comunistas? Bom, elas iriam aprender principalmente a ter uma concepção materialista da história. Afinal, os comunistas sabiam que os maiores empecilhos para que o próprio proletariado aceitasse o comunismo eram as ideias provenientes dos questionamentos filosóficos e religiosos. Essa era a “educação burguesa” que os comunistas não queriam que o proletariado passasse para seus filhos. Veja o que Marx e Engels dizem:

As acusações contra o comunismo feitas de pontos de vista religiosos, filosóficos e ideológicos em geral, não merecem uma discussão pormenorizada. Será necessária uma profunda inteligência para compreender que, com a modificação das condições de vida dos homens, das suas relações sociais, da sua existência social, também se modificam suas representações, suas concepções e seus conceitos, numa palavra, sua consciência? O que demonstra a história das ideias se não que a produção intelectual se transforma com a produção material? As ideias dominantes de uma época sempre foram apenas as ideias dominantes da classe dominante [5].

Aqui Marx e Engels querem que compremos as seguintes ideias:

(1) objeções religiosas e filosóficas são tão idiotas e desprezíveis que não precisam ser avaliadas pelos seus leitores;

(2) o homem não é um ser inclinado ao mal por natureza. Sua consciência é moldada de acordo as condições materiais da sociedade;

(3) o materialismo é uma obviedade tão grande que seus leitores também não precisam avaliar e que é inadmissível que alguém discorde. A pessoa que o faz é um imbecil;

(4) as ideias filosóficas e religiosas são pura e simplesmente expressões das relações materiais existentes no interior da luta entre as classes. Por isso, não valem a atenção do leitor.

A dupla continua:

Fala-se de ideias que revolucionam uma sociedade inteira; com tais palavras exprime-se apenas o fato de que, no interior da velha sociedade, formam-se os elementos de uma sociedade nova e a dissolução das velhas ideias acompanha a dissolução das velhas condições de existência [6].

Se as ideias não têm valor, antes são apenas meras abstrações que expressam a condição material da sociedade e as relações opressor/oprimido, sendo dissolvidas cada vez que alguma coisa muda no contexto material, então questionamentos filosóficos e religiosos não podem jamais fazer frente ao comunismo. Como se torna claro, a importância do materialismo residia nisso: em destruir argumentos contrários.

O leitor atento vai perguntar: “Ora, mas o comunismo também não era uma ideia? A crítica ao valor das ideias é um tiro no pé”. Ah, mas Marx e Engels sabiam disso. E é por isso que eles fazem questão de dizer:

As proposições teóricas dos comunistas não se baseiam de forma alguma em ideias, em princípios inventados ou descobertos por esse ou aquele reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições efetivas de uma luta de classes já existente, de um movimento histórico que se desenrola sob nossos olhos [7].

Notou a estratégia? Nossos amigos pregavam que o comunismo não era uma ideia, nem era composto por elas. O comunismo era como uma ciência exata, para Marx e Engels; algo como “2 + 2 = 4”. Era uma doutrina baseada em fatos brutos e concretos, que poderiam ser perfeitamente conhecidos através do empirismo.

Marx e Engels ensinavam que o comunismo era um “socialismo científico”. Isso significa que com as lentes do comunismo você conseguiria olhar claramente para a história do mundo, observar “fatos incontestáveis” da história e prever “cientificamente” o que exatamente iria acontecer (da mesma forma como, por exemplo, um cientista observa objetos distintos caindo milhares de vezes, em tempos e lugares diferentes, e conclui que há uma força que puxa os objetos para baixo, e que, se ele jogar uma pedra agora do quinto andar de seu prédio, ela também será puxada para baixo por essa força).

Com essa estratégia, a dupla podia criticar todas as ideias contrárias ao comunismo, taxando-as de expressão material e, ao mesmo tempo, afirmar o comunismo como uma ciência exata, e a revolução proletária como uma inevitabilidade. O comunismo, assim, tornava-se uma profecia e todas as outras ideias, heresias da burguesia.

Eram essas coisas que Marx e Engels desejavam que todas as crianças aprendessem na escola. A preocupação com a educação estatal para crianças pequenas se justificava por um fato incômodo: muitos proletários tinham crenças e hábitos que se constituíam empecilhos para a aceitação plena do comunismo. Essas crenças e hábitos encontravam-se, por vezes, arraigadas naqueles que passaram décadas de sua vida aprendendo-os, reproduzindo-os e cultivando-os.

A crença na religião cristã, por exemplo, fazia com que o proletário visse o ser humano como um ser pecador, o paraíso como uma esperança extraterrena e Deus como sendo mais importante do que o partido, o Estado e a revolução. E o que dizer das restrições morais, do maior apego à família do que a sindicatos, do respeito à autoridades eclesiásticas, da visão espiritual da história mundial e etc.

Esses hábitos e crenças travavam o comunismo, que via o ser humano como um ser perfectível, o paraíso como uma inevitável realização terrena, o partido, o Estado e a revolução como o sentido máximo da vida, a moral como subordinada aos interesses da revolução, a vida como fruto de materialismos históricos e dialéticos. É por isso que Marx e Engels afirmavam, por exemplo, que a religião é o ópio do povo. Eles sabiam que se não convencessem os proletários de que a religião era um ópio com que o povo se drogava para agüentar a pressão da vida, teriam dificuldades de pôr em prática um regime comunista.

A doutrinação estatal para crianças, portanto, era algo primordial para que o comunismo lograsse algum êxito. O que Marx e Engels não conseguiram perceber é que essa doutrinação deveria começar antes mesmo do partido subir ao poder. Mas o que eles não perceberam no século XIX, ideólogos como Antônio Gramsci, Herbert Marcuse e Theodor Adorno perceberiam no século XX, entre os anos 20 e 60. Eles seriam os precursores de uma nova estratégia comunista: a “Guerra Cultural”. Tal estratégia pretendia doutrinar crianças e jovens dentro das escolas e faculdades de modo sorrateiro, com linguagem simples e cotidiana, introduzindo no senso comum ideias que pudessem corroer a imagem do cristianismo, da moral judaico-cristã, da vida familiar, da cultura tradicional do ocidente e tudo o mais que pudesse afastar as pessoas do comunismo.

Marx e Engels podem não ter enxergado tão longe no que se refere à doutrinação de crianças e jovens, mas enxergaram muito bem. Eles entenderam que era preciso criar uma cultura comunista nas crianças, para que as novas gerações de proletários não se prendessem a nenhum tipo de crença conflitante com os interesses do Partido/Estado.

Em suma, no regime comunista que Marx e Engels projetavam, seu filho aprenderia na escola que Deus não existe, que todas as grandes religiões são histórias da carochinha, que objeções filosóficas ao comunismo são indignas de crédito, que ideias são fruto das relações materiais, que muito da nossa moral e cultura são invenções burguesas, que o comunismo é uma ciência exata, que o ser humano é perfectível, que o mundo pode ser transformado em um paraíso, que isso efetivamente irá acontecer, que o sentido máximo e único da vida é buscar esse paraíso terreno, que isso inevitavelmente irá acontecer, que o Partido/Estado é o representante supremo do nosso sentido da vida e que devemos apoiá-lo incondicionalmente na transformação do mundo. Tudo isso seria obrigatório na educação estatal.

A destruição da sociedade

Aqueles que acreditam que o comunismo pretendia apenas mudar o sistema econômico do mundo e, consequentemente, a vida econômica das pessoas, ainda não entenderam nada sobre o comunismo. Esta doutrina, na verdade, jamais objetivou tão-somente fazer uma reforma econômica. Seu objetivo era destruir todas as bases dessa sociedade que conhecemos e construir uma sociedade inteiramente nova e diferente. Há pouco nós líamos sobre o que Marx e Engels achavam das “ideias”. A continuação daquele texto desemboca no objetivo comunista de destruir tudo. Eles começam descrevendo uma acusação pertinente feita ao comunismo já àquela época:

Sem dúvida”, dir-se-á, “as ideias religiosas, morais, filosóficas, políticas, jurídicas, etc., modificaram-se no curso do movimento histórico. Entretanto, a religião, a moral, a filosofia, a política e o direito sempre sobreviveram a essas mudanças. Além disso, existem verdades eternas, como liberdade, justiça, etc., que são comuns a todas as condições sociais. O comunismo, porém, acaba com as verdades eternas, acaba com a religião e a moral, ao invés de lhes dar uma nova forma, e isso contradiz todos os desenvolvimentos históricos anteriores [8].

Exposta esta acusação, a dupla inicia uma resposta baseada na concepção da luta de classes, uma resposta que se torna aterradora conforme chegamos ao seu final:

A que se resume essa acusação? A história de toda a sociedade até os nossos dias movimentou-se através de antagonismos de classe, que assumiram formas diferentes nas diferentes épocas. Mas qualquer que tenha sido a forma assumida por esses antagonismos, a exploração de uma parte da sociedade por outra é um fato comum a todos os séculos passados. Portanto, não é de se espantar que a consciência social de todos os séculos, a despeito de sua multiplicidade e variedade, tenha-se movido sempre dentro de certas formas de consciência que só poderão se dissolver completamente com o completo desaparecimento dos antagonismos de classe [9].

Deixe-me ver se entendi. Quer dizer que as formas de consciência social comuns a todos os séculos, que englobam a religião, a moral, as noções de liberdade e justiça e etc., se dissolverão completamente quando a revolução comunista alcançar seu objetivo supremo? Vamos continuar lendo para ver se é isso mesmo:

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não é de espantar que no curso de seu desenvolvimento ela rompa da maneira mais radical com as ideias tradicionais. [10].

Incrível! Marx e Engels realmente estavam dizendo que as ideias mais tradicionais sobre a moral, a religião, a justiça e etc., iriam ser destruídas pela revolução juntamente com a propriedade privada! O mais incrível é que depois de dizer isso descaradamente, a dupla dinâmica ainda acrescenta a frase: “Mas deixemos de lado as objeções da burguesia ao comunismo”. Como se o que eles acabassem de falar fosse uma objeção bobinha e que dizia respeito apenas aos interesses de uma pequena parcela da sociedade!

A corrosão das ideias tradicionais de moral, religião e justiça não poderia ter resultado em outra coisa que não opressão, perseguição e genocídios décadas mais tarde. Vários livros dão conta das atrocidades que foram infligidas ao mundo pelo comunismo. Um dos melhores e mais completos é “O Livro Negro do Comunismo”, que indico ao leitor para mostrar o resultado prático (e inevitável) dessas ideias loucas de Marx e Engels.

A destruição da religião

A destruição da religião merece um tópico à parte. Certa vez ouvi uma professora dizer que Marx não tivera muito interesse em falar contra a religião na sua vida. Quando ouvi isso pela primeira vez, achei que, para ele e seu amigo Engels, a religião era algo indiferente, que eles apenas não acreditavam, mas respeitavam. Assim, as perseguições religiosas infligidas pelos comunistas teriam sido uma deturpação do marxismo.

Acabei descobrindo mais tarde que não foi bem assim. Já vimos que as crenças e hábitos da religião eram obstáculos para o comunismo, que eles eram tidos como frutos das relações materiais exploratórias e que Marx e Engels pretendiam que eles fossem suprimidos com a revolução. Isso já seria o suficiente para termos certeza de que a religião não seria bem tratada em um regime comunista. Mas na edição que tenho em casa de “Manifesto do Partido Comunista”, há uma informação suplementar. No “Projeto de confissão de fé comunista”, sobre a relação dos comunistas ante as religiões existentes, é dito:

Todas as religiões até agora foram a expressão de estágios do desenvolvimento histórico de povos singulares ou de grupos de povos. O comunismo, porém, é o estágio de desenvolvimento que torna supérfluas todas as religiões existentes e as suprime [11].

Exatamente como pensava, por exemplo, o ditador comunista chinês Mao Tsé Tung, que criou e desenvolveu a Revolução Cultural Chinesa, e oprimiu duramente milhares de religiosos, destruindo seus templos e símbolos e condenando-os a penas civis.

Mais autoritarismo

A leitura dos documentos da Liga dos Comunistas é ótima para tornar ainda mais claro como o autoritarismo estava no DNA comunista. No “Estatuto da Liga dos Comunistas”, na seção I, artigo 2, existe uma série de condições para que uma pessoa entrasse na Liga. Entre elas encontravam-se duas bem interessantes: “Profissão de fé comunista” e “Submissão às resoluções da Liga”. Ao fim há a seguinte frase: “Quem não preencher mais essas condições será excluído”. Até aqui, nada demais. Mas vejamos o que é dito adiante, na seção VIII, artigos 41 e 42:

41. O comitê do círculo julga os delitos contra a Liga e assegura a execução da sentença.

42. Os indivíduos suspensos ou expulsos, bem como todos os suspeitos, devem ser vigiados em nome da Liga e postos em situação de não poderem causar danos. As intrigas de tais pessoas devem ser imediatamente denunciadas à respectiva comuna [ênfase acrescentada] [12].

O que essas palavras querem dizer? Ou melhor: o que essas palavras poderiam vir a significar em cada situação? É exagero dizer que elas dão margem para todo o tipo de ação contra pessoas que causavam problemas à Liga Comunista? Antes que o leitor responda, vamos ler um trecho do documento “Princípios do Comunismo”, de Engels. Esse trecho responde a seguinte pergunta: “Será possível a abolição da propriedade privada por via pacífica?”. Engels responde:

Seria desejável que isso pudesse ocorrer e os comunistas seriam, com toda a certeza, os últimos a isso se oporem. Os comunistas sabem muito bem que todas as conspirações são não apenas inúteis, mas até mesmo prejudiciais. […] Mas vêem também que o desenvolvimento do proletariado é reprimido com violência em quase todos os países civilizados e que, com isso, os adversários dos comunistas nada mais fazem do que trabalhar com todas as forças para uma revolução. E se, nessas condições, o proletariado oprimido for finalmente impelido para uma revolução, nós, comunistas, defenderemos a causa do proletariado com a ação, do mesmo modo como agora a defendemos com a palavra [13].

Em outro trecho, respondendo a outra pergunta, Engels ressalta:

A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado [14].

As medidas das quais Engels fala aqui são aquelas medidas despóticas listadas em “Manifesto do Partido Comunista”, que nós analisamos há pouco. Ele volta a listá-las em “Os Princípios do Comunismo”. Ou seja, a democracia dos comunistas é inútil se não for uma ditadura que tome uma série de ações despóticas, supostamente em nome da vontade do povo. Prévias desse despotismo são expressas na própria confissão dos comunistas de que a força poderia ser usada para alcançar seus objetivos políticos e na atitude em relação aos suspensos, expulsos ou suspeitos da Liga dos Comunistas, de vigiá-los e colocá-los “em situação de não poderem causar danos”.

Considerações finais

Qualquer pessoa que se proponha a ser honesta perceberá que não houve exageros ou distorções nessas análises. Limitei-me a descrever o pensamento comunista de expresso em “Manifesto do Partido Comunista” e em documentos da Liga e destacar os pontos autoritários de sua teoria, mostrando como esses pontos formam a essência mesma do comunismo. A conclusão é que o comunismo não se tornou ditatorial e opressivo nos países que se instaurou por uma série de acidentes históricos ou por uma enorme distorção da teoria. Ele se tornou ditatorial e opressivo porque foi projetado para ser uma ditadura. Ainda que Karl Marx e Friedrich Engels acreditassem que essa ditadura seria democrática (por fazer aquilo que o povo queria) e benéfica (se é que realmente criam nisso…), isso não muda em nada o fato de que o comunismo fora inteiramente projetado para ser uma ditadura.

____________________________________

Referências:

  1. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 65 e 66.
  2. IBDEM, p. 67-68.
  3. IBDEM, p. 102.
  4. IBDEM, p. 62.
  5. IBDEM, p. 64.
  6. IBDEM, p. 64.
  7. IBDEM, p. 57.
  8. IBDEM, p. 65.
  9. IBDEM, p. 65.
  10. IBDEM, p. 65.
  11. IBDEM, p. 154.
  12. IBDEM, p. 115.
  13. IBDEM, p. 99-100.
  14. IBDEM, p. 101.

Lutando contra a opressão do sistema aritmético: 2 + 2 = 5

Uma esforçada ativista lutando contra o imperialismo e a exploração aritmética. Ela vai chegar ao resultado 2 + 2= 5.

De vez em sempre, esquerdistas simpáticos ao marxismo nos dizem
que os regimes comunistas que se instauraram na URSS, China,
Camboja, Vietnã e etc. não representam o verdadeiro comunismo,
pois desvirtuaram a teoria original. Bom, eu concordo plenamente
que o regime instaurado nesses países não se deram como Marx um dia imaginou. Mas tal fato nada faz para tornar a teoria marxista aceitável (o que me parece ser o objetivo de quem usa esse argumento). Afinal, o que temos aqui é uma teoria que prevê um resultado que jamais poderá ser alcançado. Para entender isso, lancemos mão de uma analogia.

Imagine que alguém proponha a seguinte teoria: 2 + 2 = 5. Não
importa o quão bem intencionada seja a pessoa que formulou esta teoria, ou quão bem intencionados sejam os que procuram colocá-la em
prática… o resultado jamais será 5, porque 2 + 2, na prática,
sempre será 4.

Aqui está o ponto cômico da história. Quando os marxistas dizem
algo como “nestes regimes ditatoriais não se instaurou o
verdadeiro comunismo e, portanto, devemos continuar tentando”,
estão essencialmente dizendo o seguinte: “Nestes regimes, 2 + 2 deu
4. Mas esta não é a verdadeira teoria contra a opressão aritmética. Na verdadeira teoria, 2 + 2 é 5. Portanto, vamos continuar tentando colocar a verdadeira
teoria em prática”.

Conclusão: Mesmo que isso custe a vida de milhões de pessoas e a
liberdade de dezenas de países, não devemos parar de lutar contra o imperialismo e a opressão do maldito sistema aritmético. Se a teoria diz que 2 + 2 deve ser igual a 5, então 2 + 2 será igual a 5. E quem reclamar, vai pro Gulag.

Os quatro perfis de esquerdista (Ou: por que não acredito em governos de esquerda?)

Este texto também foi publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler o texto original, clique aqui.
Líderes de Esquerda
Tenho uma amiga comunista. Ela acredita tão sinceramente no comunismo que não consegue entender como eu posso ser antimarxista e, pior ainda: de direita. Para ela, dentro do marxismo e da esquerda em geral, não existe uma diferença entre teoria e prática, discurso e ação. Ou seja, se a esquerda afirma que sua intenção é ajudar os pobres, então é exatamente isso o que ela está tentando fazer e é exatamente isso que ela fará quando chegar ao poder. A conseqüência desse pensamento é que qualquer um que se oponha a esquerda é alguém insensível às necessidades humanas, egoísta, malvado, injusto e, claro, muito rico. É no que ela acredita. Por isso, teve dificuldade de entender como eu poderia ser de direita. Ela realmente não entende essa “incoerência”.

O objetivo desse texto, portanto, é deixar claro que não foi por insensibilidade, egoísmo, malvadeza, injustiça ou riqueza (sobretudo riqueza!) que eu me tornei opositor da esquerda (e defensor da direita), mas sim porque tenho a sincera convicção de que as belas teorias esquerdistas não são capazes de serem colocadas em prática. Que o leitor tenha em mente que não é minha intenção falar mal de minha amiga. Afinal, nós somos bons amigos. A idéia é aqui é escrever um texto bem light, feito especialmente para os amigos do peito que acreditam sinceramente na esquerda.

Abandonando o maniqueísmo

O primeiro ponto que precisamos entender é que honestidade e desonestidade, competência e incompetência, êxito e fracasso são fatores que independem do espectro político. Há esquerdistas honestos e desonestos, competentes e incompetentes, bem sucedidos e mal sucedidos. E o mesmo se dá com centristas e direitistas. O caráter, a conduta pessoal, a competência e a habilidade não podem ser usados para se definir qual é a posição política de uma pessoa.

Então, é evidente que dizer, por exemplo, que o objetivo da esquerda é melhorar a vida dos pobres e que ela conseguirá fazê-lo não é uma afirmação que está dentro do campo da política. É uma afirmação de cunho pessoal e até especulativa. Tem a ver com o objetivo, a competência e a sorte de cada político, bem como com a possibilidade real da teoria ser posta em prática. Nenhum desses fatores é inerente à ideologia. São fatores que estão além do que é ser de esquerda.

Entender isso é essencial para que não se adentre numa visão maniqueísta da política, na qual adeptos de ideologia são maus e os adeptos de outra são bons. Tal visão maniqueísta, que tem sido utilizada por muitos esquerdistas e direitistas, inviabiliza o debate e leva uma questão que é política para o campo pessoal.

Redefinindo o objetivo primordial

Feitas as considerações acima, devemos redefinir os objetivos da direita e da esquerda à luz de fatores inerentes à direita e à esquerda, em vez de fatores de ordem pessoal e/ou especulativa. Como se dá isso? Através da identificação de um objetivo primordial concreto de cada uma dessas posições em qualquer de seus governos. A começar pela esquerda, esse objetivo primordial é aumentar as funções e a presença do Estado. Qualquer governo esquerdista buscará isso. É uma inerência. Em contrapartida, o objetivo primordial de um governo de direita é exatamente o oposto: diminuir as funções e a presença do Estado.

Mas por que motivo a esquerda pretende inchar o Estado e a direita pretende desinchar? Aqui entra a teoria (que pode ser totalmente diferente da intenção pessoal de cada político e/ou da realidade, conforme veremos mais a frente): para a esquerda o mal da sociedade não está no ser humano, mas sim no modo como essa nossa sociedade está estruturada. E o Estado não só é plenamente capaz de reestruturar a sociedade como é a melhor ferramenta para fazê-lo. Por isso, a esquerda deseja inchar o Estado. Já para a direita, a sociedade é imperfeita porque o ser humano é imperfeito. E, sendo o ser humano imperfeito, inchar o Estado gera incompetência governamental, corrupção e totalitarismo. Por isso, a direita deseja desinchar o Estado.

Estas são as teorias básicas da esquerda e da direita. Mas, como já mencionado, uma teoria básica nem sempre está de acordo com a intenção pessoal do político, ou com a sua eficiência, ou com o seu êxito, ou com a realidade prática. É neste ponto que eu começo a me tornar um opositor da esquerda.

A teoria esquerdista é bonita. Um Estado capaz de dar jeito nos problemas do mundo, tornando a sociedade justa e todas as pessoas felizes seria algo desejável. Qualquer indivíduo que tenha sensibilidade e bom caráter reconheceria isso. Contudo, esta teoria se baseia justamente naquelas duas premissas falsas: (1) que não há diferença alguma entre teoria e prática dentro do esquerdismo (por isso, inevitavelmente a teoria dará certo na prática) e (2) que todo político esquerdista é honesto, eficiente e terá êxito. É óbvio que as duas premissas não se sustentam.

Então, ficamos com um problema: não é possível ter certeza (ou mesmo alguma indicação) de que um governo esquerdista conseguirá, através do inchamento do Estado, reestruturar a sociedade. Tampouco é possível ter certeza (ou alguma indicação) de que um governo esquerdista conseguirá colocar sua teoria em prática da maneira como foi pensada. Na verdade, as diversas experiências de governos esquerdistas que temos visto, (sobretudo, comunistas) nos têm oferecido fortes evidências de que o inchamento do Estado sempre conduz a um caminho radicalmente oposto àquele que os esquerdistas afirmam desejar e àquele que suas teorias intencionam. Uma observação apurada dos diversos tipos de políticos esquerdistas que existem e de como eles agem, nos ajuda a entender melhor porque tal fenômeno acontece.

Os quatro tipos de políticos esquerdistas

1) PEH, o político esquerdista honesto

O primeiro tipo de político esquerdista que devemos analisar é o honesto. Vamos chamá-lo de PEH. Este é o tipo de político que acredita sinceramente nos ideais da esquerda e pretende realmente fazer reformas para mudar a sociedade. Logo que ele chega ao poder começa a perceber um grande problema: a democracia. Por mais que uma pessoa seja favorável à democracia é indiscutível que esta organização de governo apresenta dificuldades à implementação de quase qualquer projeto ou reforma. Afinal, as pessoas não são unânimes. Elas discordam não apenas no que deve ser feito, mas em quando deve ser feito e, principalmente, em como deve ser feito. Isso não é verdade só entre partidos e movimentos rivais, mas dentro do próprio partido ou movimento.

É exatamente isso que PEH começa a perceber. Ele tem a plena convicção de que suas idéias são boas e que dariam muito certo. No entanto, não consegue colocá-las todas em prática, tampouco da maneira como gostaria, pois o regime é democrático; as pessoas não entram em acordo unânime. E o problema não está apenas na falta de unanimidade entre os políticos. Antes fosse. Mas PEH percebe que a mídia em uma democracia é uma grande pedra no sapato. Afinal, sempre há meios de comunicação que se opõem ao governo. Alguns desses, de grande influência.

Há outros inconvenientes. Em um regime democrático, o poder é tripartido. A tripartição dos poder político dificulta ainda mais a vida de PEH, porque ele fica na dependência de várias pessoas e grupos de pessoas diferentes para colocar em prática os seus planos. Por exemplo, se determinado projeto de PEH só é viável se determinadas pessoas forem condenadas (ou se determinadas pessoas forem absolvidas), ele não tem como fazer nada, a não ser esperar pelo julgamento do poder judiciário. Se PEH acha que o judiciário é corrupto e não julgará direito, então seu projeto corre risco de não sair do papel. Enfim, PEH começa a perceber que o regime democrático limita muito os seus passos na política.

Mas PEH é um idealista. Ele crê na progressividade da história, na evolução do ser humano, na perfectibilidade da nossa espécie. Ele crê na total reestruturação dessa sociedade corrupta. Ele acredita em um governo feito apenas de boas pessoas. Assim, ele começa a apoiar o partido na idéia de “redemocratizar” a sociedade. Como assim? É simples. Para PEH e seu partido, uma democracia plena é aquela em que o povo é, de fato, representado pelos seus políticos (a ponto de poder dizer: “Somos nós mesmos que estamos no poder”). Evidentemente, PEH e seus companheiros de partido acreditam ser os verdadeiros representantes do povo, sobretudo PEH, que é honesto mesmo. Assim sendo, redemocratizar a sociedade é limitar a voz da oposição (sobretudo nas mídias) e centralizar o poder.

Como as duas atitudes mencionadas acima estão intimamente relacionadas ao inchamento do Estado (que é um objetivo básico para qualquer governo esquerdista), a busca pela “redemocratização” torna-se um tanto natural para PEH e seus companheiros de partido. Ele não consegue enxergar que o que está propondo não é democracia, mas totalitarismo. Ele não se vê como autoritário, pois acredita que quem tem uma opinião diferente da sua é um mau caráter. Então, limitá-los é fazer justiça.

PEH é o tipo de político que pouco a pouco vai se tornando padrão de moral para si mesmo. Em prol de seus ideais (que é o que salvará o mundo), ele começa a se sentir no direito de fazer qualquer coisa. Ele “sabe” que não pode esperar pela lentidão da democracia e que precisa tomar uma atitude. Atitude! O povo precisa de alguém de pulso firme, que acabe com a injustiça sem precisar esperar. Os inimigos do povo não devem ser respeitados. Não há tempo para combatê-los dentro da democracia. Não há tempo para esperar pelas demoradas deliberações dos três poderes. O que é correto é óbvio e não precisa de deliberação. O bom político, o bom partido, o bom líder, o bom governo sabe o que o povo precisa. A coisa é mais fácil do que parece. Basta ter boa intenção e boa vontade. E PEH tem esses atributos de sobra.

Uma vez que o partido de PEH consegue o poder e a hegemonia no pensamento político, o Estado vai se tornando cada vez mais autoritário. Opositores são acusados de crimes que não cometeram e condenados, os meios de comunicação são controlados e a economia passa para as mãos do Estado. Supondo que o partido consiga fazer o Estado chegar à total centralização política, criando um enorme governo totalitário, PEH terá sido bem sucedido. Agora, todas as reformas que seu partido quiser fazer poderão ser feitas à força, sem problema algum.

A partir desse ponto, duas coisas podem acontecer ao nosso querido político iluminado. Ele pode se dar conta de que criou um Estado detestável (que suprimiu as liberdades individuais, passou a prender e matar pessoas indiscriminadamente e ainda não conseguiu resolver diversos problemas sociais) e se tornar um opositor de como as coisas estão sendo feitas. PEH, neste caso, não está se colocando contra o “progresso” que seu partido conquistou, mas contra um suposto desvio. Afinal, sua idéia era uma ditadura democrática (o que ele tem certeza absoluta que é possível, por mais que tal concepção seja contraditória).

Tornando-se um opositor, PEH terá que ser muito habilidoso e bem sucedido para se tornar o líder do governo. Se não conseguir (ou não quiser isso), seu destino será uma vida fugitiva, ou uma prisão política, ou mesmo, a pena de morte. Não podemos dizer aqui que o governo se tornou vilão e PEH é o mocinho da história. O governo apenas segue a lógica da própria revolução iniciada por PEH. Alguém tem que tomar uma atitude para mudar as coisas. Divergências não podem travar a ação do governo em mudar a sociedade. Então, não há mesmo espaço para a democracia.

Além do mais, se na liderança do governo está alguém honesto como PEH, este líder sabe que precisa proteger o regime de cisões internas e a revolução de qualquer limitação que possa vir a enfraquecê-la. Deve-se ter em mente que manter uma ditadura requer muitos cuidados. O governo precisa se engajar muito na manutenção do poder, pois se isto não é feito, tudo pode ser perdido. E o líder honesto do governo, por “saber” que a reestruturação da sociedade depende dele, não pode correr o risco de perder o cargo e pôr a salvação do mundo a perder.

A segunda coisa que pode acontecer ao nosso iluminado político é ele continuar sem perceber que criou uma ditadura (ou passar por cima disso, justificando para si mesmo que “isso é necessário, mas há de ser temporário”). Neste cenário, ele tem mais chances de se tornar líder do regime (se já não for). E uma vez sendo o líder do regime, ele alcançou seu grande objetivo, pois agora nada o impedirá de mudar o mundo.

Bem, na verdade, algumas coisas o impedirão o líder PEH de mudar o mundo. A primeira, já citada, é a necessidade de manter o seu poder, o regime e a revolução. Já que toda a ditadura gera oposições ideológicas e gente querendo se beneficiar do poder absoluto, o líder não poderá dormir em paz em seu travesseiro. Ele terá que agir como um tirano desconfiado e gastar muito tempo, dinheiro e esforços para não colocar tudo a perder. Não só ele, claro, mas os principais integrantes do governo. Isso, obviamente, impede que a “transformação da sociedade” receba total atenção.

A segunda é a dificuldade de um governo administrar tantas áreas e setores de um país. Em um país pequeno isso já é complicado. Se o país for grande, como uma URSS da vida, é impossível manter tudo em ordem. Vai haver má administração de recursos, má alocação de verbas, desvios de dinheiro público, esquemas ilegais entre alguns grupos de interesses, morosidade na produção, escassez de alguns produtos, superabundância de outros, inflação, serviços e produtos de baixa qualidade, falta de fiscalização em determinados setores, excesso de fiscalização em outros e etc. Tudo o que poderia ser administrado diretamente por diferentes empresas, agora estará sob a administração do governo. Não é tarefa simples.

Em outras palavras, mesmo contando com um político honesto como PEH e um partido que o apóia, parece inevitável que um governo esquerdista, se bem sucedido em sua empreitada de aumentar as funções e a presença do Estado para mudar o mundo, se tornará um governo totalitário e repleto de problemas que não consegue resolver.

2) PEHAD, o político esquerdista honesto e amigo da democracia

Surge, então, o iluminado PEHAD. Este é o político esquerdista honesto e amigo da democracia. Tal como seu amigo PEH, PEHAD é um idealista sincero, que deseja realmente mudar a sociedade para melhor e que acredita na presença do Estado como solução para todos os problemas sociais. A diferença é que PEHAD se apresenta como alguém que está acima daquela velha política ultrapassada do séc. XX, onde diversos governos de esquerda se tornaram totalitários para alcançar seus objetivos. Para ele, a democracia é um bem intocável e foi um grande erro esses governos se permitirem abrir mão dela. É claro que tais governos não devem ser crucificados por isso. Se erraram foi por desejarem um mundo melhor. Por isso, PEHAD não esconde sua admiração por esses regimes ditatoriais que se esforçaram tanto por seus ideais.

Logo que PEHAD chega ao poder, ele se depara com um problema. As empresas públicas e os sistemas públicos de saúde, educação, transporte e prisões são bastante ineficientes, pois há muito desvio de dinheiro e má administração. Como ele “sabe” que a solução para os problemas é a presença do Estado, ele apóia, junto aos seus camaradas de partido, que o governo invista mais dinheiro nessas áreas. O dinheiro é investido, mas, para a sua surpresa, o desvio de dinheiro e a má administração aumentam.

Uma pessoa realista logo perceberia que investir mais dinheiro em setores públicos não é a solução, pois se o problema está na corrupção e na má administração, aumentar a verba só aumenta o problema. Mas, para PEHAD, tudo se resolve com mais presença do Estado e, claro, com mais presença do partido. Assim, as duas soluções encontradas por PEHAD para lidar com o problema é continuar defendendo cada vez mais investimentos no setor público e, concomitantemente, inculcar na cabeça do povo que existe uma luta de classes na sociedade; do lado dos oprimidos está PEHAD e seu partido e do outro lado estão os outros partidos e os empresários, que se alinham contra o povo. Criar mentalidades vitimistas, semear o ódio ao setor privado e implementar lutas entre várias subclasses faz parte de toda a dinâmica.

A estratégia é bem simples e típica de qualquer partido de esquerda: inchar o Estado, fazer o povo apoiar o inchamento e colocar o partido como o defensor supremo dos necessitados e acima do bem e do mal. Se lograr êxito nessa estratégia, o resultado é simplesmente fenomenal: a mentalidade de inchamento do Estado se torna parte da cultura, o povo cria dependência do governo, o poder de atuação do Estado aumenta e o partido de PEHAD ganha grande representação no governo. Na visão de PEHAD isso é suficiente para resolver os problemas constatados, pois uma vez que o governo esteja repleto de seus camaradas de partido (que são os verdadeiros representantes do povo) e com maior poder de atuação, a corrupção e a má administração “logicamente” irão diminuir gradualmente até não mais existirem. Ele e seu partido reeducarão toda a sociedade.

Dois cenários são possíveis a partir daqui. O primeiro é o de estagnação. Uma vez que não é fácil administrar um país, que quanto mais inchado é um Estado, maiores são os desafios administrativos e maiores as chances de má gestão e corrupção, que nem todo político é eficiente, que não há unanimidade na democracia e que no partido de PEHAD não há só políticos altruístas e bem intencionados, mas muitos egoístas e desonestos, o projeto de PEHAD simplesmente fica estagnado. O seu país permanece com sérios problemas de corrupção e má alocação de verbas e PEHAD permanece na luta por inchar o Estado e demonizar outros partidos políticos e empresários de maneira democrática.

O segundo cenário é o de progressão para o totalitarismo. O projeto de PEHAD dá certo e o Estado se torna cada vez mais repleto de funções e poderes. Como as coisas continuam ruins, vê-se cada vez mais a necessidade de centralizar mais o poder e tomar medidas mais drásticas. Alguns PEH’s defendem com ardor a “redemocratização” do país. E então o totalitarismo começa a entrar em cena gradualmente. Se nosso amigo PEHAD continuar fiel a sua visão democrática, ele se tornará um opositor do regime. E seu destino provavelmente não será a liberdade de expressão. Mas é bem possível que PEHAD se renda aos “avanços” do regime em “tirar o poder das mãos dos inimigos do povo”. Neste caso, ele defenderá o regime com unhas e dentes, achando-o justo.

3) PED, o político esquerdista desonesto

Vimos como é possível um político esquerdista honesto se tornar um ditador e como é possível um político esquerdista honesto e amigo da democracia não conseguir alcançar as maravilhas que achava que alcançaria, deixando o Estado do mesmo modo decrépito (ou pior) ou até colaborando (consciente ou não) para uma ditadura.
Preferi começar pelos honestos para ninguém dizer que acho os esquerdistas um bando de mau caráter. Contudo, nem só de gente honesta vive a esquerda. Talvez a maioria das pessoas comuns que são de esquerda seja honesta, mas tenho sérias dúvidas quanto aos políticos. Porque, afinal de contas, o pensamento de esquerda fornece muito mais benefícios ao político do que o pensamento de direita. É exatamente pensando nisso que surge o político esquerdista desonesto. Vamos chamá-lo de PED.

PED é o tipo de político que não difere muito do PEH e do PEHAD em seus métodos de se fazer política. Ele também age como um idealista, falando em aumentar a presença e as funções do Estado para reestruturar a sociedade. Ele também luta para livrar o governo das amarras de uma “falsa democracia”, a fim de ter mais liberdade de ação. Ele também se coloca como a favor dos pobres e da “coisa pública”. Ele também tem um discurso inflamado e apaixonado. Ele grita contra a mídia manipuladora quando esta persegue injustamente o seu partido. Ele exalta o Estado, fala sobre “soberania nacional” e discursa a favor do trabalhador. Mas há uma diferença. PED sabe ser mais pragmático. Afinal, o que importa para PED é conseguir chegar ao poder e, uma vez nele, lutar para mantê-lo.

Uma vez no poder, PED se empenha ao máximo em se beneficiar do inchamento do Estado defendido por seus companheiros de partido e toda a esquerda. Para PED é fundamental que o Estado esteja presente em todos os locais da vida social e que tenha uma miríade de funções. Desta forma, é muito mais fácil desviar verbas de diversos setores públicos, fechar parcerias com empresas privadas e praticar o superfaturamento dos preços, usar empresas públicas como cabrestos de emprego, usar bolsas-auxílio para arrecadar votos, fazer propagandas de obras públicas em épocas de eleição, doutrinar as crianças nas escolas e os jovens na faculdade, centralizar o poder, tomar medidas autoritárias, sair impune de julgamentos, gastar dinheiro público com futilidades, posar de “pai dos pobres”, aumentar a dependência das pessoas pelo Estado, dificultar as fiscalizações, inflacionar a moeda e etc.

Por essas razões, PED se opõe frontalmente a valores direitistas como um Estado limitado e descentralizado, baixa carga tributária, poucos setores públicos, incentivo a competição entre empresas privadas e etc. Todas essas idéias se constituem obstáculos complicados ao projeto corrupto de PED. Ele pode até moderar a sua defesa do Estado inchado e centralizado, a fim de fechar alianças com partidos mais conservadores. O apelo a idéia de centrismo, de uma visão equilibrada, de uma visão sem extremos é bem comum no discurso de PED. Em muitos momentos pode até ser considerado de direita por esquerdistas mais radicais. Mas, no fim das contas, ele deseja a mesma coisa que todos os partidos de esquerda: inchar o Estado ao máximo que puder.

4) PEMI, o político esquerdista medroso e/ou incompetente

Finalmente, temos o PEMI. Este é o tipo de político que bem intencionado, mas que não tem capacidade e/ou coragem para fazer qualquer coisa. Ele entra na política de gaiato, defendendo que o governo precisa fazer alguma coisa pelos pobres e todo aquele discurso já conhecido. Uma vez na política, no entanto, ele literalmente não faz nada, a não ser ganhar dinheiro. Mas apesar da inatividade, o PEMI é essencial para os projetos da esquerda, pois ele não se opõe ao inchamento do Estado. Ao contrário, ele acha algo positivo. Então, o partido não precisa se preocupar com uma oposição vinda por parte do PEMI e pode contar com o seu apoio sempre que precisar. O PEMI é uma marionete do partido.

É interessante ressaltar que para o PED, o PEMI tem uma importância mais especial que para os outros políticos porque, sendo incompetente, não será uma ameaça para os esquemas corruptos de PED e, sendo medroso, não falará nada se descobrir alguma falcatrua. Na verdade, é até bem possível que ele se corrompa e tome parte na sujeira. Assim, o PEMI tem grande participação no problema da corrupção e da má administração do país.

Avaliação dos quatro tipos de esquerdistas

Os quatro tipos de esquerdista foram baseados na realidade. Com pouco esforço, o leitor poderá encontrar exemplos desses políticos de esquerda tanto na história como na atualidade. O que essas observações sistemáticas nos ensinam é que não importa que tipo de esquerdista um político é (se honesto, ou democrático, ou desonesto, ou medroso ou incompetente), suas atitudes sempre caminharão rumo ao ideal de inchar o Estado o máximo possível; e o inchamento do Estado, por sua vez, sempre levará a corrupção, má administração e totalitarismo.

Esta é a razão pela qual não acredito na esquerda. Se alguém conseguir me provar que estou errado, que a esquerda consegue transformar o mundo em um paraíso e que esses quatro tipos de esquerdistas não colaboram com seus atos para os problemas descritos acima, me torno esquerdista e abandono a direita.

O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de Direita?

Texto meu (Davi Caldas) publicado também no blog “Mundo Analista”. Para ler o texto original, clique aqui.

Hitler e Stálin – Líderes do Nacional Socialismo e do Socialismo Marxista, respectivamente

A esquerda nos diz que Hitler e o seu movimento Nacional Socialista eram de direita ou, para ser mais exato, de extrema-direita. Um dos argumentos mais frequentemente utilizados para sustentar esta alegação é o fato de que Hitler (e, por conseqüência, o Nacional Socialismo) era antimarxista. Ora, poderíamos descartar o argumento logo de início, pois o mesmo parte do falso pressuposto de que o marxismo é a única doutrina de esquerda que existe e que, portanto, qualquer que seja contrário a ela é, automaticamente, de direita. Tal pressuposto é falso porque, desde seu surgimento, a esquerda sempre contou com doutrinas políticas que não intentavam implantar o comunismo. Os jacobinos da época da revolução francesa (pré-marxistas, pode-se dizer) e os democratas americanos a partir dos 1920 são apenas alguns exemplos de esquerdistas que não podem ser chamados de marxistas, ainda que encontremos em suas doutrinas algumas semelhanças com a ideologia do pensador alemão.

Na realidade, contanto que uma pessoa preserve traços esquerdistas básicos (como, por exemplo, a crença de que o governo deve multiplicar suas funções e impostos, a fim de fazer “justiça social”) é perfeitamente possível que essa pessoa seja esquerdista e, ao mesmo tempo, uma opositora ferrenha do marxismo. Como? Vejamos. Eu, por exemplo, acredito que a teoria de Marx é impossível de se realizar na prática, tal como ele havia pensado. Ele imaginava uma espécie de “ditadura democrática”, na qual todo o proletário iria governar, e que seria temporária, dando lugar ao posterior comunismo. Para mim, é óbvio que isso não daria certo em hipótese alguma, porque o homem tende a abusar do poder e uma ditadura do proletariado certamente se tornaria uma ditadura de líderes que se dizem “representantes” do proletariado.

Assim, mesmo que eu fosse esquerdista (como, de fato, já fui, embora não o soubesse) provavelmente seria veementemente contrário ao marxismo, dada a minha crença na impossibilidade prática do mesmo. Ainda assim, eu poderia crer na capacidade do Estado de fazer justiça social, votar em candidatos trabalhistas, ser contrário ao livre mercado, querer mais intervenção governamental, lutar por mais empresas e serviços públicos e etc. De fato, a maioria dos esquerdistas atuais tem esse perfil. Não querem destruir o capitalismo. Querem apenas “domá-lo”.

Então, apontar Hitler e o Nazismo como antimarxistas em nada prova que eles eram de direita e não de esquerda. É preciso cavar mais fundo na questão. E eu acredito que uma boa forma de começar a cavar é indo até o livro em que Adolf Hitler expõe seus ideais nazistas, o Mein Kampf (Minha Luta). O que será que ele diz sobre o marxismo? Será que o livro deixa claro que Hitler era contra o marxismo, justamente porque era de direita? Vamos ver.

Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.

Esse primeiro trecho é interessante porque dá a tônica para o restante do livro de Hitler. Conforme veremos, Adolf Hitler enxergava uma relação entre o movimento marxista, o movimento social-democrata (que, na época, era uma variante menos radical do marxismo) e o povo judeu. Ao longo do livro ele vai explicando esse ponto de vista e mostrando como chegou a essa conclusão.

[…] a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado – como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora – pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico […].

Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.

Aqui Adolf Hitler afirma que em sua juventude, ele não tinha nada contra o movimento social-democrata (a não ser o fato de que eles não eram nacionalistas) e que não conhecia o marxismo. Mas prepara o terreno para mostrar que sua concepção logo mudaria. É interessante ressaltar como ele mostra uma inclinação à esquerda julgar positiva a preocupação social-democrata com o proletariado. Não que a preocupação com trabalhadores seja monopólio esquerdista, mas um direitista jamais iria admirar a “preocupação” da esquerda com os mesmos, já que a “preocupação” esquerdista com os trabalhadores implica em ser contrário ao livre mercado e a favor do intervencionismo estatal. Então, já aqui começa a ficar claro que Hitler não se tornaria antimarxista por ser favorável às doutrinas econômicas de direita. Em outro ponto, Hitler afirma:

Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória, mas arrastará a humanidade à ruína. Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida. Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.

A relação que Adolf Hitler trava entre marxismo, social-democracia e o povo judeu começa a ficar mais explícita neste ponto. Perceba que Hitler fala em “propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia”, o que quer dizer que o líder nazista era adepto de uma teoria da conspiração. Ele achava que a social-democracia, bem como o marxismo escondiam seus verdadeiros objetivos que estavam ligados, de alguma forma, a objetivos também escondidos do povo judeu. Ele continua em outra parte:

Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.

Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.

Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do “povo escolhido”, quer se tratasse de membros do “Reichscrat”, de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória. Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão.

Só então compreendi quais eram os corruptores do povo. Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.

É preciso entender o raciocínio de Hitler dentro de seu contexto. Em sua época, os judeus estavam espalhados por toda a Europa. Havia realmente muitos judeus e nas mais diversas camadas sociais. Isso incomodava muitos europeus, que preservavam um espírito um pouco xenófobo. Deste modo, o pensamento anti-semita não era incomum e nem recente, mas vinha se desenvolvendo havia algumas décadas.

Não sabemos ao certo se havia algo mais que fazia Hitler odiar os judeus, mas é neste contexto de diversos judeus espalhados pela Europa e de xenofobia crescente, que Hitler começa a crer que existia um enorme plano maquiavélico judaico para dominar o mundo. A presença de judeus em diversas profissões e camadas sociais seria parte do plano. Cada qual estaria estrategicamente posicionado, infiltrando na cultura suas idéias, enriquecendo e tomando conta de espaços e trabalhos. Desta forma, social-democracia e marxismo seriam apenas dois instrumentos nas mãos dos judeus para alcançar sua meta suprema. Por isso, ele alerta:

Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter. A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio. Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

Fica evidente que Hitler enxergava o marxismo e todas as suas variações como braços do plano judaico de dominação mundial. Era isso que o fazia ser contrário ao marxismo. E para ele, a sua conclusão era fruto de muito estudo, conforme afirma em outro ponto:

Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Conforme vai chegando ao fim do livro, Hitler vai se tornando cada vez mais enfático quanto a relação entre marxismo e judaísmo. Diz:

O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão.

Sua concepção do assunto englobava tudo. Ele acreditava ter descoberto todos os enlaces do suposto plano judaico de dominação mundial. Ele fala, por exemplo, da questão econômica:

Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital” – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.

O entendimento de Hitler sobre a economia marxista era mais ou menos assim: o judeu encenava que estava lutando a favor do proletariado e que colocaria a economia em suas mãos. Ao mesmo tempo desprezava nacionalidades, criando uma mentalidade internacionalista. A idéia era quebrar as fronteiras entre países para que quando o judeu, em qualquer país, dominasse a economia, tivesse facilidade de dominar a economia de outras partes do mundo, já que não nacionalidades não mais importam e a economia marxista deve ser uma só. A isso Adolf Hitler denominava “capitalismo internacional judaico”. Vejamos:

O que a chamada imprensa liberal fez antes da guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus.

Em outro trecho, Hitler repete a dose:

Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.

Ainda em outro trecho é possível ler:

Se a fúria dos aproveitadores internacionais em Versalhes se dirigia contra o antigo exército alemão é que este era o último reduto das nossas liberdades na luta contra o capitalismo internacional. Não fosse essa força ameaçadora, a Intenção de Versalhes se teria realizado muito antes. O que o povo alemão deve ao exército pode-se resumir nesta palavra: tudo.

Hitler também fala em seu livro sobre como entendia a atuação dos judeus na imprensa. O seu raciocínio, embora fantasioso, não deixa de ser interessante. Ele cria que os judeus criavam uma aparência de luta entre burgueses e proletários, a fim de sempre ter a imprensa em suas mãos. Assim, se qualquer das classes, por algum motivo, perdesse uma batalha política, isso não iria afetar o plano judaico, pois na derrota de uma a outra permanecia. Ele escreve:

A conduta dos representantes do governo [alemão] falhou […]. De quando em vez, quando gravemente ofendidos, eles punham no xadrez algumas víboras jornalísticas [marxistas] por algumas semanas, ou mesmo meses, mas deixavam sempre o seu ninho em paz.

Tudo isso era a conseqüência, por um lado, da tática astuciosa dos judeus e, por outro, da conselheira estupidez ou da ingenuidade do mundo oficial. O judeu era esperto bastante para não consentir que toda a sua imprensa fosse, ao mesmo tempo, manietada. Uma parte da mesma estava sempre livre para acobertar a outra. Enquanto os jornais marxistas, da maneira mais baixa, combatiam o que de mais sagrado poderia parecer aos homens, investiam, pelos processos mais infames contra o governo e açulavam grandes setores da população uns contra os outros, as folhas democrático-burguesas dos judeus davam a aparência da mais notável preocupação com esses fatos, concentravam todas as suas forças, sabendo exatamente que os imbecis só sabem julgar pelas aparências, e jamais são capazes de penetrar no âmago das coisas. É a essa fraqueza humana que os judeus devem a consideração em que são tidos.

Um trecho interessante que mais uma vez demonstra o viés esquerdista de Hitler, mesmo sendo antimarxista, é quando ele começa a falar sobre como acreditava que se deveria agir contra a imprensa judaica. Afirma:

Um dia virá em que o judeu gritará bem alto nos seus jornais, quando sentir que uma mão forte está disposta a pôr fim a esse vergonhoso uso da imprensa, pondo esse instrumento de educação a serviço do Estado, retirando-o das mãos de estrangeiros e inimigos da nação. Acredito que essa empresa, para nós jovens, será menos incômoda do que o foi aos nossos pais. Uma granada de trinta centímetros fala mais alto do que mil víboras da imprensa judaica.

Neste trecho, o esquerdismo de Hitler é latente. Seu pensamento segue o molde de todas as doutrinas de esquerda. A esquerda se define pelo pressuposto básico de que o homem é capaz de resolver a crueldade e as injustiças sociais através de alguma ferramenta. Essa ferramenta quase sempre é o governo, que deve receber o máximo de funções possíveis, a fim de conquistar essa meta. A crueldade e as injustiças, por sua vez, são sempre causadas por inimigos que precisam ser combatidos. Assim, em todo governo esquerdista, sempre há uma luta apocalíptica entre o governo e os “inimigos” do bem-estar social.

O que difere as várias doutrinas esquerdistas uma das outras é a visão que cada uma delas possui sobre quem são os inimigos do bem-estar social. Para marxistas, os inimigos são os burgueses, os líderes religiosos e os conservadores. Para Adolf Hitler, no entanto, os inimigos eram os judeus, os estrangeiros que residiam na Alemanha, os negros, os deficientes e todos os que se afastavam do “perfil ariano”.

Então, perceba que Hitler define os inimigos do bem estar social, apresenta a mão forte do governo como a grande solução para o problema e afirma que a nova imprensa estaria a serviço do Estado, o que nada mais é do que intervencionismo estatal, controle de empresas privadas e oposição ao livre mercado. Tudo isso “em prol” do bem estar social. Ora, isso é economia de esquerda pura!

A coisa vai ficando mais interessante na medida em que Hitler começa a apontar o socialismo pregado pelo marxismo como algo falso, que, na realidade, pretende fazer exatamente o inverso do que prega: fortalecer o capitalismo. Torna-se claro que Hilter é um socialista que deseja implantar o que ele julga ser o verdadeiro socialismo. Ele diz:

Doravante, só resta ao operário a tarefa de pelejar pelo futuro do povo judeu. Sem se aperceber, entra a serviço da potência que ele tem a ilusão de combater. Com a aparência de deixá-la atacar o capital, é que se pode melhor fazê-la lutar pelo mesmo. Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa e a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional.

O processo aí empregado pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

Apresentando-a inseparavelmente ligada a toda uma série de exigências sociais bem legítimas, vai ele favorecendo sua propaganda e, por outro lado, despertando a aversão da humanidade bem intencionada em satisfazer aquelas exigências, que, expostas da maneira por que o são, aparecem desde o inicio, como injustas, e mesmo de impossível realização.

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores.

Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de “doutrina”. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.

Essa doutrina pode ser julgada justamente pelos seus desvarios em matéria econômica e política. Todos os que, de fato, são inteligentes hesitam em entrar no seu séquito, e os outros, a quem falta suficiente atividade intelectual ou preparo econômico, precipitam-se ao seu encontro. O judeu, dentro de suas próprias fileiras, “sacrifica” o elemento inteligente ao movimento, pois mesmo semelhante movimento não se pode manter sem inteligência. Assim cria-se um verdadeiro movimento trabalhista, sob a chefia de judeus. Aparentam visar à melhora das condições dos operários, tendo na mente, porém, em verdade, a escravização e o aniquilamento de todos os povos que não são judeus.

Impressionante esse trecho! Hitler deixa claro que não critica o marxismo tanto por seu conteúdo, mas por sua mentira. Ou seja, Hitler está querendo dizer que concorda com as propostas sociais marxistas, mas que se opõe ao marxismo porque, segundo ele, tudo não passa de um embuste judaico para escravizar as nações. É como se Hitler estivesse dizendo: “Ei! Vocês não são socialistas de verdade! São exploradores do povo!”. Para Hitler era claro que o “socialismo” marxista não passava de capitalismo judeu. A análise que ele faz do panorama mundial da época leva em conta essa concepção.

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional.

Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos.

As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça.

Que Hitler era anticapitalista fica claro aqui. Ele não pretendia destruir todo o sistema capitalista, é verdade. Mas para ser anticapitalista não é necessário ter essa intenção. Basta encarar o capitalismo em seu estado puro como algo ruim e procurar domá-lo através do governo, intervindo intensamente na economia e engessando o livre mercado e a livre concorrência. É aquela velha retórica esquerdista de controlar o “capitalismo selvagem” em prol da sociedade.

Também fica claro aqui que a briga entre marxistas e nacional socialistas era, na verdade, uma disputa entre duas doutrinas de esquerda que almejavam o status de “verdadeiro socialismo”, acusando-se um ao outro de “capitalista”. Esse tipo de disputa dentro do próprio pensamento de esquerda sempre foi muito comum. Revolucionários franceses dividiram-se em jacobinos e girondinos; revolucionários russos dividiram-se em bolcheviques e mencheviques; revolucionários bolcheviques dividiram-se em stalinistas e trotskistas; stalinistas também passaram a fazer oposição aos fascistas (que tinham profundas raízes marxistas). E por aí vai. Nenhuma dessas disputas, contudo, mudou o fato de que todas essas visões são de esquerda.

Hitler continua a acusar o marxismo de ser um socialismo de fachada:

De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas, mas, em verdade, constituem um bloco único: o movimento dos políticos e o dos sindicatos. Esse último é um trabalho de aliciamento. Na dura luta pela existência, que o operário tem que enfrentar, devido à ganância e à miopia de muitos patrões, o movimento lhe propõe ajuda e proteção e a possibilidade de combater por uma melhora nas suas condições de vida. […].

Na mesma proporção, a chamada burguesia nacional, cega pelo dinheiro, põe os maiores obstáculos a essa luta pela vida, opondo-se contra todas as tentativas de abreviação do horário de trabalho, desumanamente longo, supressão do trabalho infantil, segurança e proteção da mulher, melhoramento das condições sanitárias em oficinas e moradias, etc.

O judeu, mais inteligente, toma a defesa dos oprimidos. Aos poucos, torna-se o chefe do movimento social. Isso lhe é fácil, pois não se trata, na realidade, de combater com boa intenção as chagas sociais, mas somente de selecionar uma tropa de combate, nos meios proletários, que lhe seja cegamente devotada na campanha de destruição da independência econômica do país. Enquanto a chefia de uma sã política social não aceitar firmemente estas duas diretrizes: conservação da saúde do povo e segurança de uma independência nacional no terreno econômico, o judeu na sua luta não só descurará completamente esses dois problemas, como fará de sua supressão uma verdadeira finalidade. Não deseja ele a conservação de uma economia nacional independente, mas, ao contrário, o seu aniquilamento.

Em conseqüência, não há escrúpulos de consciência que possam demovê-lo, como chefe do movimento proletário, de fazer exigências, não só exorbitantes, como praticamente irrealizáveis e próprias a acarretar a ruína da economia nacional. Não cogita ele de ver uma geração sadia e robusta, deseja somente um rebanho contaminado e apto a ser subjugado. Com esse desideratum, faz exigências tão destituídas de senso que sua realização (ele não o ignora) se torna impossível e não pode provocar nenhuma modificação do estado de coisas existente. Serve apenas para excitar a massa popular até ao desvario. Isso, porém, é o que ele quer e não a modificação para melhor da situação do proletariado.

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é como Hitler se coloca como um genuíno socialista em suas descrições, em oposição aos marxistas, que seriam, segundo ele, embusteiros. O segundo é como Hitler liga cuidadosamente um ponto ao outro. Enquanto ele monta um perfil do inimigo supremo da sociedade (o judeu), dando crédito as suas palavras através de uma análise minuciosa dos mecanismos de engano supostamente usados por este povo, prepara o campo para suas idéias de governo. O parágrafo subseqüente diz:

A chefia do judeu na questão social se manterá até o dia em que uma campanha enorme em prol do esclarecimento das massas populares se exerça instruindo-as sobre sua miséria infinita, ou até que o Estado aniquile tanto o judeu como sua obra. É claro que, enquanto durar a falta de perspicácia do povo, e o Estado se conservar indiferente como o tem sido até hoje, as massas seguirão sempre de preferência aquele, cujas promessas, de ordem econômica, forem as mais audaciosas. Nisso, aliás, o judeu leva a palma, pois nenhum escrúpulo moral entrava a sua ação.

Mais uma vez o esquerdismo de Hitler é patente aqui. Ele invoca o poder do Estado mais uma vez para esclarecer às massas sobre suas misérias e para aniquilar o judeu. O Estado não pode “se conservar indiferente como o tem sido até hoje”. A partir daí, Hitler começa a investir pesado na “justificação” de seu racismo. E ele vai tão longe que afirma que o objetivo do Estado é preservar a raça pura. Diz:

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais, Ela vê, no Estado, em princípio, apenas um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme à eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos.

O Estado como ferramenta para o novo mundo e a luta entre raças nos oferece o tom de esquerdismo do nacional socialismo. No marxismo temos classes sociais. No nazismo temos raças. Mas, no fim das contas, temos em ambas as visões de mundo uma polarização da sociedade e um conflito que deve ser travado para que se alcance uma sociedade reformada. Neste momento que entra a função do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães:

Mas a organização de uma concepção do mundo só pode efetuar-se duradouramente sobre a base de uma fórmula definida e clara. Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a Religião. Por isso, a concepção racista do mundo tem de tornar-se um instrumento que permita ao Partido as devidas possibilidades de luta, tal como a organização partidária marxista abre o caminho para o internacionalismo. Esse fim visa o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Estava demorando! Depois de fazer toda a análise do problema da sociedade, Hitler vem com a solução, claro! A solução estava em um partido forte, regido por princípios quase religiosos, que iria transformar o Estado em um verdadeiro Estado socialista. Não há nada original neste ponto. O elogio ao fascismo italiano segue os moldes do pensamento esquerdista:

[…] a perseguição da imprensa internacionalista, assim como o constante combate ao marxismo internacional, por outro lado a constante consolidação da doutrina fascista, habilitarão, no curso dos anos, o governo italiano a, cada vez mais, poder servir aos interesses do seu povo, sem receio da hidra judaica.

Veja o raciocínio de Hitler: lutar contra os marxistas era possibilitar o governo a servir aos interesses do povo. Por quê? Porque o marxismo era apenas socialismo de fachada, uma doutrina político-econômica judaica de dominação mundial. A análise de Hitler é extensa. Ele não cita apenas a Itália, mas vários países europeus, explicando que em cada país os judeus agiam de uma maneira diferente para conseguir seus objetivos, sempre de acordo com as características do país. Então, cita a Rússia, falando sobre o perigo do bolchevismo russo para o mundo. Conclui:

Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser.

Acredito que estes textos deixam bem claro que o antimarxismo de Adolf Hitler nem chega perto de colocá-lo na posição de direitista. A verdade é que Hitler era um esquerdista fervoroso, que considerava o Nazismo como o verdadeiro socialismo e o marxismo como uma doutrina judaica de dominação mundial, a qual ele freqüentemente denominava como capitalismo judaico internacional.

Um pequeno adendo           

Achei por bem colocar um adendo no fim desse artigo. Há pessoas que podem continuar insistindo que Hitler era antimarxista por ser direitista, baseando-se em alguns trechos de Mein Kempf que são apontados por esquerdistas como prova de que Hitler comungava de idéias básicas da direita. Eu gostaria de analisar pelo menos dois desses trechos, a fim de não deixar dúvidas sobre o esquerdismo de Hitler. Os dois trechos que escolhi me parecem ser os mais contundentes e acredito que a análise deles poderá servir de base para a análise de outros que o leitor poderá fazer por si próprio, quando ler o livro. O primeiro trecho é esse:

A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.

Alegam os esquerdistas que esse trecho é uma prova de que Hitler era de direita por três motivos. Em primeiro lugar, porque ele defende o “princípio aristocrático da natureza”, que seria um princípio no qual a direita acredita e a esquerda repele. Em segundo lugar, porque exalta o individualismo, criticando o marxismo por sua noção coletivista de sociedade. E, em terceiro lugar, porque exalta nacionalidades e raças, que é algo considerado conservador por quem é de esquerda.

Todos esses pontos, contudo, são falhos. Vamos começar pelo tal “princípio aristocrático da natureza”. O que viria a ser isso? Bem, para Hitler esse princípio tinha a ver com a alegação de que existem raças diferentes de homens e que algumas raças são superiores às outras. O pensamento fundamental de direita, no entanto, jamais defendeu uma sandice dessas. Embora seja verdade que muitos direitistas, ao longo da história, tenham sido racistas, tais concepções não passavam de opiniões pessoais que nada tinham a ver com a visão de mundo da direita. Até porque, ser racista independe de posição política. Pode-se ser tanto um direitista racista como um esquerdista racista.

O que a esquerda faz aqui é, na verdade, uma grande confusão. Ela confunde o “princípio aristocrático da natureza”, de Hitler, com o “princípio da diversidade natural”, este sim, defendido pelo pensamento de direita. Segundo tal princípio, os seres humanos nascem com diferenças de habilidades e, dentro dessas habilidades, há ainda quem seja melhor do que o outro. Isso é óbvio e não há preconceito nesta idéia. Por exemplo, em uma sala de aula nem todos são bons em química. Talvez, de 30 alunos, apenas 10 se dêem bem nesta matéria. E dentro destes 10, certamente há um ou dois que é melhor do que os outros. Isso vale para qualquer habilidade. É por isso que existem hierarquias, divisões de funções e até mesmo uma divisão desigual de riquezas. Não obstante, acreditar nisso não significa acreditar em raças naturalmente inferiores ou superiores.

Ironicamente, a idéia de usar o racismo dentro da política para criar grupos de conflito no mundo é uma idéia que encontra maior aporte na esquerda. Afinal, a direita rechaça a idéia de ver o mundo como uma enorme luta entre classes, ao passo que a esquerda se baseia nisso. Burgueses x Proletários; Religiosos x Ateus; Conservadores x Radicais; Brancos x Negros; Heterossexuais x Homossexuais; Machistas x Feministas; Pró-vida x Pró-escolha e etc. O mundo esquerdista é polarizado. Tem que haver um grupo oprimido, que precisa se proteger e se vingar, e um grupo opressor, que precisa ser combatido. O mundo direitista não tem grupos. Só indivíduos. Assim, o princípio de Hitler é apenas uma variação da mentalidade grupal (ou classista) da esquerda.

Quanto à questão da exaltação do individualismo, feita por Hitler, há aqui um paradoxo. Todos reconhecem que o Nacional Socialismo não foi uma doutrina que defendeu a liberdade individual. O simples fato de criar um objetivo único para todos é uma prova de que o regime não tinha a intenção de dar autonomia de pensamento ao indivíduo, mas pretendia controlar sua vida através do Estado. Então, o que será que Hitler quis dizer quando criticou o marxismo por negar o valor do indivíduo?

A explicação é simples. Hitler havia reparado que a doutrina marxista criava uma enorme massa amorfa de pessoas através da mistura de nacionalidades e culturas diferentes. Tudo se perdia nessa mistura, pois a doutrina enxergava a todos como apenas proletários. Raça, cultura, língua, hábitos e nacionalidade eram engolidos por essa massa proletária. Como Hitler era essencialmente nacionalista e racista, ele precisava fazer seus leitores se sentirem desconfortáveis em relação à maneira como o marxismo via as pessoas. O que ele faz? Primeiro, ele mostra como que o indivíduo não tem valor no marxismo, pois é apenas mais um proletário. Depois define o indivíduo em termos de nacionalidade, raça, cultura, língua e hábitos (tudo o que a massa amorfa do marxismo não levava em conta). Por fim, apresenta o nazismo como uma ideologia que valorizava o indivíduo, já que levava em conta o que o definia.

A mágica estava feita. Com essa retórica, Hitler conseguiu fazer as pessoas se sentirem valorizadas dentro do nazismo. Como, de fato, existe um senso muito maior de aproximação entre pessoas de mesma nacionalidade, cultura e etc., elas não se sentiam dentro de uma massa amorfa, mas dentro de uma grande família. Contudo, o suposto individualismo de Adolf Hitler é refutado em seu próprio texto. Observe esse trecho:

O Estado nacionalista racista tem que cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, em tudo em que reconhecer o valor da personalidade, e, assim, introduzir, em todos os campos de atividade, aquela produtiva capacidade de direção que só ao indivíduo é concedida.

Veja a contradição: Hitler fala em valorizar a personalidade, o indivíduo, mas deixa claro que isso é obrigação do Estado, bem como é sua obrigação cuidar do bem-estar dos cidadãos. Sabemos o que eles quer dizer com essas palavras. Sua intenção é se intrometer na vida dos cidadãos, através do governo, ditando aquilo que o Estado acha que é bom para o indivíduo. Isso nada mais é do que coletivismo! Individualismo é o Estado deixar o indivíduo por si próprio.

Com relação à defesa de nacionalidades e raças feitas por Hitler, mais uma vez, isso não é doutrina de direita. A direita acredita em diferenças de habilidades entre as pessoas (o que leva à existência de hierarquia) e no patriotismo, que é bem diferente de nacionalismo. O patriotismo é o amor pela nação, enquanto o nacionalismo é a criação de uma classe política nacional que se opõe às outras nações. E eu torno a dizer que tal visão classista é uma variante da mentalidade classista comum à esquerda.

O segundo trecho que quero analisar é este:

A ação destruidora do judaísmo em vários aspectos da vida do povo, deve ser vista como um esforço constante para minar a importância da personalidade nas nações que os acolhem e substituí-la pela vontade das massas.

Os esquerdistas alegam aqui que a esquerda sempre prega que o poder seja dado ao povo, ao passo que Hitler abominava isso. Seria esta uma prova de que ele não era de esquerda, mas de direita. Verdade seja dita, Hitler não pregava que o povo tomasse o poder. Mas isso, no máximo, fazia dele um esquerdista mais sincero que os outros neste ponto. Afinal, todos os líderes esquerdistas que prometeram dar o poder ao povo, se tornaram ditadores. Eles não se consideraram ditadores, claro. Eram “representantes” do povo. Mas o fato é que jamais se viu o próprio povo governar. E certamente todo líder sabe que, ao fim de uma revolução, alguém vai ter que tomar as rédeas do governo e receber poderes despóticos. Hitler apenas não fingiu que isso não ocorreria. Foi direto ao ponto: tem que haver um líder.

Isso só reforça seu esquerdismo. Para a direita, a idéia de colocar todo o poder nas mãos do governo, seja por meio de uma só pessoa ou de um só partido, é ridícula, extremamente ridícula. Lembremo-nos dos pais fundadores dos EUA, conservadores até os cabelos. Eles tinham um medo terrível do despotismo. Por isso projetaram uma nação federalista e com um governo central bem limitado. Lógico que os EUA não são mais assim há tempos! Mas eram. E eram porque seus fundadores eram direitistas.

Então, se um homem pretende dar ao Estado um poder ilimitado e se tornar o grande líder da nação, a fim de mudar os problemas do mundo, isso certamente não é nem um pouco conservador. Na verdade, é progressista. O conservador tem medo desse tipo de revolução insana e prefere sempre a prudência.

Esquerda: uma religião política

Texto meu (Davi Caldas) originalmente publicado no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

Experimente tentar defender qualquer assunto relacionado ao cristianismo ou à moral judaico-cristã dentro de uma universidade. O resultado, fatalmente, será uma tempestade de críticas de teor bem agressivo. Essa tendência de se enxergar a religião tradicional como uma pedra no sapato do mundo, um empecilho à ciência, um gerador de guerras e um elemento opressor da humanidade não é algo novo, mas se expande em alta velocidade desde que os iluministas começaram acreditar que ser humano é um ser altamente evolutivo e de natureza boa, que é plenamente capaz de criar um paraíso na terra com suas próprias mãos.

Esta perspectiva de alta fé no ser humano, advinda do humanismo e propagada aos quatro ventos pelos iluministas é um dos pilares do pensamento de esquerda (senão, o pilar). E, não é difícil observar como que essa perspectiva entra facilmente em oposição ao pensamento da religião tradicional. Afinal, o que se faz aqui é substituir a fé em um Deus supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo, pelo ser humano (sempre representado por uma classe específica de seres humanos), que também passa a ser supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo.

Então, o que vemos aqui é que a disseminação dessa fé descomunal no homem pelos iluministas acarretou em algo muito mais perigoso e letal do que poderia se tornar qualquer religião tradicional: a religião política (mais conhecida como esquerda). Essa religião, diferente da religião tradicional, jamais culpará a natureza do ser humano pelos problemas do mundo. No lugar disso, ela definirá bodes expiatórios que possam levar a culpa de toda a desgraça humana nas costas, e instigará o ódio a esses “culpados”, legi-timando todo o tipo de ação contra eles.

Para se ter ideia do quão perigosa é essa postura, só precisamos observar o que a religião política tem feito ao longo de sua história. Vamos utilizar dois exemplos bem conhecidos. O primeiro é o do comunismo, uma das várias vertentes da esquerda. O que o comunismo prega? Bem, segundo Karl Marx e Friedrich Engels (os fundadores da teoria), a história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. Essas lutas teriam ocorrido desde o início da humanidade entre “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”; e agora, estaria alcançando o seu apogeu com a burguesia e o proletariado.

Baseado nisso, o pensamento comunista entende que a culpa da sociedade ser desigual e viver em desarmonia é da burguesia. Afinal, é a burguesia que toma conta dos meios de produção e suga todo o lucro do trabalho do proletariado, que é formado pela maior parte da população. Assim, a riqueza da minoria depende da miséria da maioria. Como é na desigualdade que residem os males, o comunismo sustenta que a sociedade deixará de ser cruel quando o proletariado destruir a burguesia; não havendo mais antagonismos de classes, não haverá luta e não havendo luta, a sociedade será finalmente igual e pacífica (sem necessitar mais de Estado, inclusive).

Veja como todos os elementos da religião política são dispostos cuidadosamente na teoria de Marx e Engels:

(1) defini-se que o mal da sociedade não está na natureza humana;

(2) busca-se um bode expiatório para pôr a culpa desse mal (a burguesia);

(3) instiga-se o ódio aos “culpados”, pois eles não deixam o paraíso ser formado;

(4) legitima-se toda e qualquer ação contra os “culpados”, em prol de um bem maior e supremo, que será alcançado quando eles forem eliminados.

E qual foi a consequência desse pensamento, obviamente, utópico? Genocídios imensos causados pela União Soviética (de Lênin e Stálin), Camboja (de Pol Pot), China (de Mao Tsé Tung), Cuba (de Fidel Castro), além de terríveis perseguições, totalitarismo, opressão do povo e, finalmente, a não concretização do tal paraíso. Isso, claro, porque o mal reside no ser humano como um todo e não na burguesia.

O segundo exemplo vem do Nacional Socialismo alemão (que é chamado erroneamente de extrema-direita só porque foi anticomunista). Para Hitler, o problema do mundo não estava na natureza humana, mas sim nas “raças” e pessoas “inferiores”. O ser humano realmente bom, supremo, capaz, racional e evoluído era o homem ariano. Os demais eram apenas desviantes biológicos, que deveriam ser destruídos para que a terra retornasse ao seu rumo correto.

Mais uma vez é claro o uso das ideias da religião política (esquerda), baseada no humanismo. A única diferença do nazismo para o comunismo é que no lugar de culpar a burguesia, o nazismo culpou quem não era ariano. E o resultado? Milhões de judeus, negros, homossexuais e deficientes foram exterminados, e o extermínio, legitimado pela ideologia da religião política.

O grande problema da religião política é que ela encara o homem como Deus e culpa quem ela quer pelos problemas. Por isso qualquer ação pode ser legitimada. Ora, se um cristão faz algo ruim, como agredir um adversário, ele não é legitimado pela sua religião, pois a religião tradicional diz: “Ame o próximo” (Tiago 2:8); “todos são pecadores” (Romanos 3:9); “não há um justo sequer” (Romanos 3:10); “a vingança a Deus pertence” (Romanos 12:19); “quem nunca cometeu pecado (ou seja, ninguém) que atire a primeira pedra” (João 8:7). Ele está errado. A religião tradicional condena sua atitude. Deus condena sua atitude.

Mas se um religioso político agride um cristão, por exemplo, ele está certo. Está legitimado. Sob o esquerdista não pesa nenhuma culpa e ele não deve ser recriminado, afinal, ele está dando ao “culpado” pelos problemas do mundo o devido tratamento. O homem é o próprio Deus e por isso está sempre certo.

Por esse motivo é que podemos dizer que a religião política é a mais perigosa das religiões. Ela induz as pessoas a fazerem coisas irracionais como:

(1) depositar sua confiança em grandes líderes (isso também ocorre na religião tradicional, mas não por indução da Bíblia, pois ela deixa claro: “Maldito o homem que confia no homem” – Jeremias 17:5 – além de ensinar que só devemos acreditar em quem age conforme os princípios marais judaico-cristãos);

(2) crer que fazem parte de uma grande revolução que levará a humanidade a um paraíso na terra;

(3) criar bodes expiatórios para os problemas da humanidade e odiá-los;

(4) legitimar toda e qualquer ação contra esses bodes.

E não pensemos que agora, em pleno século XXI, estamos livres das ações da religião política. Como Adolf Hitler costumava dizer: “Uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”. As inúmeras mentiras da religião política estão por aí, moldando a cabeça das pessoas; sobretudo, nas universidades. Lá, boa parte dos professores é hostil ao cristianismo por crer na religião política e desejar que o ser humano possa ter a mesma autoridade e direito sobre as coisas que tem Deus na religião tradicional.

Mas quem questiona isso? O amigo leitor conhece muitas pessoas que critiquem a religião política com a mesma intensidade com que os religiosos políticos criticam a religião tradicional? Tenho certeza que não. A religião do momento é a religião política e enquanto ela estiver dominando a área acadêmica sem questionamentos (como tem sido), continuará espalhando suas mentiras genocidas. Lembre-se: o ser humano é Deus na religião política. O que quer que a esquerda queira fazer, será legitimada em todo o tempo por essa concepção.