Defendendo o Termo Islamofascismo

Por Christopher Hitchens. Publicado originalmente na revista Vanity Fair. Conteúdo em inglês retirado do site Slate.com, traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui. Comentários por Renan Felipe dos Santos.

hezbolah

A tentativa de David Horowitz e seus aliados de lançar uma “Islamofascism Awareness Week” nos campi universitários americanos provocou uma série de reações distintas. Uma delas é o desafio à validade do termo em si. É bem típico, em círculos acadêmicos esquerdistas, fugir de qualquer comparação entre a ideologia fascista e a ideologia jihadista. Pessoas como Tony Judt me escrevem para dizer que fazer isto é simplista e anacrônico. E em alguns círculos midiáticos, outro tipo de relutância é verificável: Alan Colmes acha que não deveríamos sequer usar o termo Islâmico para designar a jihad, porque fazê-lo é arriscar incriminar uma religião inteira. Ele e outros não querem taxar o Islã mesmo nas suas formas mais extremas com uma palavra tão hediondo quanto fascismo. Finalmente, vi e ouvi que argumentam que o termo é injusto ou preconceituoso porque não é aplicado a nenhuma outra religião.

Bem, a última afirmação certamente não é verdadeira. Já foi muito comum, especialmente na esquerda, adjetivar a palavra fascismo com o termo clerical. Isto para reconhecer o fato inegável de que, da Espanha à Croácia passando pela Eslováquia, havia uma ligação direta entre entre o fascismo e a Igreja Católica Romana. Mais recentemente, Yeshayahu Leibowitz, editor da Encyclopaedia Hebraica, cunhou o termo Judeo-Nazi para descrever os colonos messiânicos que se mudaram para a Cisjordânia ocupada após 1967. Então, não há necessidade de autopiedade entre muçulmanos por estarem “sozinhos nesta”.

Comentário: Hitchens comete vários erros na sua afirmação. Primeiro: o fascismo croata institui o Catolicismo E o Islamismo como religiões oficiais da Croácia, mas a sua Igreja Católica era Nacional e portanto não-romana por definição. A Igreja Católica Croata não tem relação institucional oficial com a Igreja sediada em Roma. Em coerência com o costume de Igrejas baseadas em Estados-nação, o fascismo croata posteriormente instituiria a sua Igreja Ortodoxa Croata. A mais famosa divisão islâmica da SS, a Handschar, é croata. A Igreja Católica Eslovaca também era ortodoxa de matriz grega, e não romana. Talvez reste um pouco de razão nas suas acusações aos católicos espanhóis, que são historicamente mais próximos do franquismo por uma questão pragmática: os republicanos espanhóis, opositores do franquismo, eram radicalmente anticlericais e não exitaram em persegui-los durante a Guerra Civil. 

O termo Islamofascismo foi usado pela primeira vez em 1990 no jornal britânico Independent, do escritor escocês Malise Ruthven, que estava escrevendo sobre o modo como as ditaduras árabes tradicionais usavam apelos religiosos para permanecer no poder. Eu não sabia disso quando empreguei o termo “fascismo com uma face Islâmica” para descrever o ataque à sociedade civil em 11 de setembro de 2001 e para ridicularizar aqueles que apresentavam o ataque como um tipo de teologia da libertação em ação. “Fascismo com uma face Islâmica” evoca o duplo eco tanto de Alexander Dubcek e Susan Sontag (se me permitem), e em qualquer caso, não pode ser usado para propósitos polêmicos cotidianos, então fica a pergunta: Bin Ladenismo ou Salafismo, ou como quer que chamemos, tem alguma coisa em comum com fascismo?

Eu acho que sim. Os pontos mais óbvios de comparação seriam estes: ambos os movimentos são baseados no culto da violência homicida que exalta a morte e a destruição e despreza a atividade intelectual. (“Morte ao intelecto! Vida longa à morte!” como dizia energicamente o acólito do Gen. Francisco Franco, Gonzalo Queipo de Llano.) Ambos são hostis à modernidade (exceto quando se trata de buscar armas) e ambos são cruelmente nostálgicos por impérios passados e glórias perdidas. Ambos são obcecados por “humilhações” reais e imaginárias e sedentos de vingança. Ambos são cronicamente infectados com a toxina da paranóia anti-judaica (interessantemente, também seu irmão caçula, a paranóia anti-maçônica). Ambos são inclinados ao culto ao líder e a ênfase exclusiva no poder de um única grande livro. Ambos tem um forte compromisso com a repressão sexual —especialmente com a repressão de qualquer “desvio” sexual — e com as suas contrapartes a subordinação da mulher e o desprezo pelo feminino. Ambos desprezam a arte e a literatura como sintomas de degeneração e decadência; ambos queimam livros e destroem museus e tesouros.

Comentário: Resumindo, são antimodernistas e antiocidentalistas típicos. Este tipo de ideologia é magistralmente descrito no livro Ocidentalismo, de Avishai Margalit e Ian Buruma. Exemplos deste puritanismo antimodernista podem ser encontrados em qualquer vertente socialista ligada à religião.

Fascismo (e Nazismo) também tentaram falsificar o sucesso passado do movimento socialista usando apelos populistas e pseudo-socialistas. Tem sido muito interessante observar ultimamente o modo como a Al-Qaeda tem falsificado e reciclado a propaganda dos movimentos verdes e anti-globalistas.

Comentário: fascismo e nacional-socialismo não tentaram falsificar o socialismo internacionalista dos bolcheviques e social-democratas em ascensão no século XX, e portanto não são um tipo de “pseudo-socialismo”. Eles defenderam uma vertente nacionalista do socialismo que já se espalhava pela Europa desde o final do século XIX, e que foi fundamentada por socialistas do porte de Georges Sorel e Werner Sombart.

Não há uma congruência perfeita. Historicamente, o fascismo deu grande ênfase na glorificação do Estado-nação e da estrutura corporativa. Não há muito da estrutura corporativa no mundo muçulmano, onde as condições frequentemente se aproximam mais do feudalismo do que do capitalismo, mas o conglomerado empresarial de Bin Laden é, entre outras coisas, uma gigantesca corporação multinacional com algumas ligações no mercado de capitais. Com relação ao Estado-nação, a Al-Qaeda exige que países como Iraque e Arábia Saudita sejam dissolvidos em um grande e revivido califado, mas isto não tem pontos em comum com o esquema da “Grande Alemanha” ou com o sonho de Mussolini em reviver o Império Romano?

Comentário: Hitchens pisa na bola feio ao comparar o corporativismo fascista com a concepção moderna de corporação. O termo corporação dentro da ideologia fascista remonta ao uso pré-capitalista do termo e em geral descreve as corporações de ofício, associações socialistas de trabalhadores e produtores. Não tem relação com o conceito moderno que se faz do termo para descrever grandes empresas capitalistas: neste modelo de gestão não há um “proprietário” da empresa. Este é um modelo produtivo tipicamente pré-capitalista e portanto o lugar certo para se desenvolver é justamente em países cujo grau de desenvolvimento é comparável ao “feudalismo”. 

Tecnicamente, nenhuma forma do Islã prega a superioridade racial ou propõe uma raça mestra. Mas na prática, fanáticos islâmicos pregam um conceito fascista de “pureza” e “exclusividade” sobre o impuro e o kafir ou profano. Na propaganda contra o Hinduísmo e a Índia, por exemplo, pode-se ver algo muito próximo à intolerância. Em respeito aos judeus, é claro que os representam como uma raça inferior ou impura (motivo pelo qual muitos dos extremistas muçulmanos gostam do grão mufti de Jerusalém e sua proximidade a Hitler). Na tentativa de destruir o povo de Hazara no Afeganistão, que são etnicamente persas e religiosamente xiitas, havia também uma forte sugestão de “limpeza”. E, é claro, Bin Laden ameaçou usar a força contra forças de pacificação da ONU que ousassem interromper a campanha genocida contra os afro-muçulmanos levada a cabo por seus amiguinhos sudaneses em Darfur.

Isto torna permissível, me parece, mencionar os dois fenômenos concomitantemente e sugerir que eles constituem ameaças comparáveis à civilização e aos valores civilizados. Há um último ponto de comparação, um que é de certa forma encorajador. Ambos os sistemas totalitários de pensamento evidentemente sofrem de um desejo pela morte. Certamente não é um acidente que ambos enfatizem táticas suicidas e fins sacrificiais, uma vez que ambos prefeririam obviamente ver a destruição de suas sociedades do que firmar qualquer compromisso com infiéis ou diluir as suas próprias ortodoxias doutrinárias absolutas. Então, assim como temos um dever de opor e destruir estes e quaisquer outros movimentos totalitários similares, podemos ter certeza de que eles desempenharão um papel inconsciente na sua própria destruição, também.

Comentário: Nenhuma forma do Islã prega supremacismo racial como nenhuma forma do Cristianismo pregou supremacismo racial. O fascismo islamista não é islâmico como o fascismo catolicista não é católico. É uma doutrina política com uma pintura religiosa, mas que tem pouco da essência religiosa. Na Europa como no mundo árabe, a politização do anti-semitismo foi levada a cabo pelo nacional-socialismo e, se hoje ainda existe, é porque a sua influência permaneceu no tempo da Guerra Fria:  o fascismo islâmico não é um novo movimento político endêmico dos países árabes, ele é a continuação do nacional-socialismo que se instalou nesta região durante a Segunda Guerra Mundial. Basta pesquisar a origem do anti-semitismo em doutrinas como o ba’athismo (assadista ou saddamista) e o nasserismo para chegar a esta conclusão. Se você quer nomes de pessoas-chave neste processo, além do já mencionado grão-mufti de Jerusalém Haj Amin Al-Husseini, pesquise sobre os oficiais nazistas em atuação no pós-guerra Otto Erns Remer e Johan von Leers.


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Feliz Páscoa

Hoje é um dia muito importante para a fé cristã, é o dia em que Jesus Cristo teria vencido a morte há quase 2000 mil anos atrás e assim libertou a humanidade de seus pecados. Mas com o passar dos anos as pessoas esqueceram o verdadeiro significado da páscoa, que é justamente o do renascimento, mudar ou melhorar e não apenas mais um feriado para se trocar lembrancinhas e realizar banquetes com ovos de chocolate na sobremesa.

A páscoa cristã tem sua origem em rituais pagãos e na páscoa judaica que vem do hebraico pessach, que significa passagem. Os judeus relembram e comemoram a êxodo para a Terra Prometida e a bíblia judaica institui o pessach em Êxodo 12, 14: Conservareis a memória daquele dia, celebrando-o como uma festa em honra de Adonai: Fareis isto de geração em geração, pois é uma instituição perpétua.

A última ceia de Jesus Cristo com seus discípulos como é descrita nos Evangelhos, é geralmente considerada um “sêder do pessach”  que é a refeição ritual que acompanha a festividade judaica, se nos ativermos à cronologia proposta pelos Evangelhos sinópticos. Já o Evangelho de João remete a outra cronologia, essa situa a morte de Jesus Cristo por volta da hecatombe dos cordeiros do pessach, sendo assim a última ceia teria acontecido antes da festividade.

A páscoa como conhecemos hoje está cheia de símbolos e não é por acaso. O coelho é um desses símbolos na verdade é símbolo de fertilidade  e os ovos representam a luz solar (renascimento), mas para entender a atual páscoa cristã é necessário entender os antigos povos anglo-saxões da Idade Média. Eles nesse período do ano homenageavam a deusa da primavera  Ostera ou Esther, que Easter em inglês significa páscoa. Ostera é representada segurando um ovo e com um coelho pulando ao redor dela, o ovo que ela segura representa uma nova vida e o coelho à fertilidade.

Desejo uma feliz páscoa a todos, mesmo a quem não é cristão, pois o real significado da páscoa é buscar uma vida nova, uma vida melhor.

Sete razões para não temer os muçulmanos

Nota de 27/01/2017: Este artigo foi escrito 4 ou 5 anos ANTES da crise migratória européia (2016-?) e, portanto, não leva em consideração a imigração massiva de países muçulmanos para a Europa. A assimilação pacífica da comunidade muçulmana aos países europeus e americanos só foi possível em séculos anteriores porque esta migração se dava de maneira individual e paulatina, não massiva e repentina como vem ocorrendo nos últimos anos. Sobre o caráter islâmico (ou não) do terrorismo, o autor em breve publicará uma revisão deste artigo.


1 – O terrorismo “islâmico” não existe
Yuri Bezmenov, dissidente do serviço secreto soviético, já explicava isso décadas atrás: “Believe me please, there was no grass, no root, no revolution, and least of all Islam. There is no such thing as an Islamic revolution. Revolution has nothing to do with Islam. There is no such thing as Islamic terrorists. (Em negrito: “Não há revolução islâmica. Revolução não tem nada a ver com Islã. Não existem terroristas islâmicos.”)

Diversos líderes de movimentos africanos, indianos, árabes e sul-americanos de “libertação nacional” foram treinados por oficiais da própria KGB (no caso dos sul-americanos, em Cuba) em seus centros de formação de líderes políticos durante a Guerra Fria. Eestes mesmos líderes levaram adiante guerras civis, golpes e revoluções armadas de todo tipo a seus países de origem para desestabilizar os regimes e, se possível, instalar um governo socialista alinhado com o Kremlin.

Hoje, membros destes mesmos grupos “islâmicos” operam redes internacionais de terrorismo. Portanto, é mais fácil traçar a origem dos terroristas “islâmicos” até a KGB ou a CIA do que ao Corão.

2 – Religião islâmica e lei islâmica não são sinônimos
Dos aproximadamente cinquenta Estados de população majoritariamente islâmica, apenas 6 são Estados islâmicos. E destes seis, dois são aliados dos EUA (Arábia Saudita e Paquistão). Outros doze tem o islamismo como religião oficial. Vinte são Estados seculares.

Dos estados do mundo, cerca de 14 adotam leis religiosas. Dentre estes, os mais conhecidos são o Irã, a Arábia Saudita, o Iêmen e o Vaticano. O mais poderoso destes, em relação ao Oriente Médio e toda a Liga Árabe, é a Arábia Saudita, país que mantém sólidas relações comerciais e diplomáticas com os EUA.

3 – Muçulmanos são tão diversos quanto os cristãos
Assim como entre os cristãos, há diferentes denominações muçulmanas.

A maior delas é o Sunni (sunitas). É considerada a versão “ortodoxa” da religião. Os sunitas acreditam que após a morte de Maomé, o novo líder religioso seria eleito e não um descendente, parente ou indicado do profeta Maomé. Possui quatro escolas de pensamento: Hanafi, Maliki, Shafi’i e Hanbali. Há uma quinta, ultra-ordoxa, a Wahabbi.

Os sunitas acreditam na autoridade religiosa da razão e da legalidade.

Os xiitas são a segunda maior denominação muçulmana. Compoem de 10 a 20% da população muçulmana mundial. Creem na infalibilidade do Imam (seu líder religioso) – descendente de Ali, o sucessor de Maomé na liderança dos muçulmanos.

Os xiitas acreditam na autoridade religiosa hereditária e divina.

Além dos sunitas e xiitas, há os sufis, os ahmadiyya, os ibadi, os coranistas, etc.
Some a isso as culturas locais de povos que vão desde os africanos do Mali até os indonésios passando pelos turcos, persas e uigures.

Diferenças entre culturas: tártaras em trajes típicos, uma albanesa votando e iranianas comprando cosméticos e maquiagens.

4 – Os muçulmanos são bons de negócio

Reformas: Metade das economias no mundo árabe reformaram suas regulamentações em termos de negócio nos anos de 2009 e 2010, mais do que na América Latina e no Caribe.[1]

Liberdade econômica: De acordo com o ranking da Heritage de liberdade econômica, Irã, Turcomenistão, Mauritânia, Iêmen, Indonésia, Marrocos, Jordânia e Catar apresentaram melhorias.

Bahrain e Catar fazem parte dos países majoritariamente livres (score entre 79.9 e 70)

Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Turquia, Marrocos, Quirguistão, Malta, Arábia Saudita e Líbano fazem parte dos países moderadamente livres (grupo que inclui Israel, Coréia do Sul e África do Sul).

Azerbaijão, Egito, Tunísia, Iêmen, Paquistão, Tadjiquistão, Bangladesh, Mauritânia, Indonésia e Mali se encontram no grupo majoritariamente reprimido. Fazem parte deste grupo membros do BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China).[2]

Desenvolvimento econômico: A Liga Árabe, composta por países muçulmanos em maioria, é a 6ª organização com maior PIB, estando à frente da Rússia. Em termos de PIB per capita, está à frente da China e da Índia. A mesma mantém relações comerciais com a União Africana, a União Européia, os Estados Unidos, a China e a UNASUL.

Direitos de propriedade: Com relação à defesa dos direitos de propriedade, os países do norte da África e do Oriente Médio (muçulmanos em sua maioria) estão melhores do que a América Latina e Caribe. De acordo com o International Property Rights Index de 2011, a região Norte da Áfica e Oriente Médio tem uma média de 5.7, superando os 5 pontos da América Latina e Caribe.[4]

Comparando-se o PIB per capita, o “mundo islâmico” não se sai tão mal quando comparado com os países do BRIC:

Os países mais próximos do roxo são os com o mair PIB per capita. Em comparação com os BRICS, o mundo islâmico não está muito atrasado, inclusive contando com membros excepcionais que se aproximam mais dos níveis europeus.

Com relação ao IDH, muitos países tipicamente muçulmanos são mais desenvolvidos do que os tais BRICs. A Rússia é o membro do BRIC com o maior IDH (0.755), e está atrás da Líbia (0.760) que é o 6º país muçulmano num ranking de IDH. À frente da Líbia ainda está o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrain, o Catar e o mais desenvolvido deles, os Emirados Árabes Unidos com invejáveis 0.855. Para se ter uma idéia, o IDH do Brasil (2º entre os BRICs) é de 0.718 e o da Índia (menor entre os BRICs) é de 0.547. [5]

Vale lembrar que um dos maiores parceiros comerciais dos EUA no mercado de Petróleo é a Arábia Saudita. [6]

5 – Judaísmo, cristianismo e islamismo são parentes
Judaísmo, cristianismo e islamismo fazem parte de um mesmo grupo de doutrinas religiosas. São as chamadas religiões abrâmicas (relativo a Abraão). Abraão é o profeta que “faz a liga” entre estas três religiões.

Ainda que elas tenham grandes diferenças entre si, há também pontos em comum. O deus, por exemplo, é o mesmo. O deus dos judeus é o mesmo deus dos cristãos e o mesmo deus dos muçulmanos. A palavra “Allah” vem do árabe e significa simplesmente “deus”.

Abraão. Pintura de József Molnár.

Basicamente, os muçulmanos não afirmam que judaísmo ou cristianismo são religiões falsas. Na concepção muçulmana, estas religiões estão ligadas ao islamismo. Os muçulmanos usam a expressão “adeptos do livro” ou “seguidores do livro” para referir-se a judeus e cristãos. Mas porque não usam a palavra “infiel”? Por que consideram que há três livros sagrados, revelados progressivamente: o primeiro é a Torá, o segundo é a Bíblia (no caso, o Novo Testamento) e o terceiro é o Corão.

Os muçulmanos não aceitam Jesus como filho de Deus, mas o aceitam como profeta e duvidam da sua morte carnal afirmando que ele ascendeu aos céus diretamente para a presença de Allah. Jesus é considerado um profeta do Islã, como é Maomé. O motivo pelo qual os muçulmanos dão tanta atenção a Maomé é porque ele é considerado nesta religião o último profeta a receber revelações diretamente de Allah. A crença é de que Allah tenha ditado o livro sagrado (Corão) para Maomé ao longo de um período de 23 anos nas peregrinações entre duas cidades (Medina e Meca).

O que o Islã condena não é o judaísmo ou o cristianismo, mas o politeísmo e o ateísmo (a palavra “infiel” se refere a quem não é adepto dos livros sagrados).

Outras coisas que podemos constatar: a proibição do consumo da carne de porco e a cultura de cobrir a cabeça das mulheres vem desde o judaísmo. Ainda hoje, judeus e muçulmanos não comem carne de porco – algo comum para cristãos. Judias ortodoxas cobrem a cabeça até hoje. Entre as cristãs, o costume de cobrir a cabeça ficou restrito às freiras, não sendo imposto às cristãs leigas.

As três religiões abrâmicas tinham a cultura do véu. Com o tempo, o costume do uso foi sendo abandonado por correntes do judaísmo, e entre os cristãos o seu uso acabou restrito a freiras e irmãs. Entre a maioria dos muçulmanos esta cultura resiste. Em países como a Albânia e a Turquia, o uso varia conforme as tradições familiares.

Tanto cristianismo quanto o islamismo são religiões expansionistas, o que significa que ambas buscam expandir o número de fiéis através da conversão. Longe de serem ideologias destrutivas ou xenofóbicas, elas buscam a assimilação e são universalistas.

A julgar que, historicamente, entre os cristãos católicos e protestantes já houveram grandes e violentos conflitos que acabaram posteriormente sendo esquecidos para dar lugar à convivência pacífica sob o princípio do ecumenismo, não é difícil conceber que se possam conciliar as três religiões abrâmicas como outrora foi feito na Espanha moura, durante o período conhecido como La Convivencia.

6 – O que muçulmanos vestem, comem ou fazem não é da nossa conta

É tão simples quanto poderia ser: cada cultura tem seus códigos de etiqueta, sua culinária, sua música e claro, seu código alimentar e de vestuário. O fato de nós ocidentais termos mais liberdade em vestir o que nos convém não indica que há algo no hijab, niqab ou na burqa que os torne intrinsecamente ruins e opressores.

Escoceses usam kilt, árabes usam dishdasha. Problem?

Devemos entender que para a maioria das mulheres muçulmanas, vestir-se do modo como se vestem é normal, digno e belo. Dentro da cultura ocidental, com o regimento das leis, estas mulheres tem o direito de recusar o uso dos mesmos, mas obrigá-las a tirar (como foi feito na França) é uma tirania. Se somos pela liberdade, não podemos jamais admitir que o governo dite o que um cidadão deve ou não deve vestir.


O mesmo vale para a alimentação. Muçulmanos, assim como os judeus, não comem carne de porco porque ela vai contra um código alimentar instituído pela religião e pela tradição. No caso dos judeus, é o kashrut e no caso dos muçulmanos, é o halal. Para os muçulmanos, a carne precisa ser preparada de um modo especial para que possa ser consumida (halal = permitido), do contrário ela não pode ser consumida por um muçulmano (haram = proibido). Isto significa que para atender a um consumidor muçulmano ou judeu, certas regras e padrões culturais devem ser atendidos no preparo das refeições. É um direito do consumidor escolher não consumir os produtos que vão contra a sua crença religiosa, e isso é de fundamental importância.

Por último, mas não menos importante, é a questão da política e da religião. Por mais que as leis dos países islâmicos possam nos ser estranhas (sobretudo naqueles onde a Sharia é a lei), temos que entender que as leis serão estranhas para nós em qualquer sistema político diferente daquele que estamos acostumados.

Nós ocidentais temos padrões ocidentais e leis que seguem escolas de pensamento ocidentais. Os muçulmanos, que são africanos, orientais e asiáticos em sua maioria, não seguem os mesmos padrões que nós. Os sistemas políticos que se desenvolveram nestas culturas está adaptado a elas e foi desenvolvido e mantido por elas. Cabe a elas decidir quando, como e o que mudar.

Amamos a democracia e a liberdade de expressão e culto, e devemos assegurá-la sobretudo aqui nas Américas ou na Europa, mas não temos nem o dever e nem o direito de querer impor nossos sistemas na “casa” dos outros. Contanto que a democracia, o rigor da lei, a liberdade e a propriedade estejam asseguradas no Ocidente – para os muçulmanos que aqui vivem, inclusive – estaremos com nosso dever cumprido. Antes de nos preocuparmos com o que se passa lá, temos que dar especial atenção aos valores que cultivamos aqui: liberdade de culto, liberdade de expressão, liberdade de escolha.

7 – Eles estão entre nós
Na Europa: Dentro da Europa, as tradições islâmicas são encontradas sobretudo em territórios que já estiveram sob administração do Império Otomano, como os balcãs, e no tartaristão (Federação Russa). A península ibérica também já foi islâmica, tendo sido reintegrada à Cristandade durante a Reconquista.

Na Albânia, o congresso muçulmano sediado na capital (Tirana) rompeu com o Califado em 1923, estabelecendo uma nova forma de culto, banindo a poligamia e instituindo o uso do véu para as mulheres em público.

Na Polônia, as tradições sunitas tártaras foram preservadas. Isto levou à formação de uma distinta cultura muçulmana na Europa Central, na qual elementos da ortodoxia muçulmana misturaram-se à tolerância religiosa de uma sociedade relativamente liberal. Os tártaros polacos são considerados um exemplo de sucesso na integração sócio-cultural com a sociedade cristã.

1 – uma pequena mesquita na Polônia. 2 – a grande mesquita Qolşärif em Kazan, capital do Tataristão. 3 – Um casamento tártaro. Os tártaros são um povo majoritariamente muçulmano que vive na Rússia, na Ucrânia e na Polônia.

Entre os europeus, acredita-se que esteja emergindo uma nova ramificação do islã que combina os princípios e deveres desta religião com valores da Europa pós-iluminista como direitos humanos, o estado de direito, a democracia e a igualdade entre homens e mulheres.

Acredita-se que a população muçulmana na Europa hoje seja superior a 53 milhões, mais de 7% da população. Em alguns países europeus esta proporção é ainda maior: Bulgária, Montenegro e Rússia tem entre 10% e 20% de população muçulmana. O Chipre, entre 20% e 30%. Macedônia, entre 30% e 40%, Bósnia e Herzegóvina entre 40% e 50%, na Albânia são entre 80% e 90%, e em Kosovo chega a 95%.

Nos Estados Unidos: Entre os anos de 1880 e 1914, milhares de muçulmanos migraram do Império Otomano para os Estados Unidos, assimilando-se à sociedade. Graças à imigração, a conversão e altas taxas de natalidade, os Estados Unidos viram a sua população muçulmana crescer muito nos séculos XX e XXI. Só em 2005, o número de novos residentes muçulmanos legais nos estados unidos foi de aproximadamente 96.000: mais do que em qualquer ano das duas décadas anteriores.

O seriado “All-American Muslim” foca no dia-a-dia de americanos muçulmanos.

A mais duradoura comunidade muçulmana incorporada à sociedade norte-americana é a dos bósnios, que em 1906 criaram a Džemijetul Hajrije (Jamaat al-Khayriyya), uma organização de serviços sociais para muçulmanos bósnios. Os muçulmanos bósnios também abriram a primeira escola dominical muçulmana com currículos e literatura muçulmana. A primeira organização muçulmana em Nova Iorque, a Sociedade Maometana Americana, foi fundada em 1907 por tártaros Lipka da região de Podlasie (Polônia). Em 1915 foi fundada aquela que provavelmente é a primeira mesquita americana, por muçulmanos albaneses em Biddeford, Maine. Um cemitério muçulmano ainda existe lá. E esta história se arrasta pelo século seguinte.

O número estimado de muçulmanos vivendo nos EUA hoje é de 2,6 milhões – menos de 1% da população.

Centro Islâmico da América em Dearborn, Michigan

No Brasil: A imigração árabe no Brasil tem início com a chegada de imigrantes árabes que começaram a desembarcar no País em fins do século XIX. No início do século XX, esse fluxo imigratório cresceu e passou a se tornar importante. Um fator predominante foi a Primeira Guerra Mundial, que acelerou a imigração de pessoas que viviam no Império Otomano. Outros conflitos que causaram aumento na imigração de muçulmanos foram as guerras no Oriente Médio (Guerra do Líbano, conflitos entre árabes e israelenses, conflitos no Iraque).

Porém, a imigração de muçulmanos para o Brasil é muito anterior. Muitos dos negros escravizados na África e trazidos para o Brasil já eram muçulmanos. A chamada Revolta dos Malês de 24 a 25 de janeiro de 1835, ocorrida na cidade de Salvador, foi uma sublevação de escravos africanos de religião islâmica. “Malê” era o termo que se utilizava para referir-se aos escravos muçulmanos.

Atualmente, 15 milhões de brasileiros possuem ascendência árabe. A maioria é de origem libanesa, enquanto o restante é, predominantemente, de origem síria. O Islã no Brasil conta com 27.239 seguidores, segundo dados do censo demográfico de 2000 do IBGE. Porém, algumas instituições islâmicas brasileiras consideram que o número de seguidores é muito superior a isso. A Federação Islâmica Brasileira defende que há cerca de 1,5 milhão de fiéis do Islã no país.

Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, em Foz do Iguaçu, Paraná. A cidade abriga a maior comunidade muçulmana do Brasil.

Na cidade de São Paulo existem cerca de dez mesquitas, dentre as quais a Mesquita Brasil, na Avenida do Estado (centro da cidade) – cujas obras de construção começaram em 1929 e que foi a primeira mesquita edificada na América Latina.

No mundo: Somos praticamente 7 bilhões. Cristãos são entre 1,9 e 2,1 bilhões – ou seja, de 29% a 32% da população do mundo. Os muçulmanos são cerca de 1,57 bilhões – de 20 a 25%. Com toda essa gente, é melhor arranjar uma maneira de conviver. Para isto, existe o que chamamos de diálogo inter-religioso. Com relação à Igreja Católica, já existe uma iniciativa de diálogo entre católicos e muçulmanos: em 2008 reuniram-se no Vaticano autoridades religiosas católicas e islâmicas para um diálogo inter-religioso, e há uma iniciativa para que esta cúpula seja permanente. A primeira cúpula produziu um documento que afirma um compromisso mútuo de incentivo à tolerância. O mesmo pode ser lido em inglês aqui.

Não fuja do conflito: Talvez você tenha vizinhos muçulmanos, ou já os tenha visto caminhando nas ruas da sua cidade. É possível que você passe pela frente de centros muçulmanos sem nem perceber. Para vencer as barreiras impostas pela caricaturização típica da propaganda de guerra com que somos bombardeados diariamente, é necessário conhecer “o inimigo”. Ouse ler o Corão, permita-se conversar com muçulmanos, visite um centro islâmico. Você verá que mais do que diferenças, há muitas semelhanças entre você e eles: a valorização da família, um senso de responsabilidade, um desejo forte de ascender na vida honestamente, a dedicação aos estudos, etc. Encerro este artigo com uma citação de Chesterton:

A Bíblia nos manda amar nosso próximo, e também nossos inimigos; provavelmente porque eles são, geralmente, a mesma pessoa.

– G. K. Chesterton