Utopia de um Homem que está Cansado

Por Jorge Luis Borges. Tradução do espanhol para o português por Renan Felipe dos Santos. Neste conto fantástico, o autor argentino Jorge Luis Borges propõe um futuro hipotético, sem memória, sem propriedades, sem indústria. Neste futuro pitoresco não há espaço para metrópoles, famílias ou imprensa: é uma distopia perdida em meio a uma amnésia coletiva. Leitura recomendada.

«Chamou-a utopia, voz grega cujo significado é não existe tal lugar.»
-Quevedo-

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Não há dois cerros iguais, mas em qualquer lugar da terra a planície é só uma e a mesma. Eu ia por um caminho da planície. Perguntei-me sem muita curiosidade se estava em Oklahoma ou Texas, ou na região que os literatos chamam o pampa. Nem à direita nem à esquerda vi um alambrado. Como outras vezes, repeti devagar estas linhas, de Emilio Oribe:

“Em meio à pânica* planície interminável.
E próximo ao Brasil,
que vai crescendo e se agrandando”

O caminho era desparelho. Começou a cair a chuva. A uns duzentos ou trezentos metros vi a luz de uma casa. Era baixa e retangular e cercada de árvores. Abriu-me a porta um homem tão alto que quase me deu medo. Estava vestido de cinza. Senti que esperava alguém. Não havia fechadura na porta. Entramos em uma peça grande com as paredes de madeira. Pendia do forro uma lâmpada de luz amarelenta. Estranhei a mesa, por alguma razão. Na mesa havia uma clepsidra, a primeira que vi, além de uma gravura em aço. O homem me indicou uma das cadeiras.

Ensaiei diversos idiomas e não nos entendemos. Quando ele falou, fê-lo em latim. Juntei minhas já remotas memórias de secundarista e me preparei para o diálogo.

-Pela roupa -disse-me-, vejo que chegas de outro século. A diversidade das línguas favorecia a diversidade dos povos e das guerras; a terra regressou ao latim. Há quem tema que volte a se degenerar em francês, em limosino ou em papiamento, mas o risco não é imediato. Aliás, nem o que foi nem o que será me interessam.

Não disse nada. O homem acrescentou:
-Se não te desagrada ver outro comendo, queres me acompanhar?

Notei que ele percebia minha inquietação e disse que sim.

Atravessamos um corredor com portas laterais, que dava para uma pequena cozinha onde tudo era de metal. Voltamos com a janta em uma bandeja: tigelas com flocos de milho, um cacho de uvas, uma fruta desconhecida cujo sabor me lembrou o do figo, e uma grande jarra de água. Acho que não havia pão. Os traços de meu anfitrião eram agudos e havia algo de singular em seus olhos. Não esquecerei este rosto severo e pálido que não voltarei a ver. Não gesticulava ao falar.

Travava-me a obrigação do latim, mas finalmente lhe disse:

-Não te assombra minha súbita aparição?

-Não -respondeu-, tais visitas ocorrem de século em século. Não duram muito; o mais tardar estarás amanhã em tua casa.

A certeza de sua voz me bastou. Julguei prudente me apresentar:

-Sou Eudoro Acevedo. Nasci em 1897, na cidade de Buenos Aires. Tenho já setenta anos. Sou professor de literatura inglesa e americana e escritor de contos fantásticos.

-Lembro de ter lido sem desagrado -respondeu- dois contos fantásticos. As Viagens do Capitão Lemuel Gulliver, que muitos consideram verídicas, e a Suma Teológica. Mas não falemos de fatos. Ninguém mais se importa com os fatos. São meros pontos de partida para a invenção e o raciocínio. Nas escolas nos ensinam a dúvida e a arte do esquecimento. Sobretudo o esquecimento do pessoal e local. Vivemos no tempo, que é sucessivo, mas tratamos de viver sub specie aeternitatis**. Do passado conservamos alguns nomes, que a linguagem tende a esquecer. Eludimos as precisões inúteis. Não há cronologia nem história. Não há estatísticas, tampouco. Disseste que te chamas Eudoro; não posso te dizer como me chamo, porque me chamam alguém.

-E como se chamava teu pai?

-Não se chamava.

Em uma das paredes vi uma estante. Abri um volume ao acaso; as letras eram claras e indecifráveis e traçadas à mão. Suas linhas angulares me recordaram o alfabeto rúnico, que, no entanto, só se empregou para a escrita epigráfica. Pensei que os homens do porvir não só eram mais altos senão mais destros. Instintivamente olhei os dedos longos e finos do homem.

Este me disse:

-Agora verás algo que nunca viste.

Estendeu-me com cuidado um exemplar da Utopia de Morus, impresso em Basiléia no ano de 1518 e do qual faltavam folhas e gravuras.

Não sem presunção respondi:

-É um livro impresso. Em casa há mais de dois mil, ainda que não tão antigos nem tão preciosos.

Li em voz alta o título.

O outro riu.

-Ninguém pode ler dois mil livros. Nos quatro séculos que vivo não devo ter passado de uma meia dezena. Além disso, não importa ler, senão reler. A imprensa, agora abolida, foi um dos piores males do homem, pois tendia a multiplicar vertiginosamente textos desnecessários.

-No meu curioso passado -respondi-, prevalecia a superstição de que entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história prévia destes entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes enviavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão própria do gênero.

Tudo isso era lido para o esquecimento, porque em poucas horas seria apagado por outras trivialidades. De todas as funções, a do político era sem dúvida a mais pública. Um embaixador ou um ministro era um tipo de aleijado que era preciso trasladar em veículos grandes e barulhentos, cercado de ciclistas e granadeiros e aguardado por ansiosos fotógrafos. Parece que lhes cortaram os pés, dizia minha mãe. As imagens e a letra impressa eram mais reais que as coisas. Só o publicado era verdadeiro. Esse est percipi (ser é ser percebido) era o princípio, o meio e o fim de nosso singular conceito de mundo. No passado que me coube, as pessoas eram ingênuas; acreditavam que uma mercadoria era boa porque assim o afirmava e repetia seu próprio fabricante. Também eram freqüentes os roubos, embora ninguém ignorasse que a posse de dinheiro não trazia maior felicidade nem maior quietude.

-Dinheiro? -repetiu-. Já não há quem padeça de pobreza, que seria insuportável, nem de riqueza, que seria a forma mais incômoda de vulgaridade. Cada qual exerce um ofício.

-Como os rabinos -disse-lhe.

Pareceu não entender e prosseguiu.

-Tampouco há cidades. A julgar pelas ruínas de Bahía Blanca, que tive a curiosidade de explorar, não perdemos muito. Já que não há posses, não há heranças. Quando o homem amadurece aos cem anos, está pronto para enfrentar a si mesmo e sua solidão. Já engendrou um filho.

-Um filho? -perguntei.

-Sim. Um só. Não convém fomentar o gênero humano. Há quem pense que é um órgão da divindade para ter consciência do universo, mas ninguém sabe ao certo se tal divindade existe. Creio que agora se discutem as vantagens e desvantagens de um suicídio gradual ou simultâneo de todos os homens do mundo. Mas voltemos ao assunto.

Assenti.

-Aos cem anos, o indivíduo pode prescindir do amor e da amizade. Os males e a morte involuntária não o ameaçam. Exerce alguma das artes, a filosofia, a matemática ou joga um xadrez solitário. Quando quer, suicida-se. Dono o homem da sua vida, também o é da sua morte.

-Trata-se de uma citação? -perguntei.

-Certamente. Não nos resta mais que citações. A língua é um sistema de citações.

-E a grande aventura de meu tempo, as viagens espaciais? -disse-lhe.

-Há séculos renunciamos a estes traslados, que foram certamente admiráveis. Nunca pudemos fugir do aqui e agora.

Com um sorriso acrescentou:

-Afinal, toda viagem é espacial. Ir de um planeta a outro é como ir à granja em frente. Quando o senhor entrou neste quarto, estava fazendo uma viagem espacial.

-É verdade -respondi. Também se falava de substâncias químicas e de animais zoológicos.
O homem agora me dava as costas e olhava pelas vidraças. Lá fora, a planície estava branca de silenciosa neve e de lua.

Atrevi-me a perguntar:

-Ainda há museus e bibliotecas?

-Não. Queremos esquecer o passado, exceto para a composição de elegias. Não há comemorações nem centenários nem efígies de homens mortos. Cada qual deve produzir por sua própria conta as ciências e as artes de que necessita.

-Neste caso, cada qual deve ser seu próprio Bernard Shaw, seu próprio Jesus Cristo e seu próprio Arquimedes.

Assentiu sem uma palavra. Inquiri:

-O que aconteceu com os governos?

-Segundo a tradição, foram caindo gradualmente em desuso. Convocavam eleições, declaravam guerras, impunham tarifas, confiscavam fortunas, ordenavam prisões e pretendiam impor a censura e ninguém no planeta os acatava. A imprensa deixou de publicar suas colaborações e suas efígies. Os políticos tiveram que buscar trabalhos honestos; alguns foram bons comediantes ou bons curandeiros. A realidade sem dúvida deve ter sido mais complexa que este resumo.

Mudou de tom e disse:

-Construí esta casa, que é igual a todas as outras. Fiz estes móveis e estes utensílios. Trabalhei o campo que outros, cuja cara não vi, trabalharão melhor que eu. Posso te mostrar algumas coisas.

Segui-o a uma peça contíngua. Acendeu uma lâmpada, que também pendia do forro. Em um canto, vi uma harpa de poucas cordas. Nas paredes havia telas retangulares onde predominavam os tons da cor amarela. Não pareciam obra de uma mesma mão.

-Esta é minha obra -declarou.

Examinei as telas e me detive diante da menor delas, que figurava ou sugeria um pôr-do-sol e que encerrava algo infinito.

-Se te agradou, podes levá-la, como uma lembrança de um amigo futuro -disse com palavra tranquila. Agradeci, mas outras telas me inquietaram. Não direi que estavam em branco, mas quase em branco.

-Estão pintadas com cores que teus olhos antigos não podem ver.

As delicadas mãos tocaram as cordas da harpa e mal pude escutar um que outro som. Foi então que se ouviram as batidas.

Uma mulher alta e três ou quatro homens entraram na casa. Poderia dizer que eram irmãos ou que o tempo os havia igualado. Meu anfitrião falou primeiro com a mulher.

-Sabia que esta noite não faltarias. Tens visto a Nils?

-Às vezes. Continua sempre entregue à pintura.

-Esperemos que com melhor fortuna que seu pai.

Manuscritos, quadros, móveis, utensílios; não deixamos nada na casa.

A mulher trabalhou tal como os homens. Envergonhei-me de minha fraqueza, que quase não me permitia ajudá-los. Ninguém fechou a porta e saímos, carregados com as coisas. Notei que o teto era de duas águas. Depois de quinze minutos caminhando, dobramos à esquerda. Ao fundo divisei um tipo de torre, coroada por uma cúpula.

-É o crematório -alguém disse-. Dentro está a câmara letal. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler.

O guardião, cuja estatura não me assombrou, abriu o portão.

Meu hóspede sussurou umas palavras. Antes de entrar no recinto se despediu com um gesto.

-A neve continuará-anunciou a mulher.

Em meu escritório da rua México guardo a tela que alguém pintará, daqui a milhares de anos, com materiais hoje dispersos pelo planeta.


*Nota do Tradutor: pânico se refere a Pan, divindade grega dos bosques e da vida selvagem. Neste caso, o adjetivo pânico não diz respeito ao pavor, mas à característica rústica e cheia de vida das planícies que ligam o Uruguai ao Rio Grande do Sul, os pampas. O autor das linhas, Emilio Oribe, é um poeta, ensaísta e filósofo uruguaio.

**Do latim, “sob o aspecto da eternidade”, ver as coisas desde uma perspectiva atemporal, objetiva, daquilo que é universal e eternamente verdadeiro.

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Cortar o tempo

Quem nunca ouviu coisas do tipo “o tempo cura tudo” ou “quando você tiver a minha idade vai entender o que estou falando”? Quem nunca tentou se confortar pensando “vamos dar tempo ao tempo”?

I. Tempo: uma tecnologia do pensar.
Vejamos o que diz a senhora Wikipédia sobre o tempo:

“O tempo é uma parte do sistema de medida usado para sequenciar eventos, comparar durações de eventos e intervalos entre eles, e quantificar graduações de mudança como o movimento de objetos. A posição temporal dos eventos com respeito ao presente transitório está continuamente mudando; eventos acontecem,  e então vão sendo cada vez mais empurrados para o passado. O tempo tem sido um grande objeto de estudo da religião, da filosofia, e da ciência. Defini-lo de uma maneira não-controversa e aplicável a todos os campos de estudo e tem iludido os maiores acadêmicos. Uma definição simples do tempo é “aquilo que o relógio mede”.

Minha opinião: o tempo não existe. Não da maneira como costumamos idealizá-lo. Aquilo a que chamamos tempo é a acumulação de eventos, ações e experiências que organizamos sequencialmente na nossa memória. Daquela definição simplória da Wikipédia podemos concluir que o cerne do tempo não é a sua transição ou a localização temporal, mas os eventos e os objetos.

Basicamente, inventamos as divisões discretas de tempo para organizar a nossa memória e planejar as nossas atividades. À medida que a vivência social do homem adquire um caráter cada vez mais complexo, com experiências e eventos cada vez mais sofisticados, ele precisa aumentar a sua capacidade de organização e precisão. Organizar é pensar, classificar, separar, discernir, quantificar.

É isso que fazemos quando medimos o “tempo”: organizamos na nossa memória os eventos na ordem em que eles acontecem, e planejamos os eventos na ordem e duração que queremos ou esperamos que aconteçam. Nosso raciocínio cronológico não difere muito do restante de nossas “tecnologias” como a aritmética ou a gramática: tem a função de organizar o pensamento e padronizar a vida em sociedade.

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

– Carlos Drummond de Andrade

Quanto mais complexa é a vida social humana – ou seja, quanto mais numerosos e mais complexos sejam os eventos e objetos que a circundam – maior é a necessidade de organizar-se, maior é a necessidade por precisão. Não é à toa que de nudistas que contavam luas nos tornamos profissionais que medem o tempo em quartos de hora, minutos, segundos ou milésimos de segundo.

II. O presente não existe
Vivemos no passado. Oitenta milésimos de segundo, para ser mais preciso.[1]
As pessoas normais, pelo menos.

Pensamos em reação aos estímulos a que nosso corpo é exposto. Se estamos falando de sons, podemos falar do tempo decorrido entre a queda de uma árvore e o momento em que a onda sonora atinge o tímpano. Se estamos falando de visão, estamos falando do tempo decorrido entre o reflexo da luz sobre uma pedra e o momento que a onda-partícula da luz é percebida pelos nossos sensores ópticos. Se falamos de tato, estamos falando do tempo decorrido entre a excitação de nervos e a percepção pelo cérebro. Tudo isto leva um tempo. Soma-se o tempo do “processamento”. Até que o “input” gere um “output”, o agora já esmaeceu-se nos milésimos de segundo entre percepção, pensamento e reação.

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: “Detém-te! És tão belo…!”, como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

-Jorge Luis Borges

O agora já passou. É inegável. Estamos numa eterna transição, seguindo o princípio da continuidade tão belamente descrito por Leibniz e que aterroriza os físicos sob o nome de “entropia”. Somos incapazes de deter um momento e chamá-lo de “agora”. Quando falamos do tempo presente, estamos implicitamente estabelecendo ou uma cadeia de causa-efeito imediata (“cheguei agora”) ou de uma determinada fatia do tempo (“o dia corrente, hoje”).

III. O futuro é uma hipótese

Compreendendo isso, podemos ampliar o escopo do nosso raciocínio para toda a História. Medimos o tempo para organizar nossas vidas, organizar o pensamento, organizar a memória. Na verdade, o que estamos organizando são eventos, eventos estes associados a ações ou paixões. Comemoramos o nosso nascimento, esperamos o recebimento do salário, planejamos comprar um carro, fazemos feriado no dia da Independência.

Quando falamos de futuro, estamos nos referindo a eventos e ações que planejamos ou esperamos que ocorram, não de um caminho pré-estabelecido e que pode ser seguido com segurança total sobre seus resultados. Não temos a capacidade de ver à frente no tempo: temos a capacidade de analisar eventos, e associar causas com efeitos. Assim, quando trabalhamos duro esperamos promoções, quando casamos planejamos ter filhos, quando há nuvens carregadas esperamos chuva, etc. O futuro, portanto, é uma hipótese: aquilo que pode acontecer, dependendo das ações que tomamos ou das circunstâncias que observamos hoje.

Estaremos rindo dos "carros do futuro" em 50 anos?

A falácia da “marcha inexorável da história” e o mito do progresso
O futuro não é algo fixo, determinado ou pré-estabelecido. Não é algo que possamos conhecer ou antever com certeza absoluta. Este foi e é o objeto de sedução da magia e de tantas religiões. Conhecer o futuro é dominar o mundo, é ser onipotente sobre o seu destino, é estar num patamar de segurança que nenhum humano jamais esteve. A obsessão de prever o futuro é o desejo primitivo do homem de fugir das responsabilidades, de evitar o risco, de fugir da tarefa árdua e extenuante da adaptação ao ambiente e da tomada de decisão. A obsessão com o futuro predeterminado explica porque é que tantas pessoas tem aversão aos juros e ao lucro: elas não entendem o que é tomar decisões baseando-se num futuro incerto.

A acumulação material e intelectual não pode ser feita sem um profundo respeito pelo que nossos antepassados obtiveram. Herdamos um passado e construímos sobre ele com base num futuro incerto, para acumular mais e legar isso para as gerações vindouras.

Este tipo de raciocínio, que encara o tempo como uma evolução linear necessariamente relacionada com avanços científicos, econômicos ou sociais, é típico de adeptos de ideologias radicalmente progressistas, como o futurismo fascista, o progressismo keynesiano, o socialismo marxista, o positivismo e o cientificismo. Ideologias assumidamente progressistas falham em resolver os conflitos humanos porque são incapazes de conciliar sua visão de mundo com o contexto em que estão inseridas: elas estão sempre “a frente de seu tempo”, e por isso se julgam acima da lei, dos bons costumes e da própria vida das pessoas. Para este tipo de mentalidade, os fins justificam os meios.

Via de regra, ideologias progressistas assumem um caráter profético: seus defensores sempre sabem o que acontecerá no futuro. Julgando-se portanto à frente de seu tempo, eles usam o discurso da vitória inevitável de seus ideais para angariar fiéis: “a marcha inexorável da história” provará que eles estão certos. Ou em palavras do ditador Fidel Castro: “a história me absolverá”.

Uma citação mais lógica é a de Churchill: “A história será gentil para mim, pois eu pretendo escrevê-la”. Este raciocínio expõe exatamente o que a História é: ação (no caso de Churchill, o ato de escrever). Não há um destino prefixado para o homem aqui na Terra, portanto ninguém pode ser o porta-voz do futuro. O futuro não será comunista, nem nazista, nem fascista. Não porque não é seu destino ser, mas porque só depende de nós impedir que o seja.

IV. O passado é a única coisa real a que podemos nos apegar

Já sabemos que mesmo aquilo que percebemos como “o agora” é apenas a percepção que temos do mundo como ele era a 80 milésimos de segundos atrás. Este ‘delay’ nos acompanha para a vida toda. Isto por si só já é uma realidade chocante para muitas pessoas, dadas as suas implicações sobre a maneira como pensamos a consciência e a liberdade.

A realidade é que não podemos construir absolutamente coisa alguma a partir do nada. Mesmo as linguagem mais elaboradas são construídas sobre bases muito simples e anteriores, e cuja explicação é desnecessária. Explicá-las é um insulto à inteligência. É como explicar o conceito de conceito, ensinar a aprender ou tentar explicar os conectivos lógicos mais simples como ‘e’ e ‘ou’: o entendimento dos mesmos já supõe o seu conhecimento de antemão.

Esta mesma condição afeta a todos os homens. Não só como indivíduos, mas em toda a relação entre gerações que constroem a longa cadeia de eventos que chamamos História. Em resumo, não podemos construir nada sem os recursos disponíveis hoje, que nos foram legados pelas gerações passadas. Do mesmo modo, não podemos pensar em absolutamente nada que já não tenha sido conhecido (mesmo que parcialmente) por nós a partir de experiências passadas: a leitura de filósofos da Antiguidade, a contemplação de uma paisagem, um sonho.

Quando falamos de política, de moralidade, de religião ou mesmo de ciência estamos discutindo justamente isso: nenhum tipo de ideologia que pregue uma ruptura radical com o passado pode ou deve ser levada a sério. Todas estas ideologias, sem exceção, se pautam elas próprias no passado que supõem condenar. A diferença entre as ideologias revolucionárias e as ideologias moderadas (conservadoras) é que as primeiras ou se baseiam numa idealização do passado (“golden age”) ou numa idealização do futuro enquanto as últimas se pautam somente na experiência, naquilo que já foi tentado, testado, provado pela resistência às intempéries da História. Resumindo, o moderado não troca o certo pelo duvidoso. O conservadorismo é o ceticismo aplicado à política.

Isto não significa que um conservador ou moderado vá se opor a toda e qualquer mudança no status quo. Implica que ele irá questionar, duvidar, criticar e por fim opor-se a qualquer proposta infundada.

V. Tempo vs. evento, paixão vs. ação.

O passado é memória, experiência, sabedoria, o fundamento da nossa vida. É o conhecimento organizado, acumulado por gerações e gerações e legado a nós. É a nossa fonte de conhecimento, o ‘input’.

O presente é o pensamento, a reflexão, a ponderação. É a tomada de decisão, a assunção de riscos, o cálculo, o movimento e a ação. É a contínua e infinita adaptação do homem à circunstância, e o seu domínio sobre as intempéries da Natureza.

O futuro é a consequência, o resultado, a conclusão esperada. O efeito do qual nossas ações são causa.  É o que queremos que seja, ou o que esperamos que seja. Esperar que seja é submeter-se às circunstâncias, é ser escravo das decisões alheias. Querer que seja, e não agir, é uma crença infundada no Destino. Querer que seja e fazê-lo ser a cada instante, na medida que o agora esvaece e acumula-se sobre o passado continuamente, é a única medida real que temos do progresso. O progresso não é futurista, e o futuro não é progressista.

As Malvinas, outra vez

Por Alvaro Vargas Llosa. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPublicado originalmente em El Independiente em 09 de fevereiro de 2012. Artigo original em espanhol aqui

Cristina Fernández de Kirchner, mais inteligente que o falecido ditador Leopoldo Galtieri, não pretende invadir as Malvinas. Sabe que as tropas argentinas seriam derrotadas uma vez mais e que a derrota acabaria com ela, como acabou com Galtieri. Sua estratégia é outra: a pressão ambiental. Tem a dupla vantagem de que não obter resultados positivos não implicaria custo algum -de certa forma, os créditos estão garantidos porque o fraco nunca tem nada a perder enquanto atue como tal- e de permitir ao governo argentino lograr todo o efeito interno que pretende e necessita. É o que vem fazendo Cristina Kirchner desde setembro, quando lançou uma ofensiva internacional contra Londres a propósito das Malvinas -ofensiva que nas últimas semanas teve especial notoriedade-, combine astúcia política, prudência calculada e senso de oportunidade.

Cristina Kirchner: o Galtieri com neurônios e saia.

A astúcia política reside em parecer que está fazendo muito, sem que esteja. Prudência calculada porque, precisamente devido ao anterior, sabe bem que o custo para ela é mínimo e que, na medida em que não lance um desafio militar, só pode ganhar pontos. E senso de oportunidade porque, apesar de sua recente vitória reelecionista, a situação de seu governo começa a ser precária, ante o acelerado processo de erosão do modelo econômico e a crescente resistência ante os sinais contínuos de submissão da livre expressão e das instituições democráticas. Em três palavras: galtierismo com neurônios.

Cristina sabe uma coisa muito importante: que, aos olhos do mundo, a reivindicação de seu país é justa. Não é possível negar que o Reino Unido ocupou há cerca de 180 anos um território que não lhe pertencia e que desde 1965 tem ignorado o pedido das Nações Unidas para que negocie com Buenos Aires uma solução (leia-se um acordo de transferência de soberania). A resolução de 1965 e as 12 resoluções subsequentes, que de uma ou outra forma se relacionam com este assunto, outorgam a Buenos Aires uma base jurídica e sobretudo política para reclamar. Portanto, a mandatária argentina sabe também que os países sul-americanos não tem outra opção, gostem ou não da idéia de comprar briga com o Reino Unido, do que apoiá-la pelo menos até certo ponto.

Ainda que seja consciente de que muitos deles, a começar pelo Chile, a última coisa que querem é a inimizade com Londres, Cristina Kirchner entende que sua posição é tão sólida que os governos vizinhos terão, pelo menos simbolicamente, que fazer gestos de adesão ao seu pedido. Alguns, porque no poderão ficar fora do clube da solidariedade com um país sul-americano que reclama contra o despojo histórico de um território seu; outros, porque e talvez este seja também o caso do Chile, suas já difíceis relações com os vizinhos aconselham a não seguir abrindo frentes políticos nas fronteiras.

Até agora, as medidas que havia tomado o kirchnerismo com respeito à reivindicação das Malvinas eram mínimas. Até porque durante anos Néstor e Cristina prestaram quase nenhuma atenção a este tema, quando finalmente o fizeram -o que coincidiu com a revelação de que poderia haver recursos petrolíferos na zona- optaram por medidas de intensidade mediana. Uma: não permitir aos barcos das Malvinas abastecer-se em portos argentinos, o que obrigou as ilhas a importar alimentos e outros produtos desde o Reino Unido, a 14 mil quilômetros de distância. A outra: não permitir a empresas que realizaram atividades nas Malvinas investir ou comerciar com a Argentina.

O que agora pretende Buenos Aires com o boicote sul-americano anunciado em dezembro passado soa pior do que realmente é. Tanto o Mercosul como a Unasul tem aceitado o pedido argentino de não permitir que os barcos com bandeira das Malvinas atraquem em seus portos. O que não é o mesmo que proibir a chegada dos barcos das Malvinas, pois basta que estes viajem com bandeira britânica para que possam atracar sem obstáculos aos portos sul-americanos. Por isto, William Hague, o ministro de Relações Exteriores britânico, disse há alguns dias que Chile, Uruguai e Brasil haviam rechaçado o boicote. Ainda que a Argentina, por causa do chanceler Héctor Timerman e do vice-presidente Boudou, tenha insistido que o boicote se mantenha, o certo é que só se aplica a barcos que tenham bandeira das Malvinas. Basta trocar a bandeira para burlar o cerco. Assim, Santiago, Brasília e Montevidéu ficam bem com Buenos Aires e com Londres.

Malvinas: argentinas? Território britânico desde 1830, a maioria da população se auto-declara britânica.

Nenhum mandatário deu a entender sequer remotamente, nas diversas capitais sul-americanas, que está disposto a somar-se ao veto argentino contra empresas que operem nas Malvinas. Não o fizeram quando o veto argentino tinha como alvo principal a indústria pesqueira (essa é, junto com o gado ovino, a principal atividade econômica nas ilhas) e não o fazem agora que o objetivo é a indústria petrolífera (a intensificação da reivindicação argentina tem relação com as atividades de exploração petrolífera da empresa Rock-hopper). O pior que pode acontecer é que se suspenda o vôo semanal ao Chile que passa pelo espaço aéreo argentino, mas essa decisão não ocorreria em Santiago, e sim em Buenos Aires, por tanto, não implicaria em um eventual boicote chileno.

As relações econômicas do Reino Unido com a América do Sul, aliás, já não são o que foram a princípios do século e durante o século XIX, o que oferece ao governo britânico, apesar de que William Hague tenha anunciado em 2010 um voo até esta zona do mundo, certa margem de proteção ante qualquer eventualidade. Até a Primeira Guerra Mundial, a metade dos investimentos estrangeiros na América Latina vinham do Reino Unido e um quarto do comércio latino-americano tinha esse país como interlocutor. Hoje, as exportações britânicas para a América Latina não passam de um por cento. Os investimentos líquidos de empresas britânicas em países sul-americanos nos últimos anos tem sido mínimos, salvo no Brasil, onde tem superado os bilhões de libras, montante que de qualquer modo, em comparação com outros destinos do capital do Reino Unido, é modesto.

Um fator que, neste jogo diplomático, aparentemente ajuda a Cristina Kirchner é a difícil situação em que se encontra Londres em relação com a União Européia. Desde que o governo de David Cameron se opôs a formar parte da iniciativa para reformar os tratados da União a fim de caminhar em direção a uma união fiscal no contexto da crise dos títulos soberanos, as relações entre Londres e Bonn, mas especialmente entre Londres e Paris, tem sido muito apertadas. Tem se falado, uma vez ou outra, de “isolamento” britânico. Neste contexto, o último que quer o Reino Unido é que se passe a idéia de que se amplia o isolamento com um boicote geral dos países sul-americanos: a notícia, algo exagerada, que Argentina tem conseguido enfiar nos meios de comunicação.

De qualquer modo, a Argentina deve medir, neste cálculo, algo que não parece estar medindo: o lendário nacionalismo britânico. Deve recordar que se Londres tem hoje problemas com seus sócios da União Européia é precisamente por essa insularidade ou excepcionalidade política que o nacionalismo britânico, e muito especificamente o nacionalismo inglês, tem impresso na classe dirigente desde sempre. Talvez por isso David Cameron se sentiu bastante seguro para convocar, esta semana, ao Conselho de Segurança Nacional, que reúne militares e políticos, enviando com ele uma óbvia mensagem: defenderemos as Malvinas com a força se necessário, exatamente como defendeu Margaret Thatcher em 1982. Cameron calcula que nenhum primeiro ministro britânico perderá votos internos por colocar as garras de fora contra um novo desafio argentino. Daí a tentativa de Cristina Kirchner de aproveitar o relativo isolamento de Londres na Europa pode ter um efeito “bumerangue” e fortalecer Cameron.

David Cameron: dará o braço a torcer ou fará as vezes de Margaret Thatcher?

Até o surgimento da possibilidade de a zona conter depósitos de hidrocarbonetos, para o Reino Unido as Malvinas eram uma carga. A  sensação geral, no mundo diplomático, era que Londres esperava alguma oportunidade, no futuro, para começar a negociar uma fórmula que iniciaria o processo de desfazer-se do pesado fardo. Não era possível fazê-lo de imediato, porque a maioria dos pouco mais de 1.300 habitantes das ilhas se consideram britânicos. Muitos deles representam a nona geração de britânicos desde que, m 1833, o Reino Unido ocupou as Malvinas, dado no qual Londres sempre baseou seu argumento de que a “autodeterminação” desse território de ultramar é o que prevalece (também com esse argumento William Hague acusou com ironia a Buenos Aires de “colonialismo” esta semana, antes de chegar ao Brasil em visita oficial). De qualquer modo, as coisas tem se complicado muito mais desde que começou a planar sobre as ilhas o fantasma do petróleo. Como é sabido, já faz alguns anos, as reservas do Mar do Norte estão em franca diminuição. Desde o ponto de vista do Reino Unido, pois, o eventual descobrimento de abundantes quantidades de óleo bruto nas imediações das Malvinas daria a estas ilhas um especial valor estratégico. Valor que haviam deixado de ter desde o século passado quando eram passada obrigatória para os navios britânicos que transitavam do Atlântico ao Pacífico (em décadas recentes, apenas tem sido parada obrigatória para certas estações científicas na Antártida).

A complicação internacional da eventual existência de jazidas de petróleo é óbvia: além de valorizar o território das ilhas para um governo britânico que antes via as Malvinas como uma carga, ele colocaria a Argentina ante a obrigação de redobrar sua campanha internacional. Para qualquer governo argentino seria difícil manter-se de braços cruzados ante a pressão de uma oposição que utilizaria o argumento do petróleo para acusar a suas autoridades de falta de patriotismo.

No caso de Cristina Kirchner, como já foi dito, há mais elementos de cálculo político interno que convicções em tudo isso, a julgar pelo que ela e seu marido não fizeram durante muitos anos com respeito as Malvinas. Mas o certo é que, dadas as atuais circunstâncias, seria ainda mais difícil para um governo não peronista submetido à pressão do justicialismo olhar para outro lado. Por isso, a possibilidade de que as Malvinas tenham petróleo criou quase uma obrigação em toda a classe política.

Tudo indica, em resumo, que 30 anos depois da guerra, as Malvinas deixaram de ser o que Borges chamou “a briga de dois carecas por um pente”, e passou a ser algo mais grave.