Os principais erros de Marx

Texto meu (Davi Caldas), originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. A publicação original se encontra aqui.

Toda a obra de Karl Marx pode ser resumida em dois pontos, o primeiro deles, conseqüência do segundo: a crença na bondade natural do ser humano e a acusação da burguesia como o grupo culpado pela desigualdade e pelos males do mundo. Retire um desses dois pontos e toda a sua teoria desmorona.

O primeiro ponto é importante para a teoria marxista porque somente crendo em um ser humano naturalmente bom (e/ou evolutivo, no que tange a bondade), é que ela poderia postular que a ditadura do proletariado daria certo e que depois não seria mais necessário Estado e toda a sociedade seria igualitária e pacífica. Se, ao contrário disso, crermos que a espécie humana tem uma natureza defeituosa, que tende a ser egoísta e a oprimir os outros e que só permite aos indivíduos alcançar uma bondade relativa, não há como sustentar a teoria de Marx.

A começar pela sociedade sem Estado (o último estágio do socialismo segundo o pensamento de Marx), se fosse possível ela ser estabelecida, seria um verdadeiro inferno, no qual os homens fariam o que quisessem, sem leis. E, no fim, se veria a necessidade de se retornar ao Estado; um retorno que, provavelmente, colocaria opressores no poder, que oprimiriam “em nome da ordem”. É um cenário meio hobbesiano, por certo.

Mas o estabelecimento de uma sociedade sem Estado é algo tão distante, que é na ditadura do proletariado que devemos focar. Esta sim é tão possível, que realmente ocorreu em diversos países. Contudo, não foi exatamente como Marx pensou. O que se viu não foi o povo no poder, mas sim “representantes do povo”, que usaram o discurso comunista para se tornarem ditadores, oprimirem, perseguirem, matarem e, com tudo isso, posar de heróis.

Ora, se o resultado da implantação do comunismo em todos os países foi este cenário, cabe questionar: “O ser humano realmente é bom por natureza? Ele é mesmo capaz de fazer um mundo novo e igualitário com as próprias mãos?”. Se já sempre tivemos evidências de que não, ao longo da história, o comunismo talvez seja a prova cabal de que o “homem bom” dos iluministas é um mito.

Montesquieu, embora tivesse discordâncias com essa idéia de que o homem é naturalmente mal, era bem sensato para entender que confiar no ser humano é uma tolice. Dizia ele que o poder corrompe o ser humano e que o homem que recebe poder é levado a abusar dele e vai até onde encontra limites. Ou seja, confiar no homem é correr atrás de opressão, de miséria e de genocídios.

O segundo ponto da teoria de Marx é uma conseqüência do primeiro, como já deixei claro. Como se crê na bondade do ser humano, então a culpa dos males deve ser jogada nas costas de um agente externo à natureza do homem. Sabemos que isso é uma base do pensamento esquerdista e Marx a utilizou magistralmente. Resumiu a história da sociedade na luta entre classes e afirmou que a luta entre burguesia e proletariado era o último e mais terrível estágio dessa luta histórica. Pronto. Estava definido o grande inimigo do mundo: a burguesia.

Bem, como o ser humano não é bom, isso já derruba a idéia de que a culpa é da burguesia, o que já detona o marxismo. Mas ainda assim, cabe uma análise mais detida dessa segunda base. Isso porque o efeito psicológico que gera o ato de colocar a culpa na burguesia é muito forte. Afinal, se temos pessoas ricas enriquecendo com o trabalho de pessoas pobres, somos levados a esquecer a raiz do problema (a própria ganância do ser humano), nutrindo ódio pelos ricos. Então, colocar a culpa dos males na burguesia se torna um complemento desse impulso emocional. É a racionalização da nossa pena pelo pobre trabalhador e da nossa raiva pelo rico empresário.

A tirinha abaixo é uma tentativa evidente de incutir esse ódio à burguesia e essa pena ao proletariado na cabeça do leitor. Observe:

Mas onde estão os erros da tirinha? Em primeiro lugar, está no direcionamento da culpa para todos os empresários (a burguesia). A tirinha induz o leitor a acreditar que é a existência de empresários que cria uma sociedade desigual e cheia de exploração ao trabalhador. Assim, o leitor passa a almejar uma sociedade com menos empresários (ou sem empresários), na qual o Estado será o dono da maioria das empresas e serviços (ou de todos).

O problema é que a burguesia é apenas um bode expiatório. A culpa real dos males sociais está no egoísmo humano. Se não fôssemos egoístas, todos os patrões dividiriam mais igualitariamente as suas rendas e não haveria grandes diferenças sociais, nem exploração, nem miséria, nem fome, nem roubos, nem ganância.

Ora, se o problema não está na burguesia, mas no homem, não adianta destruir a burguesia, porque quem tiver o poder, tenderá a oprimir, e quem não tiver o poder, tenderá a buscar tê-lo. Foi exatamente o que os regimes comunistas fizeram. Governos como os de Pol Pot, Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung, King Jong e Fidel Castro foram os responsáveis por mais de 150 milhões de mortes em menos de um século. A história do mundo não é a história da luta de classes, mas sim a história da luta pela sobrevivência, pelo status e pelo poder. E a existência de classes é apenas um reflexo disso.

Em segundo lugar, a tirinha induz o leitor a acreditar que o empresário não tem mérito nenhum na obtenção de sua riqueza. É como se o trabalhador fosse o único digno daquele dinheiro, o que transforma todos os empresários em ladrões. Para mostrar como essa é uma idéia distorcida do empresariado, recorramos a uma ilustração.

Um homem pobre resolve abrir um pequeno negócio. Vamos chamá-lo de Lúcio Meire. Como Lúcio é pobre, recorre a um empréstimo no banco para começar o seu pequeno negocio. Então, ele registra o nome de sua empresa, aluga um local, compra as mercadorias que irá vender, entra em sociedade com um amigo, investe em propaganda e inicia o negócio. Com os investimentos, ele e seu amigo vão pagando o empréstimo que fizeram no banco.

Aos poucos os lucros crescem, eles terminam de pagar o empréstimo e começam a ter dinheiro sobrando para fazer crescer o negócio. Vendendo mais que antes, vêem que é necessário empregar pessoas para auxiliá-los. Aí começam a procurar empregados e logo algumas pessoas interessadas em trabalhar aparecem e vão compondo o quadro de funcionários. Esse quadro de funcionários cresce, conforme a empresa dá mais lucro.

Os bons serviços prestados pela empresa e seus bons investimentos nos produtos e em propaganda fazem as pessoas comprarem mais dela. Surge, então, a necessidade de uma expansão espacial e ela compra terrenos ao lado para agregar mais produtos e ter possibilidade de atender a demanda. Posteriormente, começa a abrir filiais em diversos lugares. Em vinte anos, entra para a lista das melhores empresas do seu ramo.

Por ter crescido muito, sua administração se torna um pouco difícil, então a empresa transforma-se em uma “S.A.” (Sociedade Anônima), isto é, uma empresa com vários donos, cada um com um número de ações. Como os acionistas majoritários dessa empresa são homens de experiência e visão (por isso é que decidiram comprar as ações da empresa), ajudam a empresa a ter mais notoriedade no mercado. Associando-se a outras empresas, fechando contratos, expandido seus ramos, o negócio lucra cada vez mais. Por fim, a empresa de Lúcio Meire (o fundador da empresa e o homem que detém 51% das ações) se torna a número um em seu ramo de atuação. Um império presente em todo o país, após 35 anos de fundação.

Agora, vêm as perguntas: Quem teve a idéia de abrir o negócio? Quem foi que teve a coragem de insistir nessa idéia? Quem correu o risco de pegar um empréstimo e não poder pagar depois? Quem correu o risco de investir tempo, dinheiro e esforço em algo que poderia não dar certo? Quem buscou um amigo para fazer uma parceria? Quem trabalhou em idéias para propagandas? Quem investiu em bons produtos? Quem fez a empresa crescer? Quem teve a idéia de contratar funcionários? Quem empregou esses funcionários? Quem lhes deu possibilidade de tirarem sustento para si? Quem?

Quem teve que se preocupar em pagar contas de luz, água, telefone, gás, os salários dos trabalhadores, a manutenção das máquinas, a limpeza do local, os fornecedores e ainda guardar dinheiro para fazer novos investimentos? Quem continuou assumindo os riscos? Quem fez as escolhas? Quem cuidou da administração da empresa (e dos demais administradores que, com o tempo, foram surgindo)? Quem contratou bons funcionários? Quem resolveu os problemas internos? Quem venceu as crises financeiras? Quem venceu a concorrência? Quem inovou? Quem vendeu as ações? Quem soube usar bem o seu dinheiro?

A resposta para todas essas perguntas é só uma: Lúcio Meire. Se não fosse por ele, a empresa não chegaria aonde chegou. Aliás, ela nem existiria. Então, será que 35 anos após fundação da empresa, agora com milhares de funcionários, estes funcionários têm todo o direito sobre o dinheiro que produzem e Lúcio não tem direito a nada, sendo apenas um explorador e ladrão? Fizeram e fazem estes funcionários o trabalho de Lúcio, que também é essencial para a existência da empresa?

Ok, isso é uma ilustração. Essa não é a história de todo empresário. Nem todos enfrentaram tanta dificuldade ou começaram tão de baixo. Muitos empresários já vieram de uma família rica ou de classe média, o que facilita bastante. Muitos nasceram filhos de empresários e não poucos herdaram empresas de seu pai. Ainda assim, isso não tira a importância do trabalho dos donos da empresa. Cabe a eles administrarem e correrem os riscos, coisa que nem todos têm vontade, capacidade e/ou coragem para fazer.

Entende-se que quando uma pessoa escolhe trabalhar para uma empresa em vez de abrir sua própria empresa, é porque essa pessoa não tem interesse, capacidade e/ou coragem para investir nisso. Ela não deseja correr riscos. Caso contrário, ela faria como Lúcio Meire: investiria em um negócio. No entanto, ela prefere simplesmente trabalhar para uma pessoa, sem ter que se preocupar com a administração da empresa e com as funções de outros trabalhadores, mas apenas focando em sua própria função e ganhando seu salário no final do mês.

Já o dono da empresa é aquele que escolhe correr riscos e se preocupar com as diversas funções de seus vários funcionários. Se ganhou a empresa de presente de seus pais, não importa. Por exemplo, Lúcio Meire tem todo o direito de deixar sua empresa de herança para seus filhos. Afinal, o que é nosso, nós podemos dar a quem quisermos e, por direito, aquilo passa a ser da pessoa para quem demos. E a quem demos, cabe a administração e o zelo. Não é assim? Como, então, alguém pode supor que a empresa só depende do trabalho dos funcionários? Como um funcionário pode querer o mesmo salário que o dono se ele não faz também o trabalho do dono e nem tem coragem ou capacidade para fazer? Isso não faz sentido.

Aqui podemos criticar a tese da “mais-valia” de Marx. Para ele, mais-valia era o tempo que o funcionário trabalhava além do que precisava para seu sustento. E isso era algo errado para ele. Acontece que, para uma pessoa trabalhar sem precisar se preocupar com a administração de uma empresa, alguém terá que fazer isso para ela. Então, se não quero ser empresário, tenho obrigação de produzir não só para o meu sustento e para o sustento da empresa, mas para pagar a administração da qual sou isento. Se por um lado temos o funcionário produzindo mercadoria para o patrão, por outro lado temos o patrão administrando a empresa, pagando as contas, lutando contra a concorrência e assumindo os riscos para que o funcionário continue podendo produzir. É por isso que o dono não só tem direito ao que o funcionário produz como deve ganhar mais.

Agora, não estou dizendo aqui que não existe exploração ao trabalhador, que o salário de todo o proletariado é digno e que todos os empresários são pessoas justas que pagam bem a seus funcionários. Pelo contrário, se aceitamos o homem como um ser que tende à ganância, ao egoísmo e a opressão, sabemos que aqueles que se derem melhor na vida geralmente irão explorar os outros. Eis aí algo que a tirinha observa bem: existe muito trabalhador ganhando um salário que mal dá para sustentar sua família, enquanto o dono da empresa tem dinheiro para dar a volta ao mundo.

Não obstante, o problema não está no fato do dono ter muito dinheiro. Se sou o dono de algo, eu tenho o direito de ganhar o quanto quiser com esse algo. O problema está no fato dos funcionários não terem dinheiro suficiente para as necessidades básicas de todo o ser humano. E como esse problema poderia ser resolvido? Dificultando a vida dos empresários? Não! Isso só agrava a exploração do trabalhador, precisamente porque diminui a concorrência e faz surgir hegemonias. Quando se dificulta a vida de todos os empresários, só os mais ricos sobrevivem. Assim, acaba a concorrência e quem era rico se torna mais rico e poderoso. Ora, quanto mais hegemonia há, menos escolhas têm o trabalhador. Com menos escolhas, as empresas não precisam se preocupar em aumentar salários, pois a procura por emprego é grande.

Mas, ao contrário desse quadro hegemônico, quando se tem muitas empresas e uma boa concorrência, isso obriga o empresário a manter o equilíbrio entre o preço do seu produto no mercado, o salário de seus funcionários e seu lucro. Se tal equilíbrio não existir, a empresa perderá ou na competição por preços, ou na competição por funcioná-rios, ou na competição por crescimento. Em todo caso, ela tenderá à falência.

Da parte do governo, basta que o mesmo garanta ao trabalhador de gastar o seu próprio dinheiro do modo como preferir. Isso é um direito que tem sido negligenciado em função dos altíssimos impostos. O litor sabia que no Brasil, por exemplo, cerca de 40% do nosso salário vai todo embora em impostos? Isso significa que alguém que ganha 2000 reais por mês, perde 800 reais do seu dinheiro para ter uma péssima segurança, uma péssima educação e saúde públicas, péssimas estradas e etc. Será que o trabalhador não deveria ter o direito de escolher se vai perder esses 800 reais com um péssimo setor público ou com os serviços privados que ele achar melhor? Enfim…

O que tudo isso nos ensina é que as idéias de Marx simplesmente não cabem no mundo real. Marx criou um inimigo imaginário (a burguesia) apenas para não ter que lidar com o fato de que é o ser humano o grande culpado pelo mal no mundo. O mundo igualitário e pacífico que Marx sonhava não é possível por causa da própria natureza do homem, e não por causa da burguesia.

Agora, isso não quer dizer que devemos cruzar os braços e não mover uma palha para mudar alguma coisa. Quando critico a fé no homem que marxistas (e esquerdistas, em geral) sustentam, não estou fazendo uma apologia ao conformismo e ao egoísmo. É o oposto. É por ver o quão subversivas são essas utopias, que eu as critico. Creio que se vermos o mundo como ele é e atacarmos os problemas verdadeiros (em vez de bodes expiatórios), alguma coisa pode ser mudada sim. Mas enquanto acreditarmos que nutrir raiva por determinados grupos e tentar destruí-los é a solução para o mundo, estaremos sempre de mãos dadas com a opressão, os genocídios e a frustração.

Considerações sobre os termos Direita e Esquerda

Recentemente esse espaço tem sido palco de um embate à respeito dos termos Direita e Esquerda. Gostaria, então, de oferecer minha contribuição, focando nos problemas da Direita.

Introdução: História

Antes de começar a analisar o cenário contemporâneo, é necessário entender a origem da divisão, que remete à Revolução Francesa. O cenário, aqui, de pré-revolução, adota uma definição bastante simplista, que não apenas ignora muitos fatores, mas que por ser simplista facilita a campanha política e a definição de um inimigo. Atirar libelos quando se considera que todos os diferentes são um é muito mais fácil.

Com isso em mente, a divisão se deu de maneira tranquila: os revolucionários se sentariam à esquerda do rei, e os conservadores à direita. Pouco importaria que dentre os revolucionários houvesse das maiores divergências possíveis (burgueses liberais, anarquistas, socialistas), mas sua união era imprescindível para desbancar um Estado que era fortíssimo, não apenas pela autoridade que emanava de seu soberano, mas pela prosperidade de seu povo no momento histórico.

Aqui, discordo de Davi Caldas: os termos não se restringem às propostas de uma construção de um novo mundo, mas sim caracterizam a reação do antigo regime ao mundo novo. Essa reação não é desimportante para ser descartada, e é, em verdade, o momento que caracteriza maior diferença, maior separação ideológica e doutrinária, um momento realmente digno de separar a política em direita e esquerda.

Ambos liberais e socialistas da época beberam das mesmas fontes, dos libelos iluministas contra a ordem vigente. Ambos, durante a revolução, levantaram a mesma bandeira republicana, ambos bradavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, embora depois fosse descoberto que essas palavras, inicialmente vazias, se encheram de significados distintos que vieram a os separar logo após a Revolução. E enquanto os futuros antagonistas estavam unidos em torno de um ideal supostamente igual, os conservadores se amparavam nos escritos de Jean Bodin e Jacques Bossuet, no poder divino dos reis, na monarquia absolutista.

Pode-se dizer, então, que após Napoleão sedimentar a nova ordem liberal, a antiga direita desapareceria, e daria lugar a uma nova, à direita liberal influenciada por Adam Smith, John Locke, e a esquerda então seria monopolizada pelos socialistas. Nada mais errôneo. Os ideais do antigo regime ainda perduravam, e nos escritos de Joseph de Maistre e Louis de Bonald encontraram as forças para reagir e restaurar a monarquia hereditária. Os ideais revolucionários ainda não haviam se sedimentado a ponto de se considerarem dominantes: o status quo ainda era a monarquia absolutista, mesmo que algumas delas houvessem se apropriado de algumas noções do liberalismo econômico.

Frente a esse cenário, não há como negar que sim: a direita pode ser caracterizada como conservadora. E mesmo que se considere a divisão concernente apenas à criação de um novo regime, não há como negar as influências das reações conservadoras na criação desse novo regime.

1. Os Conservadores

Se houve um argumento que me satisfez quanto à divisão entre esquerda e direita, foi o argumento do otimismo/pessimismo antropológico. Esse argumento é bastante esclarecedor, mas leva a conclusões diferentes das proporcionadas por Davi Caldas.

Quando se divide a direita e a esquerda entre o pessimismo e o otimismo, respectivamente, exclui-se, de imediato, qualquer liberalismo clássico puro do campo da direita. Todo o liberalismo inglês e francês da época se pautou em um otimismo, e na menos otimista das hipóteses, na tabula rasa. O fato de a análise de Smith se utilizar do egoísmo humano para o equilíbrio da economia não parte do pressuposto de que o ser humano é egoísta por natureza, mas porque as circunstâncias do momento o levam a ser egoísta e isso, de algum modo, gera um equilíbrio. Sua análise era descritiva, não positiva. Dentre os iluministas mais aceitos pelos liberais de hoje predomina a noção de que não há natureza humana, e que a bondade ou a maldade se fazem pelas circunstâncias.

Frente a essa argumentação, pode-se dizer que então não há direita já que o debate político é pautado, geralmente, nas visões políticas de liberais ou socialistas. É verdade que a influência do tradicionalismo decaiu muito na política atual, mas o pensamento sobreviveu e continuou sendo desenvolvido. Os pensadores que se pautavam em um pessimismo continuaram a escrever, mesmo que ostracizados.

No início do século XX, na França, houve um levante conservador liderado por Charles Maurras. Pouco se parece com as ideias liberais, no entanto. Seu corporativismo rejeita totalmente o liberalismo (sendo anti-liberal), mas também nada se parece com o coletivismo marxista. Sua ideia de sociedade paira na ideia de corporação, muito semelhante à noção das corporações de ofício medievais: a sociedade, espontaneamente, cria corporações, entes coletivos, instituições, e essas são protegidas pelo Estado, que não só garante a existência das mesmas, mas o não conflito entre as mesmas e a representação das mesmas mediante o poder.

Aqui, aproveito para contrapor o colunista Rodrigo Viana: o conservadorismo antigo não é coletivista. A rejeição ao individualismo não faz com que a ideologia busque a supressão do mesmo. O pensamento conservador paira entre os dois, lembrando sempre a importância tanto da pessoa quanto de sua inserção em um meio social. Não existe no pensamento conservador um coletivo pelo qual se governa, não existe essa noção de “massa”. Existem diversos pequenos corpos coletivos autônomos que exigem representação, mas não um ente abstrato. O importante é a noção de Pessoa.

Além de Maurras, diversos outros pensadores construíram sobre as bases do antigo pensamento conservador, dentre eles o altamente rejeitado Julius Evola e o cada vez mais aceito Carl Schmitt. Todos são antiliberais, mas se encontram à direita no espectro político.

Mas nem só de autoritarismo é feita a direita conservadora, mas também de conservadores que se aproximaram de conceitos liberais. Edmund Burke é um grande exemplo.

É simplista também definir conservadores como pessoas que desejam manter o status quo. A conservação se refere muito mais a princípios civilizacionais e instituições políticas, e para isso muitas vezes podem ser exigidas reformas, até profundas. Não se deve perder de vista que por de trás de todo pensamento conservador há uma ideologia política, por mais moderada que possa ser.

Essa discussão se faz necessária não para excluir os liberais totalmente da direita, mas para mostrar que um pensamento que, mesmo pertencente à velha ordem, não pode ser excluído de uma classificação política da atualidade, principalmente quando volta a ganhar certo prestígio e a cada pouco mostra lampejos na política de hoje.

2. Os Liberais

Adotando a classificação conforme a visão da natureza humana, a impressão que surge é a de que liberais não pertencem à direita, logo devem estar à esquerda. Isso seria simplista.

O que ocorre é que os liberais de hoje não adotam um otimismo quanto à natureza humana, mesmo sendo essa a visão dos primeiros liberais. Outro aspecto é que, apesar de não serem tradicionalistas, muitos liberais de hoje seguem a linha de Edmund Burke, que é conservadora. A esmagadora maioria dos liberais de hoje não são liberais clássicos, mas sim liberais-conservadores. Não são adeptos de um exagerado humanismo, mas do liberalismo econômico investido de conservadorismo moral ou político.

A crença, agora, não é a de que o ser humano é necessariamente bom e por isso deve ser deixado livre, mas que a maldade do ser humano não qualifica um a estar em posição de poder sobre outro, impor sua visão de finalidade da humanidade sobre outros. A concorrência extrairia o bem geral da ganância humana. É por isso que os liberais hoje podem ser colocados na direita, diferentemente de outrora.

Pouco importa aqui se são reformadores.

3. O problema dos Fascistas

Os fascistas são o típico patinho feio. Ninguém os quer, por isso ninguém os aceita. Não colocarei, portanto minha visão pessoal sobre a posição dos mesmos no espectro, apenas traçarei algumas considerações.

O fascismo nasce do corporativismo medieval, revivido por Maurras, mas inverte sua lógica. Se a lógica corporativista é, através dos entes coletivos intermediários, evitar o Estado Total, em um modelo de baixo para cima (corporações surgem espontaneamente e são defendidas pelo Estado), o fascismo vê na ideia de corporação a realização do Estado Total: o Estado cria as corporações, único meio possível para exercício da vida pública. O modelo fascista é de cima para baixo.

Os fascistas também encontram bastante inspiração nos conservadores, apesar de essa admiração não costumar ser recíproca. Joseph de Maistre foi uma importante influência, apesar de ser fácil de perceber que, dentro de seu catolicismo radical (mesmo sendo autoritário), não aprovaria um culto ao deus Estado. O totalitarismo em muito difere das monarquias absolutistas de outrora, é muito mais abrangente e muito mais brutal.

Uma marca do pensamento fascista que o diferencia bastante do conservadorismo é seu apelo à massa. Ele busca uma redução do indivíduo frente ao Estado, uma verdadeira “demência espacial” frente à grandiosidade da nação e do coletivo. Não existe essa desvalorização do indivíduo em nenhuma corrente presente nem na esquerda e nem na direita.

A luta comum à da esquerda foi a luta contra o capitalismo internacional. Mesmo assim, o fascismo era uma doutrina anticomunista e, principalmente, antimarxista. Apesar do intervencionismo na economia, essa não é uma bandeira exclusiva da esquerda, sendo bastante presente nos conservadores.

4. O problema Nazista

Sim, diferente do que comumente se pensa, é necessário que se dedique um trecho somente aos nazistas. Definir o mesmo como um tipo de fascismo é extremamente simplista, já que dele muito se difere. São ideologias distintas, então focarei na diferenciação da mesma, o que para o intuito deste artigo será o suficiente.

Apesar de serem ambas totalitárias e nacionalistas, existe um aspecto primário que é essencial na distinção entre as duas: a noção de inimigo. O fascismo busca o exercício da exaltação da nação através da exaltação do Estado. O Estado é tudo, não o povo. O nazismo contém muito mais elementos que se referem ao povo e a supremacia de sua raça: possui o ódio aos judeus e estrangeiros como elemento determinante e necessário ao sucesso do pensamento.

O nazismo pouco se baseia no corporativismo medieval. Não é uma adaptação do mesmo ao mundo industrial. É a criação de uma sociedade inteiramente nova baseada na raça. Uma verdadeira anomalia política.

Outra diferença um pouco menos importante é econômica: o fascismo é intervencionista, enquanto o nazismo se tornou dirigista e planificador.

As alianças políticas nunca podem servir de base para definir a visão ideológica, apenas mostram colaborações de circunstância. Muitas vezes tentam pintar o nazismo como conservador por ter se aliado a conservadores. Mas conservadores foram os responsáveis pela Operação Valquíria. A Alemanha de Hitler se aliou aos soviéticos, e no momento seguinte esteve a atacá-la.

5. Conclusão

O objetivo não era esgotar o tema (até porque não se faz isso em um mero artigo de blog), mas oferecer algumas pontuações que julguei pertinentes e levantar alguns questionamentos a mais.

A Mentalidade Conservadora de Edmund Burke

Estátua de Edmund Burke
Estátua de Edmund Burke, em Dublin

Introdução de Rodrigo Viana

O livro The Conservative Mind, que será lançado no Brasil pela editora É Realizações como “A Mentalidade Conservadora”, de Russell Kirk, foi um dos divisores de águas no meio intelectual americano. A importância de The Conservative… se mostra no traçado do histórico do conservadorismo anglo-saxônico que se desenhou desde Burke. Um verdadeiro guia para se conhecer não só uma importante face de visão política mas parte da cultura anglo-saxã moderna também.
Com The Conservative… Kirk contribuiu em dar uma luz histórica, política e filosófica em todo o pensamento conservador anglo-saxônico e na direita política americana como um todo. Desse modo, criou-se uma cultural política forte, onde influenciou diversos setores da sociedade americana.

Uma curiosidade interessante nessa safra intelectual, é que fez com que desmembrasse setores da direita política americana que antes viviam em uma certa harmonia. O grupo chamado Old Right, que compunha de liberais clássicos “moderados” à “radicais”, eram conhecidos como, até então, “os defensores da liberdade na América”. Tudo num tempo em que não havia diferenças aparentes dentro da direita política americana e onde o progressismo estava, a cada dia, mais evidente. Em uma época de forte intervenção do governo por políticas professadas por apoiadores do New Deal, esse grupo foi uma grande voz para se oporem à servidão.

Com o surgimento de intelectuais conhecidos como “New Conservatives” (não confundir com o neoconservadorismo), encabeçados por Kirk, os defensores da liberdade nos EUA se desmembraram em diferentes correntes. Os “moderados” se juntaram a pessoas como o próprio Kirk, Richard Weaver e outros, enquanto os mais radicais se atrelaram às ideias de Ayn Rand[1] ou Murray Rothbard, por exemplo.

Não apenas por encabeçar um movimento intelectual, Russell Kirk foi considerado como um dos maiores intelectuais americanos do século XX. Seu trabalho promissor abriu caminhos para que, por exemplo, o Partido Republicano voltasse ao poder, tendo na figura de Ronald Reagan como o resultado de anos de empenho.

O texto que segue é uma tradução do capítulo do The Conservative… , da versão condensada pelo Alabama Policy Institute, que trata da figura de Edmund Burke. Conhecido no mundo anglo-saxônico como “o pai do conservadorismo moderno”, Burke na verdade nunca se intitulou como tal. É conhecido até hoje como um dos maiores liberais clássicos, embora possuísse visões bem particulares em comparação com outros liberais de sua época.

Estadista atuante no partido liberal Whig, Burke era defensor de reformas que visavam a liberdade porém sem desmerecer a visão da autoridade constituída. Para isso ele desenvolveu uma linha de pensamento onde visava mudanças pragmáticas, tudo sem destruir a ordem moral já existente.

Burke atuou fortemente contra a corrente política francesa na Inglaterra, revolucionária, conhecida como “jacobinos”. Liderou o partido Whig contra tais manifestações e criou uma corrente liberal, de cunho moderada e tradicionalista, conhecida hoje como “liberalismo-conservador” (nos EUA chamado apenas de conservadorismo).

Embora tenha defendido por muito tempo o pragmatismo político, há uma lacuna a ser mencionada. Sua primeira obra, Vindicatin of Natural Society, escrita sob um pseudônimo, foi tão radical pra época que muitos o considera como o primeiro trabalho proto-anarquista. Trabalho em que mais tarde Burke declarou que não passou de uma sátira política. Há quem não acredite nisso.

Então para uma compreensão melhor desse que foi um verdadeiro defensor de uma sociedade de liberdades e virtudes, segue o texto que resume suas contribuições políticas e intelectuais. Àqueles que dão valor a liberdade e aos seus patronos, independente das posições e correntes políticas, Burke deve sempre ser conhecido.

A MENTALIDADE CONSERVADORA: Burke e as Políticas de Prescrição
Traduzido por Rodrigo Viana

Neste capítulo, Kirk esbanja atenção sobre o pai do moderno conservadorismo da tradição anglo-americana, Edmund Burke, o irlandês que serviu sua amada Grã-Bretanha com fervor antes e durante a Revolução Francesa. Ele era um membro do Partido Whig e, como tal, ele defendia a fiscalização do poder governamental, a tolerância religiosa e limites na expansão imperial estrangeira. Burke era um oponente do poder arbitrário em onde quer que o mesmo viesse ser invadido e foi de igualmente pronto em defender tanto a monarquia quanto a Constituição Inglesa contra o parlamento.

Burke acredita que a reforma era inevitável e poderia ser uma coisa boa, mas ele sabia que os ingleses a favor das liberdade eram frutos de um processo deliberado e meticuloso que levou gerações para se estabelecer. A reforma, então, precisava ser cautelosa, respeitosa e prudente ou então poderia destruir onde se deveria aprimorar. Burke tinha motivo pra estar nervoso. Do outro lado do Canal da Mancha, os cabeças do estado estavam literalmente sendo cortados de seus ombros franceses. Burke ficou aterrorizado com o sangue e o caos que veio vomitado para fora do continente após o ano de 1789. Seu trabalho mais conhecido, de longe, é o seu Reflections on the Revolution France, um trabalho que Kirk credita como sendo para o qual “o conservadorismo filosófico deve a sua existência”[1]. Burke teve que lutar duramente para salvaguardar o sistema britânico do tipo de sublevação, dos pés à cabeça, que ele viu sob os jacobinos. Com Reflections, Burke soou o alarme para os seus companheiros britânicos, alertando-os de que se o ardor dissipador da “liberdade, igualdade e fraternidade” não fosse extinta em casa, os fogos da destruição flutuaria no Canal e colocaria toda a Inglaterra em chamas.

Kirk dedica a segunda parte de seu segundo capítulo aos escritos de Burke contra os radicais ingleses e franceses de seu tempo, em An Appel from the New to the Old WhigA Letter to a Noble Lord e Thoughts on a Regicide Peace, além de Reflections. Kirk chama estes trabalhos combinados de a carta do conservadorismo, para com eles em 1793, Burke conseguiu verificar o entusiasmo pela inovação e nivelamento social francês que foram invadindo a Grã-Bretanha.

Em resposta aos argumento dos filósofos que lideraram o movimento intelectual que produziu o Reino de Terror, Burke não teve escolha mas teve que entrar em um reino que ele geralmente detestava – abstração metafísica. Burke foi um homem de particularidades, do concreto e do real. Ele acreditava que o mundo árido da teoria abstrata, tão amada pelos radicais, era um perigo às liberdades reais dos ingleses. Contudo, em resposta à homens como Rousseau e Bentham e de suas doutrinas, Burke enquadrou uma filosofia triunfante do conservadorismo na crença de que os primeiros princípios na esfera moral nos vem através da revelação e intuição, e não de especulações fantasiosas de filósofos sonhadores. Até o advento da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, Kirk nota que os liberais clássico dos tempos de Burke, como Acton, estavam errados nas suas críticas de que Burke exagerou sobre Revolução Francesa.

Russell Kirk
Russell Kirk, o maior representante do conservadorismo nos EUA

Kirk passa a terceira parte do capítulo discutindo as visões religiosas de Burke, ao qual são fundamentais para os ideais do conservadorismo. De acordo com Burke, se quisermos conhecer o estado, devemos primeiramente conhecer o homem como um ser espiritual.

Burke via o homem como uma criação da Divina Providência. A vontade de Deus pelo homem político é conhecido “através das ideias pré concebidas e tradições que milênios de experiência humana, com meios divinos e julgamentos, implantaram nas mentes das espécies”[2], e assim a fé arrogante na frágil razão humana merece o desprezo. A mão de Deus moveu lenta e sutilmente na história de muitas gerações, guiando, permitindo e restringindo. Para Burke, era ímpio ao homem elevar seu intelecto isolado contra a sabedoria acumulada da história humana e planejar uma utopia construída de suas especificações. Sua crença na pecaminosidade da natureza humana, uma marca do conservadorismo, fez dele um inimigo implacável daqueles que tentam criar o paraíso na terra. Diferente dos pensadores do Iluminismo, Burke não estava disposto a recusar discussões de primeiros princípios e filosofia moral. Para ele, somos criaturas pecadoras criados por Deus, mas caídos, ou estamos na deriva de um vácuo moral, sujeitos aos caprichos dos mais fortes. A citação a seguir resume melhor a visão de Burke:

Tendo como certo de que eu não escrevo para os discípulos da filosofia parisiense, posso assumir que o terrível autor do nosso ser é o autor do nosso lugar na ordem de existência e que, tendo nos ordenando e guiando pela tática divina, não de acordo com nossa vontade mas de acordo com a Dele, Ele tem, e por sua inclinação, praticamente sujeitado-nos a agir a parte cujo pertence ao que nos é atribuído. Nós temos obrigações para com a humanidade em geral, o qual não são consequências de nenhum pacto voluntário especial. Eles surgem da relação de homem para com homem, e na relação de homem a Deus no qual as relações não são questões de escolha…. Quando casamos, a escolha é voluntária mas as obrigações não são questões de escolha…. Os instintos que dão origem a esse processo misterioso de natureza não são de nossa criação. Mas fora das causas físicas, desconhecidas para nós, talvez irreconhecível, surgem deveres morais, que, como somos perfeitamente capazes de compreender, somos indispensavelmente compelidos a executar.”[3]

A religiosidade de Burke é evidentemente ligada a sua filosofia política. Para ele, estadistas foram muito mais do que representantes do povo, eleitos para executarem suas licitações; Suas tarefas são sagradas, seus gabinetes consagrados para o aperfeiçoamento das gerações futuras e cumprimento da verdade imortal. Especialmente no governo popular, Kirk nota que um senso de propósito sagrado é necessário – o povo precisa conhecer suas responsabilidades em manter o poder. Para Burke, a sociedade era uma coisa sagrada, um acordo tácito entre os mortos, os vivos e ainda entre os não nascidos, para ser protegida e nutrida para fins que não trazem, de imediato, todos os ganhos. E se a sociedade é sagrada, se o mundo é ordenado de acordo com o plano divino, nós devemos fazer reparos nela somente de forma temerária e vacilante. “Burke“, Kirk nos diz, “poderia não imaginar uma ordem social durável sem o espírito de religiosidade”[4].

Para sustentar tal espírito, Burke confiou na igreja nacional e em sua influência na cultura britânica. A igreja deve consagrar o cargo público e insinuar veneração para o mundo assim como Deus nos deu. Igreja e estado, longe de serem entidades separadas na visão de Burke, era dependente um do outro, após uma dada maneira. Embora a igreja pode não necessitar do estado para sobreviver, o estado certamente necessita da igreja pois, como Kirk colocou, “a verdadeira religião não é meramente uma expressão de espírito nacional, vai além da lei terrena e sendo, de fato, a fonte de toda lei”.[5]

Talvez o maior monumento ao brilhantismo e liderança moral de Burke foi que não houve revolução inglesa no final século XVIII

Na parte quatro deste capítulo, Kirk volta ao pensamento de Burke no papel e na importância da prescrição, tradição e do costume para a preservação da ordem social. Burke, ele escreve, teve que responder as seguintes questões: qual é o fundamento da autoridade na política? Como os homens podem julgar a prudência e justiça de algum ato particular? Como o reino sobrenatural não gerência minimamente os detalhes da rotina da vida terrena, então onde estão os homens para procurar orientação em julgamentos políticos? Burke tinha uma resposta: a sabedoria coletiva da humanidade através de milênios de experiência e meditação ensinada pela Providência Divina – em outras palavras, tradição. O homem deveria ter respeito em suas decisões cotidianas para com os costumes e leis da humanidade e aplicá-los com conveniência.

Tradição possibilita o homem a viver junto com certo grau de paz, conduz a direcionar a consciência e fiscaliza os desejos. Kirk cita Burke neste ponto, escrevendo “Em algum lugar deve haver um controle sobre a vontade e o desejo, e menos do que há por dentro, e mais do que deve haver por fora.”[6] Burke não confiava na razão para manter os homens na linha e para a maioria dos homens ele duvidou, não usou a faculdade racional de todo modo. E aqueles que tentaram geralmente o fez sem uma educação suficiente. Ele preferiria confiar no senso comum e na sabedoria dos costumes antigos para guiar as massas e conter seus desejos mais básicos. Foi a “casca” das ideias preconcebidas e prescrição para rachar e a civilização estremeceria nas suas fundações. Se os homens começassem a alterar a constituição de seus estados quando quisessem, nenhuma geração se vincularia com a outra. Na poderosa frase de Burke, “homens se tornariam não melhores do que moscas de um verão”[7].

Então Burke imaginou os homens a resistir todas as tentações de mudança? Longe disso, devidamente orientada, mudança é um processo de renovação. A mudança burkeana é vagarosa, um processo dedicado de remendagem e polimento da velha ordem das coisas. Nas palavras de Kirk, “permitindo os processos naturais para tomar seus cursos, enquanto resfriando os calcanhares daqueles ensandecidos por reforma instantânea”. O melhor reformador, para Kirk, é aquele que “combina uma capacidade para reformar com uma disposição para preservar; o homem que ama a mudança é totalmente desqualificado, do seu desejo, para ser o agente da mudança”.[8]

Para a sua quinta parte de Burke, Kirk examina o pensamento do estadista numa questão controversa : direitos naturais (N. do T.: no original em inglês, “natural rights”). Burke rejeitou a doutrina iluminista de direitos naturais do homem, incluindo ensinamentos de Locke e Rousseau. Burke olhou para trás para uma tradição mais antiga, para o ius naturale (Jusnaturalismo) (N. do T.: no original em inglês, “natural law”) de Cícero, reforçado pelo dogma cristão e a Common Law inglesa. Os direitos dos homens não tinham a ver com o que devia-lhe a si, mas ao invés, com o que o homem devia a seu Criador. Burke, rejeitando as figuras anteriormente descritas e assim como os ensinamentos de Hume e Bentham, ao invés, definiu os direitos naturais como costume humano em conformidade com a intenção divina. Ele denunciou a ideia de um idílico estado livre de natureza, do qual o homem voluntariamente entrou na sociedade, há a crítica de suas leis pelos direitos que ele supostamente tinha de antemão. Nem a história nem a tradição sustenta a ideia de paraíso primitivo tal como os filósofos postulavam. Em vez disso, devemos embaralhar da melhor maneira possível, procurando adaptar nossas leis das de Deus, reconhecendo nossas limitações e reconhecendo direitos prescritivos herdados de nossos antepassados. Nós temos direitos, com certeza, mas Burke não viu nada além do perigo na tentativa que ele chamou de direitos reconhecidos de homens civilizados por uma noção abstrata de direitos do homem primitivo. O homem social abdicou-se de qualquer alegação de autonomia absoluta para ter uma medida de paz e segurança. E para os benefícios dessa sociedade o homem possui um direito, mas esse direito deve ser definido por uma convenção e por uma tradição solene. Burke acreditava que o homem poderia reivindicar um direito de equidade perante a lei, segurança de trabalho e propriedade, instituições civilizadas e ordem. Estes são os propósitos pelo qual Deus ordenou o estado, estes são os reais direitos dos homens confirmados pelos costumes e mantida pela lei.

O ponto de aprender com Burke é que o poder político tão difundido é o resultado de conveniência e não de argumento moral. Não há uma lei natural de igualdade [política] mas é extremamente difícil convencer os homens do porque eles não devem ser capazes de votar, uma vez que eles veem seus vizinhos votando.

Contudo, a igualdade social e política não estava entre o que Burke considerava ser os direitos naturais reais do homem. Pelo contrário, ele acreditava que a aristocracia e a hierarquia eram naturais e na parte seis deste capítulo, Kirk observa como Burke entendia a igualdade. Há um tipo de igualdade com o qual Deus nos dotou? Sim, Burke responde, embora de um tipo: a igualdade moral. Homens são julgados de modo justo por seu Criador. Nenhum homem possui mais valor inato como ser humano do que qualquer outro. Bem como para cada outra medida como riqueza, origem, inteligência e beleza, nós somos desiguais.

Homens são largamente desiguais nas formas de autoridades políticas. Certamente igualdade política é um produto artificial, homens não possuem direito natural a regra da maioria porque nem todos os homens são nascidos com o que Burke acreditou ser qualificações necessárias (educação, natureza moral, tradição e propriedade). Burke temia os resultados de um governo controlado por uma maioria onicompetente, como o cita Kirk: “O desejo de muitos e seus interesses deve, muitas vezes, diferir e grandioso será a diferença quando eles fazerem uma escolha má”[9].

Percorremos um longo caminho desde Burke. Em muitos países, como o nosso, há um sufrágio entre os adultos quase que universal. O ponto de aprender com Burke é que o poder político tão difundido é o resultado de conveniência e não de argumento moral. Não há uma lei natural de igualdade mas é extremamente difícil convencer os homens do porque eles não devem ser capazes de votar, uma vez que eles veem seus vizinhos votando. Kirk coloca a questão assim: “igualdade política é, portanto, em certo sentido inatural, Burke conclui; E aristocracia, por outro lado, é natural em certo sentido.”[10] Apesar de suas reservas, Burke acreditava que a natureza tinha provido a sociedade com os materiais para uma aristocracia que poderia produzir uma liderança competente. Burke respeitava a nobreza, com certeza, mas ele tinha em mente um diferente tipo de aristocracia. Em uma de suas passagens memoráveis, ele explica:

Ser criado em um local de estima, ver nada baixo e sórdido de uma infância; Ser ensinado a respeitar a si mesmo, ser habituado a inspeção censório dos olhos do público, olhar antecipadamente a opinião pública, estar em pé em terreno elevado como estar capacitado a ter uma ampla visão de uma difundida e infinitamente diversificada combinações de homens e negócios em uma ampla sociedade. Para ter tempo livre para ler, refletir, exprimir, ser capaz de obter o local e a atenção dos sábios e aprendido onde quer que elas estejam a ser encontrada. Ser habituada na busca da honra e dever. Ser formado ao mais alto grau de vigilância, prevenção e circunspecção em um estado de coisas ao qual não há falta cometida com impunidade e o menor dos erros obtém das consequência mais desastrosas. Para ser levado a uma concuta guardada e regulada de um senso que você é considerado como um instrutor de seus concidadãos nas suas maiores preocupações, e que você age como um reconciliador entre Deus e o homem; Para ser empregada como uma administradora da lei e justiça, e desse modo estar entre os benfeitores da humanidade; Para ser professor da alta ciência ou da arte liberal ou engenhosa. Para estar entre os comerciantes ricos, que partir dos seus sucesso se presume ter um afiado e vigoroso conhecimento, e possuir as virtudes da diligência, ordem, constância e regularidade e ter cultivado uma consideração habitual à justiça comutativa – estas são as circunstâncias dos homens da forma que eu deveria chamar de uma aristocracia natural, sem o qual não existe nação”[11].

Organizada nesta forma, estaria de acordo com a ordem natural eterna que sustenta todas as coisas no lugar. Um governo que coopera com a ordem criada em assegurar a vitalidade da sociedade civil. Nós adaptamos, aparamos e podamos a velha ordem para lidar com novas circunstâncias, mas não procuramos reconstruir nosso modo de vida para adequar às abstrações revolucionária. A compreensão de Burke sobre natureza e direitos e da permanência e mudanças, escreve Kirk: “eleva Burke pra um plano de reflexão muito acima de simples postulados de reforma especulativa francesa, e fornece suas ideias a uma elevação superior duradoura às vicissitudes da política.[12]”

Talvez o maior monumento ao brilhantismo e liderança moral de Burke foi que não houve revolução inglesa no final século XVIII. Diferente da França, ele conseguiu manter longe o jacobinismo em varrer a Grã Bretanha. Ele fundou uma escola política nos conceitos de prudência e veneração ao passado. Uma escola que, desde então, lutou contra o apetite da inovação. Kirk resume seu louvor ao estadista em seu sétimo e último capítulo, dizendo: “sua reverência aos conhecimento de nossos ancestrais, através do qual funciona o desígnio da Providência, é o princípio de todo o pensamento conservador consistente”[13].


Veja também:

Notas:
– da introdução:
[1]When it first began in the early 1940s, the freedom movement in America was not split between conservatives and libertarians. It was one coalition unified in rebellion against FDR’s welfare state. Its purpose was to restore the Founders’ vision of strict constitutional government and federalism. By 1960, however, the movement had become tragically bifurcated. Ayn Rand departed totally from Burkean influence to form today’s libertarian movement, while Russell Kirk drove conservatives away from their Lockean roots of individualism. This split has now created two incomplete visions (contemporary libertarianism and conservatism) that are, in their singularity, incapable of effectively challenging the authoritarian statism that dominates the institutions of modern society.
How Ron Paul Could Win the Presidency, entrevista feita com Nelson Hultberg em setembro de 2011.

– do artigo:
1. Russell Kirk, The Conservative Mind, Seventh Revised Edition. Washington, DC: Regnery (1985), p. 23.
2. Ibid, p. 29.
3. Ibid, p. 31.
4. Ibid, p. 33.
5. Ibid, p. 35.
6. Ibid, p. 42.
7. Ibid, p. 44.
8. Ibid, p. 45.
9. Ibid, p. 61.
10. Ibid.
11. Ibid, p. 62 f
12. Ibid, p. 64.
13. Ibid, p. 65.

John Locke

Ler fornece ao espírito materiais para o conhecimento, mas só o pensar faz nosso o que lemos.

John Locke nasceu em 29 de agosto 1632 em uma pequena aldeia inglesa chamada Wrington. Era filho de um pequeno proprietário de terras. Apesar de sua origem humilde, seus pais sempre se preocuparam em dar lhe uma boa formação educacional. Estudou na escola de Westminster e em Oxford na qual estudou Filosofia, Medicina e Ciências Naturais, o que mais tarde, em 1668 levou-o a ser admitido na academia científica da Sociedade Real de Londres.

Foi autor da doutrina filosófica chamada de Empirismo. De acordo com essa doutrina, as teorias científicas devem ser formuladas a partir da observação do mundo e das práticas, descartando portanto outras formas não científicas, como a fé, a intuição, as lendas e o senso comum.

Locke também acreditava que a mente humana era como uma “tábua rasa” ou uma folha em branco e é através das experiências pelas quais a pessoa passa em sua vida que sua personalidade e seus conhecimentos vão sendo formados. Acreditava que a sociedade interfere diretamente na formação dos indivíduos. Ideia também defendida por Jacques Rousseau, em sua famosa frase “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”.

Mesmo sabendo que John Locke foi um dos ideólogos do Liberalismo, logo quando começou a se interessar por política ele tinha ideias nada liberais. Inicialmente ele defendia uma estrutura de governo centralizada a fim de impedir uma desordem no interior da sociedade. Sua visão era conservadora e autoritária também no campo religioso. Ele chegou a acreditar que os monarcas poderiam interferir na liberdade religiosa dos indivíduos.

Mas, graças ao seu interesse pela filosofia, suas opiniões foram totalmente modificadas. A partir daí, Locke começa a questionar a Teoria do Direito Divino dos Reis, indo de encontro ao regime Absolutista. Para ele a soberania não vem do Estado e sim da população. Para ele o Estado só deveria existir a fim de garantir o respeito aos direitos naturais que seriam estes: a proteção à vida, à liberdade e à propriedade. A partir do momento que o Estado não esteja atendendo a essa necessidade, a população tem o direito de derrubá-lo e substituí-lo por outro mais competente.

No que se refere à questão da propriedade, Locke defendia que toda riqueza que o homem fosse capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser de sua propriedade desde que isso não prejudicasse a ninguém. Essa é uma das bases da ideia para uma sociedade sem interferência governamental, um dos princípios básicos do Liberalismo. Locke passou a defender também a separação da igreja do Estado e a liberdade religiosa. Pode-se dizer que Locke considerava bastante importante a tolerância.

John Locke defendia que o poder deveria ser dividido em três: legislativo, executivo e judiciário. Sendo que o Legislativo, por representar o povo, seria o mais importante deles. Apesar de afirmar que todos os homens fossem iguais, ele defendia a escravidão, mas não sendo ela imposta pela cor da pele. Para ele, a escravidão aconteceria com os prisioneiros de guerra, pois estes teriam tido suas vidas poupadas e como ônus deveriam dar em troca a sua liberdade. Porém, isso na época era irrelevante, por ser a escravidão uma prática comum e o próprio Aristóteles a defendia e nem por isso deixou de ser um filósofo brilhante.

As ideias dele ocasionaram a vitória da Revolução Gloriosa, em 1688 contra o Absolutismo. Ele exerceu também grande influência sobre todos os pensadores de sua época e foi um precursor do pensamento Iluminista.

John Locke nunca se casou, tampouco teve filhos e faleceu em 28 de outubro de
1704 aos 72 anos de idade e encontra-se sepultado em All Saints Churchyard, High
Laver, Essex na Inglaterra.

Algumas citações de John Locke:

A necessidade de procurar a verdadeira felicidade é o fundamento da nossa liberdade.

É mais fácil avaliar do espírito de qualquer pessoa pelas suas perguntas do que pelas suas respostas.

A influência do exemplo é penetrantíssima na alma.