Andy Warhol E O Capitalismo Pop

Artigo de Diogo Costa originalmente publicado no Capitalismo Para os Pobres. Para ler o artigo original, clique aqui.

Uma nova temporada de Arrested Development vai estrear no Netflix em maio. Ainda bem que o Netflix não sabe o quanto eu estaria disposto a pagar para acompanhar a família Bluth por mais 13 episódios. Pra falar a verdade, nem eu sei. Porque eu não tenho que fazer nenhum planejamento para ver se Arrested Development cabe no meu orçamento pessoal. Produzir e gravar uma série tem um custo milionário, mas o maior custo marginal de assistir uma série talvez seja o tempo gasto com a maratona de episódios.

Nenhum sistema econômico fez mais para garantir o acesso generalizado à arte e à cultura que o capitalismo. Ainda assim, a atitude default do artista é tratar o capitalismo como inimigo da arte e da cultura.

Andy Warhol foi uma exceção. Dizia que a característica mais fantástica dos Estados Unidos era que lá ”os consumidores mais ricos compram essencialmente as mesmas coisas que os mais pobres”. Warhol não apenas pintava o capitalismo. Ele também admirava o capitalismo e sua equalização do consumo:

Você está assistindo TV e vê uma Coca-Cola. Você sabe que o presidente bebe Coca, que a Liz Taylor bebe Coca, e aí pensa que você pode beber Coca também. Uma Coca é uma Coca e nenhuma quantidade de dinheiro pode te dar uma Coca melhor que aquela que o mendigo da esquina está bebendo. Todas as Cocas são iguais e todas as Cocas são boas. Liz Taylor sabe disso, o presidente sabe disso, o mendigo sabe disso e você sabe disso.

Na Europa, a realeza e a aristocracia comiam bem melhor que os camponeses – eles sequer comiam as mesmas coisas. Era perdiz para um, mingau para outro, e cada classe estava presa à sua comida. Mas quando a Rainha Elizabeth veio [aos Estados Unidos] e o Presidente Eisenhower comprou um cachorro quente para ela, estou certo de que ele se sentiu confiante que ela não poderia mandar entregar no Palácio de Buckingham um cachorro quente melhor que aquele que ele comprou para ela por talvez vinte centavos no estádio. Porque não existe cachorro quente melhor que um cachorro quente de estádio. Nem por um dólar, nem por dez dólares, nem por cem dólares ela poderia ter conseguido um cachorro quente melhor. Ela podia conseguir por vinte centavos assim como qualquer outra pessoa.

O capitalismo é capaz de realizar inclusão social em massa.

O governo brasileiro promete dar um vale de R$50 para os pobres consumirem cultura. Em comparação, Hollywood movimenta bilhões de dólares todos anos para que as obras dos artistas mais admirados de sua geração, como Martin Scorcese e Quentin Tarantino possam ser assistidos por Mark Zuckerberg e por Barack Obama e pela menina que acessa o Facebook da LAN house e pelo rapaz que lava carros no centro da cidade. Quem está fazendo mais pelos pobres?

Atores e cantores parecem viver uma tensão entre serem sustentados pelo capitalismo enquanto discursam contra o capitalismo. Andy Warhol, pelo contrário, acreditava que um grande empreendedor era também um grande artista:

Ser bom nos negócios é o tipo mais fascinante de arte. Durante a era hippie as pessoas menosprezavam a ideia de negócio – diziam “dinheiro é ruim” e “trabalhar é ruim”, mas fazer dinheiro é uma arte e trabalhar é uma arte e uma boa empresa é a melhor arte.”


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Por que os intelectuais odeiam o capitalismo?

por Jesus Huerta de Soto. Artigo publicado originalmente no site do Instituto Mises Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Por que os intelectuais sistematicamente odeiam o capitalismo?  Foi essa pergunta que Bertrand de Jouvenel (1903-1987) fez a si próprio em seu artigo Os intelectuais europeus e o capitalismo.

Esta postura, na realidade, sempre foi uma constante ao longo da história.  Desde a Grécia antiga, os intelectuais mais distintos — começando por Sócrates, passando por Platão e incluindo o próprio Aristóteles — viam com receio e desconfiança tudo o que envolvia atividades mercantis, empresariais, artesanais ou comerciais.

E, atualmente, não tenham nenhuma dúvida: desde atores e atrizes de cinema e televisão extremamente bem remunerados até intelectuais e escritores de renome mundial, que colocam seu labor criativo em obras literárias — todos são completamente contrários à economia de mercado e ao capitalismo.  Eles são contra o processo espontâneo e de interações voluntárias que ocorre de mercado.  Eles querem controlar o resultado destas interações.  Eles são socialistas.  Eles são de esquerda.  Por que é assim?

Vocês, futuros empreendedores, têm de entender isso e já irem se acostumando.  Amanhã, quando estiverem no mercado, gerenciando suas próprias empresas, vocês sentirão uma incompreensão diária e contínua, um genuíno desprezo dirigido a vocês por toda a chamada intelligentsia, a elite intelectual, aquele grupo de intelectuais que formam uma vanguarda.  Todos estarão contra vocês.

“Por que razão eles agem assim?”, perguntou-se Bertrand de Jouvenel, que em seguida pôs-se a escrever um artigo explicando as razões pelas quais os intelectuais — no geral e salvo poucas e honrosas exceções — são sempre contrários ao processo de cooperação social que ocorre no mercado.

Eis as três razões básicas fornecidas por de Jouvenel.

Primeira, desconhecimento.  Mais especificamente, o desconhecimento teórico de como funcionam os processos de mercado.  Como bem explicou Hayek, a ordem social empreendedorial é a mais complexa que existe no universo.  Qualquer pessoa que queira entender minimamente como funciona o processo de mercado deve se dedicar a várias horas de leituras diárias, e mesmo assim, do ponto de vista analítico, conseguirá entender apenas uma ínfima parte das leis que realmente governam os processos de interação espontânea que ocorrem no mercado.  Este trabalho deliberado de análise para se compreender como funciona o processo espontâneo de mercado — o qual só a teoria econômica pode proporcionar — desgraçadamente está completamente ausente da rotina da maior parte dos intelectuais.

Intelectuais normalmente são egocêntricos e tendem a se dar muito importância; eles genuinamente creem que são estudiosos profundos dos assuntos sociais.  Porém, a maioria é profundamente ignorante em relação a tudo o que diz respeito à ciência econômica.

A segunda razão, soberba. Mais especificamente, a soberba do falso racionalista.  O intelectual genuinamente acredita que é mais culto e que sabe muito mais do que o resto de seus concidadãos, seja porque fez vários cursos universitários ou porque se vê como uma pessoa refinada que leu muitos livros ou porque participa de muitas conferências ou porque já recebeu alguns prêmios.  Em suma, ele se crê uma pessoa mais inteligente e muito mais preparada do que o restante da humanidade.  Por agirem assim, tendem a cair no pecado fatal da arrogância ou da soberba com muita facilidade.

Chegam, inclusive, ao ponto de pensar que sabem mais do que nós mesmos sobre o que devemos fazer e como devemos agir.  Creem genuinamente que estão legitimados a decidir o que temos de fazer.  Riem dos cidadãos de ideias mais simplórias e mais práticas.  É uma ofensa à sua fina sensibilidade assistir à televisão.  Abominam anúncios comerciais.  De alguma forma se escandalizam com a falta de cultura (na concepção deles) de toda a população.  E, de seus pedestais, se colocam a pontificar e a criticar tudo o que fazemos porque se creem moral e intelectualmente acima de tudo e todos.

E, no entanto, como dito, eles sabem muito pouco sobre o mundo real.  E isso é um perigo.  Por trás de cada intelectual há um ditador em potencial.  Qualquer descuido da sociedade e tais pessoas cairão na tentação de se arrogarem a si próprias plenos poderes políticos para impor a toda a população seus peculiares pontos de vista, os quais eles, os intelectuais, consideram ser os melhores, os mais refinados e os mais cultos.

É justamente por causa desta ignorância, desta arrogância fatal de pensar que sabem mais do que nós todos, que são mais cultos e refinados, que não devemos estranhar o fato de que, por trás de cada grande ditador da história, por trás de cada Hitler e Stalin, sempre houve um corte de intelectuais aduladores que se apressaram e se esforçaram para lhes conferir base e legitimidade do ponto de vista ideológico, cultural e filosófico.

E a terceira e extremamente importante razão, o ressentimento e a inveja.  O intelectual é geralmente uma pessoa profundamente ressentida.  O intelectual se encontra em uma situação de mercado muito incômoda: na maior parte das circunstâncias, ele percebe que o valor de mercado que ele gera ao processo produtivo da economia é bastante pequeno.  Apenas pense nisso: você estudou durante vários anos, passou vários maus bocados, teve de fazer o grande sacrifício de emigrar para Paris, passou boa parte da sua vida pintando quadros aos quais poucas pessoas dão valor e ainda menos pessoas se dispõem a comprá-los.  Você se torna um ressentido.  Há algo de muito podre na sociedade capitalista quando as pessoas não valorizam como deve os seus esforços, os seus belos quadros, os seus profundos poemas, os seus refinados artigos e seus geniais romances.

Mesmo aqueles intelectuais que conseguem obter sucesso e prestígio no mercado capitalista nunca estão satisfeitos com o que lhes pagam.  O raciocínio é sempre o mesmo: “Levando em conta tudo o que faço como intelectual, sobretudo levando em conta toda a miséria moral que me rodeia, meu trabalho e meu esforço não são devidamente reconhecidos e remunerados.  Não posso aceitar, como intelectual de prestígio que sou, que um ignorante, um parvo, um inculto empresário ganhe 10 ou 100 vezes mais do que eu simplesmente por estar vendendo qualquer coisa absurda, como carne bovina, sapatos ou barbeadores em um mercado voltado para satisfazer os desejos artificiais das massas incultas.”

“Essa é uma sociedade injusta”, prossegue o intelectual.  “A nós intelectuais não é pago o que valemos, ao passo que qualquer ignóbil que se dedica a produzir algo demandado pelas massas incultas ganha 100 ou 200 vezes mais do que eu”.  Ressentimento e inveja.

Segundo Bertrand de Jouvenel,

O mundo dos negócios é, para o intelectual, um mundo de valores falsos, de motivações vis, de recompensas injustas e mal direcionadas . . . para ele, o prejuízo é resultado natural da dedicação a algo superior, algo que deve ser feito, ao passo que o lucro representa apenas uma submissão às opiniões das massas.

[…]

Enquanto o homem de negócios tem de dizer que “O cliente sempre tem razão”, nenhum intelectual aceita este modo de pensar.

E prossegue de Jouvenel:

Dentre todos os bens que são vendidos em busca do lucro, quantos podemos definir resolutamente como sendo prejudiciais?  Por acaso não são muito mais numerosas as ideias prejudiciais que nós, intelectuais, defendemos e avançamos?

Conclusão

Somos humanos, meus caros.  Se ao ressentimento e à inveja acrescentamos a soberba e a ignorância, não há por que estranhar que a corte de homens e mulheres do cinema, da televisão, da literatura e das universidades — considerando as possíveis exceções — sempre atue de maneira cega, obtusa e tendenciosa em relação ao processo empreendedorial de mercado, que seja profundamente anticapitalista e sempre se apresente como porta-voz do socialismo, do controle do modo de vida da população e da redistribuição de renda.

Os três tipos de Homem

Por G. K. Chesterton, tradução de Agnon Fabiano.

Homero, o mais conhecido poeta épico da Grécia Antiga.

Em termos gerais, há três classes de pessoas nesse mundo. A primeira classe é o Povo; possivelmente integra a classe mais ampla e de maior valor. Devemos a essa classe as cadeiras em que nos sentamos, as roupas que vestimos, as casas em que moramos e, de fato (quando pensamos melhor), provavelmente nós mesmos fazemos parte dessa classe. A segunda classe pode-se denominar, por conveniência, a dos Poetas. Em geral, são um mal para suas famílias, mas um bem para a humanidade. A terceira classe é a dos Cientistas e Intelectuais, algumas vezes descritos como Pensadores; e estes são uma praga e desolação para suas famílias e também para a humanidade. Evidentemente, nessa classificação, por vezes, há sobreposições, como em qualquer outra classificação. Algumas boas pessoas são quase poetas e alguns maus poetas são quase professores. Porém essa divisão segue a linha de um segmento real da psicologia. Eu não a ofereço às pressas. Tem sido fruto de mais de dezoito minutos de reflexão séria e de investigação.

A classe que se denomina Povo (a que você e eu, com tanto orgulho, nos sentimos ligados), tem eventuais, porém profundas, suposições chamadas “senso-comum”, como a que diz que as crianças são encantadoras, ou que o crepúsculo é melancólico e sentimental, ou que um homem lutando contra três é um belo espetáculo. No entanto, esses sentimentos não são rudes, nem mesmo são simples. O encanto das crianças é muito sutil; é até complexo, ao ponto de ser quase contraditório. Em seu sentido mais simples, é uma mistura de alegria e impotência. O crepúsculo desperta um sentimento que até mesmo no mais vulgar salão de danças ou no mais rude casal de namorados, é valioso, na medida em que se contempla. É estranhamente equilibrado entre tristeza e prazer. Poderíamos descrevê-lo como “um prazer seduzindo a tristeza”. O surto de cavalheirismo pelo qual todos nós admiramos o homem que luta contra a injustiça não é muito fácil de se definir; significa muitas coisas: compaixão, surpresa, drama, desejo de justiça, deleite de experimentar o desconhecido. As ideias do povo são realmente ideias muito sutis, mas ele não as expressam de maneira sutil. Na verdade, não as expressam de modo algum, exceto naquelas ocasiões (agora muito raras) em que são dadas à insurreição ou ao derramamento de sangue.

É isso que justifica, o que de nenhuma outra maneira poderia ser justificada, a existência dos poetas. Os poetas são aqueles que partilham esses sentimentos populares, e podem expressá-los de maneira que pareçam as coisas estranhas e delicadas que realmente são. Os poetas promovem o humilde requinte da população. Onde o homem comum esconde o mais original sentimento, dizendo “Um garotinho singular”, Victor Hugo teria escrito “L’art detre grand-pére” (“A arte de ser avô”) [1]. Onde o executivo diz insensivelmente “a noite está chegando”, o senhor Yeats escreveria “Into The Twilight” (“No crepúsculo”)[2]. Onde o trabalhador comum poderia apenas balbuciar algo sobre ser corajoso e ter objetivos, Homero[3] mostrará um herói esfarrapado desafiando os príncipes em seus próprios banquetes. Os poetas elevam os sentimentos populares para torná-los mais penetrantes e deslumbrantes, porém, devemos lembrar sempre que eles são apenas guardiões desses sentimentos. Nenhum homem jamais escreveu qualquer boa poesia para mostrar que a infância foi terrível, ou que o anoitecer era ofuscante e ridículo, ou que um homem era desprezível, porque havia duelado com outros três. Pessoas que afirmam isso são cientistas ou os tolos.

Os poetas são aqueles que se erguem sobre povo, para compreendê-lo. E, geralmente, a maioria dos poetas escreveu em prosa: por exemplo, Rabelais e Dickens. Os pedantes se erguem sobre o povo, recusando compreendê-lo, dizendo que suas obscuras e estranhas preferências são preconceitos e superstições. Os arrogantes fazem com que o povo se sinta estúpido. Os poetas fazem com que o povo se sinta mais sábio do que jamais poderia imaginar. Há muitos elementos estranhos nessa situação. O mais estranho de todos talvez seja o destino desses fatores no contexto político. Muitas vezes, os poetas que abraçam e admiram o povo são apedrejados e crucificados. Aos tolos que depreciam o povo, geralmente são lhes dado terra e coroa. Por exemplo, a Câmara dos Comuns[4] tem um grande número de pedantes e, em comparação, pouquíssimos poetas.

Por poetas, como já tenho dito, não me refiro, de maneira alguma, aos indivíduos que escrevem poesia ou qualquer outra coisa. Refiro-me aos que, tendo cultura e imaginação, usam-nas para compreender e compartilhar o sentimento de seus companheiros, ao contrário daqueles que os usam para conseguir o que eles chamam de “subir a um plano mais elevado”. Em termos simples, o poeta difere do povo por sua sensibilidade, os cientistas diferem do povo por sua insensibilidade. Eles não têm sutiliza e sensibilidade suficiente para simpatizar com as pessoas comuns. Seu intento é apenas contradizer o povo, ignorá-lo, conforme seu próprio plano egoísta, para mostrar a si mesmos que o povo está errado, independente do que diga. Esquecem que a ignorância tem, muitas vezes, as intuições requintadas da inocência.

Deixe-me dar um exemplo que dará ênfase à linha do debate. Abra o primeiro Comic Cuts[5] que encontrar e deixe seus olhos correrem adoravelmente sobre a primeira piada que se refere à sogra. Mas a piada, por ser uma piada para pessoas comuns, será uma piada simples; a idosa senhora será alta e robusta e o marido, dominado pela mulher, será pequeno e covarde. Apesar disso, uma sogra não é uma ideia simples. É uma ideia muito sutil. O problema não é que ela seja grande e arrogante. Freqüentemente ela é pequena e extraordinariamente amável. O problema da sogra é como o crepúsculo: é quase uma coisa e quase outra.

No entanto, a descrição do crepúsculo, essa bela e até terna perturbação, nos pode ser transmitido tal como é, somente por um poeta e, neste caso, o poeta deverá ser um romancista muito sincero e penetrante, como George Meredith, ou o Sr. HG Wells[6], cuja “Ann Veronica”[7], acabo de ler com deleite. Eu acredito no que dizem os bons poetas e romancistas, porque eles seguem as pistas que as fadas dão no Comic Cuts. Mas suponha que apareça o cientista e diga (como certamente o dirá), “A sogra é como qualquer um de nós. As considerações de gênero não devem perturbar a camaradagem. A questão da idade não deve influenciar no intelecto. A sogra é apenas mais uma das mentalidades. Temos que nos emancipar e nos livrar dessas hierarquias tribais”. Mas quando o professor dissesse isso (como sempre faz), eu lhe diria: “Senhor, você é mais rude que o Comic Cuts. Você é mais vulgar e mais tolo do que um cantor desajeitado fora do ritmo. Você é mais rude e ignorante que a população. Essas pessoas simples alcançaram, pelo menos, uma matiz social e uma verdadeira distinção mental, ainda que só possam expressá-la desajeitadamente. Mas você é tão desajeitado, que não consegue alcançá-la. Se você realmente não consegue perceber que a mãe do noivo e da noiva têm algumas razões para desconfiar, então você não é nem bem educado, nem humano. Você não tem nenhuma sensibilidade pelos afetos profundos e misteriosos da humanidade”. Melhor expor as dificuldade como o inculto, do que ser orgulhosamente inconsciente das dificuldades.

A mesma questão pode ser muito bem resumida no velho provérbio “Dois, são uma companhia, três, nenhuma”. Esse provérbio é a verdade exposta da maneira popular, ou seja, é a verdade exposta através de um erro. Certamente não é verdade que três não seja uma companhia. Três é uma excelente companhia. Três é o número ideal para uma perfeita camaradagem, como acontece nos “Três Mosqueteiros”[8]. Mas se você rejeita o provérbio inteiro e diz que dois ou três não faz diferença na camaradagem, se não consegue ver que três é um abismo maior entre dois e três do que entre três e três milhões, então sinto ter que lhe dizer que você pertence a terceira classe de seres humanos; que não terá amigos, nem dois nem três, e permanecerá sozinho resmungando no deserto até a morte.


Publicado originalmente na página Chesterton Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Notas do tradutor:
[1] Coleção de poemas de Victor Hugo, publicado em 1877. Neles, o poeta faz alusão à inocência e ao comportamento terno de seus netos.
[2] W.B. Yeats, poeta e dramaturgo irlandês.
[3] Poeta épico da Grécia Antiga, ao qual tradicionalmente se atribui a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia.
[4] Referência ao parlamento britânico, grossamente, equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil.
[5] Primeira revista em quadrinhos, criada em 1890. Seu conteúdo era satírico-humorístico
[6] Ambos poetas e escritores ingleses.
[7] Romance de H.G.Wells, lançado em 1909.
[8] Romance de Alexandre Dumas, lançado em 1844.