O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

Texto de Davi Caldas (colaborador do “Direitas Já!”), também publicado em seu blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.
Ronald Reagan, presidente dos EUA entre os anos de 1981 e 1989. Um dos maiores expoentes do conservadorismo politico moderno.

Normalmente livros e professores de história nos dizem que nazistas e fascistas eram conservadores e, portanto, de direita. E ai do aluno que tentar dizer algo contra esta concepção! Será taxado de revisionista, falsificador da história e etc. Mas será que é isso mesmo? Será que os dois movimentos realmente foram conservadores e isso é tão evidente que não pode ser questionado? Para responder a essa pergunta é necessário primeiro saber o que é conservadorismo.

1) Definindo Conservadorismo

Não existe um só conservadorismo. Esse é o primeiro fato que devemos ter em mente. Podemos falar em pelo menos três tipos de conservadorismos diferentes um do outro: o conservadorismo político, o conservadorismo moral e o conservadorismo religioso. Vamos observar cada um deles.

1.1) Conservadorismo Político

O primeiro tipo de conservadorismo diz respeito apenas à política. Ele se define por ser uma posição cética a mudanças abruptas e irrefletidas na sociedade, bem como a projetos que intencionam uma completa remodelação na estrutura social tradicional à qual estamos acostumados. Por quê? Existem três motivos básicos. O primeiro é a experiência. Para o conservador, o passado tem muito a nos ensinar, pois é por meio da observação do que já passou que podemos saber o que provavelmente dá certo e o que provavelmente dá errado em termos de vida social. Também é por meio da observação do que já passou que podemos entender como as coisas costumam a ser. Por exemplo, o conservador sabe que o ser humano, no geral, não costuma a ser confiável. Ele sabe disso porque tem sido assim há milênios e continua sendo assim hoje.

O conservador também sabe que existe um senso moral básico na humanidade porque, da mesma maneira, tem sido assim há milênios e continua ser. Não importa se ele vai acreditar que tal senso moral provém de Deus, ou existe por si só, ou é fruto da evolução; o fato é que a experiência mostra que este senso existe. E por aí vai.

O segundo motivo seria o medo dos excessos. O conservador entende que mudanças abruptas e irrefletidas podem gerar excessos sociais e políticos, tais como vandalismos, conflitos freqüentes, desordens urbanas, desrespeito às autoridades, desrespeito às leis, excesso de poder, autoritarismo e genocídios (excessos que podem ser cometidos tanto pelos governantes, quanto pela população). Por mudanças abruptas podemos entender modificações profundas feitas sem um processo de transição. Por mudanças irrefletidas podemos entender modificações que não se baseiam no que o passado nos ensinou, mas tão-somente em especulações e idealismos.

Por fim, o terceiro motivo são os pilares sociais. Para o conservador, a sociedade foi sendo erigida sobre certos pilares. Esses pilares, evidentemente, não podem ser destruídos, do contrário a sociedade entra em colapso. Podemos citar como pilares sociais a moral geral, o direito a vida, o Estado, as leis, a subordinação do ser humano às leis, a hierarquia, as forças armadas, o direito à propriedade privada, a cultura local, as crenças religiosas, a família e etc.

O conservador entende que esses fatores desempenham papel fundamental no funcionamento da sociedade tal como conhecemos. Por esse motivo são considerados pilares. Sua destruição não nos dá qualquer garantia de que poderemos ter uma sociedade melhor (ou mesmo que poderemos ter uma sociedade). Na realidade, o conhecimento experiencial de que o ser humano não perfeito (tampouco perfectível), parece indicar que tais fatores protegem os homens uns dos outros, de modo que, se forem atacados, farão levarão a espécie humana ao completo estado de caos.

É por causa desses três motivos básicos que o conservador político se opõe a políticas de viés revolucionário, socialista, progressista ou qualquer outro que apresente uma postura idealista. Elas são consideradas políticas mirabolantes e perigosas, porque idealizam um paraíso na terra (ou algo próximo a isso) e sustentam que o homem é capaz de alcançar este paraíso através da destruição e recriação da sociedade, fazendo uso do Estado como ferramenta para tal.

Em prol da reconstrução da sociedade, o governo idealista torna-se destruidor da experiência humana, dos pilares da sociedade e dos valores humanos mais básicos, passando por cima do que aprendemos com as gerações anteriores e o passado. Torna-se também coletivista e classista, obrigando o indivíduo a subordinar toda a sua vida a construção dessa sociedade ideal e criando uma série de inimigos que precisam ser destruídos (burgueses, religiosos, conservadores, judeus, negros, estrangeiros…), a fim de que a nova sociedade possa se consolidar. Neste ponto, o Estado se transforma em um Deus que controla o destino de todos os indivíduos.

Os revolucionários anti-religiosos da Revolução Francesa e os revolucionários maoístas chineses da metade do século XX são bons exemplos de idealistas que enchem os conservadores de horror. Em ambos os casos, tais revolucionários pretendiam moldar uma nova sociedade, destruindo o que conhecemos e impondo um novo sistema de crenças unificado. O resultado foi desastroso e só confirmou a importância, para os conservadores, de se conservar a sociedade que conhecemos.

É preciso enfatizar que o próprio conservadorismo político pode ser dividido em dois subtipos: o conservadorismo absolutista e o conservadorismo pós-absolutista (que podemos chamar de conservadorismo moderno). Em essência não há diferença entre eles. Ambos se tratam de uma posição cuidadosa em relação a mudanças sociais, que procura conservar o que julga ser mais garantido do ponto de vista da experiência. No entanto, o conservadorismo absolutista acreditava que o regime que melhor servia para os seus propósitos conservadores era a monarquia absolutista. O conservadorismo moderno quebrou com essa concepção.

Em princípio, a posição absolutista não apresentava argumentos muito fortes a seu favor. O poder absoluto do rei era justificado com base em uma suposta vontade divina de que as coisas fossem daquela forma. Com a chegada do iluminismo, alguns pensadores absolutistas foram desenvolvendo argumentos mais fortes. Thomas Hobbes, por exemplo, em sua obra Leviatã, entendia que o absolutismo tornava o Estado mais forte no que tange à manutenção da ordem e, consequentemente, da paz. Como para ele a única função do Estado era garantir minimamente o direito do cidadão à vida, então se fazia necessário a mão forte de um rei absoluto.

Curiosamente, os argumentos que Hobbes oferece ao longo de sua obra para defender a necessidade de um rei absoluto levam em conta um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano, o que, certamente pode ser utilizado contra o próprio absolutismo. De fato, muitos autores iluministas que foram surgindo durante esta época fizeram exatamente isso: sustentaram que o poder deveria ser limitado para se evitar o despotismo.

É exatamente aí que surgem os conservadores modernos. Sem deixarem de ser conservadores, eles percebem, com base na experiência, que a monarquia absolutista levava ao abuso de poder. Percebem também que, embora o absolutismo já durasse muitas gerações, ele não se tratava do único regime que já existira, tendo existido outros que funcionaram de melhor maneira. Isso tornava a decisão de romper com este regime, um tanto refletida e, portanto, de acordo com o princípio conservador.

Essa ampla e prudente reflexão dos conservadores modernos sobre os perigos de se concentrar muito poder nas mãos de governantes criou um forte ceticismo em relação a Estados intervencionistas, centralizados e com muitas funções. Reconhecia-se que um Estado assim levaria facilmente ao abuso de poder. Deste modo, a defesa de um Estado mínimo e descentralizado logo se tornou uma das principais marcas do conservadorismo político moderno. Quando, por exemplo, a constituição americana foi formulada, grande cuidado houve para que o Estado não tivesse possibilidades de se tornar despótico.

É importante ressaltar que houve um choque entre esses dois subtipos de conservadorismo e que, inevitavelmente, os conservadores modernos foram taxados de revolucionários pelos conservadores absolutistas. Evidentemente, ambos ficaram em lados opostos na guerra política. É por este motivo que conservadores modernos, que eram partidários do liberalismo econômico, ficaram ao lado de revolucionários radicais e socialistas a princípio.

O posterior declínio do absolutismo inaugurou um novo contexto político, no qual os recém-criados termos políticos, “direita” e “esquerda”, passariam a ser usados para expressar a oposição entre os conservadores modernos (adeptos do liberalismo econômico – o “capitalismo”) e os idealistas revolucionários.

O conservadorismo absolutista não desapareceu de todo. Mesmo com a total destruição do absolutismo como forma de governo, resquícios de seu pensamento foram atravessando as décadas, se misturando a outras ideologias e mantendo viva uma posição que já não podemos nem chamar de conservadora, mas sim retrógrada. E, por assim ser, sequer encontra muita definição no espectro moderno. São reminiscências de outro contexto político, em que nem faria sentido falar em direita e esquerda.

Mas voltando ao conservadorismo pós-absolutista, ou moderno, algumas leituras são indispensáveis para que se tenha um panorama geral desta posição política. Iniciar com Edmund Burke é aconselhável. Em sua obra “Reflexões sobre a Revolução em França”, o político e pensador britânico expõe suas críticas à Revolução Francesa, que baseada em um idealismo cego e destruidor, gerou um banho de sangue. Sua defesa da prudência política é brilhante. Ao mesmo tempo, deixa claro o seu incondicional apoio ao sistema parlamentarista de governo, em lugar do despotismo monárquico. Em Burke achamos o equilíbrio entre liberdade política e ordem social que faltou à França.

Partindo de Burke, as considerações do francês Alexis de Tocqueville também são imprescindíveis, seguindo Smith, Jefferson, Lincoln e Hume, e avançando para Böhm-Bawerk, Voegelin, Ruy Barbosa, Churchill, Mises, Hayek, Kirk, F. F. Bunckley, Olavo de Carvalho, Reagan e Thatcher. Todos estes foram expoentes do moderno conservadorismo político. A leitura deles nos oferece um padrão de pensamento contínuo que é seguido desde a fase de declínio do absolutismo até os dias de hoje. Não houve grandes mudanças no interior do conservadorismo moderno de lá para cá.

1.2) Conservadorismo Moral

O segundo tipo de conservadorismo é o moral. Este é totalmente distinto do político. Embora muitos conservadores políticos sejam também conservadores morais, não é necessário ser ambos. O conservadorismo moral diz respeito à conservação da moral judaico-cristã. O adepto desta posição não apenas acredita em um conjunto de valores morais gerais, como o conservador político, mas também crê em um conjunto de valores morais mais específicos, que se encontram dentro da tradição judaico-cristã.

Desta forma, conservador moral vai condenar o aborto, a eutanásia, a venda e o consumo de drogas, a livre venda de órgãos, o consumo excessivo de álcool (ou até mesmo o consumo de álcool), o fumo, o jogo de azar, o divórcio, o homossexualismo, o casamento gay, a adoção de crianças por casais homossexuais, a bigamia, a poligamia, o poliamor, a pedofilia, a bestialidade, a pornografia, os palavrões, os filmes, desenhos e jogos violentos, o topless, o nudismo, a promiscuidade, a boemia e etc.

Como afirmei e o leitor pode constatar, há valores mais gerais, que são cridos pela grande maioria das pessoas, e valores mais específicos. Assim, é perfeitamente possível concordar com muitas posições do conservadorismo moral e ainda assim não ser um conservador moral.

Aqui, mais uma vez, podemos e devemos dividir o conservadorismo moral em dois subtipos (pelo menos): o moral passivo e o moral ativo. O passivo seria aquele em que o conservador apenas tem uma opinião moral conservadora, mas não acha que a maioria dos valores em que acredita deve se tornar lei. Eu, por exemplo, sou um cristão conservador moral e acredito que fumar e beber são hábitos moralmente degradáveis, contudo, não defendo a proibição da venda de álcool e cigarros. Cada um que escolha o que acha melhor para si (desde que não afete diretamente a liberdade do outro).

Já o conservadorismo moral ativo seria aquele em que o conservador acredita que a maioria dos valores morais que sustenta precisa estar na lei. Não obstante, outras subdivisões ainda podem ser feitas, já que um conservador poderia ser extremamente ativo ou extremamente passivo ou mesmo moderado. Eu acredito que a maioria dos cristãos seja composta por conservadores morais moderados.

Distinguir o conservadorismo político do conservadorismo moral é de suma importância para estabelecer a posição política de uma pessoa. Porque as aquelas posições morais que são mais específicas e individuais pouco importam para definir uma pessoa no espectro (ao contrário das posições mais gerais, como a do aborto, por exemplo, que lida com a questão do direito a vida).

1.3) Conservadorismo Religioso

Por fim, há o conservadorismo religioso. Este é o que menos tem a ver com política. Ele se refere tão somente à defesa da religião tradicional tal como ela é, sem abrir concessões a sincretismos e secularismos. O conservador religioso deseja apenas que sua religião seja respeitada e, dentro dela, procura incentivar que seus adeptos a sigam sem distorções.

Normalmente a esquerda associa este último conservador ao conservadorismo político e à direita, dizendo que conservadores religiosos pretendem impor sua religião a toda a sociedade. Há três mentiras aqui. Em primeiro lugar, não é necessário ser um conservador religioso para ser um conservador político e um direitista. E o oposto é verdadeiro. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Em segundo lugar, ser um conservador religioso não é ser um fanático. É simplesmente não querer ver sua religião mutilada por outras crenças. Finalmente, a imposição religiosa, sobretudo, através do Estado, não é algo que agrada ao conservador político moderno. Afinal, o conservador morre de medo de um Estado que se intrometa na vida individual. E um governo que tivesse o direito de impor uma religião, poderia impor qualquer outra coisa, destruindo assim o individualismo.

2) O que importa para a política

Uma vez entendido que existem tipos de conservadorismo diferentes e que eles não devem ser mesclados em uma coisa só, devemos agora separar o que realmente é importante para a política e o que não é. A resposta me parece ser bem óbvia. Se nós queremos saber a posição política de uma pessoa, o que realmente importa é o seu conservadorismo político. Podemos citar alguns exemplos.

O filósofo e escritor brasileiro Luiz Felipe Pondé é conhecido por suas posições abertamente direita. Ele se define politicamente como um “liberal conservate” e explica o termo: “Conservador na política e liberal em todo o resto”. Fato incontestável. Pondé é um extremo pessimista antropológico, antimarxista, antissocialista, antiprogressista, admirador de Burke, capitalista, opositor a idealismos de “mundo melhor”, defensor da meritocracia e do livre mercado, opositor do assistencialismo e respeitador da religião tradicional. Sem dúvida, um conservador político.

Não obstante, Pondé não tem nenhuma religião, não acha errado a prática homossexual (tampouco o casamento legal e a adoção de filhos), nem o divórcio, o sexo antes do casamento e etc. Embora apresente um profundo respeito pelas religiões e pela moral judaico-cristã, ele não acredita em grande parte de seus dogmas, tampouco os defende como políticas públicas. Assim, Pondé é um conservador político, mas não um conservador moral ou religioso.

Não foi o caso do Woodrow Wilson, presidente dos EUA entre os anos de 1912 e 1920. Wilson, embora fosse um cristão tradicional e um conservador moral, também era um progressista político. Ele entendia que o Estado deveria ser mais presente, mais forte e mais centralizador, pois aperfeiçoaria a política e tornaria o Estado muito mais útil aos interesses gerais. Durante sua presidência, tomou muitas medidas autoritárias, desfigurando aos poucos a idéia de um Estado pequeno e descentralizado, e criando no Partido Democrata uma linha mais intervencionista, que depois seria retomada por Franklin Roosevelt, tornando-se marca registrada dos democratas americanos.

Talvez o leitor discorde dessa visão de conservadorismo, alegando que a moral é parte importante do conservadorismo político e que, por isso, o mesmo é indissociável do conservadorismo moral. De fato, a moral é parte importante do conservadorismo político, mas apenas a moral geral. O fato, por exemplo, de um conservador defender o casamento gay não implica o abandono de valores atemporais básicos como o direito a vida e o individualismo, tampouco implica o menosprezo da experiência passada e dos pilares da sociedade. A essência do conservadorismo político permanece de pé.

É válido ressaltar que alguns conservadores políticos defendem determinadas posições do conservadorismo moral, nem tanto pela moral, mas porque acreditam que tais posições, se não defendidas, podem destruir a sociedade. Por exemplo, Olavo de Carvalho é contrário a legalização do casamento gay porque isso abriria precedente para os mais diversos tipos de uniões civis, desde casamentos poliafetivos, até casamentos entre pessoas e animais. E isso, segundo ele, certamente causaria um caos jurídico e social. Deste modo, a preocupação de Olavo de Carvalho se encontra dentro do campo do conservadorismo político. Ele teme a desestruturação da sociedade.

No entanto, um conservador que não creia na probabilidade desse caos jurídico, não poderia ser chamado de falso conservador só por isso. Ele continua conservador, mas abre concessão à legalização do casamento gay por não ver nesta concessão riscos à ordem social. Se os visse, certamente seria contrário à concessão. É aqui que reside a diferença entre esse conservador e um revolucionário. O revolucionário não está nem aí para os pilares da sociedade ou a sua ordem. Pelo contrário, ele quer destruir tudo, porque acredita com todas as forças que dá para fazer uma nova sociedade e que ela irá funcionar de maneira perfeita, tal como na música “Imagine”, de John Lennon. Não é o caso do conservador político, ainda que ele seja favorável ao casamento gay.

Outra crítica que o leitor poderia levantar é que com tais definições, até mesmo libertários e anarcocapitalistas seriam considerados conservadores. Mas não é bem assim. Libertários e anarcocapitalistas se distinguem de conservadores porque levam a confiança no livre mercado e no ideal de liberdade até as últimas conseqüências, o que acaba implicando a defesa de projetos e reformas muito radicais. Um conservador político, por exemplo, jamais iria defender uma sociedade sem Estado (como defendem os anarcocapitalitas), mesmo que tal sociedade fosse regida pelas leis do mercado. O seu pessimismo em relação a capacidade humana e o seu respeito pela antiguidade do Estado, faz ter desconfiança de tal projeto e achá-lo sem grandes garantias.

Além do mais, o conservador político certamente estaria mais disposto a aceitar alguns pontos do conservadorismo moral (mesmo que não fosse um conservador moral ou religioso) a permitir que em nome do livre mercado, valores sociais importantes fossem destruídos. Por exemplo, um libertário pode defender a livre venda de órgãos e o livre aborto em nome da liberdade, ao passo que, o conservador político pode ser contrário a isso por temer o desenvolvimento de uma banalização da vida individual, sentimento que é base para sistemas coletivistas de governo.

Enfim, o conservador político é basicamente alguém que só toma decisões muito bem refletidas e baseadas na experiência, ao passo que, libertários e anarcocapitalistas tomam decisões baseadas no anseio de uma sociedade totalmente livre. É por isso que pessoas como Mill, Popper e Rothbarth, embora tenham sido expoentes do liberalismo econômico e da direita, dificilmente poderiam ser chamados de conservadores. Havia um pouco de euforia e idealismo que lhes afastava da posição conservadora.

3) A análise dos movimentos Nazifascistas

Agora que sabemos o que é conservadorismo político estamos em boa posição para analisar se os movimentos fascistas e nazistas eram conservadores políticos e, por conseqüência, direitistas. Podemos começar perguntando: como esses movimentos viam a sociedade que conhecemos? Para eles, a sociedade que conhecemos era uma estrutura antropológica complexa, baseada em pilares que passaram pelos testes do tempo e da experiência, devendo assim ser conservada? Ou será que, para eles, a visão nazifascista da sociedade que conhecemos era a de um sistema cultural, político e econômico infectado por fatores externos à natureza geral do ser humano, que poderia e deveria ser totalmente destruída e reformulada?

Certamente, a visão nazifascista de sociedade era a segunda. Nazistas e fascistas não estavam interessados em conservar a sociedade que conhecemos. Havia em sua ideologia um elemento redentor. Eles acreditavam, tal como Rousseau, Robespierre e Marx, que em algum ponto da história humana, o homem corrompeu suas relações com o próximo, criando uma sociedade corrupta. O problema estava na sociedade e não no ser humano. Esta sociedade precisava ser destruída, para dar lugar a outra, reformulada, justa, ideal.

O fascismo italiano propunha como solução a intervenção estatal em todas as áreas da sociedade, a fim de reformulá-la. O Estado seria o redentor. Ele resolveria os conflitos entre patrões e empregados, abraçaria os pobres, dinamizaria a economia e uniria todas as classes sob um só sentimento de irmandade nacional. O nacionalismo deveria servir não apenas de ferramenta para a resolução de diferenças entre classes, mas como o motor para a transformação do próprio mundo. Afinal, se a suposição de que a raça italiana era superior estava certa, então o nacionalismo italiano teria poder para colocar todo o mundo nos eixos.

Sem grandes diferenças, o nacional-socialismo alemão propunha como solução, em primeiro lugar, o extermínio das raças consideradas inferiores, sobretudo, a raça dos judeus (que pretendiam, conforme Hitler, impor seu domínio ao mundo). Este seria o primeiro passo no processo de destruição desta sociedade e sua reformulação. O Estado, evidentemente, seria a ferramenta humana utilizada nesse processo. Destruídas as raças inferiores, o homem ariano, biologicamente superior, estaria livre para consertar todos os problemas sociais causados pelos “desviantes biológicos”, continuando o trabalho iniciado pelo Estado.

Aqui, mais uma vez, o Estado é responsável por resolver os conflitos entre patrões e empregados, abraçar os pobres, dinamizar a economia e unir as classes sob um só sentimento de irmandade nacional (e racial), bem como o de chamar a atenção das classes para um objetivo supremo: a construção de uma nova sociedade (no caso do nazismo, o Terceiro Reich).

A isenção da natureza humana como a única culpada pelo mal, a transformação do Estado em um redentor, o ímpeto de destruir a sociedade que nós conhecemos há milênios e a idealização de uma nova sociedade, justa e perfeita, são marcas típicas de revolucionários, progressistas e socialistas. São marcas típicas da esquerda. Não há nada de conservador nestas visões.

Um segundo questionamento que podemos fazer é sobre a visão que fascistas e nazistas tinham sobre alguns pilares sociais e direitos inalienáveis. De maneira geral, eles pretendiam conservá-los ou não? A história confirma que não. O nazifascismo, para começar, não valorizava o individualismo. O indivíduo deveria servir aos propósitos do Estado, que era o detentor do “bem comum” e do “objetivo supremo”. Ora, se o bem era comum e o objetivo era supremo, então qualquer que quisesse outro bem para si e almejasse outro objetivo em detrimento do supremo, era um inimigo da sociedade. É óbvio também que o nazifascismo não valorizava o direito à vida. Tal “direito” se submetia à vontade do Estado.

Alguns esquerdistas têm sustentado que nazistas e fascistas eram conservadores porque eram contrários à prática homossexual. Mas há vários erros aqui. Em primeiro lugar, ser contrário à prática homossexual é uma posição do conservadorismo moral e não do conservadorismo político. Como já vimos, um conservador político pode ser bem liberal em nesses aspectos morais mais específicos e pessoais.

Em segundo lugar, ser contrário à prática homossexual não é o mesmo que ser hostil ao homossexual ou querer que o Estado o condene por sua prática. Na verdade, é ridículo pensar que um conservador político seria favorável a um Estado que condena pessoas por escolhas tão pessoais como esta. Mesmo que um conservador possa ser particularmente muito preconceituoso contra homossexuais e insensível a ponto de desejar seu extermínio, ele sabe que se der ao Estado poder para punir homossexuais, estará dando ao mesmo Estado poder para se meter na vida de qualquer indivíduo, o que, obviamente, ele não vai querer (a não ser que abandone o conservadorismo).

Em terceiro lugar, sabemos que o nazifascismo fazia dos homossexuais mais uma classe inimiga. Essa visão classista de sociedade, na qual sempre há uma classe boa lutando contra uma ou mais classes ruins, não faz parte da concepção conservadora de mundo. Para o conservador, a sociedade não pode ser vista pela ótica das classes, mas pela ótica dos indivíduos. A noção de indivíduo é tão forte no conservadorismo que muitos esquerdistas chamam o pensamento conservador de “egoísta”.

Um terceiro questionamento que podemos fazer é: o nacionalismo nazifascista é uma característica do conservadorismo político moderno, como costumam alegar os esquerdistas? A resposta é não. O nacionalismo se origina na Revolução Francesa como uma ideologia revolucionária de oposição ao feudalismo e ao domínio cultural da Igreja Católica. Esta ideologia entendia que o sistema de feudos e a extensão da ICAR criavam um grande império cultural que destruía diversas culturas e impediam que as pessoas de um mesmo país mantivessem laços mais próximos e se unissem em prol de interesses em comum.

Em resumo, o nacionalismo surgiu como uma ideologia anti-imperialista, que buscava na “identidade nacional” um novo elo social. Nas palavras do filósofo Olavo de Carvalho, o conceito de identidade nacional se constituiu, para os nacionalistas, um “sentimento quase animista de união solidária fundada na unidade de raça, de língua, de cultura, de território. A síntese das três foi resumida no lema: Liberdade-Igualdade-Fraternidade”.

Embora, posteriormente alguns daqueles antigos conservadores absolutistas tenham agregado às suas crenças o sentimento nacionalista (com os devidos reparos), a ideologia não deixou de ser revolucionária. Ela foi agregada pela grande maioria dos revolucionários que lutou pelas independências nacionais e coloniais na América Latina e, mais tarde, incorporou uma nova postura anti-capitalista: o inimigo não era mais o imperialismo cultural católico, sustentado pelo regime feudal, mas sim o imperialismo cultural, político e econômico dos países capitalistas, principalmente, a Inglaterra e os EUA. Em oposição a este imperialismo, tais revolucionários nacionalistas costumam supervalorizar sua cultura, em detrimento de tudo o que vem de fora, e a defenderem uma economia fechada, a fim de proteger a nação das garras do capitalismo global ou de nações vizinhas não confiáveis.

No início do século XX, esta ideologia entrou em um grande confronto com o marxismo ortodoxo, que era internacionalista e, como é comum nas rixas entre revolucionários, cada qual acusava um ao outro de não ser revolucionário. Entretanto, com a crise do marxismo ortodoxo, em vista das dificuldades práticas que essa teoria apresenta, muitos internacionalistas se renderam a um nacionalismo velado. Stálin, por exemplo, defendeu a tese do “socialismo em um país só”. A sua ideia era primeiro aprofundar a experiência socialista na URSS e transformar a nação em uma grande potência global, a fim de fazer frente aos países capitalistas.

No Brasil, durante a ditadura, diversos simpatizantes do marxismo também se mostraram influenciados pelo nacionalismo. Defendiam fortemente a cultura nacional, almejavam uma economia mais fechada para estrangeiros e relacionavam capitalismo, imperialismo americano e direita. Atualmente, países que ainda conservam um regime comunista, como Cuba e Coréia do Norte, são nacionalistas em muitos aspectos.

Enfim, a idéia de que nacionalismo é uma posição conservadora e inerente à direita é, no mínimo, contestável. É certo que formas de nacionalismo podem surgir entre regimes mais alinhados à direita e, de fato, muitos direitistas acabaram por se tornar ardorosos nacionalistas. Contudo, tanto a história quanto a estrutura classista e coletivista do nacionalismo testificam que tal visão tem DNA revolucionário e não conservador. O nacionalismo é um desvio do conservadorismo pleno.

Aliás, devemos nos lembrar que existe uma diferença entre nacionalismo e patriotismo. Historicamente, o segundo tem sido definido como um sentimento de amor e respeito à pátria. Não implica, necessariamente, em menosprezar outras nações, ser xenófobo e enxergar o mundo de modo classista e coletivista. Já o nacionalismo se baseia mais no ódio às outras nações e no conflito do que no amor a pátria. Para um conservador político puro, isso é estranho, visto que odiar classes não faz sentido para quem é individualista. Assim, quanto mais nacionalista um conservador se tornar, mais estará deturpando as idéias básicas do conservadorismo.

Feitas essas observações, no mínimo, devemos reconhecer que o nacionalismo nazifascista não prova que este era um movimento conservador e de direita. Ora, levando ainda em conta as demais idéias revolucionárias do nazifascismo e o modo como o nacionalismo deste movimento estava intimamente ligado aos seus ideais de reconstrução do mundo, torna-se inevitável concluir que seu nacionalismo não era fruto de algum tipo patriotismo conservador extremado, mas fruto da mentalidade idealista e revolucionária.

Aqui há algo notável e que devemos ter sempre em mente. A esquerda, por se basear em idealismo e revolução, acaba gerando uma miríade de projetos diferentes de remodelação da sociedade. É por esse motivo muitas vezes um movimento de esquerda pode ser frontalmente contrário ao outro, criando a ilusão de que um representa a direita e outro, a esquerda, quando, na realidade, temos apenas uma cisão entre revolucionários com projetos diferentes. Este parece ser o caso de nazismo, fascismo e comunismo.

Um quarto questionamento que podemos fazer é quanto a temas como elitismo, justiça social, igualdade econômica e classes pobres. O nazifascismo é freqüentemente associado ao conservadorismo e a direita por ser elitista e contrário a justiça e igualdade social, em oposição aos regimes de esquerda, como o comunismo, que seriam a favor do direito dos pobres e etc. Há muito que se dizer aqui. Em primeiro lugar, do ponto de vista da prática, nenhum governo de esquerda cumpriu o que prometeu em relação à justiça e igualdade social e ao fim do elitismo. Sobretudo os regimes comunistas, que criaram uma classe de burocratas com poder absoluto, generalizaram a pobreza, causaram fome, mataram inocentes, pisaram na democracia, proibiram greves de operários e etc. Então, colocar os regimes de esquerda do lado dos pobres e o nazifascismo como elitista e injusto é apenas um truque retórico.

Em segundo lugar, se por um lado podemos citar algumas reformas sociais feitas por regimes de esquerda (como o comunismo) em seus países, por outro lado, também podemos citar algumas reformas sociais feitas por nazistas e fascistas. Foi o fascismo, por exemplo, que criou a Carteira de Trabalho (“Carta de Lavouro”). E o nazismo pagava férias assalariadas. Então, parece haver um padrão comum entre regimes de esquerda e o nazifascismo: não cumpriram o que prometeram no que tange a elitismo, justiça e igualdade social, mas fizeram algumas reformas sociais.

Em terceiro lugar, do ponto de vista teórico, tanto os regimes de esquerda como o nazismo e o fascismo almejavam justiça e igualdade social. O fato de o nazifascismo falar abertamente que o poder deveria estar nas mãos de poucos, enquanto outros regimes de esquerda, como o comunismo, falarem de “povo no poder”, a concepção de poder dos líderes de cada um desses regimes era exatamente a mesma. Eles se achavam representantes do povo e entendiam que para suas reformas serem feitas era inevitável que o poder estivesse centralizado. A diferença do nazifascismo para os demais regimes é que o primeiro não distorcia o entendimento de democracia, mas sim se opunha a ela de modo direto, enquanto os demais idealizavam a existência de uma democracia dentro de um Estado centralizador e totalitário. Ou seja, para o regime comunista, por exemplo, sua ditadura era democrática e o povo estava no poder. Trata-se de uma distorção.

Por fim, é questionável dizer que o conservadorismo é elitista e contrário aos pobres porque se opõe a projetos de plena igualdade social. Afinal, esses projetos nunca alcançaram seus objetivos, como já vimos. Então, não faz sentido dizer que quem se opõe a eles é elitista. Pelo contrário, na visão do conservador, tais projetos não têm capacidade alguma de gerar tal igualdade e, por isso, sempre acabam sendo usados justamente por líderes e governos elitistas (como no comunismo).

Diante dessas observações, concluímos que a posição do nazifascismo sobre temas como elitismo, justiça e igualdade social era bem semelhante a de outros regimes de esquerda (sobretudo o comunismo), tanto na teoria, como na prática; uma posição que poderia ser resumida na crença de que “quando o partido assumir o poder, tudo será diferente”.

Até aqui, tudo o que analisamos indica que os movimentos nazistas e fascistas não eram conservadores, mas sim idealistas e revolucionários. Mas ainda há alguns pontos que precisamos analisar. Um deles é a posição nazifascista favorável à família e a religião. São posições tradicionalmente conservadoras. O que dizer disso? Vamos por partes.

Com relação à defesa da família, devemos entender o contexto dessa defesa. Sabemos que os marxistas da época não eram muito simpáticos à família. Cria-se que a família, tal como a conhecemos, era uma criação burguesa (ou, no mínimo, estava grandemente infectada pelos valores da burguesia). Como a burguesia era uma classe inimiga para os marxistas, então a família acabava recebendo certa oposição.

Entretanto, para nazistas e fascistas, a burguesia não era uma classe inimiga. O nazifascismo acreditava que burguesia e proletariado poderiam laborar juntos, sob a orientação do Estado, na construção da sociedade renovada e no engrandecimento da nação. Bastava o Estado estar na equação, interferindo em conflitos e explorando o que de melhor havia das duas classes. Deste modo, lutar contra a família não fazia muito sentido. Era desnecessário. Como também a defesa da família em duas nações que eram cristãs (Itália e Alemanha) era uma ótima propaganda contra comunistas, a posição foi enfatizada. Isso parece ser muito mais uma expressão de estratégia do que uma defesa conservadora da família.

O mesmo pode se dizer com relação à religião. Como o nazifascismo não via a religião como criação burguesa e nem a burguesia como um inimigo a ser destruído, mas como um servo do Estado, lutar contra a religião era desnecessário. Mais que isso, lutar contra a religião era contraproducente, já que os religiosos eram maioria. Aliás, a defesa da religião era ainda mais pragmática do que a defesa da família. Tanto que era plano dos regimes instituir uma religião estatal, uma estatolatria, que elevasse o Estado, o regime e o líder do regime à posições divinas. Hitler, por exemplo, chegou a ordenar que as músicas natalinas na Alemanha passassem a exaltar o regime e ele. A idéia era claramente infectar a religião tradicional com as ideologias do governo até ao ponto de desfigurá-la totalmente, transformando-se em uma religião política. Certamente isso não é uma expressão de conservadorismo político, mas nos lembra muito, sem dúvida, a posição dos revolucionários franceses, que almejavam criar uma religião secular na França e colocá-la no lugar do cristianismo.

Há um último questionamento. A visão de economia do nazifascismo expressava conservadorismo e ideais de direita? Marxistas geralmente dizem que sim porque os regimes nazifascistas não queriam destruir o capitalismo e a burguesia. Como podemos ver, a pressuposição aqui é que para ser de esquerda é necessário querer destruir a burguesia e o capitalismo. Evidentemente isso está longe de ser verdade. Nem toda a doutrina de esquerda é comunista. Na verdade, a maioria dos regimes de esquerda não pretendeu destruir o capitalismo, mas controlá-lo através do Estado, a fim de “fazer justiça social”. Isso é fato, sobretudo hoje, no contexto pós-comunismo soviético.

Muito embora as esquerdas preservem, em geral, um espírito anticapitalista, isso não implica em querer destruí-lo. Quando se tem um inimigo, pode-se optar por dois modos diferentes de combate: ou (1) matá-lo, ou (2) torná-lo um escravo. Um regime anticapitalista não precisa optar pela primeira opção, como fez o comunismo. A segunda opção é perfeitamente viável, pois o Estado estará no controle de seu inimigo e poderá extrair dele benefícios. Assim, para um regime ser de esquerda e até revolucionário, não é preciso ser comunista, querendo destruir a burguesia e o capitalismo. Basta querer escravizar a economia capitalista.

Ora, como o leitor já deve saber, tornar o sistema capitalista um escravo do Estado significa criar um governo extremamente intervencionista. Ou seja, por mais que a burguesia não seja destruída e a propriedade privada continue existindo, tudo está sob um forte controle do Estado, que pode guiar todos os setores da forma como melhor julgar, de acordo com seus propósitos de mundo melhor. Esse tipo de visão econômica, que era a base dos regimes nazifascistas, de forma alguma faz parte do conservadorismo político. Embora certamente nem todo o conservador seja defensor do laissez-faire e totalmente contrário ao intervencionismo, o extremo intervencionismo econômico, sobretudo aquele que é abertamente orientado para um projeto de remodelação da sociedade, é uma característica de movimentos de esquerda.

A leitura de “O Caminho da Servidão”, de Friedrich Hayek, é imprescindível para entendermos os motivos pelos quais um genuíno conservador político rechaça essa visão econômica de que o capitalismo deve ser escravo do Estado. Com propriedade, o economista liberal mostra como que esse intervencionismo leva, invariavelmente, à perda de liberdades individuais e a regimes totalitários. Ora, isso é básico para qualquer conservador político moderno. Além do mais, o conservador (e o direitista, em geral) não acredita nessa idéia de que o governo vai conseguir criar um paraíso através de uma forte intervenção. Isso é idéia de progressista. Por isso, as economias nazistas e fascistas não podem ser consideradas expressões de conservadorismo e da direita em hipótese nenhuma. São economias progressistas e idealistas. São expressões da esquerda.

Considerações Finais

Não há como fazer uma análise completa dos movimentos nazistas e fascistas em uma dúzia de páginas. Contudo, os pontos básicos que vimos neste texto nos são mais que suficientes para compreender que estes movimentos estavam bem distantes do conservadorismo político moderno e da direita. Talvez, em uma análise mais extensa, possam ser encontrados alguns poucos elementos tradicionalmente da direita nesses movimentos. Mas certamente não são muitos, tampouco justificam que o nazifascismo seja posto, no espectro político, ao lado de governos conservadores como o de Margaret Thatcher e o de Ronald Reagan, e, no campo das idéias, ao lado de Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Böhm-Bawerk, Alexis de Tocqueville, Edmund Burke, David Hume e Adam Smith.

A verdade é que os fatores determinantes para que a história aceitasse a idéia de nazifascismo como um movimento conservador e direitista foram: (1) o conflito interno esquerdista entre o nazifascismo e o comunismo, que criava uma falsa aparência de polarização “esquerda x direita”; (2) a hegemonia dos ideais comunistas dentro da esquerda, que acabou ofuscando por um bom tempo todos os movimentos da esquerda que não eram comunistas e tornando esquerdismo sinônimo de comunismo; (3) o fato de que a URSS ganhou a segunda guerra mundial contra o nazifascismo, abrindo assim o caminho para demonizar os movimentos derrotados, associá-los ao capitalismo e exaltar o comunismo como o regime que venceu os “capitalistas nazifascistas” (aqui, mais uma vez, a polarização cria uma falsa aparência de “esquerda x direita”).

A influência desses fatores na historiografia é tão clara que qualquer livro ou site que critica a idéia de que o nazifascismo era de esquerda, apela para o “argumento” de que o nazifascismo não defendia a destruição da burguesia e do capitalismo, como se ser de esquerda se limitasse a ser comunista (hegemonia). Em outras palavras, a maioria dos historiadores interpreta a história do ponto de vista da propaganda comunista. Não obstante, do ponto de vista do que realmente é conservadorismo e direita, colocar o nazifascismo como um movimento conservador político e de direita é negligenciar toda uma literatura conservadora de mais de duzentos anos e ignorar toda influência dos ideais revolucionários sobre o nazifascismo. Ora, se isso é considerado correto do ponto de vista historiográfico, não sei mais o que é bom senso e honestidade intelectual.

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Sugestões de Leitura

Livros

  1. Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França.
  2. Hayek, Friedrich. O Caminho da Servidão.
  3. Kirk, Russell. The Conservative Mind: From Burke to Santayana.
  4. Pereira, João Coutinho; Pondé, Felipe Luiz; Rosenfield, Denis. Por que virei à direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo
  5. Tocqueville, Alexis de. O antigo Regime e a Revolução.
  6. Tocqueville, Alexis de. A Democracia na América.
  7. Goldbert, Jonah. Fascismo de Esquerda.
  8. Mises, Ludwig. As Seis Lições.
  9. Voegelin, Eric. As Religiões Políticas.
  10. Johnson, Paul. Tempos Modernos.
  11. Gray, John. Cachorros de Palha.
  12. Gray, John. A Missa Negra.
  13. Overy, Richard. Os Ditadores – A Rússia de Stalin e a Alemanha de Hitler.
  14. Gellately, Robert. Lênin, Stálin e Hitler: A Era da Catástrofe Social.
  15. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism.

Artigos

  1. Confusões clássicas sobre direita e esquerda
  2. Que é fascismo?
  3. A Mentalidade Revolucionária
  4. Ainda a Mentalidade Revolucionária
  5. Lindeza de Estupidez
  6. A tentação Totalitária
  7. Do mito ao fetiche
  8. Um texto fundamental de Pondé para facilitar a compreensão da essência deste blog: “Do mito ao fetiche”
  9. Quando o fascismo era de esquerda
  10. Tudo o que você deveria saber sobre o fascismo, mas não quer
  11. O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de direita?
  12. Será o nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior
  13. O sucesso como a maior das semelhanças entre o nazismo e o comunismo do século XX
  14. Como a dinâmica social resolve o problema da rotulagem equivocada de nazismo e fascismo como regimes de direita
  15. Entra em cena o ceticismo plítico para resolver de vez o problema da falsa rotulagem de nazismo e fascismo como regimes de direita
  16. Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?
  17. Socialismo no Terceiro Reich
  18. As raízes socialistas de Benito Mussolini
  19. As raízes do Estado intervencionista moderno
  20. Nazismo e suas raízes marxistas
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A Guerra de Três Lados – Parte Final

No último artigo desta série sobre a Segunda Guerra Mundial analisaremos os regimes dos países do Eixo e dos Aliados com o propósito de demonstrar que a Segunda Guerra foi um conflito não bilateral como normalmente se apresenta, mas ao menos trilateral. A peça chave neste estudo é o comunismo soviético.

I. O primeiro lado: Aliados

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com regimes pluripartidários e parlamentos e regimes coloniais.

Aliados em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Aliados em sua máxima extensão, no final da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam as monarquias constitucionais, as repúblicas federativas e os governos coloniais. Há participação menor de governos fascistas ou análogos não alinhados ao Eixo como os de Getúlio Vargas (Brasil), Antônio de Oliveira Salazar (Portugal), Fulgêncio Batista (Cuba) e Chiang Kai-shek (China).

Ideologias predominantes: conservadorismo, social-democracia, social-liberalismo e colonialismo.

Localização: Europa Ocidental, América do Norte e colônias européias na África e na Ásia, posteriormente América Latina.

Membros mais notáveis: EUA, Inglaterra, França.
Membros menores: Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Índia, China.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta conter o expansionismo alemão através da política de concessões. Declara guerra ao III Reich em 1939 quando este invade a Polônia. Alia-se à União Soviética em julho de 1941 em decorrência da invasão desta pelo III Reich. Declara guerra ao Japão no mesmo ano após o ataque a Pearl Harbor. Ao final do conflito divide a Alemanha com a URSS e deixa a parte leste sob domínio soviético.

II. O segundo lado: Eixo

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com governos fascistas instaurados no período entre guerras. No caso do III Reich, Estado totalitário implantado a partir de 1933 e no caso do Japão, regime absolutista vigente desde 1926.

Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam os Estados Corporativos, as monarquias constitucionais e as ditaduras totalitárias, bem como o absolutismo nacionalista japonês. Também instauraram Estados-fantoche republicanos e apoiaram movimentos independentistas em colônias dos países Aliados.

Ideologias predominantes: integralismo, fascismo, nacional-socialismo e absolutismo.

Localização: Europa Central e Ocidental, Sudeste Asiático.

Membros mais notáveis: III Reich, Itália, Japão.
Membros menores: Romênia, Hungria, Tailândia.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de demandas diplomáticas. Depois, estabelece um pacto com a União Soviética dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e entra em guerra declarada com os Aliados na Europa Ocidental, obtendo uma vitória decisiva que obriga a retirada dos Aliados do continente. Tenta invadir a Inglaterra a partir de 1940, sem sucesso. Sem previsão de avanços no Oeste, uma ofensiva no Leste começa em 1941 violando o Pacto estabelecido 2 anos antes com a URSS. Após uma grande e violenta expansão em território soviético, sucessivas derrotas comprometem o avanço e forçam um recuo que só terminará em Berlim com a derrota do Eixo.

III. O terceiro lado: Comunistas

Situação: Regime soviético unificado instaurado em 1922 a partir da união das repúblicas soviéticas transcaucausiana, russa, ucraniana e bielo-russa. Movimentos comunistas marginais na Europa e na China. Ganhos contínuos de território na China até o fim da Guerra Civil Chinesa em 1949 e na Europa até a instauração dos governos socialistas do “Bloco do Leste” (Polônia, Romênia, Húngria, Bulgária, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Albânia e Alemanha Oriental).

Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.
Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.

Formas de governo: predomina a ditadura socialista aos moldes soviéticos.

Ideologias predominantes: marxismo-leninismo e maoísmo.

Localização: Europa Oriental, Ásia.

Membros mais notáveis: União Soviética.
Membros menores: Comunistas chineses, partisans.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de suporte a movimentos comunistas estrangeiros. Depois, estabelece um pacto com o III Reich dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e inicia a invasão da Finlândia no mesmo ano, que não avançará significativamente até 1940. Com a invasão do III Reich em 1941, busca aliança com a Inglaterra e depois com os EUA. Após sofrer grandes baixas e perdas de território para a ofensiva alemã, a reação soviética começa a impor duras derrotas e avançar para o Oeste em direção à Alemanha. Com a derrota do III Reich, a Alemanha é dividida entre os Aliados e a URSS e a Europa Oriental é submetida a governos-satélite de Moscou e aliados comunistas como Enver Hoxha na Albânia.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a atuação comunista chinesa continuará até a sua vitória na Guerra Civil Chinesa em 1949. No Sudeste asiático os movimentos comunistas continuarão avançando e estabelecendo Estados comunistas com apoio sino-soviético no norte do Vietnã e da Coréia.

Conclusões

A partir da análise das políticas adotadas pelos principais envolvidos neste grande conflito histórico, podemos chegar às seguintes conclusões:

Sobre os Aliados

1. Ao contrário do Eixo ou dos Comunistas, as potências Aliadas não tinham um plano ou agenda política universal a ser posto em prática na sua área de influência. Não havia uma ideologia, forma de governo ou política econômica que se pretendia implantar nos países vizinhos. A maioria deles já estava bem estabelecido.

2. A aliança entre diversas nações na luta contra o Eixo foi muitas vezes ambígua e meramente casual, como ilustram os membros fascistas e socialistas no bloco Aliado. O que difere o fascista no lado Aliado do fascista no lado do Eixo ou do socialista no seu próprio bloco é que este não tem um projeto de poder expansionista, por mais ditatorial que seja o seu governo.

3. Os aliados tiveram que lutar contra o imperialismo japonês na Ásia e ao mesmo tempo conter os sentimentos independentistas nas suas colônias. De um certo modo, foi a própria estrutura colonial européia que fomentou o colaboracionismo com o invasor japonês.

Sobre o Eixo

1. Concebido inicialmente como uma aliança anti-comunista no Pacto Anti-Comintern (Antikominternpakt) de 1936  entre o III Reich e o Império do Japão, o Eixo acabou convertendo-se em uma mera aliança militar para apoiar os propósitos expansionistas destes dois países. A Itália assinaria o pacto um ano depois. O Pacto seria revisado em 1941, quando contaria com a adesão de diversos outros aliados e satélites da Alemanha, da Itália e do Japão.

2. O III Reich violou os termos do Antikominternpakt ao assinar secretamente o Pacto Ribbentrop-Molotov com a URSS. Qualquer negociação territorial com a URSS era vetada pelo pacto anterior. Havia um flagrante conflito de interesses entre os próprios membros do Eixo, não raramente um tentando obter territórios do outro ou violando sua soberania, como foi o caso da Hungria e da Romênia.

3. Assim como houveram fascistas do lado Aliado, algumas nações sem governo análogo ao fascismo ou ao nacional-socialismo buscaram o apoio do Eixo para defender-se ou do expansionismo soviético, ou de guerrilhas comunistas ou para buscar sua independência, ou mesmo apenas para industrializar-se. Exemplos incluem a Finlândia, que buscou na Alemanha o seu apoio contra a invasão soviética, a China que cooperou com a Alemanha até 1941 e inúmeros grupos separatistas e independentistas na Ásia que buscaram apoio alemão ou japonês para se livrar do domínio da metrópole britânica, francesa, holandesa, etc.

Sobre os Comunistas

1. Os soviéticos tinham seu próprio projeto de expansão no Leste Europeu e na Ásia. O projeto de expansão no Leste Europeu foi facilitado pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, ao passo que o projeto de expansão na Ásia foi atrasado pela resistência dos nacionalistas chineses e pela invasão japonesa. O projeto seria retomado após a estabilização da China comunista, que apoiará guerras de procuração no Vietnã e na Coréia.

2. Desde antes da Segunda Guerra, socialistas chineses tentavam derrubar o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek, o que seria concluído em 1949. Um ano depois a China invadirá o Tibet. A nova China comunista buscará relações estáveis com a URSS que se manterão pelo menos até 1960.

3. Com o fim da Segunda Guerra, a URSS manterá o domínio sobre os territórios “libertados”  da ocupação nacional-socialista sob a forma de Estados-satélite ou zonas de influência no Leste Europeu. Outras forças socialistas instalarão governos próprios na Albânia e na antiga Iugoslávia. A porção oriental da Alemanha se manterá sob domínio comunista até 1990. Seu expansionismo continuará após a Segunda Guerra, o que gerará o conflito com os antigos Aliados (agora OTAN) e engendrará uma série de guerras de procuração durante a Guerra Fria.


Leia também:

Simón Bolívar, o Contrarrevolucionário

Simón Bolívar foi o líder revolucionário da independência de vários países sul-americanos que estavam sob o domínio colonial da Espanha. Angariou forte apoio popular contra as elites estabelecidas e tinha planos de construir uma América Latina unida, mais justa e igualitária. Certo?

Simon Bolivar contrarrevolucionario

Nem tanto. A História da América Latina revela que o processo de independência dos países sul-americanos foi bem menos “revolucionário” do que se imagina. Assim como outros líderes do processo de independência dos países da América Espanhola, Bolívar estava preocupado justamente em impedir uma Revolução como a que ocorrera na França e no Haiti.

A primeira metade do século XIX constituiu uma época crucial para a história latino-americana: em consequência das guerras de Independência, entre 1810 e 1830, nasceu a maioria das modernas repúblicas hispano-americanas. Entre as causas da emancipação da América Espanhola, o historiador José Manuel Roldán [2] identifica as seguintes:

  • A crise política da Espanha desde 1808.
  • O desejo das minorias brancas americanas (criollos) de assumir diretamente o poder.
  • O desgosto pelos abusos das autoridades coloniais.
  • O exemplo da Independência dos Estados Unidos.

O pensamento latino-americano do século XIX foi pautado na observação da nova realidade da América Latina, interpretada à luz, por um lado, de idéias iluministas como a exaltação do progresso, por outro, dos conceitos característicos do romantismo como a busca do original e próprio e também do positivismo com sua confiança no poder modernizador da educação.

O Pensamento Político de Simón Bolívar

Nascido em 24 de julho de 1783 na Venezuela, Bolívar foi o militar e político que se converteu desde 1813 no máximo condutor do processo de independência da América do Sul, motivo pelo qual é conhecido pela alcunha de O Libertador. Ele abordou a questão da identidade hispano-americana em sua Carta da Jamaica sob a forma de três preocupações principais [1]:

1. A Valorização do Passado

Os americanos, sob o sistema espanhol que está em vigor, e talvez com maior força que nunca, não ocupam outro lugar na sociedade que o de servos próprios para o trabalho, e quando muito o de simples consumidores; e ainda esta parte coagida com restrições chocantes […]; em fim, você quer saber qual é o nosso destino? Os campos para cultivar o anil, o grão, o café, a cana, o cacau e o algodão, as planícies solitárias para criar gado, os desertos para caçar bestas ferozes, as entranhas da terra para escavar o ouro que não pode saciar a esta nação [a Espanha] avarenta. Estávamos, como acabo de expor, abstraídos e, digamos assim, ausentes do universo no que é relativo à ciência do governo e administração do Estado. Jamais éramos vice-reis ou governadores, senão por causas muito extraordinárias; arcebispos e bispos poucas vezes; diplomatas nunca; militares, só em qualidade de subalternos; nobres, sem privilégios reais; não éramos, em fim, nem magistrados, nem financistas e quase nem mesmo comerciantes; tudo é contravenção direta de nossas instituições.[3]

Analisando através dos ideais do Iluminismo (tolerância e progresso), a situação da América do Sul era para Bolívar uma organização de modo muito rígido e quase feudal, baseada na opressão e na corrupção. O sistema colonial espanhol havia privado a população americana de todos os seus direitos e contribuído para a criação de uma identidade suscetível à adoção de novas formas de cativeiro.

Tão negativo era nosso estado que não encontro semelhante em nenhuma outra associação civilizada, por mais que recorra a série de eras e políticas de todas as nações. Pretender que um país tão felizmente constituído, extenso, rico e populoso seja meramente passivo não é um ultraje e uma violação dos direitos da humanidade?[3]

Segundo Bolívar tal valorização, ou revisão crítica do passado, era bastante para justificar a ruptura por parte da população latino-americana de todas as amarras de dependência com a metrópole, Espanha:

O hábito à obediência; um comércio de interesses, de luzes, de religião; uma recíproca benevolência; uma terna solicitude pelo berço e a glória de nossos pais; em fim, tudo o que formava nossa esperança vinha da Espanha. Daqui nascia um princípio de adesão que parecia eterno, não obstante a conduta de nossos dominadores relaxava esta simpatia, ou, melhor dizendo, este apego forçado pelo império da dominação. Ao presente sucede o contrário: a morte, a desonra, quanto é nocivo, nos ameaça e tememos; tudo o que sofremos desta desnaturada madrasta.[3]

Seu acertado otimismo com relação à irreversibilidade do processo de independência da América não difere muito daquele apresentado por Thomas Paine com relação à independência das colônias britânicas na América do Norte em sua obra Senso Comum:

O sucesso coroará nossos esforços porque o destino da América se fixou irrevogavelmente; o laço que a unia à Espanha está cortado; a opinião era toda sua força; por ela se estreitavam mutuamente as partes daquela imensa monarquia; o que antes as enlaçava, agora as divide; maior é o ódio que nos inspirou a Península, que o mar que nos separa dela; menos difícil é unir os dois continentes que reconciliar os espíritos de ambos os países.[3]

2. O Ideal Americanista

Bolívar definiu a identidade americana como um tipo de ambiguidade:

Nós somos um pequeno gênero humano; possuímos um mundo aparte, cercado por dilatados mares, novo em quase todas as artes e ciências, ainda que em certo modo velho nos usos da sociedade civil. […] nós, que apenas conservamos vestígios do que em outro tempo foi, e que por outro lado não somos nem índios nem europeus, senão uma espécie média entre os legítimos proprietários do país e os usurpadores espanhóis: em suma, sendo nós americanos por nascimento e nossos direitos os da Europa, temos que disputar estes aos do país e que manternos nele contra a invasões dos invasores; assim nos achamos no caso mais extraordinário e complicado. […].[3]

Segundo ele, era muito difícil pressentir o futuro da América Latina:

Toda ideia relativa ao porvir deste país me parece aventurada. Pode-se prever, quando o gênero humano se achava em sua infância e rodeado de tanta incerteza, ignorância e erro, qual seria o regime que abraçaria para sua conservação? Quem se atreveria a dizer que tal nação será república ou monarquia, esta outra será pequena, e aquela grande?[3]

Não obstante, indicou três pilares sobre os quais, em sua opinião, descansava a unidade da América do Sul: a língua, a liberdade, a independência. Este pensamento político exposto por Bolívar em sua Carta da Jamaica constitui a chamada ideologia do primeiro hispano-americanismo. Este é o “bolivarianismo” original.

Esta primeira afirmação de identidade continental se define como hispana pelo único vínculo de importância que havia deixado a dominação espanhola: a língua. Em consequência a América Espanhola é vista como uma comunidade cultural, formada pelas repúblicas que haviam sido colônias espanholas. [1]

Sem dúvida, através deste projeto Simón Bolívar não só queria romper os laços entre América e Espanha, mas também rechaçar outras possíveis formas de colonialismo, como por exemplo o norte-americano. Seu hispano-americanismo opõe-se ao pan-americanismo, ou seja, a unidade americana sob hegemonia dos Estados Unidos.

3. A Formação do Estado

Os acontecimentos da Terra Firme nos provaram que as instituições perfeitamente representativas não são adequadas a nosso caráter, costumes e luzes atuais. Por que nossos compatriotas não adquiriram os talentos e as virtudes políticas que distinguem nossos irmãos do Norte, os sistemas inteiramente populares, longe de ser-nos favoráveis, temo muito que venham a ser nossa ruína. Desgraçadamente, estas qualidades parecem estar muito distantes de nós no grau que se requer; e pelo contrário, estamos dominados pelos vícios que se contraem sob a direção de uma nação como a espanhola, que só se sobresaiu em ferocidade, ambição, vingança e cobiça.[3]

Bolívar estava convencido de que os hispanoamericanos não estavam preparados para exercer a sua própria soberania. Reduzidos a escravos ao longo dos séculos, separados agora repentinamente da metrópole e extasiados com sua independência, não eram capazes de impor uma ordem baseada em fórmulas puramente democráticas e mergulharam o continente em lutas civis sangrentas que, levando os territórios recém libertos à anarquia e à fragmentação, favoreceram a ocupação do vácuo de poder por parte de tiranos autóctones.

É uma idéia grandiosa pretender formar de todo o mundo novo uma só nação com um só vínculo que ligue suas partes entre si e com o todo. Já que tem uma origem, uma língua, um costume e uma religião, deveria por conseguinte ter um só governo que confederasse os diferentes Estados que hão de formar-se; mas não é possível porque climas remotos, situações diversas, interesses opostos, características diferentes, dividem a América.[3]

Sublinhou também que antes que o povo pudesse ocupar o poder era preciso colocá-lo sob tutela e educá-lo. Em sua opinião, a extensão da educação se converteu em uma condição imprescindível para que os hispanoamericanos pudessem chegar a uma democracia plena.

Bolívar e sua Contrarrevolução

Se havia algo que Bolívar temia, eram as camadas populares. O Terror que se instaurara na França após a sua Revolução por si já era um aviso do que “o povo” era capaz quando saía do controle. Porém, com uma economia agrícola dependente de mão-de-obra escrava e uma população majoritariamente mestiça, a América Espanhola do tempo de Bolívar  não se parecia muito com a França: parecia, isso sim, com o Haiti.

San_Domingo
Batalha de Santo Domingo, quadro de Januário Suchodolski (1824) ilustrando a Revolução Haitiana (1791-1804).

A Revolução do Haiti, então colônia francesa (Saint-Domingue), que durou de 1791 a 1804, foi a primeira revolta de escravos a culminar com a formação de um Estado independente. Durante a revolução, a economia da Ilha, então a colônia mais próspera do mundo, foi quase totalmente destruída. Boa parte da oligarquia rural do país foi simplesmente massacrada ou fugiu para sobreviver.

Com a derrubada da Antiga Ordem francesa pela Revolução Francesa dois anos antes (1789), a elite de Saint-Domingue estava simplesmente isolada da metrópole e não tinha governo ao qual recorrer enquanto a situação não se resolvesse no continente. Esta situação favoreceu o cenário de terror que se instaurou no Haiti.

Sendo ele um mantuano, membro da aristocracia rural branca da América colonial, Bolívar e seus correligionários tinham motivos de sobra para não querer no continente a anarquia e o caos que varreram o Haiti:

Onde está lá (no Haiti) um exército de ocupação para impor a ordem? África? – nós teremos mais e mais da África. Eu não digo isso levemente, qualquer um com pele branca que escape será sorte.[6]

A mesma situação ameaçou as elites coloniais espanholas quando, em 1808, Napoleão Bonaparte invadiu a Espanha e pôs seu irmão José Bonaparte no trono após as sucessivas abdicações dos reis Carlos IV e Fernando VII. Diante do estado de acefalia política, os habitantes da América Espanhola começaram a criar suas próprias juntas de governo, declarando a sua independência e lutando contra as forças realistas que se opunham ao autogoverno. Era o único mecanismo capaz de salvar os americanos de novas edições das Revoluções Francesa e Haitiana.

Primera_junta_por_Francisco_Fortuny
Diante da iminente acefalia política da metrópole, juntas de governo local passaram a ser organizadas na América Espanhola. A primeira junta de governo argentina foi organizada em 1810 após a Revolução de Maio.

Apesar do racismo típico de sua época, ele estava certo em temer uma Revolução como a da França ou a do Haiti, e esta preocupação ele expressou em carta endereçada ao general Francisco de Paula Santander:

A igualdade legal não é o bastante para o povo, que quer uma igualdade absoluta, tanto no público quanto no doméstico. E depois irá querer a pardocracia, que é a inclinação natural e única, para exterminar depois a classe privilegiada.[7]

A “pardocracia” preocupava tanto a Bolívar, bem como seus familiares, que ele chegou a considerá-la como uma ideologia tão partidária quanto a anarquia, a monarquia e a democracia:

Minha irmã me diz que em Caracas há três partidos: Monárquicos, democráticos e pardocratas; que seja eu o Libertador ou morto é seu conselho. [Os amigos de Páez] foram primeiro federalistas, depois constitucionais e agora napoleônicos, logo não lhes sobrará grau a receber senão o de anarquistas, pardocratas ou degoladores.[8].

E ele não estava errado. Um dos importantes líderes da independência da América do Sul, o general Manuel Carlos Piar, era de fato um “pardo”. Os pardos estavam um degrau acima dos negros: eram livres e muitos constituíam mão-de-obra qualificada, mas não tinham posições de influência na sociedade.

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General Manuel Carlos Piar (1777-1817), “o Pardo”.

Na Venezuela, os pardos formavam um grupo que superava largamente os criollos (brancos) em termos numéricos, e Piar foi capaz de recrutá-los para seu exército. Por este motivo, Piar era um dos oficiais rebeldes mais temidos pela Coroa Espanhola: ele poderia dar início a uma verdadeira guerra de raças se quisesse, e assim transformar a Venezuela no próximo Haiti. Quando Simón Bolívar empregava os termos pardocracia e pardocratas, era Piar e seus correligionários que ele tinha em mente. Depois de muitas desavenças e relações conflituosas, Bolívar acabou mandando executar Piar em 1817 sob as acusações de deserção, sedição, insubordinação e conspiração.

Mas a obsessão de Bolívar com o avanço da “pardocracia” não foi contida com a morte Piar. Pelo contrário, ficou cada vez mais obsessivo com o avanço de outro rival: José António Páez.

Com a aproximação da vitória de seu adversário Páez na Venezuela, Bolívar declara em carta enviada a Antonio José de Sucre, grão-marechal de Ayacucho:

Na Venezuela tudo vai pior, porque o exército tem um partido e o povo outro. Páez é abominado pelo povo como chefe do exército, e a pardocracia vai ganhando terreno em tudo o que perdem os demais partidos.[9]

Cinco meses mais tarde confidenciaria a Francisco de Paula Santander:

A pardocracia triunfa em meio deste conflito geral. Em Guayaquil (que não é forte) faz repetidos e violentos ataques.[10]

Quatro anos mais tarde, pouco antes de sua morte, deixaria para o general Juan José Flores o testemunho de sua desilusão e a desconfiança quanto aos rumos da política na América do Sul:

V.S. sabe que eu tenho governado por vinte anos, e deles não tirei mais do que uns poucos resultados comprovados:

1º, a América é ingovernável para nós;
2º, quem serve a uma revolução ara no mar;
3º, a única coisa que se pode fazer na América é emigrar; 4º, este país cairá infalivelmente nas mãos da multidão desenfreada para depois passar a tiranetes quase imperceptíveis de todas as cores e raças;
5º, devorados por todos os crimes e extintos pela ferocidade, os europeus não se dignarão a conquistar-nos;
6º, se fosse possível que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo, esta seria a América em sua hora final.

A primeira revolução francesa fez degolar as Antilhas, e a segunda [refere-se às guerras de Napoleão] causará o mesmo efeito neste vasto continente. A súbita reação da ideologia exagerada nos trará quantos males nos faltavam, ou melhor, virão para completá-los. V.S. verá que todos irão entregar-se à torrente da demagogia, e que desgraçados os povos!, e desgraçados os governos![11]

Estes testemunhos revelam que, longe de aspirar a uma revolução, Bolívar estava era preocupado em impedir que a América do Sul virasse um Haiti de proporções continentais.

Republicano, mas nem tanto

Apesar da retórica anticolonial, para Bolívar a democracia era um ideal que não servia para a América. Logo após a independência da Venezuela em 1813, Bolívar escreve em carta a Manuel Antonio Pulido, governador de Barinas, que:

Jamais a divisão do poder estabeleceu e perpetuou governos; somente a sua concentração conseguiu infundir respeito numa nação e eu não libertei a Venezuela senão para implementar exatamente este sistema[4].

Em sua Carta de Jamaica de 1815, Bolívar denuncia a Venezuela como o exemplo mais claro “da ineficácia do modelo democrático e federal”[3]. Em discurso realizado em San Tomé de Angostura (1819), afirmou que um sistema de governo como o dos Estados Unidos não é apropriado para a América Latina. Em 1825, durante a constituinte da Bolívia propõe a ele próprio como presidente vitalício e o poder para escolher o vice-presidente, o qual deveria sucedê-lo, e justifica:

“[…] com esta providência se evita as eleições, que produzem grandes revezes nas repúblicas, a anarquia que é o luxo da tirania e o perigo mais imediato e terrível dos governos populares.[5]

Seu plano de governo não chegava nem perto do ideal democrático e representativo dos republicanos americanos. Provavelmente até a Monarquia Constitucional inglesa fosse um modelo mais republicano que aquele que Bolívar tinha em mente. No mesmo texto em que propõe um único governo para administrar a Venezuela e a Colômbia, além de um Congresso, propõe um Senado vitalício como a Câmara dos Lordes inglesa, e não abre mão de defender com todas as letras o “respeito supersticioso” evocado pelos prestígios e regalos monárquicos:

A veneração que professam os povos à magistratura real é um prestígio que influi poderosamente para aumentar o respeito supersticioso que atribui a essa autoridade. O esplendor do trono, da coroa, da púrpura, o apoio formidável que empresta a nobreza, as imensas riquezas que gerações inteiras acumulam em uma mesma dinastia, a proteção fraternal que reciprocamente recebem todos os reis são vantagens muito consideráveis que militam em favor da autoridade real e a fazem quase ilimitada. Essas mesmas vantagens são, por consequência, as que devem confirmar a necessidade de atribuir a um magistrado republicano uma soma maior de autoridade que a que possui um príncipe constitucional.[12]

Ou seja, na prática, um presidente deveria ter mais poder que um rei. A república bolivariana é um modelo de transição do Absolutismo para a República: quando houve o rompimento das colônias espanholas com a metrópole, a Espanha ainda não tinha passado por reformas liberais e portanto estava longe de ser uma Monarquia Constitucional.

Numa completa inversão da atitude dos revolucionários franceses, Bolívar não instituiu um Estado racionalista nem deu vazão a emoções anticlericais. No artigo VI de sua Constituição Boliviana, declara:

A Religião Católica, Apostólica, Romana, é da República, com exclusão de todo outro culto público. O Governo a protegerá e fará respeitar, reconhecendo o princípio de que não há poder humano sobre as consciências.[13]

Institui portanto um Estado confessional católico.

A Constituição também rechaça o federalismo, declarando a Bolívia um Estado republicano e unitário. O Presidente exerce cargo vitalício:

Artigo 77 – O exercício do Poder Executivo reside em um Presidente, vitalício, um Vice-presidente, e três Ministros de Estado.[14]

Mas não é qualquer um que pode ser presidente. Para ser presidente é necessário ser boliviano, católico, ter mais de trinta anos, ter prestado algum serviço importante à República e não ter sido jamais condenado pelos tribunais, nem mesmo por faltas leves[14].

Para obter a cidadania, os requisitos são bastante elitistas para a época, como a alfabetização. Por este motivo, a democracia seria representativa e indireta: haveriam representantes do povo, capazes de ler e escrever, e estes é que votariam e elegeriam os políticos. “Vadios” também não tem direito a cidadania e esta pode ser suspensa por dívida, vício em bebida ou jogo, mendicância ou corrupção[14].

A “Constituição Bolivariana”, apesar das grandes inovações republicanas e liberais, depositava muito poder nas mãos do Presidente que, na prática, era um imperador republicano.

Herança autoritária?

Bolívar morreu desprezado pelos seus antigos aliados, derrotado na disputa política pelo poder após as independências. Quem inventou a figura mítica do Bolívar unificador e harmonizador foi o governo de Fermin Toro, do Partido Conservador de Venezuela. Este é o imaginário Bolívar representante da Nação venezuelana, aquele cuja imagem foi apropriada por sucessivos governos autoritários e em torno do qual se ergueu um verdadeiro culto à sua pessoa, colocando-o no altar de toda a América Latina.

Bolivar cuadro

A adoção de Bolívar pela esquerda se difunde após o desenvolvimento da “teoria da dependência” – a crença de que a pobreza latino-americana decorre dos séculos de colonização espanhola e portuguesa e do imperialismo anglo-americano. Tal teoria, um misto de nacionalismo e marxismo, nunca explicou como uma revolução nacional se converte em uma revolução socialista. Para os crentes nesta teoria, libertação nacional e revolução socialista são parte de um mesmo processo. O antiamericanismo de Bolívar contribuiu decisivamente para a sua adoção.

Não é à toa que Hugo Chávez difundia tanto o livro “Veias abertas da América Latina” de Eduardo Galeano, a magnum opus desta mentalidade simplista. A teoria da dependência legitima regimes autoritários, nacionalistas e socialistas, paternais protetores contra “os imperialistas” – reais ou imaginários – sempre prestes a nos atacar. Bolívar foi um republicano, liberal em certos aspectos e conservador em outros. Sua adoção por regimes autoritários fascistas, nazistas e socialistas, só evidencia que a desonestidade intelectual nunca sai de moda e que os “fascistas do bem” nunca cansam de distorcer a História para fazê-la caber nas suas teses simplistas.


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Leia mais:


Fontes:

[1] Rojas Mix, M. (1993). La cultura hisponamericana del siglo XIX.
[2] Roldán, J. M. (1989). Historia de España.
[3] Bolívar, Simón (1815). Carta de Jamaica (1815).
[4] Bolívar, Simón (1813). Carta a Manuel Antonio Pulido, gobernador de Barinas.
[5] Bolívar, Simón (1826). Discurso ao Congresso Constituinte da Bolívia.
[6] Lynch, John (2007). Simón Bolívar: A Life.
[7] Bolívar, Simón (1825). Carta de 7 de abril al general Francisco de Paula Santander.
[8] Bolívar, Simón (1826). Carta de 21 de febrero al General Francisco de Paula Santander.
[9] Bolívar, Simón (1826). Carta de 12 de mayo al gran mariscal Antonio Jose de Sucre.
[10] Bolívar, Simón (1826). Carta de 8 de octubre al general Francisco de Paula Santander.
[11] Bolívar, Simón (1830). Carta de 9 de noviembre al general Juan José Flores.
[12] Bolívar, Simón (1819). Discurso de Angostura.
[13] Quisbert, Ermo (2010). Primera Constitución Política de Bolivia 19 Noviembre 1826.
[14] Constitución Boliviana de 1826.

Referência:

Szymoniak, Ewelina. El Pensamiento Político de los Independentistas Latinoamericanos: Simón Bolívar, Andrés Bello.

A Guerra de Três Lados – Parte IV

Está lá nas cartilhas do colégio: as potências que compunham o Eixo eram Alemanha, Itália e Japão. O termo designa os principais signatários do Pacto Tripartite de 1940 que foi assinado um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial. O Pacto foi assinado mais tarde também por outras nações como Hungria, Romênia e outros governos de inspiração fascista que já antecipavam o conflito iminente com os comunistas. Posteriormente integradas ao Eixo, à marra, foram as nações ocupadas pelos nacional-socialistas – como a Holanda – e governos colaboracionistas – como o da França. Incluem-se aí também inúmeros Estados-fantoche.

O que é que França, Holanda e Inglaterra tinham em comum, além de estarem sob assédio militar da Alemanha Nacional-Socialista? Todas estas nações possuíam colônias na Ásia. E estas colônias interessavam muito ao Japão, fosse por causa dos recursos ou por causa de sua posição estratégica. Em vez de aproveitar a aproximação diplomática com as metrópoles pró-Eixo, o Japão preferiu invadir as colônias e favorecer aliados na região.

Ásia II – Índia, Indochina e Pacífico

1. Invasão japonesa à Indochina Francesa (1940-1945)
Para evitar que a República da China importasse armas ou combustível através da Indochina Francesa, os japoneses invadiram este país em setembro de 1940, embora ele fosse uma colônia da França de Vichy, pró-Eixo.

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As tropas japonesas, no início de 1940, estavam se movendo para cercar Longzhou (na China), onde um braço da estrada de Hanoi alcançava a fronteira. A resistência chinesa, abastecida desde a Indochina, foi férrea.

Então, em 22 de junho, a França assinou um armistício com o III Reich, aliado do Japão no Eixo. Isto estabeleceu o governo pró-Eixo da França, a “França de Vichy”, no território francês não ocupado militarmente. Este governo pró-Eixo controlava as posses ultramarinas francesas, incluindo a Indochina.

Com a captura de Longzhou, restava livre a ferrovia que supria Yunnan. O Japão pressionou Vichy para fechá-la, mas não obteve sucesso. Por isso, os japoneses prepararam uma invasão à Indochina. Ante a ameaça, a França cedeu: assinou um acordo garantindo ao Japão o direito de estacionar e movimentar tropas e suprimentos em território indochinês, embora com limitações, prontamente violadas. Isso colocou Vichy e Japão em oposição na Batalha de Lang Son: tropas coloniais francesas e da Legião Estrangeira enfrentaram o Exército Imperial Japonês até 25 de setembro do mesmo ano. A vitória japonesa abriu caminho para Hanoi, mas Vichy ainda possuía defensores. Os conflitos continuaram, envolvendo combate aéreo e marítimo no Golfo de Tonquim e bombardeios em Haiphong, enquanto Vichy buscava negociação com o Japão.

O Japão acabou ocupando o norte da Indochina, restringindo ainda mais seu bloqueio contra a China, e ali permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial.

2. Guerra Franco-Tailandesa (1940-1941)
Conflito entre a Tailândia e a França de Vichy sobre certas áreas da Indochina Francesa que pertenceram à Tailândia no passado. Após a Queda da França em 1940, o Major-General Plaek Phibunsongkhram (“Phibun”), o primeiro ministro da Tailândia, decidiu que a derrota da França deu aos tailandeses uma outra chance de recuperar territórios perdidos.

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A ocupação da metrópole francesa pela Alemanha tornou o controle das possessões ultramarinas francesas uma tarefa mais complicada: a administração colonial, isolada, não podia obter suprimentos ou ajuda externa. Após a invasão da Indochina pelos japoneses, em setembro de 1940, os franceses foram forçados a permitir a instalação de bases militares japonesas. Isto deixou claro para o regime de Phibun que a França de Vichy não resistiria a um confronto com a Tailândia, que era relativamente bem equipada.

O conflito, que durou cerca de oito meses, foi encerrado por um cessar-fogo mediado pelos japoneses com resultado positivo para a Tailândia: os territórios disputados na Indochina Francesa foram cedidos.

Posição Política da Indochina Francesa

A Indochina Francesa era mantida como uma colônia de exploração da França. Logo após a Queda da França em 1940, assumiu como governador-geral o militar Jean Decoux, leal ao regime colaboracionista de Pétin.

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Philippe Pétain

O regime de Pétain, a “França de Vichy”, era um Estado-fantoche do III Reich, não menos autoritário. Sua soberania só se estendia sobre as zonas livres que não haviam sido ocupadas militarmente pelos alemães durante a invasão da França, o que incluia as colônias na Ásia e na África. No entanto, em novembro de 1942 também a “zona livre” seria ocupada militarmente e portanto supervisionada de perto pelos alemães.

 

Marechal Pétain colaborou com as forças de ocupação alemãs, inclusive ajudando a perseguir judeus e outros inimigos políticos. As forças militares coloniais francesas se opuseram ativamente aos Aliados, mas um conflito de interesses entre o Japão e a França de Vichy acabou por colocar ambos em guerra.

Encerrada a Segunda Guerra Mundial em 1945, a França pediu a anulação do Tratado Franco-Siamês de 1938 e tentou reassumir sua posição na região, mas entrou em conflito com o Viet Minh, uma coalização de comunistas e nacionalistas vietnamitas sob liderança de Ho Chi Minh. O Viet Minh obtivera apoio dos EUA durante a Segunda Guerra para combater os japoneses e era a guerrilha dominante nas zonas rurais.

Com a inviabilização diplomática, para a França, de reaver suas colônias perdidas, esta desistiu do conflito. Como resultado, a Indochina foi particionada em três estados independentes (Camboja, Laos e Vietnam). Estes ainda viveriam muitos conflitos militares consecutivos na Guerra Fria – as duas Guerras do Vietnã – devido a atuação de guerrilhas comunistas. De uma forma ou de outra, todos os países que compunham a península da Indochina acabaram caindo sob regimes comunistas.

3. Ocupação da Tailândia (1941-1945)
Confrontos esporádicos entre forças tailandesas e francesas irromperam ao longo da fronteira leste da Tailândia em outubro de 1940, e culminaram com a invasão ao Laos e ao Camboja em janeiro de 1941. Ainda que as forças francesas tenham sofrido nos combates em terra, sua marinha obteve uma vitória esmagadora sobre a principal frota tailandesa em Koh Chang, obrigando os japoneses a intervir e mediar o conflito.

Japanese Occupation of Thailand 1941

Apesar da mediação ter garantido conquistas territoriais para o regime tailandês, o seu desejo por mais se viu impedido por um Japão simpático ao regime francês pró-Eixo.  Os interesses militares dos japoneses na região, no entanto, não poderiam ser satisfeitos sem o acesso a portos estratéticos e o posicionamento de tropas. Assim, em dezembro de 1941 o Japão invadiu a Tailândia e, após poucas horas, venceu a batalha e ocupou o país.

Com a assinatura do armistício tailandês com o Japão, as esperanças inglesas de obter uma aliança com a Tailândia desapareceram. O país seria usado como base de operações japonesas para invadir a Malásia e a Singapura. A partir de então, uma aliança formal entre Tailândia e Japão entrou em vigor, com o primeiro oferecendo inclusive tropas para a campanha na Birmânia e declarando guerra aos EUA e ao Reino Unido.

Posição Política da Tailândia

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Plaek Phibunsongkhram

No início da Segunda Guerra, a Tailândia era regida por um governo autoritário. Seu primeiro-ministro era Plaek Phibunsongkhram, um oficial militar que nutria admiração pelo fascismo e pelo rápido desenvolvimento nacional que este parecia oferecer. Consequentemente, Phibun cultivou e intensificou o militarismo e o nacionalismo e construiu um verdadeiro culto à sua personalidade usando modernas técnicas de propaganda. O irredentismo também era uma bandeira, tipicamente francofóbica, que tinha como objetivo a restauração de territórios no Camboja e no Laos.

 

Buscando apoio contra a França e confrontada com a oposição americana e a hesitação britânica, a Tailândia buscou ajuda japonesa no confronto com a Indochina Francesa.

O Japão usou sua influência no regime de Vichy para obter concessões à Tailândia. A recuperação destes territórios e a aparente vitória do regime sobre uma potência colonial européia aumentaram a reputação de Phibun. Como o regime tailandês não se contentava com o que obteve, acabou gerando um distanciamento na sua relação com o Japão que, a esta altura, buscava fortalecer suas relações com o regime de Vichy na França colaboracionista. Este desgaste levaria à ocupação do país pelos japoneses.

4. Invasão da Malásia Britânica (1941-1942)
Conflito iniciado logo após o ataque a Pearl Harbor, é considerado a primeira grande batalha da Guerra do Pacífico. Opôs o Exército Britânico Indiano e a Austrália ao Império do Japão na região da Kota Bharu, Malásia.

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A região da Malásia era uma importante base de operações para a Royal Air Force (RAF) britânica e para a Royal Australian Air Force (RAAF) da Austrália, e portanto de grande importância estratégica. Apoiado pela Tailândia e por facilidades obtidas na Indochina através da conivência do regime de Vichy, o Japão pretendia agora usar o território tailandês para atacar a  Malásia.

Com o sucesso da operação, a Tailândia também enviou suas tropas para ocupar os estados malaios de Perlis, Terengganu, Kedah e Kelantan, sob controle britânico desde o Tratado Anglo-Siamês de 1909. Ao fim da primeira semana de janeiro de 1942, toda a região norte da Malásia já havia sido tomada pelos japoneses, enquanto Tailândia e Japão assinavam um Tratado de Amizade para consolidar sua aliança militar.

Em meados de janeiro, os japoneses já haviam alcançado o estado malaio sulista de Johore, onde enfrentaram oposição da 8ª Divisão Australiana. Em 31 de janeiro as últimas forças aliadas organizadas deixaram a Malásia e explodiram a ponte que ligava Johore a Singapura.

Em menos de dois meses, a Batalha da Malásia terminou com a derrota das forças da Commonwealth e sua retirada da península da Malásia para os fortes da Singapura. Os japoneses invadiriam a ilha de Singapura em 7 de fevereiro e completariam a conquista da ilha no dia 15 do mesmo mês.

Posição Política da Malásia

A Malásia Britânica compreendia, na época, um conjunto de Estados na península malaia e na ilha de Singapura que foram colocadas sob controle britânico entre os séculos XVIII e XX. O termo frequentemente é usado para se referir aos estados malaios sob governo indireto britânico bem como aos Estabelecimentos dos Estreitos. O território todo estava dividido em três tipos de administração colonial.

Os Estados Malaios Federados, que compreendiam Selangor, Perak, Negeri Sembilan e Pahang foram estabelecidos pelo governo britânico em 1895. O Reino Unido era responsável pelos assuntos externos e pela defesa da federação, enquanto os estados continuavam responsáveis pelas políticas domésticas. Cada um destes estados era administrado por um residente britânico. À época da invasão japonesa, Norman Rowlstone Jarett era o residente de Selangor, Marcus Rex era o residente de Perak, John Vincent Cowgill era o residente de Negeri Sembilan e C. C. Brown o residente de Pahang.

Os Estados Malaios não Federados compreendiam outros cinco protetorados britânicos na penínusla da Malásia: Johor, Kedah, Kelantan, Perlis e Terengganu. Não tinham instituições comuns e não formavam um estado único na lei internacional. Os quatro estados de Kelantan, Terengganu, Kedah e Perlis, obtidos do Sião pelos britânicos em 1909, foram temporariamente devolvidos aos tailandeses com a ajuda dos japoneses.

Os Estabelecimentos dos Estreitos compreendiam quatro territórios britânicos na região: Malaca, Penang, Singapura e Labuan. Eram colônia da Coroa e portanto respondiam diretamente ao Colonial Office em Londres, em vez do governo indiano sediado em Calcutá. Seu último governador geral foi Sir Shenton Thomas, feito prisioneiro quando da ocupação japonesa de Singapura.

A Malásia, ao contrário de outras regiões ocupadas pelo Japão, não teve Estados-fantoche estabelecidos. Foi mantida sob administração militar japonesa, com exceção dos estados do norte que foram reincorporados à Tailândia.

5. Invasão de Bornéu (1942)

A campanha japonesa na ilha de Bornéu se concentrou na vitória sobre o Reino de Sarawak, Bornéu do Norte e a parte ocidental de Kalimantan, que era parte das Índias Orientais Holandesas.

Em 1941, Bornéu estava dividida entre as índias Orientais Holandesas, protetorados britânicos (Bornéu do Norte, Sarawak e Brunei) e uma colônia da coroa britânica (Labuan).

Posição Política de Bornéu

Charles Vyner Brooke the last white rajah
Charles Vyner Brooke, o último rajá branco

Os chamados “rajás brancos”, da família Brooke, estavam no comando de Sarawak a quase um século sob o Sultanato de Brunei, e desde 1888 como protetorado do Império Britânico. No momento da invasão japonesa estava no governo o terceiro (e último) rajá branco: Charles Vyner Brooke. Quando da invasão, estava visitando a Austrália e lá permaneceu até que pudesse retornar ao seu reino – ocupado pelos japoneses até 1945 -somente para abdicar no ano seguinte e incorporar seu país à coroa britânica.

 

Bornéu do Norte era, desde 1882, outro protetorado britânico. Sua administração – com exceção da política externa – estava nas mãos da North Borneo Chartered Company, uma companhia majestádica submetida à coroa britânica. O país foi ocupado pelos japoneses de 1942 a 1945, e depois de libertado pelas tropas aliadas permaneceu sob administração militar britânica até que fosse reincorporado à administração colonial.

O resto da ilha, conhecido como Kalimantan, estava sob domínio holandês.

6. Invasão das Filipinas (1941-1942)

A invasão das Filipinas iniciou em 8 de dezembro de 1941 dez horas depois do ataque de Pearl Harbor. Assim como no ataque de Pearl Harbor, as aeronaves americanas foram severamente danificadas no ataque inicial japonês: com pouca cobertura, a Frota Asiática Americana nas Filipinas se retirou para Java quatro dias depois do início do conflito. A rendição das últimas tropas filipinas e americanas em Bataan ocorreu em 9 de abril de 1942.

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O Japão ocupou as Filipinas por três anos até sua rendição no fim da guerra. Uma efetiva campanha de guerrilha das forças de resistência das Filipinas controlova sessenta porcento das ilhas, sobretudo áreas de selva e montanha. O general MacArthur as supria via submarino, enviando também reforços e oficais. Os filipinos se mantiveram leais aos Estados Unidos, parcialmente por causa da garantia de independência dada pelos americanos.

Posição Política das Filipinas

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Manuel Luis de Quezón y Molina, presidente à época da invasão japonesa.

Estabelecida em 1935, a Commonwealth das Filipinas era um Estado em comunidade com os Estados, porém com governo próprio. Durante sua década de existência, a Commonwealth possuía um forte executivo e uma Suprema Corte. Sua legislatura, primeiramente unicameral e posteriormente bicameral, era dominada pelo Partido Nacionalista, conservador de centro-direita. Seu primeiro e único presidente foi Manuel Luis Quezón y Molina, que a governou por nove anos, dois dos quais (1942-1945) em exílio.

 

 

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José Paciano Laurel y García, presidente do Estado-fantoche japonês, a Segunda República Filipina.

Quando os japoneses invadiram, instauraram um Estado-fantoche denominado Segunda República Filipina. A Commonwealth foi dissolvida e uma Comissão Executiva Filipina foi instaurada como governo, tendo Jorge B. Vargas (o prefeito da capital, Manila) como presidente. Formou-se então o KALIBAPI (sigla para “Organização a Serviço das Novas Filipinas”) pela Proclamação No. 109 da Comissão Executiva Filipina que ao mesmo tempo bania todos os partidos políticos então existentes. O Partido Ganap, pró-japonês, foi absorvido pelo KALIBAPI, que preparou a Constituição do novo Estado. O primeiro e único presidente desta república autoritária de partido único foi José P. Laurel, que apesar de ser considerado por muitos como um colaboracionista e traidor, obteve apoio popular nas eleições do pós-guerra.

7. Invasão da Indonésia (1942-1945)
Os japoneses ocuparam a Indonésia, então conhecida como Índias Orientais Holandesas, de março de 1942 até sua rendição em 1945. Este foi um dos períodos mais críticos da História da Indonésia. Sob ocupação alemã, a Holanda tinha pouca capacidade para defender sua colônia contra o exército japones, e em menos de três meses após os primeiros ataques em Bornéu o exército e a marinha japonesa venceram as forças aliadas e holandesas.

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Entre 1944 e 1945, as tropas aliadas optaram por contornar a Indonésia, não entrando em partes mais populosas como Java e Sumatra. Por isso, a maior parte da Indonésia ainda estava sob ocupação japonesa quando o Império Japonês se rendeu em agosto de 1945.

A ocupação foi o primeiro desafio sério aos holandeses na Indonésia e acabou com seu governo colonial na região. Esta ocupação causou mudanças tão numerosas e profundas que tornou possível a Revolução Indonésia, impensável apenas três anos antes. Ao contrário dos holandeses, os japoneses facilitaram a politização dos indonésios até mesmo nos vilarejos. Particularmente em Java, e em menor extensão em Sumatra, os japoneses educaram, treinaram e armaram jovens indonésios e deram voz política para seus líderes nacionalistas. A ocupação, portanto, criou as condições para a independência da Indonésia, declarada dias após a rendição japonesa no Pacífico. A Holanda tentou reaver as ‘Índias’, mas um conflito social, militar e diplomático de cinco anos acabou resultando no reconhecimento da soberania indonésia em dezembro de 1949.

Posição Política da Indonésia

Colônia holandesa desde o fim do século XVIII, a Indonésia era parte do território denominado Índias Orientais Holandesas. A ordem social colonial se baseava em rígidas estruturas sociais e raciais com uma elite holandesa vivendo separada do restante dos nativos.

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Sukarno

As políticas e estratégias coloniais eram de responsabilidade do Ministério das Colônias sediado em Hague. No século XX a colônia se desenvolveu gradualmente como um estado distinto da metrópole: em 1922 a colônia foi posta em pé de igualdade com a Holanda na Constituição, ainda que permanecesse sob o Ministério das Colônias. Mesmo com a introdução de um Conselho Popular (Volksraad) em 1918, a participação de nativos era muito restrita. Apesar das decisões serem tomadas pelo governo holandês, o governador-geral deveria consultar a Volksraad sobre questões mais importantes. O Volksraad foi dissolvido em 1941 pelas forças de ocupação japonesa.

A Holanda havia sido invadida pelo III Reich em 1940 e estava sob um regime de ocupação. Ainda assim declarou guerra ao Japão tão logo este invadiu suas colônias. Porém, as Forças Livres Holandesas – compostas por remanescentes da Marinha Real Holandesa e do Exército Real das Índias Orientais Holandesas – continuaram a luta ao lado dos Aliados (americanos, britânicos e australianos).

Com o fim da Segunda Guerra e da ocupação japonesa em 1945, ocorre a Revolução Nacional Indonésia, conflito que opõe movimentos independentistas e nacionalistas indonésios às forças coloniais holandesas e seus aliados britânicos. O líder da Indonésia independente seria uma figura nacionalista expressiva, já em formação desde a ocupação japonesa (com a qual colaborou): Kusno Sosrodihardjo, o Sukarno.

8. Ocupação da Birmânia (1942-1945) e Invasão à Índia (1944)
O Japão decidiu invadir a Birmânia, então possessão do Império Britânico, para obter recursos naturais como petróleo e cobalto, mas também para proteger o seu flanco no ataque à Malásia e Cingapura.

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Um fator adicional foi  a finalização da Estrada da Birmânia em 1938, que ligava o país à província chinesa de Yunnan. Esta estrada era usada para levar apoio e munição às forças nacionalistas chinesas que combatiam os japoneses. Por isto, os japoneses precisavam cortar esta rota de suprimentos.

Os japoneses ocuparam o norte da Tailândia, que possuíam um tratado de amizade com o país desde 1941 e daí atacariam a Birmânia pelo sul. Depois do sucesso inicial na invasão e ocupação do território em 1942, os japoneses e seus aliados (birmaneses e indianos colaboracionistas) conseguiram defender este território das investidas Aliadas (EUA, Império Britânico e República da China) até 1944, ano em que o Japão tentou, sem sucesso, invadir a Índia – também possessão britânica. Após perder batalhas em Imphal e Kohima, os japoneses gradualmente perderam este território para as ofensivas Aliadas.

Política da Índia

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Archibald Wavell, o último governador-geral e vice-rei da Índia.

O subcontinente da Índia, que incluia o Paquistão e a Birmânia, caiu sob domínio britânico em 1858 e foi administrado como uma colônia britânica até sua independência em 1947. Quando do início da Segunda Guerra Mundial, as tensões sociais geradas no país quase culminaram em uma guerra separatista, uma vez que nesta mesma época não só os hindus buscavam mais autonomia como os muçulmanos do país tentavam obter o status de estados independentes, o que seria obtido em 1947 com a separação do Paquistão. Entre 1936 e 1943 foi governada pelo governador-geral e vice-rei da índia, o Segundo Marquês de Linlithgow, Victor Alexander John Hope, sucedido no cargo pelo marechal de campo e Primeiro Conde Wavell, Sir Archibald Percival Wavell, que governou até a independência do país em 1947.

Estima-se que mais de dois milhões de indianos prestaram serviço militar voluntário no Exército Britânico, desempenhado grande papel em numerosas campanhas, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África.

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Subhas Chandra Bose

Por outro lado, uma força nacionalista, emancipacionista e pró-japonesa também existia: era o Exército Nacional Indiano formado em 1942 por ex-prisioneiros de guerra capturados pelos japoneses na Malásia e em Singapura. Este exército era também parte de um governo nacionalista provisório em exílio, o Azad Hindi ou Governo Provisório da Índia Livre, apoiado pelo Japão e sediado na Singapura ocupada. Seu líder era Subhas Chandra Bose, um nacionalista que recorreu ao III Reich, à União Soviética e ao Império do Japão para obter apoio à sua causa: a expulsão dos britânicos e a independência da Índia.

Em 1942, uma missão britânica (a Missão Cripps) se encarregou de assegurar a cooperação de nacionalistas indianos no esforço de guerra em troca de uma prometida independência após o fim da guerra. No mesmo ano, seria lançado o movimento “Quit India” (saia da índia) que exigia a imediata retirada dos britânicos da índia sob ameaça de massiva desobediência civil. A repressão política não tardou a colocar milhares de pessoas na cadeia até pelo menos 1945: o país se viu atordoado por protestos violentos de estudantes e camponeses, rapidamente contidos pelo Exército Britânico. Nada disso, no entanto, parece ter reduzido os esforços de guerra britânicos.

01/00/1998. File pictures of Mahatma Gandhi
Mahatma Gandhi

Durante o longo processo político que culminou com a independência do país, um nome se destaca. Exercendo ativismo político pacífico, mas radical, Mahatma Gandhi é talvez o indiano mais conhecido ao redor de todo o mundo: suas marchas e protestos contra o colonialismo no país já eram conhecidas desde a década de 30. Manteve sua posição pró-independência mesmo no auge da Segunda Guerra, em 1942, quando chegou a ser preso por dois anos.

No final de 1945 a Inglaterra ofereceria à India uma limitada autonomia dentro do Império Britânico, prontamente rejeitada. Em 1946, motins explodiriam entre os militares em Bombay, Calcutá, Madras e Karachi, sendo rapidamente reprimidos. As tensões levariam o governo trabalhista britânico a agir mais rápido, convocando novas eleições na Índia e agilizando o processo de independência. Conforme as tensões entre hidus e muçulmanos cresciam, Jawaharlal Nehru assumiu o governo interino como primeiro ministro.

Em 1947 os britânicos transferiram o poder sobre o país para o governo local, não sem antes mediar a partição do país entre hindus, sikhs e muçulmanos, separando o Paquistão do restante do país. Em áreas fronteiriças, no entanto, os conflitos religiosos perdurariam.

Política da Birmânia

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Ba Maw

Os britânicos mantiveram a Birmânia como uma província da Índia, também sua colônia, desde 1886 até 1937 quando o país recebeu uma nova constituição e uma assembléia própria. Embora ainda fosse uma colônia britânica, possuía mais autonomia do que quando era uma província.

O país foi governado pelo primeiro-ministro Ba Maw até 1940. Ba Maw, do “Partido do Homem Pobre”, se opunha à participação da Grã-Bretanha e, por extensão, da Birmânia na Segunda Guerra Mundial. Por este motivo, foi preso por sedição em 1940. Quando o país foi invadido pelo Japão em 1942, Ba Maw foi libertado pelos japoneses e posto na administração provisória do território.

Em 1943, o Império do Japão estabeleceu um Estado-fantoche, o Estado da Birmânia. Ba Maw, ex-premiê da colônia, foi feito chefe de Estado nominal. A promessa era de independência para a Birmânia ao final da guerra, o que não se concretizaria sob o mando japonês que se retirou em 1945, o que levaria o Estado-fantoche ao colapso.

Conclusão:
O Império Japonês foi muito mais hábil que as outras potências do Eixo ao mobilizar forças nativas contra os Aliados porque contava com o sentimento anticolonialista de diversos grupos asiáticos vivendo sob mando francês, britânico, holandês, etc. A sua “Esfera de Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental” oferecia uma alternativa de independência aos regimes coloniais e foi de fato muito atrativa para diversos movimentos nacionalistas que viam na aliança com o Japão – a primeira e única superpotência asiática capaz de enfrentar e vencer os ocidentais – a oportunidade de engrandecer suas nações e se livrar de uma história humilhante de submissão ao estrangeiro.

Por isto, o Japão estabeleceu muito mais Estados-fantoches que as potências do Eixo na Europa: para os países da Ásia, a simples oportunidade de ter um autogoverno limitado por uma potência asiática era um grande avanço com relação ao governo colonial sediado na Europa. Como o colonialismo é propício para acender os ânimos nacionalistas, a Commonwealth britânica vivia sob o perigo constante de ter suas colônias arrebatadas por algum movimento nacionalista e independentista que as colocasse nas mãos do Japão, e a situação não era muito diferente para a França ou a Holanda.

Ao contrário do que se pensa, o Japão cometeu falhas mais insensatas do que outras potências do Eixo. Por não ter articulado suas ações com os regimes pró-Eixo da França e da Holanda – potenciais aliados em manobras militares contra britânicos, americanos e chineses – guerreou contra forças coloniais que poderiam ser suas aliadas. Uma falha maior do que as trapalhadas italianas na África, mas que não impediu o Japão de manter-se em guerra até mesmo depois da rendição da Alemanha.


Leia também:

A Verdade Sobre o Neoconservadorismo (parte final)


Continuação do ensaio escrito por Ron Paul. Para ler a primeira parte, clique aqui.

O comunismo seguramente perdeu muito com a quebra do Império Soviético mas isto dificilmente pode ser declarado como uma vitória para a liberdade americana, como os Pais Fundadores entenderam. O neoconservadorismo não é uma filosofia de livre mercado e uma sábia política externa. Pelo contrário, representa o governo inchado assistencialista interno e um programa de uso do nosso poderio militar para espalhar suas versões de valores americanos pelo mundo. Uma vez que os neoconservadores dominaram o jeito de fazer política no governo americano que agora opera, convém a nós todos entender suas crenças e metas. O rompimento do sistema soviético pode bem ter sido um evento épico, mas dizer que os pontos de vistas dos neocons são os vencedores incontestáveis e que tudo que precisamos fazer é esperar pelas suas implementações é uma rendição para controlar as forças da história que muitos americanos ainda não estão prontos para admitir. Certamente não há necessidade de fazê-lo.

Existe agora uma conexão filosófica reconhecida entre os neoconservadores modernos e Irving Kristol, Leo Strauss e Maquiavel. Isto é importante em entender que as políticas de hoje e os problemas subsequentes estarão conosco por anos a vir se essas políticas não forem revertidas.

Não apenas Leo Strauss escreveu de modo favorável a Maquiavel, Michael Ledeen, um atual líder do movimento dos neoconservadores, fez o mesmo. Em 1999 Ledeen intitulou seu livro “Machiavelli on Modern Leadership” (Maquiavel sobre a liderança moderna, tradução livre) e deu o subtítulo: “Porque as regras firmes de Maquiavel são tão convenientes e importantes hoje como há cinco séculos”. De fato, Ledeen é um teórico neocon influente cujo seus pontos de vista obtém muita atenção em Washington. Seu livro sobre Maquiavel, curiosamente, foi passado para os membros do congresso presentes uma reunião de estratégia política logo após sua publicação e em pouco tempo mais que A Clean Break foi lançado.

Na mais recente publicação de Ledeen, The War Against The Terror Master (A guerra contra o mestre do terror, tradução livre), ele reitera suas crenças delineado neste livro sobre Maquiavel de 1999. Ele especificamente elogia: “Destruição criativa… tanto dentro da nossa sociedade quanto fora… (estrangeiros) ao ver os Estados Unidos desfazerem sociedades tradicionais podem temer a nós, visto que eles não desejam serem desfeitas”. Surpreendentemente Ledeen conclui: “Eles devem nos atacar de modo a sobreviver, assim como devemos destruí-los para avançar nossa missão histórica”.

Se essas palavras não te assusta, nada te assustará. Se elas não são uma clara advertência, eu não sei o que poderia ser. Parece algo como ambos os lados de cada discordância no mundo vai estar seguindo o princípio da guerra preventiva. O mundo certamente é um lugar menos seguro por isso.

Em Machiavelli on Modern Leadership, Ledeen elogia um líder nos negócios por corretamente entender Maquiavel: “Não há soluções absolutas. Tudo depende. O que é certo e o que é errado depende sobre o que precisa ser feito e como”. Isso é uma clara afirmação da situação ética e não está vindo da esquerda tradicional. Isso me lembra de: “Depende de qual definição da palavra ‘é’ é”.

Ledeen cita Maquiavel de modo a aprovar sobre o que faz um grande líder. “Um príncipe não deve ter outros objetivos ou pensamentos ou tomar qualquer coisa em relação de sua habilidade, exceto a guerra”. Para Ledeen isso significa: “A virtude do guerreiro são essas, de grandes líderes de qualquer organização de sucesso”. No entanto, é obvio que guerra não é coincidente com a filosofia neocon, mas uma arte integrante. Os intelectuais justificam isso e os políticos o realizam. Há uma razão precisa para argumentar por guerra sobre a paz, de acordo com Ledeen pois “…a paz aumenta o nosso risco por fazer a disciplina menos urgente, encorajando alguns de nossos piores instintos, privando-nos de nossos melhores líderes”. Paz, ele alega, é apenas um sonho e nem mesmo algo agradável, por isso causaria indolência e iria minar o poder do estado. Embora eu reconheço que a história do mundo é a história de gerra frequente, a capitular e desistir até mesmo a lutar pela paz – acreditando que a paz não é um benefício para a humanidade – é um pensamento assustador que condena o mundo a uma guerra perpétua e justifica-o como um benefício e uma necessidade. Essas são ideias perigosas, pelo que nada de bom pode vir.

O conflito de eras tem sido entre o estado e o indivíduo: poder central contra liberdade. Quão mais contido o estado e mais ênfase na liberdade individual, maior tem sido o avanço da civilização e prosperidade geral. Como a condição do homem não foi fechada em um local pelos tempos e guerras do passado e melhorou com liberdade e mercados livres, não há razão para crer que um novo estágio para o homem não poderia ser alcançado por acreditar e trabalhar pelas condições de paz. A inevitável e tão chamada necessidade pela guerra preventiva deveria nunca ser justificada intelectualmente como sendo um benefício. Tal atitude garante um retrocesso da civilização. Neocons, infelizmente, alegam que a guerra está na natureza do homem e que nós não podemos fazer muita coisa sobre isso, então vamos usá-la em nosso proveito para promover nossa bondade em todo o mundo através da força das armas. Esta visão é anátema para a causa da liberdade e preservação da Constituição. Se não for refutada em voz alta, nosso futuro será, de fato, terrível.

‘Para sobreviver é preciso lutar o tempo todo. A paz leva a decadência. Por isso, uma ordem política somente pode ser estável se for unida por uma ameaça externa. Se não existir nenhuma ameaça externa, então, é preciso fabricar uma.’ – Leo Strauss

Ledeen acredita que o homem é mal e não pode ser deixado por seus próprios desejos. Portanto, ele deve ter uma liderança adequada e própria, assim como Maquiavel argumentou. Somente assim o homem pode alcançar o bom, como explica Ledeen: “A fim de alcançar as mais notáveis realizações, o líder pode ‘entrar para o mal’. Essa é a visão arrepiante que fez Maquiavel tão temido, admirado e desafiador… nós estamos podres”, argumenta Ledeen. “É verdade de que nós podemos alcançarmos a grandeza se, e somente se, estivermos adequadamente conduzidos”. Em outras palavras, o homem é tão depravado que indivíduos são incapazes de grandeza moral, ética e espiritual e alcançar excelência e virtude pode somente vir de um líder autoritário poderoso. Que ideias depravadas são essas que agora influenciaram nossos líderes em Washington? A questão de Ledeen não respondida é: “Por que os líderes políticos não sofrem das mesmas deficiências e onde eles obtém seus monopólios sobre a sabedoria?”

Uma vez que esta confiança esteja colocada nas mãos de um líder poderoso, esse neocon argumenta que certas ferramentas são permissíveis de uso. Por exemplo, “a mentira é fundamental para a sobrevivência das nações e para o sucesso das grandes empresas, porque se nossos inimigos podem contar com a confiabilidade de tudo que você disser, sua vulnerabilidade é enormemente aumentada”. E sobre os efeitos de mentir sobre seu próprio povo? Quem se importa se um líder pode enganar o inimigo? Chamando-o de “estratégia de decepção” faz a mentira moralmente justificável? Ledeen e Maquiavel diz que sim, conquanto que a sobrevivência do estado esteja em jogo. Preservar o estado é seu objetivo, ainda que a liberdade pessoal de todos os indivíduos tenha que ser suspensa ou cancelada.

Ledeen deixa claro que a guerra é necessária para estabelecer fronteiras nacionais – porque esse é o modo que sempre foi feito. Quem precisa de progresso da raça humana! Ele explica: “Olhe para o mapa do mundo: as fronteiras nacionais não foram desenhadas por homens pacíficos conduzindo vidas de contemplação espiritual. Fronteiras nacionais tem sido estabelecidas por guerra e o caráter nacional tem sido moldado por luta, geralmente lutas sangrentas”.

Sim, mas quem está a liderar o comando e decidir por quais fronteiras iremos lutar? Que tal fronteira com 6 mil milhas de distância sem relação com nossas próprias fronteiras contíguas e nossa própria segurança nacional? Afirmando um relativo truísmo em relação a frequência de guerra por toda a história, dificilmente deveria ser a justificação moral para a expansão do conceito de guerra para resolver disputas humanas. Como alguém pode chamar isso de progresso?

Maquiavel, Ledeen e os neocons reconheceram a necessidade de gerar um zelo religioso para promover o estado. Isso, afirma ele, é especialmente necessário quando a força é usada para promover uma agenda. Tem sido verdade ao longo da história e continua ser verdade até hoje, cada lado de grandes conflitos invoca a aprovação de Deus. Nosso lado se refere a uma “cruzada”, o deles a um “Jihad sagrado”. Muitas vezes as guerras se resumem a seu deus contra o nosso Deus. Parece que esse princípio é mais um esforço cínico para ganhar a aprovação das massas, especialmente daqueles mais prováveis de serem mortos pela causa dos promotores de guerra de ambos os lado que possuem poder, prestígio e riqueza em jogo.

Ledeen explica por que Deus deve sempre estar do lado dos defensores da guerra: “Sem temor a Deus, nenhum estado pode durar tanto tempo, visto que o pavor da danação eterna que mantém os homens na linha, faz eles honrarem suas promessas e inspira-os a arriscar suas vidas para o bem comum”. Parece que morrer ao bem comum ganhou um status moral mais elevado do que a salvação eterna da alma. Ledeen continua: “Sem o medo da punição, os homens não obedecerão as leis que os forcem a agir o contrário de suas paixões. Sem medo de armas, o estado não pode aplicar as leis… para este fim, Maquiavel quer líderes para tornar o estado espetacular”.

É interessante notar que algumas grandes denominações cristãs junta neoconservadores em promover a guerra preventiva, enquanto ignoram completamente a doutrina cristã da Guerra Justa. Os neocons solicitaram e receberam abertamente seus apoios.

Eu gostaria de alguém para recolher qualquer coisa do que os Pais Fundadores disseram ou colocaram na Constituição que concorde com a doutrina agora professada de um estado “espetacular”, promovido por aqueles que agora possuem muita influência em nossas políticas aqui no país e no exterior. Ledeen argumenta que este elemento religioso, este temor de Deus, é necessário para aqueles que podem ser hesitantes em sacrificar suas vidas pelo bem do “estado espetacular”.

Ele explica em termos estranhos: “Morrer pelo país não vem naturalmente. Exércitos modernos, surgidos da população, devem ser inspirados, motivados e doutrinados. Religião é o centro do empreendimento militar, para homens que estão mais propensos a arriscar suas vidas, se eles irão acreditar que serão recompensados para sempre depois de terem servidos seu país”. Isso é uma admoestação que poderia muito bem ter sido dada por Osama bin Laden, reunindo suas tropas para o sacrifício em matar infiéis invasores, como por nossos intelectuais no AEI, que influencia grandemente nossa política externa.

Neocons – ansiosos para os EUA usarem força para realinhar fronteiras e mudar regimes no Oriente Médio – claramente entende o benefício da galvanização e evento emocional para reunir pessoas para a sua causa. Sem um evento especial, eles perceberam a dificuldade em vender sua política de guerra preventiva, onde nosso próprio pessoal militar seria morto. Se fosse na Lusitânia, Pearl Harbor, no Golfo de Tonkin ou no Maine, todos serviram seus propósitos em promover uma guerra que fora solicitada por nossos líderes.

Ledeen escreve um evento fortuito (1999): “…claro, nós sempre podemos ter sorte. Eventos colossais de fora podem providencialmente despertar a empresa de seu entorpecimento crescente e demonstrar a necessidade de reversão, como o devastador ataque japonês a Pearl Harbor em 1941, de modo tão efetivo despertou os EUA de seus sonhos tranquilizantes de neutralidade permanente”.

Surpreendentemente, Ledeen chama Pearl Harbor de um evento “de sorte”. O Project for a New Amrican Century, como recentemente, em Setembro de 2000, igualmente previu a necessidade por “um evento de Pearl Harbor” que galvanizaria o povo americano a apoiar seus planos ambiciosos para garantir a dominação política e econômica do mundo, enquanto isso estrangulando qualquer “rival” em potencial.

Reconhecendo uma “necessidade” para um evento de Pearl Harbor e referenciando a Pearl Harbor como sendo de “sorte”, não são idênticos aos de apoio e conhecimento de um evento como esse, mas que essa simpatia para um evento a galvanizar, como o 11 de Setembro se tornou, foi formulado para promover uma agenda que constitucionalistas ferrenhos e devotos dos Pais Fundadores desta nação encontrou terrível, é de fato perturbante. Depois do 11 de Setembro, Rumsfeld e outros discutiram por um ataque imediato no Iraque, mesmo que não estive implicado nos ataques.

O fato de que neo-conservadores ridicularizam aqueles que firmemente acredita que o interesse dos EUA e da paz mundial seria melhor servido por uma política de neutralidade e evitar envolvimentos estrangeiros não deveria ser incontestado. Não o fazer é tolerar seus planos grandiosos por uma hegemonia americana mundial.

A atenção atual dada a neocons normalmente vem no contexto de política externa. Mas há mais do que está acontecendo hoje em dia do que apenas a influência tremenda que neocons tem em nossa nova política de guerra preventiva com o objetivo de império. Nosso governo está agora sendo movido por uma série de idéias que vem juntos no que chamo de “neoconismo”. A política externa está sendo debatida abertamente, mesmo se suas implicações não estão sendo totalmente compreendidas por muitos que as apoiam. Washington está agora sendo dirigida por antigos pontos de vistas reunidas em um novo pacote.

Nós sabemos que aqueles que nos governam – ambos na administração e no congresso – mostram nenhum apetite para desafiar sistemas fiscais ou monetário que causam tantos danos a nossa economia. A Receita Federal e o Banco Central estão fora dos limites das críticas e reformas. Não há resistência aos gastos, tanto no campo doméstico quanto no exterior. A dívida não é vista como problema. Economistas da corrente “Lado da Oferta” venceram esta questão e agora muitos conservadores prontamente defenderam gastos deficitários.

Não há uma oposição séria à expansão do estado assistencialista, com rápido crescimento da burocracia da educação, agricultura e assistência médica. Apoio a sindicatos trabalhistas e protecionismo não são incomuns. As liberdade civis são facilmente sacrificadas na atmosfera predominante pós-11 de Setembro em Washington. Questões de privacidade são de pouco interesse, exceto por poucos membros do congresso. Ajuda internacional e internacionalismo – apesar de algumas críticas saudáveis da ONU e da nossa crescente preocupação pela nossa soberania nacional – são defendidos por ambos os lados do corredor. A aprovação está dada ao livre mercado e para a liberdade de tratados de comércio, contudo toda a economia é regida por legislações de interesses comerciais favorecendo grandes corporações, grandes sindicatos e, especialmente, grandes gastos do governo em modelar o mercado.

Em vez do “fim da história”, nós agora estamos experimentando o fim de um movimento sonoro do governo limitado na capital de nossa nação. Enquanto muitos conservadores já não defendem orçamentos equilibrados e redução de gastos, muitos progressistas tem aumentado uma lenta defesa pelas liberdade civis e agora estão aprovando guerras que iniciamos. A então chamada “terceira via” chegou e, infelizmente, tomou o pior do que os conservadores e progressistas têm para oferecer. As pessoas estão bem menos fora disso, enquanto a liberdade definha como um resultado.

Os neocons entusiasticamente abraçaram o Ministério da Educação e o exame nacional[1]. Ambos os partidos apoiam de forma esmagadora o enorme compromisso para um novo programa de prescrição de medicamentos. Suas devoções para a nova abordagem chamada “conservadorismo compassivo” atraiu muitos conservadores no apoio a programas para a expansão do papel do governo federal sobre o assistencialismo e caridades promovida por instituições religiosas. A iniciativa baseada na fé é um projeto neocon, ainda que reformula e expande a noção progressista de assistencialismo. Os intelectuais que promoveram essas iniciativas eram neocons, porém não há nada de conservador em promover a expansão do papel do governo federal sobre o assistencialismo.

 

Michael Ledeen, um dos mais influentes nomes da política externa americana.

Políticas econômicas baseado no “Lado da Oferta” de baixos impostos marginais tem estado incorporado no neoconismo, assim como seus apoios a crédito e inflação monetária abundantes. Neoconservadores não tem interesses no padrão-ouro e até mesmo ignoram o argumento por um falso padrão-ouro dos economista da vertente “Lado da Oferta”.

Há alguma surpresa de que os gastos do governo federal está crescendo, em um ritmo mais rápido do que em qualquer época dos últimos 35 anos?

Poder, política e privilégio prevalecem sobre o império da lei, liberdade, justiça e paz. Mas não precisa ser dessa maneira. O neoconismo reuniu muitas ideias antigas sobre como o governo deveria governar o povo. Pode ter modernizado seus atrativos e sua embalagem, porém governança autoritária é governança autoritária, independente das conotações humanitárias. Uma solução só pode vir após a ideologia atual que dirige nossa políticas de governo ser substituída por algo mais positivo. Em um contexto histórico, a liberdade é uma ideia moderna e deve, mais uma vez, recuperar o fundamento de moral elevada para a civilização avançar. Reafirmando as antigas justificações para guerra, o controle de pessoas e um estado benevolente não será suficiente. Não se pode eliminar as deficiências que sempre ocorrem quando o estado assume autoridade sobre os outros e quando a vontade de uma nação é forçada em uma outra – se for ou não for feita com boas intenções.

Eu percebo que todos os conservadores não são neoconservadores e todos os neocons necessariamente não concordam com todos os pontos – o que significa que, apesar sua tremenda influência, a maioria dos membros do congresso e da administração, necessariamente não tomam suas ordens direcionadas ao American Enterprise Institute ou Richard Perle. Mas para usar isso como uma razão para ignorar o que os líderes neoconservadores acreditam, escrevem e discutem por algo – com sucesso espetacular eu poderia assinalar – estaria em nosso próprio risco. Este país ainda permite abrir discursos – embora menos ultimamente – e nós que não concordamos deveríamos forçar a discussão e expor aqueles que dirigem as nossas políticas. Está ficando mais difícil conseguir uma discussão honesta e equilibrada nesses pontos, porque tornou-se rotina para as hegemonias em rotular aqueles que contestam a guerra preventiva e vigilância doméstica como traidores, anti-patriota e anti-americano. A uniformidade de apoio por nossa atual política externa pelas majoritárias e redes de noticiários de TV a cabo deveria preocupar todo americano. Todos nós deveríamos ser gratos pelo C-SPAN[2] e a internet.

Michael Ledeen e outros neoconservadores já estão fazendo lobby para a guerra contra o Irã. Ledeen é um pouco antipático para aqueles que falam por uma abordagem calma e razoável, chamando aqueles que não estão prontos para a guerra de “covardes e conciliadores de tiranos”. Porque alguns incitam uma abordagem menos militarista para lidar com o Irã, ele alega que eles estão traindo as melhores “tradições” dos Estados Unidos. Eu me pergunto de onde ele aprendeu o início da história americana! É óbvio que Ledeen não considera os Pais Fundadores e a Constituição parte de nossas melhores tradições. Quase que em nenhum momento fomos encorajados pelos revolucionários americanos a perseguir um império americano. Entretanto, fomos instigados em manter a república que eles tão meticulosamente projetaram.

Se os neoconservadores retém o controle de conservador, do movimento de governo limitado em Washington, das ideias, uma vez defendidas por conservadores, de limitar o tamanho e o escopo da vontade do governo, será um sonho há muito esquecido.

Os que acreditam na liberdade não devem enganar a si mesmos. Quem deve estar satisfeito? Certamente não os conservadores, pois não há movimento conservador à esquerda. Como poderia os progressistas estarem satisfeitos? Eles se agradaram com a centralização de programas de educação e saúde em Washington e apoiam muitas propostas do governo. Mas nenhum deve estar satisfeito com o ataque constante às liberdade civis de todos os cidadãos americanos e o consenso atual aceito de que guerra preventiva – por qualquer razão – seja uma política aceitável para lidar com os conflitos e os problemas do mundo.

Apesar da deterioração das condições em Washington – com perda de liberdade pessoal, uma economia fraca, déficits explodindo, guerra perpetual, seguido de nacionalismo/ desenvolvimentista – há ainda um número considerável de nós que apreciaria a oportunidade de melhorar as coisas, de um modo ou de outro. Certamente um crescente número de americanos frustrados, tanto de direita quanto de esquerda, estão ficando ansiosos para ver o congresso fazer um trabalho melhor. Mas, primeiro, o congresso deve parar de fazer um mau trabalho.

Nós chegamos num ponto em que precisamos pegar em armas, tanto aqui, em Washington, quanto em todo o país. Não estou falando sobre armas de fogo. Aqueles entre nós que se importam precisam levantar os braços e encarar nossa vitória por fora e começar a acenar e gritar: pare! Chega e basta! E deveria incluir progressistas, conservadores e independentes. Nós todos estamos fazendo falsas acusações vindos de políticos que são pressionados por pesquisas e controlados por interesse especial de dinheiro.

Uma coisa é certa, não importa o quão moralmente justificável os programas e as políticas pareçam, a capacidade para financiar todos os canhões ou manteigas prometidos é limitada e tais limites estão se tornando aparente a cada dia que passa.

Gastos, empréstimos e dinheiros impressos não pode ser o caminho da prosperidade. Não funcionou no Japão e também não está funcionando aqui. Na realidade, nunca funcionou em qualquer momento ao longo da história. Um ponto é sempre alcançado onde o planejamento governamental, gastos e inflação perde a força. Ao invés destas ferramentas antigas reviverem a economia, como eles fazem nos primeiros estágios do intervencionismo econômico, eventualmente eles se tornam o problema. Ambos os lados do espectro político devem, um dia, compreender que a intrusão governamental sem limites na economia, em nossas vidas pessoais e nos assuntos de outras nações não podem servir os melhores interesses para os Estados Unidos. Isto não é um problema conservador nem é um problema progressista – é um problema de intrusão governamental que vem de ambos os grupos, embora por diferentes razões. Os problemas emanam de ambos os lados que defendem diferentes programas por diferentes razões. A solução virá quando ambos os grupos perceberem que não é um mero problema de partido único, ou somente um problema progressista ou conservador.

Uma vez que muitos de nós decidirmos que nós já tivemos o bastante dessa então chamada boas coisas que o governo está sempre prometendo – ou, mais provavelmente, quando o país está quebrado e que o governo é incapaz de cumprir suas promessas ao povo – nós poderemos iniciar uma discussão séria sobre o papel apropriado do governo em uma sociedade livre. Infelizmente, será depois de um tempo em que o congresso receber as informações de que as pessoas estão exigindo uma verdadeira reforma. Isso exige que aqueles responsáveis pelos problemas de hoje sejam expostos e suas filosofias de intrusão governamental penetrante seja rejeitada.

Deixe não ser dito de que ninguém importava, de que ninguém se pôs, uma vez que seja percebido que nossas liberdades e riquezas estão em perigo. Alguns tem, outros continuarão a fazer, mas muitos – tanto dentro como fora do governo – fecham seus olhos para questões de liberdade pessoal e ignoram o fato de que empréstimos infinitos para financiar demandas infinitas não podem ser sustentadas. A verdadeira prosperidade pode somente vir através de uma economia saudável e dinheiro lastreado. Que somente pode ser alcançado em uma sociedade livre.

Notas do tradutor:
[1] Exame estudantil semelhante ao Enem.
[2] Rede televisiva de caráter governamental, semelhante ao nosso TV Senado ou TV Câmara.

Ron Paul é médico e ex-político americano, já foi candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Libertário e Partido Republicano.

Traduzido por Rodrigo Viana

Leituras complementares:

A Verdade Sobre o Neoconservadorismo (parte 1)

POR RON PAUL
Artigo escrito em Julho de 2003.

Errata: segue as notas do tradutor não publicadas anteriormente. Para ler a continuação deste ensaio, clique aqui.

Nos dias atuais, o movimento do governo limitado tem sido cooptado. Os conservadores falharam em seus esforços em diminuir o tamanho do governo. Não houve, nem haverá tão logo, uma revolução conservadora em Washington. O controle do partido político do governo federal mudou mas, inexoravelmente, cresceu em tamanho e escopo do governo continuou sem se abater. O argumento progressista pela diminuição governamental em assuntos pessoais e o aventureirismo militar estrangeiro nunca foram seriamente considerado como parte dessa revolução.

Dado que a mudança do partido político no comando não fez uma diferença, quem está realmente no comando? Supondo o determinado partido no poder faz pouca diferença, de qual a política é a que permite programas do governo expandidos, aumento de despesas, enormes déficits, políticas nacionalistas/ desenvolvimentistas[1] e a invasão penetrante de nossa privacidade, com menos proteção da Quarta Emenda[2] do que nunca?

Alguém é responsável e é importante que aqueles de nós que amam a liberdade e ressentem-se a um governo do Grande Irmão[3], identificar os apoiadores filosóficos que tem mais dito sobre a direção que o nosso país está indo. Se eles estiverem errados, e acredito que estejam, nós precisamos mostrar, alertar o povo americano e oferecer uma abordagem mais positiva ao governo. Contudo, isso depende se o povo americano deseja viver em uma sociedade livre e rejeita a noção perigosa de que precisamos de um governo central forte para cuidar de nós do berço à sepultura. O povo americano realmente acredita que é responsabilidade do governo em fazermos moralmente melhores e economicamente iguais? Nós temos uma responsabilidade em policiar o mundo, ao passo que impondo a nossa visão de bom governo em todo o resto do mundo com alguma forma de nacionalismo/ desenvolvimentismo utópico? Supondo que não e com os inimigos da liberdade expostos e rejeitados, então cabe a nós apresentar uma filosofia alternativa que seja superior moralmente, economicamente sólida e provê um guia de assuntos ao mundo para realçar a paz e o comércio.

Uma coisa é certa: os conservadores que trabalharam e votaram por menos governo nos tempos de Reagan e receberam bem a aquisição do congresso americano e a presidência nas décadas de 90 e início de 2000 foram enganados. Em breve ele irão perceber que a meta do governo limitado tem estado quase parada e que suas visões quase não importam mais.

A então chamada revolução conservadora de duas décadas passadas tem dado-nos um enorme aumento no tamanho do governo, em gastos e regulamentações. Déficits estão explodindo e a dívida nacional está agora a subir a mais de meio trilhão de dólares por ano. Os impostos não caem – mesmo que votamos para diminuí-los. Eles não podem, contanto que despesas esteja aumentada, uma vez que todos os gastos devem ser pagos de um jeito ou de outro. Tanto os presidentes Reagan[4][5] e George Bush “pai” aumentaram impostos diretamente. Com esta administração, até agora, impostos diretos tem sido reduzidos – e eles certamente deveriam estar estar reduzidos – mas significa pouco se gastos aumentam e déficits sobem.

Quando impostos não são elevados para acomodar gastos altos, as contas deverão ser pagas tanto por empréstimo ou por “imprimir” dinheiro novo[6]. Esta é uma razão do porque nós temos um generoso presidente do Banco Central que está disposto acomodar o Congresso. Com empréstimo e inflação, “imposto” é adiado e distribuído de um jeito que dificulta, para aqueles que pagam impostos, identificá-lo. Por exemplo, gerações futuras, ou aqueles com rendimentos fixos que sofrem dos aumentos de preço e daqueles que perdem empregos – eles certamente sentem as consequências dos deslocamentos econômicos que este processo causa. Gasto governamental é sempre um “imposto” carregado pelo povo americano e nunca é distribuído igualmente ou de modo justo. O trabalhadores pobres e os de renda média-baixa sempre sofrem a maior parte dos impostos enganosos da inflação e do endividamento.

Muitos conservadores de hoje, que geralmente argumentam por menos governo e que apoiaram a aquisição Reagan/Gingrich/Bush do governo federal, estão agora justificativamente desiludidos. Embora não sendo um grupo monolítico, eles quiseram encolher o tamanho do governo.

No início de nossa história, os que advogavam um governo limitado e constitucional reconheceram dois importantes princípios: o estado de direito foi crucial e um governo constitucional deve derivar “somente poderes do consentimento dos governados”. Foi entendido que uma transferência explícita de poder ao governo poderia somente ocorrer com o poder corretamente e naturalmente dotado para cada indivíduo como um direito dado por Deus. Portanto, os poderes que poderiam ser transferidos seriam limitados ao propósito de proteger a liberdade.

Irving Kristol, o “pai” do neoconservadorismo.

Infelizmente, nos últimos 100 anos, a defesa da liberdade tem sido fragmentada e partilhada por vários grupos, com algum protegendo as liberdades civis, outras liberdade econômica e um pequeno grupo diverso argumentando por uma política externa não-intervencionista.

A filosofia da liberdade tem tido um difícil caminho, e foi esperado que o interesse renovado em um governo limitado de duas décadas atrás iria reviver um interesse em constituir a filosofia da liberdade sem algo mais consistente. Aqueles que trabalharam pela meta de um governo limitado creram a retórica de políticos que prometeram o governo menor. Às vezes era somente um plano de pensamento desleixado de suas partes, mas em outras vezes, eles foram vítimas de uma distorção deliberada de uma filosofia de governo limitado conciso por políticos que induziram muitos a crer que nós veríamos um recuo na intromissão do governo.

Sim, sempre houve um remanescente que ansiava por um governo verdadeiramente limitado e mantido na crença do Império da Lei, combinado com uma profunda convicção de que as pessoas livres e um governo sujeito a Constituição eram formas mais vantajosas de um governo. Eles reconheceram isso como a única forma prática para a prosperidade ser espalhada para o número máximo de pessoas ao passo que promovendo paz e segurança.

Esse remanescente – imperfeito como deve ter sido – foi ouvido nas eleições de 1980 à 1994 e então alcançado grandes vitórias em 2000 e 2002 quando proponentes declaradamente pelo estado limitado assumiram a administração, o senado e a Casa Branca. No entanto, os apoiadores do estado limitado estão agora sendo evitados e sendo motivo de risos. No mínimo, são ignorados – exceto quando eles são usados por novos líderes da direita política, os novos conservadores que agora estão no comando do governo dos EUA.

Os instintos dos remanescentes estavam corretos, e os políticos aquietaram os com a conversa de mercados livres, governo limitado e uma modesto nacionalismo/ desenvolvimentismo em política externa. Contudo, um pequeno interesse pelas liberdades civis foi expressado nesta recente busca por menos governo. No entanto, para uma vitória final de alcançar a liberdade, isto deve mudar. Interesse em privacidade pessoal e escolhas tem, geralmente, permanecido fora do interesse de muitos conservadores – especialmente com o grande dano causado por apoiarem a guerra contra as drogas. Apesar de que algumas confusões emergiram sobre a nossa política externa desde o colapso do império soviético, tem sido um benefício líquido em ter alguns conservadores de volta aos trilhos de uma política externa menos militarista e intervencionista. Infelizmente, depois do 11 de Setembro, a causa da liberdade sofreu um revés. Como resultado, milhões de americanos votaram “revolução americana do menos pior” porque acreditaram nas promessas se políticos.

Agora há crescentes evidências para indicar exatamente o que ocorreu com a revolução. O governo está maior do que nunca e os futuros compromissos são esmagadoras. Em breve, milhões ficarão desencantados com o novo status quo que foi entregue ao povo americano pelos defensores do estado limitado e vão achar nada mais do que o velho status quo. As vitórias pelo governo limitado tem se tornado, de fato, vazias.

Os neocons modernos tem vindo da extrema-esquerda, um grupo historicamente identificado como ex-trotskystas. 

Uma vez que a dívida nacional está a aumentar sob uma taxa de maior do que meio trilhão por ano, o limite da dívida foi recentemente aumentado por um espantoso 984 bilhões de dólares. As obrigações totais do governo dos EUA são de 43 trilhões, enquanto o total do patrimônio líquido das famílias americanas é de apenas 40 trilhões. O país está quebrado, mas ninguém em Washington parece notar ou se importar. O compromisso filosófico e político por canhões ou manteigas[7] – e especialmente pela expansão do império americano – deve ser desafiada. Isso é crucial para nossa sobrevivência.

Apesar da economia estar em tropeços, o congresso e a administração continua a fazer novos compromissos em ajuda externa, educação, agricultura, medicina, esforços múltiplos em um estado nacionalista/ desenvolvimentista e guerras preventivas em volta do mundo. Nós já estamos fixados no Iraque e Afeganistão, com planos para aumentar rapidamente novos troféus para nossas conquistas. Conversa de guerra a se produzir quanto a quando Síria, Irã, e Coreia do Norte serão atacadas.

Como tudo isso aconteceu? Por que o governo fez isso? Por que o povo não se opôs? Quanto tempo isso vai continuar antes que algo seja feito? Alguém se importa?

Será que a euforia das grandes vitórias militares – contra não-inimigos – já amadureceram? Em algum dia, nós como um corpo legislativo devemos encarar a realidade da terrível situação pelo que temos permitindo a nós mesmos sermos enredados. Esperemos que será breve!

Chegamos aqui porque ideias tem consequências. Ideias más tem consequências más e até mesmo a melhor das intenções tem consequências não intencionais. Nós precisamos saber exatamente quais ideias filosóficas foram que nos levaram a este ponto; então, esperamos, rejeitá-los e decidir sobre outro conjunto de parâmetros intelectuais.

Há evidência abundante para aqueles que dirigem nossa política externa justificando guerra preventiva. Aqueles quem esquematizam são orgulhosos das realizações em usurpar o controle sobre a política externa. Estes são os neoconservadores de fama recente. Admitidos, eles são talentosos obtiveram uma vitória política em que todos os formuladores de política devem admirar. Mas pode a liberdade e a república sobreviver a este aquisição? Esta pergunta deveria nos preocupar.

Neoconservadores estão, obviamente, em posições de influência e estão completamente bem alocados em nosso governo e na mídia. Um congresso apático levantou uma pequena resistência e abdicou suas responsabilidades sobre os assuntos estrangeiros. O eleitorado foi facilmente influenciado a se juntar no fervor patriótico apoiando o aventureirismo militar defendido pelos neoconservadores.

O número daqueles que ainda tem esperança por um governo verdadeiramente limitado diminuiu e teve seus interesses ignorados nestes últimos 22 meses, durante a consequência do 11 de Setembro. Membros do congresso foram facilmente influenciados a apoiar publicamente qualquer política doméstica ou aventura militar estrangeira que, supostamente, era para ajudar a reduzir a ameaça de um ataque terrorista. Crentes do governo limitado era mais difícil de encontrar. Dinheiro político, como de costume, desempenhou um papel em pressionar o congresso em apoiar quase que qualquer proposta sugerida pelos neocons. Este processo – onde dólares de campanha e esforços de lobbies afeta a política – é, dificilmente, o domínio de qualquer simples partido político e, infelizmente, é o estilo de vida em Washington.

Há muitas razões do por quê o governo continua a crescer. Seria ingenuidade para alguém esperar o contrário. Desde o 11 de Setembro, a proteção da privacidade, se médica, pessoal ou financeira, desapareceu. A liberdade de expressão e a Quarta Emenda tem estado sob constante ataque. Despesas assistencialistas altas são endossadas por líderes de ambos os partidos. Policiar o mundo e questões nacionalistas/ desenvolvimentistas são alvos de campanha popular, e ainda eles agora padronizam procedimentos operacionais. Não há sinal de que estes programas serão diminuídos ou revertidos, tanto por estarmos parados pela força além mar (pelo que não será breve) ou quanto quebrarmos e podermos não mais dispor desses planos grandiosos para um império mundial (pelo que, provavelmente, virá mais cedo do que tarde).

Nada disso aconteceu por acaso ou coincidência. Ideias filosóficas precisas induziram certos indivíduos a ganhar influência para implementar estes planos. Os neoconservadores – o nome que eles se deram – diligentemente trabalharam em seus caminhos em posições de poder e influência. Eles documentaram suas metas, estratégias e justificação moral para todos os que esperavam realizar. Acima de tudo, eles não eram e não são conservadores dedicados ao governo limitado e constitucional.

Leo Strauss, o intelectual que está por trás das ideias imperialistas neoconservadoras.

O neo-conservadorismo tem estado em volta por décadas e, estranhamente, possui conexões com gerações passadas já em Maquiavel. O neo-conservadorismo de hoje foi introduzido a nós na década de 1960. Implica tanto uma estratégia detalhada quanto uma filosofia de governo. As ideias de Teddy Roosevelt[8] e, com certeza, Woodrow Wilson[9] foram muito semelhantes das ideias dos neocons modernos. O porta-voz neocon Max Boot se gaba de que o que ele defende é o “Wilsonianismo[10] forte”. Em muitos aspectos, não há nada “neo” em seus pontos de vistas e, com certeza, nada conservador. No entanto, eles tem sido capazes de cooptar o movimento conservador por propagandear a eles mesmos como uma nova ou moderna forma de conservadorismo.

Mais recentemente, os neocons modernos tem vindo da extrema-esquerda, um grupo historicamente identificado como ex-trotskystas. O progressista Christopher Hitchins[11] recentemente se juntou oficialmente aos neocons. E tem sido relatado de que ele já foi à Casa Branca como um consultor ad hoc. Muitos neocons agora em posição de influência em Washington podem traçar seus status de vota ao professor Leo Strauss, da Universidade de Chicago. Um dos livros de Strauss foi Thoughts on Machiavelli (Reflexões sobre Maquiavel, tradução livre). Este livro não foi uma condensação da filosofia de Maquiavel. Paul Wolfowitz, na verdade, teve seu doutorado sobre Strauss. Outros intimamente associados com estes pontos de vistas são Richard Perle, Eliot Abrams, Robert Kagan e William Kristol. Todos são peças-chaves em elaborar nossa nova estratégia de guerras preventivas. Outros incluem: Michael Ledeen, do American Enterprise Institute; James Woolsy, ex-diretos da CIA; Bill Bennet do famoso livro Book of Virtues (Livro de virtudes, tradução livre), Frank Gaffney, Dick Cheney e Donald Rumsfeld. Há pouco demais para mencionar quem estão filosófico ou politicamente conectados a política neocon em algum variados grau.

O padrinho do moderno neo-conservadorismo é considerado Irving Kristol, pai de William Kristol, que preparou o terreno em 1983 com sua publicação Reflections of a Neoconservative (Reflexões de um neoconservador, tradução livre). Neste livro, Kristol também defende a tradicional posição progressista do assistencialismo.

Mais importante do que os nomes de pessoas afiliadas om o neo-conservadorismo, são os pontos de vistas do qual eles aderem. Aqui está um breve resumo do entendimento geral do que os neocons acreditam:

  1. Concordam com Trotsky em uma revolução permanente, violenta, bem como intelectual.
  2. Eles estão redesenhando o mapa do Oriente Médio e estão dispostos a usar da força para fazê-lo.
  3. Acreditam em guerras preventivas para alcançar os fins desejados.
  4. Aceitam a noção de que os fins justificam os meios – que seus métodos políticos em usar modos desumanos, cruéis e agressivos é uma necessidade moral.
  5. Não expressam oposição ao estado assistencialista.
  6. Não estão envergonhados sobre o império americano, pelo contrário, o aprovam.
  7. Acreditam na mentira como necessário para o estado sobreviver.
  8. Acreditam que um poderoso governo em âmbito federal seja benéfico.
  9. Acreditam em fatos pertinentes em como a sociedade deveria ser executada e realizada pela elite e retida daqueles que não tem coragem de lidar com isso.
  10. Acreditam que a neutralidade nas relações exteriores é desaconselhável.
  11. Possuem alta estima por Leo Strauss.
  12. Acreditam que o imperialismo, se de natureza progressiva, é apropriado.
  13. Usando o poderio americano em forçar ideais aos outros é aceitável. Esse uso da força não deveria ser limitada a defesa de nosso país.
  14. O 11 de Setembro resultou na falta de envolvimentos estrangeiros e não de muitos envolvimentos.
  15. Não gostam e menosprezam libertários (portanto, o mesmo se aplica a todos os ferrenhos constitucionalistas)
  16. Defendem ataques contra as liberdades civis, como aqueles encontrados no Patriot Act, como sendo necessário.
  17. Incondicionalmente apoiam Israel e tem uma aliança próxima com o Partido Likud.

Várias organizações e publicações dos últimos 30 anos desempenharam um papel significante na ascensão do poder dos neoconservadores. Pegaram muito dinheiro e compromisso para produzir argumentos intelectuais necessários para convencer muitos participantes do movimento de sua própria respeitabilidade.

Não é segredo – especialmente depois da obstinada pesquisa e artigos escritos sobre neocons desde a nossa invasão no Iraque – em como eles ganharam influência e quais organizações foram usadas para promoverem suas causas. Apesar de décadas, eles agitaram suas crenças através de publicações como National Review, The Weekly Standard, The Public Interest, The Wall Street Journal, Commentary e New York Post, suas opiniões somente ganharam força nos anos 90, seguido da primeira Guerra do Golfo Pérsico – que ainda não terminou, mesmo com a remoção de Saddam Hussein. Eles tornaram-se convencidos de que uma abordagem muito mais combativa para resolver todos os conflitos no Oriente Médio era uma necessidade absoluta, e estavam determinados a implementar essa política.

Além das publicações, múltiplos institutos e projetos foram criados para promover sua agenda. Um produto do Bradley Foundation, o American Enterprise Institute (AEI) levou o neocon comandar, mas o verdadeiro impulso pela guerra veio do Project for a New American Century (PNAC), outra organização ajudada pela Bradley Foundation. Isto ocorreu em 1998 e foi presidido pelo editor da Weekly Standard, Bill Kristol. Logo no início, eles insistiram uma guerra ao Iraque mas ficaram desapontados com a administração de Clinton, que nunca seguiu seus ataques periódicos. Obviamente, esses ataques foram motivados mais pelo problemas pessoais e políticos de Clinton do que na crença da agenda neocon.

A eleição de 2000 mudou tudo isso. O Conselho de Política de Defesa, presidido por Richard Perle, não desempenhou nenhum papel pequeno na coordenação de vários projetos e institutos, todos determinados a nos levar a uma guerra contra o Iraque. Não foi muito tempo que o sonho do império foi trazido mais próximo da realidade pela eleição de 2000, com Paul Wolfwitz, Richard Cheney e Donald Rumsfeld desempenhando papéis importantes neste feito. O plano para promover uma “grandeza americana” de política externa imperialista era agora uma possibilidade distinta. O Iraque ofereceu uma ótima oportunidade para provar suas teorias de longa data. Esta oportunidade foi uma consequência do desastre do 11 de Setembro.

O dinheiro e os pontos de vistas de Rupert Murdock também desempenharam um papel importante em promover as visões neocons, também como angariar apoio da população em geral, através do seu News Corporation o qual pertence a Fox News Network, o New York Post e Weekly Standard. Este poderoso e influente império de mídia fez mais para galvanizar apoio público a invasão iraquiana do que se poderia imaginar. Isso facilitou a política de Rumsfeld/ Cheney como seus planos para atacar o Iraque chegaram a ser concretizados. Teria sido difícil para os neocons usurparem a política política externa das restrições do Departamento de Estado de Colin Powell sem a agitação de sucesso do império de Rupert Murdock. Max Boot estava satisfeito, como ele mesmo explicou: “Neoconservadores acreditam em usar o poderio americano para promover ideais americanos no exterior”. Esta atitude está muito longe do conselho dos Pais Fundadores americanos, que defendiam não enredar alianças e neutralidade como o objetivo correto de uma política externa americana.

Que não haja dúvida, aqueles no campo de neocons tem estado ansiosos para ir a uma guerra contra o Iraque por uma década. Eles justificam o uso da força para realizar seus objetivos, mesmo que seja necessário uma guerra preventiva. Se alguém duvida dessa informação, apenas precisa ler de suas estratégias em “A Clean Break: a New Strategy for Securing the Realm ”[12]. Embora eles se sentiram moralmente justificados em mudar o governo do Iraque, eles sabiam que o apoio público era importante e a justificação tinha sido dada para buscar a guerra. Claro, uma ameaça para nós tinha que existir diante do povo e do congresso iria junto com a guerra.

A maioria dos americanos se convenceu desta ameaça, pelo que, na realidade, realmente nunca existiu. Agora nós temos um debate em andamento sobre a localização das armas de destruição em massa. Onde estava o perigo? Foi toda uma matança e gastos necessários? Por quanto tempo esse nacionalismo/ desenvolvimentismo e essa morte lenta irá durar? Quando nos tornarmos mais interessados sobre as necessidades de nossos cidadãos do que os problemas que procuramos no Iraque e Afeganistão? Quem sabe onde será a próxima – Irã, Síria ou Coreia do Norte?

No fim da Guerra Fria, os neoconservadores realizaram um rearranjo do mundo que estava ocorrendo e que nossa economia superior e poder militar ofereceu-lhes uma perfeita oportunidade para controlar o processo de refazer o Oriente Médio.

Foi reconhecido que uma nova era estava sobre nós e os neocons acolheram pela declaração o “fim da história” de Frances Fukuyama. Para eles o debate acabou. O Ocidente venceu, os soviéticos perderam. O comunismo antiquado estava morto. Vida longa a nova era do neoconservadorismo. A luta pode não estar acabada, mas o Ocidente venceu a luta intelectual, eles argumentaram. O único problema é que os neocons decidiram definir a filosofia dos vitoriosos. Eles tem sido espantosamente bem sucedidos em seus esforços para controlar o debate sobre o que os valores ocidentais são e por quais métodos eles serão espalhados pelo mundo.

Aguarde a parte final deste ensaio.

Traduzido por Rodrigo Viana

Notas do tradutor:
[1] O termo original é Nation Building porém foi adotado o termo “nacionalismo/ desenvolvimentismo” por estar razoavelmente mais próximo do significado original.
[2] Quarta Emenda constitucional americana – Wikipedia
[3] Referente ao romance 1984 de George Orwell.
[4] The Reagan Fraud – And After, por Jeff Riggenbach – Mises Institute
[5] The Mithys of Reaganomics, por Murray Rothbard – Mises Institute
[6] O Básico sobre a Inflação, por Henry Hazlitt – Instituto Mises
[7] Canhões ou manteiga é uma expressão econômica onde os gastos governamentais priorizam a questão da defesa (armas/ militarismo) ou produção de bens (consumo para a população).
[8] Teddy Roosevelt foi presidente dos EUA no período entre 1901 à 1909. Seu governo foi bem caracterizado por um intervencionismo externo.
[9] Woodrow Wilson foi presidente dos EUA no período entre 1913 à 1921. Seu governo exerceu um forte intervencionismo/ imperialismo externo para a finalização da 1a Guerra Mundial. Tais ações política foram descrita através do seu “Quatorze Pontos”.
[10] Relativo às políticas intervencionistas do governo de Woodrow Wilson. Tem como metas “espalhar” democracia e capitalismo à força, contrário às políticas isolacionistas e não-intervencionistas e a favor de um imperialismo para a garantia do interesse da nação.
[11] Christopher Hitchins é um escritor e jornalista britânico. Foi tachado de neoconservador por apoiar as políticas intervencionistas no Iraque.
[12] Clean Break é um documento político que foi preparado por um grupo liderado por Richard Perle e, na época, o primeiro ministro israelita Benjamin Netanyahu. É um relatório sobre como resolver a questão da segurança de Israel no Oriente Médio com uma ênfase nos “valores ocidentais”. Tem sido criticado por conter uma defesa de política agressiva, como também na remoção de Saddam Hussein do poder no Iraque.

Sete Falácias Típicas do Esquerdista Vulgar

Quando se está em um debate, a primeira coisa a se fazer é avaliar o outro lado. Se estamos debatendo com alguém da esquerda política já podemos antever alguns argumentos e discursos escabrosos, mas ainda assim devemos identificar se estamos debatendo com um “esquerdista vulgar” ou com alguém que de fato leu sobre economia, política, direito, desde uma perspectiva da esquerda política.

No segundo caso, é provável que leiamos muitas falácias argumentativas mescladas com argumentos lógicos válidos, ou pelo menos argumentos lógicos válidos com premissas ocultas falsas ou infalseáveis. No primeiro caso, no entanto, não se deve esperar argumento lógico algum, somente uma pregação chata e repetitiva contra “o mundo moderno” com sua ganância, egoísmo, imoralidade, etc, etc. Neste segundo caso, também, é comum argumentos falaciosos como os que seguem abaixo. Para este tipo de argumento, não se deve pensar em respostas muito elaboradas, porque já estão refutados e isso desperdiçaria tempo em uma discussão que pode ser terminada rapidamente.

1. Tentar criticar o capitalismo criticando a política externa dos EUA
Política econômica é uma coisa. Política externa é outra. No momento, nem mesmo a economia americana tem sido um exemplo de capitalismo. Procure conhecer mais sobre Ron Paul e sobre a ideologia libertária para ter uma idéia.

2. Confundir Leis de Mercado com Lei da Selva, Lei do Mais Forte ou Anarquia.
O livre mercado é uma forma de organização social e de relações pacíficas e voluntárias entre pessoas. É portanto um modelo de civilização. Requer a existência de um Estado que proteja os direitos básicos do ser humano, a vida, a liberdade, a democracia, etc.

Comunismo: assim como o pirulicóptero, só decola na propaganda.

3. Negar os crimes do comunismo dizendo que o comunismo nunca existiu.
O liberalismo pleno também jamais existiu, mas os liberais admitem que quanto mais próximo do ideal de livre mercado, mais próspero será o país. Assumimos o que o liberalismo fez ao longo da história. Já os socialistas insistem em negar o caráter revolucionário e ditatorial que os acompanha desde Marx.

4. Acusar o capitalismo de ser filho do mercantilismo, do colonialismo e do imperialismo.
O mercantilismo e o colonialismo eram formas de controle das relações econômicas entre países, enquanto o liberalismo prega relações econômicas livres. Os países dominantes controlavam o comércio com as colônias e o liberalismo nasceu como oposição a essa prática. Basta ler os liberais clássicos para confirmar esta posição.

5. Acusar o capitalismo de privilegiar os ricos e de não ter compaixão pelos pobres.
O liberalismo prega o fim dos privilégios estatais, seja para qual “classe” for. Acreditamos também que os mais pobres vivem melhor justamente nos países mais livres. Não nos importamos com a desigualdade porque o que importa são as condições absolutas dos mais pobres, e não as relativas.

6. Personificar o mercado.
O mercado não é um pessoa, uma entidade, ou uma instituição como o governo. Muito menos um deus, uma autoridade arbitrária com vontade própria. O mercado é o conjunto de relações econômicas entre todos os indivíduos. Se a voz do povo é a voz de Deus, a voz do mercado é a voz do povo.

7. Confundir liberdade com meios (“De que adianta ter liberdade e não ter o que comer?”)
Ter liberdade mas não ter os meios de exercê-la é ruim, mas não ter nenhuma das duas coisas é pior ainda. A liberdade é o único caminho para se alcançar os meios. Liberdade e prosperidade dependem uma da outra.