As cruzadas e sua importância na história da Europa

É a Igreja (em conjunto com o Império, sobretudo o de Carlos Magno) que desenvolve nos bárbaros um sentido de união, identidade, espírito nacionalista e territorial. A importância disto é a própria sobrevivência da unidade europeia, da legitimidade do povo frente o estado anárquico no qual se encontrava após a queda do Império Romano. A Espanha conheceu muito bem essa importância e esse sentimento. É nesse cenário que a Europa se reconstrói, e que sobrevive até hoje.
Nesse aspecto, as cruzadas foram importantes por vários motivos, entre estes é que elas representaram a união de um povo em direção de algo comum, o amor por Deus e uma vida pautada na caridade e na virtude religiosa.
Muito bem, se esta é a realidade. Por que em meio ao amor, religiosidade e caridade se daria uma guerra?
Uma das maiores justificativas para uma guerra é a promoção da paz (ARISTÓTELES, 1985). Se a guerra almejar a paz, ela se justifica na visão do filósofo estagirita. Este espírito de justiça se alinha ao espírito de cuidar dos mais fracos, algo de extremo valor entre os cavaleiros medievais.
Barthélemy (2010) discorre da seguinte forma:
Segundo o profeta Isaías (XXV, 4), Deus “é a muralha do fraco e do pobre”. Ele protege a viúva e o órfão, cujas lamentações atiçam Sua cólera: ele mata seu repressor. No século VI, são os bispos cristãos que imitam esse tipo de Cavalaria de Deus e reivindicam (como no concilio de Mâcon 587) esse papel de defensores dos fracos (BARTHÉLEMY, 2010, p. 75).
Essa união de espírito religioso com o espírito guerreiro é uma das maiores relações encontradas na formação dos templários. Desde Carlos Magno que a cavalaria exerce papel fundamental nesse processo. Os nobres assumem esta tarefa, e a justiça se estende na proteção dos oprimidos.
Afinal. O que é uma guerra justa?
Woods Jr (2008) apresenta várias saídas para esse impasse. Remete-se a Santo Agostinho que apresenta uma guerra justa quando ela se opõe a uma injustiça, quando o agressor impõe sofrimento para um homem bom.  Descarta a desforra como motivo da guerra, assim como justificativas provenientes das paixões humanas. Santo Tomás de Aquino justifica a guerra a partir de três pontos; decisão do soberano; causa justa, e que vise promover o bem. No último caso, parece-me uma extensão do que o próprio Aristóteles, seu inspirador, já propunha na antiguidade. Aqui se finaliza este assunto, ao menos, para justificar a guerra no devido contexto histórico que ela ocorreu.
            Vamos aos fatos. Por amor, devoção, religiosidade, caridade, lealdade, entre outros adjetivos, os cristãos a partir do século IV já se direcionam a terra santa. Isto, graças a Helena mãe de Constantino o imperador cristão (DEMURGER, 2002). Helena descobre a verdadeira Cruz e o imperador constrói uma basílica ao lado do edifício que abrigava o sepulcro de Cristo. Logo, do século IV em diante a peregrinação era constante. No século VII, em 638, devido à conquista dos muçulmanos estas visitas passam a ser monitoradas e problemáticas. Voltam a ocorrer livremente em decorrência do bom relacionamento entre o imperador Carlos Magno e os muçulmanos. No século XI, o “califa louco” al-Hakim (1004-1014) rompe com a tradição das peregrinações ao oriente. Após 10 anos a peregrinação retoma sua normalidade, e alcança sua idade de ouro.
            Giordani (1984) assinala que as reconquistas bizantinas entre os séculos X e XI é que tranquilizaram a estadia dos cristãos nesse período. Entretanto, exércitos turcos adentram os territórios muçulmanos e reiniciam um embate contra os bizantinos. O sultão Alp-Arslan toma bizâncio, esta seria a justificativa para as cruzadas, ou para retomar o livre acesso a Jerusalém, pois, o Império cristão do Oriente já demonstrava sua fraqueza e não poderia mais proteger a cristandade. Nesse sentido, o papa Urbano II conclama os fieis em 1095.
Segue abaixo tal conclamação segundo Foucher de Chartres:
Que se dirijam portanto ao combate contra os Infiéis – um combate que vale ser travado e que merece um desfecho vitorioso – aqueles que até aqui se entregavam a guerras privadas e abusivas, para grande prejuízo dos fiéis! Que sejam doravante cavaleiros de Cristo aqueles que não eram senão bandidos! Que lutem agora, de todo direito, contra os bárbaros aqueles que se batiam contra seus irmãos e seus pais! (DEMURGER, p. 23, 2002).
Tal pronunciamento obteve grande impacto, e logo em 1096 uma massa gigantescamente eclética partia para o oriente. Entre estes, muitos cavaleiros é claro. Seguia, portanto a cruzada popular, posteriormente a dos barões e logo após uma série de novos contingentes. A cidade de Jerusalém foi tomada em 1099. Iniciam-se assim as chamadas cruzadas. O termo cruzadas segundo Giordani (1984) pode ser compreendido por uma expedição que visava à libertação e defesa do Santo Sepulcro. São oito as principais.
Como se formou a ordem dos templários durante as cruzadas?
Do bairro onde se localiza o Santo sepulcro é que a ordem militar se concretiza. Homens de armas, cerca de 30 cavaleiros iniciaram a ordem dos templários, Estes permaneceram após as primeiras cruzadas (DEMURGER, 2002). Ainda não era uma ordem, entretanto defendiam o Santo Sepulcro. Como decisão dos cavaleiros se elegeu um líder entre eles. Alojavam-se provavelmente no hospital do bairro, no qual foi responsável por abastecer com esmolas e comida os integrantes da ordem em desenvolvimento. Rompendo com os cavaleiros ligados ao hospital do bairro, um grupo independente formava uma ordem de obediência e castidade incumbida da missão de proteger e defender a Terra Santa. Em resumo, surgiam três ordens: beneficente; hospitalários e os templários. A ordem dos templários é fundada em 1120, e reconhecida em 1129.
Entendida a partir do conceito de Guerra Santa ou não, as cruzadas como um fenômeno militar em direção ao oriente tinha como finalidade a proteção dos peregrinos, bem como, conter o avanço muçulmano ao ocidente. Giordani (1984) atenta-se a Santo Agostinho como raiz teórica da Guerra Santa, da obra dele se extrai a sociedade belicosa como consequência das invasões bárbaras. A luta contra os infiéis endossa a Guerra Santa. Desde Leão IV que o papado se inclinava ao auxilio dos cristãos, nesse caso, contra os sarracenos em 848.
As condições para as guerras eram; uma maior população; falta de terras ou inatividade de cavaleiros; dificuldade de trabalho na lavoura e epidemias. Outra atração era a fonte de riquezas que o oriente oferecia ao imaginário ocidental (GIORDANI, 1984). Nos textos épicos que enaltecem Carlos Magno, o de Roland, por exemplo, era fascinante e inspirador. Evidentemente diversos interesses faziam parte da atmosfera, muito embora a religiosidade fosse à grande inspiração para defender os caminhos das peregrinações, bem como, defender-se dos muçulmanos. Esse era o bem comum.
Giordani (1984) destaca a categoria política, e nessa, nota as implicações estratégicas de grande inabilidade e ineficiência na defesa do oriente pelo império bizantino. Assim, os turcos seldjúcidas expandiam seus territórios. Com a evidente necessidade de defesa, e com a real fragmentação do ocidente, somente o papa estava credenciado para defender de forma adequada o extenso território europeu. Era mais uma tarefa da Igreja Católica para salvar a Europa de mais um aparente declínio e decadência, assim como, observamos na queda do Império Romano.
Não é possível neste ensaio apresentar detalhes de todas as 8 cruzadas, desta forma, sugiro a leitura da obra: “História do mundo feudal I”, de Mário Curtis Giordani, publicada em 1984. Assim, finalizamos esta breve explanação com as principais consequências dessas cruzadas. Das cruzadas foi possível afastar os Turcos em vários momentos, possivelmente adiando até a queda de Constantinopla. As cruzadas também promoveram a união dos reinados fragmentados após o declínio do império de Carlos Magno. Promovendo assim, uma unidade cristã, interrompendo a guerra interna para dar início a uma guerra externa, esta contra os muçulmanos que impediam as peregrinações. Os bens dos cruzados foram doados a Igreja e alguns cruzados até retornaram com maior ascensão econômica e social ao ocidente. A burguesia, classe social em desenvolvimento no final da Idade Média foi grandemente beneficiada. Comercialmente os portos prosperavam de forma magnífica, e as cidades se desenvolviam com uma velocidade incomum. Os bancos se fortaleciam e a economia internacional deslanchava. Culturalmente se ressalta uma vida cavalheiresca; civilizada e refinada. Por fim, religiosamente falando, as cruzadas foram importantes para a consolidação da unidade religiosa, união dos povos ocidentais em beneficio da fé cristã, fortalecimento da ideia e da função do papa, intensificação da vida religiosa e difusão a aqueles ainda não atingidos pelo evangelho. Contribuíram consequentemente para uma recivilização da Europa.
 
Referências
ARISTÓTELES. Política. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.
BARTHÉLEMY, D. A cavalaria. Da Germânia antiga à França do século XII. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 2010.
DEMURGER, A. Os cavaleiros de Cristo: as ordens militares na Idade Média (sécs. XI- XVI). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
GIORDANI, M. C. História do mundo feudal: acontecimentos políticos. Petrópolis: Vozes, 1984.
WOODS JR, T. E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. São Paulo: Quadrante, 2008.

Como a ideia de inquisição eclesiástica alimenta o cérebro dos idiotas úteis

Nada mais falso do que atribuir milhares de mortes à inquisição da Igreja Católica. Uma coisa é certa nessa discussão, ignorância do contexto histórico e uma mentalidade apta em difamar e distorcer os fatos impera nesse assunto. Para compreender um pouco melhor, ou minimamente, é preciso se atentar ao contexto da época e depois estudar fontes confiáveis.
Primeiramente, os modelos de condenações atribuídas ao período da Idade Média não pertencem originalmente a Idade Média, pertencem ao período da Antiguidade. São elas; decapitação; crucificação; exposição às feras; o fogo; e a tortura (GIORDANI, 1968). Destas, as primeiras a serem banidas foram; crucificação e a exposição às feras. Queimar em fogueiras e a tortura voltam a ocorrer sob a perspectiva do direito eclesiástico após 1231, quando o Papa Gregório IX institui a inquisição.
No direito civil, a condenação na fogueira e o castigo da tortura eram usuais na Idade Média assim como na Antiguidade. Na Idade Medieval intensificava-se tal modelo por conta do combate a uma série de seitas, entre as mais conhecidas, destacam-se os Maniqueus, posteriormente chamados de Cátaros (GONZAGA, 1993). Como em qualquer sociedade, a comoção frente os delitos, violência e insegurança provocam revoltas. Hoje em dia a sociedade brasileira clama pela diminuição da maioridade penal. Por quê? Porque milhares de jovens em nosso contexto atual agem como bandidos e assassinos. Na Idade Média não era diferente, e Santo Agostinho, por exemplo, mudará de ideia. Anteriormente acreditava que a violência e a desordem pudessem ser combatidas pela benignidade. Em seguida, passou a acreditar no emprego necessário da força. A sociedade moderna chega às mesmas conclusões em ralação aos jovens infratores.
Bernard (2008) faz a seguinte pergunta. Será licito reprimir a heresia pela força quando constitui um perigo iminente para a ordem religiosa e civil?
Essa resposta se dá a partir do contexto histórico que insere a Europa em uma desordem e anarquia. Segundo Larroyo (1974), a Idade Média é iniciada a partir da queda do domínio latino, o que desencadeia uma série de fatos que levam a civilização ocidental a uma crise militar; econômica; social; política, e fundamentalmente moral. Os invasores bárbaros sedentos por atacar os romanos conseguem tal proeza e imprimem o fim do domínio romano na história. Dessa desastrosa realidade, a já em andamento concepção religiosa cristã será o veiculo propulsor de uma nova ideia de educação. A Igreja Católica se encarregará junto aos reis de impor uma nova ordem, e organizar e re-civilizar o ocidente. Muito esforço e trabalho foram despendidos para esse feito, e com muita força de vontade os cristãos re-educaram a Europa.
Seguindo essa premissa, Bernard (2008) explica que:
O Estado e a Igreja se viam diante de um perigo crescente e ameaçador. Toda a sociedade humana, a ordem civil e religiosa, construída com imensos esforços, toda a civilização e cultura do Ocidente, o progresso, a unidade e paz estavam ameaçados de dissolução. Imaginemos o que aconteceria se atualmente não houvesse polícia para reprimir os atentados contra a ordem. Seria um completo domínio do terror (BERNARD, 2008, p. 12).
            Isto claro fica evidente que tanto o direito civil quanto o direito eclesiástico buscavam a ordem e o progresso durante a Idade Medieval. Este primeiro, o direito civil, foi o primeiro a bradar por justiça frente os arruaceiros e as seitas religiosas tais como o maniqueísmo.  É prudente destacar que a Igreja Católica resistirá em promover a ordem por meio da força, entretanto, se verá impossibilitada de garantir a ordem sem tais pressupostos.
            De outra forma, o direito civil proveniente de reinados buscava respostas rápidas e objetivas aos seus problemas, aos problemas de ordem pública. Comum nessa época, e largamente associada à Igreja, a idéia de bruxas e demônios foi difundida por tribos bárbaras do norte da Europa e não pela Igreja.
            Dessa forma Bernard (2008) esclarece que:
Os cátaros ameaçavam a sociedade de decomposição, ensinavam que o matrimônio era ilícito e anunciavam: A propagação do gênero humano constitui obra diabólica; uma mulher grávida possui o demônio em seu ventre. Exigiam a completa pureza. Sendo evidentemente impossível a perseverança no “estado perfeito”, prevenia-se a defecção pela privação de alimentos, pratica que se estendia às crianças. Muitos a praticavam livremente. Tais privações vitimaram mais cátaros do que a própria inquisição (BERNARD, 2008, p. 18).
Fica evidente que a sociedade civil se mobilizava contra estes tipos de pensamento. Não só contrário ao pensamento religioso da época, como contrário a própria preservação da vida. Muitos membros da sociedade secular não admitiam tais cultos contra a religião cristã e certamente que muitos reis os apoiavam. A Igreja sempre afastada e evitando as perseguições não teve outra saída se não tomar providencia.
            O ódio contra a fé cristã era explicita e a pressão sobre a Igreja aumentava demasiadamente. Os Valdenses, seita que pretendia viver como cristo logo partiu para a heresia. Chamavam a Igreja de nova Babilônia. Estes se revoltavam contra a Igreja e contra a ordem secular. Um dos grandes perigos segundo Bernard (2008) eram as magias, sortilégio ou feitiço, alquimia e o pacto com o demônio. Em 1231 com o Papa Gregório IX, instaura-se o Santo Oficio. Em uma carta ao Papa Alexandre em 1162, já era possível de forma documental e inequívoca perceber a necessidade de uma intervenção eclesiástica com urgência. Luís VII da França apela à santidade para que se atenha aos perigos da heresia, principalmente por intermédio dos maniqueus em Frandes. Era uma nítida carta em busca de permissão ao arcebispo de Reims para que tomasse as devidas providências.
            Após muitas mortes provenientes dos hereges frente à ação de missionários. Em 1232, a inquisição se estabelece em todo o Império (BERNARD, 2008). Vários inquisidores foram mortos pelos hereges e até hoje se pensa em um extermínio católico. Informação falsa e mera propaganda ideológica contra a Igreja, este tipo de pensamento é na realidade um tipo de alienação, doutrinação, má fé ou simplesmente ignorância.
            Quais eram as características dos tribunais de inquisição?
            Era simplesmente igual ás tradições jurídicas da Antiguidade. Usavam-se testemunhas (principio de verdade na Antiguidade e Idade Medieval), haviam advogados e ampla defesa (FERREIRA, 2011). Entretanto, as mortes ocorridas e atribuídas a inquisição na realidade ocorreram por intermédio da própria justiça civil, seja ela, formal ou informal. No segundo caso, ocorria aquilo que entendemos por justiça pelas próprias mãos.
            Ademais, Bernard (2008) coloca que:
Tribunais de leigos emancipavam-se condenando pessoas pela prática de bruxaria. As torturas tornavam-se cada vez mais desumanas, com requintes de crueldade. As fogueiras se multiplicavam assustadoramente. Intervir em defesa das vítimas acarretava morte certa (BERNARD, 2008, p. 38-39).
A realidade era cruel e assustadora nesse sentido. O descontrole era total e a alucinação generalizada tomava conta do imaginário entre os membros da sociedade civil. Calculava-se segundo Bernard (2008), aproximadamente 50.000 bruxas mortas em terras germânicas e escandinavas. Na inquisição espanhola, por exemplo, ou seja, sob responsabilidade dos tribunais eclesiásticos foram registradas apenas 12 bruxas condenadas.
Um dos grandes erros, e grande demonstração de propaganda enganosa é o caso da morte da Joana d’Arc. Tal condenação não teve aprovação da Igreja, pois, o Papa revisa seu processo e lhe atribui inocência (BERNARD, 2008). Por fim, o que existe em termos de informação histórica não se coaduna com os relatos e posicionamentos mal intencionados. O que falta na realidade é um maior rigor histórico. E o que se sabe verdadeiramente é que a inquisição condenou a morte um número infinitamente menor do que se propaga de forma leviana e criminosa.
REFERÊNCIAS:
 
BERNARD, J. Inquisição: história, mito e verdade. São Paulo: Factash Editora, 2008.
FERREIRA, A. G. Inquisição católica: Em busca de uma desmistificação da atuação do Santo Oficio. Simpósio Internacional de Estudos Inquisitoriais – Salvador, agosto de 2011.
GIORDANI, M. C. História de Roma. Petrópolis – Editora Vozes, 1968.
GONZAGA, J. B. A Inquisição em Seu MundoSão Paulo: Editora Saraiva 1994.
LARROYO, F. História geral da pedagogia. São Paulo: Mestre Jou, 1974.

A Marcha das Vadias e a Revolução Cultural Marxista

O seguinte texto é uma reportagem que fiz semana passada para meu professor de Técnicas de Reportagem III, em minha faculdade de jornalismo. O leitor pode ler o mesmo texto no blog Mundo Analista, clicando aqui.

Antônio Gramsci, intelectual marxista italiano.

Ocorrida no último dia 27 de julho, no trajeto entre Copacabana e Ipanema, a chamada Marcha das Vadias reuniu cerca de 2 mil pessoas. Composta principalmente por integrantes do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e simpatizantes, o movimento protestou contra a vinda do Papa no Brasil, os dogmas da Igreja Católica e a favor da legalização do aborto. Esta foi a terceira edição carioca da Marcha, que teve seu início em uma manifestação no Canadá, em 2011, e se tornou um movimento internacional.

Embora não tenha havido nenhum tipo de violência física, o protesto chamou a atenção pelas performances polêmicas de algumas pessoas durante a marcha, como a utilização de roupas íntimas, o seminudismo, os brados de ofensas com apelo sexual contra o Papa e o uso de objetos de culto religioso para masturbação. A ideia central da marcha, segundo os participantes, seria a de lutar pelo Estado laico e contra a opressão dos dogmas conservadores e religiosos.

Esta mentalidade antirreligiosa tem se constituído um movimento crescente no Brasil e no mundo, encontrado adeptos em diversos setores da sociedade e criando uma cultura hostil aos religiosos e conservadores. Alguns exemplos ilustram isso. Em Abril de 2013, quatro ativistas seminuas do movimento Femen, invadiram um encontro da Conferência Episcopal da Bélgica que ocorria na Universidade Livre de Bruxelas e jogaram esguichos de água no Arcebispo André Joseph Leonard, em protesto contra o seu posicionamento em relação ao homossexualismo.

Em março de 2013, a direção da Florida Atlantic University, suspendeu o aluno Ryan Rotela, por ter se recusado a desempenhar a atividade proposta pelo professor Deandre Pooly à sua turma de pisar no nome de Jesus. Segundo o professor e a direção da universidade, a atividade se encontrava no material didático utilizado nas aulas e se baseava no livro “Comunicação Intercultural: Uma Abordagem Contextual. Edição 5”, que trata o exercício como o princípio de uma discussão: a importância dos símbolos na cultura.

Em dezembro de 2012, houve uma encenação da decapitação do Papa, no pátio da PUC, em que estudante com uma serra elétrica cortou a cabeça de um grande boneco representando o pontífice, sob a euforia de dezenas de outros estudantes. Também em dezembro do mesmo ano, o taxista Ezer Gomes de Barros foi levado à delegacia por ter se recusado a continuar transportando um casal homossexual que se beijava dentro do carro, algo que ele havia pedido ao casal que não fosse feito. Segundo o taxista, ele faria o mesmo pedido a um casal heterossexual. No entanto, o casal entendeu o pedido como discriminação.

Em agosto de 2012, uma palestra do membro da família real brasileira Dom Bertrand de Orleans e Bragança, na Unesp, Campus de França, foi impedida de se realizar no dia previsto em função de um grupo de estudantes que invadiu o evento, protestando com ameaças e ofensas contra a presença do príncipe, que é um dos representantes do movimento TFP (Tradição, Família e Propriedade).

Em março de 2012, a banda feminina de punk rock russa Pussy Riot invadiu um culto na catedral do Cristo Salvador, considerada a mais importante da igreja ortodoxa russa, e cantou a música “Punk Prayer” (“Prece punk”) no altar do templo. Em fevereiro do mesmo ano, o Conselho Federal de Psicologia do Brasil, ameaçou caçar a licença da psicóloga Marisa Lobo, em função da mesma externar suas opiniões cristãs com frequência. O Conselho chegou a solicitar a retirada de frases cristãs de suas redes virtuais.

Em junho de 2011, a americana Jessica Ahlquist, entrou na justiça para que a escola pública onde estudava retirasse uma oração de um mural, onde estava há 49 anos, fazendo parte da história da escola.

Tais atitudes desrespeitosas aos religiosos e conservadores não apenas têm sido cometidas por cada vez mais indivíduos, como tem recebido apoio de pessoas influentes da sociedade. Só para citar um exemplo, a banda russa Pussy Riot, que invadiu a catedral de Cristo Salvador, recebeu apoio da cantora Madonna, das bandas Green Day, Bjork e Red Hot Chili Peppers e até do primeiro-ministro russo Dmitri Medvedev, que acreditam que os membros da banda não deveriam ser presos pela invasão.

Segundo a equatoriana Amparo Medina, funcionária da ONU e ex-militante socialista, esse posicionamento antirreligioso é muito comum entre as esquerdas mais progressistas e radicais, sobretudo, as de cunho marxista. Na rede católica de televisão EWTN ela explica que “os grupos comunistas e socialistas sabem que a única instituição que pode romper as suas mentiras é a Igreja Católica. Então, a primeira coisa que buscam são argumentos que possam destruir a pouca fé que os católicos têm. Veja as notícias ou vá atrás desse sacerdote que não está vivendo a sua vida na graça com Deus… Publique-os e os lance na imprensa”. Ela ainda conclui que “é preciso omitir que no Equador, 60% das obras de ajuda às pessoas pobres estão nas mãos da Igreja, pois isso se silencia”.

O anticlericalismo sempre foi um dos principais pilares das esquerdas mais radicais. Para o socialismo marxista, a religião é uma ilusão, “o ópio do povo”, como afirmou Marx em seus escritos; um subproduto dos sistemas econômicos exploradores que têm se sucedido durante toda a história. E assim, por fazer parte do sistema que deve ser derrubado, a religião (sobretudo o cristianismo católico, que é maior instituição religiosa que existe) é encarada como um dos vários males a ser combatido para que o socialismo seja implantado.

O filósofo e escritor brasileiro Olavo de Carvalho ressalta a importância da chamada “revolução cultural” nesse processo de implantação do socialismo. Citando o ideólogo marxista Antônio Gramsci (1891-1937), famoso por ter elaborado o conceito de “intelectuais orgânicos” e lançado as bases para a revolução cultural comunista, ele afirma:

O conceito gramsciano de intelectual [orgânico] funda-se exclusivamente na sociologia das profissões e, por isto, é bem elástico: há lugar nele para os contadores, os meirinhos, os funcionários dos Correios, os locutores esportivos e o pessoal do show business. Toda essa gente ajuda a elaborar e difundir a ideologia de classe, e, como elaborar e difundir a ideologia de classe é a única tarefa intelectual que existe, uma vedette que sacuda as banhas num espetáculo de protesto pode ser bem mais intelectual do que um filósofo […].

Essa seria, portanto, a missão dos intelectuais orgânicos. Influenciados pelos intelectuais acadêmicos (os responsáveis por dar início à revolução), eles criariam um “senso comum” progressista e antirreligioso na população, não com pregações abertas e teoricamente complexas, mas de modo popular e acessível, a fim de moldar, de fato, a mentalidade do povo.
Olavo de Carvalho continua:

O senso comum não coincide com a ideologia de classe, e é precisamente aí que está o problema. Na maior parte das pessoas, o senso comum se compõe de uma sopa de elementos heteróclitos colhidos nas ideologias de várias classes. É por isto que, movido pelo senso comum, um homem pode agir de maneiras que, objetivamente, contrariam o seu interesse de classe, como por exemplo quando um proletário vai à missa. […] Aí é que entra a missão providencial dos intelectuais. […] reformando o senso comum, organizando-o para que se torne coerente com o interesse de classe respectivo, esclarecendo-o e difundindo-o para que fique cada vez mais consciente, para que, cada vez mais, o proletário viva, sinta e pense de acordo com os interesses objetivos da classe proletária e o burguês com os da classe burguesa.

Baseado nestas considerações, Olavo sustenta que a hostilidade que se tem visto desenvolver ao cristianismo e ao conservadorismo, bem como movimentos anticlericais, o que inclui a Marcha das Vadias, seria resultado direto da revolução cultural marxista idealizada por Gramsci.

O padre brasileiro Paulo Ricardo, ardoroso militante contra a revolução cultural marxista, concorda:

Tudo isso é fruto de um descaso histórico dos conservadores que permitiram que o marxismo cultural tomasse conta das universidades. Em qualquer curso universitário é possível constatar tal realidade através de um ódio frontal e fundamental ao cristianismo, aos valores cristãos e mais especificamente ao catolicismo tradicional.

O padre também afirma: “Os que pensam a revolução cultural sabem que seu trabalho deve ser feito de forma lenta, gradual, dando a impressão de naturalidade, ou seja, dando a impressão de que a sociedade caminha assim naturalmente”.

Para ambos os autores mencionados, a prova de que a revolução cultural marxista tem encontrado êxito se encontra em dois fatos: (1) a omissão dos religiosos e conservadores em relação às atitudes desrespeitosas que tem se desenvolvido e (2) o apoio (ou a condescendência) da mídia e da justiça em relação a essas atitudes. Os exemplos citados há pouco, também ilustram essas afirmações, sobretudo o da terceira edição carioca da Marcha das Vadias, que contou com atos obscenos e escárnio público de crença religiosa.

O Artigo 208 do Código Penal afirma: “Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou função religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de um mês a um ano, ou multa”. O artigo 233 diz: Praticar ato obsceno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público: Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa”. Não obstante, a marcha não se tornou alvo de grande protesto por parte dos religiosos, nem de divulgação por parte da grande mídia, tampouco de intervenções por parte da polícia. O estranho fenômeno, na explicação de Paulo Ricardo é que “o marxismo cultural, no Brasil, já conseguiu a hegemonia cultural e da mídia. Pela política da dominação de espaços, já dominaram a classe falante (jornalistas, cineastas, psicólogos, padres, juízes, políticos, escritores) que é formada no pensamento do marxismo cultural”. A tendência desse quadro é tornar a hostilidade aos religiosos e conservadores cada vez maior.

Capitalismo e Cristianismo

por Olavo de Carvalho. Artigo publicado originalmente na revista República – edição de dezembro de 1998 – e reproduzido no site do autor. Para ler o artigo original, clique aqui.

Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a “concentração do capital” eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.

Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a “finalidades sociais” externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto. Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou “o Reino de Deus na Terra”. Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da “ascese mundana” (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, “filha dileta da Igreja”, marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o “capitalismo selvagem” floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão… dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o “pacto de Metz”, em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, “a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano”, o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.

Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo, mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.


Leia mais Olavo de Carvalho em:
www.olavodecarvalho.org

Documentário: Igreja Católica, Construtora da Civilização

POR RODRIGO VIANA

“A igreja é uma instituição machista!; A razão não tem lugar na igreja; Idade média? Idade das trevas!; A igreja não passa de um retrocesso para a sociedade; A ciência não tem vez na igreja.”

Frases familiares? Pois é, quem nunca ouviu algo do tipo? Crescemos em uma sociedade em que o descrédito para com as instituições tradicionais virou “verdade incontestável”. Mas será mesmo?

E se, de uma hora para outra, lhe dissessem que avanços científicos significativos se deram por conta de religiosos? Que grandes contribuições filosóficas, políticas e matemáticas nasceram de dentro dos seios da igreja? Que a economia começou a ser estudada em universidades por religiosos católicos muito antes de existir Adam Smith? Aliás, você sabia que a universidade é uma criação da Igreja Católica?

A liberdade individual, o jusnaturalismo, os princípios morais, o Direito internacional, o uso da razão e muitas outras questões também foram tratados na igreja. E em certas questões de modo pioneiro. E a caridade? Quem nunca se perguntou até onde vai o amor ao próximo dado por homens e mulheres da igreja?

Produzida em 2008, Igreja Católica, Construtora da Civilização é uma série de TV realizada pela EXTN. Contando com 13 capítulos, ela aborda questões que estão no limbo dos estudos históricos. Desconhecido por muitos e ignorados por outros, a série se mostra versátil para a disseminação de um legado dado como maldito na atualidade. Instrumento imprescindível para estudantes, professores, pesquisadores ou curiosos de plantão. Ela vem na carona dos historiadores revisionistas da Idade Média.

Baseada no livro Como A Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, de Thomas Woods, a série passa por momentos que vão do instigante ao emocionante, do curioso ao perturbador. Impossível não se comover à promoção da benfeitoria através da caridade ou não se enojar pelas barbaridades ocorridas na Revolução Iluminista Francesa e Revolução Comunista Russa.

Thomas Woods
Thomas Woods

A série é apresenta pelo professor Thomas Woods. Formado na Havard University e Ph.D em História pela Columbia University, Woods é economista, historiador e analista político. Um dos grandes nomes do Libertarianismo no mundo, Woods é proponente da Escola Austríaca de Economia, católico tradicional e defensor do conservadorismo cultural[1][2].
Foi editor colaborador da revista religiosa
The Latins Mass Magazine e é editor contribuidor da revista política The American Conservative. Tornou-se muito conhecido pelo best-seller The Politically Incorrect Guide to American History além de ter artigos publicados em diversos veículos de mídia de cunho político, econômico e religioso.

Então segue abaixo os 13 capítulos que poderá mudar o seu modo de pensar sobre esta instituição tão marginalizada nos últimos séculos. Independente se você seja católico, não-católico ou um cético, essa nova visão poderá fazer você contestar muitas “verdades” ditas por autoridades diversas. Ideias estas tão propagadas em nossas escolas. Aliás, você ainda acredita que a escola hoje, direcionada por currículos pré-moldados pelos governos, de viés doutrinário, é uma instituição realmente comprometida com a verdade do ensino? Está aí uma pergunta a se questionar.

Disponibilizado por Canal Evangelização.

Episódio 1 – Introdução:
Desmentindo mitos sobre a Igreja Católica e seu impacto na Civilização Ocidental.

Episódio 2 – Igreja e Ciência:
A Ciência deve muitas de suas descobertas a sábios monges e padres católicos.

Episódio 3 – Padres como pioneiros da ciência:
Os principais pioneiros da astronomia, geologia e sismologia foram padres católicos.

Episódio 4 – O caso Galileu:
Uma leitura crítica do caso.

Episódio 5 – O Sistema Universitário:
A Igreja Católica tem sido há muito defensora do conhecimento e da ciência.

Episódio 6 – Deus existe?
Estudiosos da Igreja usam a razão para propor a existência de Deus.

Episódio 7 – Os monges:
Os monges foram os guardiões do ensino e do conhecimento durante as invasões bárbaras e na Idade Média.

Episódio 8 – A Caridade Católica:
Um vislumbre da imensidade de atos de caridade católica ativa e altruísta, praticados por fiéis de todos os séculos. Mesmo os anticatólicos mais inflamados assombraram-se ante semelhante generosidade.

Episódio 9 – A Moralidade Ocidental:
A Igreja Católica foi absolutamente crucial à formação dos padrões ocidentais de moralidade.

Episódio 10 – O Conceito de Direito:
Os sistemas legais modernos são como que um resíduo secular das atitudes conformes aos ritos e doutrinas da Igreja, como também do próprio entendimento católico do direito.

Episódio 11 – As origens do Direito Internacional:
A descoberta do Novo Mundo impeliu alguns teólogos católicos ao estudo e formulação de princípios gerais ao direito e tratamento dos povos. Esse estudo lançou as bases do Direito Internacional.

Episódio 12 – Atrocidades anticatólicas:
No decorrer da história, muitos católicos sofreram por sua fé. Alguns desses eventos não são muito comentados. Outros estão praticamente esquecidos, como os Afogamentos de Nantes e a Guerra dos Cristeros.

Episódio 13 – Recapitulação:
Revisão das influências católicas na cultura e sociedade ocidental.

Veja também:

Notas:

[1] History and Truth, An Interview With Thomas E. Woods, Jr., por Bernard Chapin – Lewrockwell.com
[2] Up From Conservatism Mises.org

A homossexualidade, o direito de associação e a privatização do casamento

Muito se tem discutido sobre o casamento gay. O assunto é polêmico, e as opiniões divergem muito. Mas, quase sempre, o maniqueísmo prático divide as pessoas em dois grupos antagônicos: os que apoiam o direito gay de casar (“os do bem”) e os que negam o direito gay de casar (“os do mal”).

Mas a questão não é tão simples, e as posições sobre isso vão além daquilo que a mídia mostra. Sou da opinião, por exemplo, que o Estado não tem o direito de determinar quem pode ou não pode casar – considerando somente que estamos falando de adultos, com pleno exercício de suas capacidades mentais.

A posição é estranha, e espanta muitos que se deparam com ela pela primeira vez. Os que são a favor do casamento gay me tratam imediatamente como alguém que é contra os gays. Os que são contra me tratam como um subversivo que defende o casamento gay. A verdade é que sou, a um só tempo, ambos e nenhum. Já explico.

Acredito que o Estado não tenha nem o direito e nem o dever de instituir um modelo de família oficial. Quando o Estado impõe um modelo de família oficial ele está causando problemas para uma série de pessoas que adotam diferentes modelos familiares – seja por questões religiosas, seja por questões culturais ou individuais. Vejamos os mormons, por exemplo, que são bígamos. Ou os muçulmanos, que são polígamos. Na tribo amazônica Zo’é, uma mulher pode casar com diversos homens (poliandria). Isto porque ela não pede autorização do Estado para fazê-lo: ela não precisa da autorização do Estado para isso. Do mesmo modo, gays não precisam da autorização do Estado para casar. Ninguém precisa.

Tribo Zo’é. O casamento poliândrico das índias é teoricamente ilegal no Brasil. Mas ninguém sai por aí militando para oficializá-lo ou impedí-lo.

O Estado não tem o direito de negar uma instituição que é civil ou religiosa. Isto seria uma violação do direito natural e individual de associação, e também a violação da laicidade ao impor a pessoas de todas as crenças um modelo familiar que não é comum a todas elas. O casamento é responsabilidade da sociedade civil e da religião, não do Estado.

Entendo que para questões de herança e partilha de bens, bastaria um contrato discriminando as partes envolvidas e como se dará o processo. Isso resolveria o problema que se pretende hoje solucionar com uma reforma da definição constitucional de família e com a instituição da “oficialidade” da relação homoafetiva. E ainda evitaria maiores dores de cabeça com modelos familiares de outras religiões e culturas no Brasil. A instituição do casamento civil para gays, longe de solucionar o problema, é uma medida ilusória e eleitoreira que só serve para partidos e políticos disputarem no tapa a imagem de gay-friendly. Pedir benção do governo para casar é o cúmulo do ridículo, e penso que aqueles que pretendem lutar em favor das  liberdades individuais e do direito das pessoas de associarem-se devam rever a sua posição e militar, isso sim, pela desestatização da família.

O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.