As cruzadas e sua importância na história da Europa

É a Igreja (em conjunto com o Império, sobretudo o de Carlos Magno) que desenvolve nos bárbaros um sentido de união, identidade, espírito nacionalista e territorial. A importância disto é a própria sobrevivência da unidade europeia, da legitimidade do povo frente o estado anárquico no qual se encontrava após a queda do Império Romano. A Espanha conheceu muito bem essa importância e esse sentimento. É nesse cenário que a Europa se reconstrói, e que sobrevive até hoje.
Nesse aspecto, as cruzadas foram importantes por vários motivos, entre estes é que elas representaram a união de um povo em direção de algo comum, o amor por Deus e uma vida pautada na caridade e na virtude religiosa.
Muito bem, se esta é a realidade. Por que em meio ao amor, religiosidade e caridade se daria uma guerra?
Uma das maiores justificativas para uma guerra é a promoção da paz (ARISTÓTELES, 1985). Se a guerra almejar a paz, ela se justifica na visão do filósofo estagirita. Este espírito de justiça se alinha ao espírito de cuidar dos mais fracos, algo de extremo valor entre os cavaleiros medievais.
Barthélemy (2010) discorre da seguinte forma:
Segundo o profeta Isaías (XXV, 4), Deus “é a muralha do fraco e do pobre”. Ele protege a viúva e o órfão, cujas lamentações atiçam Sua cólera: ele mata seu repressor. No século VI, são os bispos cristãos que imitam esse tipo de Cavalaria de Deus e reivindicam (como no concilio de Mâcon 587) esse papel de defensores dos fracos (BARTHÉLEMY, 2010, p. 75).
Essa união de espírito religioso com o espírito guerreiro é uma das maiores relações encontradas na formação dos templários. Desde Carlos Magno que a cavalaria exerce papel fundamental nesse processo. Os nobres assumem esta tarefa, e a justiça se estende na proteção dos oprimidos.
Afinal. O que é uma guerra justa?
Woods Jr (2008) apresenta várias saídas para esse impasse. Remete-se a Santo Agostinho que apresenta uma guerra justa quando ela se opõe a uma injustiça, quando o agressor impõe sofrimento para um homem bom.  Descarta a desforra como motivo da guerra, assim como justificativas provenientes das paixões humanas. Santo Tomás de Aquino justifica a guerra a partir de três pontos; decisão do soberano; causa justa, e que vise promover o bem. No último caso, parece-me uma extensão do que o próprio Aristóteles, seu inspirador, já propunha na antiguidade. Aqui se finaliza este assunto, ao menos, para justificar a guerra no devido contexto histórico que ela ocorreu.
            Vamos aos fatos. Por amor, devoção, religiosidade, caridade, lealdade, entre outros adjetivos, os cristãos a partir do século IV já se direcionam a terra santa. Isto, graças a Helena mãe de Constantino o imperador cristão (DEMURGER, 2002). Helena descobre a verdadeira Cruz e o imperador constrói uma basílica ao lado do edifício que abrigava o sepulcro de Cristo. Logo, do século IV em diante a peregrinação era constante. No século VII, em 638, devido à conquista dos muçulmanos estas visitas passam a ser monitoradas e problemáticas. Voltam a ocorrer livremente em decorrência do bom relacionamento entre o imperador Carlos Magno e os muçulmanos. No século XI, o “califa louco” al-Hakim (1004-1014) rompe com a tradição das peregrinações ao oriente. Após 10 anos a peregrinação retoma sua normalidade, e alcança sua idade de ouro.
            Giordani (1984) assinala que as reconquistas bizantinas entre os séculos X e XI é que tranquilizaram a estadia dos cristãos nesse período. Entretanto, exércitos turcos adentram os territórios muçulmanos e reiniciam um embate contra os bizantinos. O sultão Alp-Arslan toma bizâncio, esta seria a justificativa para as cruzadas, ou para retomar o livre acesso a Jerusalém, pois, o Império cristão do Oriente já demonstrava sua fraqueza e não poderia mais proteger a cristandade. Nesse sentido, o papa Urbano II conclama os fieis em 1095.
Segue abaixo tal conclamação segundo Foucher de Chartres:
Que se dirijam portanto ao combate contra os Infiéis – um combate que vale ser travado e que merece um desfecho vitorioso – aqueles que até aqui se entregavam a guerras privadas e abusivas, para grande prejuízo dos fiéis! Que sejam doravante cavaleiros de Cristo aqueles que não eram senão bandidos! Que lutem agora, de todo direito, contra os bárbaros aqueles que se batiam contra seus irmãos e seus pais! (DEMURGER, p. 23, 2002).
Tal pronunciamento obteve grande impacto, e logo em 1096 uma massa gigantescamente eclética partia para o oriente. Entre estes, muitos cavaleiros é claro. Seguia, portanto a cruzada popular, posteriormente a dos barões e logo após uma série de novos contingentes. A cidade de Jerusalém foi tomada em 1099. Iniciam-se assim as chamadas cruzadas. O termo cruzadas segundo Giordani (1984) pode ser compreendido por uma expedição que visava à libertação e defesa do Santo Sepulcro. São oito as principais.
Como se formou a ordem dos templários durante as cruzadas?
Do bairro onde se localiza o Santo sepulcro é que a ordem militar se concretiza. Homens de armas, cerca de 30 cavaleiros iniciaram a ordem dos templários, Estes permaneceram após as primeiras cruzadas (DEMURGER, 2002). Ainda não era uma ordem, entretanto defendiam o Santo Sepulcro. Como decisão dos cavaleiros se elegeu um líder entre eles. Alojavam-se provavelmente no hospital do bairro, no qual foi responsável por abastecer com esmolas e comida os integrantes da ordem em desenvolvimento. Rompendo com os cavaleiros ligados ao hospital do bairro, um grupo independente formava uma ordem de obediência e castidade incumbida da missão de proteger e defender a Terra Santa. Em resumo, surgiam três ordens: beneficente; hospitalários e os templários. A ordem dos templários é fundada em 1120, e reconhecida em 1129.
Entendida a partir do conceito de Guerra Santa ou não, as cruzadas como um fenômeno militar em direção ao oriente tinha como finalidade a proteção dos peregrinos, bem como, conter o avanço muçulmano ao ocidente. Giordani (1984) atenta-se a Santo Agostinho como raiz teórica da Guerra Santa, da obra dele se extrai a sociedade belicosa como consequência das invasões bárbaras. A luta contra os infiéis endossa a Guerra Santa. Desde Leão IV que o papado se inclinava ao auxilio dos cristãos, nesse caso, contra os sarracenos em 848.
As condições para as guerras eram; uma maior população; falta de terras ou inatividade de cavaleiros; dificuldade de trabalho na lavoura e epidemias. Outra atração era a fonte de riquezas que o oriente oferecia ao imaginário ocidental (GIORDANI, 1984). Nos textos épicos que enaltecem Carlos Magno, o de Roland, por exemplo, era fascinante e inspirador. Evidentemente diversos interesses faziam parte da atmosfera, muito embora a religiosidade fosse à grande inspiração para defender os caminhos das peregrinações, bem como, defender-se dos muçulmanos. Esse era o bem comum.
Giordani (1984) destaca a categoria política, e nessa, nota as implicações estratégicas de grande inabilidade e ineficiência na defesa do oriente pelo império bizantino. Assim, os turcos seldjúcidas expandiam seus territórios. Com a evidente necessidade de defesa, e com a real fragmentação do ocidente, somente o papa estava credenciado para defender de forma adequada o extenso território europeu. Era mais uma tarefa da Igreja Católica para salvar a Europa de mais um aparente declínio e decadência, assim como, observamos na queda do Império Romano.
Não é possível neste ensaio apresentar detalhes de todas as 8 cruzadas, desta forma, sugiro a leitura da obra: “História do mundo feudal I”, de Mário Curtis Giordani, publicada em 1984. Assim, finalizamos esta breve explanação com as principais consequências dessas cruzadas. Das cruzadas foi possível afastar os Turcos em vários momentos, possivelmente adiando até a queda de Constantinopla. As cruzadas também promoveram a união dos reinados fragmentados após o declínio do império de Carlos Magno. Promovendo assim, uma unidade cristã, interrompendo a guerra interna para dar início a uma guerra externa, esta contra os muçulmanos que impediam as peregrinações. Os bens dos cruzados foram doados a Igreja e alguns cruzados até retornaram com maior ascensão econômica e social ao ocidente. A burguesia, classe social em desenvolvimento no final da Idade Média foi grandemente beneficiada. Comercialmente os portos prosperavam de forma magnífica, e as cidades se desenvolviam com uma velocidade incomum. Os bancos se fortaleciam e a economia internacional deslanchava. Culturalmente se ressalta uma vida cavalheiresca; civilizada e refinada. Por fim, religiosamente falando, as cruzadas foram importantes para a consolidação da unidade religiosa, união dos povos ocidentais em beneficio da fé cristã, fortalecimento da ideia e da função do papa, intensificação da vida religiosa e difusão a aqueles ainda não atingidos pelo evangelho. Contribuíram consequentemente para uma recivilização da Europa.
 
Referências
ARISTÓTELES. Política. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.
BARTHÉLEMY, D. A cavalaria. Da Germânia antiga à França do século XII. Campinas, SP, Editora da Unicamp, 2010.
DEMURGER, A. Os cavaleiros de Cristo: as ordens militares na Idade Média (sécs. XI- XVI). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.
GIORDANI, M. C. História do mundo feudal: acontecimentos políticos. Petrópolis: Vozes, 1984.
WOODS JR, T. E. Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental. São Paulo: Quadrante, 2008.

Educação na Idade Média, preservação e consolidação dos saberes

Por Alessandro Barreta Garcia. Contribuição espontânea enviada por e-mail. Publicado originalmente no blog do Movimento Aliança Cidadã. Para ler o artigo original, clique aqui.

Muito se escuta no senso comum, bem como em livros didáticos[1], que a Idade Média se traduziu em um período estático e educacionalmente restrito aos dogmas religiosos. Entretanto, já apresentamos inclusive que em elação a educação das mulheres, muitas das informações que recebemos são absolutamente refutáveis[2]. Quanto à imutabilidade da educação, nada é mais falso.

Dessa forma, e na contramão das ideologias alienantes, a Idade Média foi o período que mais contribuiu para a consolidação de um ideário educacional essencialmente racionalista, e não absolutista. Tal tipo de educação, não nos parece mais ser considerado importante, sobretudo, em países com os piores índices educacionais do planeta. Como exemplo o Brasil, pois, certamente nos falta a razão.

Uma das grandes bases de uma educação sólida e eficiente é seu caráter mais ou menos estático, imutável e estabilizador. Qualquer país com o mínimo de formação intelectual reconhece tal premissa. Os que não reconhecem são aqueles que não compartilham das melhores posições nos testes internacionais. Por isso, defendem o indefensável, contrariam a lógica, e apenas se afundam no mais triste tipo de educação, o progressista e irracional. Esse tipo já foi discutido anteriormente[3].

Afinal, que tipo de educação ocorria na Idade Média?

Com os chamados pais da Igreja, fase patrística dos já chamados padres, observamos aqueles que foram os primeiros a refletir, discutir e formalizar os dogmas, essa era a chamada fase inicial da Igreja. Tinham alguns deles o contato imediato com os apóstolos. Nessa época surgem as cartas por Clemente de Alexandria (primeiro grande educador cristão), as discussões dialéticas sobre as heresias dentro da Igreja, destacando Minúcio Félix e Santo Irineu, e ganhando seu caráter cientifico com Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes (defensor da educação das mulheres assim como São Jerônimo). Com o Édito de Milão em 313 por Constantino, o Cristianismo passou a se ampliar significativamente. A fase patrística se estendeu do séc. V ao séc. VIII. Essa era para Cambi (1999), a paideia cristã. Nesse período, uma série de embates dialéticos tomava conta do ambiente educacional, e certamente contribuíram muito para o desenvolvimento das técnicas de um bom debate. O fruto desse ambiente será certamente a escolástica.

Como bem nos lembra Woods Jr (2008):

Como educadora da Europa, a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X, às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares, mulçumanos… (WOODS JR, 2008, p. 21-22).

A Igreja enquanto administradora, educadora e moralizadora da Idade Média, foi capital para a reconstrução e o aprimoramento do conhecimento, bem como da arte de civilizar. Nesse sentido, foram os mosteiros que legaram a nós os benefícios de uma civilização culta. O estudo se dava a partir do latim, literatura, gramática, dialética e retórica. Deve-se ainda aos beneditinos a organização final das sete artes liberais: gramática, dialética, retórica aritmética geometria, astronomia e música.

Observa-se entre os monges o ideal educacional disciplinado. Neste ideal, era possível ser copista, uma espécie de continuador das tradições, um herdeiro do conhecimento, pelo qual deveria possibilitar ao próximo o acúmulo e preservação da informação. Essa conservação foi inestimável, ou até inigualável. Ademais, o sistema de trocas e intercâmbio de cópias entre ordens era além de necessário, fundamental para conservar o legado histórico até aquele momento. Como legado, imprescindível até nossos dias.

Isto explica porque a educação sob uma perspectiva tradicional, rígida em alguns momentos, imutável sobre determinados aspectos e mais ou menos estável, é fundamento para uma transmissão sólida e eficaz dos conhecimentos. Já quando uma sociedade nega essa premissa, nega a racionalidade, e contrapõe-se a conservar conhecimentos acumulados ao longo da história, só há um resultado. E esse resultado o Brasil já conhece, pois, nos encontramos entre últimas colocações nos testes internacionais ou uma das piores posições do mundo no requisito educação. Como melhorar? Olhe para o passado. Conserve, melhore ou aprimore o que já foi bom. Sem conservar as coisas boas do passado, nenhum presente será sólido, justo e bom.


Referências:

CAMBI, F. História da pedagogia. Tradução: Álvaro Lorencini – São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.

WOODS JR., T E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. Trad. Èlcio Carillo; rev. Emérico da Gama. – São Paulo: Quadrante, 2008.


Notas: