O Estelionato Pedagógico da BNCC

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Tem algumas mentiras brabas aqui nesta matéria:

Polêmicas do novo currículo de história serão temas de seminários #G1http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/01/polemicas-do-novo-curriculo-de-historia-serao-temas-de-seminarios.html?utm_source=twitter&utm_medium=share-bar-desktop&utm_campaign=share-bar

Em primeiro lugar, não há nenhuma dedução lógica de que as desigualdades sociais diminuirão porque o país adotará um currículo comum em todo o território nacional. Até pelo contrário, se tais desigualdades existem e devem ser tratadas por políticas públicas, estas devem se diferenciar com o intuito de igualar os desiguais. Uma coisa é uma igualdade jurídica, outra bem diferente é querer que os diferentes estratos econômicos e sociais tenham o mesmo tratamento ao ponto de ignorar suas particularidades regionais e socioculturais.

Em segundo, pelo que sei os currículos são múltiplos e variados, sobretudo em países com grande diversidade regional. O que existe no sentido de homogeneização é uma postura de alguns grupos que querem impor uma visão de mundo sobre os diversos municípios, cidades, estados etc., no sentido de restringir as opções de ensino. Se certo ou errado em seus conteúdos é outra questão, mas o que não se pode é achar que alguém detém a solução mágica para o currículo perfeito como se tirasse o coelho da cartola.

O que me impressiona é a sucessão de fatos sem nexo, se o ex-ministro da educação, Renato Janine Ribeiro apresenta um documento e depois, já desempossado admite falhas sem sequer fazer uma defesa do mesmo, o que me passa a nítida impressão de que ele não leu e nada mais fez que terceirizar sua confecção.

Assim como a desculpa esfarrapada do MEC, de que se limitou ao papel de “condutor do processo” e não de autor do documento. Ora! Quem foi que autorizou sua impressão? Não tem o selo do ministério ali, como uma assinatura? O selo do MEC vale a mesma coisa que nada? Se autorizou, consentiu, se consentiu, dá no mesmo que ser autor ou coautor, que seja. E depois dizer que não há viés ideológico ao tratar de minorias é palhaçada. Claro está que se eu opto por um grupo étnico ou região do globo em detrimento de outros e outras, eu estou fazendo uma opção deliberada por um ponto de vista, pela percepção e enfoque neste grupo. Eu fico me perguntando o que esse povo entende pelo termo ideologia… Denis Mizne, da Fundação Lemann diz que há “uma visão de mundo por trás do currículo de história em qualquer lugar”, mas que “a necessidade de um currículo é uma coisa que não é uma questão ideológica”. Espere aí! Por trás do currículo atual existe uma visão de mundo, o que os filósofos alemães chamavam de weltanschauung, mas quando se pensa em mudar isto do ponto de vista formal, sob orientação governamental não é outra senão apenas “avançar em educação”. Por que temem a sinceridade? Basta assumir que tem um projeto calcado em uma visão de mundo. Mas a hipocrisia é forte… Ao mesmo tempo que Mizne diz que “não é a visão do governo”, mas “um documento que está em debate, que vem da sociedade”, ele quer que ignoremos que esta “sociedade” são grupos com esta visão ligados ao governo federal. Só que assumir isto implicaria em assumir uma mudança de narrativa, ora vejam só… Ideológica? Não é impossível encontrar um currículo de história mais objetivo e equilibrado se realmente quisermos… para ser mais justo e deveríamos começar por uma repartição equânime dos continentes com acontecimentos para a história humana (o que não incluiria a Antártida com o mesmo espaço, p.ex.).

Que houve domínio e subjugação de povos ninguém nega, agora simplificar relações entre grupos e nações, como se uma fosse o protagonista e outra o antagonista, uma vítima histórica e uma variante do grande satã é o que se depreende desta base nacional curricular comum que, felizmente, foi abortada. Se quisermos mesmo dar mais ênfase à história da América e África temos que mostrar como aqui indígenas e mestiços caçaram índios não aculturados, como do outro lado do Atlântico, africanos comercializaram seres humanos com europeus para suas lavouras no novo mundo etc. Isto também está em evidência ou só os ataques de colonizadores/conquistadores europeus contra povos belicamente menos aparelhados?

Não tem que se adotar uma perspectiva eurocêntrica, nem tampouco “afroamericocêntrica”. A questão é que os proponentes da BNCC, simplesmente, abortaram qualquer contribuição europeia, qualquer uma. Eles recortaram de tal modo a selecionar apenas o que lhes convinha. Quando digo que lhes convinha é porque desta forma fica crível caricaturar a história mundial como uma peça do bem contra o mal, com a prevalência deste e de como nós, os bons, mas dominados temos que reagir. A forma de reação é óbvia, caberá a um estado regulador e provedor que deve tributar mais e mais o mercado a título de efetivar sua “compensação histórica”. Não há perspectiva em torno da mobilidade social pautada no esforço e mérito próprios, mas na socialização de recursos através de um mediador, o estado que, só não irá fazer isto através de um profundo desequilíbrio de poder para aqueles que são facilmente manipuláveis, ou seja, que querem se enganar.

Alguém deve estar se perguntando se as disciplinas não devem ser reestruturadas de tempos em tempos? Um exemplo recorrente é o que se fez em minha área de atuação, a Geografia em relação ao seu “eixo fundamental” definido pela categoria espaço, ao que já dediquei um artigo específico. Mas, espaço, território, região são categorias de análise tão essenciais a esta disciplina, como é o tempo para a História e nem por isto todos tem um consenso sobre o que de mais relevante ou determinante ocorreu através dele. Analogamente, nem sempre há consenso sobre a ordem de grandeza dos fenômenos físicos e sociais que devem ser espacializados na análise geográfica. O que existe de, tecnicamente objetivo na geografia é a grandeza escalar, o que é territorialmente maior ou menor e na história, a sucessão cronológica, o que veio antes ou depois. Se nossos professores e proponentes curriculares se ativessem a isto, boa parte do lixo doutrinário seria depurado.

Não se enganem, os proponentes desta malfadada BNCC querem nos fazer uma “venda casada”, pois não explicam em detalhes o que deve e porque deve ser suprimido e qual a justificativa filosófica, i.e., ideológica de sua hierarquia conceitual, pois se o fizessem, estariam se revelando.

Enfim, por ora, com o afastamento do PT no governo federal ganhamos uma e barramos a aplicação deste lixo ideológico que era a BNCC em todo o território nacional, mas seria um erro, enorme e imenso erro acharmos que eles desistiram ou não irão tentar novamente. Como é um conhecido clichê, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Anselmo Heidrich

22 set. 16

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A Corrupção da Geografia: do pragmatismo à ideologia[i]

 

 

por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

O pragmatismo que se avizinhava no pós-guerra, pela reconstrução dos países europeus e, do outro lado do Atlântico pelo avanço capitalista e tecnocrático não deixaria a Geografia isenta de sua cota de influência. Em um texto de discussão metodológica e histórica da disciplina, dois professores de Londres comentam:

“Não pretendemos, sem dúvida, sugerir tenha sido prematura a especialização. Ao contrário, foi natural e necessária. E sem o grande acervo de fatos que produziu, não se poderia ter esperanças de alcançar uma síntese geográfica satisfatória. As próprias explorações primárias ainda estavam por terminar quando Humboldt e Ritter redigiram sua obra. O interior da África não seria conhecido, até 1880, sem qualquer acepção que se possa ter, ao passo que uma grande parte da Ásia, sobre a qual escreveram os dois pioneiros, permaneceu, em essência, terra povoada de mistérios até que a desvendaram, na segunda metade do século XIX, os grandes exploradores russos, ao lado de Sven Hedin, Aurel Stein e Richthofen.

Mais importante para o futuro da Geologia, como da Geografia, terá sido, talvez, o trabalho inicial do Levantamento Geológico Americano, as explorações de Hayden e Powell no Oeste árido dos Estados Unidos. Exploração fundamental, quase satisfatoriamente cientifica quanto aos seus métodos, foi igualmente a da expedição do Challenger, empreendida de 1870 a 1873, que estabeleceu, pela primeira vez, a carta das profundidades dos oceanos e examinou, sistematicamente, as características e os movimentos das águas de superfície. Ela proporcionou também os dados para o primeiro levantamento geral satisfatório do clima dos oceanos. Humboldt percebera o valor das linhas isotérmicas e as utilizara, tanto quanto o permitiram os escassos dados então disponíveis. Foi Buchan, porém, meteorologista da expedição do Challenger, o primeiro a desenhar mapas mundiais de temperatura, pressão, etc., os ancestrais das cartas que nos são familiares, encontradas nos atlas modernos.

Igualmente importante para as últimas finalidades da Geografia foi a publicação, pelos Governos, do levantamento de mapas topográficos e geológicos desenhados em grande escala. A França e a Grã-Bretanha já estavam cobertas de mapas topográficos satisfatórios por volta de 1870, e o levantamento geológico primário de ambos os países encontrava-se bastante adiantado. Desenvolvimento paralelo ocorreu em outros países civilizados. O advento dos serviços meteorológicos, durante a segunda metade do século, assinalou o aparecimento da Meteorologia Sinóptica e da Climatologia Local pormenorizada. O crescimento do vulto das estatísticas oficiais sobre população, produção e comércio acrescentou maior soma de material à síntese geográfica em perspectiva, num grau que chegou a ser quase desconcertante.

À luz desse acervo de conhecimentos imensamente aumentado, a obra de Humboldt e Ritter se afigura, de um modo inevitável, desprovida do adequado equipamento. E a tarefa de seus sucessores parece acrescida a um nível quase impossível de atingir-se quanto à sua amplitude e à suas dificuldades. Os homens revelaram poderoso e persistente interesse pelo seu meio, tornando-se, sob múltiplos aspectos, mais conscientes do mesmo. No entanto, o modo de ser desse progresso parecia residir naquela ‘divisão do trabalho’ tão vivamente louvada pelos economistas e tão manifestamente frutífera no campo da produção material. Seria possível a um homem, ou a um grupo de homens, segundo as palavras de Ritter, ‘reunir e organizar, numa bela unidade, tudo quanto sabemos acerca do globo?’ Para muitos, essa tentativa pareceu demasiado ambiciosa, se não quimérica; seria o peso suportado por Atlas, numa versão moderna” (Wooldridge, 1967, p. 21-23. Grifos meus).

O relato que acabamos de ler é sobre uma geografia em estado de arte. Saibam que ela não morreu, continua vivíssima, mas por paradoxal que seja, não ganha atenção e representação nos centros acadêmicos como ocorre, efusivamente, no mercado privado. Estranho, não? Não. Para quem acompanha a intensa ideologização acadêmica nos EUA e Europa de pós-guerra e no Brasil a partir dos anos 70, isto soa muito natural. Mas observem como o autor dos excertos acima se surpreende com a produtividade alcançada e atribui isto, como uma descoberta fosse à divisão de tarefas tão “louvada pelos economistas”, em suas palavras. Para aqueles, como nós, que nos guiamos pelo liberalismo enquanto filosofia e arcabouço teórico-metodológico para muitas de nossas análises, o fenômeno é amplamente conhecido desde Adam Smith. Não por acaso, este foi seu apelido, Geografia Pragmática, ou Teorética,[1] como veio a ser conhecida mais tarde no Brasil. Esta contribuição foi acentuada pelos anglo-saxões, que desenvolveram uma geografia com modelos estatísticos para alocação de recursos e assessoria governamental ao planejamento econômico. Malgrado, como já observamos, foi no seio da própria sociedade americana que o marxismo, chamado de geografia crítica se alastrou para o resto do mundo. E, como não poderia deixar de ser, no chamado Terceiro Mundo “deu como um inço”, campo fértil para doses cavalares de ressentimento político associada a uma imaginação socialista. O impressionante é que, apesar de vivermos em épocas com maior disponibilidade de dados para esclarecimento da realidade, a fé, pois o marxismo não deixa de ser um tipo de fé… Avançou e continua avançando com outras roupagens, seja ambiental, cultural etc., do que se deduz que se tratando de obscurantista, de pouco ou nada adianta um debate racional. Resultante disto, temos mantras como este que, repetidos à exaustão pelos professores marxistas para que se tornem verdades inquestionáveis, sequer tentam sua comprovação empírica ou refutação de teorias opostas:

“A rápida expansão do modo capitalista de produção dá-se a partir do aprofundamento da divisão do trabalho que vai desembocar nas ‘forças produtivas capitalistas’. Ao atingir esta etapa o capital ampliar-se-á ampliando a base de suas próprias contradições estruturais, como a que antepõe as duas classes fundamentais de capitalismo no seio mesmo do processo do trabalho. Assim, o capitalismo precisará crescer para além de suas fronteiras e seus níveis qualitativos.

No plano do processo do trabalho a expansão capitalista traduz-se como elevação constante da composição orgânica do capital, isto é, um aumento em ritmo maior de emprego de máquinas que o ritmo de emprego de operários. Uma vez que a mais-valia é a origem do lucro e que é o operário e não a máquina quem produz mais-valia, tende a haver um declínio contínuo da taxa de lucro. Isto não cocorre em vista de que o próprio processo que gera a tendência produz contratendências. Uma delas é a concentração da produção em caráter monopolista; uma segunda é a fusão dos monopólios industriais e bancários que promove o nascimento do capital financeiro; uma terceira é a exportação de capitais que é ilustrativa a expansão ferroviária em escala mundial; uma quarta é a integração da produção agrícola à industrial que força para baixo a reprodução da força de trabalho (mais-valia relativa) e para cima a taxa da mais-valia; uma quinta é a deterioração da qualidade do produto para acelerar a velocidade das trocas; uma sexta é a expansão do circuito mercantil para a periferia do capitalismo; uma sétima é a socialização, via Estado, das despesas de inversões com capital fixo.

Em suma, o capitalismo passa da fase concorrencial para a fase monopolista, entrando na fase imperialista. Primeiro na fase imperialista de redivisão dos mercados mundiais e, a seguir, na fase do capitalismo monopolista de estado.

Crescendo sobre a periferia o capitalismo internacionaliza-se, reproduzindo em escala mundial a base sobre a qual nasce historicamente: proletarizando o homem, alienando-o da natureza e dos outros homens, do saber e do poder” (Moreira, 1981, p. 102-104. Grifos meus).

A Geografia Crítica, também conhecida por Geocrítica surge em 1970 na França e

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A chamada geocrítica, geografia humana de viés marxista procura dramatizar até mesmo a cartografia, como se as visões tradicionais fossem fruto de uma manipulação histórica. 

rapidamente se espalha para outros países, onde iria despontar no Brasil na década de 80. O que nós acabamos de ler acima é simplesmente marxismo, nada de novo até então, mas o detalhe é que a ciência geográfica, nesta visão, se submete totalmente à metodologia e filosofia marxistas. Dentre as várias críticas que podem ser feitas, ao marxismo mesmo, como sua teoria do valor-trabalho ou o “etapismo histórico” configurado nos parágrafos acima (que desconsidera importantes particularidades regionais), o mais gritante é o que é feito com a geografia mesmo. A riqueza dessa ciência está na avaliação das diversidades, uma vez que se apresenta como um estudo com base na superfície da terra, “ciência dos lugares”, como chamava La Blache. Nesta visão “crítica”, a geografia é apresentada de modo grotescamente simplista, pois todas as regiões e áreas passíveis de avaliação na Terra se submeteriam a esta “lógica do Capital”. Para que isto apresente um mínimo de coerência há que se descartar a presença da história particular de cada nação, povo ou etnia; se descartar o peso institucional e estatal; religiões então, nem pensar, não passam de superestruturas, representações mentais para defender interesses (da “classe dominante”). Algo assim não parece geografia… E não é mesmo. Lembrem-se da bela escrita de Paul Vidal de La Blache dizendo que a Geografia não é a “ciência dos homens”, mas a “ciência dos lugares”, que envolve a humanidade, mas em sua relação com o ambiente. Como fica a análise ambiental na geocrítica? Não existe. Para marxistas genuínos, a 2ª natureza (como Marx chamava as transformações ocorridas nos territórios) suplanta e submete completamente a 1ª natureza (a original, “natureza natural”). Até aí reconhecemos a interferência de um sobre o outro, mas como Marx não pretendia constituir uma especialidade do conhecimento e sim uma “ciência da história” que contivesse um método capaz de abranger qualquer tradição de pensamento, os estudos ambientais desaparecem. Não é preciso dizer que os ambientalistas nunca absorveram esta visão pura do marxismo, mas sim do esquerdismo anticapitalista. Pode se dizer que o marxismo entrou na temática ambiental por vias indiretas, antes pelo ativismo político do que por sua estruturação acadêmica. Ou seja, o pensamento marxista se metamorfoseou, se tornando um “marxismo heterodoxo” e é, justamente, por isto que ele resiste. Se fosse o contrário, uma visão original, muitos não o adotariam porque iriam perceber sua defasagem em relação à realidade, a confrontação das teorias marxistas com a realidade etc., mas o que subsiste com força é o aspecto puramente ideológico, normativo, daquilo que “não aconteceu mas que pode acontecer, afinal, o verdadeiro comunismo nunca existiu de acordo com a teoria marxista…” Quantas e quantas já não ouvimos isto? Mas daí eu vos pergunto, quem lê integral ou parcialmente a obra marxista? Aqueles especialistas que, na sua maioria, já são adeptos ou simpatizantes. Portanto, uma de nossas principais tarefas para extirpar esta chaga é “traduzir”, divulgar o cerne da obra marxista para que, como uma vacina, mostrar aos novos leitores o que realmente lhes manipulará ao repetir clichês e enunciados sem maiores discussões e considerações.

 

(Continua…)

 

Referências:

MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo : Brasiliense, 1981.

WOOLDRIDGE, S.W.; EAST, W.G. Espírito e Propósitos da Geografia. 2ª Ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1967.

[1] Termo este que resultou de uma má tradução do inglês, theoretical, que significa simplesmente teórica.

[i] Confira também a primeira parte deste artigo aqui e, a segunda aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.

A Corrupção da Geografia: entre a História e a Natureza[i]

 

 

por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

A dita geografia moderna nem sempre foi um “puxadinho marxista”. Enquanto cátedra acadêmica, a partir do século XIX na Alemanha, foi filha do casamento entre história e naturalismo. A geografia deve muito a estudiosos como Karl Ritter e Alexander Von Humboldt, cujos esforços para integrar os campos de conhecimento em que eram especialistas levou a sua afirmação acadêmica. Mais tarde, na virada do século, Friedrich Ratzel enfatizaria a visão que mais tarde chamaríamos de determinismo físico ou geográfico, na qual a natureza mais do que influenciava, mas exercia forte influência no desenvolvimento das sociedades. Embora haja controvérsias sobre qual seria o grau desta influência ou causalidade, seus próprios textos não deixam dúvidas de que enxergava como algo muito além do que costumamos admitir hoje em dia. Prova disto está nesta passagem em que comenta a obra de Montesquieu, o qual:

“(…) afirma, sem muita demonstração, que os climas quentes exercem uma ação depressora e os frios uma ação fortalecedora, e disso deduz que nos primeiros as mulheres se encontram em um nível inferior, os homens são menos corajosos, o povo é mais facilmente excitável, enquanto nos climas frios ocorre o contrário; e isto ele afirma tendo por base observações incompletas, entre as quais recolhemos frases como esta: ‘para excitar a sensibilidade de um moscovita seria necessário arrancar sua pele’. Ele atribui o pouco progresso das legislações orientais à indolência produzida pelo clima e às escassas necessidades a brandura daquelas populações que, sempre por efeito do clima, tomam bebidas excitantes; e, do mesmo modo, explica a proibição do vinho imposta por Maomé. A mais importante entre todas estas considerações é a constatação, renovada mais tarde com maior profundidade por H. Th. Buckle, de que nos países quentes medra o despotismo e nos países frios a liberdade; desse conceito, Montesquieu faz derivar o fundamento natural da escravidão nas regiões tropicais. Os capítulos relativos ao solo começam pela fertilidade, que é o que para ele diferencia as populações da planície daquelas da montanha. Os povos insulares estão, para Montesquieu, mais inclinados à liberdade que os continentais. Entre uma abordagem desse tipo e a de Ritter ou do próprio Herder a distância é grande. Pode-se dizer que, precisamente nessa matéria, nem Montesquieu nem Voltaire formularam ideias que já não tivessem sido expressas pelos antigos e, além disso, não chegaram a criar conceitos melhores que aqueles já conhecidos. Seu mérito, que permanecerá para sempre, foi o de terem promovido o rápido desenvolvimento daqueles conceitos e aplicarem-nos adequadamente, além de terem exercido enorme influencia sobre seus próprios contemporâneos” (Moraes, 1990, p. 36. Grifos meus).

Desta visão, determinista, irá derivar um conceito fundamental em Ratzel, o Espaço Vital – lebensraum – para o qual, uma população e sociedade crescentes demandam a expansão territorial de seu estado. Não precisa ser muito perspicaz para perceber onde isto irá parar, já que estamos falando das primeiras décadas do século XX…[1] A visão de que a natureza mais do que influenciava, mas determinava a vida das pessoas, assim como a necessidade de conquista e expansão territorial para o nascente estado alemão ganhou corpo.

Em contraposição, o francês Paul Vidal de La Blache confrontou este determinismo físico com seu possibilismo: a natureza apresenta condicionantes que abrem possibilidades cabendo aos seres humanos escolher e aproveitar as melhores oportunidades. Vejamos esta inspiradora passagem de seu Princípios de Geografia Humana:

“Uma nova economia da natureza teve tempo para substituir a antiga. O desaparecimento da floresta cedeu lugar ao mato e a mudança das condições de luminosidade desalojou algumas espécies que eram retidas em seu interior, incluindo a temível mosca tsé-tsé, diversa de outras espécies. Em outras regiões são arbustos como os maquis ou o cerrado que sucederam à floresta tendo outras consequências, transformando tanto o ambiente como as condições econômicas. Vislumbramos um novo campo de opções quase ilimitadas para experimentação. Ao estudarmos a ação do Homem sobre a Terra e seu estigma impresso sobre as áreas de ocupação com séculos de idade, a Geografia Humana tem uma dupla finalidade. Não só fazer um balanço das alterações, com ou sem a participação humana, cuja singular redução de espécies ocorre desde o Plioceno. E também desenvolver um conhecimento mais aproximado de toda biosfera, pois examinando as alterações ora em curso se torna possível prever sua evolução. A respeito, o presente e o futuro das ações do Homem, agora um ‘mestre das distâncias’, armado com tudo que a ciência coloca a seu serviço, excede em muito as ações que nossos distantes antepassados puderam exercer. Felicitemo-nos porque a empresa de colonização que nos trouxe a glória permitiu que a imposição de quadros rígidos da Natureza desse margem para obras de restauração ou transformação que estão em poder do Homem” (La Blache, p. 14-15. Tradução e grifos meus)[2].

O que se observa entre os textos de Ratzel e La Blache é que, apesar das diferentes perspectivas e noções de causalidade de transformação e adaptação humanas ao ambiente, ainda há espaço para relativizações e dúvidas concernentes à extensão de seus enunciados científicos. Como quase toda escola, seja acadêmica, religiosa etc., a radicalização se dará com seus sucessores e seguidores. A sutileza e beleza intuitiva dos textos tem relação com uma época onde a ciência (social) procurava se firmar, com mais humildade do que costumamos ver hoje em dia. Mas ambas correntes geográficas, seja a determinista ou a possibilista apresentam um traço comum bastante significativo e, costumeiramente ignorado… Fosse pela fala do alemão ou do francês, eles serviam a seus respectivos estados. E mesmo que não fosse este o motivo deliberado desses estudos, eles acabavam sendo aproveitados com tal finalidade. Não havia como ensejaria um pensamento de boa estirpe liberal, estudos com ênfase no crescimento econômico via trocas internacionais, inter-regionais e em nível escalar mais próximo. O agente máximo de organização e atuação social, ainda é o estado. E por “estado”, leia-se o conceito de estado-nação, por mais idealizada que seja a nação.

determinismo v. possibilismo
Com exceção do último item, que dá impressão de ser uma posição explícita, as características de cada corrente de pensamento geográfica estão bem didáticas.

Fonte da imagem: slideplayer.com.br

Quando se fala em compromisso com a nação é mais do que um ato voluntário. Tratava-se de uma determinação, uma metáfora biológica para uma época em que se substituem explicações oriundas do divino pelo natural. A propósito, vejamos este comentário sobre Ratzel, um dos mais importantes autores e primeiro em sistematizar o conhecimento que viria a ser conhecido como Geografia Política:

“Sua formação inicial não foi a de geógrafo, tendo feito o curso de zoologia em Heidelberg, onde sofreu a influência direta de Haeckel e, através deste, do darwinismo, chegando a publicar alguns artigos de forte conteúdo naturalista-evolucionista.

Ao mesmo tempo, como intelectual preocupado com os destinos da Alemanha, participava de uma série de atividades acadêmicas voltadas para a questão nacional (como a Liga Pangermanista). Após o retorno de sua viagem aos EUA, que muito o impressionou e cuja influência será notória em seus estudos (em 1880 escreveria Os Estados Unidos da América do Norte), Ratzel alterna estudos sistemáticos de geografia geral (como a sua famosa Antropogeografia, de 1882) com vários pequenos estudos sobre problemas geográfico-políticos, culminando com a sua obra maior (Geografia Política, de 1897).

Preocupava-o essencialmente o que avaliara como a ‘unificação malconcluída’ da Alemanha, desde o processo que se iniciara sob o comando de Bismarck, de fato, malgrado a centralização via constituição de um Estado forte, mas que não resultara de um processo revolucionário clássico, tal qual ocorrera na vizinha França, a Alemanha, apresentava-se, até o início deste século, extremamente fragmentada, tanto socialmente como do ponto de vista de sua organização político-territorial.

Como se verá adiante, essa situação repercutirá em muitas das análises de Ratzel sobre o papel que caberia ao Estado nesse processo. Além do mais, assim como a maioria dos geógrafos e ‘homens de Estado’ do país, tinha plena consciência do atraso político e da situação de ‘inferioridade’ da Alemanha em relação às demais potências europeias, em especial à Inglaterra e à França, principalmente na questão das colônias de além-mar.

Um outro problema que marcou profundamente não apenas as concepções gerais de Ratzel e dos geógrafos, mas da maioria dos intelectuais alemães, foi a dos ‘povos alemães’ fora da Alemanha, concentrados principalmente na Europa de Centro e de Leste” (Costa, 1992, p. 29-30).

Mesmo que não houvesse uma defesa explícita do imperialismo, não é difícil imaginar como a argumentação em prol do estado-nação, sobretudo tendo premissas naturalizantes ou biologicistas não pudesse derivar nisso. Esta moda, paradigma, se preferirem não duraria indefinidamente. Com a estabilização das relações internacionais, o que justamente veio a reboque do ignorado comércio e capitalismo mundiais, uma geografia pragmática haveria de nascer.

(Continua…)

 

Referências:

COSTA, Wanderley Messias da. Geografia Política e Geopolítica : discursos sobre o território e o poder. São Paulo : HUCITEC : EDUSP, 1992.

ENCYCLOPEDIA BRITANNICA. Friedrich Ratzel: german geographer. Disponível em: <http://global.britannica.com/biography/Friedrich-Ratzel>. Acesso em: 16 jun. 16.

LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Géographie Humaine. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/>. Acesso em: 16 jun. 16.

MORAES, Antonio C. R. (org.). Ratzel. São Paulo : Editora Ática, 1990.

WIKIPEDIA. Paul Vidal de La Blache. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 16 jun. 16.

 

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http://inter-ceptor.blogspot.com/
Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

Se concorda, compartilhe.

 

[1] Pode se argumentar que a influência que o Nazismo teve das ideias de Ratzel foi uma “má interpretação” ou deturpação, como queiram, mas o fato é que há um nexo teórico, mesmo que isto não seja suficiente para atribuir à Friedrich Ratzel a pecha de nazista. Influenciar ideologicamente um corpo social não implica em assumir as teorias derivadas por outros interpretes, nem tampouco ter responsabilidade sobre suas ações. Fosse assim, toda ação violenta em nome de uma religião necessitaria ter sua causalidade comprovada em um livro sagrado, o que não é verossímil, pois a cultura, inclusive do campo acadêmico para a esfera política e comportamento de massa é muito dinâmica, para não dizer flexível mesmo.

[2] A referência a esta obra foi extraída do site brasileiro, Domínio Público (<http://www.dominiopublico.gov.br/>), cuja data de edição não é fornecida. Na página brasileira do Wikipedia (<https://pt.wikipedia.org/wiki/Paul_Vidal_de_La_Blache#Obras>. Acesso em: 20 mai. 16), a publicação da obra consta sendo de 1922, com edições póstumas.

[i] Leia a primeira parte deste artigo aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.

A Corrupção da Geografia: a sedução marxista

por Anselmo Heidrich[i]

 

A maioria dos novos revolucionários são essencialmente ao que parece, “liberais brancos”, prontos a lamentar os supostos males da sociedade e a mostrar seus corações sangrando como emblemas ou antigas gravatas escolares – e mais rapidamente ainda fugir do trabalho duro que o diagnóstico e a ação exigem. Um pequeno grupo de radicais marxistas, procura ferver a sopa dos lamentos dos liberais. Em nenhum grupo há qualquer engajamento profundo no sentido de produzir mudança construtiva através de meios democráticos. (…) Se qualquer deles fizer a “Nova Geografia” dos anos 70, eu estou fora.[1]

B.J.L. Berry apud R.J. Johnston, Geografia e Geógrafos.

 

Quando adolescente me impressionavam dois campos do conhecimento, a natureza e a sociedade. Vez que outra tinha sérias dúvidas sobre qual faculdade cursar, a biologia ou a sociologia. Justamente por isto, eu optei pela geografia que, para aqueles que a conhecem minimamente, sabem que se trata de uma área de intersecção. Esta mescla de conteúdos é o campo propício para estudos envolvendo impactos ambientais causados por atividades produtivas, adaptação das sociedades às condições físicas do meio etc. E se formos observar com maior detalhe, a geografia se assemelha à medicina na sua estruturação interna… Quando acometidos com alguma patologia, nós consultamos um clínico geral para depois procurarmos um especialista. Exatamente assim é o trabalho de um geógrafo (naqueles países onde se faz valer este título) que, dependendo do trabalho a ser feito se requer um estudo mais aprofundado, seja em algum ramo da geografia física ou geografia humana (“cultural”, como também é chamada nos países de língua inglesa). Imagine se tiveres que escolher a melhor localização para uma distribuidora de alimentos ou uma planta fabril que tenha melhor dispersão de poluentes: podemos contatar um geógrafo com conhecimentos específicos em climatologia ou, no primeiro caso, alguém que conheça modelos de localização industrial, geografia econômica etc. Enfim, se trata de um belo e útil campo do conhecimento, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir que isto era não só mal visto, como justamente o foco de uma crítica pesada na época que cursei minha faculdade, lá por meados dos anos 80. A razão disto é que a geografia, assim como muitas ciências e saberes disciplinares são acometidos por modas, mas não necessariamente o que Thomas Kuhn chamava de paradigmas científicos. A diferença é que, ao invés de ter sido um modelo de pesquisa e pressupostos, crenças e valores partilhados por um longo período, o marxismo na Geografia se caracterizou por um “voo de galinha”, justamente por ser curto, efêmero e fraco. Suas motivações foram mais políticas, de oposição a uma determinada conjuntura ou sistema político-econômico que de metodologia científica propriamente dita. Embora marxistas gostem de acentuar sua base metodológica – o materialismo histórico e dialético –, a grande maioria trata de enfatizar temas específicos em seus estudos (a “desigualdade”, a “exploração” etc.) sem saber exatamente o que é dialética ou entender a necessidade (admitida pelo próprio Marx) de desenvolvimento das “forças produtivas” (tecnologia) para sua posterior evolução social. Atualmente novas tendências, típicas modas ou tendências de longo prazo (como os estudos ambientais) competem com a deturpação marxista da geografia. Só que a malfadada “geografia crítica”, como os geógrafos marxistas gostavam de denominar sua corrente, era a moda dominante na academia quando tive o desprazer de estar cursando minha faculdade. E ela não vinha como uma “visão alternativa”, mas com todas suas mazelas obscurantistas como bônus que poluem e infectam a cabeça de um estudante, a começar pelo desprezo por tudo que poderia ser embutido dentro do rótulo de tradicional, isto é, tudo que a geografia tinha produzido até então. Mas como? Diria alguém, um saber que tem ligações com a natureza, o meio ambiente, clima, solos, vertentes, relevo etc. pode ter influência de uma já combalida Filosofia da História? Pois é, vocês não podem esquecer que a geografia tem sua seção humana e lá pelos anos 60, nos EUA, os acadêmicos daquele país foram seduzidos por um discurso que era, dada a conjuntura, bastante conveniente à contracultura e oposição ao establishment. Mas, por mais que se critique a ordem econômica e ideológica do momento, ela ainda era democrática, ao contrário do marxismo que, como sabemos, cerceia internamente a liberdade de pensamento antes de se configurar em uma ordem institucionalizada através da cristalização de conceitos tidos como inquestionáveis. Também não esqueçamos que os vícios de linguagem que, o marxista tão bem expressa através de clichês servem como explicações automáticas… Tive colegas de curso que aliavam esta pretensão de saber a sua preguiça crônica de estudar ao dizer “que não havia mais diferenciação territorial”, “estava tudo igualado, uniformizado pelo capital” etc. Frases grotescas, até mesmo para um estudioso marxista soam como uma mistura de sermão religioso e marketing de refrigerante de tão vulgares e generalizantes, nesta periferia intelectual em que se transformaram os cursos de humanidades no Brasil.

O marxismo é sedutor? Sim, muito, mas isto não quer dizer verdadeiro. Uma filosofia que apresente pressupostos nobres, de compaixão pelo outro, mas que ao mesmo tempo não veja a filantropia como um modo de ajudar o próximo, mas combine uma lógica produtiva com redenção coletiva não só é contraditória, como suspeita de portar algum tipo de vírus intelectual. Sobretudo, se considerarmos a mente juvenil ávida por soluções rápidas e totalizantes, que tornam a universidade um celeiro ideal para raposas disseminadoras de ideologias comprometidas com a submissão intelectual e a desinformação e a deturpação como métodos.[2]

Totalidade… Repare bem nesta palavra, que é uma categoria central para o método marxista, cuja capacidade de sedução reside na pretensão de enxergar a todos os problemas da vida social sob um método unívoco capaz de hierarquizá-los e apontar o processo causal (que, aliás, também é apenas um). Veja que se fôssemos realmente capazes de tal façanha, também teríamos o dom da predição. Quer coisa mais maravilhosa? Um método que não só explica tudo até aqui, como também é capaz de dizer tudo que tenderá ocorrer a partir de certo ponto na linha de tempo da história de toda humanidade. Qualquer semelhança com gurus do apocalipse (mas, em versão progressista-evolutiva), não é mera coincidência. Por inferência lógica, se pudermos atuar na raiz dos problemas (daí o apreço que os marxistas têm por serem chamados de radicais), as soluções se dariam automaticamente como um processo natural, após um momento de ruptura que, nada mais é senão a revolução.

Esquema de Fenneman

A síntese geográfica foi deturpada pelo conceito marxista de totalidade.

 

Se vocês repararam, as categorias marxistas de análise aqui elencadas como totalidade, processo natural, ruptura e revolução se encaixam em aspectos que atribuímos à Geografia e sua prima, a História.[3] Como eu já disse, os vários campos do saber que integram a síntese geográfica procuram abranger as indústrias, a produção agrícola, as cidades, os transportes, a demografia, a inter-relação dos estados nação (geopolítica) e, de outro lado, a geomorfologia, a hidrografia, a climatologia, a biogeografia etc. Portanto, uma filosofia que diga que tudo isso pode dar um bom mix caberá como uma luva às pretensões científicas de mostrar que a geografia é uma “ciência de respeito”. Afinal algo que ressentia muito os geógrafos era este aspecto de “colcha de retalhos” que fazia a geografia não parecer uma ciência una, mas sim um agregado de várias ciências.

A esta altura da prosa alguém poderia perguntar então, mas por que a medicina não tem este problema? Ora! Médicos não estão preocupados, em primeiro lugar, em serem reconhecidos no meio acadêmico, se não forem eficazes em sua lida. Pode até ser que um ou outro indivíduo deseje muito tal status, mas não será muito difícil atingi-lo sem a comprovada eficiência em suas áreas de atuação. Se não estão preocupados, em primeiro lugar, em salvar vidas, perde-las pode acabar com suas carreiras. Por outro lado, se amanhã ou depois, algum médico for reconhecido por inovar em determinado campo ou subcampo médico, isto é um bônus a sua profissão. Já para profissionais que atuam na área do planejamento (ambiental, urbano, regional etc.) como os geógrafos, a academia, em países como o Brasil, tem sido a porta de entrada para a atuação no mercado. Deveria ser o contrário e isto até está mudando, graças ao capitalismo e as tecnologias de sensoriamento remoto, mas deixemos isto para outro artigo… Enfim, vocês conseguem imaginar a cabeça de um estudante com a competição profissional com temas como, p.ex., o substrato rochoso quando confrontado com um geólogo? Que não conhece tanto sobre biomas quanto um biólogo? Que não sabe prever as intempéries com relativa precisão quanto um meteorologista? Ou, em outro campo, que não sabe analisar a produção industrial como um economista? Que não conhece detalhes agroecológicos como um agrônomo? Que não tem conhecimento técnico sobre urbanismo e infraestrutura como arquitetos e engenheiros? Fica difícil, né? Acontece que a particularidade da geografia foi (e é), justamente, não saber profundamente de seções do conhecimento, mas conhecer a integração desses elementos na análise territorial seja esta, local, regional ou global. Parece simples, mas numa época de valorização das especialidades, o marxismo ofereceu aos professores e alunos ressentidos com a competição uma resposta negacionista, isto é, “nada disso que está aí fazendo sucesso no mercado vale, porque estes saberes fazem parte da lógica do Capital, que é essencialmente espoliadora, destrutiva etc.” Qualquer semelhança com estelionatários ou a redenção espiritual via dízimo não seria mera coincidência.

(Continua…)

 

Referências:

CRISTALDO, Janer. “A universidade é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar.” Disponível em: <http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html>. Acesso em: 13 de abril de 2016.

EPL. “Carta aberta aos estudantes.” Estudantes Pela Liberdade – Grupo Henry Maksoud. Disponível em: <https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344>. Acesso em: 15 jun. 16.

JOHNSTON, R.J. Geografia e Geógrafos : a geografia humana anglo-americana desde 1945. São Paulo : DIFEL, 1986.

 

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http://inter-ceptor.blogspot.com/
Fas est et ab hoste doceri – Ovídio

Se concorda, compartilhe.

 

[1] Sempre é bom lembrar que por “liberais brancos”, o autor, ainda que nascido no Reino Unido está se referindo aos liberais nos costumes ou na moral que, no contexto especificamente americano significaria algo como a esquerda atual. Para nós no Brasil, que herdamos a tradição linguística europeia, este sentido é raro e o termo liberal, normalmente apresenta sua conotação original da economia, em prol do livre-mercado.

[2] Em “A Universidade É Um Galinheiro Onde As Raposas Velhas Vão Caçar”, Janer Cristaldo pega uma raposa no pulo, isto é, o que Frei Betto disse em seu campo de caça, a Universidade:

“Ao falar de fracasso do socialismo na Europa e fracasso do capitalismo no ocidente, o frei exclui a Europa do Ocidente. Onde ficará então o Ocidente? Na Sibéria? Na Mongólia? É espantoso que um público universitário ouça uma sandice destas sem vaiar o palestrante. Se bem que quase nenhum universitário hoje, seja professor ou aluno, saiba dizer o que ocorreu em 9 de novembro de 1989.
Concluindo: o orgânico não precisa ser organizado. Não é permissível comparar um sistema artificial, distanciado do real, nascido de uma teoria utópica, com uma economia que surge espontaneamente, decorre da própria natureza humana e hoje é almejada por todos os países que um dia foram comunistas. Capitalismo não tem profeta, não tem livro nem é imposto, manu militari, por Estados ditatoriais. Há teorias sobre o capitaliso? Há. São teorias que tentam explicá-lo, não teorias que surgem do nada para criar um modelo de organização social.

La universidad es un acuário, donde las nenas ván pescar – dizem os espanhóis. Chez nous, é um galinheiro onde raposas velhas vão caçar” (http://cristaldo.blogspot.com.br/2014/04/a-universidade-e-um-galinheiro-onde.html. Acesso em 13 abr. 16).

[3] Dia 7 de abril passado, um grupo de estudantes e membros do Estudantes Pela Liberdade (EPL) em divulgação de seu segundo seminário na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram hostilizados por dois professores, um de forma irônica e outro de forma acintosa. Para quem teve acesso ao vídeo divulgado de forma restrita na internet pode constatar no vocabulário deste segundo caso as categorias utilizadas e cujas premissas remetem ao puro marxismo, “analisamos o liberalismo sim, mas de forma histórica”. Para quem já está habituado aos cacoetes intelectuais desses professores sabe que por “forma histórica” se entende somente o que eles consideram como “história”. Outras visões simplesmente não existem e são amplamente hostilizadas ou alvo de chacota, para que seja autoatribuído ao autor desse escárnio uma pretensa superioridade, já que nunca a obtém em um debate ao vivo e civilizado. Aqui segue o link da carta aberta dos estudantes pelo incidente ocorrido: https://www.facebook.com/notes/grupo-henry-maksoud/carta-aberta-aos-estudantes/1079085762153344. Eu até tolero (embora não concorde com nada do que dizem) marxistas como forma de vida pensante, mas covardes me causam asco. E para quem viu o que ocorreu, entende o que quero dizer. Os professores em questão usaram do recurso vil (que tanto contestam em seus inimigos no poder) da autoridade conferida a eles para ensinar, no intuito de somente calar e subjugar o espírito livre de quem ousa discordar de suas estultícias.

[i] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.

Confusões clássicas sobre Direita e Esquerda

Contribuição espontânea do nosso leitor Davi Caldas, publicado originalmente no seu blog Mundo Analista. Para ler o artigo original, clique aqui.

Em qualquer site ou livro de história geral que o leitor for procurar informações sobre a origem da esquerda e da direita política, o resultado será o mesmo: esquerda e direita são dois termos que surgiram na época da revolução francesa (1789-1799) para distinguir posições conservadoras (direita) das posições radicais (esquerda), no âmbito da política. Essas informações não estão erradas. Eu mesmo as ofereço na postagem “Definição de Direita e Esquerda”. Contudo, é necessário desfazer algumas confusões clássicas que costumam obscurecer o entendimento do que os dois termos, de fato, significam.

A primeira confusão que precisamos desfazer é a seguinte: o que surgiu na época da revolução francesa não foram as definições do que é direita e esquerda, mas somente os termos direita e esquerda. Existe uma diferença abissal entre uma definição de algo e o termo usado para nomear esse algo. Por exemplo, existe um tipo de transporte público que é cumprido, retangular, tem vários assentos e anda no asfalto. Essa é a definição do objeto (do “algo”). O termo que é usado para nomear esse objeto é ônibus.

Perceba que o termo não é a mesma coisa que a definição. E note que a definição do objeto pode surgir antes do termo que o nomeia. Na verdade, isso é o que geralmente acontece, sobretudo, no campo das idéias. Quando o capitalismo surgiu, não tinha esse nome. Foi Marx que passou a designá-lo assim depois de tê-lo observado e entendido a sua definição. O cristianismo, quando surgiu, também não tinha esse nome. O termo só começou a ser utilizado posteriormente.

A coisa não é diferente quando tratamos do espectro político. Direita e esquerda são ideologias que já vinham se desenvolvendo muito antes dos franceses distinguirem suas posições ideológicas pelos assentos que ocupavam, designando assim tais termos para uso político.

No entanto, a maioria esmagadora das pessoas não percebe esse pequeno detalhe e acabam acreditando que tanto as definições como os termos do espectro político foram criados na revolução francesa. O resultado dessa confusão são explicações incoerentes como essa:

Direita e esquerda surgiram na revolução francesa quando o rei absolutista da França convocou os estados gerais para uma assembléia. Aqueles que eram favoráveis à conservação do poder absoluto do rei e dos privilégios da nobreza ficavam à direita do rei, enquanto que aqueles que queriam a derrubada do poder absoluto e dos privilégios da nobreza sentavam-se à esquerda. Assim, passou-se a denominar de direita quem é a favor da conservação dos poderes e privilégios da elite e de esquerda quem é contra essa conservação.

Não, não, não! Está tudo errado. Aqueles que eram a favor da conservação do poder absoluto do rei e dos privilégios da nobreza eram partidários não do pensamento de direita, mas do pensamento do antigo regime absolutista. Dizer que a direita era uma ideologia que apoiava esse antigo regime é a mesma coisa que dizer que a direita existe desde os primórdios da humanidade. Afinal, desde o início existiram reis com poderes absolutos e uma nobreza com privilégios.

Mas assumir que a direita existe desde os primórdios da humanidade não apenas contradiz a própria explicação de que ela surgiu na revolução francesa como contradiz a idéia de que ela ainda existe hoje. Ora, o antigo regime absolutista já foi derrubado em todos os países. Ainda há muitas ditaduras, por certo, mas não se tratam das monarquias absolutistas antigas. Se considerarmos, ainda, que a direita se caracteriza por ser elitista, então devemos considerar que os próprios governos comunistas que existiram no mundo foram de direita, pois havia em todos eles uma elite do governo que tinha seus salários garantidos, que não passava fome (como parte do povo passava), que não abria mão de seus poderes, que não ia à guerra e etc. Isso não é um governo elitista?

A verdade é que todo o governo é, por definição, elitista. Mesmo o governo mais esquerdista. Afinal, de contas o governo é formado por políticos que jamais passarão o que o povo passa. A esquerdíssima Dilma Rousseff, atual presidente do Brasil, por exemplo, não vai ficar desempregada, não vai receber salário baixo, não vai passar fome, não vai ser presa injustamente, não vai ser assaltada na rua, não vai ter sua casa roubada, não vai precisar esperar em fila de hospital público. Jamais. Se uma epidemia de alguma doença grave atingir qualquer país, os políticos serão todos vacinados. Se houver uma guerra, eles não serão convocados para batalhar. Se a guerra causar fome generalizada, tenha certeza que nenhum político morrerá por não ter o que comer. Ser político garante privilégios que o povo não tem. Isso caracteriza elitismo.

Então, fica claro que é incoerente dizer que os defensores do antigo regime eram de direita ou que a direita é o posicionamento que defende o elitismo. São idéias que não fazem nenhum sentido lógico. Da mesma maneira, é incoerente dizer que esquerda é a oposição ao antigo regime ou que é o posicionamento que ataca o elitismo.

A pergunta que pode surgir agora é: “Mas, então, o que eram os defensores do antigo regime e os contrários a ele?”. Bem, os defensores do antigo regime absolutista eram simplesmente os defensores do antigo regime absolutista. Não eram de esquerda, nem de direita, nem de centro. Eram absolutistas.

O antigo regime monárquico, sobretudo o absolutista, era um regime baseado em premissas que hoje nos são estranhas. O rei era rei e era absoluto porque ou Deus assim queria (apelo à religião), ou porque ele conquistou esse poder com seus exércitos (apelo à força) ou porque “sempre foi assim e deve continuar sendo assim, não importando se é bom ou ruim” (apelo à tradição) ou mesmo por todos esses motivos juntos. Nesse tipo de regime, não havia ideologias ou propostas de mudanças. Não havia livre discussão de idéias dentro lei. Não havia um plano de governo ou um objetivo político. Não havia partidos. Não havia direita. Não havia esquerda.

Direita e esquerda são modos de pensar que não fazem sentido dentro do antigo regime absolutista. São ideologias que se desenvolveram para existir dentro de um novo regime político. A discussão entre direita e esquerda não é e jamais foi uma discussão entre o novo e o antigo regime. Tanto direita como esquerda já são parte do (e só fazem sentido no) novo regime.

Quanto aos que eram contrários ao antigo regime e, portanto, favoráveis ao novo, eles poderiam ter uma orientação tanto de direita como de esquerda. Não há contradição aqui, porque direita e esquerda eram, ambas, de um novo regime que lutava para vencer o absolutismo. No caso da revolução francesa, a grande maioria dos revolucionários era de orientação esquerdista.

Os motivos da adoção dos termos

Certo. Entendemos que os termos direita e esquerda surgiram na revolução da França, mas não as definições. Entretanto, alguém pode levantar uma objeção, dizendo que um termo só surge quando a definição já está pronta. Ou seja, se os partidários do antigo regime foram chamados de direita e os opositores foram chamados de esquerda é porque as definições eram essas mesmas. Mas isso está errado. Direita e esquerda eram, no início, apenas as alas da assembléia onde os franceses sentavam. Nesse sentido, sim, os partidários do antigo regime eram da direita (a ala direita) e os opositores eram da esquerda (a ala esquerda).

A adoção dessas palavras como termos que designavam ideologias políticas só ocorreu posteriormente e necessitaram se adaptar às definições reais de cada uma dessas ideologias. A base, é claro, ficou. A direita é a ideologia mais conservadora e a esquerda é a ideologia mais radical. Mas, afora essa idéia básica que os termos carregavam desde a revolução francesa, não há nada do contexto da revolução que sirva para definir cada uma dessas ideologias.

Vamos ver alguns exemplos. Todo mundo sabe que a revolução francesa foi uma revolução burguesa. A burguesia, na época, era uma classe ainda em ascensão e que era muito atrapalhada pelos privilégios da nobreza e o amplo poder do rei. Ora, se formos considerar que a definição de esquerda e de direita surgiu na revolução francesa, então devemos concluir que a esquerda deveria ter sido sempre favorável à burguesia. Porém, o marxismo, que é a mais importante doutrina da esquerda, se opõe à burguesia. Seria o marxismo de direita, então?

Da mesma maneira, todo mundo sabe que os partidários do antigo regime eram totalmente contrários à limitação do poder do Estado (representado pelo rei). Se formos considerar, então, que a definição de esquerda e de direita surgiu na revolução francesa, devemos concluir que a direita deveria ter sido sempre contrária à limitação do poder do Estado. Porém, o partido republicano dos EUA, que é de direita, por exemplo, jamais teve tal postura. Pelo contrário, seus políticos costumam defender um Estado que não se meta muito na vida do cidadão e das empresas, a fim de que o poder do governamental não aumente. Seria o partido republicano de esquerda, então?

Os exemplos não deixam dúvidas de que para definir direita e esquerda nós não devemos olhar para a revolução francesa. A revolução francesa apenas serve como base para nomear definições já existentes; definições que já vinham se desenvolvendo desde muito tempo.

O desenvolvimento das ideologias

Chegamos, enfim, ao ponto em que cabe perguntar: “Quando foi que surgiram as ideologias de direita e esquerda?”. Bem, acredito que utilizar a palavra “surgiram” não reflete muito aquilo que realmente aconteceu. “Surgiram” dá a impressão de que elas passaram a existir de repente, do nada. Mas a verdade é que as ideologias que viriam a ser chamadas de direita e esquerda foram se desenvolvendo gradualmente ao longo dos anos até estarem bem definidas e poderem receber os nomes que hoje conhecemos.

Podemos entender esse processo da seguinte maneira: o antigo regime começou a se tornar alvo de muitas críticas entre os séculos XVII e XVIII. Pensadores passaram a formular teorias políticas em que esse sistema absolutista seria abolido e daria lugar a algum sistema mais igualitário e justo. Entre os intelectuais, o antigo regime começou a perder muitos adeptos. A nova leva de pensadores tinha um pensamento em comum: o sistema político deveria ser mudado. Da forma como estava não dava.

Esse é o ponto de partida. Os novos pensadores concordavam que deveria haver uma mudança no sistema. Mas como seria o novo sistema? Quais seriam as funções do governo? Como se poderia evitar que os governantes se tornassem déspotas? Qual era o limite de atuação do Estado? Como o Estado poderia resolver os principais problemas que a sociedade passava? Quais seriam os métodos utilizados? Quais eram as melhores propostas de governo? Como encarar as novas mudanças que surgiam, como a criação de indústrias, o crescimento do comércio e as novas tecnologias?

Foi a partir desses questionamentos que os novos pensadores que iam surgindo passaram a ter divergências entre si. Afinal, cada um tinha uma proposta diferente. Cada um enxergava a sociedade de uma maneira distinta um do outro. Entretanto, as diversas idéias diferentes que surgiram na época sobre como deveria ser o novo sistema podem ser divididas em dois grandes grupos: o grupo humanista e o grupo pessimista.

Como já vimos nas últimas postagens, os humanistas eram aqueles que achavam que o ser humano tinha plena capacidade de remodelar toda a sociedade, tornando-a um paraíso. Muitos dos humanistas eram deístas, agnósticos e ateus. Então, isso facilitava o antropocentrismo. O homem tinha suas qualidades elevadas e passava a ocupar o lugar do próprio Deus, tornando-se capaz de redimir a humanidade.

Já os pessimistas eram aqueles que achavam que o ser humano é da forma como tem sido desde sempre e isso nunca vai mudar. Essa visão não estava relacionada com a religião, mas sim com a observação de como o mundo sempre foi e de como o homem costuma a agir. Paixões infames, inclinações ao mal, tendência ao egoísmo… Mesmo alguns pensadores ateus, agnósticos e deístas não tinham dificuldade de ver que essa era a natureza do ser humano. Assim, embora tais pensadores defendessem a criação de um novo regime, mais justo e não-despótico, não acreditavam muito na bondade do homem e em uma transformação tão ampla da sociedade.

Há também um meio termo nessa história. Muitos pensadores se dividiam entre idéias de ambos os grandes grupos, ficando no centro desse espectro. É no interior desse espectro que as noções de direita e esquerda começam a surgir (embora não com esses nomes ainda). Pensadores como Adam Smith, David Ricardo, Edmund Burke, Thomas Jefferson, John Locke e Voltaire foram muito importantes para o desenvolvimento das idéias da direita. Já pensadores como Rousseau, Robert Owen, Saint-Simon, Charles Fourier, Robespierre, Danton e Marat foram muito importantes para o desenvolvimento das idéias de esquerda. No centro do espectro, podemos colocar Montesquieu, já que ele teve idéias que foram cooptadas tanto pela direita como pela esquerda.

O desenvolvimento das ideologias continua mesmo depois da revolução francesa, ganhando novos pensadores como Comte, Proudhon, Bakunin, Marx e Engels para esquerda, bem como Tocqueville, Hume, Mill e Popper para a direita. Caso o leitor tenha algum conhecimento sobre esses autores, pode perceber que todos eles seguem as mesmas duas linhas de raciocínio que foram desenvolvidas no século XVII e XVIII: a humanista e a pessimista, que deram origem, respectivamente à esquerda e à direita.

Por que esclarecer esses pontos?

O leitor pode estar se perguntando a razão de se esclarecer esses pontos. Qual é o problema de se confundir o aparecimento das palavras direita e esquerda como termos políticos com o surgimento das ideologias e definições em si? No fim das contas não dá no mesmo? Não, não dá.

Entender como essas duas ideologias distintas e opostas se desenvolveram é algo essencial para que possamos defini-las corretamente. Por exemplo, movimentos como o fascismo italiano e o nazismo alemão tem sido rotineiramente chamados de movimentos de extrema-direita. Mas isso não faz sentido. Afinal, a direita prega, desde seu início, o individualismo, o Estado pouco interventor, a prudência política e um forte ceticismo em relação à bondade do ser humano e a qualquer projeto de remodelação radical deste mundo. Assim, um regime de extrema-direita deveria ser um regime que levasse esses princípios ao extremo.

Contudo, o que vemos em regimes como o fascismo e o nazismo é justamente o contrário. Foram regimes coletivistas, fortemente interventores, adeptos de um terrível radicalismo político, defensores da perfectibilidade do homem de sua “raça” e crentes em uma remodelação completa da sociedade através da mão do Estado. Curiosamente, características que fazem parte justamente da esquerda, embora extremadas.

A pergunta é: o que há no fascismo e no nazismo que se assemelha com o que a direita defende? Não há nada. As justificativas para que tais regimes sejam colocados no campo da direita são sempre confusões como as que abordamos nessa postagem. Diz-se que a direita é elitista porque se classifica o antigo regime como direita. Assim, nazismo e fascismo passam a ser de direita.

Diz-se que a esquerda é contrária ao elitismo porque se ignora que todo governo é elitista por definição e que os governos mais esquerdistas que existiram no mundo (os comunistas) foram também os mais elitistas. Assim, o comunismo é visto como um regime realmente igualitário, em oposição ao nazismo e ao fascismo.

Diz-se que ser de esquerda é, necessariamente, ser comunista. Assim, nazismo e fascismo, que eram anticomunistas, passam a ser tão de direita quanto os governos dos EUA e da Inglaterra da época da segunda guerra mundial.

Por fim, definições errôneas que só existem e persistem porque não se faz uma distinção entre o surgimento de termo e definição. Esta é a razão pela qual é importante esclarecer esses pontos para o leitor. Esse foi o objetivo dessa postagem. E o leitor que for honesto consigo mesmo, verá que em momento algum tentei fazer um revisionismo histórico (no sentido pejorativo da palavra), mas apenas resolver as inconsistências que existem nas definições populares de direita e esquerda, que são baseadas nessa confusão entre termo e definição

O Brasil na encruzilhada

Por Ives Gandra. Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo.

A economia não é uma ciência ideológica, como quer certa corrente política, nem uma ciência matemática, como pretendem os econometristas. É evidente que a matemática é um bom instrumental auxiliar, não mais que isto, enquanto a ideologia é um excelente complicador. A economia é, fundamentalmente, uma ciência psicossocial, que evolui de acordo com os impulsos dos interesses da sociedade, cabendo ao Estado garantir o desenvolvimento e o equilíbrio social, e não conduzi-la, pois, quando o faz, atrapalha.

Por outro lado, o interesse público, em todos os tempos históricos e períodos geográficos, se confunde, principalmente, com o interesse dos detentores do poder, políticos e burocratas, que, enquistados no aparato do Estado, querem estabilidade e bons proventos, sendo o serviço à sociedade um mero efeito colateral (vide meu “Uma breve teoria do poder”, Ed. RT). Por esta razão, o tributo é o maior instrumento de domínio, sendo uma norma de rejeição social, porque todos sabem que o pagam mais para manter os privilégios dos governantes, do que para que o Estado preste serviços públicos. A carga tributária é, pois, sempre desmedida, para atender os dois objetivos.

Na super-elite nacional, representada pelos governantes, o déficit previdenciário gerado para atender menos de 1 milhão de servidores aposentados foi superior a 50 bilhões de reais, em 2011; enquanto para os cidadãos de 2ª. Categoria – o povo -, foi de pouco mais de 40 bilhões, para atender 24 milhões de brasileiros!!!

Numa arrecadação de quase 1 trilhão e quinhentos bilhões de reais (35% do PIB brasileiro), foram destinados à decantada bolsa família menos de 20 bilhões de reais! Em torno de 1% de toda a arrecadação!!! O grande eleitor do Presidente Lula e da Presidente Dilma não custou praticamente nada aos Erários da República.

O poder fascina! No Brasil, há 29 partidos políticos. Mesmo consultando os grandes filósofos políticos desde a antiguidade até o presente, não consegui encontrar 29 ideologias políticas diferentes, capazes de criar 29 sistemas políticos autênticos e diversos. Desde Sun Tzu, passando por indianos, pré-socráticos, a trindade áurea da filosofia grega (Sócrates, Platão e Aristóteles), pelos árabes Alfarabi, Avicena e Averróis e os patrísticos e autores medievais, entre eles Agostinho e São Tomas, e entrando por Hobbes, Locke, Montesquieu, Hegel até Proudhon, Marx, Hannah Arendt, Rawls, Lijphart, Schmitt e muitos outros, não encontrei 29 sistemas políticos distintos.

Ora, 29 partidos políticos exigem de qualquer governo a acomodação de aliados e tal acomodação implica criação de Ministérios e encargos burocráticos e tributários para o contribuinte. O Brasil tem muito mais Ministérios que os Estados Unidos.
Por esta razão, suporta uma carga tributária indecente e uma carga burocrática caótica para tentar sustentar um Estado, em que a Presidente Dilma não conseguiu reduzir o peso da Administração sobre o sofrido cidadão. E os detentores do poder, num festival permanente de auto-outorga de benesses, insistem em aumentar seus privilégios, como ocorre neste fim de ano, com a pretendida contratação de mais 10.000 servidores e aumentos em cascata de seus vencimentos.
Acresce-se a este quadro a ideológica postura de que os investidores no Brasil não devem ter lucro, ou devem tê-lo em níveis bem reduzidos. Resultado: México e Colômbia têm recebido investidores que viriam para o Brasil, pois tal preconceito ideológico inexiste nesses países.

A consequência é que, no governo Dilma, jamais os prognósticos deram certo. Têm seus ministros econômicos a notável especialidade de sempre errarem seus prognósticos, o que dá insegurança aos agentes econômicos e desfigura o governo. Os 4,5% de crescimento do PIB para 2011 ficaram torno de 2,5%. Os 4% prometidos para 2012 ficarão ainda pior, ou seja, pouco acima de 1%.
A política energética – em que o governo pretende seja reduzido o preço da energia pelo sacrifício das empresas, e não pela redução de sua esclerosadíssima máquina pública – poderá levar à má qualidade de serviços e desistências de algumas concessionárias de continuarem a prestar serviços. A Petrobrás, por exemplo, para combater a inflação, provocada, principalmente pela máquina pública, tem seus preços comprimidos. Nem mesmo a baixa de juros está permitindo combater a inflação, com o que terminaremos o ano com baixo PIB e inflação acima da meta.

Finalmente, a opção ideológica pelo alinhamento com governos como os da Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina tem feito o Brasil tornar-se o alvo preferencial dos descumprimentos de acordos e tratados por parte desses países, saindo sempre na posição de perdedor.
Muitas vezes tenho sido questionado, em palestras, porque o Brasil, com a dimensão continental que tem, em vez de relacionar-se, em pé de igualdade, com as nações desenvolvidas, prefere relacionar-se com os países de menor desenvolvimento, tornando-se presa fácil de políticas estreitas, nas quais raramente leva a melhor. Tenho sugerido que perguntem à presidente Dilma.

Como a crise européia não será solucionada em 2013, como os investidores estão se desinteressando pelo País, por força desta aversão dos governantes brasileiros ao lucro, e com os investimos em consumo, beneficiando, inclusive, a importação, e não a produção e o desenvolvimento de tecnologias próprias, chegamos a uma encruzilhada. Bom seria se os Ministros da área econômica deixassem de fazer previsões sempre equivocadas e que a Presidente Dilma procurasse saber por que os outros países estão recebendo investimentos e o Brasil não. Como dizia Roberto Campos, no prefácio de meu livro “Desenvolvimento Econômico e Segurança Nacional – Teoria do limite crítico”, “a melhor forma de evitar a fatalidade é conhecer os fatos”.

A Abolição do Homem – Parte I: Homens sem Peito

C.S. Lewis, escritor e professor universitário, ateu por muitos anos, mas depois convertido, é conhecido principalmente pela série de livros As Crônicas de Nárnia. Apesar de seu sucesso, atualmente, se restringir à série anteriormente citada, principalmente pela adaptação ao cinema, Lewis foi também conhecido em parte de sua vida pela defesa dos valores cristãos e escritos não-ficcionais. Tratarei, em quatro artigos, sobre A Abolição do Homem, em que Lewis contrapõe a educação antiga à nova, destaca a necessidade de valores universais e, finalmente, chega à abolição do homem através da abolição dos valores. Cada um dos três primeiros artigos tratará sobre os capítulos individuais, e o quarto sobre o apêndice, em que o autor exemplifica o que chama de Tao. Começarei pelo Homens sem Peito.

Lewis
C.S. Lewis

Homens sem Peito

Lewis começa, nesse capítulo, falando sobre um livro que tem como objetivo ensinar a língua inglesa a crianças do ensino básico. Esse livro, em um exercício, conta uma conhecida história da visita de Coleridge a uma cachoeira. Chegando lá, se depara com dois turistas: Um deles diz que a cachoeira é sublime, outro diz que é bonita. Coleridge, mentalmente, concordou com o primeiro, discordando do segundo. O autor do livro didático, nesse momento, interpela dizendo que, na verdade, os turistas não teceram comentários sobre a cachoeira em si, mas sobre seus sentimentos em relação à cachoeira. Que, resumidamente, o que o turista quis dizer foi “Tenho sentimentos sublimes”.

Lewis aponta, aqui, uma contradição clara: se o turista considerava, de acordo apenas com seus sentimentos, que a cachoeira era sublime, seus sentimentos deveriam ser qualquer coisa abaixo de sublimes; humildes, quem sabe, destaca o autor. Mas aponta uma consequência mais grave, resultante de um entendimento que o aluno poderia tirar da história: Não existe algo bom em si, mas apenas em relação ao estado emocional momentâneo daquele que profere uma atribuição de valor qualquer. Chega, então, ao derradeiro lógico desse estranho raciocínio: Ao discordar de um sentimento que um dos turistas teve, seria equivalente ao caso de um deles dizer que sente-se mal, e Coleridge retrucar “Discordo, sinto-me muito bem”. Essa conclusão acerca da atribuição de valores permeia a educação atual.

Ao falar da educação, Lewis contrapõe a antiga à nova. A antiga tinha como objetivo abrir os olhos da pessoa para que perceba aquilo que é belo, bom, e aquilo que deve ser rejeitado. A nova procura vender, já pronta, uma visão de mundo, de acordo com o que alguns pretendem para a humanidade. Isso fica explícito no seguinte trecho:

Se eles optarem por esse caminho, a diferença entre a educação antiga e a nova será muito significativa. Enquanto a antiga promovia uma iniciação, a nova apenas “condiciona”. A antiga lidava com os alunos da mesma maneira que pássaros crescidos lidavam com os filhotes quando lhes ensinavam a voar; a nova lida com eles mais como o criador de aves lida com os jovens pássaros – fazendo deles alguma coisa com propósito que os próprios pássaros desconhecem. Em suma, a educação antiga era uma espécie de propagação – homens transmitindo a humanidade para outros homens; a nova é apenas propaganda.

Ao não mais saber pelo que é educado, o jovem tem seus valores tolhidos. E isso ocorre ao mesmo tempo em que a sociedade exige de seus integrantes esses mesmos valores. Lewis aponta a contradição em que acaba por incorrer a sociedade nesses moldes na seguinte passagem:

Mal podemos abrir um periódico sem topar com a afirmação de que nossa civilização precisa de mais ímpeto, ou dinamismo, ou auto-sacrifício, ou criatividade. Numa espécie de mórbida ingenuidade extirpamos o órgão e exigimos sua função. Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis.

Nesse primeiro capítulo, Lewis introduz também a noção de Tao, que apesar de ter origem no pensamento chinês, o autor utiliza para embarcar tudo aquilo que é verdadeiro, aquilo que é comum a todos. Um primeiro contato com esse termo é importante para entender o que se segue nos próximos capítulos. No Tao está aquilo que é correto e aquilo que não, independente do pensamento a que se recorra: platônico, cristão, aristotélico, oriental, estoico. A atribuição de um valor objetivo às coisas, ações. É importantíssimo para entender a defesa de valores universais, já que no Tao tudo está contido.

A Atualidade

A precariedade da nova educação, como dita por Lewis, é facilmente notada na atualidade. No Brasil, hoje, as pessoas tendem a sempre brigar pela melhora das estruturas que forneceriam a educação: investimento financeiro nas escolas, 10% do PIB para a educação, adiante. É impossível negar que a situação em que se encontram as escolas e universidades públicas é deplorável. Mas o maior dos problemas não se encontra aí. É possível fornecer uma boa educação mesmo sem cômodos.

O grande problema da educação atual está em seu modelo. O objetivo deixou de ser o de criar seres pensantes, indivíduos livres, motores de um crescimento não só econômico, mas também humano. Não é mais criar seres que, por onde passam, irradiam conhecimento e inspiram outros a conhecer e pensar, que transfiram seu conhecimento com naturalidade, em vários momentos da vida que não se restrinjam ao estudo ou à sala de aula. O objetivo hoje é massificar. Doutrinar.

Temos a democracia, hoje, como o melhor dos regimes: isso se enraizou em nossa cultura. Mas em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, Pondé destaca um dos grandes reveses desse tipo de regime, o de que “o conhecimento foi substituído pela opinião pública”. Não venho com isso bradar pelo fim da democracia, mas o de apontar um problema real que apenas existe, sem a menor sombra de dúvidas, para que venhamos a o superar.

Olavo de Carvalho, apesar de controverso, disse algo que provavelmente deve ser um pensamento compartilhado por todos (talvez não, as pessoas costumam me surpreender nesse sentido): “Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime”.