20 verdades históricas inconvenientes

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Resolvi selecionar 20 verdades históricas inconvenientes. É aquele tipo de verdade que irrita muita gente porque contraria suas ideologias. Essa gente tem o péssimo hábito de tentar moldar à realidade às suas ideologias, em vez do contrário. Talvez por isso, as verdades aqui expostas não sejam muito propagadas. Seus professores de história, geografia, filosofia, sociologia provavelmente não te ensinaram isso, aliás. Então, estou fazendo minha boa ação do dia. Lá vai:

1) Hitler era contrário ao marxismo por uma razão apenas: ele entendia que tal doutrina era um embuste criado por judeus para destruir os Estados nacionais, prostrando o mundo todo diante do que ele chamava de Capitalismo Internacional Judaico. Para Hitler, o verdadeiro socialismo não poderia se desfazer do conceito de nação ou de raça. Isso valia não só para a Alemanha. Ele elogiava o regime fascista italiano por valorizar seu próprio povo.

Tanto Hitler como Mussolini fizeram o mesmo que Stalin: perceberam a força do sentimento de nação para agregamento social e do próprio conceito nacional para melhor administração da sociedade. Ademais, seria muito mais fácil fazer uma nação grande e por meio dela conquistar o mundo todo, do que tentar dominar o mundo todo sem uma nação central que conduzisse o processo.

Friedrich Hayek (Nobel em Economia em 1974) já explicava, do ponto de vista econômico, nos anos 40, que o socialismo internacionalista tende a se tornar nacionalista depois que se instaura. Essa tendência só irá mudar um pouco na história com a introdução do conceito de multiculturalismo na politica e a infiltração do progressismo na ONU, os quais habilitaram a mesma a se tornar uma entidade promotora do enfraquecimento dos Estados nacionais. O projeto nacionalista e o internacionalista de domínio mundial só se diferem na estrategia utilizada. A finalidade é a mesma: a promoção de um órgão central que controle o mundo todo.

2) Benito Mussolini foi, durante boa parte da vida, um marxista ortodoxo. Escreveu para jornais socialistas e foi integrante do Partido Socialista Italiano (PSI). Começou a se afastar da ortodoxia marxista ao perceber que a guerra imperialista poderia ser interessante para os propósitos socialistas. Influenciado por doutrinas de esquerda heterodoxas, como o sindicalismo de Georges Sorrel, percebeu que combater o conceito de nação era contraproducente e que algumas ideias populares, ainda que míticas, poderiam ser servir de força motriz para movimentar as massas. Usando de pragmatismo, também percebeu que o Estado jamais seria derrubado e que o capitalismo, em vez de destruído, poderia ser controlado pelo governo, o que era muito mais viável. Assim, surgiu o fascismo italiano.

3) Nazismo e fascismo foram movimentos antiliberais (em economia) e progressistas (em política) desde sua origem e não é de hoje que intelectuais de renome perceberam as relações íntimas entre esses dois movimentos e o socialismo marxista. Dentre mais antigos e mais novos autores, podemos citar autores do calibre de Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Murray Rothbard, Friedrich Hayek, Hannah Arendt, Ernest Nolte, Joachim Fest, Anthony James Gregor, Helmut Fleicher, Klaus Hildebrand, Andreas Hillgruber, Rainer Zitelmann, Hagen Schulze, Thomas Nipperdey, Imanuel Geiss, Robert Gellately, Richard Overy, Jonah Goldberg, Erik Norling, Zeev Sternhell, Mario Sznajder, Maia Asheri, Erwin Robertson e etc.

4) Winston Churchill (primeiro ministro britânico entre os anos de 1940-1945 e 1951-1955) foi um dos maiores conservadores políticos do mundo. E também foi um dos mais ferrenhos opositores ao fascismo e o nazismo.

5) Marx e Engels defendiam o armamento do proletariado para derrubar a burguesia. Após chegarem ao poder, os ditadores marxistas se empenharam em desarmar seus povos. O regime militar no Brasil não desarmou a população.

6) O islamismo já surgiu, nos anos 600, como uma religião de guerra, que prevê o domínio mundial por meios bélicos. Se difere em sua raiz, portanto, do cristianismo, que surgiu e se expandiu como um movimento pacifico, e também do judaísmo, que surgiu num contexto histórico de guerras, porém jamais teve pretensões de dominação mundial e imposição de sua teocracia em todos os países. O que o islamismo faz hoje através de seus governos teocráticos e seus grupos extremistas é apenas continuação do que se iniciou nos anos 600. Toda a historia do islamismo, desde o inicio, é uma historia dr invasões e dominações.

7) A escravidão foi comum no mundo inteiro por milênios e, na maior parte desses milênios nada tinha a ver com cor de pele. Foram os princípios judaico-cristãos que começaram a humanizar gradualmente os escravos ao longo dos séculos até chegar o momento em que vários setores da sociedade começaram a clamar pelo fim da prática. Em geral, os países que mais tempo praticaram a escravidão foram os não-cristãos. Quando os europeus iniciaram expedições marítimas, tribos africanas que mantinham a prática em voga passaram a vender seus escravos de guerra aos navegantes da Europa. O resultado foi o incremento da escravidão em terras cristãs. E, uma vez que esses escravos comercializados eram negros, tornou comum no ocidente identificar escravidão à etnia africana e a cor negra. O racismo surge por conta disso e é algo novo na história do mundo.

8) O cristianismo foi o grande responsável pelo avanço da ciência e da filosofia no mundo, pois popularizou o pressuposto de que um Deus racional criou leis fixas pelas quais a natureza funciona. Não fosse pelo cristianismo, o mundo provavelmente permaneceria trilhando pelas crendices politeístas irracionais, nas quais elementos da natureza como o sol, a lua, a chuva, os mares e etc. eram deuses ou atendiam aos desejos arbitrários de deuses. Lembre-se que Sócrates procurou estabelecer o mesmo pressuposto séculos antes e acabou sendo condenado. O mundo pagão não era muito racional.

9) O Brasil não passou apenas pelo golpe de 1964. Antes dele houve o golpe de 1937, dado por Getúlio Vargas, que se tornou um ditador, implementou censura, criou um Estado policial e perseguiu opositores. Antes ainda, houve o golpe militar de 1889, que derrubou a monarquia de maneira de maneira ilegítima, inciando uma república instável, corrupta e repleta de microgolpes. A República brasileira, desde sua concepção, é ilegítima.

10) Em 1964, a maioria dos grupos políticos, tanto de direita, quanto de esquerda, não tinham muito apreço pela resolução dos problemas dentro da normalidade instituicional. Seguindo a cultura brasileira de golpes e autoritarismo que nasceu com a República, os grupos que se opunham apenas esperavam uma brecha para implementar seu próprio projeto autoritário de governo. Em um contexto de plena guerra fria, a URSS tinha claro interesse em transformar o Brasil num país comunista (o maior das Américas), bem como os EUA tinham o claro interesse em não permitir isso. Os militares que forçaram a saída de João Goulart em 1964 impediram um muito possível e provável avanço dos comunistas neste projeto de poder. Mas também iniciaram um regime militar desnecessário e que traiu muitos dos que apoiaram a intervenção como solução cirúrgica.

11) Apesar de ter sido autoritário, o regime militar não possuiu características plenas de ditadura. Seu modelo foi um híbrido entre democracia e ditadura, um tanto brando quando comparado às ditaduras comunistas e à ditaduras mais à direita, como a chilena, de Pinochet. Não houve um ditador supremo, mas cinco presidentes, cada qual cumprindo o seu mandato. Cada um dos cinco possuía visões distintas, sendo dois de linha dura e três favoráveis à reabertura democrática. Os dois últimos deram contribuições para desmanchar o regime. Havia dois partidos: o do governo (ARENA) e o da oposição (MDB). Por algum tempo, houve eleições para governadores e foi comum o partido de oposição ao governo vencer. O governo não recolheu as armas dos cidadãos. O número de mortos pelo regime, durante 21 anos, gira em torno de 500 pessoas, das quais boa parte era composta de terroristas com projetos totalitários de poder.

12) Os regimes comunistas mataram, juntos, cerca de 100 milhões de pessoas durante o século XX, o que é amplamente reconhecido e documentado. Alguns países do Leste Europeu consideram os regimes comunistas tão totalitários e terríveis quantos os regimes fascistas e nazistas.

13) Há diversos fatos históricos comprovados sobre Jesus. Ele realmente existiu, foi um judeu, foi condenado a uma cruz, sua tumba foi encontrada vazia, diversas pessoas alegaram tê-lo visto, os primeiros cristãos acreditavam na ressurreição e os mártires cristãos morreram afirmando serem testemunhas do que pregavam. Tais fatos são históricos porque passam pelos testes comumente de historicidade comumente utilizados pelos historiadores, tais como: multiplicidade de fontes, multiplicidade e antiguidade de manuscritos, relatos com contextos detalhados, relatos que causaram prejuízos aos seus autores, comprovação em fontes não cristãs, comprovação de fontes inimigas, etc.

14) O Novo Testamento é o livro que mais possui documentos manuscritos antigos no mundo. São cerca de 5700 cópias. O segundo lugar pertence à obra Iliada, de Homero: cerca de 640 cópias. O Antigo Testamento possui cópias antigas preservadas que datam de até 300 anos antes de Cristo, bem como alguns fragmentos mais antigos. O que lemos em nossas Bíblias hoje é a mesma mensagem que os judeus liam no primeiro século (e antes, no caso do Antigo Testamento).

15) Os primeiros cristãos eram judeus e conversos gentios ao judaísmo que frequentavam sinagogas aos sábados e mantinham diversos hábitos judaicos. Pelo menos nas primeiras quatro décadas após a morte de Jesus, o cristianismo não era encarado como uma religião diferente, mas como uma vertente do judaísmo. O panorama mudou gradualmente e as primeiras separações mais sérias e evidentes ocorreram após o ano 70 d.C.

16) A Revolução Francesa matou cerca de 50 mil pessoas por repressão só entre os anos de 1793 e 1794, no chamado Período do Terror. Após muito sangue derramado, perversões públicas e instabilidade política, durante uma década, a Revolução terminou com a subida de Napoleão Bonaparte ao poder, muito mais poderoso do que os tradicionais absolutistas. A Revolução Francesa deu em nada, no fim das contas.

17) O capitalismo trouxe ao mundo uma riqueza jamais vista nos séculos passados, fazendo com que tanto pobres quanto ricos em diversas partes do mundo tivessem acesso aos mesmos produtos (embora os produtos dos ricos sejam melhores). Assim, podemos ver ricos e pobres com computador, internet, televisão, rádio, celular, chuveiro quente, água encanada, microondas, liquidificador, carro e, principalmente, alimento. Os níveis de miséria se reduziram drasticamente com o advento do capitalismo. E se ela persiste ainda hoje é justamente porque há lugares em que simplesmente não há capitalismo.

18) Os maiores capitalistas do mundo geralmente são anticapitalistas. Muitos deles alcançaram o lugar onde estão através não do livre mercado, mas de conchavos com o governo. Outros gozaram realmente do livre mercado e de suas capacidades empreendedoras, mas ao chegarem no topo, perceberam que não é mais conveniente defender essa liberdade econômica (pelo menos não para todos). Afinal, se eles chegaram ao topo, alguém pode chegar também e tirá-los de lá. Assim, esses bilionários frequentemente se convertem em “metacapitalistas”, homens que desejam Estados fortes, que controlem a economia e o mantenha no topo. Alguns desses, como George Soros, vão mais além, abraçando ideologias de esquerda e promovendo-as através de seus investimentos.

19) O primeiro movimento feminista, chamado também de primeira onda, era composto por muitas mulheres religiosas e conservadoras. Elas lutavam contra abusos e desejavam dignidade civil/humana. Aos poucos, o secularismo e o progressismo foi tomando conta do movimento e deixando de atender aos interesses de todas as mulheres, tornando-se meramente um braço da esquerda. Hoje o feminismo se converteu em uma caricatura feia e distorcida do que já foi e só mostra interesse em defender pautas de esquerda e mulheres de esquerda.

20) Não há evidência histórica de que o ser humano pode construir um paraíso na terra, varrendo toda imperfeição do interior dos seres humanos. Em milênios de história, a humanidade testemunhou uma constante e incessante imperfeição mundial e tudo permanece igual nos dias de hoje. A crença de que o progresso tecnológico, a razão e a aquisição de conhecimentos trariam também um progresso moral e um mundo cada vez mais perfeito continua a ser refutada todos os dias. Não há relação entre progresso científico, filosófico e tecnológico com o progresso moral. E se todos permanecem fadados à imperfeição, crer que imperfeitos trarão a perfeição é como crer em Papai Noel.

Conhecimento Econômico I: Geração de Riqueza

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Você sabe como o salário e a qualidade de vida dos trabalhadores aumenta? Qual é a fórmula, por exemplo, dos países com a melhor qualidade de vida do mundo? Você acha que é através de um governo que aprova leis aumentando o salário mínimo e dando mais garantias aos trabalhadores? Eu preciso te dizer que não é assim. Vou explicar resumidamente como funciona. Essa será a primeira de uma série de conhecimentos de economia que obtive lendo (não na faculdade, obviamente, já que não aprendo muita coisa útil lá).

Em primeiro lugar, você precisa ter em mente um fato básico: o estado natural do ser humano é a miséria. Por quê? Porque é preciso fazer algum trabalho para se ter as coisas. Isso não é novidade do mundo globalizado. Um primitivo homem de alguma tribo no interior da África há 4 mil anos precisava forjar sua lança e sair em busca de animais para caçar e terra nova para plantar. Alimento, roupa e objetos não se fazem sozinhos. É preciso produzi-los ou, no mínimo, se dispor a ir atrás deles.

Na medida em que as sociedades crescem, também cresce o número de coisas que precisamos e desejamos. E na medida em que as sociedades crescem, o que estava pronto na natureza passa a não ser mais suficiente para suprir o contingente de pessoas. Isso implica a necessidade de mais trabalho ou de um trabalho mais efetivo em produzir o suficiente para a demanda.

A evolução da sociedade não trará apenas novos tipos de produtos, mas também serviços. Isso porque naturalmente é mais fácil dividir as tarefas para diversas pessoas da sociedade do que cada um fazer tudo sozinho. Em vez de eu fazer minhas próprias roupas, móveis, utensílios e alimento, posso focar apenas em uma coisa e adquirir o restante através do trabalho de outras pessoas. Além do mais, nem todos os lugares são igualmente ricos em tudo (naturalmente falando). Daí se iniciarão as trocas. Eu produzo equipamentos de ferro. Você produz roupas de lã. Eu troco algum utensílio de ferro que você queira por alguma roupa que preciso ou desejo. As sociedades se desenvolverão desta maneira, com pessoas se especializando na produção de algum bem ou serviço e trocando com outras.

Em pouco tempo esse sistema se mostrará problemático por não oferecer um parâmetro único para valorar os produtos e serviços trocados. Quantas túnicas valem um boi? Quantos bois valem um camelo? Quantos camelos valem uma safra de milho? Quantas espigas de milho valem um boi? Confuso. É aí que surge uma das melhores invenções do mundo: o dinheiro.

O dinheiro é um símbolo. Ele em si não vale nada. É apenas um pedaço de metal (hoje em dia, um pedaço de papel). Seu valor está justamente no que ele simboliza: os produtos e serviços. A invenção é genial porque através dela é possível valorar todos os produtos e serviços com um denominador comum. Assim, o valor do boi não será mais medido em mil produtos e serviços diferentes. Será medido em um valor monetário. Isso facilita muito a vida, pois estabelecerá uma relação entre os preços de cada coisa. Por exemplo, eu não sei quantas espigas valem um boi. Mas se fixarmos que um boi vale cem moedas de prata e uma espiga vale uma moeda de prata, então eu sei que vendendo um boi eu compro cem espigas. Vendendo cem espigas, eu compro um boi. Se uma casa custa cem mil moedas de prata, eu sei que isso equivale a mil bois e a cem mil espigas de milho.

Percebe? Com os preços, é possível relacionar tudo. Além do mais, o dinheiro resolve uma limitação da negociação por trocas: no sistema de trocas, se eu quero algo seu, mas só posso trocar por algo que você não quer, que não tem valor para você, então nada feito. Mas com o dinheiro, qualquer troca é possível, já que de posse do meu dinheiro você pode comprar para si algo que eu não tenho para trocar. O dinheiro, portanto, dinamiza todo o sistema de troca de bens e serviços, tornando-o mais fácil, eficiente, justo e expansivo.

Acha que saí do assunto? Não saí. Tem a ver. Eu comecei dizendo que o ser humano é naturalmente miserável. Ele precisa fazer algo (trabalho) para sair dessa condição. Ou seja, ele precisa produzir riqueza. Riqueza não é dinheiro. Riqueza são produtos e serviços. O dinheiro é apenas um símbolo para esses produtos e serviços, um meio para valorá-los sob um denominador comum.

Aqui está o “x” da questão. Se dinheiro é só um símbolo, o aumento do dinheiro na sociedade sem o equivalente aumento de produtos e serviços não fará com que magicamente surjam mais produtos e serviços. Você aumentou o símbolo, não as coisas que o símbolo compra. Em outras palavras, não houve geração de riqueza.

Esse é um erro infantil, no sentido literal do termo. Toda criança pensa que se poderia resolver os problemas do mundo imprimindo mais dinheiro, cunhando mais moedas. Assim, elas pensam, todos poderiam comprar mais. O problema está justamente nisso: do que adianta ter o meio para comprar, mas não ter o próprio objeto disponível para compra?

O aumento de salário mínimo via canetada do governo não tem o poder de gerar riqueza, portanto. Se, por exemplo, pegarmos um país miserável e elevarmos os salários de todos para o que seria equivalente a 3 mil reais no Brasil hoje, o que ocorrerá é que diversas pequenas e medias empresas irão falir, haverão demissões em massa, os produtos e serviços serão vendidos mais caros, muitas pessoas migrarão para o trabalho informal (sem carteira assinada, ou o que o valha), sobrarão algumas poucas empresas grandes que dominarão o mercado consumidor e o mercado de trabalho, haverá menos concorrência entre empresas (pois sobrarão poucas) e o povo perderá muito de seu poder de escolha. Isso sem contar com o fato de que quando você cria dificuldades para empresários, os grandes tentarão comprar facilidades junto ao governo. Tudo isso com uma canetada do governo. Por quê? Porque obrigou-se muitos a pagarem o que não tinham.

O que se pode argumentar aqui é que aumento do salário pelo governo, embora não gere riqueza, corrige distorções. Ou seja, em uma economia em que se está produzindo bastante riqueza, o aumento do salário pelo governo iria impedir que empresas que possuem condição de pagar melhor, pagassem menos.

Este argumento é até plausível. Mas a verdade é que o fator primordial para o salário se elevar não são as canetas do governo. É sim a concorrência. Explico.

Na medida em que o governo não impõe muitas dificuldades ao empreendedorismo, a tendência e o surgimento de mais empresas. Com mais empresas, o trabalhador pouco a pouco ganhará mais opções de lugares para trabalhar, o que não o deixará refém de um emprego que lhe pague muito pouco. Essa maior flexibilidade para o trabalhador acarretará uma disputa, entre as empresas, pelos melhores funcionários. Sabendo que não conseguirão mantê-los pagando pouco, terão que elevar seus salários. Como a economia vai bem, eles poderão fazer isso, pois há riqueza suficiente gerada.

Ao mesmo tempo, o aumento de empresas forçará o preço dos produtos para baixo. Por duas razões: (1) a abundância e (2) a concorrência. Quanto mais fácil é achar algo no mercado, mais barato tende a ser, pois tem aos montes. E quanto mais empresas vendem determinado produto ou serviço, mais cada uma delas procurará não vender a um preço exorbitante e até procurar meios de baratear para ganhar da concorrência (ou, no mínimo, para não perder).

Com os produtos mais baratos, as pessoas poderão comprar mais, ter acesso à mais coisas que precisam e/ou desejam, viver melhor. Poderão, inclusive, buscar especialização e estudo que as tornarão profissionais mais valorizados; ou investir em um negócio, gerando mais empregos. Nos dois casos, ela estará contribuindo para a elevação de salário da sociedade, ou por aumentar o nível de instrução e especialização, ou por abrir mais uma empresa que forçará, por meio de concorrência, as demais a venderem mais barato e pagarem melhor seus funcionários. A concorrência tende a tornar as coisas mais justas, colocando preços e salários nos patamares convenientes à saúde da economia.

O resultado não é o fim da pobreza ou da desigualdade social, mas sim a elevação da qualidade de vida de pobres e ricos. Na verdade, a própria definição de pobre muda. O pobre passa a ter muito mais capacidade de aquisição de bens e serviços do que antes. Torna-se rico em relação ao passado. Os pobres passam a sê-lo apenas em relação aos mais ricos, mas terão a mesma dignidade de vida.

Marx acreditava que esses sistema, ao qual chamava de capitalismo, inevitavelmente formaria monopólios. Na sua visão, o crescimento das grandes empresas inviabilizaria a vida das pequenas e médias, pois elas conseguiriam vender mais barato. E assim as poucas grandes empresas que sobrassem iriam permanecer explorando os trabalhadores.

Há dois erros nesse pensamento. O primeiro é que Marx não previu que o aumento da complexidade social cria necessidades distintas. Por exemplo, um mercadinho pode vender as coisas um pouco mais caras num bairro, mas ser preferência daquele casal de velhinhos que não tem disposição para ir até o centro comercial da cidade. Pode ser preferência daquele indivíduo mais preguiçoso ou que possui menos tempo para se deslocar. O mercadinho pode contar com um produto local bom que não é vendido pelos mercados grandes. Pode haver nesse mercado um confeiteiro que faz bolos muito bons. O mercado pode se especializar em algum produto ou serviço distinto. Algumas pessoas podem preferi-lo por ser mais vazio. O bom atendimento pode ser um diferencial. Os preços podem não ser tão divergentes, não fazendo tanta diferença no final. E o salário dos funcionários (bem como o lucro dos donos) pode ser menor, o que reduz os custos e possibilita produtos mais baratos. Em suma, há muitas nuances. E, de fato, a história comprova que essas nuances fizeram a diferença, já que a concorrência, onde pôde operar, gerou mais empresas e elevou a qualidade de vida da sociedade.

O segundo erro de Marx foi não ter percebido que seu próprio argumento favorecia a ideia de concorrência. Ora, se as grandes empresas ganhariam a concorrência por venderem mais barato, isso é um benefício para o consumidor. Eis, aliás, uma questão curiosa: embora possa, à priori, parecer interessante aos patrões (do ponto de vista mercadológico) pagar os menores salários possíveis, esse tipo de sistema logo se mostra inviável. Afinal, se todos os trabalhadores forem miseráveis, quem comprará os produtos? Assim, a elevação de salários segue seu rumo natural numa economia de mercado, sem poder ser contida em conjunto, sob o risco de reduzir os lucros de todos e ocasionar falências.

Mas voltando à questão da concorrência, como Marx não trabalha com a noção da melhora natural da qualidade de vida das pessoas, não consegue prever que isso possibilita o surgimento de novos ricos e de empreendedores habilidosos. Ou seja, em um sistema de mercado livre (onde o governo não intervirá favorecendo uns é prejudicando outros), quem chega ao topo não está seguro para sempre no topo. A melhora da qualidade de vida da sociedade implica mais concorrência, criando um ciclo positivo.

A história mostrou que estás elucubrações não são apenas teóricas. De fato, esses sistema pós industrial baseado em divisão de tarefas, livre mercado e o bom e velho dinheiro (sistema que chamamos de capitalismo) tirou o ser humano de uma produção ínfima que não mais supria a demanda, para uma produção muito mais abundante. Isso gerou uma redução da miséria, uma elevação do padrão de vida e uma mobilidade social jamais antes vistas no mundo.

Agora, atenção: isso não é um argumento contra a existência de um salário mínimo estipulado pelo governo e garantias legais. É apenas a constatação de que as canetadas do governo não se constituem fator fundamental para a elevação dos salários e da qualidade de vida. Isso não impede a existência de argumentos à favor de determinado grau de intervenção governamental no sentido de coibir abusos. A limitação de horas de trabalho por dia e a garantia de um salário mínimo digno me parecem ideias legítimas. Por outro lado, é preciso entender que no mundo real nem sempre existem soluções plenamente satisfatórias para os problemas. Estipular um salário mínimo também pode implicar menor número de empregados, já que algumas empresas não suportarão o ônus. Para quem está desempregado e nada recebe, poder receber algo, ainda que abaixo do mínimo, seria interessante.

Ficamos então em um impasse: ou melhoramos a vida de quem já está empregado (via canetada do governo) e aumentamos o desemprego, ou reduzimos o desemprego e pioramos a vida dos empregados. Se escolhemos a primeira opção, podemos evitar que empresários maus explorem seus funcionários, mas também atrapalharemos a vida de empresários bons que não possuem condição de pagar muito. Se escolhermos a segunda, fica bem mais fácil conseguir emprego, mas abre-se possibilidade de trabalhos bastante exploradores.

Por outro prisma, também existe a possibilidade de que a redução do número de desempregados e o aumento do número de empresas torne os empregados mais disputados e valorizados, o que tenderá a elevar os preços por meio da pressão da concorrência. O contraponto é que essa elevação pode demorar algum tempo, o que manterá muitas pessoas em situação degradante. Mas há também outra nuance: a situação da maioria das pessoas antes do capitalismo era muito ruim. O capitalismo não tem como mudar tudo de uma hora para a outra.

Ficam as dúvidas: tentamos proibir explorações correndo o risco de atrasar o desenvolvimento e a consequente elevação da qualidade de vida? Ou deixamos a economia o mais livre possível, abrindo riscos de exploração, mas acelerando o processo de enriquecimento de todos? Há um modo de equilibrar as duas coisas? São perguntas difícies. Não há como negar que os primeiros estágios do capitalismo foram bem ruins. Mas não há como negar que os estágios anteriores ao capitalismo também eram igualmente ruins. Tampouco há como negar que os países com melhor qualidade de vida do mundo são os que possuem legislação trabalhista mais frouxa. Em muitos deles nem salário mínimo estipulado pelo governo há, como na Suíça. E então?

Como eu disse: não há solução plenamente satisfatória. Eu, Davi, procuraria uma espécie de equilíbrio. Trazendo a questão para o Brasil, creio que o maior entrave para a economia não é o atual salário mínimo estipulado pelo governo ou os direitos trabalhistas. O maior entrave está sim nos altos impostos e na excessiva burocracia e regulamentação para se abrir e manter negócios. É isso que dificulta a sobrevivência das empresas (sobretudo pequenas e médias), bem como a entrada de novos concorrentes no mercado. É por causa desse excesso de tributação, burocracia e regulamentação que o Brasil se encontra nas posições 118 e 122 nos rankings de liberdade economica (Economic Fredom) e facilidade de fazer negócios (Doing Business). Gerar empregos e riqueza assim é muito complicado.

Outro problema que a intervenção governamental traz é a manutenção de alguns monopólios estatais e a proteção de monopólios e oligopólios privados através de agencias reguladoras. Tais políticas tiram da sociedade a capacidade de gerar mais empresas, empregos, serviços, produtos, qualidade, concorrência. E os consumidores ficam à mercê dessas grandes empresas, com pouca ou nenhuma liberdade de escolha, se sujeitando a preços altos e qualidade péssima.

O governo também, por gastar demais, cria déficits que acabam sendo pagos por nós. E é o governo o grande responsável por criar inflação (algo que será abordado no Conhecimento II), que reduz nosso poder de compra. Ademais, os direitos trabalhistas atrapalham mais pelo modo como foram formulados do que propriamente pela sua existência. Por exemplo, o INSS e o FGTS são descontados obrigatoriamente do trabalhador, indo para o governo. O funcionário deveria ter o direito de escolher ter esse dinheiro descontado ou não, contribuir para a previdência ou não. A previdência, aliás, deveria funcionar de modo individual, onde cada um contribuiria para a sua própria e não para a de outros. Já que todos os direitos do trabalhador são o seu salário compartimentado, ele deveria poder fazer uso dele integralmente.

Atacando esses problemas, a economia se tornará muito saudável, não sendo necessário mexer nos direitos trabalhistas. Estes, por sua vez, se tornarão quase inócuos, já que o que faz a sociedade ficar rica não são as canetadas do governo. Se causarem algum problema, será muito pequeno, sendo logo compensado pelo rápido desenvolvimento do capitalismo. Se ajudarem a evitar abusos (ainda que não constituam o fator primordial para nosso desenvolvimento), saímos no lucro. Em todo o caso, o que fica claro aqui é: o que melhora a vida da sociedade é o capitalismo.

Sobre o marxismo heterodoxo (ou: o que alguns pretensos estudantes de história ignoram)

Este texto foi publicado originalmente no blog “Mundo Analista“. Também pode ser lido aqui.

keep-calm-e-vai-estudar-históriaQuando um conservador diz que ainda existe socialismo marxista hoje, sempre aparece algum sujeito para dizer: “Vá estudar história!”, como se o conservador estivesse dizendo uma grande baboseira do ponto de vista historiográfico e como se ele, o sujeito a proferir a imperativa frase, fosse um expert. É compreensível essa postura. Afinal, esses indivíduos acreditam que só existe um único marxismo: o marxismo ortodoxo. Mas por que pensam isso?

Pensam isso porque nunca leram obras como “Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism”, de Antony James Gregor, que explora o conceito de marxismo heterodoxo.

Pensam isso porque desconhecem as ideias de Georges Eugene Sorel, marxista heterodoxo que fundou as bases do chamado sindicalismo revolucionário. Entre suas ideias se encontra o conceito de exploração dos mitos políticos como força motriz para mobilizar o povo. Seu movimento influenciaria o pensamento de grandes ideólogos marxistas (como Antonio Gramsci, Walter Benjamin e José Carlos Mariategui) e também de Benito Mussolini, o qual, fora marxista ortodoxo durante muitos anos.

Pensam isso porque não tomaram conhecimento das bases da social-democracia e do trabalhismo, que pretendiam alcançar o socialismo através de reformas graduais dentro do próprio capitalismo.

Pensam isso porque não leram as obras do teórico marxista Antonio Gramsci, ou dos teóricos marxistas da Escola de Frankfurt, que fizeram releituras do marxismo, criaram novas estratégias e abordaram a necessidade do combate cultural para a tomada de poder pelos partidos socialistas.

Pensam isso porque não chegaram a estudar sobre a falibilidade prática de sistemas econômicos totalmente estatizados e as consequentes concessões feitas ao setor privado pelos dirigentes comunistas, a fim de conseguirem manter a economia de seus Estados. Não estudaram isso, tampouco estudaram que estes fatos já eram previstos e explicados, em parte, pelos estudos do economista Ludwig von Mises (na década de 1920) a respeito do cálculo econômico em sistemas socialistas. Esses estudos, aliás, continuaram sendo feitos pelo economista Friedrich Hayek, ganhador do Nobel de Economia em 1974 e autor do clássico livro “O Caminho da Servidão”, no qual explica com clareza porque o crescente controle da economia pelo Estado leva a sistemas políticos totalitários.

Pensam isso porque eles ignoram que a falibilidade do modelo econômico socialista contribuiu para reformulações na teoria marxista e a adoção de estratégias mais pragmáticas e gradualistas por parte dos novos pensadores e políticos marxistas.

Pensam isso porque não prestaram sequer atenção ao próprio “Manifesto do Partido Comunista”, em que Marx e Engels demonstram, no final, que em todos os países os comunistas estavam dispostos a colaborar até mesmo com capitalistas, se isso se mostrasse efetivo para os planos do partido no futuro. Ali estava a gênese do pragmatismo marxista e do surgimento de marxismos heterodoxos.

Acreditam esses indivíduos que nos mandam estudar história que o comunismo acabou juntamente com a URSS e que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, marxistas de todo o mundo se conformaram com o capitalismo, abandonaram todas as ligações com as ideias de Karl Marx e deixaram de lado qualquer pretensão de mudar o mundo. Esquecem-se (ou ignoram propositalmente) que os principais conceitos marxistas continuam sendo ensinados amplamente, como é o caso da luta de classes, da mais-valia, do materialismo dialético, do materialismo histórico, da sociedade dividida em superestrutura e infraestrutura, da religião como ópio do povo, da capacidade do ser humano de remodelar o mundo, do Estado como ferramenta para implementar as políticas da revolução proletária, do forte controle da economia pelo Estado e da centralização do poder nas mãos do proletariado (representados pelo Partido).

Os simples fatos de (1) não se falar mais em estatização completa da economia, (2) tolerar a existência de empresas privadas e (3) deixar de lado a utilização do mito de um estágio final do socialismo onde o Estado é superado, é entendido por esses sujeitos como prova irrefutável de que o socialismo marxista não existe mais. Tolice. O que isso na verdade mostra é que marxistas compreenderam que a estatização completa da economia é inviável e, ao mesmo tempo, desnecessária. Para quê estatizar tudo se o Estado pode controlar empresas privadas através de regulamentações, altos impostos, troca de favores com grandes empresas, proteção de cartéis, oposição ao livre mercado e grande poder de intervenção na economia? Para quê estatizar tudo se o Estado pode estatizar (ou manter estatizado) apenas aquilo que julgar mais importante? Para quê o Estado terá o trabalho de administrar tanta coisa, se é possível delegar essa função à empresas privadas sem prejuízo algum de seu plano de poder? Para quê estatizar tudo se o Estado pode contar com a existência de empresas privadas para resolver os problemas econômicos causados por sua ineficiência e corrupção?

Não é preciso estatizar tudo para conquistar o controle político e econômico que marxistas almejam para, supostamente, tornar a sociedade mais justa e igualitária. E isso, por mais heterodoxo que possa soar, encontra sua gênese no “Manifesto do Partido Comunista”. Lá Marx e Engels já falavam sobre o gradualismo. O controle político e econômico do Estado seria conquistado aos poucos. As empresas privadas não seriam todas destruídas ao mesmo tempo, mas conviveriam com o governo socialista por período indeterminado, sendo cada vez mais controladas pelo Estado e reduzidas em número, até que tudo passasse diretamente para as mãos dos dirigentes estatais. A diferença entre o marxista ortodoxo e o heterodoxo aqui é que o primeiro vê o controle direto do Estado sobre as empresas como uma necessidade, ao passo que o último crê que é possível e conveniente que parte do controle sobre as empresas seja indireto. Em outras palavras, é possível fazer uso do capital privado para benefício do Estado e da manutenção do poder.

Quando voltamos a Gramsci e lemos sobre suas estratégias para a manutenção do Partido no poder (inclusive dizendo que o Partido é o novo Princípe, de Maquiavel) e a transformação gradual da mentalidade do proletariado através da cultura, confirmamos o parágrafo acima e percebemos que o socialismo marxista ainda existe e tem sido implementado por diversos partidos, embora por meios mais gradualistas, pragmáticos e aparentemente despretensiosos. Uma vez que os sujeitos dos quais falamos nesse texto, não admitem a existência de heterodoxia no marxismo, zombam dos conservadores e olham para governos de orientação socialista como se não o fossem. O resultado se verá à longo prazo. Economias cada vez menos livres, crises econômicas e governos com poderes despóticos. Temos visto prévias desse cenário na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no próprio Brasil.

Obs.: O leitor mais atento certamente percebeu que as semelhanças entre o fascismo italiano de Benito Mussolini e o marxismo heterodoxo. Na verdade, é exatamente isso. O fascismo italiano é um tipo de marxismo heterodoxo. Suas raízes estão fincadas nas ideias do sindicalismo revolucionário de Sorel, que serviu de inspiração para que Mussolini remodelasse o marxismo que seguia. Mussolini percebeu o que os marxistas perceberiam em massa após a falência da URSS: que não era necessário estatizar toda a economia, destruir as empresas privadas e utilizar o mito do fim do Estado após a ditadura do proletariado. A diferença entre Mussolini e os marxistas heterodoxos atuais reside na escolha dos mitos políticos para empurrar o povo. O Duce italiano utilizou-se do nacionalismo e da guerra.

Algumas das obras que dão conta desta análise são: “Revolutionary Fascism”, de Erik Norling; “The birth of fascist ideology”, de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri; e o já citado “Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism”, de Antony James Gregor. Deixo como indicação alguns artigos sobre o tema:

Quando o Fascismo era de Esquerda
Tudo que você deveria saber sobre o Fascismo, mas não quer
O Fascismo nasce da Esquerda
Fascismo do Século XXI
O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

Uma admirável influência do Exército na educação física brasileira

Com a brilhante definição do imperador Marco Aurélio (2009, p.29) “… a finalidade dos seres racionais é obedecer à razão e a lei da cidade e constituição mais venerável”. Dito isto, nada é mais adequado ao domínio de si do que a própria alma ou razão. Segundo Aurélio (2009):

A razão e o método lógico são faculdades auto-suficientes para si e para as operações que lhes concernem. Partem, assim, do princípio que lhes é próprio e caminham a um fim preestabelecido; por isso tais atividades são denominadas “ações retas”, porque indicam a retidão do caminho (AURÉLIO, 2009, p. 69).

Tais retidões são os conteúdos enviados aos cidadãos-soldados (GARCIA, 2012), isto, por meio de uma escola ativa. Neto (1999) aponta a experimentação, o fazer para aprender, trabalho de campo e o exercício explicativo.

Os bons hábitos, provenientes da experiência são esperados pelos legislados, claro, se assim for um bom legislador já preconizava Aristóteles (1984). Pois aquele que cobra de seus cidadãos deve também proporcionar uma educação a partir dos bons hábitos. A experiência para Aristóteles é fundamental no momento das deliberações, pois, as tomadas de decisão certamente se apoiam nas experiências passadas. O educador físico certamente delibera na ocasião de treinar seu aluno, o quanto deve treinar, e experimentar tais e quais exercícios, e qual a medida exata. Essas são questões práticas que certamente são aperfeiçoadas pela própria prática e ajustadas pela razão. De maneira especial, a educação prática (ativa) por meio do movimento, da potência em ato é a grande característica educacional observada em Aristóteles. Não obstante, não é possível mensurar totalmente o impacto que Aristóteles exerce hoje em dia. Ainda assim, é possível perceber, interpretar e identificar claramente algumas de suas características em suas obras, mesmo que de forma especulativa (GARCIA, 2011).

No Exército, Neto (1999) expõe a mesma opinião de Aristóteles:

Como se pode observar, a Pedagogia militar privilegia algumas formas de transmissão de conhecimentos, como o “método” da demonstração, o “método” da ilustração e o “método” da exposição (NETO, 1999, p. 44).

Soeiro e Amorim (2001) destacam a participação do Exército brasileiro no treinamento dos atletas e nas representações do Estado brasileiro. A partir de 1920 na Antuérpia, o Brasil participou nas modalidades de: tiro, remo, saltos ornamentais, polo aquático e natação.

Na Antuérpia, Soeiro e Amorim (2001) destacam a atuação do Tenente Guilherme Paraense no qual ganha nossa primeira medalha de ouro nos jogos olímpicos. Apesar das dificuldades da época os atletas e grandes patriotas que eram nunca reclamaram. Após este feito, competições de tiro não demonstraram mais a glória de Guilherme Paraense. No pentatlo moderno composto de: salto a cavalo, tiro de pistola, esgrima de espada, natação e corrida, destaca-se que a maior parte dos atletas do pentatlo moderno brasileiro é de militares, em destaque cita-se: Capitão Ruy Pinto Duarte, capitão Tinoco Marques e o Tenente Nilton Gomes Rolim.

No atletismo Soeiro e Amorim (2001), mencionam o Sargento João Carlos de Oliveira, o João do Pulo, com duas medalhas de bronze: 1976 e 1980. O Soldado Arnaldo de Oliveira com bronze nos 400×100 em 1996, Ademar Ferreira da Silva ouro em 1952 e 1956 do qual cursou a Escola de Educação Física do Exército em 1957. No voleibol a utilização dos espaços e equipamentos do Exército foi fundamental para um treinamento de qualidade. Em destaque lembramos a participação de militares nas comissões técnicas do vôlei brasileiro. A exemplo do voleibol, o judô também se beneficiou das instalações do Exército Brasileiro e é hoje uma das grandes promessas no Brasil.

O Exército contribuiu e muito tem a contribuir à educação física brasileira. Hoje mais do que nunca precisamos de ordem, disciplina e respeito na escola. Uma educação de qualidade é uma educação responsável, técnica, conceitual, racional e empírica. Entre as melhores escolas do país estão as militares, e certamente que uma das opções honrosas de um ensino de qualidade é a instituição militar. Se um dia quisermos nos tornar uma potência esportiva, devemos voltar às origens, a caserna. Aprender com quem cuidou muito bem de nossa educação física, com quantidade e qualidade, com amor, dedicação ao corpo e a alma de uma nação.

Referências

ARISTÓTELES (II). Ética a Nicômaco – Seleção de textos de Jose Américo Motta Pessanha (traduções de) Vincenzo Cocco … (et al.). São Paulo: Abril Cultural, Os Pensadores 1984, 329p.

AURÉLIO, M. Meditações. Brasília: Editora Kiron, 2009.

GARCIA, A. B. Aristóteles nos manuais de história da educação. 1. Edição, São Paulo: Clube de Autores, 2011.

GARCIA, A. B. Educação Grega e Jogos Olímpicos: Período Clássico, Helenístico e Romano. Jundiaí, Paco Editorial: 2012.

NETO, A. F. A pedagogia no Exército e na escola: a educação física (1920-1945). Motrivivência. Ano XI, n. 13, Novembro de 1999.

SOEIRO, R. S. P, AMORIM, A. A. A participação da Escola de Educação Física do Exército nos jogos olímpicos da era moderna. Revista de Educação Física, n. 125, p. 13-19, 2001.

Publicado originalmente no MAC:

http://aliancacidada.wordpress.com/2012/10/25/uma-admiravel-influencia-do-exercito-na-educacao-fisica-brasileira/

Considerações sobre os termos Direita e Esquerda

Recentemente esse espaço tem sido palco de um embate à respeito dos termos Direita e Esquerda. Gostaria, então, de oferecer minha contribuição, focando nos problemas da Direita.

Introdução: História

Antes de começar a analisar o cenário contemporâneo, é necessário entender a origem da divisão, que remete à Revolução Francesa. O cenário, aqui, de pré-revolução, adota uma definição bastante simplista, que não apenas ignora muitos fatores, mas que por ser simplista facilita a campanha política e a definição de um inimigo. Atirar libelos quando se considera que todos os diferentes são um é muito mais fácil.

Com isso em mente, a divisão se deu de maneira tranquila: os revolucionários se sentariam à esquerda do rei, e os conservadores à direita. Pouco importaria que dentre os revolucionários houvesse das maiores divergências possíveis (burgueses liberais, anarquistas, socialistas), mas sua união era imprescindível para desbancar um Estado que era fortíssimo, não apenas pela autoridade que emanava de seu soberano, mas pela prosperidade de seu povo no momento histórico.

Aqui, discordo de Davi Caldas: os termos não se restringem às propostas de uma construção de um novo mundo, mas sim caracterizam a reação do antigo regime ao mundo novo. Essa reação não é desimportante para ser descartada, e é, em verdade, o momento que caracteriza maior diferença, maior separação ideológica e doutrinária, um momento realmente digno de separar a política em direita e esquerda.

Ambos liberais e socialistas da época beberam das mesmas fontes, dos libelos iluministas contra a ordem vigente. Ambos, durante a revolução, levantaram a mesma bandeira republicana, ambos bradavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, embora depois fosse descoberto que essas palavras, inicialmente vazias, se encheram de significados distintos que vieram a os separar logo após a Revolução. E enquanto os futuros antagonistas estavam unidos em torno de um ideal supostamente igual, os conservadores se amparavam nos escritos de Jean Bodin e Jacques Bossuet, no poder divino dos reis, na monarquia absolutista.

Pode-se dizer, então, que após Napoleão sedimentar a nova ordem liberal, a antiga direita desapareceria, e daria lugar a uma nova, à direita liberal influenciada por Adam Smith, John Locke, e a esquerda então seria monopolizada pelos socialistas. Nada mais errôneo. Os ideais do antigo regime ainda perduravam, e nos escritos de Joseph de Maistre e Louis de Bonald encontraram as forças para reagir e restaurar a monarquia hereditária. Os ideais revolucionários ainda não haviam se sedimentado a ponto de se considerarem dominantes: o status quo ainda era a monarquia absolutista, mesmo que algumas delas houvessem se apropriado de algumas noções do liberalismo econômico.

Frente a esse cenário, não há como negar que sim: a direita pode ser caracterizada como conservadora. E mesmo que se considere a divisão concernente apenas à criação de um novo regime, não há como negar as influências das reações conservadoras na criação desse novo regime.

1. Os Conservadores

Se houve um argumento que me satisfez quanto à divisão entre esquerda e direita, foi o argumento do otimismo/pessimismo antropológico. Esse argumento é bastante esclarecedor, mas leva a conclusões diferentes das proporcionadas por Davi Caldas.

Quando se divide a direita e a esquerda entre o pessimismo e o otimismo, respectivamente, exclui-se, de imediato, qualquer liberalismo clássico puro do campo da direita. Todo o liberalismo inglês e francês da época se pautou em um otimismo, e na menos otimista das hipóteses, na tabula rasa. O fato de a análise de Smith se utilizar do egoísmo humano para o equilíbrio da economia não parte do pressuposto de que o ser humano é egoísta por natureza, mas porque as circunstâncias do momento o levam a ser egoísta e isso, de algum modo, gera um equilíbrio. Sua análise era descritiva, não positiva. Dentre os iluministas mais aceitos pelos liberais de hoje predomina a noção de que não há natureza humana, e que a bondade ou a maldade se fazem pelas circunstâncias.

Frente a essa argumentação, pode-se dizer que então não há direita já que o debate político é pautado, geralmente, nas visões políticas de liberais ou socialistas. É verdade que a influência do tradicionalismo decaiu muito na política atual, mas o pensamento sobreviveu e continuou sendo desenvolvido. Os pensadores que se pautavam em um pessimismo continuaram a escrever, mesmo que ostracizados.

No início do século XX, na França, houve um levante conservador liderado por Charles Maurras. Pouco se parece com as ideias liberais, no entanto. Seu corporativismo rejeita totalmente o liberalismo (sendo anti-liberal), mas também nada se parece com o coletivismo marxista. Sua ideia de sociedade paira na ideia de corporação, muito semelhante à noção das corporações de ofício medievais: a sociedade, espontaneamente, cria corporações, entes coletivos, instituições, e essas são protegidas pelo Estado, que não só garante a existência das mesmas, mas o não conflito entre as mesmas e a representação das mesmas mediante o poder.

Aqui, aproveito para contrapor o colunista Rodrigo Viana: o conservadorismo antigo não é coletivista. A rejeição ao individualismo não faz com que a ideologia busque a supressão do mesmo. O pensamento conservador paira entre os dois, lembrando sempre a importância tanto da pessoa quanto de sua inserção em um meio social. Não existe no pensamento conservador um coletivo pelo qual se governa, não existe essa noção de “massa”. Existem diversos pequenos corpos coletivos autônomos que exigem representação, mas não um ente abstrato. O importante é a noção de Pessoa.

Além de Maurras, diversos outros pensadores construíram sobre as bases do antigo pensamento conservador, dentre eles o altamente rejeitado Julius Evola e o cada vez mais aceito Carl Schmitt. Todos são antiliberais, mas se encontram à direita no espectro político.

Mas nem só de autoritarismo é feita a direita conservadora, mas também de conservadores que se aproximaram de conceitos liberais. Edmund Burke é um grande exemplo.

É simplista também definir conservadores como pessoas que desejam manter o status quo. A conservação se refere muito mais a princípios civilizacionais e instituições políticas, e para isso muitas vezes podem ser exigidas reformas, até profundas. Não se deve perder de vista que por de trás de todo pensamento conservador há uma ideologia política, por mais moderada que possa ser.

Essa discussão se faz necessária não para excluir os liberais totalmente da direita, mas para mostrar que um pensamento que, mesmo pertencente à velha ordem, não pode ser excluído de uma classificação política da atualidade, principalmente quando volta a ganhar certo prestígio e a cada pouco mostra lampejos na política de hoje.

2. Os Liberais

Adotando a classificação conforme a visão da natureza humana, a impressão que surge é a de que liberais não pertencem à direita, logo devem estar à esquerda. Isso seria simplista.

O que ocorre é que os liberais de hoje não adotam um otimismo quanto à natureza humana, mesmo sendo essa a visão dos primeiros liberais. Outro aspecto é que, apesar de não serem tradicionalistas, muitos liberais de hoje seguem a linha de Edmund Burke, que é conservadora. A esmagadora maioria dos liberais de hoje não são liberais clássicos, mas sim liberais-conservadores. Não são adeptos de um exagerado humanismo, mas do liberalismo econômico investido de conservadorismo moral ou político.

A crença, agora, não é a de que o ser humano é necessariamente bom e por isso deve ser deixado livre, mas que a maldade do ser humano não qualifica um a estar em posição de poder sobre outro, impor sua visão de finalidade da humanidade sobre outros. A concorrência extrairia o bem geral da ganância humana. É por isso que os liberais hoje podem ser colocados na direita, diferentemente de outrora.

Pouco importa aqui se são reformadores.

3. O problema dos Fascistas

Os fascistas são o típico patinho feio. Ninguém os quer, por isso ninguém os aceita. Não colocarei, portanto minha visão pessoal sobre a posição dos mesmos no espectro, apenas traçarei algumas considerações.

O fascismo nasce do corporativismo medieval, revivido por Maurras, mas inverte sua lógica. Se a lógica corporativista é, através dos entes coletivos intermediários, evitar o Estado Total, em um modelo de baixo para cima (corporações surgem espontaneamente e são defendidas pelo Estado), o fascismo vê na ideia de corporação a realização do Estado Total: o Estado cria as corporações, único meio possível para exercício da vida pública. O modelo fascista é de cima para baixo.

Os fascistas também encontram bastante inspiração nos conservadores, apesar de essa admiração não costumar ser recíproca. Joseph de Maistre foi uma importante influência, apesar de ser fácil de perceber que, dentro de seu catolicismo radical (mesmo sendo autoritário), não aprovaria um culto ao deus Estado. O totalitarismo em muito difere das monarquias absolutistas de outrora, é muito mais abrangente e muito mais brutal.

Uma marca do pensamento fascista que o diferencia bastante do conservadorismo é seu apelo à massa. Ele busca uma redução do indivíduo frente ao Estado, uma verdadeira “demência espacial” frente à grandiosidade da nação e do coletivo. Não existe essa desvalorização do indivíduo em nenhuma corrente presente nem na esquerda e nem na direita.

A luta comum à da esquerda foi a luta contra o capitalismo internacional. Mesmo assim, o fascismo era uma doutrina anticomunista e, principalmente, antimarxista. Apesar do intervencionismo na economia, essa não é uma bandeira exclusiva da esquerda, sendo bastante presente nos conservadores.

4. O problema Nazista

Sim, diferente do que comumente se pensa, é necessário que se dedique um trecho somente aos nazistas. Definir o mesmo como um tipo de fascismo é extremamente simplista, já que dele muito se difere. São ideologias distintas, então focarei na diferenciação da mesma, o que para o intuito deste artigo será o suficiente.

Apesar de serem ambas totalitárias e nacionalistas, existe um aspecto primário que é essencial na distinção entre as duas: a noção de inimigo. O fascismo busca o exercício da exaltação da nação através da exaltação do Estado. O Estado é tudo, não o povo. O nazismo contém muito mais elementos que se referem ao povo e a supremacia de sua raça: possui o ódio aos judeus e estrangeiros como elemento determinante e necessário ao sucesso do pensamento.

O nazismo pouco se baseia no corporativismo medieval. Não é uma adaptação do mesmo ao mundo industrial. É a criação de uma sociedade inteiramente nova baseada na raça. Uma verdadeira anomalia política.

Outra diferença um pouco menos importante é econômica: o fascismo é intervencionista, enquanto o nazismo se tornou dirigista e planificador.

As alianças políticas nunca podem servir de base para definir a visão ideológica, apenas mostram colaborações de circunstância. Muitas vezes tentam pintar o nazismo como conservador por ter se aliado a conservadores. Mas conservadores foram os responsáveis pela Operação Valquíria. A Alemanha de Hitler se aliou aos soviéticos, e no momento seguinte esteve a atacá-la.

5. Conclusão

O objetivo não era esgotar o tema (até porque não se faz isso em um mero artigo de blog), mas oferecer algumas pontuações que julguei pertinentes e levantar alguns questionamentos a mais.

Não deixe que um professor comunista adote o seu filho

Artigo publicado originalmente no blog Homem Culto http://homemculto.wordpress.com

Para ler o artigo original, clique aqui http://homemculto.wordpress.com/video-da-passo-a-passo-como-professor-comunista-doutrina-seu-filho/

Você pode estar sendo vítima de doutrinação ideológica quando seu professor: 
denuncie  doutrinação para  

– Se desvia frequentemente da matéria objeto da disciplina para assuntos relacionados ao noticiário político ou internacional;

– Adota ou indica livros, publicações e autores identificados com determinada corrente ideológica;

– Impõe a leitura de textos que mostram apenas um dos lados de questões controvertidas;

– Exibe aos alunos obras de arte de conteúdo político-ideológico, submetendo-as à discussão em sala de aula, sem fornecer os instrumentos necessários à descompactação da mensagem veiculada e sem dar tempo aos alunos para refletir sobre o seu conteúdo;

– Ridiculariza gratuitamente ou desqualifica crenças religiosas ou convicções políticas;

– Ridiculariza, desqualifica ou difama personalidades históricas, políticas ou religiosas;

– Pressiona os alunos a expressar determinados pontos de vista em seus trabalhos;

– Alicia alunos para participar de manifestações, atos públicos, passeatas, etc.;

– Permite que a convicção política ou religiosa dos alunos interfira positiva ou negativamente em suas notas;

– Encaminha o debate de qualquer assunto controvertido para conclusões que necessariamente favoreçam os pontos de vista de determinada corrente de pensamento;

– não só não esconde, como divulga e faz propaganda de suas preferências e antipatias políticas e ideológicas;

– omite ou minimiza fatos desabonadores da corrente político-ideológica de sua preferência;

– transmite aos alunos a impressão de que o mundo da política se divide entre os “do bem” e os “do mal”;

– não admite a mera possibilidade de que o “outro lado” possa ter alguma razão;

– promove uma atmosfera de intimidação em sala de aula, não permitindo, ou desencorajando a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus;

– não impede que tal atmosfera seja criada pela ação de outros alunos;

– utiliza-se da função para propagar ideias e juízos de valor incompatíveis com os sentimentos morais e religiosos dos alunos, constrangendo-os por não partilharem das mesmas ideias e juízos.

O vídeo abaixo mostra a doutrinação feita em plena sala de aula por um professor comunista.

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Marxismo cultural na prática

A esquerda e seu modus operandi