Quem foi Juan Bautista Alberdi?

Juan Bautista Alberdi, o inspirador da Constituição argentina e um dos maiores pensadores argentinos, nasceu em Tucumán em 29 de agosto de 1810. Sua mãe, Doña Josefa Rosa de Aráoz, morreu no parto e o filho ficou ao cuidado do pai, Don Salvador Alberdi. Em 1816, enquanto iniciavam-se as atividades do Congresso de Tucumán, Alberdi ingressava à escola primária que havia fundado Manuel Belgrano. Aos onze anos perdeu seu pai, e seus irmão Felipe e Tránsita tomam conta dele e garantem que continue seus estudos em Buenos Aires.

Em 1824, com 14 anos, chegou a Buenos Aires e ingressou no Colegio de Ciencias Morales. Tinha como colegas Vicente Fidel López, Antonio Wilde e Miguel Cané -o pai do autor de Juvenilia- com quem começará uma profunda amizade. Alberdi não suportava o regime disciplinar do colégio, que incluia reclusões e castigos corporais, e pediu a seu irmão Felipe para lhe tirar de lá. Deixou momentaneamente os estudos formais, mas não a leitura de pensadores europeus. Enquanto trabalha como empregado em uma loja, lia apaixonadamente Rousseau, estudava música, compunha e dava concertos de guitarra, flauta e piano para seus amigos. Em 1831, retomou seus estudos, ingressou na Universidad de Buenos Aires no curso de Direito, mas não abandonou seus gostos musicais. Em 1832, escreveu seu primeiro livro: El espíritu de la música (O espírito da música). Buscando escapar um pouco da pesada atmosfera que imprimia o regime rosista ao ambiente intelectual de Buenos Aires, decidiu continuar seus estudos em Córdoba, onde se graduou Bacharel em Direito.

Em 1834, regressou à sua província e escreveu Memoria descriptiva de Tucumán (Memória descritiva de Tucumán). Seu irmão Felipe havia se convertido em um colaborador próximo do governador tucumano Alejandro Heredia e lhe solicitou uma carta de recomendação para que Juan Bautista pudesse apresentá-la a alguma personalidade influente de Buenos Aires. Pouco antes de chegar a Buenos Aires, Alberdi se dirigiu ao endereço indicado e ali o esperava o amigo de Heredia a quem lhe entregou a carta. Juan Facundo Quiroga leu o escrito e disse ao jovem tucumano que lhe conviria mais estudar nos Estados Unidos que em Buenos Aires e que ele estava disposto a pagar todos os gastos. Alberdi se entusiasmou com a ideia mas desistiu quando estava a ponto de zarpar. Poucos dias depois, em fevereiro de 1835, Facundo Quiroga morreu assassinado em Barranca Yaco, Córdoba, e Rosas assumia pela segunda vez o governo de Buenos Aires, desta vez com a soma do poder público.

Desde 1832, um grupo de jovens intelectuais vinha se reunindo na livraria de Marcos Sastre. Alberdi se incorporará a este grupo, composto, entre outros, por Juan María Gutiérrez e Esteban Echeverría, que fundará a 23 de agosto de 1835 o Salón Literario, um verdadeiro centro cultural e de difusão das novas ideias políticas, vinculadas ao romanticismo europeu.

Em 1837, Alberdi publicou uma de suas obras mais importantes, Fragmento Preliminar al estudio de Derecho (Fragmento Preliminar ao estudo de Direito), onde fazia um diagnóstico da situação nacional argentina e suas possíveis soluções. O texto foi duramente criticado pelos antirrosistas exilados em Montevideo porque, ainda que atacasse duramente o despotismo, não fazia nenhuma referência a Rosas.

Então, Alberdi alugava uma habitação junto a Juan María Gutiérrez na casa de Mariquita Sánchez de Thompson. Ali, no mesmo piano em que se interpretou pela primeira vez o hino, Alberdi compunha seus Minués Argentinos.

Durante este mesmo ano, iniciou no jornalismo com a publicação de La Moda, gazeta semanal de música, poesia, literatura e costumes. Apareceram 23 números e em seus artigos, Alberdi, que assinava com o pseudônimo de “Figarillo” tentando burlar a censura do rosismo, soltava frases como esta:

Os clamores cotidianos da tirania não poderão contra os progressos fatais da liberdade.

Em junho de 1838 junto a Esteban Echeverría e Juan María Gutiérrez funda a Asociación de la Joven Generación Argentina, seguindo o modelo das associações românticas e revolucionárias da Europa. Este grupo de intelectuais entrará para a história como a “Geração de 37”.

A mazorca, polícia secreta de Rosas, começou a vigiar de perto as atividades da associação e começou a perseguição. Alberdi optou por exilar-se no Uruguai, deixando em Buenos Aires um filho recém nascido e vários amores inconclusos.

Chegou em Montevideo em novembro de 1838. Ali se dedicou ao jornalismo político colaborando em diversas publicações antirrositas como El Grito Argentino e Muera Rosas. Deste período são também suas duas obras de teatro: La Revolución de Mayo (A Revolução de Maio) e El Gigante Amapolas (O Gigante Amapolas), uma sátira sobre Rosas e os caudilhos da guerra civil.

Em maio de 1843, partiu com Juan María Gutiérrez até Gênova mas com destino final a Paris, a meca de todos os românticos da época. Chegou a Paris em setembro e visitou o General San Martín com quem manteve duas prolongadas entrevistas. Ficou muito impressionado pela simplicidade e vitalidade do velho general, que o encheu de perguntas sobre a pátria.

A fins de 1843, decidiu retornar à América para radicar-se, como Sarmiento, no Chile. Em sua passada pelo Rio de Janeiro, tentou, sem resultados, uma entrevista com Rivadavia.

Alberdi viverá durante 17 anos no Chile, a maior parte do tempo em Valparaíso, onde trabalhará como advogado e exercerá o jornalismo. Em um de seus artigos publicado no El Comercio de Valparaíso dirá:

Os Estados Unidos não brigam por glórias nem louros, brigam por vantagens, buscam mercados e querem espaço no Sul. O princípio político dos Estados Unidos é expansivo e conquistador.

Ao inteirar-se do triunfo de Urquiza sobre Rosas na batalha de Caseros, em 3 de fevereiro de 1852, escreveu em poucas semanas de trabalho febril uma de suas obras mais importantes: Bases y puntos de partida para la organización política de la República Argentina (Bases e pontos de partida para a organização política da República Argentina), que publicou em maio deste mesmo ano no Chile e reeditou em julho acompanhando-a de um projeto de Constituição. Enviou-o a Urquiza, que lhe agradeceu nestes termos:

Seu bem pensado livro é, na minha opinião, um meio de cooperação importantíssimo. Não poderia ter sido escrito em melhor oportunidade.

A obra será uma das fontes da Constituição argentina sancionada em 1º de maio de 1853.

Enquanto Sarmiento havia abandonado o Chile para somar-se ao Ejército Grande de Urquiza, Alberdi permaneceu em Valparaíso, atento aos problemas argentinos. Sarmiento retornou em pouco tempo desiludido com Urquiza e acusando Alberdi de ser seu agente no Chile. Alberdi o qualificiou de “caudilho da pena” e “produto típico da América despovoada” e decidiu colaborar com o projeto da Confederação de Urquiza. O governo do Paraná (o argentino, não o brasileiro) o nomeou “Encarregado de negócios da Confederação Argentina” ante os governos da França, da Inglaterra, do Vaticano e da Espanha. Antes de partir para sua missão diplomática escreveu Sistema económico y rentístico de la Confederación Argentina (Sistema econômico e rentístico da Confederação Argentina) e De la integridad argentina bajo todos los gobiernos (Da integridade argentina sob todos os governos). Em ambos os ensaios defendia as teorias liberais de Adam Smith e David Ricardo e se opunha ao monopólio, ao trabalho parasitário, advogando por uma ordem que garantisse ao produtor o fruto de seus esforços e elevasse o nível de vida em geral.

Em 15 de abril de 1855, partiu finalmente para a Europa. Passou primeiro pelos Estados Unidos onde entrevistou o presidente Franklin Pierce. Depois foi a Londres, onde conheceu a rainha Vitória e, finalmente, Paris, onde se radicaria por 24 anos.

Em 1858, entrevistou-se na Espanha com a rainha Isabel II e conseguiu o reconhecimento da Confederação.

Em 17 de setembro de 1861, Mitre derrotava Urquiza em Pavón e colocava um fim ao projeto da Confederação. Alberdi foi despedido por Mitre de seu cargo e substituído por Mariano Balcarce.

A situação de Alberdi não podia ser pior. Eram devidos a ele dois anos de salário como embaixador e o novo governo negava-se a pagá-lo e muito menos a pagar sua viagem de volta. Comentou então:

O mitrismo é o rosismo com outra roupa.

Teve que permanecer em Paris. Sua única e escassa renda vinha do aluguel de uma propriedade no Chile.

Ao produzir-se a Guerra do Paraguai, propiciada e conduzida por Mitre, Alberdi, como José Hernández e Guido Spano, apoiou decididamente a causa paraguaia e acusou a Mitre de levar adiante uma “Guerra da Tríplice Infâmia” contra um povo progressista e moderno. Escreverá então:

Se é verdade que a civilização deste século tem por emblemas as linhas de navegação à vapor, os telégrafos elétricos, as fundições de metais, os estaleiros e docas, os ferro-carris , etc., os novos missioneiros de civilização saídos de Santiago del Estero, Catamarca, La Rioja, San Juan, etc., etc., não só não tem em seu lar estas peças de civilização para levar ao Paraguai, como também iriam conhecê-las pela primeira vez em sua vida no “país selvagem” de sua cruzada civilizadora.

Em 1872, sob a profunda impressão que lhe produziu a derrota paraguaia no conflito e suas sequelas na população do país irmão, escreveu El Crimen de la Guerra (O Crime da Guerra) onde diz:

Da guerra é nascido o governo militar que é governo da força em lugar da justiça e do direito como princípio de autoridade. Não podendo fazer com que o justo seja forte, se faz com que o forte seja justo.

Ao concluir-se o mandato de Mitre, em 1868, assumiu Sarmiento e as coisas não melhoraram para Alberdi, que seguiu postergando seu retorno. Não poderá fazê-lo até 1879 quando uma aliança entre Roca e Avellaneda lançou a candidatura de Alberdi a deputado nacional. Chegou a Buenos Aires em 16 de setembro deste ano. Pouco antes de se estabelecer teve uma recepção de honra na Universidade, em que foi aclamado pelos estudantes. Por estes dias, se entrevistou com o presidente Avellaneda e com o ministro do interior Domingo Faustino Sarmiento. Tudo parece indicar que o encontro foi cordial em em clima de reconciliação. O jornal El Nacional comentou:

Suas lutas tenazes e ardentes polêmicas eram as de dois enamorados por uma mesma dama, nada menos que a pátria.

Mas além destas grandes satisfações, Alberdi havia ganhado nestes anos inimigos poderosos como o General Mitre, que não perdoava sua campanha a favor do Paraguai e suas acusações de falsear a história e de comparar-se com San Martín e Belgrano, lançadas em sua obra Grandes y Pequeños Hombres del Plata (Grandes e Pequenos Homens do Prata).

Teve uma participação decisiva nos debates parlamentares sobre a Ley de Federalización de Buenos Aires, que deu finalmente uma Capital Federal à República.

Quando o novo presidente eleito em 1880, Julio A. Roca quis que o Estado argentino publicasse as obras completas de Alberdi, Mitre lançou, desde as páginas do La Nación, uma feroz campanha contra o projeto que terminou por ser recusado pelos senadores que também recusaram sua nomeação como embaixador na França. Cansado e um tanto humilhado decidiu sair definitivamente do país. Partiu rumo à França em 3 de agosto de 1881 confessando a um amigo:

O que me aflige é a solidão.

Morreu em Nueilly-Sur-Seine, próximo a Paris, em 19 de junho
de 1884. Seus restos foram repatriados em 1889 e descansam no cemitério de la Recoleta.


Conteúdo original publicado em espanhol no El Historiador. Autoria de Felipe Pigna. Tradução e adaptação para o português por Renan Felipe dos Santos.  Para ler o conteúdo original, clique aqui.


Leitura recomendada:

Em português – A Onipotência do Estado é a Negação da Liberdade Individual
Em espanhol – El Crimen de la Guerra

O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.