China, salários e a Revolução Industrial

No lado ocidental do globo, incluindo nas terras brasileiras, há a disseminação da ideia (que possui um fundo realmente verdadeiro) de que a China e seu povo são sinônimos de baixos salários e produtos falsificados, de baixa qualidade. Os famosos produtos fabricados na China, os populares “made in China” são conhecidos por terem baixa qualidade e, ainda por cima – e para o temor dos protecionistas, defensores da “indústria nacional” -, serem baratos, tendo os preços baixos por, também, serem produzidos por uma população que recebe baixos salários.

Os motivos dessa situação de trabalho degradante e  baixos salários, assim como paralelos com situações parecidas de outros países no passado serão abordados neste presente artigo.

China: passado e atualidade

Não é muito difundida no Brasil uma triste porém importante parte do passado recente chinês, conhecida como Grande Salto para Frente, iniciado entre 1957 e 1958. Talvez, por motivos ideológicos, pois o Grande Salto para Frente simbolizou, na prática, um “Grande Salto para Trás”, o que vitimou dezenas de milhões de pessoas, tanto por questões de governos autoritários quanto pela fome generalizada que tal postura criou. Essa política foi idealizada por Mao Tsé-Tung, provavelmente o nome mais importante do socialismo chinês.

Mao, filho de camponeses, foi estudar em Changsha, que é a capital da província de Hunan. Lá, conheceu ideias ocidentais, principalmente as nacionalistas. Em 1911, Mao participou do exército da Revolução de Xinhai, de caráter nacionalista e contrária às dinastias chinesas, e em 1921 participou da fundação do Partido Comunista Chinês, se tornando o chefe do partido em 1945. Nacionalistas e comunistas se uniram (parcialmente) na Segunda Guerra Mundial contra o Japão, mas logo após o término da guerra ambos se enfrentaram em uma guerra civil, vencida pelos comunistas em 1949. O partido ainda está no poder atualmente.

Com Mao no poder, se iniciou um processo de coletivização de terras, assim como um rumo da sociedade ao socialismo, e talvez na forma mais brutal possível. Os latifundiários, representantes do “inimigo” na luta de classes, foram perseguidos, expurgados e até mesmo exterminados. Posteriormente, proprietários de terra, não necessariamente latifundiários, tiveram o mesmo destino, e suas terras foram “socializadas” entre a população. A mesma situação passou a ocorrer nas cidades, sendo que prisões e até mesmo execuções sumárias ocorriam, além de trabalho forçado em campos de concentração, que também podem ser descritos como “campos de morte”. A estatização das indústria se intensificou, assim como o número de mortos.

Então, Mao deu mais um passo em direção à centralização, e passou a ditar o que, como e quando deveriam plantar, ou até mesmo se a pessoa deveria trabalhar na agricultura ou na indústria, e o igualitarismo econômico foi levado ao pé da letra. Toda a produção nacional entrou em desequilíbrio, já que estava totalmente sob os caprichos de burocratas inescrupulosos do governo. Uma determinada intervenção estatal, conforme Ludwig von Mises demonstrou, desequilibra a economia em um determinado ponto. Assim sendo, em nome do “bem comum”, o governo novamente entra em ação, gerando um novo problema, e assim sucessivamente. Mao “se identificava” muito com essa ideia, tanto que envolveu a própria natureza para prová-la, só que involuntariamente. Em 1958, iniciou a Campanha das Quatro Pragas – ratos, moscas, mosquitos e pardais.

Os três primeiros fazem até sentido, mas por que pardais? Porque pardais se alimentam, entre outras coisas, de sementes de grãos, e a sociedade estava caminhando rumo à fome generalizada. Pequenos pardais se tornaram uma ameaça ao poderoso regime chinês, e foram exterminados – assim como a burguesia, afinal, ambos eram uma “ameaça” ao regime. Só que os pardais não se alimentam apenas de sementes. Também se alimentam de insetos que atacam plantações, como gafanhotos. O resultado, evidente, foi um aumento na população de gafanhotos, que atacaram com ainda mais intensidade as plantações, agravando ainda mais a fome. Essas políticas econômicas intervencionistas intensificaram a Grande Fome Chinesa, de 1958 a 1961, descrita ridiculamente pelo governo como “Os três anos de desastres naturais”. Só de fome foram dezenas de milhões de mortos, e isso sem contar aqueles assassinados pelo governo em seus campos de concentração – afinal, dentro da triste mentalidade daqueles que estavam no poder, se estiverem mortos não irão se alimentar, sobrando mais comida para os demais.

Em 1961, o governo permitiu certa importação de alimentos, e alguns camponeses puderam ter suas colheitas privadas e terras particulares, assim como alguns mercados. A repressão econômica arrefeceu um pouco, mas não a política, que perdurou com o totalitarismo para cima de diversos segmentos da sociedade. Isso, entretanto, pelo menos foi suficiente para amenizar (um pouco) o problema da fome. A situação foi melhorando gradualmente até 1976, ano da morte de Mao.

A mudança mais racional economicamente

No mesmo ano de 1976, após a morte de Mao, cresce Deng Xiaoping, nome de um homem que era próximo de Mao nos primeiros momentos da revolução e importante dentro do partido e do país (secretário-geral e vice-presidente, respectivamente). Perdeu o prestígio e passou a ser perseguido por ser mais pragmático (ou menos autoritário, no caso), o que incluiu até prisão domiciliar. Com a morte de Mao, Xiaoping consegue se tornar o novo líder em 1978.

Toda a abordagem sobre as políticas de Mao no presente artigo tem uma explicação: até meados do século passado, em um momento não (tão) distante, a China não era simplesmente um país pobre. Era um país em que dezenas de milhões de pessoas morriam por inanição, sendo milhões todos os anos. O PIB per capta chinês, em 1962, era de US$ 70. Ou seja, cada chinês produziu, em média, 70 dólares naquele ano, o que não dá nem US$ 6 por mês. O Brasil, em 1965, teve um PIB per capta de US$ 258, e a maioria dos países do Oeste Europeu, livres da União Soviética, possuíam no mínimo US$ 1 mil, contra metade dos soviéticos.

Com Deng Xiaoping, aberturas econômicas e diplomáticas abrem um novo caminho para a economia chinesa. O país em que milhões morriam de fome todos os anos estava mudando. Em 1978, o PIB per capta foi de US$ 155 (nominais), contra US$ 1.729 do Brasil, e os países do Oeste Europeu já estavam na casa dos US$ 10 mil. Com a possibilidade de criarem pequenos novos empreendimentos próprios, os chineses passam a experimentar um crescimento quase que exponencial. O detalhe é que essa transição ocorreu da maneira descentralizada, com os municípios tomando as rédeas, e não com o governo central dizendo o que deveria ser feito; ele apenas autorizava. O próprio Deng Xiaoping afirmava que não eram feitos do governo central.

Em 1988, dez anos depois, o PIB per capta chinês mais do que dobrou, indo para US$ 364. O do Brasil estava em US$ 2.270, e muitos países europeus já haviam passado da casa dos US$ 20 mil. Já em 1998, novamente passados dez anos, o PIB per capta chinês mais do que dobrou novamente, indo para US$ 817, enquanto o brasileiro estava em US$ 4.983 e as economias tradicionalmente mais liberais, como a americana, a britânica e a suíça, variando entre US$ 25 mil a US$ 38 mil dólares. Em 2008, o chinês já estava em US$ 3.404, o brasileiro, em US$ 8.721, e os países tradicionalmente liberais com mais de US$ 40 mil dólares, e com a Suíça com mais de US$ 60 mil.

Acumulação de capital e Revolução Industrial

Essas informações ajudam a entender a situação da sociedade no início da Revolução Industrial, parecida com a chinesa em muitos aspectos. O que é de conhecimento geral é que o padrão de vida da população britânica na época era muito ruim, principalmente se comparado com os padrões atuais. A divergência, por sua vez, existe no entendimento da situação: para alguns, é porque faltavam leis que forçassem que os donos das indústrias pagassem maiores salários, ou, na visão ainda mais socialista, porque o capitalismo é um sistema inerentemente explorador e que degrada a condição de vida do trabalhador.

Enxergar a situação assim é começar a “contar a história” pela metade. Primeiramente, a população britânica não desfrutava de um padrão de vida bom antes da Revolução Industrial. Logo, apenas com essa informação e com um pouco de raciocínio lógico já se pode desmistificar que foi a Revolução Industrial e o sistema capitalista que degradaram a vida da população, pois antes dos mesmos as condições sociais eram ainda piores, então, evidente que não podem ser culpados por isso.

Substanciando a argumentação, a expectativa de vida ao nascer no século XVI, antes da Revolução Industrial, girava em torno de 35 anos. Todavia, isso não quer dizer que as pessoas faleciam em torno de seus 35 anos de idade, pois a expectativa de vida ao nascer é uma média. Como havia uma alta mortalidade infantil, a média vai para baixo, pois ao mesmo tempo em que muitas crianças faleciam cedo, adultos passavam dos 60 e alguns até dos 80 anos. Na Grã-Bretanha medieval, a expectativa de vida daqueles que conseguiam chegar aos 21 anos de idade era de 64 anos.

Sobre as crianças, na época, a cada mil crianças nascidas, 140 não completavam nem sequer seu primeiro ano de vida e cerca de 30% das crianças britânicas não completavam nem 15 anos de idade. A maioria foi vítima de febres, gripes, pneumonias, disenteria e varíola, doenças que por vezes atingiam até mesmo nomes importantes das monarquias europeias vigentes.

Também ocorriam acidentes fatais envolvendo o trabalho. Sim, crianças já trabalhavam antes da Revolução Industrial. Geralmente começavam aos 8 anos de idade. Mas isso não acontecia porque “faltavam leis” ou porque os pais eram maldosos. Acontecia porque a produtividade era baixa, então bens e até mesmo alimentos por vezes se tornavam escassos, o que resultava em grandes ondas de fome generalizada ao redor de não só da Europa, mas diversos casos ao redor do globo no decorrer da história, incluindo o caso chinês acima – o detalhe é que no século XX não houve nenhum caso de fome generalizada em tempos de paz nos países que adotam a economia de mercado e que não costumam distorcer muito a mesma; o mesmo, infelizmente, não pode ser dito daqueles que adotaram sistemas econômicos altamente intervencionistas e estatizados. Se mesmo com as crianças ajudando no processo produtivo esses tristes fatos ocorriam, imagine sem elas. Todavia, felizmente, a situação melhorou.

É claro que a situação começa a melhorar quando a propriedade privada e a economia de mercado (e principalmente a de livre mercado) passam a ser utilizadas, com atividades voltadas ao lucro e com salários e preços regulados pela oferta e demanda. Evidente que são melhorias graduais, afinal, a economia de mercado é tão somente um reflexo da sociedade, composta por compradores e vendedores; a economia capitalista responde aos anseios, habilidades e outras características gerais dos indivíduos que a preenchem, como se fosse uma ferramenta pronta para ser usada para diversas situações. Quando, quanto e principalmente como será usada se torna um longo e complexo processo.

O que se vê acontecendo hoje na China é um processo parecido com o ocorrido nos países que lideraram o processo da Revolução Industrial. É claro que o modelo chinês apresenta um governo que provoca sérias distorções em sua economia – o uso de cimento para a construção de diversas instalações em apenas dois anos equivaleu ao uso de um século do mesmo produto pelos Estados Unidos, o ícone do consumismo que aterroriza a esquerda e os ambientalistas. Mas as mudanças que a economia chinesa enfrentou a partir da segunda metade do século XX já servem para desmistificar a alegação de que os salários sobem e/ou precisam subir com canetadas do governo.

Recentemente, os suíços rejeitaram nas urnas com 76% dos votos aquele que seria o maior salário mínimo do mundo, de CHF 22 (francos suíços) por hora, equivalente a R$ 54,58 na época, que totalizariam CHF 4 mil por mês, ou seja, quase R$ 10 mil por mês. A proposta, idealizada pelos sindicatos e por partidos de esquerda, tinha como objetivo fazer com que mais pessoas “tivessem uma vida digna”, distribuição de renda e igualitarismo econômico. De início, por exemplo, seria difícil a mesma rejeição ocorrer no Brasil, tendo em vista que o povo suíço, como demonstrado, entende muito mais de salários, desemprego e economia que o brasileiro: o principal argumento é que tal medida elevaria os custos de produção e desemprego. Ademais, atualmente a Suíça, assim como outros países europeus, não possui um salário mínimo aos moldes existentes no Brasil, por exemplo. Os salários são definidos em negociações entre empregadores e empregados, além de convenções coletivas. E, apesar da retórica de “exploração” da esquerda, nem 10% da população economicamente ativa recebe menos do que o salário proposto. Ou seja, mesmo sem uma política de salário mínimo, praticamente 90% dos trabalhadores já recebiam um salário superior ao proposto, e isso contando com o fato de a Suíça possuir um dos melhores padrões de vida do mundo e uma das mais sólidas economias europeias, diferente de países europeus mais assistencialistas, que, apesar de gastarem mais para a benesse de seu povo, estão um pouco longe de apresentarem os mesmos resultados que os suíços.

A formação dos salários é como a de um preço qualquer, analisando friamente. Claro que são utilizados para o consumo e que alimentam o sistema, mas sua formação é igual à remuneração de outros fatores de produção. Não há nada de mágico e/ou especial que possa fazer com que os salários estejam acima de seu preço de mercado sem causar problemas econômicos, mesmo com todos os apelos emocionais característicos da retórica marxista.

Quando um salário mínimo, que também é um preço, está sobreprecificado, ou seja, acima do seu nível de mercado, surge um problema de desemprego. Isso ocorre porque os custos aumentam, os empregadores ganham um incentivo para utilizar meios alternativos mais baratos do que contratar novos trabalhadores, e aqueles já empregados correm o risco de perderem o emprego em decorrência do aumento dos custos. O movimento natural de mercado seria a redução da demanda e aumento da oferta de trabalhadores, o que diminui os salários novamente, tornando-os atrativos. Todavia, como a nova legislação proíbe salários menores, os salários não cairão e surge um desequilíbrio, na forma de desemprego. Os suíços entendem isso, algo que os keynesianos não, pois “o aumento nos salários aumenta o consumo e revigora todo o sistema econômico…”

Sobre a China, graças ao aumento na produtividade, os aumentos nos salários estão ocorrendo. Ainda estão abaixo do Japão, economia muito mais pró-negócios e também o antigo representante dos produtos baratos oriundos da Ásia. Entretanto, estão aumentando, gradualmente, como a realidade econômica impõe.

Conclusão

Longe de defender o atual arranjo socioeconômico chinês, autoritário e que gera graves distorções. Porém, inegável que a flexibilização ocorrida nas últimas décadas possibilitou que aquele país que possui mais de 1 bilhão de pessoas pudesse galgar novos patamares para o padrão de vida de sua população.

Essa flexibilização demonstrou mais um caso claro de um país que vivia uma situação até mesmo pior do que aqueles que lideraram a Revolução Industrial nos séculos passados e que conseguiu melhorar. Com as mudanças e melhorias econômicas, os salários e o padrão de vida aumentaram, e é importante ressaltar essa ordem. Primeiro, houve mudanças econômicas, já que a economia passou a usar alguns princípios de mercado. Depois, com as melhorias econômicas, e só então, surgem os aumentos salariais. Mudar essa ordem no desenvolvimento econômico é, como no jargão popular, colocar a carroça na frente dos bois.

Infelizmente, o povo brasileiro carece de compreender esse fato. Em greves neste ano de 2014 houve casos em que os grevistas protestavam por reajustes de 30%, no mínimo. Tivesse o faturamento das empresas aumentado em 30%, ainda assim um reajuste de 30% seria algo questionável. Mas se a receita da empresa tem um aumento longe de 30%, qual a justificativa de um aumento dessa magnitude? Ou então o caso da greve dos engenheiros e arquitetos da prefeitura do Rio de Janeiro, em que pediam um aumento no piso salarial que já era de R$ 4.700, valor muito acima daquele que os pagadores de impostos que os sustentam recebem. Interessante essa noção de justiça social. O aumento dos salários por meio da redução dos lucros, dentro do raciocínio de luta de classes, é completamente justificável para os sindicatos. E o aumento dos salários que são pagos por meio dos impostos que os trabalhadores do setor privado pagam, e que muitas vezes recebem menos do que aqueles que ajudam a sustentar, também o são? Definitivamente, o povo brasileiro precisa aprender algumas coisas com o povo suíço.

A Guerra de Três Lados – Parte III

Não faz sentido dizer a um asiático que o início da Segunda Guerra Mundial é marcado pela invasão da Polônia. A Coréia foi anexada pelo Japão em 1910. ainda no governo do Imperador Meiji, continuando sob domínio japonês durante o Taishou e o Shouwa até sua independência em 1945. Os chineses viveram um período conturbado e cheio de conflitos desde o fim do Império Qing, sofrendo invasões soviéticas, tibetanas, japonesas, além de revoluções islâmicas e comunistas. De conflitos internos entre senhores da guerra a guerra civil, passando por invasões estrangeiras, movimentos emancipacionistas e revoluções islâmicas, tudo foi experimentado pelos chineses.

Faz sentido, portanto, retroceder um pouco no tempo e voltar para o início da década de 30, porque a República da China é reconhecida na história oficial como um dos Aliados na luta contra o Eixo (neste caso, o Japão) a partir de 1941. Porém, a China já enfrentava o Japão desde pelo menos 1931… foram os Aliados ocidentais que entraram no conflito 10 anos depois. E também porque outro reconhecido “Aliado”, a União Soviética, faz uma pontinha nesta história tanto se defendendo dos ataques japoneses quanto investindo contra os chineses.

Ásia I – China, Mongólia e União Soviética

1. Guerra Sino-Soviética – nacionalistas contra comunistas em uma das fronteiras mais instáveis da Ásia
Dois anos antes do Japão invadir a Manchúria, a China entrou em conflito com a União Soviética nesta mesma região, em 1929. Este conflito, mais especificamente entre a União Soviética e o senhor da guerra chinês Zhang Xuelian, ocorreu por causa de uma linha ferroviária de grande importância econômica na região, a Ferrovia Trans-Manchuriana.

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Quando os chineses confiscaram a Trans-Manchuriana em 1929, uma rápida intervenção militar soviética pôs fim à crise e forçou os chineses a aceitaram a restauração da administração conjunta da ferrovia.

2. Invasão de Xinjiang – rebeliões islâmicas, colaboracionistas e invasão soviética
A invasão soviética à Xingjiang foi uma campanha militar na região sudoeste da China, em 1934.

A sua raíz remonta à Revolta de Kumul. Nesta revolta, uigures realistas partidários do Khanato de Kumul – um feudo monárquico islâmico semi-autônomo dentro da extinta Dinastia Qing- lutavam para manter sua independência que estava ameaçada pelo governador provincial pró-soviético de Xinjiang, Jin Shuren, e seu sucessor também pró-soviético Sheng Shicai. Os rebeldes islâmicos foram apoiados em sua jihad pelo governo nacionalista chinês.

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Uma vez deposto Jin Shunren na batalha de Urumqi em 1933, seu sucessor Sheng Shicai manteve-se em confronto com os islâmicos buscando tomar o controle de Xinjiang, apoiado com tropas, tanques, aviões e artilharia soviética. No entanto, como a guerra parecia inconclusiva, a província de Xinjiang acabou sendo dividida em duas e um cessar-fogo foi acordado.

Outro conflito entre islâmicos apoiados por nacionalistas, o governo provincial pró-soviético e a União Soviética ocorreria ainda em 1937. Desta vez, com o regime pró-soviético de Sheng Shicai vitorioso, toda a província de Xinjiang caiu sob domínio soviético.

Posição Política de Xinjiang

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Muçulmano e senhor da guerra, o general Ma Zhongying liderou tropas muçulmanas contra o governo provincial de Xinjiang.

A província chinesa de Xinjiang foi um verdadeiro caldeirão de conflitos políticos. Nesta região, uma nascente república islâmica lutava por seu espaço: a República Islâmica do Turquestão Oriental. Somada a ela, outros islâmicos lutavam por sua autonomia, tanto com relação aos senhores da guerra, quanto com relação ao governo nacionalista chinês, quanto com relação à vizinha União Soviética.

Os islâmicos não possuíam alianças formais nem eram uma potência unificada, atuando como milícias pouco coesas e muitas vezes combatendo entre si. Do lado do governo nacionalista chinês, de certo modo, os senhores da guerra do clã Ma (Ma Bufang, Ma Zhongying, Ma Hushan, Ma Zhangcan) lograram uma cooperação entre os rebeldes islâmicos e o governo nacionalista chinês na luta contra os soviéticos e seus colaboradores chineses.

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Sheng Shicai, o governador provincial comunista de Xinjiang. Na prática, um fantoche do governo soviético.

O governador provincial pró-soviético, Jin Shuren, bem como seu sucessor Sheng Shicai, colocaram o destino desta região, gradualmente, nas mãos da União Soviética. Em seu governo despótico, as disputas étnicas por territórios acabaram se agravando. Para resolver seus problemas internos, Jin recorreu a um tratado ilegal com a União Soviética, obtendo deste país armamento para suprimir revoltas internas. Deposto, acabou preso pelo governo nacionalista chinês quando retornou à China, porém foi solto em breve.

Seu sucessor, o senhor da guerra Sheng Shicai, era um de seus subordinados antes de sua deposição. Responsável por reprimir a Revolta de Kumul, obteve o governo sobre a província de Xinjiang através de uma série de acordos ilegais com a União Soviética sendo o segundo no comando logo após o Consul soviético, que era o líder de facto. Xinjiang, na verdade, passou a ser um estado satélite soviético.

3. Invasão da Manchúria – O Japão ocupa o “pote de mel” da Ásia.
A invasão do Império Japonês à Manchúria, que era então uma província da República da China, começou em 19 de setembro de 1931 logo após o que ficou conhecido como “incidente de Mukden”. O Império Japonês instaurou aí um Estado-fantoche chamado Manchukuo, que se manteve ocupado pelo menos até o fim da Segunda Guerra. Devido a conflitos diplomáticos consequentes desta operação militar, o Japão se retirou da Liga das Nações.

Posição Política da Manchúria

Emperor Henry Pu Yi, Puppet Monarch
Puyi, o último herdeiro do Império Qing, reabilitado como imperador de Manchukuo.

Um terreno disputado historicamente pela Rússia, pela China e pelo Japão – devido a fartura em recursos minerais e importância estratégica, esta região viveu poucos momentos de paz no século XX.

Desde 1922, sua independência foi mantida pelo seu senhor da guerra Zhang Zuolin. Em 1928, no entanto, a província da Manchúria figurava entre as recentes conquistas do governo nacionalista de Chiang Kai-shek. Zhang Zuolin foi morto em um ataque a bomba – perpetrado pelos japoneses – que pretendia desestabilizar as relações políticas na região em favor do Japão, que invadiria  região em 1931.

Durante a ocupação japonesa da Manchúria, que durou de 1932 a 1945, um Estado-fantoche pró-japonês foi estabelecido. Sua forma de governo nominal era uma monarquia constitucional, embora na prática fosse uma ditadura de partido único liderada pelo Associação Concórdia, um partido nacionalista e monárquico. O líder nominal da nação, Puyi, era o último imperador do regime Qing derrubado em 1912. Na prática, funcionava como um território japonês dentro da Ásia continental, por onde as forças militares japonesas poderiam transitar e operar livremente, bem como explorar recursos naturais em benefício do Império Japonês.

4. Guerra Nipo-Soviética – Os japoneses se aventuram pela Sibéria e pela Mongólia

Antes da ocupação japonesa da Manchúria, a União Soviética havia entrado em conflito com a China nesta região. Após a ocupação japonesa da Manchúria, o Japão voltou seus interesses militares aos territórios soviéticos, e pequenos conflitos ocorreram na fronteira da Manchúria de 1932 até 1937. A Manchúria fazia fronteira com a Mongólia, um Estado-fantoche da União Soviética.

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A primeira grande Batalha, no entanto, foi a do Lago Xasan – que durou de julho a agosto de 1938 -, quando tropas de Manchukuo tentaram uma incursão militar em território soviético, sem sucesso.

A segunda foi a Batalha de Xalxin Gol, que durou de maio a setembro de 1939. Nesta segunda, a causa teria sido a penetração de uma unidade de cavalaria mongol em território manchu. Tropas manchus a fizeram recuar para além do rio Xalxin Gol, mas os mongóis retornaram em maior número. O conflito foi escalando, com o aumento de tropas japonesas, mongóis e soviéticas crescendo até que o conflito tomou grande proporção.

A vitória dos soviéticos e mongóis assegurou a integridade do território soviético e mongol da invasão japonesa e contribui significantemente para a mudança da estratégia do Império do Japão, que passou a priorizar ações no Sudeste Asiático e no Pacífico, em vez de tentar avanços pela Sibéria. A situação se normalizaria com o Pacto de Não-Agressão entre Japão e URSS de 1941.

Posição Política da Mongólia

Um país que viveu muito tempo sob tutela da China, a Mongólia só conseguiu obter sua independência quando o Império Qing ruiu em 1911. Mesmo assim, sua autonomia foi prontamente violada pela nascente República da China, que o ocupou de 1919 a 1921 até que uma revolução comunista, apoiada pelo Exército Vermelho soviético, instaurou um novo regime e fez dela a República Popular Mongol.

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Xorloogiin Choibalsan

Durante o período que vai de 1931 (ocupação japonesa da Manchúria) a 1941 (assinatura do pacto de não-agressão nipo-soviético), o país teve vários chefes de Estado, passando por Losolyn Laagan (1930-1932), Anandyn Amar (1932-1936), Dansranbilegiin Dogsom (1936-1939) e Gonchigiin Bumtsend (1940-1953). Amar e Dogsom não puderam reagir enquanto os soviéticos orquestravam os expurgos na Mongólia, que por fim alcançariam eles próprios, ambos condenados por crimes “contrarrevolucionários”, presos e executados.

Bumtsend não possuía já poder algum quando de sua eleição para o cargo, já que a maioria dos poderes haviam sido transferidos ao cargo de primeiro-ministro. Este foi ocupado de  1939 até 1952 por Xorloogiin Choibalsan, “o Stalin da Mongólia”, que logrou uma ascenção meteórica ao poder no país ao colaborar com o expurgo soviético que eliminou Amar e Dogsom, e foi também o responsável pela quase extinção do Budismo no país, bem como a perseguição de minorias étnicas como buriatos e cazaques, além de dissidentes políticos.

Não demoraria para a presença japonesa na Manchúria justificar a presença de tropas soviéticas no país, que passaria a ser um Estado-fantoche da URSS.

5. Segunda Guerra Sino-Japonesa
A Segunda Guerra Sino-Japonesa começa com a Invasão da Manchúria, mas não se limita a ela. O combate se intensificaria a partir de julho de 1937, quando tropas japonesas dominaram as cidades de Beijing e Tianjin no que ficou conhecido como o incidente da ponte Marco Polo.

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Apesar dos japoneses estarem relutantes, de início, em escalar o conflito da Manchúria para uma guerra total, Chiang Kai-shek – líder do governo nacionalista chinês – mobilizou rapidamente o exército e a força aérea do governo sob seu comando direto e atacou tropas marítimas japonesas em Shanghai (agosto de 1937), levando à Batalha de Shanghai – vencida pelos japoneses depois de três meses de combate extenuante e um grande número de baixas.

Os japoneses capturaram a capital do governo nacionalista, Nanjing (Nanquim) e Shanxi do Norte no final do mesmo ano de 1937. Neste processo ocorreu o que ficou conhecido como Massacre de Nanquim (ou Estupro de Nanquim). Com a sucessiva captura de Wuhan em 1938, o governo nacionalista mudaria então sua capital para Chongqing, que logo também seria alvo de ataques aéreos.

No início de 1939 a guerra entraria em nova fase com as derrotas japonesas inesperadas em Changsha e Guangxi, o que incentivaria uma contra-ofensiva chinesa – mal sucedida – em 1940. Devido à problemática administrativa dos territórios tomados, os japoneses optaram pela estratégia de criar governos fantoches nos territórios conquistados, o mais proeminente sendo o Governo Nacional Reorganizado da China. Todos eles eram extremamente impopulares e inefetivos, sendo o único sucesso político japonês na região o recrutamento de um grande exército colaboracionista para manter a segurança nas áreas ocupadas.

Em 1941, o Japão controlava a maior parte das áreas costeiras da China e do Vietnã, mas guerrilhas continuaram a operar nestas áreas, de modo similar ao que ocorria na França ocupada. Até esta época, antes da entrada dos Aliados na guerra contra o Japão, a China tinha que se contentar com parcos apoios soviéticos ou nazistas aos seus esforços de guerra, que chegavam tanto para o governo nacionalista quanto para milícias revolucionárias comunistas. Neste momento, o conflito entre nacionalistas e comunistas havia dado lugar a luta contra um inimigo comum, embora sem nenhuma cooperação.

Com a entrada dos Aliados no conflito contra o Japão, a China passa a fazer parte do Teatro de Operações China-Birmânia-Índia e consegue reverter a situação com o apoio anglo-americano: as tropas japonesas se renderiam antes mesmo de serem expulsas do continente, por causa do bombardeio atômico. A China se livrava do invasor japonês para então ver-se novamente mergulhada na guerra civil entre nacionalistas e comunistas.

Posição Política da China

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Chiang Kai-shek. Líder do Kuomintang, o partido “nacional-leninista” da República da China.

A República da China, fundada em 1912 quando uma revolução derrubou o Império Qing, era governada então pelo Partido Nacionalista (Kuomintang). Para estabelecer uma autoridade em todo o território chinês foi necessário derrubar um líder revolucionário com pretensões imperialistas (Yuan Shikai), bem como senhores da guerra hostis ao governo.

Estabelecido um governo central unificado e sediado em Nanquim, Chiang cortou relações com os comunistas e os expulsou do Partido Nacionalista. Desde então haveriam conflitos constantes entre o governo, nacionalista, e o Partido Comunista da China. Os conflitos escalariam para uma Guerra Civil entre comunistas e nacionalistas em 1927, interrompida para combater os invasores japoneses.

Mao
Mao Tsé-tung, o líder revolucionário comunista que derrubou o governo nacionalista e fundou a República Popular da China.

Apesar do nome, o governo chinês, obra de Sun Yat-sen, foi inspirado no modelo soviético e no leninismo, tendo o Partido como o centro da atividade política e a ditadura como modus operandi. Apesar de cooperar com a Alemanha intensivamente após a ascensão dos nacional-socialistas ao poder, a aliança do III Reich com o Japão em plena guerra sino-japonesa minou as relações do governo chinês com o governo alemão. Isto foi compensado com a colaboração americana e soviética nos esforços de guerra contra os japoneses.

Segundo a ideologia de Sun Yat-sen, era objetivo final do governo o estabelecimento de uma democracia, e foi isso que o Partido tentou: a Constituição promulgada em 1947 estipulava um sistema pluriparditário onde todos os partidos tivessem igual status, e o Exército Nacional Revolucionário – que era do Partido Nacionalista – foi devolvido ao controle civil como Exército da República da China.

Wang Jingwei
Wang Jingwei

Durante a ocupação japonesa, pelo menos quatro Estados-fantoche foram criados em territórios da China. Destes, um era Manchukuo (Manchúria), e outros três (Governo Reformado da República da China, Governo Provisório da República da China e Mengjiang) foram unificados no Governo Nacional Reorganizado da China (GNRC). O GNRC era nominalmente presidido pelo nacionalista Wang Jingwei, mas o poder era de fato exercido pelo comandante japonês das forças estacionadas na China.

A Guerra Civil Chinesa, reacendida logo após a expulsão do inimigo japonês, colocou o país sob um regime militar do Partido Nacionalista durante o “período de mobilização” (1947-1949). Neste período crítico, os nacionalistas perderam o poder da China continental para os comunistas e moveram-se para o Taiwan, que viveria sob lei marcial até 1991. A China continental, por sua vez, cairía sob as mãos dos comunistas e seria liderada pelo ditador Mao Zedong até 1976.


Comentário:

Estudar a posição da China no conflito nos dá a oportunidade de ver a complexidade das alianças na Segunda Guerra. O governo “nacional-leninista” chinês flertou com a Alemanha Nazista, a União Soviética e por fim recebou o apoio militar das democracias ocidentais (Inglaterra, Reino Unido, Austrália) para combater os japoneses. Mas não sem pagar o preço pela sua ambiguidade: dividido, o governo foi vitimado por secessões colaboracionistas tanto por parte dos comunistas pró-soviéticos como dos nacionalistas pró-japoneses, além de uma guerra civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista que culminaria com a divisão das “duas Chinas”. O resultado deste conflito interno perdura até hoje: a China continental comunista ou República Popular da China separou-se de facto  da China insular nacionalista (Taiwan) ou República da China.

Também é interessante notar a atuação da União Soviética. Apoiou o governo nacionalista chinês contra os japoneses, ao mesmo tempo que alimentava seus inimigos do Partido Comunista a ponto de transformar parte do território chinês em um Estado-fantoche. Através de um tratado de neutralidade com o Japão, reconheceu como legítimo o Estado-fantoche de Manchukuo (região ocupada na China), em troca do reconhecimento do seu próprio Estado-fantoche na Mongólia.


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