O romântico e o progressista

Tema frequente aqui no blog é a análise de disposições, mentalidades e ideologias políticas. Já dissertei aqui sobre os tipos de mentalidade política no que diz respeito à relação do projeto político com o tempo (passado/futuro) e o método de implementação (etapista/radical).

Também comentei aqui que, mesmo entre os esquerdistas, há sempre alguns reacionários. Gente que acha que é progressista, mas é mais retrógrada que aqueles profetas de rua. Expliquei que o que determina isso é a presença de elementos antiliberais e antimodernistas comuns nas ideologias de esquerda. Hoje explicarei mais detalhadamente a diferença entre os reacionários/passadistas (“românticos”) e os revolucionários/futuristas (“progressistas”) . Não abordarei aqui a visão de mundo conservadora, que deixarei para um próximo artigo.

I. O romântico
O reacionário (neste caso, o romântico), é alguém que idealiza o passado. Você encontrará este tipo de pessoa entre aquelas que pensam que décadas ou séculos atrás todo mundo tinha moral, bons costumes, era solidário, pensava na família, tinha o  suficiente para sustentar-se, etc. A visão de mundo funciona mais ou menos neste esquema:

Inocência
A Era de Ouro, um tempo remoto e obscuro perdido em algum lugar do passado, é a sociedade idealizada na cabeça do reacionário. A esta sociedade ele credita uma série de incontáveis qualidades como a pureza, a inocência, a moralidade, a solidariedade, o altruísmo, etc. Some-se a isso condições econômicas bucólicas e prósperas. Mas então veio a…

Decadência
A Era Moderna, quando todos os valores da Era de Ouro foram totalmente destruídos ou corrompidos pela malícia, pela perversidade, pela imoralidade, a ganância, o egoísmo, etc. Corresponde a atual situação econômica: processos de urbanização, privatização, formalização, aumento de imigração, sistema financeiro mais complexo, etc. O atual estado de corrupção, decadência e impureza chegará ao seu ápice e então virá a…

Redenção
O reestabelecimento da Era de Ouro, a recuperação dos valores passados tão almejados para o presente e o futuro. Um estado de plenitude onde todos estarão felizes, satisfeitos e desenvolverão ao máximo seus talentos e capacidades, como se supõe era antes da Decadência.

II. O progressista
A humanidade progride linearmente e a sua idealização da sociedade reside num futuro inevitável. Os que se opõem a sua visão de mundo podem, no máximo, tentar reduzir a marcha do progresso, mas não podem de forma alguma pará-lo por completo. O atual estado da sociedade é insuficiente para satisfazer as necessidades e os desejos da humanidade, e devemos lutar para chegar no próximo estágio a qualquer custo. O esquema de pensamento é mais ou menos assim:

Barbárie
O estado anterior era de miséria: econômica, moral, espiritual. A penúria era a regra e a iniquidade imperava. Vivendo em um ambiente hostil, o homem fez muitos sacrifícios para poder viver em segurança e liberdade e passou da ignorância à ciência através de muita observação. O estágio seguinte é a…

Civilização
O atual estado é de conforto: econômico, moral, espiritual. Mas este ainda não chega a todos. A tecnologia, a industrialização, a divisão do trabalho, levou o homem ao seu atual estado de desenvolvimento e à criação de suas cidades e ambientes urbanos. A cadência do progresso é ditada pela ciência e pelo trabalho duro, apesar dos esforços contra-produtivos de setores “reacionários” como “os oligarcas”, “a Igreja”, “os latifundiários”, etc. Porém, é inevitável que eles serão derrotados pela inexorável marcha do tempo que nos trará a…

Utopia
Um estado ideal de plenitude e realização econômica, moral e espiritual que atinge a todos na sociedade. Com o desenvolvimento da tecnologia e o espírito humano trabalhando em cooperação e solidariedade, será estabelecido o Paraíso terreno onde todos tem acesso a comida, roupa, automóvel, casa, carro, educação, serviço médico, diversão, etc. e onde todos são altruístas, solidários, amáveis e cooperativos.

III. Conclusão
Estes dois tipos de mentalidade política podem ser encontrados tanto na esquerda quanto na direita política, ao contrário do que supõem e de como rotulam os auto-declarados “de esquerda”. É necessário compreender estas visões de mundo antes de discutir ideologias e suas propostas políticas, pois são elas que fundamentam idéias mais complexas e específicas.


Leia também:

As cinco mentalidades políticas

Quando falamos de ideologias, mesmo que não especifiquemos qual, tendemos a usar alguns atributos para descrevê-las. “Revolucionário”, “conservador”, “reacionário”, “radical”, “moderado”, etc. Estas características inerentes de certas ideologias políticas antecedem-nas, e portanto podem ser usadas para traçar relações entre elas e entender como as ideologias se agrupam.  Primeiramente eu gostaria de esclarecer que não reconheço que o espectro político seja estanque, como uma linha reta: creio que há uma mobilidade grande dentro de um conjunto de matizes, mas que ainda assim tem suas limitações. Considero, por exemplo, que ideologias radicais e totalitárias não estão em extremos opostos mas sim compartilham características que permitem que agrupemos as mesmas num mesmo grupo, ou em grupos próximos.

Entender as diferentes mentalidades políticas é um passo para entender a base comum que compartilham certas ideologias. As cinco mentalidades que cito aqui são as mais básicas e mais facilmente identificáveis: reacionária, restauradora, conservadora, reformista, revolucionária. Eu poderia citar outras, mas como as outras duas que identifico (niilista e despótica) fogem dos esquemas ideológicos da política, optei por excluí-las deste artigo.

I. O reacionário ou passadista.
O que define um reacionário é a sua defesa de uma volta ao passado. Contudo, não é de um passado histórico registrado, documentado e compreensível que ele fala. O passado para um reacionário é uma coisa idealizada, uma golden age. O reacionário prega uma ruptura radical com o mundo moderno para implantar um novo modelo de sociedade baseado numa idealização do que foi uma civilização passada.

Por exemplo, os nacional-socialistas queriam estabelecer uma civilização germânica baseada naquilo que os socialistas alemães acreditavam ser o espírito do povo (Volk) alemão, como a organização da sociedade nos moldes militares do socialismo prussiano, as tradições germânicas e a religião pagã. No entanto, é uma falha típica do reacionário desconsiderar a cadeia de eventos que se sucedeu desde o fim da civilização que ele almeja restituir. Os nacional-socialistas, por exemplo, precisaram abrir mão do paganismo porque ele jamais poderia ser restituído entre os alemães. É simplesmente impossível reverter todos os eventos da história.

Dado o seu caráter de rompimento com o modelo de sociedade vigente, o reacionário é sempre, também, um revolucionário. O que difere o revolucionário de um reacionário é que o último pretende estabelecer, após a revolução, um modelo de sociedade que busca imitar (em grande parte) uma sociedade anterior, à qual ele credita uma aura de pureza e perfeição.

Exemplos de ideologias que decorrem da mentalidade reacionária são o nacional-socialismo, o anarco-primitivismo e ideologias teocráticas em geral.

II. O restaurador ou regressista.
O regressista, tal qual o reacionário, tem uma visão idealizada do passado, o qual ele pretende restaurar. Porém, o regressista não prega uma ruptura radical com a sociedade moderna, nem pretende retornar a esta golden age através da imposição violenta. O regressista acredita que é possível fazer isso por etapas, com um jogo político progressivo (aliás, regressivo) e que pode ser conduzido sem violência ou grandes choques para a população.

O regressista, diferente do reacionário, consegue estabelecer objetivos mais realistas porque pauta o seu programa político num passado histórico que pode ser conhecido quase que na totalidade pelos registros disponíveis. As suas fundações não estão perdidas em tempos longínquos ou reinterpretações do passado: ele consegue estabelecer um caminho de volta através do estudo de leis, políticas e tradições que foram outrora estabelecidas, revogando as leis modernas que vão na direção contrária das mesmas.

Exemplos de ideologias regressistas são o tradicionalismo, e, no Brasil, o monarquismo.

III. O conservador ou moderador.
O conservador defende que a sociedade em que vivemos deve ser conservada, preservada e protegida. Ele não acredita numa ruptura radical com o presente para arriscar um futuro utópico ou uma tentativa de restabelecer uma sociedade já extinta. O conservador acredita que as mudanças da sociedade devem ser feitas de maneira natural, lenta e gradual. Ele acredita que instituições lôngevas e que resistiram ao teste do tempo devem ser mantidas, pois tornam-se essenciais para a manutenção da sociedade. Por exemplo a moral religiosa, a família, a defesa dos mais necessitados. Toda e qualquer mudança que um conservador proponha tem o propósito único de corrigir aquilo que ele considera um desvio de rota, algo que possa destruir a sociedade vigente. 

O conservador nutre um profundo respeito pelo passado, pela história e pela tradição, mas não as idealiza ao ponto de querer parar ou retroceder as formas de governo. O conservador não despreza as inovações técnicas e científicas, mas também não acredita que exista uma medida exata do progresso, nem que uma melhoria material deva antepor-se à conservação de uma ordem moral duradoura. O conservador não acredita que a novidade seja uma qualidade em si, que o novo seja necessariamente melhor que o velho. Pelo contrário, acredita que o que já está estabelecido é certo e o que é novo é duvidoso, tendo o inovador portanto o ônus da prova de que sua proposta é melhor que a vigente. O conservador é sobretudo um cético.

Exemplos de ideologias conservadoras são o conservadorismo burkeano e o conservadorismo latino (ou continental).

IV. O reformador ou progressista.
O progressista, assim como o revolucionário, tem uma visão idealizada de um futuro que ele pretende tornar real. Porém, o progressista não prega uma ruptura radical com a sociedade moderna e não pretende instaurar esta nova sociedade pela violência. O progressista acredita que se deve construí-la em etapas, com avanços políticos progressivos e que podem ser conduzido sem grandes choques para a população.

O progressista, diferente do revolucionário, consegue estabelecer objetivos mais realistas porque pauta o seu programa político numa evolução histórica que pode ser inferida logicamente. Os seus objetivos não estão perdidos num futuro hipotético e surreal: ele consegue estabelecer um caminho através da implantação de leis, políticas e costumes que serão estabelecidas, atacando as leis e costumes que possam impedir este suposto progresso ou que ele julgue “reacionárias” (neste caso, regressistas ou conservadoras).

Exemplos de ideologias progressistas são o socialismo fabiano, o positivismo e a social-democracia.

V. O revolucionário ou futurista.
O que define um revolucionário é a sua defesa de uma ruptura com o passado e a instauração de um novo modelo de sociedade mais moderno, futurístico. Contudo, não é de um futuro previsível e realista que ele fala. O futuro para um revolucionário é uma coisa idealizada. O revolucionário prega uma ruptura radical com o mundo atual (“passadismo”) para implantar um novo modelo de sociedade baseado numa idealização do que a civilização deve ser.

Os comunistas, por exemplo, tentaram estabelecer uma sociedade socialista baseada naquilo que os bolcheviques acreditavam ser a melhor representação do socialismo marxista, com a organização da sociedade em moldes militares – formando verdadeiros exércitos de operários e camponeses, com a centralização de toda a Economia nas mãos do Estado, extinção da propriedade privada e abolição da religião. Porém, o erro típico do revolucionário é desconsiderar que muito daquilo que ele pretende destruir não só era um pilar da sociedade anterior como é também um princípio básico sobre o qual toda sociedade se sustenta. Ao extinguir a propriedade privada e tentar abolir a religião, os comunistas enfrentaram não só uma forte resistência como também desastrosas consequências econômicas que acabaram obrigando os comunistas não só a alinhar-se posteriormente com a Igreja Ortodoxa, como a implantar o NEP e, posteriormente, tentar emular o sistema de preços de mercados livres dentro de uma Economia planificada. Era simplesmente impossível manter o sistema econômico sem o sistema de precificação de mercado e simplesmente impossível planejar toda a Economia, e isto levou a sérios problemas que culminaram com a morte de dezenas de milhões de pessoas na URSS não só de fome, como também nos campos de trabalho escravo, agora necessários numa Economia planificada.

O que difere o revolucionário de um reacionário é que o primeiro pretende estabelecer, após a revolução, um modelo de sociedade completamente novo, planejado milimetricamente por seus proponentes, mas nunca antes testado.

Exemplos de ideologias revolucionárias são o socialismo (“marxismo”, “comunismo”) e o fascismo.

Cortar o tempo

Quem nunca ouviu coisas do tipo “o tempo cura tudo” ou “quando você tiver a minha idade vai entender o que estou falando”? Quem nunca tentou se confortar pensando “vamos dar tempo ao tempo”?

I. Tempo: uma tecnologia do pensar.
Vejamos o que diz a senhora Wikipédia sobre o tempo:

“O tempo é uma parte do sistema de medida usado para sequenciar eventos, comparar durações de eventos e intervalos entre eles, e quantificar graduações de mudança como o movimento de objetos. A posição temporal dos eventos com respeito ao presente transitório está continuamente mudando; eventos acontecem,  e então vão sendo cada vez mais empurrados para o passado. O tempo tem sido um grande objeto de estudo da religião, da filosofia, e da ciência. Defini-lo de uma maneira não-controversa e aplicável a todos os campos de estudo e tem iludido os maiores acadêmicos. Uma definição simples do tempo é “aquilo que o relógio mede”.

Minha opinião: o tempo não existe. Não da maneira como costumamos idealizá-lo. Aquilo a que chamamos tempo é a acumulação de eventos, ações e experiências que organizamos sequencialmente na nossa memória. Daquela definição simplória da Wikipédia podemos concluir que o cerne do tempo não é a sua transição ou a localização temporal, mas os eventos e os objetos.

Basicamente, inventamos as divisões discretas de tempo para organizar a nossa memória e planejar as nossas atividades. À medida que a vivência social do homem adquire um caráter cada vez mais complexo, com experiências e eventos cada vez mais sofisticados, ele precisa aumentar a sua capacidade de organização e precisão. Organizar é pensar, classificar, separar, discernir, quantificar.

É isso que fazemos quando medimos o “tempo”: organizamos na nossa memória os eventos na ordem em que eles acontecem, e planejamos os eventos na ordem e duração que queremos ou esperamos que aconteçam. Nosso raciocínio cronológico não difere muito do restante de nossas “tecnologias” como a aritmética ou a gramática: tem a função de organizar o pensamento e padronizar a vida em sociedade.

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente

– Carlos Drummond de Andrade

Quanto mais complexa é a vida social humana – ou seja, quanto mais numerosos e mais complexos sejam os eventos e objetos que a circundam – maior é a necessidade de organizar-se, maior é a necessidade por precisão. Não é à toa que de nudistas que contavam luas nos tornamos profissionais que medem o tempo em quartos de hora, minutos, segundos ou milésimos de segundo.

II. O presente não existe
Vivemos no passado. Oitenta milésimos de segundo, para ser mais preciso.[1]
As pessoas normais, pelo menos.

Pensamos em reação aos estímulos a que nosso corpo é exposto. Se estamos falando de sons, podemos falar do tempo decorrido entre a queda de uma árvore e o momento em que a onda sonora atinge o tímpano. Se estamos falando de visão, estamos falando do tempo decorrido entre o reflexo da luz sobre uma pedra e o momento que a onda-partícula da luz é percebida pelos nossos sensores ópticos. Se falamos de tato, estamos falando do tempo decorrido entre a excitação de nervos e a percepção pelo cérebro. Tudo isto leva um tempo. Soma-se o tempo do “processamento”. Até que o “input” gere um “output”, o agora já esmaeceu-se nos milésimos de segundo entre percepção, pensamento e reação.

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstrata. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: “Detém-te! És tão belo…!”, como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

-Jorge Luis Borges

O agora já passou. É inegável. Estamos numa eterna transição, seguindo o princípio da continuidade tão belamente descrito por Leibniz e que aterroriza os físicos sob o nome de “entropia”. Somos incapazes de deter um momento e chamá-lo de “agora”. Quando falamos do tempo presente, estamos implicitamente estabelecendo ou uma cadeia de causa-efeito imediata (“cheguei agora”) ou de uma determinada fatia do tempo (“o dia corrente, hoje”).

III. O futuro é uma hipótese

Compreendendo isso, podemos ampliar o escopo do nosso raciocínio para toda a História. Medimos o tempo para organizar nossas vidas, organizar o pensamento, organizar a memória. Na verdade, o que estamos organizando são eventos, eventos estes associados a ações ou paixões. Comemoramos o nosso nascimento, esperamos o recebimento do salário, planejamos comprar um carro, fazemos feriado no dia da Independência.

Quando falamos de futuro, estamos nos referindo a eventos e ações que planejamos ou esperamos que ocorram, não de um caminho pré-estabelecido e que pode ser seguido com segurança total sobre seus resultados. Não temos a capacidade de ver à frente no tempo: temos a capacidade de analisar eventos, e associar causas com efeitos. Assim, quando trabalhamos duro esperamos promoções, quando casamos planejamos ter filhos, quando há nuvens carregadas esperamos chuva, etc. O futuro, portanto, é uma hipótese: aquilo que pode acontecer, dependendo das ações que tomamos ou das circunstâncias que observamos hoje.

Estaremos rindo dos "carros do futuro" em 50 anos?

A falácia da “marcha inexorável da história” e o mito do progresso
O futuro não é algo fixo, determinado ou pré-estabelecido. Não é algo que possamos conhecer ou antever com certeza absoluta. Este foi e é o objeto de sedução da magia e de tantas religiões. Conhecer o futuro é dominar o mundo, é ser onipotente sobre o seu destino, é estar num patamar de segurança que nenhum humano jamais esteve. A obsessão de prever o futuro é o desejo primitivo do homem de fugir das responsabilidades, de evitar o risco, de fugir da tarefa árdua e extenuante da adaptação ao ambiente e da tomada de decisão. A obsessão com o futuro predeterminado explica porque é que tantas pessoas tem aversão aos juros e ao lucro: elas não entendem o que é tomar decisões baseando-se num futuro incerto.

A acumulação material e intelectual não pode ser feita sem um profundo respeito pelo que nossos antepassados obtiveram. Herdamos um passado e construímos sobre ele com base num futuro incerto, para acumular mais e legar isso para as gerações vindouras.

Este tipo de raciocínio, que encara o tempo como uma evolução linear necessariamente relacionada com avanços científicos, econômicos ou sociais, é típico de adeptos de ideologias radicalmente progressistas, como o futurismo fascista, o progressismo keynesiano, o socialismo marxista, o positivismo e o cientificismo. Ideologias assumidamente progressistas falham em resolver os conflitos humanos porque são incapazes de conciliar sua visão de mundo com o contexto em que estão inseridas: elas estão sempre “a frente de seu tempo”, e por isso se julgam acima da lei, dos bons costumes e da própria vida das pessoas. Para este tipo de mentalidade, os fins justificam os meios.

Via de regra, ideologias progressistas assumem um caráter profético: seus defensores sempre sabem o que acontecerá no futuro. Julgando-se portanto à frente de seu tempo, eles usam o discurso da vitória inevitável de seus ideais para angariar fiéis: “a marcha inexorável da história” provará que eles estão certos. Ou em palavras do ditador Fidel Castro: “a história me absolverá”.

Uma citação mais lógica é a de Churchill: “A história será gentil para mim, pois eu pretendo escrevê-la”. Este raciocínio expõe exatamente o que a História é: ação (no caso de Churchill, o ato de escrever). Não há um destino prefixado para o homem aqui na Terra, portanto ninguém pode ser o porta-voz do futuro. O futuro não será comunista, nem nazista, nem fascista. Não porque não é seu destino ser, mas porque só depende de nós impedir que o seja.

IV. O passado é a única coisa real a que podemos nos apegar

Já sabemos que mesmo aquilo que percebemos como “o agora” é apenas a percepção que temos do mundo como ele era a 80 milésimos de segundos atrás. Este ‘delay’ nos acompanha para a vida toda. Isto por si só já é uma realidade chocante para muitas pessoas, dadas as suas implicações sobre a maneira como pensamos a consciência e a liberdade.

A realidade é que não podemos construir absolutamente coisa alguma a partir do nada. Mesmo as linguagem mais elaboradas são construídas sobre bases muito simples e anteriores, e cuja explicação é desnecessária. Explicá-las é um insulto à inteligência. É como explicar o conceito de conceito, ensinar a aprender ou tentar explicar os conectivos lógicos mais simples como ‘e’ e ‘ou’: o entendimento dos mesmos já supõe o seu conhecimento de antemão.

Esta mesma condição afeta a todos os homens. Não só como indivíduos, mas em toda a relação entre gerações que constroem a longa cadeia de eventos que chamamos História. Em resumo, não podemos construir nada sem os recursos disponíveis hoje, que nos foram legados pelas gerações passadas. Do mesmo modo, não podemos pensar em absolutamente nada que já não tenha sido conhecido (mesmo que parcialmente) por nós a partir de experiências passadas: a leitura de filósofos da Antiguidade, a contemplação de uma paisagem, um sonho.

Quando falamos de política, de moralidade, de religião ou mesmo de ciência estamos discutindo justamente isso: nenhum tipo de ideologia que pregue uma ruptura radical com o passado pode ou deve ser levada a sério. Todas estas ideologias, sem exceção, se pautam elas próprias no passado que supõem condenar. A diferença entre as ideologias revolucionárias e as ideologias moderadas (conservadoras) é que as primeiras ou se baseiam numa idealização do passado (“golden age”) ou numa idealização do futuro enquanto as últimas se pautam somente na experiência, naquilo que já foi tentado, testado, provado pela resistência às intempéries da História. Resumindo, o moderado não troca o certo pelo duvidoso. O conservadorismo é o ceticismo aplicado à política.

Isto não significa que um conservador ou moderado vá se opor a toda e qualquer mudança no status quo. Implica que ele irá questionar, duvidar, criticar e por fim opor-se a qualquer proposta infundada.

V. Tempo vs. evento, paixão vs. ação.

O passado é memória, experiência, sabedoria, o fundamento da nossa vida. É o conhecimento organizado, acumulado por gerações e gerações e legado a nós. É a nossa fonte de conhecimento, o ‘input’.

O presente é o pensamento, a reflexão, a ponderação. É a tomada de decisão, a assunção de riscos, o cálculo, o movimento e a ação. É a contínua e infinita adaptação do homem à circunstância, e o seu domínio sobre as intempéries da Natureza.

O futuro é a consequência, o resultado, a conclusão esperada. O efeito do qual nossas ações são causa.  É o que queremos que seja, ou o que esperamos que seja. Esperar que seja é submeter-se às circunstâncias, é ser escravo das decisões alheias. Querer que seja, e não agir, é uma crença infundada no Destino. Querer que seja e fazê-lo ser a cada instante, na medida que o agora esvaece e acumula-se sobre o passado continuamente, é a única medida real que temos do progresso. O progresso não é futurista, e o futuro não é progressista.