Luiz Felipe Pondé, uma exceção no meio acadêmico nacional

Luiz Felipe Pondé é um filosofo conhecido por suas posições conservadoras e ensaios, tem doutorado pela USP e hoje é Vice-Diretor e Coordenador de Curso da Faculdade de Comunicação daFAAP; professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo(PUC-SP) e de Filosofia na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).

“Sem hipocrisia não há civilização, e isso é a prova de que somos desgraçados: precisamos da falta de caráter como cimento da vida coletiva.” Luiz Felipe Pondé

Semanalmente Ponde escrever para o jornal Folha de São Paulo, além de escrever diversos livros, como  O homem insuficiente: Comentários de Psicologia Pascaliana (2001) e Conhecimento na desgraça: Ensaio da Epistemologia Pascaliana (2004), Crítica e profecia: filosofia da religião em Dostoiévski (2003), Do pensamento no deserto: Ensaio de Filosofia, Telogia e Literatura (2009) e Contra um mundo melhor: Ensaios do Afeto (2010), O Catolicismo Hoje (2011), Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (2012). É co-autor do livro Por que virei a direita: Três intelectuais explicam sua opção pelo conservadorismo (2012).

Para você conhecer um pouco mais sobre Pondé segue o vídeo do programa Roda Viva da TV Cultura exibido em 2011

OBS: Eu particularmente gostei das partes que ele quebra o péssimo e fraco Paulo Moreira Leite

Faz Falta

Último sábado completaram-se 15 anos da morte de um dos maiores jornalistas brasileiros: Franz Paul Trannin da Matta Heilborn, ou simplesmente Paulo Francis.

Francis nasceu no Rio de Janeiro em 1930, e ganhou este pseudônimo em 1951 quando entrou para a escola de teatro de Carlos Magno, sob o pretexto de seu nome ser impronunciável no Brasil. Francis concordava, apesar de achar que seu novo pseudônimo parecia nome de bailarino de teatro revista.

Aos 27 anos já era crítico de Teatro do Diário Carioca, entrando assim no mundo jornalístico. Nesta época, era defensor fervoroso do brizolismo. Após o golpe de 64 foi um dos fundadores do semanário O Pasquim, que, segundo o próprio Francis, simplificou a linguagem do jornalismo brasileiro, além de trabalhar na Tribuna da Imprensa, onde difundia suas idéias trotskistas. Aliás, afirmava que o trotskismo era mais atraente do que o stalinismo, o marxismo e todas as outras ideologias de esquerda.

Com o cerco da ditadura militar, em 1971 Francis se exilou nos Estados Unidos, a partir daí começou a se afastar das idéias de esquerda e se tornou defensor ferrenho do capitalismo liberal. Francis percebeu que o monstro o qual criticava, funcionava de forma eficiente nos EUA. Suas visitas à URSS também contribuíram para sua mudança de postura, dizia só funcionar à base de polícia. Ao definir sua mudança ideológica, Francis proferiu uma de suas inúmeras frases de efeito:

Me transformei de criança a adulto.

A partir de 1980 se tornou comentarista das Organizações Globo, fruto de uma mudança de postura com relação ao então dono das organizações Roberto Marinho. No início Hélio Costa, então chefe de Francis, achou sem graça a forma como o jornalista fazia seus comentários, sendo assim Francis criou a projeção de voz pela qual se tornaria conhecido do grande público.

Em suas colunas nos grandes jornais, Francis sempre causava polêmica, seja criticando uma peça de teatro, seja criticando políticos e partidos. Aliás, críticas ao candidato Lula e ao PT foram a causa de sua briga com o então ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa.  O eleitorado petista enviou inúmeras cartas criticando Francis, que sempre achou uma piada Lula ser candidato à presidência de um país tão complicado como o Brasil. Caio Túlio comprou a briga dos petistas. Depois de longas réplicas e tréplicas, Caio chamou Francis de cronista, que revidou o chamando de lagartixa pré-histórica. E nas palavras de um amigo de Francis, Diogo Mainardi, o resultado desta disputa:

A Folha preferiu o atraso, preferiu a lagartixa pré-histórica ao Francis.

Depois deste acontecimento, Paulo Francis se mudou para o Estado de São Paulo.

Um de seus maiores sucessos, foi sem dúvida, sua participação no programa Manhattan Connection do GNT, ao lado de Lucas Mendes, Nelson Motta e Caio Blinder, com quem Francis tinha discussões  acaloradas em praticamente todos os programas. E mesmo quando não tinha razão, incrivelmente vencia a discussão, tamanha a diferença intelectual entre os dois. E foi por lá que ele nos brindou com suas melhores frases, e que causaram enormes polêmicas. Dentre elas, sua oposição ferrenha aos Clinton e seu apoio a Colin Powell.

Aliás, foi no Manhattan que Francis teve um de seus maiores problemas. Em 1996, declarou que diretores da Petrobrás tinham contas na Suíça. Dias depois os diretores da estatal entraram com um processo contra ele em Nova Iorque, e o pior, o processo era pago pela Petrobrás, e não por seus diretores. Francis ficou abalado, preocupado. O então Senador José Serra tentou intervir junto ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que deu ordens para que Rennó, o então presidente da estatal, retirasse o processo. Não retirou.

Há quem diga que foi o processo que matou Francis, de concreto foi um ataque cardíaco no dia 4 de fevereiro de 1997. Os sintomas eram tratados até então como bursite pelo médico pessoal do jornalista. O Brasil havia perdido um grande cidadão.

Cidadão apreciador de ópera, era fã de Wagner,  gostava de beber. Dizia que bebia para tornar as pessoas mais atraentes e parou de beber, segundo ele mesmo, porque passava vergonha quando bebia. Defensor ferrenho da legalização das drogas, dizia que maconha era inócua, e que o sujeito só se vicia em drogas se já estiver procurando algo para se afundar. Achava que cinema era algo sem importância nenhuma, nenhum filme chegava aos pés de um livro de Dostoievski. Dizia ser da opinião de Churchill:

Nas reuniões, todos devem discutir 40 minutos e no final concordarem comigo

Francis faz falta, ainda mais em uma época que o politicamente incorreto é quase um crime, que o jornalismo de opinião está morto. Faz falta alguém que não pense pela cartilha marxista, faz falta alguém verdadeiro, faz falta Paulo Francis.

Capitalismo Brasileiro?

Artigo publicado originalmente no Juventude Conservadora da UnB

Sérgio Malbergier, colunista do jornal Folha de S. Paulo, publicou hoje um artigo que, a bem da verdade, poderia estar no frontispício da página oficial do Partido dos Trabalhadores. Intitulado “Era PT”, o artigo tem como tese central que o PT foi o maior promotor do “capitalismo brasileiro”. Convém, entretanto, investigarmos um pouco melhor o que “capitalismo brasileiro” significa.

Capitalismo estatal: o monopólio é a nossa energia!

O capitalismo pode ser definido, grosso modo, como um sistema econômico, social e legal, com características mais ou menos uniformes, que se desenvolveu na civilização ocidental após o período conhecido como Idade Média. Podemos definir genericamente os valores basilares desse sistema como sendo a livre empresa, o gozo dos frutos de seu próprio trabalho, a liberdade (juntamente com a responsabilidade) individual, a proteção legal aos contratos e a atuação restrita, porém especializada, do Estado. O arcabouço dos valores responsáveis pela construção da civilização ocidental – alicerçados no cristianismo e na filosofia clássica – também foi resposável pelo surgimento desse modo de produção que, ao longo dos séculos, tem se desenvolvido de maneira progressiva.

Eike Batista, um dos exemplos de "capitalista brasileiro".

Em virtude de seu caráter amplo e do modo espontâneo com o qual desenvolveu-se ao longo da história humana, o termo “capitalismo brasileiro” me parece uma contradição em termos pois se trata de um fruto de todo um processo civilizatório complexo, e não das elucubrações de um punhado de intelectuais. Se não existe um “capitalismo norte-americano”, e sendo os Estados Unidos o maior exemplo de nação capitalista do mundo, não é possível falarmos de um “capitalismo brasileiro”.

Todavia, é possível que falemos, por exemplo, em “comunismo brasileiro”, ou “fascismo brasileiro”, ou “socialismo brasileiro” – assim como podemos falar em “comunismo soviético”, ou “fascismo alemão”, ou “socialismo norte-americano”. Os constructos ideológicos modernos, baseados como são em sistemas filosóficos deliberada e meticulosamente desenvolvidos para o atingimento de fins materiais determinados, possuem em seu próprio bojo um (pretenso) mecanismo de adaptação às realidades locais que objetiva infectá-las, sequestrar seu DNA e subvertê-las, como um retrovírus. O comunismo soviético e o comunismo chinês, apesar de serem irmãos, desenvolveram-se de modo peculiar em suas realidades específicas; ainda que possuam algumas características idênticas, diferem diametralmente em outros aspectos. Os fatores que propiciaram a revolução comunista nesses dois países são igualmente distintos, ainda que, em alguns pontos, semelhantes.

BNDES, sustentando o "capitalismo brasileiro" com verba pública.

Quanto ao capitalismo, entretanto, isso não acontece. Parece estranho dizer isso, mas o sucesso do sistema capitalista está baseado, seja no Brasil, seja na Inglaterra ou em Cingapura, nos mesmos parâmetros: garantias legais de execução de contratos, proteção à propriedade privada, livre empresa e atuação especializada do Estado. Em seu livro “Mistério do Capital”, o economista peruano Hernando de Soto demonstra, com estatísticas e levantamentos de toda sorte, exatamente isso. Os próprios Estados Unidos, com seu paulatino e firme desenvolvimento das garantias legais de propriedade e de liberdade econômica desde a era colonial, são exemplo claro disso.

Ao contrário do que o Sr. Malbergier diz, o PT não é responsável pelo sucesso do “capitalismo brasileiro” simplesmente porque não existe nenhum “capitalismo brasileiro”. Nossa exorbitante carga tributária, nossa arcaica legislação trabalhista (de caráter fundamentalmente fascista, inspirada na Carta de Lavoro do governo Mussolini), a sufocante burocracia necessária à abertura de uma pequena empresa, as relações promíscuas entre grandes corporações e o governo (Eike Batista que o diga), o tamanho mastodôntico da máquina pública, a grande quantidade de políticas públicas que objetivam a dependência da população ao governo, tudo isso pode ser chamado muito melhor de fascismo brasileiro, ou socialismo brasileiro, do que de “capitalismo brasileiro”.

De acordo com o Index of Economic Freedom da Heritage Foundation, que mede o nível de liberdade econômica no mundo inteiro, o Brasil está na posição nº 99 – atrás de países como Azerbaijão (91), Mongólia (81), Namíbia (76) e Botsuana (33). Na América Latina, está muito aquém do Chile (7º) ou do nosso vizinho Uruguai (29). O índice Economic Freedom of the World, do Fraser Institute, colocava o Brasil na 87ª posição em 2002; em 2009, estávamos na 102ª posição. Antes de pensar que essas medições nada têm que ver com o nosso “capitalismo brasileiro” – e a inestimável contribuição do PT para desenvolvê-lo –, que isso é coisa de organizações malévolas serviçais do capital especulativo ianque (e que estão nas mãos daquele 1% contra quem o Occupy Wall Street dizia lutar), vamos considerar algumas coisas.

Dos parâmetros utilizados na medição de liberdade econômica de um país, há aqueles diretamente relacionados com a dinâmica econômica – como legislação, tributação, etc. – e os que mantêm relação indireta com a economia. Um destes parâmetros é a corrupção. O critério que mede esse quesito no levantamento da Heritage Foundation chama-se “Liberdade de Corrupção” (Freedom From Corruption), e calcula, numa escala que varia de 0 a 100, quão livre da corrupção encontra-se um determinado país. No caso do Brasil, a nota é 37, o que o deixa na 70ª posição geral nesse quesito. Nesse ponto, concordo plenamente com o Sr. Malbergier: o Partido dos Trabalhadores teve contribuição crucial para o “capitalismo brasileiro”. A quantidade de escândalos que estouraram desde a eleição de Lula em 2002 foi um recorde histórico que tem sido orgulhosamente mantido pelo governo Dilma – sete ministros derrubados por malfeitos é um escore difícil de igualar.

Quanto a parâmetros diretamente relacionados com a economia, dois critérios importantes são “Liberdade Empresarial” (Business Freedom) e “Liberdade Laboral” (Labor Freedom); respectivamente, o Brasil encontra-se na 138ª e na 101ª posição referente a esses dois pontos. Para se abrir uma empresa no Brasil, são necessários aproximadamente 120 dias e uma quantidade obscena de papéis, taxas e que tais. Aliadas a um sistema tributário sufocante e altamente restritivo, essas características do “capitalismo brasileiro” empurram quase 50% da força de trabalho nacional para a informalidade. O montante final de ativos mortos – aqueles bens que não podem ser fungíveis, ou seja, não podem ser transformados em capital de fato – gerado a partir dessa situação é grotesco. Aqui também vemos uma preciosa contribuição do Partido dos Trabalhadores.

A respeito da relação intrínseca entre propriedade e liberdade, Richard Pipes diz: “Enquanto a propriedade, de certa forma, é possível sem liberdade, o contrário, por sua vez, é inconcebível.” Ainda que exista efetivamente um incremento de propriedade no fenômeno confusamente conceituado como “capitalismo brasileiro”, esse incremento não tem acontecido através da liberdade individual, mas à revelia dela. Vivendo em um país cujo governo pretende controlar a economia com precisão algorítmica e ser visto como o verdadeiro promotor do desenvolvimento humano, é quase impossível ver qualquer coisa que se assemelhe, ainda que ligeiramente, ao capitalismo. Melhor fosse chamar isso de “totalitarismo brasileiro”.

Leia o artigo original aqui.