Artista tcheco manda cumprimentos aos comunistas

David Černý é um artista tcheco conhecido pela sua rebeldia. Seu meio favorito de expressão é a escultura, e frequentemente opta por atacar nacionalistas e comunistas em suas intervenções. Algumas das suas obras são memoriais: sua obra Quo Vadis evoca as tentativas de fuga dos alemães orientais para a Alemanha Ocidental através da República Tcheca, representadas na obra como um Trabant (carro típico da Alemanha Oriental socialista) com pernas humanas.

Uma obra que lhe rendeu até prisão foi pintar de rosa um monumento nacional da República Tcheca: um tanque soviético que simbolizava a expulsão dos nazistas pelos soviéticos, mas que se tornou um símbolo de poder do governo comunista não menos totalitário que por décadas submeteu o país. A intervenção artística tornou o “monumento” até mais agradável:

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Mas agora nosso amado artista foi, digamos, um pouco menos sutil. Ele decidiu mandar seus cumprimentos ao governo tcheco e ao Partido Comunista instalando uma belíssima escultura sobre uma plataforma no rio Vltava bem em frente ao Castelo de Praga, a residência presidencial. O motivo, especula-se, sejam as próximas eleições onde se prevê uma participação social-democrata com apoio do Partido Comunista, que não tem participação política significante no país desde a Revolução de Veludo que derrubou o comunismo tcheco.

Vejam que maravilha:
Cerny Middlefinger

A Guerra de Três Lados – Parte I

Quando estudamos a Segunda Guerra Mundial, normalmente vemos tudo em preto e branco: de um lado estavam os Aliados (os caras legais) e do outro lado estava o Eixo (os caras maus). Entre os Aliados, conta-se supostamente que estavam “as democracias ocidentais” e os comunistas, ao passo que o Eixo era composto pelas “forças nazi-fascistas”. Mas a coisa não era bem assim. Pode-se muito bem não só dividir a Segunda Guerra Mundial em diversos conflitos (Guerra de Inverno, Guerra de Continuação, Segunda Guerra Sino-Japonesa, etc) como se pode analisá-la como um conjunto de conflitos envolvendo muito mais do que dois lados. E é isso que faremos nesta pequena série de artigos sobre a Segunda Guerra.

Primeiramente analisaremos os conflitos que compõem a Segunda Guerra Mundial, individualmente, atendo-nos a posição política dos envolvidos (foco nos que não são esclarecidos nas aulas de História). Depois, analisaremos as alianças e antagonismos estabelecidos antes e durante o conflito.

Conflitos Precedentes

A Segunda Guerra foi um conjunto de conflitos militares em escala global que, tradicionalmente, considera-se como tendo iniciado em 1939 com a invasão da Polônia pelo III Reich Alemão. Esta divisão, bastante discreta, não faz sentido para os chineses, por exemplo, que já estavam em guerra formal com o Império Japonês desde pelo menos 1931.

Alguns conflitos que antecederam a Segunda Guerra Mundial foram verdadeiros ensaios militares, tecnológicos e políticos para o conflito que viria. A batalha ideológica entre fascistas e socialistas já havia ensaiado alguns passos nas Guerras Civis Chinesa (1927-1950), Austríaca (1934) e Espanhola (1936-1939).

O poderio militar comunista já havia sido testado na Guerra Civil Russa (1917-1921), na Guerra Ucrano-Soviética (1917-1921), na Guerra Civil Finlandesa (1918), nas Guerras de Independência da Estônia (1918-1920) e da Letônia (1918-1920). O expansionismo soviético ainda avançaria sobre a Polônia (1920) antes da Segunda Guerra, contra a Geórgia (1921) e a China (1929).

O expansionismo fascista já havia sido posto em marcha na Segunda Guerra Ítalo-Etíope (1935-1936) e na Invasão da Manchúria (1931). São incontáveis também os conflitos coloniais ou emancipacionistas que envolveram potencias coloniais – como a França e a Inglaterra – na África e na Ásia.

Conflitos Concomitantes

A Segunda Guerra Mundial, na verdade, é uma sobreposição de diversos conflitos que iniciam e encerram em períodos diferentes. Alguns deles tem uma relação próxima, como a Guerra no Atlântico e a Batalha da Grã-Bretanha, outros nem tanto como a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Guerra de Inverno. Cada um destes conflitos envolve diferentes beligerantes, diferentes agentes políticos. Nesta primeira parte, abordaremos…

Europa I – Polônia, Finlândia e Países Bálticos

1. Invasão da Polônia – Uma joint venture bolchevo-nazista.

Polen, Siegesparade, Guderian, Kriwoschein
Parada militar germano-soviética em Brest-Litovsk, Polônia. 22 de setembro de 1939.

Foi a invasão da Polônia pelo III Reich Alemão, pela União Soviética e por um pequeno contingente eslovaco que marcou o início da Segunda Guerra na Europa. A invasão alemã começou em 1º de Setembro de 1939, uma semana após a assinatura do Pacto Ribbentrop-Molotov, enquanto a invasão soviética começou no dia 17 do mesmo mês. A campanha terminou no dia 6 de outubro de 1939, com o III Reich e a União Soviética dividindo e anexando toda a Polônia.

Posição política da Polônia

A Segunda República Polaca enfrentou a Rússia e a Ucrânia soviéticas entre 1919 e 1921, obtendo uma vitória limitada. O chefe de Estado, Józef Klemens Piłsudski, já havia lutado pela independência do país em 1918.

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Józef Klemens Piłsudski

As políticas territoriais e étnicas do governo polaco no período entreguerras contribuíram para as más relações com os vizinhos e para a difícil cooperação com centros de poder mais distantes como a França, a Inglaterra e a Liga das Nações.

 

Houve um curto período (1921-1926) de ordem constitucional e democracia parlamentar. Em maio de 1926, Piłsudski derrubou o governo e instaurou um regime autoritário, embora instituições e partidos políticos ainda funcionassem.  Ciente dos conflitos internos do país, a Polônia assinou tratados de não-agressão com a União Soviética (1932) e com o III Reich (1934).

Em 1939, o governo polonês recusou uma aliança com a Alemanha. Antes da guerra eclodir, entrou em aliança militar com a França e a Grã-Bretanha, que tentavam barrar o poder do III Reich. Andando no meio da pista, acabou atropelada pelos dois lados.

2. Guerra de Inverno – Os soviéticos tentam na Finlândia o que fizeram na Polônia.
Ocorreu entre a União Soviética e a Finlândia. O conflito começou com uma ofensiva soviética em 30 de novembro de 1939 – dois meses após a invasão soviética da Polônia – e terminou em 13 de março de 1940 com o Tratado de Paz de Moscou. Considerado ilegal pela Liga das Nações, esta invasão rendeu à União Soviética a expulsão da liga em 14 de dezembro do mesmo ano.

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3. Guerra de Continuação – Soviéticos revidam o ataque alemão e tentam, de quebra, ocupar a Finlândia.
Foi o segundo conflito armado ocorrido entre a União Soviética e a Finlândia durante a Segunda Guerra Mundial. A União Soviética o viu como parte de sua luta contra o III Reich e seus aliados, enquanto o III Reich via a operação na região como parte de seus esforços de guerra no front oriental, providenciando grande apoio material e cooperação militar à Finlândia.

Os atos de guerra entre recomeçaram em 22 de junho de 1941, dia que o III Reich lançou sua invasão à União Soviética. Operações finlandesas desfizeram as concessões pós-Guerra de Inverno à União Soviética. Os finlandeses pararam sua ofensiva a 30 km de Leningrado, na fronteira estabelecida entre União Soviética e Finlândia antes da Guerra de Inverno, mantendo seu território com as fronteiras estabelecidas como antes da Guerra de Inverno.

Em 1944, forças aéreas soviéticas conduziram raids em Helsinque e outras cinco grandes cidades finlandesas. Por fim, no verão de 1944, a ofensiva dos soviéticos removeu os finlandeses da maior parte do território que eles haviam recuperado. O Exército Finlandês lutou contra a ofensiva soviética até obter um armistício em julho de 1944. Um cessar-fogo pôs fim às hostilidades em 5 de setembro, e foi seguido pelo Armistício de Moscou em 19 de setembro.

4. Guerra da Lapônia – Tropas alemãs se retiram da Finlândia e aproveitam para fazer um estrago no meio do processo.
Foi o conflito entre a Finlândia e o III Reich Alemão que durou de setembro de 1944 a abril de 1945 na províncio da Lapônia, norte da Finlândia.

Enquanto o III Reich e a Finlândia combatiam a União Soviética na Guerra de Continuação, o alto comando alemão começava a traçar planos para uma reação no caso da Finlândia fazer um acordo de paz em separado com a União Soviética. O plano era retirar as forças alemãs para o norte e defender as minas de níquel próximas a Petsamo. Posições defensivas e planos de evacuação nesta área estavam todos compreendidos na Operação Birke.

As forças alemãs se retiraram para a Noruega, e a Finlândia pode assim manter sua parte das obrigações no Armistício de Moscou.

Posição política da Finlândia

A Finlândia era uma república presidencial multipardária e democrátic

Risto Ryti
Risto Ryti

a desde o início dos conflitos. Na época da Guerra de Inverno estava em cargo o quarto presidente do país, Kyösti Kallio, líder do partido Liga Agrária. Seu sucessor foi Risto Ryti, do Partido Nacional Progressista, que governou o país de 1940 a 1944 – período da Guerra de Continuação. Ryti fortaleceu relações com o III Reich, mais por necessidade do que por associação ideológica.

 

Uma das mais importantes contribuições do governo do presidente Ryti foi o fato de manter a Finlândia como uma democracia genuína, diferente do que ocorreu com outros países europeus.

Manteve sua neutralidade enquanto foi possível, recorreu ao apoio alemão quando foi necessário, expulsou os alemães quando lhe era benéfico, defendeu o seu território e a sua população sem se deixar tomar por nenhuma das duas ideologias totalitárias.

5. Ocupação do Báltico – objeto de disputa entre dois expansionistas.
Ocupação militar dos três estados bálticos (Estônia, Letônia e Lituânia) pela União Soviética sob os auspícios do Pacto Molotov-Ribbentrop em 14 de junho de 1940, seguida de sua incorporação à União Soviética.

Em 22 de junho de 1941 o III Reich Alemão atacou a União Soviética e dentro de semanas ocupou os territórios bálticos. Em julho de 1941 o território báltico foi incorporado ao III Reich. Como resultado da Ofensiva do Báltico de 1944, a União Soviética recapturou a maior parte dos territórios bálticos.

A partir de 1944 ocorreu a Guerrilha do Báltico: após a conquista dos territórios bálticos pelos soviéticos em 1944, uma insurgência envolvendo partisans nacionais se iniciou e arrastou-se até mesmo após o fim da Segunda Guerra. Esta guerrilha continuou como um conflito organizado até 1956 quando a superioridade militar soviética forçou a população nativa a adotar outras formas de resistência.

A ocupação soviética dos estados bálticos durou até agosto de 1991, quando estes estados recuperaram a sua independência.

A Irmandade do Bosque, Grupo de partisans estonianos, letões e lituanos que mantinham operações de guerrilha contra o regime soviético nos territórios bálticos durante e depois da invasão e ocupação da Segunda Guerra Mundial.

Posição política da Estônia

A República da Estônia, constituída em 1920, possuía um governo parlamentar democrático.  No entanto, iniciando um referendo em 1933, o Movimento Vaps conseguiu uma aprovação de 72,7% para a proposta de mudança do governo, que passou a ser presidencial. Esperava-se para 1934 uma eleição presidencial, que não ocorreu por causa de um golpe liderado por Konstantin Päts, do Partido dos Fazendeiros Unidos, que instaurou seu próprio governo autoritário.

Konstantin Päts
Konstantin Päts

Durante o que ficou conhecido como “Era do Silêncio”, os partidos políticos foram banidos e o parlamento não exercia suas atividades: o país era governado por decretos. Nesta época o Movimento Vaps foi oficialmente banido e então dissolvido.

A Estônia buscou uma política de neutralidade, o que foi inútil após a assinatura do Pacto Molotov-Ribbentrop, já que neste acordo secreto figurava como um dos Estados dentro da “esfera de influência soviética”. Recebeu um ultimato da URSS que ameaçava invadi-la a menos que permitisse bases militares soviéticas no país.

Aceitando o ultimato, o governo lituano condenou o seu povo a uma verdadeira ocupação militar soviética a partir de 1940, seguida de uma invasão alemã, depois de outra ocupação soviética que durou até a década de 90, somando mais de 50 anos de terror.

Posição política da Letônia

Uma nação republicana com constituição democrática promulgada em 1922, a Letônia caiu sob o regime ditatorial de Kārlis Ulmanis, do partido de centro União dos Fazendeiros Letões, em 1934, que alegava estar protegendo o país de um golpe de “extremistas de direita” chamados de Legião.

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Kārlis Ulmanis

Como Primeiro Ministro, Ulmanis dissolveu o parlamento e estabeleceu seu governo autoritário: todos os partidos políticos, inclusive o seu próprio “União dos Fazendeiros” foram proibidos, parte da Constituição e as liberdades civis foram suspensas, todos os jornais pertencentes a partidos ou organizações políticas foram fechados. Social-democratas, radicais “de direita” e ativistas pró-nazismo foram todos enviados para campos de detentação. Seu governo era especialmente duro com extremistas, sobretudo nazistas e comunistas.

Ulmanis acatou o ultimato soviético para instalar bases militares na Letônia, de modo que em 1940 o país já estava completamente ocupado pela União Soviética, tendo o mesmo destino da Estônia.

Posição política da Lituânia

A Lituânia era uma nação democrática com um parlamento eleito até 1926. O Parlamento elegia o presidente da República. As relações com a Polônia eram tensas, e também com a Alemanha, já que o país detinha um território que este perdeu com o Tratado de Versalhes (o território de Klaipeda).

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Antanas Smetona

O terceiro Parlamento foi eleito em maio de 1926 e pela primeira vez os democratas cristãos perderam a maioria e passaram à oposição. Com a assinatura do pacto de não-agressão com a URSS, o governo foi acusado de bolchevizar o país. Com o crescimento das tensões, o governo foi deposto no mesmo ano por um golpe militar apoiado pelos nacionalistas e pelos democratas-cristãos. Antanas Smetona foi instalado como presidente e, autoritário, suprimiu a oposição até 1940.

Na tentativa de evitar conflitos, a Lituânia cedeu a um ultimato da Polônia (1938) e normalizou as relações diplomáticas com este país. Ainda mais irresistível foi o ultimato oral de Ribbentrop: a Lituânia foi forçada a ceder novamente à Alemanha a região de Klaipeda. Mas isto foi só o princípio, uma vez que o país já estava entregue à URSS de acordo com o Pacto Molotov-Ribbentrop.


Comentário:

Destes conflitos abordados, na Polônia, na Escandinávia e no Báltico, já se pode tirar algumas conclusões sobre o que mencionamos no início deste artigo. Podemos identificar, a princípio, dois lados – União Soviética e III Reich – que são potências militares expansionistas e de inspiração ideológica.

Entre estas duas partes, bem identificáveis, existem outras que tentam resistir ao assalto de ambos os lados: as resistências nacionais polacas, finlandesas, estonianas, letãs e lituanas. Elas não tem uma relação firme entre si além do fato de estarem sendo comprimidas por um inimigo comum. No caso dos países bálticos, houve uma possibilidade maior de aproximação dadas as condições geográficas e a aproximação histórica entre os povos que habitam a região, o que não poderia acontecer entre eles e os finlandeses, ou poloneses.


Leia também:

A Escola Austríaca e a refutação cabal do socialismo

Artigo original de Alceu Garcia. Publicado originalmente no Instituto Mises Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Introdução

O fracasso do socialismo como princípio de ordenamento social é hoje evidente para qualquer pessoa sensata e informada — o que exclui, é claro, os socialistas.  Estes, porém, insistem que o malogro coletivista foi um mero acidente histórico, que a teoria é fundamentalmente correta e que pode funcionar no futuro, se presentes as condições apropriadas.  Tentarei demonstrar nesse texto, recorrendo na medida das minhas limitações aos ensinamentos da escola austríaca de economia, que absolutamente não é esse o caso, que a teoria econômica (para não falar dos fundamentos filosóficos, éticos, sociológicos e políticos!) do socialismo é insustentável em seus próprios termos, e que ipso facto os resultados calamitosos constatados pela experiência histórica são, e sempre serão, uma consequência inevitável de uma ordem (rectius: desordem!) socialista.  Não é preciso enfatizar a importância de se ter plena consciência da natureza perniciosa dessa corrente política e de suas funestas implicações, uma vez que em nosso país um poderoso movimento totalitário está muito próximo de tomar o poder.

O erro dos clássicos

O núcleo do pensamento econômico socialista está na concepção do valor como decorrente do volume de trabalho necessário para a produção das mercadorias, e isso não só em Marx como também em outros teóricos como Rodbertus, Proudhon etc.  Essa teoria do valor constitui a premissa elementar da qual a mais-valia e a exploração são deduzidas.

Retrato de Adam Smith

Marx, como se sabe, não inventou a teoria do valor-trabalho. Ela foi exposta bem antes por Adam Smith e David Ricardo e, dada a autoridade desses mestres, ganhou foros de ortodoxia. É difícil entender como esses dois pensadores notáveis, cujas descobertas foram realmente magníficas, puderam fracassar tão cabalmente justamente na questão crucial do valor. Talvez por causa dos avanços das ciências naturais, que estavam revelando propriedades antes insuspeitadas nas coisas, eles imaginaram que era mais “científico” considerar o valor também como um atributo da coisa.

Vários pensadores antes de Smith já tinham tido o insight correto: o valor das coisas depende da avaliação subjetiva de sua utilidade. O valor está na mente dos homens. Hoje se sabe que os filósofos escolásticos e os primeiros economistas franceses, Cantillon e Turgot, haviam concebido uma teoria econômica superior em muitos pontos a dos clássicos britânicos, sobretudo quanto ao valor. Smith e Ricardo, porém, puseram a economia na pista errada com uma teoria do valor falaciosa e, nesse aspecto, causaram um grave retrocesso no pensamento econômico.

Mas não por muito tempo. Enquanto Marx e outros pensadores socialistas faziam da teoria objetiva do valor a pedra fundamental de sua doutrina, diversos estudiosos já haviam constatado o desacerto dessa teoria e, independentemente, buscavam alternativas. Em todo caso, não seria exagero afirmar que Marx foi um economista clássico ortodoxo e que seus mestres, Ricardo em especial, podem ser considerados os fundadores honorários involuntários do socialismo “científico”.  Por ironia, o “revolucionário” Marx foi um conservador extremado em teoria econômica, enquanto que os economistas “burgueses” austríacos empreenderam uma verdadeira revolução nesse campo científico.

A redescoberta da subjetividade do valor

Vários economistas, entre eles o austríaco Carl Menger, chegaram basicamente à mesma conclusão que seus esquecidos antecessores pré-clássicos: o valor é subjetivo.  A teoria subjetiva do valor — ou teoria da utilidade marginal — resolve o problema satisfatoriamente, sem deixar lacunas.  O valor nada tem a ver com a quantidade de trabalho empregada na produção da coisa, mas depende de sua utilidade para a satisfação de um propósito de uma determinada pessoa.  A utilidade decresce à medida que mais unidades de um dado bem são adquiridas, posto que a primeira unidade é empregada na função mais urgente segundo a escala de valores de cada um, a segunda unidade exerce a função imediatamente menos urgente etc.

“Os Marginais” Jevons, Menger e Walras, economistas que defenderam a teoria da utilidade marginal e lideraram a “Revolução Marginalista” da Economia.

Para um sujeito que já tem uma televisão, por exemplo, ter outra já não tem a mesma urgência — dito de outra forma, as TVs são idênticas, exigiram a mesma quantidade de trabalho na sua produção, mas não têm o mesmo valor.  Cada indivíduo tem uma escala de valores diferente, e o que é valioso para um pode não valer nada para outro. Até para o mesmo indivíduo a utilidade — e daí o valor — de um determinado bem varia no tempo.

Isto posto, é fácil verificar que os preços refletem a interação entre ofertantes e demandantes, cada um com sua respectiva escala de valores. Compradores e vendedores potenciais expressam suas preferências no mercado, condicionadas por suas valorações pessoais e intransferíveis, e dessa interação surge uma razão de troca, um preço, que vai variando para igualar oferta e procura ao longo do tempo, de modo que em um determinado instante todos os que valoram o que querem adquirir (no caso a TV) mais do que o que se propõem a dar em troca (no caso um preço monetário x) conseguem comprar o produto.

O fabricante de TVs, segundo Marx, primeiro fabrica o produto e da quantidade de trabalho por unidade sai o valor e, consequentemente o preço. Isso é precisamente o inverso do processo real.  Na verdade, o fabricante inicialmente faz uma estimativa de um certo preço que ele espera que atraia compradores e esgote o estoque — compradores que valorem mais a TV do que o dinheiro correspondente ao preço.  Em seguida, ele calcula o custo de produção aos preços correntes e, se for suficientemente inferior à receita final prevista, aí sim ele contrata e combina os fatores de produção para obter o produto.  Não é pois o trabalho ou de modo geral o custo de produção que determina o valor e o preço.  É justamente o contrário: o preço projetado determina o custo de produção.

O emaranhado de falácias marxistas

Visando definir o valor com mais rigor do que Ricardo e levar a teoria às suas últimas consequências lógicas, Marx acaba demonstrando involuntariamente a invalidade das proposições pertinentes.  Como seus antecessores, Marx distingue entre valor de uso e valor de troca.  Para ele, as trocas só ocorrem quando coincide a quantidade de trabalho empregada no que se dá e no que se recebe.  Só há troca, pois, nos termos marxistas, quando há coincidência de valor, que por sua vez é função do volume de trabalho dispendido.  Ocorre que essa linha de raciocínio logo esbarra em um obstáculo insuperável: o trabalho é heterogêneo. Na ausência de homegeneidade, não há como tomar o trabalho como unidade de conta e medida de valor. Marx tenta superar o problema com os conceitos de trabalho “simples” e trabalho “complexo”, fixando uma proporção entre eles, mas falha totalmente. Como os preços flutuam, Marx decreta que essas variações são ilusórias; o real é um certo “preço médio” que equivale ao valor, que equivale ao volume de trabalho dispendido na produção do bem.

Ao procurar fugir da rede de falácias que vai tecendo, Marx incorre em uma óbvia petição de princípio que até hoje engana os ingênuos: a medida do valor seria a quantidade de trabalho “socialmente necessário” para a produção de determinada mercadoria.  Ora, só podemos saber o que é “socialmente necessário” investigando o que leva os indivíduos que compõem uma sociedade a valorar uma coisa o suficiente para que sua fabricação seja “socialmente necessária”.  Por que são produzidos mais CDs de axé do que de música clássica?  Por que o pagode é mais “socialmente necessário” do que a música erudita?  Porque há muito mais gente que gosta de pagode do que os que preferem música erudita.

Fica claro que o que foi dado como provado, que o valor depende da quantidade de trabalho “socialmente necessário”, é precisamente o que se necessita provar.  O que é “socialmente necessário”?  É aquilo que os indivíduos desejam.  Sendo assim, é evidente que temos que procurar o valor das coisas nas preferências individuais, não no custo de produção.  Ademais, o trabalho não é o único fator de produção. Marx evidentemente sabe que o trabalho sem o fator terra — os recursos naturais — é inútil e vice-versa.  Ele assevera que só o trabalho humano cria valor, pois a natureza é passiva.

Mas se o trabalho isolado é incapaz de criar valor, o que nos impede de afirmar que o valor depende da quantidade de recursos naturais “socialmente necessários” à produção disso ou daquilo?  E, como toda produção demanda tempo, por que não pode ser o valor definido como a quantidade de tempo “socialmente necessário” para a fabricação de uma mercadoria? Nessa ordem de idéias, mais lógico seria conceber o valor como função da quantidade de trabalho, terra, tempo e capital “socialmente necessários” para a produção de um bem. No fim das contas, é isso mesmo que Marx faz no vol. III de O Capital, relacionando o valor ao custo de produção, contradizendo sua própria concepção do valor-trabalho exposta no vol. I.

Para a teoria subjetiva, todavia, não há mistério e não há exceções: o “valor de troca” não é função do trabalho ou do custo de produção, e jamais pressupõe igualdade de valor.  Se eu dou tanto valor ao que me proponho a trocar quanto ao que me é oferecido, simplesmente não troco.  Só há troca quando os valores são diferentes, quando cada parte quer mais o que recebe do que o que dá.  O contrato de trabalho não foge à regra. Cada contratante valora mais o que dá do que o que recebe, logo não há exploração.  De fato, provando-se a falsidade da teoria do valor-trabalho, invalida-se inexoravelmente a exploração e a mais valia, e todo o edifício teórico deduzido dessa teoria desaba como um prédio de Sergio Naya.

Ademais, baseando-se na “lei de ferro dos salários”, segundo a qual sempre que a remuneração do trabalho subisse acima do nível de subsistência os “proletários” aumentariam a sua prole, trazendo os salários de volta para o nível de subsistência original, Marx assegurou que o capitalismo engendrava a miserabilização crescente do proletariado. Trata-se de uma tese contraditória em seus próprios termos, vez que se a tendência fosse a de que a remuneração do trabalho permanecesse estagnada num patamar de miséria não haveria uma miserabilização “crescente”, e sim uma “miserabilidade constante”.

Na verdade, o padrão de vida dos trabalhadores não cessou de aumentar nos países capitalistas avançados, o que é o resultado natural da liberdade individual de maximizar a utilidade — o valor — nas trocas livres, voluntárias e mutuamente benéficas travadas no que se chama economia de mercado.  A consequente acumulação de capital investido per capita em grau maior do que o aumento demográfico da força de trabalho torna o trabalho cada vez mais escasso em relação ao capital — e os salários reais cada vez mais altos.

Marx, como é comum entre os intelectuais, odiava a divisão do trabalho.  Mas foi o aprofundamento da divisão do trabalho que permitiu o aumento da produtividade do trabalho e o consequente aumento do poder aquisitivo real dos salários.  O “alienado” operário que aperta parafusos na linha de montagem é recompensado pelo fato de que a produtividade do seu trabalho é tal que lhe permite adquirir produtos antes sequer existentes e ter um padrão de vida muito superior ao artesão autônomo do passado que controlava todo o processo de produção.

Marx acreditava que a livre concorrência levaria a uma superconcentração do capital. Na verdade, a concorrência força sem parar a redução de custos e preços, resultando em uma melhor utilização de recursos escassos e os liberando para emprego em novas linhas de produção.  Marx não distinguiu o capitalista do empreendedor.  Na realidade, capitalista é todo aquele que consome menos do que produz — que poupa.  Hoje, nos países civilizados, os trabalhadores são capitalistas e suas poupanças reunidas em grandes fundos de pensão e investimentos capitalizam empresas no mundo todo. O empreendedor é todo aquele que vislumbra um desequilíbrio entre a valoração corrente de custos e preços futuros de um produto qualquer, e enxerga nele uma oportunidade de oferecer aos consumidores coisas que eles valoram mais do que o seu custo de produção.  A figura do empreendedor é insubstituível — o estado não pode exercer esse papel.  Isso os comunistas (e não apenas os comunistas!) puderam verificar na prática, para sua tristeza.

No sistema de Marx, como vimos, as trocas pressupõem igualdade de valor entre os bens negociados. Acontece que, como demonstrado acima, as trocas pressupõem precisamente o contrário: desigualdade de valor.  Ou não há troca alguma.  Assim, se a realidade se comportasse como na teoria de Marx, não haveria trocas. Na realidade, ninguém trabalharia sequer para si mesmo, posto que tal atividade envolve uma substituição de um estado atual considerado pelo agente como insatisfatório por um estado futuro reputado como mais satisfatório.  Quer dizer, até o trabalho autônomo envolve uma troca e valores desiguais. O mundo de Marx seria povoado por seres autárquicos, autísticos e estáticos.  Um mundo morto.  Não admira que os regimes socialistas sofram invariavelmente de uma tendência para a completa estagnação e paralisia da atividade econômica.

A lei da preferência temporal

Outra descoberta fundamental, feita por um discípulo de Carl Menger chamado Eugen von Böhm-Bawerk, relaciona-se com a influência do tempo no processo produtivo.  Ele percebeu uma categoria universal da ação humana: as pessoas dão mais valor a um bem no presente do que o mesmo bem no futuro, posto que o tempo é escasso, e logo é um bem econômico.  Os indivíduos ao agirem elegem determinados fins e quanto mais cedo puderem alcançá-los, melhor.

Eugen von Böhm-Bawerk

Partindo desse axioma, ele obteve a explicação definitiva do fenômeno do juro, e mais, que o juro nas operações de crédito financeiras é um caso especial de um fenômeno geral.  A produção demanda tempo; do início da produção até a venda do produto há uma demora, sem falar no risco de o produto não ser vendido. Ocorre que ninguém quer esperar até que a venda ocorra para receber sua parte no total — isso se a venda realmente acontecer, e o preço for recompensador.  Os proprietários dos fatores de produção — os trabalhadores, os proprietários do espaço alugado, os fornecedores de insumos, os donos dos bens de capital — querem receber logo sua parte sem partilhar dos riscos.  Dito de outra forma, eles preferem bens presentes a bens futuros. Mas os bens presentes sofrem um desconto.  Daí receberem menos agora do que receberiam no futuro.  Ficam livres do risco, que é assumido pelo empreendedor e pelos poupadores que lhe outorgaram seus recursos.

A parcela que um determinado trabalhador agrega ao produto final — o valor do produto marginal, como dizem os economistas — pode ou não ser remunerado integralmente. Há frequentemente casos em que o trabalhador recebe mais do que produziu, quando o preço não cobre os custos, o que não tem explicação pela teoria marxista. O capitalista paga a mais-valia ao proletário!  O que é certo é que na economia de mercado há forças operando incessantemente para igualar o salário ao valor do produto marginal. Tanto o lucro quanto o prejuízo são sinais de desequilíbrio. Os prejuízos significam que os compradores não valoram um determinado bem mais do que o dispêndio mínimo corrente para produzi-lo.  Os trabalhadores estão recebendo mais do que o seu trabalho produz.  O empresário tem que reduzir custos para reduzir o preço do seu produto, ou quebra.

O lucro significa que os consumidores valoram um dado bem a um dado preço mais do que o custo de produzi-lo. Os trabalhadores estão recebendo menos do que o valor do produto marginal.  Isso quer dizer que os compradores querem mais desse produto.  O retorno alto atrai a concorrência, o que aumenta a demanda por fatores de produção — trabalho incluso — e faz cair o preço pelo aumento da oferta do produto.  A taxa de lucro baixa e os salários tendem a igualar o valor do produto marginal, descontada a taxa social de preferência temporal — o juro.

Marx nunca compreendeu — ou não quis compreender — que o empreendedor é um preposto dos consumidores e que são estes quem determinam indiretamente o nível de remuneração dos fatores de produção — salários inclusos.  A tarefa dos empreendedores é satisfazer os caprichos dos consumidores.  Nessa função ele deve assumir riscos pois o futuro é sempre incerto.  Nota-se, pois, o absurdo da condenação da produção “para o lucro” pelos marxistas vulgares e sua veneração pela produção “para o uso”.  Sucede que toda produção sempre tem por fim o consumo, i.e., o uso. A produção não é um fim em si mesmo, e sim um meio para se alcançar um fim: o consumo. O lucro e as perdas monetários são sinais fundamentais que orientam os empresários a organizar eficientemente a produção de modo a satisfazer os usos mais urgentemente desejados pelos usuários (pressupondo-se a ausência de privilégios concedidos pelo governo aos produtores em detrimento dos consumidores, tais como tarifas, monopólios, subsídios, licenças etc).

A lei da preferência temporal exerce um papel determinante no processo produtivo.  Se todos os proprietários de fatores (os empregados donos de sua força de trabalho, os fornecedores de insumos, o proprietário do espaço onde a fábrica ou loja se situa, os capitalistas) decidissem partilhar do risco e aguardar até a efetiva venda do produto final total para então dividirem pro rata a receita total, todos eles seriam empreendedores. Como, porém, o ser humano prefere o mesmo bem agora ao futuro (que é sempre incerto), surge a necessidade social de que um indivíduo, ou grupo de indivíduos reunidos (empresa), exerça essa função empreendedorial, que é absolutamente indispensável para o progresso da sociedade.

O empreendedor, assim, paga agora aos proprietários de fatores com bens presentes em troca de receber os mesmos bens (dinheiro) no futuro, correndo o risco de não receber. Esse desconto dos bens presentes em termos de bens futuros, como já assinalado, é o que se chama de juro.

A impossibilidade do cálculo econômico no socialismo

Tendo demonstrado satisfatoriamente que a crítica marxista ao capitalismo é inteiramente equivocada, resta empreender por nosso turno a crítica ao sistema socialista, conforme idealizado por Marx, seus sucessores e outras correntes socialistas. Esse sistema exige a propriedade pública dos meios de produção — terra, trabalho e capital — e o consequente planejamento central de todas as atividades econômicas.

A primeira objeção que vem à mente é a questão dos incentivos: quem planeja e quem obedece às ordens do planejador ou planejadores?  Quem determina o padrão de remuneração dos serviços e que padrão é esse?  Numa sociedade que se presume igualitária, a remuneração deve ser igual para todos os tipos de trabalho?  Nesse caso, o neurocirurgião terá o mesmo incentivo para exercer suas funções que o lixeiro?  Segundo os marxistas, cada um contribui para a coletividade segundo as suas possibilidades e recebe de um fundo comum segundo suas necessidades. Já é possível até aqui imaginar a complexidade do problema.

Pois um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, foi mais além, atingindo a raiz do problema do socialismo, que é ainda mais profunda do que a complicação dos incentivos permite vislumbrar.  Mises descobriu que a atividade econômica em uma economia complexa depende de um cálculo prévio que leve em conta os preços monetários dos fatores de produção. Impossível esse cálculo, impossível a atividade econômica.

Ludwig von Mises

Ocorre que, em uma sociedade socialista pura, todos os fatores de produção pertencem a um único dono: o estado. Sem propriedade privada, os fatores de produção não são trocados e, logo, não têm preço.  A escassez relativa dos fatores de produção e seus usos alternativos fica oculta e o planejador central inexoravelmente é levado a agir às cegas. Mises admitiu, para argumentar, que a questão dos incentivos não apresentasse nenhum obstáculo, que todos se empenhassem diligentemente em suas tarefas.  Ou seja, postula-se que a natureza humana seja aquela que os teóricos socialistas quiserem que ela seja, não o que ela de fato é.  Mesmo assim, na ausência de preços para os fatores de produção, o cálculo econômico é impossível e a atividade econômica se torna caótica, vez que não se pode discernir entre os vários tipos de combinação de fatores aquele que é o mais econômico.

Dado um determinado estado de conhecimento tecnológico, sempre existem inúmeras maneiras de se empreender um projeto econômico qualquer, digamos uma siderúrgica, mas somente se a escassez relativa dos fatores de produção expressa em preços monetários será possível escolher dentre as soluções técnicas possíveis aquela que é mais econômica, ou seja, a que representa os menores custos em relação ao preço futuro do produto final, e só assim será possível avaliar ex ante se o projeto sequer é economicamente viável no momento.

Como nada disso é a priori possível em uma sociedade socialista, todos os empreendimentos tocados pelo estado não passam de um gigantesco desperdício de recursos que mais cedo ou mais tarde leva ao colapso econômico. A experiência comunista comprovou tudo isso, muito embora não tenha nunca existido uma sociedade socialista realmente pura.  A URSS podia usar o sistema de preços do mundo capitalista como referência e copiar seus métodos de produção, e um florescente e gigantesco mercado negro supria até certo ponto as monumentais falhas do planejamento estatal. Mesmo assim, a economia soviética sempre foi um caos.  Funcionou por algum tempo graças ao uso sistemático do terror como “incentivo”.  Mas o terror não pode durar para sempre.  Quando arrefeceu, foi-se o incentivo e a economia comunista anquilosou rapidamente e morreu.

A natureza dispersa do conhecimento

A crítica de Mises publicada em 1920 causou consternação na intelligentsia socialista. Ao menos o desafio foi levado a sério e muitas respostas foram aventadas.  Nos anos 1930, alguns economistas socialistas (Oskar Lange, Abba Lerner) formularam a teoria do “socialismo de mercado”, baseada nas idéias do economista do século XIX Léon Walras, que concebeu um método de equações matemáticas capazes de permitir a compreensão do estado geral de equilíbrio de uma economia.  Tudo o que se fazia necessário, pois, era outorgar certa autonomia aos gerentes das unidades produtivas de modo que igualassem o preço do produto ao custo marginal para que o comunismo funcionasse tão bem como o capitalismo.

Muitos economistas liberais eminentes, como Joseph Schumpeter e Frank Knight, aceitaram a validade dessa solução e se convenceram de que não havia obstáculos econômicos ao socialismo.  Ainda outro economista austríaco, contudo, Friedrich Hayek, discípulo de Mises, desenvolveu certos aspectos implícitos na análise de seu mestre para refutar a “solução” socialista.  O esquema walrasiano padece de um defeito fatal: é estático.  O conhecimento técnico, os recursos e as informações são considerados dados no sistema.  Hayek argumentou que o conhecimento é disperso na sociedade e a sua utilização racional é levada a efeito por cada indivíduo traçando seus próprios planos segundo circunstâncias personalíssimas e intransferíveis.  O mercado coordena esses planos espontaneamente, sobretudo por intermédio do sistema de preços, de forma muito mais racional e útil do que um planejamento central poderia esperar fazer. O planejamento central implica a supressão dos planos individuais.  Os indivíduos tornam-se instrumentos do planejador central, mas esse não pode ter jamais a esperança de coordenar a produção racionalmente. O estado de equilíbrio é uma quimera que não tem lugar no mundo real, dinâmico por natureza, e o conhecimento, as oportunidades e a informação nunca estão “dados”. Ao contrário, estão sendo incessantemente criados e ampliados através das iniciativa individuais e suas interações.

Mesmo assim, Mises e Hayek foram tidos como refutados e relegados ao ostracismo pela comunidade dos economistas.  Mises morreu esquecido em 1973, mas Hayek viveu o suficiente para rir por último quando o comunismo soçobrou e todas as análises de ambos se revelaram certas.  Ele morreu em 1992, após testemunhar a queda do Muro de Berlim e o colapso soviético.

Conclusão

Provar que na economia de mercado não existe mais-valia nem exploração, todavia, não é o mesmo que dizer que a exploração não existe.  Existe.  Ela ocorre quando somos forçados a dar alguma coisa em troca de nada, como no caso dos tributos recolhidos pelo estado.  O estado é a máquina perfeita de exploração.  E o marxismo, por conferir um poder absoluto ao estado, é o veículo insuperável da exploração sistematizada.

A doutrina socialista por ser intrinsecamente falsa leva inevitavelmente a uma perversão e inversão do sentido das palavras, como notou Orwell — por ironia ele mesmo um socialista convicto.  Liberdade é escravidão e escravidão é liberdade; democracia é ditadura e ditadura é democracia; cooperação voluntária é coerção e coerção é cooperação voluntária.  O estado socialista é dono de tudo, o que traduz a triste realidade de que os que comandam o governo são os senhores implacáveis, os proprietários absolutos dos comandados.  Socialismo é mais do que uma restauração da escravidão; é seu aperfeiçoamento e culminância.

Vale lembrar ainda que a análise acima vale para qualquer espécie de socialismo, seja o comunismo (socialismo de classe), nazismo (socialismo de raça) ou fascismo (socialismo de nação).

Tudo o que foi exposto aqui é conhecido há décadas.  Contudo, pouca gente sabe pois a intelligentsia de esquerda bloqueia a sua divulgação.  É uma vergonha, pois uma das tarefas principais dos intelectuais — os que se dedicam ao estudo das idéias — deveria ser justamente a de esclarecer a sociedade a respeito das idéias certas a serem adotadas para o bem comum, e advertir do perigo de se aceitar teorias erradas.  Mas não é isso que acontece, infelizmente.

Parece que os intelectuais sofrem de uma propensão irreprimível para o socialismo, certamente porque nele vislumbram a chance de empalmar o poder absoluto em causa própria.  Em termos marxistas, o próprio marxismo não passa de ideologia, a falsa consciência, que uma classe — a intelligentsia — difunde em função de seus próprios interesses. Essas falsas idéias se propagam e iludem — alienam — as futuras vítimas da classe “revolucionária”.  É um dever inadiável de todo cidadão consciente denunciar esse esquema podre, desmascarar a falácia socialista e esclarecer a opinião pública na medida de suas possibilidades.

Rousseau e o fim do capitalismo

Artigo original de José Guillermo Godoy, publicado em espanhol no seu site: www.joseguillermogodoy.com. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPara ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

Assim que acabou a Segunda Guerra Mundial, salvo insignificantes grupos anacrônicos, ninguém mais queria ser de direita, parecia que a direita havia desaparecido do espectro político.

A partir dos 80, se produziu a tendência inversa, desde então se falou da obsolescência da esquerda, da morte do socialismo, do fim das revoluções, das utopias das ideologias, e alguns foram mais além e proclamaram o fim da história. Quase 15 anos depois parece ressurgir o processo inverso.

Os conceitos políticos, que em si não são entidades metafísicas definitivas e eternas e se modificam de acordo com a época e as circunstâncias, também recebem adeptos de grupos que influenciam determinando a opinião pública, de acordo com estas mesmas circunstâncias. Isto é conhecido como “espírito do tempo”, do qual são protagonistas principais os orgulhosos, e sempre na moda, intelectuais franceses.

O danadinho Rousseau, trollando o establishment acadêmico desde  1750.

Rousseau, igual aos intelectuais franceses do século XX – que, no dizer de Sebreli, durante longos anos e contra toda as evidências confundiram Stalin com Marx e ao sentido da história com o destino do estalinismo e que, em lugar de responsabilizar-se pelo erro cometido, lhes resultou menos prejudicial ao narcisismo considerar que não eram eles mas a própria história que havia se equivocado, ou melhor ainda, que não havia sentido algum na história, ou, por fim, que não havia história nenhuma – foi um autor com grades dotes intelectuais e originalidade, cujo desejo por fama, mais que suas convicções plasmadas em escrito, marcaram uma época.

Assim como cada época elege outra no passado para fazer dela uma fonte de modelos, os novos prognosticadores do fim do capitalismo podem ser originais em tudo, menos no quesito de prognosticadores e no conteúdo de seu prognóstico.

Assim as grandes vedetes da esquerda – artistas, escritores, jornalistas, professores, cientistas – que foram usados e se aproveitaram também do sistema estalinista e que subsistiram durante a chamada década “neo-liberal” disfarçadas na roupagem de seus adversários, a esquerda democrática, e aferradas ao último bastião que é Cuba, esse museuzinho folclórico onde se exibem os restos arqueológicos de uma civilização desaparecida, voltaram para ficar.

Assim o porta-voz do Partido Trabalhista Britânico (Labour Party) disse que “A atual desordem financeira é uma crise do capitalismo”. “Um sistema financeiro não regulado é um desastre”, adiciona Sheila Rowbotham, professora de história da Universidade de Manchester. Um candidato esquerdista à prefeitura de Londres adicionou: “o Capitalismo teve sua oportunidade e falhou; agora é a vez do socialismo”. A isto se soma o amigo Ahmadinejad: “É o fim do capitalismo”.

No Irã o capitalismo está acabando. Aproveite a liquidação!

Ziegler, o autor de Os Novos Senhores do Mundo, comparou a crise internacional com a queda do muro de Berlim. Santiago Niño Becerra e Lucinio González, catedráticos da Faculdade de Economia do Instituto Químico de Sarriá (IQS), prognosticam o fim do capitalismo com alguns dados estatísticos, e assim a totalidade de intelectuais e políticos progressistas, pseudoprogressistas, castristas, pós-modernistas, setentistas, chavistas, pós-estruturalistas.

Há que desconfiar da originalidade absoluta. Ninguém pensa no vazio: todo pensamento é expressão de seu tempo e nenhum homem pode jamais escapar totalmente de sua época. As idéias contra a corrente formam por sua vez parte de outras correntes, só que estas permanecem subterrâneas, ocultas ou dispersas, mas estão destinadas a aparecer, a fazer-se notar no momento em que a situação mature.

O núcleo da discussão encontra-se na vigência sem medidas do mercado. A causa da crise, segundo se afirma, é o egoísmo humano, a ganância desenfreada. Por isto temos que regular o mercado, limitar a livre ação humana. No fundo desta postura subjaz a tese que sustenta que o homem é mau, e por isto temos que controlá-lo, regular sua ação. Os ideólogos da nova ordem se dedicam a advertir sobre o perigo que representam as pessoas atuando por si e para si e como é bom que tudo esteja controlado e coordenado por mentes brilhantes.

A melhor defesa da liberdade deveria ser o apoio de Rousseau, este velho autor francês tão mal visto pela má direita, em grande parte culpável pela crise, e especialmente pelos liberais de ar condicionado, em seus dois ramos, o marketeiro/austríaco e o correligionário, que em sua maioria, como diz José Benegas, está estudando os alcances do direito de propriedade na distribuição de pipoca nos cinemas de bairro.

Tanto a má direita como os liberais de ar condicionado, antes de criticar Rousseau, deveriam reler seus textos, ou em todo caso começar a lê-los, pois este autor não só deu um grande suporte às idéias de liberdade como na situação atual parte de sua tese pode ser a melhor defesa do capitalismo.

O problema parte da própria complexidade do pensamento de Rousseau. Sempre há um Rousseau para refutar a outro Rousseau, ou pelo menos assim parece. A incoerência deste escritor, no dizer de Richard Pipes, que à primeira vista é evidente, se explica, a meu entender, com um pouco de história marcada na própria personalidade do autor e, por que não?, na natureza de grande parte da intelectualidade francesa, sempre disposta a ser original para melhor vender.

A discussão surge da leitura de dois trabalhos que Rousseau realizou motivado pelo concurso convocado pela academia de Dijon, em 1750. Apesar do que comenta em suas Confissões, que se inteirou do convite da academia por um jornal abandonado que encontrou em uma de suas frequentes caminhadas pelos arredores de Paris, o certo é que Rousseau, num começo, travou amizade com os iluministas, e foi convidado a contribuir com artigos de música à Enciclopédia de D’Alembert e Diderot; este último o impulsionou a apresentar-se em 1750 ao concurso convocado pela Academia de Dijon.

De acordo com as pautas do concurso, os temas a tratar eram a modernidade – iluminismo, e a propriedade. Então Rousseau consultou a Diderot sobre qual deveria ser sua postura para ser levado em conta no concurso. Diderot responderá que todos os trabalhos que se apresentem dirão que a modernidade e a propriedade são pedras fundamentais do progresso e contribuiem à felicidade da humanidade. De maneira que o original seria apresentar a postura contrária, e assim se fez. Seu primeiro discurso Sobre as Ciências e as Artes (1750), em aberto contraste com as idéias sobre o progresso dominantes no Iluminismo francês, se converte no Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da desigualdade dos Homens (1754) em uma crítica das estruturas sociais e políticas através de um exame mais próximo às conjecturas antropológicas que ao rigor histórico do estado primogênito do homem natural e das causas que criaram a sociedade e a desigualdade.

Ambos os discursos foram premiados pela academia, e deram notória popularidade a Rousseau precisamente porque defendiam uma tese contrária às idéias da época. Era original e muito conveniente aos franceses. Esta foi a intenção de Rousseau, ao defender uma tese que nem ele acreditava.

A postura pró-iluminismo e propriedade aparece evidenciada não só no seu Discurso sobre Economia Política, mas em numerosos artigos posteriores publicados na enciclopédia. Este, creio eu, é o verdadeiro pensamento de Rousseau, e não o conteúdo dos dois discursos onde defende uma tese para ganhar um concurso.

Mas paradoxalmente, e ainda que soe contraditório, nos próprios trabalhos apresentados à academia de Dijon, Rousseau esboça uma tese que é fundamental para a formação do pensamento liberal: “o homem é naturalmente bom”. O liberalismo não estaria disposto a outorgar ao indivíduo o máximo de liberdade se este fosse naturalmente malvado.

Na atualidade, a postura contrária afirma que a crise foi causada por dar maior liberdade ao homem. Para esta postura, o homem é evidentemente mau. Isto pode ser contrariado, demonstrando que a idéia de que a crise é causada pela maior liberdade de ação do homem é, no mínimo, duvidosa. Ainda que isto seja um tanto complicado já que no nosso século, e desde tempos atrás, ao que parece os inimigos do liberalismo descobriram que a melhor maneira de atacá-lo era usando seu nome. Apesar disto o Liberalismo não morreu, porque expressa anseios perenes de justiça e liberdade. Por que muitos dos problemas que planteará de suas origens não foram resolvidos e dificilmente o sejam nos limites do estatismo. Por que é uma ética, uma teoria hipotética e esta é útil para que os homens não se afundem em desconcerto, trivialidade e indiferença. O fracasso de uma teoria na prática, nem sempre se converte, como o pretende Leszek Rolakowski, em um argumento contra suas próprias premissas, e menos ainda contra princípios que durante longo tempo tiveram tanto êxito. Do mesmo modo que uma idéia falsa como o nazismo pôde ter um êxito momentâneo, o fracasso aparente do liberalismo pode ser provisório. Às teorias e aos princípios, como nos romances policiais de Raymond Chandler, jamais se deve dizer adeus.

Ronald Reagan, de ator para presidente.

Ronald Regan foi com certeza uma das figuras políticas mais importantes dos últimos tempos, conservador, guiou os Estados Unidos da América em plena Guerra Fria e teve participação direta no seu fim. Os dircusos de Reagan, que era bastante carismático, eram marcados por uma forte crítica ao comunismo e frequentemente, abordava o tema com humor contando piadas e fazendo ironias. Além desta grande aversão ao comunismo, Reagan defendia um estado pequeno e pouco interventor. Até hoje, Reagan é venerado e respeitado pela maioria dos Norte-Americanos, conservadores ou não, pelos seus feitos.

Biografia

O comunismo foi a pior maldição do século XX. O nazismo durou doze anos, o fascismo italiano vinte anos, e o comunismo soviético setenta e quatro anos. Estima-se que o líder soviético Joseph Stálin tenha matado três vezes mais pessoas do que Hitler, e a quantidade total de mortes do comunismo está estimada em mais de 150 milhões de pessoas. Os soviéticos escravizaram milhões de pessoas no leste europeu após a Segunda Guerra Mundial, roubaram segredos americanos para construir armas nucleares e instalaram milhares de mísseis nucleares apontados para os Estados Unidos, alguns até mesmo em Cuba – e os EUA não teriam como interceptar um único míssil, fora lançado intencional ou acidentalmente. Durante os anos 70, os soviéticos trabalharam na expansão de sua influência na Ásia, na África e nas Américas.

Enquanto isso, os Estados Unidos e outros países ocidentais pareciam estar em declínio. A inflação e as taxas de juros atingiam dois dígitos, e o desemprego permanecia alto. Os intelectuais rendiam-se à inevitabilidade da ascensão soviética e do declínio do Ocidente. John Kenneth Galbraith, professor de Economia, escreveu em The New Yorker (1984): “O sistema russo tem sucesso porque, em contraste com as economias industriais ocidentais, ele faz pleno uso do seu poderio humano”. Paul A. Samuelson afirmou em Economics, seu influente livro didático, que “não se pode duvidar do fato de que os sistemas de planejamento soviético têm sido um motor poderoso para o crescimento econômico”. O professor de Economia Lester Thurow saudou em 1989 “a notável performance da União Soviética”. E o historiador Arthur M. Schlesinger Jr. dizia o seguinte: “Aqueles nos EUA que pensam que a União Soviética esteja à beira de um colapso econômico e social… [estão] apenas enganando-se a si próprios”.

O Presidente Ronald Reagan provou que todos eles estavam errados. Ele fez muito para reviver os ânimos americanos e mudar os termos do debate sobre políticas públicas. Ele insistiu que o livre mercado funciona melhor que os burocratas, e que o individualismo americano e a liberdade são coisas de que se orgulhar. Em vez de incentivar o Federal Reserve [o Banco Central americano] a imprimir dinheiro, como seu predecessor Jimmy Carter, Reagan apoiou os esforços do FED para frear a oferta monetária; em dois anos, a inflação havia deixado de ser uma questão nacional. Reagan reduziu e fixou um teto para a alíquota do imposto de renda, incentivando um crescimento econômico que, com exceção dos nove meses de recessão nos dois anos após deixar o cargo, continuaram no milênio seguinte, e o desemprego crônico deixou de ser uma questão de interesse nacional. Reagan acabou com as agressões soviéticas em curso e intensificou as pressões sobre a União Soviética, contribuindo para seu atordoante colapso. Como disse a Primeira-Ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher, “Ronald Reagan venceu a Guerra Fria sem disparar um tiro”.

Reagan despontou como grande defensor da paz. Apoiou o desenvolvimento de um sistema de defesa focado na interceptação de mísseis nucleares disparados contra os Estados Unidos, e se dispôs a compartilhar a tecnologia de sua Iniciativa de Defesa Estratégica, uma vez que se provasse eficaz, para que os riscos de uma guerra nuclear fossem reduzidos. Presidentes anteriores haviam buscado a estratégia SALT (Strategic Arms Limitation Talks) [“Diálogos para a limitação de armamentos estratégicos”] para reduzir o número de armas nucleares instaladas. Seu governo negociou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, o primeiro a mencionar a eliminação de toda uma categoria de armas nucleares.

Muitos dos críticos de Reagan afirmaram que já que a economia soviética demonstrou estar em piores condições do que se imaginava, suas políticas tiveram pouca ou nenhuma influência no colapso. No passado, entretanto, regimes como o da China Imperial e o Império Otomano (“Homem doente da Europa”) se seguraram por décadas. Além do mais, os comunistas ainda dão as cartas em países miseravelmente pobres, como China, Cuba e Coréia do Norte.

O ex-Secretário de Estado Henry Kissinger observou, “A performance de Reagan foi surpreendente – e quase incompreensível para os observadores acadêmicos… Um presidente com uma base acadêmica altamente superficial iria desenvolver uma política externa de extraordinária relevância e coerência. Reagan pode muito bem ter tido apenas algumas idéias básicas, mas essas acabaram por tornar-se as questões centrais de política externa do seu tempo, o que demonstra que senso de direção e convicções fortes são ingredientes-chave para a liderança”.

O analista de políticas públicas Martin Anderson escreveu nos anos 80 que “quando você encontra Ronald Reagan, a primeira coisa que você nota é como ele é grande. Tem 15 centímetros a mais que a maioria das pessoas, pesa quase 90 quilos, é esguio e forte. Ainda guarda os movimentos e a aparência do salva-vidas que foi por sete anos durante os anos 20, quando salvou 77 pessoas de afogar-se no Illinois Rock River.

Reagan tornou-se especialmente querido pelo público americano após sua recuperação da tentativa de assassinato sofrida do lado de fora do Washington Hilton Hotel em 30 de março de 1981. Uma bala disparada por John Hinckley Jr. Parou a menos de uma polegada do coração de Reagan, mas do hospital da George Washington University vieram gracejos cômicos que fizeram com que todos soubessem que ele ficaria bem.

Teantiva de Assasinato à Ronald Reagan em 1981, apenas 69 dias após assumir a presidência. Reagan e mais 3 pessoas foram alvejadas por John Hinckley, Jr em Washington D.C.

“Nós estávamos especialmente conscientes da coragem de Ronald Reagan”, afirmou Thatcher. “Era fácil para seus contemporâneos ignorarem isso; ele sempre parecia tão calmo e relaxado, com um charme natural, uma confiança espontânea e um incansável bom humor … Ronald Reagan apareceu para desafiar tudo o que a elite política de esquerda americana aceitava e pretendia difundir. Eles acreditavam que a América estava fadada ao declínio; ele acreditava que estava destinada a uma grandeza ainda maior. Eles imaginavam que cedo ou tarde haveria uma convergência entre o sistema ocidental e o sistema socialista oriental, e que algum tipo de resultado social democrático seria inevitável. Ele, em contraste, considerava o socialismo um grande fracasso que deveria ser relegado à lata de lixo da História. Eles pensavam que o problema da América eram os americanos, ainda que não gostassem de dizê-lo abertamente. Ele pensava que o problema da América era o governo americano, e deixou isso bem claro”.

Ronald Wilson Reagan nasceu em 6 de fevereiro de 1911, em um apartamento na sobreloja de um banco em Tampico, Illinois. Seu pai, John Edward Reagan, um vendedor de sapatos cujos antepassados haviam vindo da Irlanda, se tornou o bêbado da cidade. Nelle Wilson, a mãe de Ronald, cujos antepassados eram anglo-escoceses, irradiava otimismo.

Ronald Reagan com seus pais, Jack e Nelle Reagan e seu irmão, Neil Reagan.

Muito cedo, Reagan aproveitou oportunidades para aprender a falar em público, no rádio e a atuar. Durante a transmissão de um evento esportivo na Califórnia, conseguiu um contrato como ator com a Warner Brothers. Ele ascendeu de filmes B para participar de filmes como Knute Rockne – All-American , no qual interpretou o falecido herói do futebol americano George Gipp. Reagan foi eleito presidente da Screen Actors Guild [Sindicato de Atores de Cinema] por cinco vezes e aprendeu a ser um negociador duro com os grandes estúdios.

Após o seu divórcio de Jane Wyman, Reagan conheceu a atriz Nancy Davis, que compartilhava de muitas das suas idéias. Casaram-se em 4 de março de 1952, e tiveram dois filhos, Patricia Ann (1952) e Ronald Jr. (1958).

Durante os anos 1950, Reagan trabalhou como apresentador no General Eletric Theater, programa que foi ao ar durante oito anos na televisão. Ele deu palestras sobre os problemas do governo e os benefícios da livre-empresa nas instalações da GE em trinta e nove estados. Como viria a fazer por anos, escrevia seus discursos à mão em blocos de papel amarelo e depois os transcrevia para cartões de 10cm X 15cm, usando letras de fôrma e o seu próprio sistema de taquigrafia. Esta técnica lhe permitia captar o conteúdo de cada cartão em uma olhada e manter contato visual com a audiência.

Para ajudar Barry Goldwater, candidato Republicano à presidência, Reagan gravou um discurso de trinta minutos para a televisão que foi ao ar em 27 de outubro de 1964, e subsequentemente mostrado em eventos de arrecadação de fundos, gerando US$8 milhões para a campanha de Goldwater. Após a derrota de Goldwater para Lyndon Johnson, Reagan entrou na corrida pelo governo da Califórnia contra o então governador Democrata Pat Brown. Os comerciais de TV da campanha de Brown comparavam Reagan com o ator John Wilkes Booth, o assassino de Abraham Lincoln, mas Reagan venceu com 58% dos votos. Durante seu mandato, ele elevou impostos para cobrir os déficits deixados por Brown e, quando o orçamento do estado chegava a um superávit, devolvia dinheiro aos pagadores de impostos – o que aconteceu em quatro ocasiões.

Reagan ganhou a presidência em sua segunda tentativa, em 1980. O então presidente Jimmy Carter havia herdado uma inflação crescente e decidiu pressionar o FED para que expandisse a oferta monetária, o que tornou a inflação ainda pior. Quando ele impôs controles de preços para manter o preço da gasolina abaixo dos níveis do mercado, os resultados foram escassez crônica e filas irritantes nos postos de gasolinas. Carter foi duro com governos pró-Ocidente sobre violações de direitos humanos, mas ignorou a opressão muito pior dos regimes comunistas. Seu dúbio conselho ao Xá do Irã, um autocrata pró-Ocidente, contribuiu para a queda deste. Milícias islâmicas anti-ocidentais invadiram a embaixada americana em Teerã e mantiveram cinquenta e dois americanos reféns por um ano.

Ronald Reagan, já presidente em 1981.

Reagan, em contraste, concentrou-se em algumas poucas prioridades. Acabou com as filas nos postos de combustível ao abolir os controles sobre os preços de petróleo e gasolina, já que o aumento de curto prazo nos preços atraiu novos fornecedores ao mercado, ao mesmo tempo em que encorajou os consumidores a economizarem. A maior questão era a inflação, que havia levado a taxa de juros para 21,5%, supostamente o nível mais alto desde a Guerra Civil. Reagan apoiou as políticas do presidente do FED Paul Volcker para frear a oferta monetária, e a inflação caiu dramaticamente. Ao mesmo tempo, Reagan estava determinado a reviver a economia. Sua reforma tributária de 1981 foi um projeto de três anos que reduzia o imposto de renda de pessoa física em 10% no primeiro ano, outros 10% no segundo, e 5% mais no terceiro ano. Na época, as alíquotas de impostos eram indexadas para que evitar que a inflação empurrasse as pessoas para categorias mais altas de impostos. A legislação tributária de 1986 de Reagan eliminou todas as alíquotas de imposto de renda federal exceto duas, 15% e 28%.

Reagan, entretanto, não cortou os gastos do governo federal. Os Democratas controlavam o Congresso, e Tip O’Neill, presidente da Câmara, rejeitou os cortes porque gastos federais são o modo primordial de retribuição a eleitores importantes e doadores de campanha. Em 1983, Reagan concordou em acabar com isenções fiscais no valor de US$98 bilhões se os Democratas aprovassem um corte de US$280 bilhões nos gastos, mas eles recusaram. A maioria dos Republicanos se opunha aos cortes de gastos, também, já que eles tinham de responder a seus próprios eleitores. Seria ideal se Reagan houvesse concentrado seus amplos poderes de persuasão nos cortes de gastos, mas não havia apoio político.

O crescimento e as agressões soviéticas permaneceram uma questão importante. “Como assunto fundamental da minha política externa”, Reagan explicou, “eu decidi que tínhamos que mandar aos russos uma mensagem o mais forte possível demonstrando que não iríamos mais ficar parados enquanto eles armavam e financiavam terroristas e subvertiam governos democráticos … Se não houvéssemos começado a nos modernizar, os negociadores soviéticos saberiam que estávamos blefando sem cartas boas, porque eles sabem as cartas que temos tanto quanto nós sabemos o que eles têm em mão”. Reagan fez um apelo moral ao povo americano: em um discurso em 8 de março de 1983, ele chamou a União Soviética de “um império do mal”, epíteto que ecoou por todo o mundo.

Reagan ignorou a doutrina predominante de destruição mútua assegurada (MAD) – de que a paz estaria melhor protegida com ambos os lados armados com mísseis nucleares mortais. A teoria dissuadiria um lançamento internacional de mísseis contanto que os dois lados acreditassem que não poderiam vencer uma guerra nuclear. Mas há indícios de que alguns generais soviéticos acreditavam que poderiam vencer uma guerra nuclear, e de qualquer maneira a MAD não protegia contra um lançamento acidental de mísseis nucleares. Apesar dos bilhões pagos em forma de tributos pelos americanos para a defesa nacional, eles estavam desamparados. Os soviéticos tinham 6 mil ogivas, e os EUA tinham outros 2 mil; quanto maior a quantidade de mísseis, maior era o risco de que oficiais mal-treinados ou despreparados pudessem lançar um míssil, sem chances de voltar atrás. Um míssil soviético poderia atingir Washington, DC, em cerca de trinta minutos. Neste sentido, Reagan buscou desenvolver um sistema de defesa que interceptaria mísseis lançados intencional ou acidentalmente.

Em 23 de março de 1983, fez um discurso em busca de apoio para o sua Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI). “Deixem-me compartilhar com vocês uma visão do futuro que ofereça esperança”, disse ele. “Voltemo-nos à força tecnológica que gerou a nossa grandiosa base industrial e tem nos dado a qualidade de vida de que desfrutamos hoje. (…) A tecnologia atual alcançou um nível tal de sofisticação que é razoável que iniciemos este esforço. Vai levar anos, provavelmente décadas de esforços em diversas frentes. Haverá fracassos e contratempos, assim como haverá sucessos e avanços. (…) Mas não é válido todo investimento necessário para livrar o mundo da ameaça de uma guerra nuclear?”.

No salão oval, Reagan se prepara para o dircurso sobre o SDI – Iniciativa Estratégica de Defesa em português.

A União Soviética condenou a proposta. O dirigente soviético Yuri Andropov, que havia chefiado a polícia secreta, chamou a SDI de “insana”. Muitos americanos não acreditaram na viabilidade do projeto e ridicularizaram-no como “Guerra nas Estrelas”. Quando alguns críticos avisaram que a SDI iria provocar os soviéticos a expandir seu próprio sistema de defesa antimísseis ou mesmo a lançar um primeiro ataque preventivo contra os Estados Unidos, Reagan se dispôs a compartilhar tecnologias de defesa antimísseis com os soviéticos.

Conforme o biógrafo Dinesh D’Souza explicou, “a SDI teve duas consequências políticas não antecipadas pelos críticos de Reagan. Ela destruiu a base do movimento de não-proliferação, pois Reagan se mostrou mais comprometido do que sua liderança em reduzir o perigo representado pelo arsenal nuclear soviético para os americanos. Reagan parecia ter encontrado uma maneira mais criativa para que os EUA se aproximassem unilateralmente da eliminação da ameaça nuclear. A SDI era o desarmamento por meio da tecnologia em vez da diplomacia. Além disso, para o completo espanto do establishment em defesa do controle de armas, o mero conceito de SDI realizou exatamente o que Reagan disse que faria: trouxe a União Soviética de volta à mesa de negociações”. Os soviéticos temiam que não pudessem acompanhar o desenvolvimento americano de um sistema de defesa antimísseis.

Os eventos mudaram de rumo em 31 de agosto de 1983, quando os soviéticos abateram um avião comercial sul-coreano que havia adentrado o espaço aéreo soviético. O número de mortos foi de 269, incluindo 61 americanos. Reagan condenou o incidente como “um ato de barbarismo”. Mikhail Gorbachev, atuando em lugar do Secretário Geral Andropov, afirmou que o avião sul-coreano era um avião espião, e a imprensa soviética comparou Reagan a Hitler. Reagan refletiu: “Se, como algumas pessoas especularam, os pilotos soviéticos simplesmente se enganaram, pensando que um avião de passageiros fosse um avião militar, não seria difícil imaginar um militar soviético com seu dedo próximo de um botão de ativação de uma bomba nuclear cometendo um erro ainda mais trágico. (…) Ainda, se alguém cometesse tal erro – ou se um louco estivesse em posse de um míssil nuclear – nós estaríamos indefesos. Uma vez que um míssil nuclear fosse lançado, não se poderia voltar atrás, e até que tivéssemos a Iniciativa de Defesa Estratégica operando, o mundo estaria indefeso contra mísseis nucleares”. Enquanto isso, Reagan pressionou pela instalação de mísseis Perishing II de médio-alcance e Tomahawk na Europa, e eles foram aceitos pela Grã-Bretanha, pela Itália e pela Alemanha Ocidental para contrabalancear os mísseis soviéticos SS-20 apontados para cidades da Europa Ocidental.

Reagan jurou ajudar pessoas dispostas a resistir à União Soviética – democratas na Polônia e Tchecoslováquia, fundamentalistas islâmicos no Afeganistão, autocratas tribais em Angola, direitistas na Nicarágua. Alguns destes não eram verdadeiramente amigos da liberdade, mas a estratégia de Reagan inegavelmente pressionou os soviéticos, fazendo com que eles abandonassem posições conquistadas nos anos 1970. O sucesso mais dramático veio após Reagan ter fornecido mísseis antiaéreos Stinger às guerrilhas afegãs. Conforme o ex-Secretário de Estado George P. Schultz explicou, “Os Stingers, mesmo quando divididos com cuidado, fizeram uma diferença enorme, quiçá decisiva. Os soviéticos não mais dominavam áreas usando helicópteros ou por meio dos bombardeios precisos de aviões de vôo baixo. Bombardeiros de alto nível não funcionavam contra as forças dos guerreiros da liberdade afegães, móveis e dispersas”. Os soviéticos saíram do Afeganistão em 1989. O Vietnã saiu do Camboja em 1990. Naquele ano, os sandinistas, apoiados pelos soviéticos, concordaram em realizar eleições na Nicarágua, e perderam. As forças cubanas deixaram Angola em 1991.

O único equívoco sério da administração Reagan em política externa foi o escândalo Irã-contra – a venda de US$30 milhões em armamentos ao Irã para garantir a libertação dos reféns americanos mantidos por terroristas pró-Irã no Líbano, violando uma política de longa data contrária ao pagamento de resgate por reféns. Os ganhos deste negócio foram canalizados aos contras que lutavam contra o regime comunista na Nicarágua, e que haviam recebido vários bilhões de dólares em armamentos soviéticos. A ajuda aos contras violou a Emenda Boland de 1984, um esforço do Congresso dominado pelos Democratas para restringir a política externa de Reagan. O promotor independente Lawrence E. Walsh não encontrou evidências de que Reagan houvesse violado a lei, e as condenações de pessoas envolvidas foram reformadas, mas o governo havia posto em risco prudentes impedimentos constitucionais.

O sucessor de Andropov, Konstantin Chernenko, morreu em março de 1985, e os figurões soviéticos aparentemente perceberam que necessitavam de alguém que fosse melhor em lidar com Reagan. Escolheram Mikhail Gorbachev, de cinquenta e quatro anos. O biógrafo Lou Cannon creditou melhores habilidades analíticas a Gorbachev que a Reagan, ainda que ele pensasse que o principal problema no comunismo fosse a corrupção e não a coerção. Ele pensava que o problema central fosse o alcoolismo generalizado. Ele aumentou os gastos governamentais em maquinário e indústria pesada, como Stalin havia feito, mas isso agravou a escassez de bens de consumo. Então ele lançou sua reforma chamada perestroika, mas, como o historiador Martin Malia explicou em The Soviet Tragedy [“A tragédia soviética”] (1994), “não havia mercado nacional, preços reais ou agricultura livre; ademais, 90% da economia permaneceu nacionalizada e diretamente gerenciada por órgãos estatais sob a supervisão do Partido”. Gorbachev cobriu déficits orçamentários imprimindo dinheiro, o que levou à inflação incontrolável. Ele lamentou que “a ciência econômica ainda não tenha oferecido um plano detalhado de como realizar a transição para uma economia dinâmica e altamente eficiente”. Gorbachev parecia ignorar a existência de A riqueza das nações, de Adam Smith, que havia oferecido justamente este plano dois séculos antes. Ele era igualmente ignorante da vasta literatura que documentava que pessoas livres são muito mais produtivas do que burocratas.

Reagan encontrou Gorbachev em sua cúpula em Genebra, em novembro de 1985. Gorbachev defendeu a agressão soviética ao Afeganistão, mas Reagan, que havia visto fotos de crianças afegãs mutiladas pelos bombardeios soviéticos, condenou a agressão. Gorbachev afirmou que a SDI tornaria a guerra mais provável. Reagan atacou a doutrina MAD, que dizia que a esperança de paz era ter as superpotências apontando mísseis uma para a outra. Gorbachev concordou em visitar a América, e Reagan concordou em visitar a União Soviética. O jornalista Robert G. Kaiser noticiou que Gorbachev e seu ministro de relações exteriores, Eduard Shevardnadze, de certa maneira “decidiram que Reagan não era terrivelmente inteligente ou versado sobre assuntos específicos – eles poderiam lidar com ele”.

Ronald Reagan e Gorbachev em Genebra, 1985.

Então, conforme o jornalista Peter Sweizer noticiou, os assessores de Reagan encorajaram a Arábia Saudita a aumentar sua produção diária de petróleo, e eles o fizeram – de 2 milhões de barris para 9 milhões. Os preços do petróleo cru mergulharam de trinta dólares por barril para doze dólares em meados de 1986. Isto foi catastrófico para a União Soviética, já que 80% de seus ganhos em moeda forte vinham do petróleo. O dinheiro era desesperadoramente necessário para comprar comida e tecnologia. Os sauditas estavam produzindo tanto petróleo que lucravam mais do que antes, mas outros produtores de petróleo, como Irã, Iraque e Líbia foram severamente pressionados, tendo de cortar suas compras de armamentos soviéticos, uma grande fonte de renda para a União Soviética.

A explosão na usina Nuclear de Chernobyl, Ucrânia, em abril de 1986, deu razões para que pessoas por todo o mundo desconfiassem de Gorbachev. Embora tenha propagandeado a glasnost – um grau limitado de abertura – , ele escondeu a verdade. Quando os europeus ocidentais detectaram uma nuvem radioativa vinda da União Soviética, Gorbachev bloqueou informações. Sessenta e sete horas após a explosão, os soviéticos emitiram uma nota. Uma nuvem radioativa chegou ao Japão em 3 de maio. Então, em 14 de maio, em meio a imensas críticas, Gorbachev vociferou contra uma “campanha de irrestrita propaganda anti-soviética”.

Em outubro de 1986, Reagan e Gorbachev realizaram um encontro em Reykjavik, Islândia. Após os dois homens oferecerem dramáticas reduções armamentistas, Gorbachev exigiu que Reagan abandonasse a SDI, e Reagan deixou o diálogo. A imprensa americana condenou-o por recusar-se a negociar, mas Reagan insistiu. “Não havia como eu pudesse dizer ao nosso povo que o seu governo não o protegeria de uma destruição nuclear”. Os soviéticos ficaram chocados.

Gorbachev desistiu de tentar impedir a SDI. Em dezembro de 1987, foi a Washington e assinou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, que estabelecia que os dois países deveriam destruir os mísseis nucleares de alcance intermediário. Os soviéticos concordaram em destruir quatro vezes mais armas nucleares do que os Estados Unidos. Reagan citou um provérbio russo: Dovorey no provorey – “confie, mas verifique”.

Reagan manteve a pressão. Seu momento mais dramático ocorreu em Berlim. O governo comunista da Alemanha Oriental havia começado a construir o Muro de Berlim em um domingo, 13 de agosto de 1961, para impedir que as pessoas fugissem do comunismo. Muitos alemães orientais foram baleados tentando quebrar o muro, cavando túneis por baixo dele ou voando por cima. Em junho de 1987, Reagan fez um discurso no Muro de Berlim perto do Portão de Brandemburgo. Disse: “Secretário Geral Gorbachev, se você quer a paz, se você quer prosperidade para a União Soviética e para a Europa Oriental, se você quer liberalização: venha a este portão! Senhor Gorbachev, abra este portão! Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. Posteriormente, viajou a Moscou para mais conversas com Gorbachev. Em 31 de maio de 1988, disse aos estudantes da Universidade Estatal de Moscou: “A chave é a liberdade – liberdade de pensamento, liberdade de informação, liberdade de comunicação. … Povos não fazem guerras; governos fazem. E nenhuma mãe jamais vai estar disposta a sacrificar seus filhos por ganhos territoriais, por vantagem econômica, por ideologia. Um povo livre para escolher sempre escolherá a paz”. Dusko Doder e Louise Branson, biógrafos de Gorbachev, noticiaram que os discursos de Reagan aos estudantes russos “foram talvez suas performances mais espetaculares e tocaram profundamente a psique russa. (…) Os russos amaram-no”.

Gorbachev anunciou em 7 de dezembro de 1988 que a União Soviética, em sérios apertos financeiros, iria reduzir suas forças armadas em 10 mil tanques e 500 mil soldados, e indicou que não tentaria semear regimes comunistas em nenhum outro lugar. Em 9 de novembro de 1989, a Alemanha Oriental começou a derrubar o Muro de Berlim, um evento eletrizante que inspirou revoluções de sucesso contra os odiados opressores comunistas por toda a Europa Oriental.

Gorbachev, entretanto, continuou defendendo o monopólio político do Partido Comunista. Insistiu em manter o Plano Quinquenal, e não gostou da idéia de uma eleição presidencial, já que ele perderia, e então rejeitou as demandas russas por soberania. Mas em 25 de dezembro de 1991 a bandeira soviética foi abaixada no Kremlin, e a URSS deixou de existir. Incrivelmente, a revista Time escolheu Gorbachev como o Homem do Ano, e ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz, embora Reagan tenha prevalecido.

“O que ocorreu”, escreveu Martin Malia, “foi uma revolução de consciência, e não apenas no ex-bloco soviético, mas por todo o mundo. De repente havia um consenso geral de que o mercado, a propriedade privada e a democracia formavam um todo orgânico; que não se podia ter Estado de direito, direitos humanos, governo constitucional e pluralismo político sem uma ‘base’ material para a sociedade civil na propriedade pessoal e na liberdade de escolha econômica” – tudo o que Reagan havia defendido.

Ronald e Nancy foram celebrados por milhares quando fizeram um tour triunfal pela Europa Oriental: visitaram o que havia sobrado do Muro de Berlim e trabalharam nele com um formão. Ele discursou no parlamento polonês em Varsóvia e para estivadores poloneses em Gdansk, e foi saudado entusiasticamente em Moscou.

Após dircurso, Ronald e Nancy Reagan acenam para a platéia no Muro de Berlim em 1987.

Ironicamente, a SDI caiu nas preferências assim que grupos de interesse relacionados à defesa batalharam por verbas do Congresso. O presidente Bill Clinton presumiu que o colapso do império soviético significava que a SDI não era mais necessária, embora alguma pesquisa continuasse em menor escala, conhecida como National Missile Defense [“Defesa Nacional contra Mísseis”]. Mas o General Lee Butler, do Comando Aéreo Estratégico, avisou: “O comando russo e o sistema de aviso de aproximação de mísseis estão em estado de declínio. … Eles têm alarmes falsos de maneira rotineira, e eu estremeço ao pensar sobre a moral e a disciplina de suas forças encarregadas de foguetes”. Em janeiro de 1995, por exemplo, oficiais militares russos estiveram perto de lançar um ataque nuclear contra os Estados Unidos por pensarem que um míssil americano estaria vindo em sua direção; descobriu-se que era um foguete norueguês lançando um satélite meteorológico. Além disso, muitas bombas russas foram supostamente vendidas para países que não acatam as leis internacionais. Acredita-se que cerca de vinte países possuam mísseis de alcance intercontinental. Há uma crescente preocupação em relação à Coréia do Norte e à China, especialmente após comunistas chineses terem roubado segredos militares dos EUA; em 1999 o Congresso votou pelo avanço no desenvolvimento de um sistema de defesa anti-míssil.

Assim, a experiência ressaltou a sabedoria de Reagan. Ele demonstrou a visão e a coragem para ajudar a fazer deste um mundo mais livre e pacífico.

Artigo publicado originalmente no site Ordem Livre.