Aforismos reacionários

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colômbia, 18 de maio de 1913 – ibidem, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo conservador colombiano. Foi um dos críticos mais radicais da modernidade, traço notado pelo seu congênere alemão Ernst Jünger.

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colômbia, 18 de maio de 1913 – ibidem, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo conservador colombiano. Foi um dos críticos mais radicais da modernidade, traço notado pelo seu congênere alemão Ernst Jünger. Seu legado só foi reconhecido internacionalmente poucos anos antes do seu falecimento, graças às traduções alemãs de algumas de suas obras.

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A seguir publicamos uma seleção de alguns dos seus famosos aforismos, publicados na obra Escolios a un texto implícito.

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Dávila: aforismos reacionários

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colombia, 18 de maio de 1913 – Bogotá, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo colombiano e um dos críticos mais radicais da modernidade. Alcançou reconhecimento internacional apenas alguns anos antes de seu falecimento, graças às traduções alemãs de algumas de suas obras.

Gómez Dávila passou a maior parte de sua vida entre seu círculo de amigos e os limites de sua biblioteca. Pertenceu à alta sociedade colombiana e se educou em Paris. Devido a uma severa pneumonia, passou cerca de dois anos em sua casa, onde seria educado por professores particulares e desenvolveria sua admiração pela literatura clássica. Entretanto, nunca frequentou uma universidade. Na década de 1930, retornou à Colômbia e nunca voltou a visitar a Europa, exceto por uma estada de seis meses com sua esposa em 1949. Reuniu uma biblioteca pessoal imensa que continha mais de 30.000 volumes (conservada atualmente pela Biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá) em torno dos quais centrou toda sua existência filosófica e literária. Em 1948 ajudou a fundar a Universidad de Los Andes em Bogotá.

Extraordinariamente erudito, profundo conhecedor de línguas clássicas, defendeu uma antropologia cética fundada no estudo profundo de Tucídides e Jacob Burckhardt. Considerava que as estruturas hierárquicas deviam ordenar a sociedade, a Igreja e o Estado. Criticou o conceito de soberania popular e também algumas mudanças introduzidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II, em particular a renúncia à celebração da missa em latim. Igual a Donoso Cortés, Gómez Dávila cria que todos os erros políticos resultavam, em última instância, de erros teológicos. Esta foi a razão pela qual seu pensamento se descreve como uma forma de teologia política.

Católico e de princípios profundos, sua obra é uma crítica aberta a certas expressões da “modernidade”, às ideologias marxistas e algumas manifestações da democracia e do liberalismo, pela decadência e corrupção que abrigam. Seus aforismos (que denominava escolios) estão carregados de uma ironia corrosiva, de inteligência, e de paradoxos profundos.

Deixamos com nossos leitores uma pequena seleção dos seus aforismos, traduzidas livremente pelo autor deste artigo, retirados da sua obra mais conhecida, Escolios a Un Texto Implícito.


Anarquia

  • A anarquia que ameaça uma sociedade que se envilece não é seu castigo, senão seu remédio.
  • Ordem é o que resulta espontaneamente de uma norma. Não o que umas regras impõem.
  • De seu crescente cativeiro só resgatarão a humanidade vários séculos de anarquia.
  • Nenhuma classe social explorou mais descaradamente as outras que a que hoje chama a si mesma “Estado”.

 Arte

  • Uma vocação genuína leva o escritor a escrever só para si mesmo: primeiro por orgulho, depois por humildade.
  • A originalidade não é algo que se busca, senão algo que se encontra.
  • A mais grave acusação contra o mundo moderno é sua arquitetura.

 Conservadorismo

  • A medida que o Estado cresce o indivíduo diminui.
  • Os parlamentos, no Estado moderno, são resquícios feudais que tendem a desaparecer.
  • Onde se pense que o legislador não é onipotente, a herança medieval subsiste.
  • A política sábia é a arte de vigorizar a sociedade e de debilitar o Estado
  • A regra de ouro na política está em não realizar senão mudanças mínimas e fazê-las com a maior lentidão possível
  • A maioria das tarefas que o governante típico deste século se crê obrigado a assumir não são mais que abusos de poder.
  • Sendo a arte do possível, a política carece de interesse em certas épocas.
  • A ciência política é a arte de dosar a quantidade de liberdade que o homem suporta e a quantidade de servidão que necessita.
  • As sociedades não são nem mecanismos, nem organismos, mas estruturas. Podemos, portanto, sustentar a priori que o número de formas sociais corretas é inferior ao de combinações possíveis.
  • A falta de imaginação preserva um povo de muitas catástrofes.
  • Os conservadores atuais não são mais que liberais maltratados pela democracia.
  • Para que a sociedade floresça se requer um Estado fraco e um governo forte.

Comunismo, Marxismo e Socialismo

  • Chama-se comunista quem luta para que o Estado lhe assegure uma existência burguesa.
  • O comunista odeia o capitalismo com o complexo de Édipo. O reacionário apenas o vê com xenofobia.
  • O leitor contemporâneo ri quando o cronista medieval fala de “paladinos romanos”, mas fica sério quando o marxista disserta sobre a “burguesia grega” ou o “feudalismo americano”.
  • A propaganda, na Rússia como na China, seleciona tão intencionalmente os argumentos grosseiros e as falsificações óbvias que é necessário atribuir o triunfo do comunismo ao desdém com que trata a inteligência das multidões.
  • O socialismo deste século não herdou da sociedade burguesa que sepulta senão as deformidades denunciadas pelo socialismo do século passado.
  • O estado socialista cura o proletariado da febre que a doutrina socialista lhe inocula.
  • Um “socialismo com cara humana” é uma aguardente sem álcool.
  • “Social” é o adjetivo que serve de pretexto a todos os engodos.
  • O socialismo é reflexo enantiomorfo da sociedade medieval. Como as hierarquias infernais das hierarquias angélicas.
  • No lugar do paternalismo, o socialismo patrocina a disciplina dos orfanatos.
  • Na estepe rasa o indivíduo não acha abrigo contra a inclemência da natureza, nem na sociedade igualitária contra a inclemência do homem.
  • Para desacreditar os burgueses, Marx, simpaticamente, coloca a serviço do proletariado a noção de “classe social sem interesses particulares” que Voltaire inventou em proveito da burguesia.
  • A verdadeira eloquência estremece o auditório mas não o convence. Sem promessa de butim não há oratória eficaz.

Direito

  • A plétora de leis é indício de que ninguém mais sabe mandar com inteligência. Ou de que ninguém mais sabe obedecer com liberdade.
  • As sociedades moribundas acumulam leis como os moribundos acumulam remédios.
  • Não legislemos para a humanidade. Nem em público, nem em privado.
  • Sem propriedade “injusta” amparada por uma legislação “classista”, ninguém escapa à necessidade de viver em postura servil.
  • O ato de despojar de seus bens a um indivíduo se chama roubo, quando outro indivíduo o despoja. E justiça social, quando uma coletividade inteira o rouba.
  • “Justiça social” é o termo para exigir qualquer coisa que não tenhamos direito.

 Espiritualidade, Religião e Deus

  • O importante não é crer em Deus, senão que Deus exista.
  • Limitemos nossa ambição a praticar contra o mundo moderno uma metódica sabotagem espiritual.
  • Nos séculos espiritualmente desérticos, só se dá conta de que o século está morrendo de sede o que ainda capta águas subterrâneas.
  • Não pertenço a um mundo que perece. Prolongo e transmito uma verdade que não morre.
  • Abundam os que se creem inimigos de Deus e só alcançam ser inimigos do sacristão.
  • Religião e ciência não devem firmar pactos de limites, senão tratados de desconhecimento mútuo.
  • A Igreja deve intervir na política. Mas sem programa político.

 

Esquerda

  • As revoluções da esquerda só mudam a ordem dos naipes. A Revolução é inútil enquanto não se inventem baralhos novos com novos naipes.
  • As idéias de esquerda engendram as revoluções, as revoluções engendram as idéias de direita.
  • O esquerdista inteligente admite que sua geração não construirá a sociedade perfeita, mas confia em uma geração futura. Sua inteligência descobre sua impotência pessoal, mas seu esquerdismo lhe impede descobrir a impotência do homem.
  • A esquerda finge que o culpado do conflito não é o que cobiça os bens alheios, senão o que defende os próprios.
  • Pedir ao Estado o que só a sociedade deve fazer é o erro da esquerda.
  • A falsificação do passado é a maneira como a esquerda tem pretendido elaborar o futuro.
  • A imprensa de esquerda fabrica para a esquerda os grandes homens que a natureza e a história não lhe fabricaram.
  • Erudição e experiência são os adversários invencíveis da esquerda.
  • Os outros me devem o que me prometeram, não o que opino que devam prometer-me. Sobre o cadáver desta obviedade, imolada como vítima sacrificial aos deuses infernais, se levantam os cimentos do pensamento de esquerda.
  • O intelectual de esquerda não ataca com intrepidez nem arrogância senão as idéias que acredita estarem mortas.
  • O mau humor é secreção específica do intelecto de esquerda.
  • A esquerda atual corteja a revolução como um cinquentão caquético a uma secretária.
  • A nova esquerda congrega os que confessam a ineficácia do remédio sem deixar de crer na receita.
  • Sem mãos sujas, para o esquerdista não há consciência limpa.
  • Na “nova esquerda” se recrutará a infantaria da reação.
  • O esquerdismo não é ideologia de uma determinada condição social, senão uma definível deformação mental.
  • Existem hoje duas classes de movimentos subversivos: os que um grupo de especialistas metodicamente promove e os que unanime e espontaneamente estouram. Os primeiros são conspirações de esquerda, os segundos insurreições contra a esquerda.
  • O entusiasmo, nos regimes de esquerda, é um produto sintético elaborado pela polícia.
  • Para escandalizar o esquerdista basta dizer a verdade.
  • O esquerdista evita com tato milagro pisar os calos do poderoso autêntico. O esquerdista só vilipendia os simulacros de poder.

 

Filosofia

  • A dialética é a simulação de um diálogo dentro de um solilóquio.
  • Toda proposição universal é falsa. Menos esta.
  • Nunca é tarde demais para nada verdadeiramente importante.
  • O relativista dificilmente relativiza a si mesmo.
  • O relativismo é a solução do que é incapaz de por as coisas em ordem.
  • As verdades não são relativas. O relativo são as opiniões sobre a verdade.
  • Quem se empenha em refutar argumentos imbecis acaba fazendo-o com raciocínios estúpidos.

Liberalismo

  • Existem duas interpretações do voto popular: uma democrática, outra liberal. Segundo a interpretação democrática é verdade o que a maioria resolve; segundo a interpretação liberal a maioria meramente escolhe uma opinião. Interpretação dogmática e absolutista uma; interpretação cética e discreta, a outra.
  • A discussão do reacionário com o democrata é estéril porque nada têm em comum; por outro lado, a discussão com o liberal pode ser fértil porque compartilham vários postulados.
  • A separação dos poderes é a condição da liberdade.
  • Na sociedade moderna, o capitalismo é a única barreira ao espontâneo totalitarismo do sistema industrial.

 

 

Mundo moderno e Estado moderno

  • No Estado moderno as classes com interesses opostos não são tanto a burguesia e o proletariado como a classe que paga impostos e a classe que deles vive.
  • É difícil simpatizar com o clero moderno desde que se tornou anticlerical.
  • Ideário do homem moderno: comprar o maior número de objetos; fazer ol maior número de viagens; copular o maior número de vezes.
  • Os Evangelhos e o Manifesto comunista palidecem; o futuro do mundo está em poder da coca-cola e da pornografia.
  • O Estado moderno realizará sua essência quando a polícia, como Deus, presencie todos os atos do homem
  • A nova estupidez permite a cada época debochar das estupidezes precedentes.
  • O Estado moderno fabrica as opiniões que recolhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.

 

Outros

  • Respeitar a nossos superiores é antes de mais nada uma prova de bom gosto.
  • Com bom humor e pessimismo não é possível nem errar nem entediar-se.
  • Nenhum ser merece nosso interesse mais de um instante, ou menos de uma vida.

 

Pobreza e Riqueza

  • Aos ricos e aos pobres hoje só diferencia o dinheiro.
  • Já não há classe alta, nem povo; só há plebe pobre e plebe rica.
  • O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
  • Os pobres, na verdade, só odeiam a riqueza estúpida.
  • Só escapam da veneração ao dinheiro os que escolhem a pobreza, ou os que herdam sua fortuna. A herança é a forma nobre da riqueza.
  • O político democrata se vende sempre. Aos ricos, à vista. Aos pobres, à prazo.
  • Quando os exploradores desaparecem, os explorados se dividem em exploradores e explorados.

 

 Povo e Democracia

  • Em tempos aristocráticos o que tem valor não tem preço; em tempos democráticos o que não tem preço não tem valor.
  • O povo não se rebela nunca contra o despotismo senão contra a má alimentação.
  • O problema da educação dos educadores é problema que o democrata esquece em seu entusiasmo pela educação dos educandos.
  • O povo reivindica a liberdade de ser seu próprio tirano
  • Soberania do povo não significa consenso popular, senão atropelo por uma maioria.
  • Os pecados que escandalizam o público são menos graves que os que ele tolera.
  • Ao democrata não basta que respeitemos o que quer fazer com sua vida, exige também que respeitemos o que quer fazer com a nossa.
  • Um democrata se indigna que suas vítimas se indignem.
  • A porcentagem de eleitores que se abstém de votar mede o grau de liberdade concreta em uma democracia. Onde a liberdade é fictícia, ou onde está ameaçada, a porcentagem tende a zero.
  • Os tribunais democráticos não fazem tremer o culpado, mas o acusado.
  • “Justiça popular” é eufemismo para degola.
  • Os partidos políticos não disputam hoje pelos programas. Ao contrário, disputam os programas.

 

Progressismo

  • O progressista crê que tudo se torna logo obsoleto, salvo suas idéias.
  • O “sentido da história” seria insignificante, se nossa inteligência conseguisse entendê-lo.
  • O progressista se irrita, quando velho, ao ver que a história arquiva o que chamou de progresso quando jovem.
  • O homem é um animal educável, desde que não caia em mãos de pedagogos progressistas
  • Quando se diz que pertence a seu tempo só se está dizendo que coincide com o maior número de idiotas do momento.
  • Ninguém pode escapar de sua época, mas com um pouco de tato pode eludir suas trivialidades.
  • Nada mais perigoso que resolver problemas transitórios com soluções permanentes.
  • Os preconceitos de outras épocas nos são incompreensíveis quando os nossos nos cegam.
  • O progresso é filho do conhecimento da natureza. A fé no progresso é filha da ignorância da história.
  • O clero progressista não decepciona nunca o aficionado ao ridículo.
  • O raciocínio cardeal do progressista é belíssimo: o melhor sempre triunfa, porque se chama melhor ao que triunfa.
  • O clérigo progressista, em tempos revolucionários, acaba morto, mas não como mártir.
  • Saber quais são as reformas que o mundo necessita é o único sintoma inequívoco de estupidez.

 

Reacionários

  • A reação explícita começa no final do século XVIII; mas a reação implícita começa com a expulsão do diabo.
  • Nós reacionários concedemos aos tolos o prazer de sentir-se atrevidos pensadores de vanguarda.
  • Os textos reacionários parecem obsoletos aos contemporâneos e de uma atualidad surpreendente à posteridade.
  • Ao democrata, para refutar os argumentos do reacionário, só lhe ocorre dizer que são argumentos de reacionário.
  • O marxista não duvida da perversidade do seu adversário. O reacionário meramente suspeita que o seu seja estúpido.
  • O socialista não entende que os que prevêm o triunfo do socialismo são reacionários. Quando precisamente o são porque o prevêm.
  • Só um talento evidente faz com que perdoem as idéias de um reacionário, enquanto que as idéias do esquerdista fazem com que o perdoem por sua falta de talento.
  • O reacionário não se torna conservador senão nas épocas que guardam algo digno de ser conservado.
  • Tratar o inferior com respeito e carinho é a síndrome clássica da psicose reacionária.
  • Não é uma restauração o que o reacionário espera, senão um novo milagre.
  • O pensamento reacionário não é reação de medo, é reação ante o crime.
  • Os reacionários se recrutam entre os espectadores de primeira fila de uma revolução.
  • A emigração é o último recurso do reacionário. O último recurso do democrata é o terror.
  • O reacionário não condena a mentalidade burguesa, senão seu predomínio. O que nós reacionários deploramos é a absorção da aristocracia e do povo pela burguesia.
  • Ao esquerdista que proteste igualmente contra crimes de direita ou de esquerda, seus camaradas, com razão, lhe dizem reacionário.

 

Revolução

  • As revoluções não são filhas de pobres invejosos ou famélicos senão de ricos pusilânimes ou ambiciosos.
  • A justiça imanente postula que só um revolucionário fuzile a outro.
  • As burocracias não sucedem casualmente as revoluções. As revoluções são os partos sangrentos das burocracias.
  • A agitação revolucionária é endemia urbana e só epidemia camponesa.
  • O revolucionário quer mudar de baralho, contrarrevolucionário, de jogo.
  • Toda revolução agrava os males contra os quais eclode.
  • A estupidez é o combustível da revolução.
  • O revolucionário é, depois de tudo, um indivíduo que não se atreve a roubar sozinho.
  • A rebelião é reação contra uma condição intolerável; a revolução é técnica de um projeto burguês.
  • A falta de vergonha com que o revolucionário mata espanta mais que suas matanças.
  • A revolução absoluta é o tema predileto dos que nem sequer se atrevem a protestar quando os pisam.
  • As revoluções tem por função destruir as ilusões que as causam.
  • A estupidez é a mãe das atrocidades revolucionárias. A ferocidade é só a madrinha.

 

Sabedoria, Inteligência e Maturidade

  • A sabedoria consiste em resignar-se ao único possível sem proclamá-lo o único necessário.
  • Ser jovem é temer que nos creiam estúpidos; amadurecer é temer sê-lo.
  • Amadurecer não consiste em renunciar a nossos desejos, senão em admitir que o mundo não está obrigado a realizá-los.
  • Quem tenha curiosidade de medir sua estupidez, que conte o número de coisas que lhe parecem óbvias.
  • Exigir à inteligência que se abstenha de julgar lhe mutila sua faculdade de compreender.
  • A maturidade do espírito começa quando deixamos de sentir-nos encarregados do mundo.

Totalitarismo

  • O Estado é totalitário por essência. O despotismo total é a forma à qual espontaneamente tende.
  • Totalitarismo é a fusão sinistra de religião e estado.
  • A unanimidade, em uma sociedade sem classes, não resulta da ausência de classes, mas da presença da polícia.

O reacionário autêntico

Por Nicolás Gómez Dávila. Originalmente publicado na revista da Universidad de Antioquia, Nº 240 (Abril–Junho de 1995), p. 16-19. Traduzido e adaptado do espanhol para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

"Cristo no Deserto", de Ivan Kramskoi.
“Cristo no Deserto”, de Ivan Kramskoi.

A existência do reacionário autêntico escandaliza ao progressista. Sua presença vagamente o incomoda. Ante a atitude reacionária o progressista sente um leve menosprezo, acompanhado de surpresa e desassossego. Para aplacar seus receios, o progressista costuma interpretar esta atitude intempestiva e chocante como disfarce de interesses ou como sintoma de estultícia; mas só o jornalista, o político e o tolo não se embaraçam, secretamente, ante a tenacidade com que as mais altas inteligências do Ocidente, já há cento e cinquenta anos, acumulam objeções contra o mundo moderno. Um desdém complacente não parece, de fato, a contestação adequada a uma atitude onde se irmana um Goethe a um Dostoievski. Mas se todas as teses do reacionário surpreendem ao progressista, a mera postura reacionária o desconcerta.

Que o reacionário proteste contra a sociedade progressista, a julgue e a condene, mas que se resigne, entretanto, ao seu atual monopólio da história, lhe parece uma posição extravagante. O progressista radical, por uma parte, não compreende como o reacionário condena um fato que admite, e o progressista liberal, por outra, não entende como admite um fato que condena. O primeiro lhe exige que renuncie a condenar se reconhece que o fato é necessário, e o segundo que não se limite a abster-se se confessa que o fato é reprovável. Aquele o incita a render-se, este a agir. Ambos censuram sua passiva lealdade à derrota. O progressista radical e o progressista liberal, de fato, repreendem ao reacionário de maneira distinta, porque um sustenta que a necessidade é razão enquanto o outro afirma que a razão é liberdade. Uma visão distinta da história condiciona suas críticas. Para o progressista radical, necessidade e razão são sinônimos: a razão é a substância da necessidade, e a necessidade é o processo em que a razão se realiza. Ambas são uma só torrente de existências.

A história do progressista radical não é a soma do meramente acontecido, senão uma epifania da razão. Ainda quando ensine que o conflito é o mecanismo vetor da história, toda superação resulta de um ato necessário, e a série descontínua dos atos é a senda que traçam, ao avançar sobre a carne vencida, os passos da razão indeclinável. O progressista radical só adere à idéia que a história cauciona, porque o perfil da necessidade revela os traços da razão nascente. Do próprio curso da história emerge a norma ideal que o nimba. Convencido da racionalidade da história, o progressista radical se atribui o dever de colaborar com seu sucesso. A raiz da obrigação ética jaz, para ele, na nossa possibilidade de impulsionar a história a seus próprios fins. O progressista radical se inclina sobre o fato iminente para favorecer sua vinda, porque ao atuar no sentido da história a razão individual coincide com a razão do mundo. Para o progressista radical, pois, condenar a história não é só uma empresa vã, mas também uma empresa estúpida. Empresa vã porque a história é necessidade; empresa estúpida porque a história é razão.

O progressista liberal, por outro lado, se instala na pura contingência. A liberdade, para ele, é substância da razão, e a história é o processo em que o homem realiza sua liberdade. A história do progressista liberal não é um processo necessário, mas a ascensão da liberdade humana à plena posse de si mesma. O homem forja sua história impondo à natureza a decisão de sua livre vontade. Se o ódio e a cobiça arrastam ao homem entre labirintos sangrentos, a luta se realiza entre liberdades pervertidas e liberdades retas. A necessidade é, meramente, o peso opaco de nossa própria inércia, e o progressista liberal estima que a boa vontade pode resgatar o homem, em qualquer instante, das servidões que o oprimem.

O progressista liberal exige que a história se comporte de acordo com o que sua razão postula, posto que a liberdade a cria; e como sua liberdade também engendra as causas que defende, nenhum fato pode primar contra o direito que a liberdade estabelece. O ato revolucionário condensa a obrigação ética do progressista liberal, porque romper o que a estorva é o ato essencial da liberdade que se realiza. A história é uma matéria inerte moldada por uma vontade soberana. Para o progressista liberal, pois, resignar-se à história é uma atitude imoral e estúpida. Estúpida porque a história é liberdade; imoral porque a liberdade é nossa essência.

O reacionário, no entanto, é o estulto que assume a vaidade de condenar a história, e a imoralidade de resignar-se a ela. Progressismo radical e progressismo liberal elaboram visões parciais. A história não é necessidade, nem liberdade, senão sua integração flexível. A história, de fato, não é um monstro divino. A cortina de poeira humana não parece levantar-se como sob o hálito de uma besta sagrada; as épocas não parecem ordenar-se como estágios na embriogenia de um animal metafísico; os fatos não se imbricam uns aos outros como escamas de um peixe celeste. Mas se a história não é um sistema abstrato que germina sob leis implacáveis, tampouco é o dócil alimento da loucura humana. A gana e vontade gratuita do homem não são seu reitor supremo. Os fatos não se moldam, como uma pasta viscosa e plástica, entre dedos afanosos.

De fato, a história não resulta de uma necessidade impessoal, nem de um capricho humano, senão de uma dialética da vontade onde a opção livre se desenvolve em conseqüências necessárias. A história não se desenvolve como um processo dialético único e autônomo, que prolonga em dialética vital a dialética da natureza inanimada, senão em um pluralismo de processos dialéticos, numerosos como os atos livres e atados à diversidade de seus solos carnais. Se a liberdade é o ato criador da história, se cada ato livre engendra uma história nova, o livre ato criador se projeta sobre o mundo em um processo irrevogável. A liberdade secreta a história como uma aranha metafísica a geometria de sua teia. A liberdade, de fato, se aliena no próprio gesto em que se assume, porque o ato livre possui uma estrutura coerente, uma organização interna, uma proliferação normal de seqüelas. O ato se desdobra, dilata e expande de acordo com seu caráter íntimo e com sua natureza inteligível. Cada ato submete uma parte do mundo a uma configuração específica.

A história, portanto, é uma liga de liberdades endurecidas em processos dialéticos. Quanto mais fundo seja o estrato de onde brota o ato livre, mais variadas são as zonas de atividade que o processo determina, e maior sua duração. O ato superficial e periférico se esgota em episódios biográficos, enquanto o ato central e profundo pode criar uma época para uma sociedade inteira. A história se articula, assim, em instantes e em épocas: em atos livres e em processos dialéticos. Os instantes são sua alma fugitiva, as épocas seu corpo tangível. As épocas se estendem como trechos entre dois instantes: seu instante germinal, e o instante onde clausura o ato incoativo de uma nova vida. Sobre dobradiças de liberdade giram portas de bronze. As épocas têm uma duração irrevogável: o encontro com processos surgidos desde uma maior profundidade pode interrompê-las, a inércia da vontade pode prolongá-las. A conversão é possível, a passividade familiar. A história é uma necessidade que a liberdade engendra e a casualidade destroça.

As épocas coletivas são o resultado de uma comunhão ativa em uma decisão idêntica, ou da contaminação passiva de vontades inertes; mas enquanto dura o processo dialético para o qual as liberdades se inclinaram, a liberdade do inconforme se retorce em uma ineficaz rebeldia. A liberdade social não é opção permanente, mas brandura repentina na conjuntura das coisas. O exercício da liberdade supõe uma inteligência sensível à história, porque ante a liberdade alienada de uma sociedade inteira o homem só pode ouvir o ruído da necessidade que se quebra. Todo propósito se frustra se não se insere nas fendas cardeais de uma vida.

Frente à história só surge a obrigação ética de atuar quando a consciência aprova a finalidade que momentaneamente impera ou quando as circunstâncias culminam em uma conjuntura propícia à nossa liberdade. O homem que o destino coloca em uma época sem fim previsível, e cujo caráter fere os mais profundos nervos de seu ser, não pode sacrificar, atropeladamente, sua repugnância a seus brios, nem sua inteligência à sua vaidade. O gesto espetacular e vão merece o aplauso público, e o desdém daqueles a quem a meditação reclama. Nas paragens sombrias da história, o homem deve resignar-se a minar com paciência as soberbas humanas. O homem pode, assim, condenar a necessidade sem contradizer-se, ainda que não possa agir senão quando a necessidade se derruba. Se o reacionário admite a atual esterilidade de seus princípios e a inutilidade de suas censuras, não é porque lhe baste o espetáculo das confusões humanas. O reacionário não se abstém de agir porque o risco o espanta, mas porque estima que atualmente as forças sociais inclinam-se rapidamente para uma meta que desdenha. Dentro do atual processo, as forças sociais cavaram seu curso na rocha, e nada mudará seu rumo enquanto não deságüem no raso de uma planície incerta. A gesticulação dos náufragos só faz fluir seus corpos paralelamente à outra margem. Mas se o reacionário é impotente em nosso tempo, sua condição o obriga a testemunhar seu asco. A liberdade, para o reacionário, é submissão a um mandato.

De fato, ainda quando não seja nem necessidade, nem capricho, a história, para o reacionário, não é, entretanto, dialética da vontade imanente, senão aventura temporal entre o homem e o que lhe transcende. Suas obras são traços, sobre a areia revolvida, do corpo do homem e do corpo do anjo. A história do reacionário é um farrapo, rasgado pela liberdade do homem, que oscila ao sopro do destino. O reacionário não pode calar-se porque sua liberdade não é meramente o asilo onde o homem escapa ao tráfego que o aturde, e onde se refugia para assumir-se a si mesmo. No ato livre o reacionário não toma, tão somente, posse de sua essência. A liberdade não é uma possibilidade abstrata de escolher entre bens conhecidos, mas a concreta condição dentro da qual nos é outorgada a posse de novos bens. A liberdade não é instância que decide pleitos entre instintos, senão a montanha desde a qual o homem contempla a ascensão de novas estrelas, entre o pó luminoso do céu estrelado. A liberdade coloca o homem entre proibições que não são físicas e imperativos que não são vitais. O instante livre dissipa a vã claridade do dia, para que se erga, sobre o horizonte da alma, o imóvel universo que desliza suas luzes transeuntes sobre o tremor de nossa carne. Se o progressista se inclina ao futuro, e o conservador ao passado, o reacionário não mede seus desejos com a história de ontem ou com a história de amanhã. O reacionário não clama o que há de trazer a próxima alvorada, nem se aferra às últimas sombras da noite. Sua morada se levanta neste espaço luminoso onde as essências o interpelam com suas presenças imortais. O reacionário escapa à servidão da história, porque persegue na selva humana a pegada de passos divinos. Os homens e os fatos são, para o reacionário, uma carne servil e mortal que alentam sopros tramontanos. Ser reacionário é defender causas que não rodam sobre o tabuleiro da história, causas que não importa perder. Ser reacionário é saber que apenas descobrimos o que cremos inventar; é admitir que nossa imaginação não cria, senão desnuda corpos brandos. Ser reacionário não é abraçar determinadas causas, nem advogar por determinados fins, senão submeter nossa vontade à necessidade que não constrange, render nossa liberdade à exigência que não compele; é encontrar as evidências que nos guiam adormecidos à margem de lagoas milenares. O reacionário não é o sonhador nostálgico de passados abolidos, é o caçador de sombras sagradas sobre as colinas eternas.

Como Ser um Conservador Anti-Socialista Não-Liberal

Por Roger Scruton. Publicado originalmente em inglês no The Imaginative Conservative. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

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Os intelectuais do pós-guerra herdaram dois grandes sistemas de pensamento político com os quais satisfizeram seu desejo doutrinário: liberalismo e socialismo. É uma prova da persistência da mentalidade dicotomizadora que, mesmo no Leste Europeu, o “conflito mundial” que durou setenta anos era frenquentemente entendido nestes termos, como uma oposição entre estes sistemas. E porque eles são sistemas, assume-se que eles são organicamente unificados, que você não pode adotar qualquer parte deles sem aceitar o todo. Mas deixemos bem claro desde o início, partindo da nossa atual conjuntura, nada é mais óbvio sobre estes dois sistemas que o fato de que eles são, em seus pressupostos, substancialmente a mesma coisa. Ambos propõem uma descrição de nossa condição e uma solução ideal para ela, em termos que são seculares, abstratos, universais e igualitários. Ambos vêem o mundo em termos “dessacralizados”, em termos que, na verdade, não correspondem à qualquer experiência humana comum e duradoura mas somente aos frios e minguados paradigmas que assombram os cérebros dos intelectuais. Ambas são abstratas, mesmo quando se pretendem uma visão da história humana. Sua história, como a sua filosofia, é alienada da circunstância concreta da agência human e, de fato, no caso do marxismo, chega ao ponto de negar a eficácia da agência humana, preferindo ver o mundo como uma confluência de forças impessoais. As idéias pelas quais os homens vivem e encontram sua identidade local – idéias de lealdade, de país ou nação, de religião e dever – todas estas idéias são para o socialista mera ideologia, e para o liberal, questões de escolha “privada”, a ser respeitadas pelo Estado somente porque realmente não importam ao Estado. Somente em alguns poucos lugares da Europa e da América uma pessoa pode dizer-se conservadora e esperar ser levada a sério. A primeira tarefa do conservadorismo é, portanto, criar uma linguagem onde “conservador” deixe de ser um um termo pejorativo. Esta tarefa é parte de um outro esforço, maior: o de purificar a língua da “sloganização” perminiciosa que tem se apoderado dela. Não será um empreendimento fácil. De certo modo isto é tudo o que a política é. Como os comunistas descobriram desde o princípio, controlar a linguagem é controlar o pensamento – não o pensamento de verdade, mas as possibilidades de pensamento. É em parte devido aos bem-sucedidos esforços dos comunistas – ajudados, é claro, por uma guerra mundial que eles ajudaram a precipar – que nossos pais pensavam em termos de dicotomias rudimentares. Esquerda-direita, socialista-capitalista, e assim por diante. Tais eram os “temas de debate” que herdamos, a tal ponto que não ser “de esquerda” implicava que você era “de direita”; e, se não um comunista, então muito mais próximo do fascismo; se não um socialista, então um defensor do “capitalismo” como sistema econômico e político.

Se há uma dicotomia básica que enfrentamos hoje, é entre nós – os herdeiros do que sobrou da civilização ocidental e seu pensamento político – e os vendedores de dicotomias. Não existe a tal oposição entre esquerda e direita, ou entre comunismo e fascismo. Há simplesmente uma eterna aliança – ainda que uma “aliança dos injustos” que está sempre prestes a violar os acordos pelos quais se forma – entre aqueles que pensam em termos de dicotomias e rótulos. A eles pertence o novo estilo da política, a ciência que efetivamente substituiu “a política” tal e como esta sempre foi. A eles pertence o mundo das “forças” e “movimentos”; o mundo percebido por estas mentes infantis é um mundo em estado constante de agitação e conflito, avançando ora à esquerda, ora à direita, conforme as previsões precipitadas deste ou daquele teórico do destino social do homem. Acima de tudo, a mentalidade dicotomizadora necessita de um sistema. Ela busca um fundamento teórico da condição social e política do homem, do qual possa extrair a doutrina que responderá a todas as circunstâncias materiais.

Ambos os sistemas também são universais. Um socialismo internacional é o ideal declarado pela maioria dos socialistas; e um liberalismo internacional é a tendência implícita do liberal. A nenhum dos sistemas parece inteligível que os homens vivam não para aspirações universais, mas para sentimentos de pertencimento local; não por uma “solidariedade” que envola o mundo todo de ponta à ponta, mas por obrigações entendidas em termos que separam os homens da maioria dos seus vizinhos—termos como história nacional, religião, língua, e os costumes que fornecem a base da legitimidade. Finalmente – e a importância disto nunca deve ser subestimada – tanto socialismo como liberalismo são, em última análise, igualitários. Ambos partem do princípio que todos os homens são iguais em todos os aspectos relevantes para a política. Para o socialista, os homens são iguais em suas necessidades, e portanto devem ser iguais em tudo que concerne a satisfação das suas necessidades. Para o liberal, eles são iguais em direitos, e portanto devem ser iguais em tudo que afete sua posição política e social.

Devo dizer que eu tenho mais simpatia pelo liberal do que pela posição socialista. Pois ele se baseia em uma filosofia que não só respeita a realidade da ação humana, mas também tenta conciliar a nossa existência política com as liberdades elementares que são constantemente ameaçadas. Mas – qualquer que seja o seu valor como um sistema filosófico, o liberalismo continua sendo, para mim, não mais do que isso – um corretivo constante para uma dada realidade, mas não a realidade em si. É uma sombra, lançada pela luz da razão, cuja existência depende do corpo maciço que obstrui a luz, o corpo da existência política do homem.

A existência política do homem desafia os quatro axiomas do liberalismo e do socialismo. Não é secular, mas espiritual, não abstrato, mas concreto, não universal, mas particular, e não igualitária, mas repleta de diversidade, desigualdade, privilégio e poder. E assim deve ser. Eu digo que é espiritual, pois acredito que o mundo como o homem entende – o Lebenswelt – lhe é dado em termos que levam a marca permanente de obrigações que ultrapassam o seu entendimento. Ele nasce em um mundo que exige dele o sacrifício, e que lhe promete recompensas obscuras. Este mundo é concreto, não pode ser descrito numa língua abstrata do teórico socialista ou liberal sem remover a pele de significância que o torna perceptível. O mundo do socialista e o mundo do liberal são como esqueletos mortos, dos quais a pele viva foi removida. Mas este mundo real, o viver, o mundo social, é uma particularidade, uma coisa vital, e deve, para florescer, distribuir diferentemente e desigualmente sua vida sobre as suas partes. A igualdade abstrata do socialista e do liberal não tem lugar neste mundo, e pode ser realizada apenas pela afirmação de controles tão grandes a ponto de destruir a si mesmos.

A fim de justificar, e de fato ganhar a sua guerra com a realidade, a mente intelectual desenvolveu uma linguagem aniquiladora que usa para descrevê-la. Todas as realidades políticas são descritas fora da história, como se fosse possível ser estabelecida em qualquer lugar, a qualquer momento. Assim, o fenômeno particular polonês da “Solidariedade” é empurrado para as formas abstratas ditadas pela teoria da “democracia liberal”. Ele é visto até mesmo como uma espécie de socialismo, especialmente por intelectuais franceses para os quais não há nada bom que não possa ser chamado de socialista. O exemplo é ameaçador. Se quisermos voltar à realidade, devemos procurar uma linguagem que é escrupulosa em relação ao mundo humano.

Uma generalidade, no entanto, é útil para nós, justamente porque, por trás dela, milhares de particularidades se encontram escondidas. Refiro-me à ideia de legitimidade. Para seu imenso crédito, os liberais tentaram dar uma ideia alternativa de legitimidade – com a qual desafiam os direitos históricos que deveriam ser extintos pelo triunfo de seu sistema. A primeira, e última, condenação do comunismo desmentiu a ideia de legitimidade com uma gargalhada cavernosa. Não é a minha preocupação argumentar com o liberal, cujas idéias devem, eventualmente, ser incorporados em qualquer teoria filosófica de governo legítimo. Eu gostaria apenas de sugerir uma alternativa não-liberal, livre do contágio da teoria.

Entre as várias dicotomias que têm pulverizado a inteligência moderna – suponho que devido a Weber – aquelas entre a legitimidade e a legalidade, entre os modos de autoridade “tradicional” e “racional-legal”, tem sido a dicotomia mais prejudicial. Somente se a lei é mal-interpretada, como um sistema de abstrações, a legalidade pode ser considerada uma alternativa à – em vez de uma uma realização particular da – legitimidade. Mas a lei abstrata, por esse motivo, não possui uma força duradoura.

Legitimidade é, simplesmente, o direito ao comando político. E este direito inclui o exercício da lei. O que confere este direito sobre um povo? Alguns diriam que a sua “escolha”. Mas essa ideia ignora o fato de que temos apenas os instrumentos mais rudimentares pelo qual as escolhas são medidas, e essas escolhas dizem respeito apenas à mais fortuita das coisas. Além disso, o que leva as pessoas a aceitarem a “escolha” que é imposta a eles por seus companheiros, se não um sentimento prévio que eles estão unidos em uma ordem legítima?

A tarefa para o conservador é encontrar os fundamentos da existência política concreta, e trabalhar para o restabelecimento de um governo legítimo em um mundo que foi varrido e desprotegido por abstrações intelectuais. Nosso modelo final para um fim legítimo é aquele que é dado historicamente, para as pessoas unidas por seu senso de um destino comum, uma cultura comum e uma fonte comum dos valores que regem suas vidas.

A intelligentsia liberal no Ocidente, como a antiga intelligentsia comunista no Oriente, persistentemente se recusou a aceitar a naturalidade da existência humana. El tornou a vida, e em particular a vida política, em uma espécie de experiência intelectual. Vendo a infelicidade do homem, ela se pergunta – o que deu errado? Sonha com um mundo em que um ideal abstrato de justiça se tornará realidade. Procura, em todos os lugares, uma única solução que irá resolver os conflitos e restaurar a harmonia em todos os lugares, seja no Pólo Norte ou no Equador. Por isso, a total incapacidade do liberalismo para fornecer uma solução para aqueles que estão aflitos por uma ilegitimidade totalitária. O liberal começa a partir do mesmo pressuposto do totalitário, ou seja, que a política é um meio para um fim, e o fim é a igualdade – não uma igualdade material, mas a igualdade moral, uma igualdade de “direitos”. A democracia é o resultado necessário deste ideal liberal, uma vez que a democracia é a realização final da igualdade política. Para o liberal, a única forma de se opor ao totalitarismo é através da lenta e constante democratização da ordem social.

Quem pode duvidar do apelo dessa ideia? Mas esta negligencia um fato inescapável. Eu não consigo ver a minha vida como os liberais desejam ver a vida política. Eu não consigo ver a minha vida como um experimento. Nem posso considerar minhas obrigações como sendo inteiramente criações da minha liberdade, de ações responsáveis. Eu nasci em uma situação que eu não criei, e estou sobrecarregado desde o nascimento com as obrigações que não são de minha própria concepção. Minha dívida básica para o mundo não é de justiça, mas de piedade, e é só quando eu reconhecer esse fato que eu posso ser verdadeiramente eu. Apenas em relação a minha dada situação é que posso formar esses valores e pretensões sociais que me dão forças, e assim, por fim, experimentar a liberdade.

Qualquer avaliação genuína do nosso sentimento de legitimidade deve começar com o reconhecimento de que a piedade precede a justiça, tanto em nossas vidas, quanto em nosso pensamento, e que, até que tenhamos nos associado um lugar e a um povo, e comecemos a pensá-los como “nossos”, as exigência de justiça, a superstição da igualdade, são inteiramente sem sentido para nós. Mas esse apego ao lugar e as pessoas não é escolhido: não é o resultado de uma reflexão liberal sobre os direitos do homem, nem é concebido no espírito experimental que é tão importante para o programa socialista. Nascemos para as obrigações da família, e na experiência de nós mesmos como partes de um todo maior. Não reconhecer a prioridade desta experiência é admitir a premissa maior do pensamento totalitário, que afirma que a existência política nada mais é que um experimento de longo prazo. Há uma visão particular, ainda popular entre os intelectuais de esquerda no Ocidente, que o sistema soviético era um “socialismo errado.” Esse pensamento expressa precisamente o grande perigo político de nosso tempo, que é a crença de que a política envolve uma escolha de sistemas, como um meio para um fim, de modo que um sistema pode “dar errado”, enquanto outro “dar certo.” A verdade é que o socialismo é errado, justamente porque acredita que ele pode dar certo – justamente porque ele vê a política como um meio para um fim. A política é uma forma de existência social, cujo fundamento é as obrigações dadas a partir do qual nossas identidades sociais são formadas. A política é uma forma de associação que não é um meio para um fim, mas um fim em si mesmo. É fundada na legitimidade, e legitimidade reside em nosso senso de que somos feitos por nossa herança.

Assim, se quisermos redescobrir as raízes de ordem política, devemos tentar endossar as obrigações não escolhidas que nos conferem nossa identidade política, e que estabelecem para um polonês que ele  não pode ser governado de Moscou, ou para um habitante das Ilhas Malvinas que ele não pode ser legitimamente governado a partir de Buenos Aires.

Vale a pena fazer uma pausa para mencionar outra generalidade, rival, que tem sido de algum serviço para o intelectual de esquerda liberal no nosso tempo, em seu esforço de acabar com o passado e encontrar uma base política obrigatória que olha apenas para o presente e para o futuro. É a ideia do “povo” como uma fonte de ordem legítima. A ideia é normalmente combinada com a fantasia de que o intelectual tem alguma faculdade peculiar de ouvir, e também articular, a “voz do povo.” Esta auto-ilusão, que persistiu inalterada desde os tempos da Revolução Francesa, expressa a preocupação do intelectual de se reunir com a ordem social de que seu próprio pensamento foi tão tragicamente separado.

Ele deseja se redimir de sua “externalidade”. Infelizmente, entretanto, ele consegue unir-se não com a sociedade, mas só com outras abstrações intelectuais – “o povo” – projetadas de acordo com exigências teóricas impecáveis, precisamente para ocultar a intolerabilidade da realidade da vida cotidiana. “O povo” não existe. Mesmo se existisse, seria autoridade para nada, uma vez que não teria nenhuma base concreta sobre a qual construir a sua legitimidade. Ninguém pode falar para o povo. A verdade, no entanto, se esforça para ser dita, e pode encontrar expressão, ora nesses lábios, ora naqueles.

Ao contrário do “povo”, a nação não é uma abstração. É um dado da realidade histórica. É construído em particular e imediato numa linguagem, costume, religião e cultura. Ela contém em si a sugestão de uma ordem legítima. Isto, creio eu, deve ser sempre lembrado, mesmo por aqueles – e isso inclui a maioria de nós agora – que hesitam em adotar o nacionalismo objetivo que surgiu a partir do Congresso de Viena e que a princípio pacificou, mas, posteriormente, destruiu, o nosso continente.

Mas, certamente, você vai dizer, não há outra fonte de legitimidade, que não requeira o apoio dessas obrigações piedosas que parecem nos comprometer com tanto na base de tão pouco? Não há uma legitimidade a ser encontrada na democracia, que um dia substituirá o apelo à piedade?

Essa é uma grande questão. Mas duas coisas precisam ser ditas em resposta. Em primeiro lugar, a “democracia” é um termo disputado, e ninguém sabe bem o que isso significa ou como garantir sua estabilidade. Devemos esperar até que todos os paradoxos da escolha social tenham sido resolvidos antes de formular nossos compromissos políticos?

Em segundo lugar, o que as pessoas têm apreciado na democracia não é uma escolha coletiva periódica. O que há de tão estimável no fato de que uma maioria ignorante de vez em quando escolha ser orientada por um novo partido, em direção a objetivos que não entendem melhor do que entendiam os objetivos do partido anterior? O que é apreciado são certas virtudes políticas que associamos justamente com a democracia britânica e americana, mas que já existia antes da democracia, e poderia ser estabelecida em outro lugar sem a sua ajuda. Estas virtudes são as seguintes:
(I) O poder limitado: ninguém pode exercer o poder ilimitado quando seus projetos estão para ser extintos por uma eleição.
(II) O governo constitucional: mas o que defende a Constituição?
(III) Justificação por consentimento.
(IV) A existência de instituições autônomas, e as associações livres que as fazem possíveis.
(V) Estado de Direito: em outras palavras, a possibilidade de adjudicar cada ato, mesmo quando ato de um oficial – mesmo quando o ato é em nome do poder soberano.
(VI) A oposição legítima: em outras palavras, o direito de formar partidos e publicar opiniões que se opõem ao governo, e o direito de lutar abertamente pelo poder.

Teóricos políticos estão familiarizados, é claro, com esses assuntos, e este não é o lugar para discuti-los em detalhes. Mas vale a pena resumir sua importância. Tomadas em conjunto, essas seis características do governo, dizem respeito não à democracia, mas à limitação constitucional. Dizendo de forma mais direta, elas denotam a separação do Estado (que é o lugar de autoridade legítima) daqueles que detêm o poder em virtude do Estado. Aqueles que exercem o poder podem ser julgados em termos das próprias funções de que sejam titulares. Esta é certamente parte essencial da verdadeira ordem política. É também uma parte indispensável de qualquer legitimidade bem elaborada. De fato, podemos ver a legitimidade do Estado Moderno como composta de duas partes: uma raíz, que é o apego devoto que atrai as pessoas a uma única entidade política, e uma árvore que cresce a partir dessa raíz, que é o estado soberano, ordenado pelos princípios que recomendei. Neste estado, o poder é submetido a condições limitantes, e de uma maneira que o torna responsável por aqueles que podem sofrer por seu exercício. Este estado mostra o verdadeiro florescimento de uma “sociedade civil” – uma vida pública que seja aberta, digna, e imbuída com uma legitimidade instintiva. Tal legalidade cresce e exprime a legitimidade que é armazenada em sua raíz. Esta é a parte superior, a parte visível da legítima polis que é tão evidentemente destruída pelas doutrinas políticas de nossos tempos. Mas a sua destruição se torna possível, não tanto pela eliminação da democracia, mas pelo sufocamento do sentimento legítimo do qual se alimenta.

A democracia pode, é claro, sustentar as seis virtudes políticas que eu listei. Mas também pode destruí-las. Todas dependem de uma coisa que a democracia não pode fornecer, e que é insinuada na questão que eu adicionei para o número (II): autoridade. O que leva as pessoas a aceitar e se comprometer com os resultados de uma eleição democrática, ou pela lei existente, ou pelas limitações incorporadas em um gabinete? O que, em suma, dá origem ao “espírito público” que notavelmente desapareceu das instituições do governo em grande parte da Europa moderna? Certamente é o respeito – às instituições, aos procedimentos, aos poderes e privilégios efetivamente apreciados. Esse respeito é derivado da sensação de que estes poderes, privilégios e procedimentos refletem algo que é verdadeiramente “nosso”, algo que cresce a partir do vínculo social que define a nossa condição. Aqui reside a autoridade do real: a que ele demonstra conter em si o resíduo da fidelidade que define o meu lugar.

Agora, o que é a verdadeira legalidade? Eu já sugeri a distinção entre a lei abstrata e a lei concreta, e eu impliquei que só a lei concreta pode realmente preencher o vácuo de legitimidade que atualmente encontra-se diante de nós. A lei concreta é exemplificada no seu melhor na tradição inglesa da lei costumeira – leis criadas por juízes em resposta aos problemas concretos que surgem diante deles, e em que os princípios emergem lentamente, e já se tornam sujeitos a severa disciplina do real. Qualquer lei que é o resultado do raciocínio judicial sério, fundada em precedentes e autoridades, tem a marca de uma ordem histórica; também continua a responder à realidade dos conflitos humanos e constitui uma tentativa genuína para resolvê-los, ao invés de ditar uma solução intelectualmente satisfatória o que pode ser inaceitável para as partes. Esse tipo de lei incorpora a verdadeira fonte de autoridade legal, que é convicção da autor de que a justiça será feita, não abstratamente, mas de acordo com seu caso particular, tendo em conta as circunstâncias específicas que são dele, e que são, talvez, até mesmo exclusivas dele. Para a lei concreta existir, de qualquer forma, deve haver uma independência judicial. E uma vez que existe a independência judicial haverá o que todos razoavelmente aspiravam sob a bandeira dos “direitos do homem”. Pois existirá a garantia de que a justiça possa ser feita, seja qual for o poder que pretende extingui-la.

Existem duas grandes ameaças lei concreta. Uma delas é a abolição da independência judicial. Isto foi conseguido pelo Partido Comunista, em prol de uma justiça “abstrata” – uma “igualdade” de recompensa – que inevitavelmente entra em conflito com as circunstâncias concretas da existência humana. A segunda ameaça é a proliferação da lei de estatuto – de lei por decreto, a lei repetidamente feita e re-feita em resposta às idéias mal feitas dos políticos e seus assessores. Toda essa lei é fatalmente defeituosa: o Partido Comunista repousava toda a sua pretensão de legalidade na geração de tais leis, ao remover o único instrumento – a independência judicial – que poderia transformá-las em verdadeiras leis, ao invés de liminares militares.

O liberalismo sempre valorizou a importância da legalidade. Mas legalidade liberal é uma legalidade abstrata, preocupada com a promoção de uma ideia puramente filosófica de “direitos humanos”. Quais valores são direitos humanos, sem o processo judicial que irá defendê-los? E além disso, ao deixar na mão de alguém esta fé abstrata e sedutora, não estamos dando a um inimigo o bastião contra o reconhecimento de sua ilegitimidade? Não existe a possibilidade de ele dizer que respeita os direitos humanos – mas direitos diferentes? (O direito de trabalhar, por exemplo, ou o direito de uma participação nos meios de produção.) Se olharmos de volta para a Revolução Francesa, vê-se o quão fácil é para a doutrina dos “direitos humanos” se tornar um instrumento da tirania mais terrível. Basta fazer como os jacobinos fizeram a abolir o sistema judicial e substituí-lo por “tribunais populares”. Então qualquer coisa pode ser feita para qualquer um, em nome dos Direitos do Homem.

Em resposta ao liberalismo, portanto, é necessário trabalhar para a restauração das circunstâncias concretas da justiça. Mas a lei concreta que eu tenho defendido é muito diferente de qualquer coisa que tanto um socialista ou um liberal aprovaria. Ela preserva as desigualdades, confere privilégios, justifica o poder. E, no entanto, é isso a sua força. Para sempre haverá desigualdades: haverá sempre o privilégio e o poder. Esses não são nada, mas sim os traços de uma ordem política real. Desde que as igualdades, privilégios e poderem exista, é certo que elas devam coexistir com uma lei que possa justificá-las. Caso contrário, elas serão injustas e também descontroladas.


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Entrevista com Marcelo Mota Ribeiro, representante do CONS

Entrevista realizada em 16 de junho de 2013. Por motivos de estilo e legibilidade, esta entrevista foi editada. Para lê-la no formato original de perguntas e respostas, clique aqui.

Marcelo Mota Ribeiro.

Nosso entrevistado, Marcelo Mota Ribeiro, é mineiro de Muriaé e tem 33 anos. É graduado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, trabalha há dez anos na área de TI como Desenvolvedor de Software em Belo Horizonte, cidade onde atualmente reside. É graduando em Direito pela UNA/BH, onde presidiu o Diretório Acadêmico Mirtes de Campos. Filiado ao PFL, posteriormente ao Democratas, foi Presidente Municipal e Vice-Presidente Estadual da Juventude do partido em seu Estado, onde coordenou diversas campanhas eleitorais. É o atual coordenador nacional do CONS.

O CONS é um movimento espontâneo que surgiu em meados de 2009, quando diversos indivíduos declaradamente conservadores passaram a se reunir na rede social do Orkut assumindo este acrônimo como uma identidade mútua.

Atualmente participam de um grupo de discussão que reúne mais de duas mil pessoas, embora em seu cadastro oficial – lançado recentemente – constem trezentos registros de membros apoiadores dispostos a trabalhar diretamente na causa. Seu coordenador nacional, Marcelo Mota Ribeiro, considera que o movimento ainda está em uma fase embrionária de concepção e maturação. Apesar do senso de urgência, aponta que o movimento privilegia a solidificação de seus pilares em detrimento de agir com pressa para ver as coisas acontecerem o que, segundo ele, foi a causa do fracasso de muitas outras iniciativas de direita.

Segundo Marcelo, é impreciso apontar uma data precisa da fundação do movimento. Os membros do CONS pretendem realizar, com previsão para 31 de março de 2014, o seu primeiro Encontro Nacional para oficializar a fundação.

Quais são as ideias e os objetivos do CONS?

As ideias do grupo podem ser melhor conhecidas no seu site, indicado ao final deste artigo. Elas estão agrupadas hierarquicamente em três níveis: elementares, fundamentais e políticas. O nível mais baixo agrupa os fins, enquanto os outros agrupam os princípios e os meios.

No primeiro nível, elementar, advogam a proteção de valores inalienáveis como a vida, a liberdade religiosa, a autonomia da família e a dignidade da pessoa humana. No plano fundamental, a liberdade e a propriedade. Por fim, no nível político, a segurança jurídica, o império das leis e a limitação da intervenção governamental na vida social, cultural e política.

O objetivo do movimento é levar pessoas conservadoras a assumir uma identidade política, uma marca, que seria o CONS. Segundo Marcelo, os conservadores brasileiros estão alheios à militância em defesa de suas ideias e de seus valores, e a ausência desta identidade dificulta uma interação colaborativa que permita uma atuação organizada.

Quais são as figuras inspiradoras do CONS? O que leem os conservadores?
O CONS é um grupo heterogêneo. Pessoas de diferentes vertentes que bebem de diferentes fontes, embora comunguem de ideias fundamentais que são comunitárias.

Influências nacionais na filosofia conservadora: Olavo de Carvalho, Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos.

Marcelo fala apenas por si quando afirma que muito aprendeu com a leitura dos apontamentos de Olavo de Carvalho, embora este autor seja notável influência para grande parte dos conservadores brasileiros. No âmbito nacional, Marcelo adiciona as influências de Plínio Corrêa de Oliveira e Mário Ferreira dos Santos, dentre outros. Pensadores conservadores de fora do Brasil incluem Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk e, no campo econômico, Milton Friedman, Ludwig von Mises e Friedrich A. Hayek, os quais Marcelo considera leituras fundamentais.

Influências internacionais na filosofia conservadora: Thomas Hobbes, Edmund Burke e Russel Kirk.

Outras figuras em atividade que inspiram o movimento com suas críticas políticas são Bruno Garschagen, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé, Roger Scruton e outros articulistas. No campo político, personalidades do século XX como Winston Churchill, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Carlos Lacerda também servem de inspiração.

Quais são os símbolos e cores dos conservadores no Brasil?

Uma marca, representada por uma Harpia, águia típica do norte do Brasil, combinada em círculo de fundo azul com as estrelas que representam nossos Estados. As cores, derivadas da bandeira nacional, são o azul, o amarelo e o branco.

Como o CONS pode fazer do Brasil um país melhor?

Objetivamente: contribuindo com ações que permitam o fortalecimento do pensamento conservador, na esfera cultural e no plano político. Os conservadores entendem que o equilíbrio entre forças progressistas e conservadoras é requisito essencial para uma sociedade prosperar. A preponderância de uma delas leva a um sistema “manco”, sem sensatez e ponderação nas decisões econômicas e políticas.

Acreditam que toda sociedade próspera se funda em uma base de valores bem definida, com conceito claro do que é certo e do que é errado, semeando, assim, entre seus membros, o interesse em uma colaboração pacífica, em atitudes propositivas e construtivas que, independente de arranjos políticos e ideológicos, acabam por ensejar o desenvolvimento intelectual e material enquanto nação, pois os participantes se consideram mutuamente como partes de um mesmo fim.

O Brasil, infelizmente, ainda não construiu essa base de valores e por isso tem um sistema cultural e político débil, que não nos permite identificar de forma clara e real qual é a “nossa” identidade, qual é o norte que estamos a seguir.
Vivemos, não como uma nação mas, como um bando de pessoas de diferentes “nações”, vendo-nos como concorrentes, passando uns por cima de outros, sempre quando há uma chance. Não definimos, por exemplo, se o “jeitinho brasileiro” é atitude desonesta ou mérito. Não sabemos se elogiamos alguém que cria riqueza, ou se o chamamos de explorador. E, é dessa confusão que originam-se todos os demais problemas, como os relacionados à corrupção, à violência e à falta de desenvolvimento econômico. O discurso político atual, todavia, só trata da superfície e não ataca os problemas que existem na base. Por isso nada funciona, porque não é edificado sobre uma sustentação sólida e aderente ao que desejam as pessoas.

Precisamos de políticos menos proselitistas e que trabalhem mais pela construção de uma nação do que de uma carreira pessoal que só vise vencer eleições. Criando um movimento conservador, acreditam oferecer, em um futuro breve, esse tipo de agente cultural e político, que servirá de exemplo para que outras pessoas sigam o mesmo caminho e aceleremos assim a edificação desse necessário sentimento de nação, de forma livre e espontânea, de baixo para cima, do povo para o Estado, não vice-versa como se tem tentado há quinhentos anos.


Acesse o site do CONS: 
www.conservadores.com.br

Site dos articulistas mencionados no artigo:

Olavo de Carvalho;
Plínio Corrêa de Oliveira;
Bruno Garschagen;
João Pereira Coutinho;
Luiz Felipe Pondé;
Roger Scruton (em inglês).


Leia também:

Quem foi Russell Kirk?

Conteúdo original do Instituto Acton. Revisão e adaptação por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, clique aqui.

Russell Kirk, pai do movimento conservador americano, faleceu no dia 29 de abril de 1994, aos 75 anos de idade, na sua casa em Mecosta, Michigan. Mais conhecido pelo livro A mentalidade conservadora (The Conservative Mind), publicado em 1953, os escritos do Dr. Kirk influenciaram duas gerações de conservadores nos Estados Unidos e no exterior.

Foi um escritor e colunista prolífico, com mais de trinta livros publicados, tanto de ficção quanto de não-ficção, além de centenas de ensaios e resenhas. Por trinta anos editou The University Bookman, uma revista bimestral de resenhas de livros, e foi o fundador da revista acadêmica de política e cultura Modern Age. Além disso, apoiou o Instituto Acton, desde o início em 1990, com sua presença no conselho consultivo.

Nascido e criado no interior de Michigan, Dr. Kirk cultivou um vínculo com a terra e uma admiração por comunidades agrárias severamente independentes. Se formou no Michigan State College, em 1940 e foi estudar História na Duke University. Em 1942, foi recrutado para o serviço militar e passou o restante da guerra em Utah.

Essa experiência dos tempos de guerra aumentaram a desconfiança no poder estatal. As cartas desse período revelam sua oposição ao recrutamento, à ineficiência militar, à burocracia governamental, ao “paternalismo” e às economias socialistas. Temia que os proponentes do New Deal condenariam os Estados Unidos à tirania de uma economia coletivista. O período no exército, entretanto, o deu a oportunidade de aumentar o conhecimento das obras clássicas e a se preparar para estudos posteriores depois do serviço militar. Logo após a guerra foi para a St. Andrews University, na Escócia, para um doutorado sobre a tradição intelectual conservadora anglo-americana, que posteriormente se tornou o livro The Conservative Mind.

Nessa obra, Dr. Kirk expôs os seis princípios de sua filosofia: 1) os problemas políticos são fundamentalmente problemas religiosos e morais porque um propósito divino rege a sociedade e a consciência; 2) o reconhecimento da necessidade de cultivar a afeição por uma multiplicidade e variedade de modos de vida e costumes tradicionais, em oposição às ideologias reducionistas e tacanhas de esquemas sociais igualitários e utilitários; 3) as ordens e classes devem ser aceitas como pre-requisitos naturais e necessários para a harmonia social; 4) o vínculo entre propriedade e liberdade é inseparável e o nivelamento econômico acaba com o crescimento econômico; 5) a preferência por prescrever a tradição e o grande preconceito contra as grandes teorias sociais de intelectuais alienados cujas idéias, quando aplicadas como políticas públicas, liberam os impulsos anárquicos do homem; 6) a mudança não é idêntica a reforma.

O liberalismo contemporâneo persistentemente engajado de modo articulado e inteligente do Dr. Russell Kirk não era uma maneira de simplesmente criticar seus oponentes, mas de fornecer uma alternativa positiva que justificasse a preservação do que chamava “coisas permanentes” enquanto deixava livre o poder da “imaginação moral.” Sua visão sacramental católica levou às páginas impressas uma visão de humanidade cheia de cores e mistérios, composta por uma série de tradições e costumes guiados pela lei natural. À essa riqueza da verdade, sob constante ameaça, ele dedicou toda a vida para defender.

Singela homenagem a Chesterton

Hoje é aniversário de G. K. Chesterton, conhecido por algumas das pessoas que acompanham essa página. Ele foi escritor, historiador, teólogo e filosófo. De fato, um grande homem. Suas obras inspiraram muitas pessoas; entre elas, C. S. Lewis e T. S. Eliot, também grandes nomes da literatura. Bernard Shaw, um de seus maiores amigos, o descreveu como um “gênio colossal”. Franz Kafka, após ler um de seus romances, declarou: “Ele é tão alegre! Eu quase posso acreditar que ele encontrou Deus”.


Chesterton nasceu no dia 29 de maio de 1874, em Londres, no distrito de Kensington, e foi batizado na Igreja Anglicana, mais especificamente na “igrejinha de São Jorge” – como ele escreve em sua Autobiografia. Converteu-se ao catolicismo em 1922, e em 1925 concluiu O Homem Eterno, sua obra mais importante. Morreu no dia 14 de junho de 1936, e está enterrado no cemitério junto à Igreja Paroquial de Santa Teresinha do Menino Jesus, junto à esposa Frances e a secretária Dorothy Collins.

Quer conhecer mais sobre Chesterton? Que tal dar uma lida em alguns artigos dele?

Ou que tal ler um livro dele? Ortodoxia está disponível na nossa biblioteca em português.

Mais sobre Chesterton no site Chesterton Brasil: www.chestertonbrasil.org.

Somente um crítico muito superficial não consegue enxergar um eterno rebelde no coração de um conservador.