Edmund Burke

Para que o mal triunfe, basta que os bons fiquem de braços cruzados.

Nascido em Dublin, 12 de janeiro de 1729, Edmund Burke foi uma figura de pensamento complexo. Nascido em família próspera, começou o estudo de direito em Middle Temple como queria seu pai, mas tão logo começou, largou o estudo da lei para se dedicar à escrita e viagens pela Europa continental.

Burke
Edmund Burke - De retórica impecável, era conhecido como o Homem que quando falava, as bocas de toda a Europa se fechavam. Ou também, o mais retórico e racional homem louco que já existiu.

Seus escritos começaram longe de suas ideias políticas pelas quais ficou conhecido. Sua primeira obra foi “A Vindication of Natural Society”, em que demonstrou o absurdo da lógica ateísta de seu tempo, mostrando que os argumentos dessa lógica podiam ser aplicados a qualquer instituição política existente. Então, partindo para um lado mais filosófico, escreveu “A Philosophical enquiry into the origin of our ideas of the Sublime and Beautiful”, em que tratou de nossas percepções sobre o belo e o sublime, sendo o belo aquilo que esteticamente nos agrada, e o sublime aquilo que nos leva a destruir-nos. Nossa preferência pelo sublime, de acordo com Burke, marcou a transição entre o período Neo-Clássico e o Romântico.

Apenas após esses escritos, Burke entrou para a política, quando em 1765 passou a compor a Câmara dos Comuns pelo Whig Party, partido que agrupava as tendências liberais em oposição aos tories. Encabeçou a discussão sobre os limites do poder do monarca, tomando posição fortemente contra o aumento do poder dos reis e defendendo o papel dos partidos políticos no sentido de fazer oposição ao poder e evitar abusos. Escreveu, então “Thoughts on the Cause of the Present Discontents”, em que atribuiu o descontentamento da população a um grupo de neo-tories que eram conhecidos como “Os Amigos do Rei”, dizendo que o Reino Unido necessitava de um partido comprometido com seus ideais, alheio a interesses momentâneos.

Foi uma figura controversa, Edmund Burke. Era conhecido como o homem que, quando falava, calava todos os outros homens. Disso, teceu a maior crítica à Revolução Francesa que já se viu, em “Reflexões sobre a Revolução em França”. Apesar de um ferrenho defensor das reivindicações das colônias americanas e entusiasta da Revolução Gloriosa, condenou os excessos da revolta francesa. Considerava a França como uma referência na Europa, e essa revolução o preocupava por alterar todas as bases da sociedade. Acabou, em seu livro, por prever um dos maiores males que criava bases: o socialismo.

Enfim, Edmund Burke teve uma das teorias mais complexas de sua época. Ao condenar o simplismo dos iluministas, acabou por ser um símbolo tanto dos conservadores como dos liberais. Condenou o que chamava de “neo-whigs” que apoiavam a revolução de França e pretendiam fazer algo parecido na Inglaterra, mas também condenava os excessos da monarquia. Virou um símbolo da moderação, e descreveu os ingleses com uma frase que considero um exemplo para todas as nações que desejam fugir ao caos:

O povo da Inglaterra recusou, em séculos passados, mudar sua lei para adaptá-la à infalibilidade dos Papas; ele não a transformará agora em favor de uma fé cega nos dogmas dos filósofos – resistiu aos primeiros ainda que eles estivessem armados do anátema e da cruzada, resistirá aos últimos mesmo que eles ajam com a ajuda de libelos e da guilhotina

Por que eu não sou um neo-ateu

Alguns ficam confusos com a minha posição quanto à religião. Alguns chegam a pensar que sou católico e quando digo que sou ateu se assustam. Isto porque não me engajo em militância ateísta, não me identifico com os “neo-ateus” e acho a antirreligião uma babaquice que vai contra os princípios de liberdade individual ao culto, à associação e à expressão.

Sou um ateu despreocupado. Não me preocupo se as pessoas adoram Javé, Allah, ou Iansã. Isto não é relevante para mim. Deuses não são relevantes para mim. Eu os desconsidero em toda e qualquer atividade cotidiana da minha vida. Penso que a religião é um hábito, uma tradição da maioria das pessoas, embora hajam aqueles que de fato tenham e vivam a fé.

Tive minha fase de contestação da religião e de “neo-ateísmo”, mas nunca tive uma oposição forte à “rebeldia” inicial por causa da educação que minha mãe, descrente, me deu. Por isso acho muito infantil o modo como se portam hoje ateus de mais de 20 anos na cara que parecem pré-adolescentes com oxiúros. Por isso listei dez razões para que você, ateu level 1, não seja um neo-ateu por muito tempo.

1. Ateísmo não é diploma
Descobriu que é ateu ontem? Ótimo. Não precisa usar as palavras “lógica”, “razão” e “argumento” cinco vezes por frase. O fato de ser ateu não te faz mais inteligente, melhor informado ou maior conhecedor da ciência. Na verdade, grandes gênios da humanidade foram crentes até o final de suas vidas e grandes nomes da ciência hoje continuam sendo crentes. Considere que ateísmo, apesar de não ser recente, é uma filosofia minoritária entre as pessoas. A maioria das pessoas é crente e não deixa de desenvolver habilidades fantásticas por causa disso.

O grande problema dos neo-ateus é justamente o proselitismo. A maioria está recém se descobrindo como ateu e precisa se afirmar de um jeito ou de outro. O resultado é um púbere falando besteira e ofendendo os outros porque acha que é um iluminado que descobriu a verdade.

2. Religião não é doença
O neo-ateu acha que foi milagrosamente curado, e acredita que deve curar os outros “doentes”. Insiste que a religião é um mal no mundo e que ela precisa ser eliminada. Na sua cabeça, a religião é instrumento de poder, de dominação, de enganação, etc.

Iludido pela novidade, embarca numa verdadeira pregação do Devangelho. É um dever moral fazer o maior número possível de desconversões.

Não sabe portanto que a religião nunca foi o mal, e sim a repressão religiosa. Repressão religiosa é feita de religião para religião e de ideologias políticas para religiões em geral. Quando sustentamos que a religião é um mal a ser eliminado, estamos perpetuando justamente a repressão religiosa.

3. Ignorância não é força
Caindo na ilusão de que tudo que é contra a religião é “científico”, o neo-ateu pensa que crer em figuras do “ateísmo” é um tipo de ceticismo ou livre pensamento. Repete ipsis literis as besteiras de Sam Harris e Richard Dawkins sem considerar se estas pessoas estão habilitadas para discutir o assunto ou se o que dizem é lógico e faz sentido. Acreditar no que diz Dawkins sobre Teologia é como acreditar no que diz Craig sobre zoologia. Ambos podem emitir opinião sobre o assunto, mas nenhum está qualificado para discuti-lo com propriedade. Dawkins é um excelente zoólogo, e só isso.

 

Para deixar o estado de credulidade do neo-ateu, é necessário que ele entenda que o ateísmo é uma postura filosófica como as outras, que precisa ser estudada se pretende levá-la à sério. Não se pode discutir religião sem entender religião. E entendê-las não através de esteriótipos desenhados por aqueles que as atacam. Sem conhecer os argumentos do outro lado, jamais se pode ter segurança e convicção da própria posição, mas sim uma opinião escorada na credulidade, como a de um crente fanático  sem conhecimento da própria doutrina religiosa.

É mais fácil ler críticas contundentes à religião em autores que escreveram há séculos como Locke, Paine e Mill, ou até religiosos como Erasmo de Roterdã, do que nos livros de comédia e ficção de nova seita antiteísta.

4. Antiteísmo não é ateísmo
Chame como quiser: neo-ateísmo, ateísmo militante, humanismo secular, fundamentalismo ateu, etc. Antiteísmo não é ateísmo. Ateísmo, com prefixo -a-, indica uma ausência: ausência de crença, de religião, de deus ou deuses. Um ateu não acredita que deuses existem (ou acredita que deuses não existem, dá na mesma), e não segue religião teísta alguma. É só isso. Ateísmo acaba aí.

O único mandamento ateu: não seja um c*zão.

Hoje em dia pouca gente pensa nisso, mas um ateu poderia acreditar em espíritos, forças sobrenaturais e planos não-materiais. É suficiente para ser ateu que não se acredite em divindades. Nada impede a existência de um espiritismo ateu, por exemplo. De fato, existem até religiões ateístas como o positivismo (religião da humanidade), o humanismo, a cientologia, etc.

Antiteísmo é oposição às religiões teístas e ao pensamento teísta. Na prática, significa que o antiteísta acredita que a religião e a crença em deuses são um mal a ser eliminado. O antiteísmo é portanto tão intrusivo quanto uma religião expansionista, já que busca a conversão. Ou, neste caso, a “desconversão”.

5. Se fosse para pregar, eu seria crente
O antiteísta não se contenta em pregar que a religião é nociva e (des)converter os outros para a sua seita. O neo-ateu também se congrega em igrejas, virtuais ou não. Eles se juntam em congregações como a ATEA, a Liga Humanista Secular, etc.

Se fosse para pregar, ter liturgia, ir numa congregação e ter discurso oficial, eu seria crente. Qual o sentido de se congregar em torno de uma descrença? É como juntar pessoas num clube de não-torcedores do Flamengo, ou numa associação de não-moradores da Vila Cruzeiro. É óbvio que as associações se dão em razão de características comuns e positivas: torcedores do Flamengo e moradores da Vila Cruzeiro. Anticomunistas se associam, antifascistas se associam, anticapitalistas se associam. No caso dos neo-ateus, são antiteístas e antirreligiosos se associando em prol de uma doutrina política antirreligiosa.

O que não falta é religião ateísta. Desde as mais respeitáveis e milenares como Budismo, Taoísmo e Confucianismo às mais recentes e cientificistas Religião da Humanidade, Culto da Razão, Cientologia, etc. É inevitável: quanto mais ateus dogmatizam o próprio pensamento para combater religiões e quanto mais incentivam o “ateísmo organizado”, mais os “ateus” entram em esquemas prontos que formatam seu pensamento numa doutrina religiosa. Se religião fosse um problema, antiteísmo não teria virado uma.

6. O antiteísmo tem um passado imundo (e um presente também)
Toda perseguição religiosa trouxe efeitos devastadores  quando tomou o poder político. Da Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles no México aos verdadeiros massacres cometidos na União Soviética, na China, na Albânia e em todo lugar onde o comunismo se instalou ou tentou se instalar, podemos tirar a lição de que o sectarismo ateu não é menos nocivo que o religioso.

Se neo-ateus acham que podem julgar cristãos por causa das Cruzadas ou da Inquisição, desconhecem que a militância ateísta fez coisa semelhante em lugares onde crentes foram fuzilados e a religião, proibida.

Palden Choetso, monja budista, suicida-se por auto-imolação em protesto contra a repressão religiosa e a ocupação chinesa no Tibet. Protestos deste tipo são frequentes, mas pouco reportados pela mídia.

É difícil calcular quantas foram as mortes decorrentes da repressão à religião. Mas podemos citar alguns eventos desagradáveis decorrentes dela:

  • A Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles, que matou mais de 30 mil cristeros e 50 mil soldados federais.
  • O massacre de religiosos pelos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola que totaliza umas 6,8 mil pessoas.
  • Campanhas de “reeducação” e campanhas “anti-reacionárias” do Partido Comunista Chinês durante o governo de Mao Zedong. Um exemplo é a Revolução Cultural que matou cerca de 500 mil pessoas, o que inclui muitos religiosos já que a China era e é um Estado Ateu.
  • Os expurgos socialistas na Mongólia para erradicar o Lamaísmo, que custaram entre 30 mil e 35 mil vidas.
  • A repressão religiosa do governo de Enver Hoxha na Albânia.
  • A repressão comunista no Camboja, que mandou para os campos da morte  Chams (cambojanos muçulmanos), cambojanos cristãos e monges budistas.
  • As campanhas antirreligiosas da União Soviética de 1917-1921, de 1921-1928, 1928-1941, de 1958-1964, e de 1970-1990, cujo número de vítimas não é conhecido.
  • A completa repressão religiosa na Coréia do Norte, que impôs o culto ateísta ao Estado (Juche).
  • A repressão religiosa por Estados Ateus como a República Popular da China, o Laos, o Vietnã, e a Coréia do Norte, que resiste até hoje.

7. O neo-ateísmo desrespeita a liberdade de pensamento
Longe de ser um grupo aberto ao diálogo, os neo-ateus são combativos e desrespeitosos. Não admitem diálogo: para eles a religião é uma enganação, e um mal a ser extirpado.

Nesta posição, sua reação é o fechamento ao debate. As verdades estão evidentes e as peças estão dispostas no tabuleiro: de um lado os religiosos fanáticos, do outro os iluminados defensores da razão e da ciência. Incapaz de um diálogo interreligioso, ele resume sua linguagem à mera afronta à doutrina religiosa que escarnece. Não dialoga: xinga; não argumenta: faz deboche; não aceita negociação: ou você está do lado da razão ou você é um crente que precisa ser desiludido.

Não havendo espaço para diálogo, o objetivo dele é um só: calar a boca dos crentes. Ele quer que retirem as cruzes dos tribunais, que retirem a palavra “Deus” da Constituição e das notas de real, que se acabe com o ensino religioso, que se proíba os crentes de manifestar publicamente a fé ou divulgar as suas opiniões e a sua ideologia na mídia. Combatem, assim, não só a liberdade de culto como também a liberdade de expressão.

8. Darwin não é deus e ciência não é religião
A mentira mais repetida por e para neo-ateus é que religião é inimiga da ciência. É claro, se você fingir que a comunidade científica ocidental não nasceu dentro da Igreja Católica e que todo o sistema universitário ocidental não é baseado num modelo acadêmico estabelecido pela Igreja.

Outra idiotice é militar pelo evolucionismo como se fosse a corporificação da ciência e da razão. Uma teoria científica, válida hoje, pode estar refutada amanhã. O que farão se o evolucionismo for posto em cheque? Admitirão que militavam por uma mentira ou vão cair na real, que não existem “fatos científicos”, verdades incontestáveis? Outra é atacar ad nauseam o criacionismo como se todo cristão fizesse interpretação literal do Gênesis, e esquecendo que quem formulou a teoria do Big Bang era um padre. Um indivíduo pode perfeitamente ser crente e lidar com ciências sem problemas.

Típicos crentes anti-ciência: Pascal, Descartes, Newton, Mendel, Faraday, Lamaître e Schrödinger.

O pior não é ver alguém militar pelo “evolucionismo”, mas ver que o mesmo sujeito não entende a Teoria da Evolução: diz que “animais passam por mutações” ou que “o homem descende do macaco”. Para piorar, louva este ou aquele cientista e sua teoria como se fossem santos e padroeiros da ciência. Darwin, Newton e Einstein foram importantes, mas fazer desta pessoas e de deturpações de suas teorias uma bandeira de militância é idiota, deturpa a visão das pessoas da ciência, tornando-a cada vez mais impopular entre crentes.

Por fim, o cientificismo. A idéia idiota de derivar padrões morais da ciência. A ciência, assim como a filosofia e a religião, tem um escopo, um campo limitado de atuação. Ciência serve para descobrirmos coisas novas e acumular conhecimento, e não ditar como devemos empregar o conhecimento. Podemos usar energia nuclear para iluminar cidades inteiras ou para fazer armas de destruição em massa. O que determina o que fazer com os avanços científicos depende de um padrão moral extrínseco à ciência: vem de uma doutrina política, filosófica ou religiosa.

9. O ateísmo não propõe coisa alguma
Você propõe alguma coisa? Fale por si. O ateísmo não propõe coisa alguma. Ateísmo é não acreditar em deuses e religiões teístas. Ponto. Qualquer coisa além disso é parte de uma doutrina, ideologia e filosofia pessoal sua. Não existe medida científica para o bem e o mal e não vai ser você quem vai inventar.

Se você defende a política X ou Y, você fala de um conjunto de idéias políticas suas. Ateísmo é outra coisa.

10. O antiteísmo sabota a causa da razão.
Qual o sentido de difamar algo que não existe? Que tipo de pessoa escreve livros, faz vídeos e dá palestras para criticar algo que não existe? Das duas uma: ou esta pessoa quer ganhar dinheiro de trouxas, ou ela está conduzindo uma cruzada contra a lógica. Você conhece alguém que escreve livros ou faz vídeos para contestar a existência de duendes, de fadas do dente, do coelhinho da páscoa ou do papai noel? Então porque seria menos ridículo alguém que escreve para contestar a existência de deuses ou espíritos?

Dentre os males causados pelo neo-ateísmo, podemos mencionar:

  • Emperra o diálogo interreligioso.
  • Inculca nos crentes o ódio pela ciência, em vez de estimular a sua apreciação.
  • Deturpa as ciências pela propagação de versões caricaturizadas de teorias científicas.
  • Cria um tumulto em torno de um ente que não existe, provocando mais militância de ambos os lados.
  • Desvia o foco do estudo das ciências de questões mais proveitosas para questões que tem pouca aplicação prática.
  • Pseudoceticismo: fomenta a blindagem cerebral ao aceitar credulamente qualquer coisa com o rótulo de “científica” e ao rejeitar qualquer coisa com o rótulo de “religiosa”.
  • Dogmafobia. O medo de ter princípios morais  e fazer o julgamento da realidade com base em princípios, em vez de fins. O resultado é que o sujeito ataca qualquer coisa “moral” e defenderá qualquer coisa imoral que tenha a pecha de “científica”.
  • Tornar-se um pé no saco. O sujeito começa a evitar igrejas, grupos de amigos, foge quando alguém reza antes do almoço, critica até a avó porque ela lê a Bíblia, quer discutir com pastor, etc.

Conclusão:
Se você ainda está na fase de contestar os dogmas, mitos e tradições religiosas da sua sociedade para afirmar-se, esqueça esta militância. O ateísmo não é um fenômeno novo, não apresenta nenhum tipo de avanço ou progresso da sociedade moderna. É mais provável que ele seja anterior a qualquer religião que tenha existido, e é portanto mais antigo do que qualquer tradição religiosa. Não se preocupe em desconverter as pessoas, preocupe-se em transmitir os valores que tornam a sociedade melhor: a tolerância, o diálogo, a liberdade individual, a liberdade de expressão. As verdades, “científicas” ou não, cedo ou tarde vão sendo descobertas.


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Ayn Rand, a filósofa da liberdade.

Este artigo é o primeiro de uma série que pretendemos publicar. Nesta série de artigos pretendemos fazer três coisas:

Homenagear as mulheres corajosas que assumiram grandes responsabilidades políticas ou trouxeram ao mundo o esplendor do seu talento; agradecer ao público feminino que visita o blog, nos curte no Facebook e nos segue no twitter e mostrar para as mulheres ainda indecisas que para ter conteúdo e relevância política não é necessário aderir à baixeza de passeatas tipo “Marcha das Vadias” ou filiar-se a um clubinho anarco-feminista.

A primeira mulher homenageada é ninguém mais ninguém menos que Ayn Rand.

I. Biografia

Ayn Rand nasceu em São Petersburgo, Rússia, em 2 de fevereiro de 1905. Aos seis anos aprendeu a ler sozinha e aos nove já estava decidida a fazer da literatura e da ficção a sua carreira. Totalmente oposta ao misticismo e ao coletivismo da cultura russa, ela se via como uma escritora européia, especialmente após encontrar com Victor Hugo, o escritor que ela mais admirava.

Natasha, Nora e Alisa (Ayn).

Durante o ensino médio, foi testemunha tanto da Revolução de Kerensky, a qual apoiou, e – em 1917 – a Revolução Bolchevique, à qual opôs-se desde o início. Para escapar do conflito, sua família foi para a Criméia, onde ela terminou os estudos. A vitória comunista trouxe o confisco da farmácia de seu pai e períodos de grande fome e miséria. Quando apresentada à história americana no último ano do ensino médio, imediatamente tomou a América como um modelo do que seria uma nação de homens livres.

Quando sua família retornou da Criméia, entrou na universidade de Petrogrado para estudar filosofia e história. Graduada em 1924, sentiu na pele a desintegração da liberdade acadêmica e a tomada da universidade por militantes comunistas. Em meio à vida cada vez mais cinzenta, o seu maior prazer eram operetas vienenses e filmes e peças de teatro ocidentais. Há tempos uma admiradora do cinema, entrou no Instituto Estadual de Artes Cinematográficas em 1924 para estudar roteiro. Foi nessa época que ela foi publicou pela primeira vez: um livreto sobre a atriz Pola Negri (1925) e um livreto intitulado “Hollywood: American Movie City” (1926), ambos reimpressos em 1999, em Russian Writers on Hollywood.

Foto tirada pouco antes de sair da URSS, usada no passaporte de Ayn.

Nos fins de 1925 obteve permissão para deixar a União Soviética e visitar parentes nos Estados Unidos. Embora tenha dito às autoridades soviéticas que sua visita seria curta, estava determinada a nunca mais voltar à Rússia. Chegou a Nova Iorque em fevereiro de 1926. Passou os seis meses seguintes com seus parentes em Chicago, obteve uma extensão para o seu visto, e então partiu para Hollywood para tentar uma carreira como roteirista.

No segundo dia de Ayn Rand em Hollywood, Cecil B. DeMille a viu no portão do seu estúdio, lhe ofereceu uma carona até o set de filmagem do seu filme The King of Kings e lhe deu um emprego, primeiro como uma figurante, depois como revisora de roteiros. Na semana seguinte ela encontrou no estúdio o ator Frank O’Connor, com quem se casou em 1929. Permanceram casados até a morte dele, cinqüenta anos depois.

No terraço do apartamento em Hollywood, com os estúdios da RKO ao fundo. Início da década de 1930.

Depois de muitos anos tendo que enfrentar outros empregos, incluindo um no departamento de figurinos na RKO Radio Pictures Inc., vendeu seu primeiro roteiro, Red Pawn para a Universal Pictures em 1932 e viu sua primeira peça, Night of January 16th, produzida em Hollywood e apresentada na Broadway. Seu primeiro romance, We the Living, estava completo em 1934 mas foi rejeitado por muitas editoras, até que a The Macmillan Company nos Estados Unidos e a Cassells and Company na Inglaterra publicaram seu livro em 1936. A mais autobiográfica de suas obras, We The Living se baseava nos seus anos vividos sob a tirania soviética.

Ayn Rand e o marido, Frank O’Connor.

Começou a escrever The Fountainhead em 1935 (fazendo uma pausa em 1937 para escrever a novelette anti-coletivista Anthem). Na personagem do arquiteto Howard Roark, ela apresentou pela primeira vez o tipo de herói cuja imagem era o maior objetivo da sua literatura: o homem ideal, o homem como “poderia ser e deveria ser.” The Fountainhead  foi rejeitado por doze editoras mas finalmente aceito pela Bobbs-Merrill Company. Quando foi publicado em 1943, fez história por se tornar um best-seller pelo “boca a boca”, dois anos depois, dando a sua autora o reconhecimento como uma campeã do invidualismo.

Ayn Rand returnou a Hollywood no final de 1943 para escrever um roteiro para The Fountainhead, mas restrições econômicas devidas à guerra atrasaram a produção até 1948. Trabalhando parte do tempo como roteirista para a Hal Wallis Productions, começou a escrever sua maior obra Atlas Shrugged, em 1946. Em 1951 mudou-se novamente para Nova Iorque e dedicou-se em tempo integral ao livro Atlas Shrugged.

Publicado em 1957, Atlas Shrugged foi sua maior obra e seu último trabalho de ficção. Neste romance ela dramatizou sua própria filosofia em uma história de mistério intelectual que integrava ética, metafísica, epistemologia, política, economia e sexo. Embora se considerasse uma escritora de ficção, principalmente, ela percebia que para criar personagens heróicas ficcionais ela teria que identificar os princípios filosóficos que tornavam tais indivíduos possíveis.

Depois disso, Ayn Rand escreveu e lecionou sobre a sua filosofia – o objetivismo, que ela caracterizava como “uma filosofia para viver na terra.” Ela publicou e editou seus próprios periódicos de 1962 a 1976, seus ensaios consistindo da maior parte do material para os seis livros sobre o objetivismo e sua aplicação na cultura. Ayn Rand morrem em 6 de março de 1982, no seu apartamento em Nova Iorque.

Cada livro escrito por Ayn Rand publicado durante sua vida ainda está em circulação, e centenas de milhares de cópias são vendidas todo ano, totalizando até agora mais de 25 milhões. Muitos volumes novos foram publicados postumamente. Sua visão do homem e sua filosofia para viver na terra mudaram a vida de milhares de leitores e lançaram um movimento filosófico com crescente impacto na cultura americana.

II. Obras

Romances:
We the Living (1936)
The Fountainhead (1943, traduzido para o português como ‘A Nascente’)
Atlas Shrugged (1957, traduzido para o português como ‘A Revolta de Atlas’)

Outras obras de ficção:
Night of January 16th (1934)
Anthem (1938)

Não-ficção:
For the New Intellectual (1961)
The Virtue of Selfishness (1964)
Capitalism: The Unknown Ideal (1966)
The Romantic Manifesto (1969)
The New Left: The Anti-Industrial Revolution (1971)
Introduction to Objectivist Epistemology (1979)
Philosophy: Who Needs It (1982)

III. Magnum Opus: Atlas Shrugged (A Revolta de Atlas)

Atlas Shrugged (1957) – sua obra-prima e último romance – é a brilhante dramatização de sua visão única da existência do mais alto potencial e propósito na vida do homem. Se você quer ler somente um único livro para entender a visão de mundo de Ayn Rand, é este.

Ayn Rand amava ler – e acabou por querer escrever – ficção pelo envolvimento da história. Ela se perguntaria “Esta história é uma experiência que valeria viver por si mesmo? O prazer de contemplar estas personagens é um fim em si mesmo?”

Como milhões de leitores já descobriram, Atlas Shrugged é precisamente o tipo de romance que não se pode subestimar.

Atlas Shrugged coloca o leitor em seu próprio mundo de personagens imponentes — incluindo o gênio produtivo que se torna um playboy sem valores e um grande industrial que não sabe que trabalha para a sua própria destruição. A história é um mistério sobre um homem que disse que pararia o motor do mundo – e fez isso. A Sociedade se desintegra, racionamentos de comida levam a rebeliões, fábricas fecham às centenas. Este homem é um destruidor, ou o maior dos libertadores? O que é o motor do mundo? O que é preciso para colocá-lo novamente em funcionamento?

As respostas surgem durante o clímax assombroso e ainda assim lógico da trama. As respostas são de profunda significância não só para a resolução do conflito central da história – mas também para a vida das pessoas na realidade, hoje.

Atlas Shrugged apresenta o herói consumado por Ayn Rand — e a moral e filosofia radicalmente novas as quais ele vive. Essa subjacência filosófica é o sistema de idéias de Ayn Rand chamado objetivismo.

Com a publicação de Atlas Shrugged, a carreira de Ayn Rand como uma escritora de ficção chega ao fim. Nos anos seguintes, ela dedicaria seu tempo para lecionar e escrever extensivamente sobre a natureza e as aplicações de sua nova filosofia.

O filme também inspirou um filme recente de mesmo título. Saiba mais aqui.

IV. Filosofia: o Objetivismo

Numa conferência sobre vendas na Random House, precedendo a publicação de Atlas Shrugged, um dos livreiros perguntou a Ayn Rand se ela poderia apresentar a essência da sua filosofia em poucas palavras. Ela a descreveu assim:

Metafísica – Realidade Objetiva
Epistemologia – Razão
Ética – Interesse pessoal
Política – Capitalismo

Traduzindo para uma linguagem simplificada:
1. “A natureza, para ser comandada, precisa ser obedecida” ou “só querer algo não faz com que aconteça.”
2. “Você não pode comer o bolo e ter ele ao mesmo tempo.”
3. “O homem é um fim em si mesmo.”
4. “Liberdade ou morte.”

Mantendo estes conceitos com total consistência, como base das suas convicções, tem-se um sistema filosófico completo para guiar o curso da sua vida. Mas para mantê-los com total consistência – entender, definir, provar e aplicar – é necessário um volume de pensamento.

Sua filosofia, o objetivismo, considera que:

A realidade existe como um absoluto objetivo—fatos são fatos, independente dos sentimentos, desejos, esperanças ou medos do homem.

Razão  a faculdade que identifica e integra o material provido pelos sentidos do homem   é o único meio do qual o homem dispõe para perceber a realidade, sua única fonte de sabedoria, seu único guia para a ação e seu meio básico de sobrevivência.

O homem — todo homem — é um fim em si mesmo, não um meio para um fim alheio. Deve existir por si, não para sacrificar-se aos outros nem para sacrificar aos outros por si. A busca de seu próprios interesses racionais e da sua própria felicidade é o maior propósito moral de sua vida.

O sistema político-econômico ideal é o capitalismo liberal (laissez-faire). É um sistema onde os homens lidam uns com os outros, não como vítimas e executores, não como mestres e escravos, mas como negociantes, através de livres e voluntárias trocas para benefício mútuo.  É um sistema onde nenhum homem pode obter qualquer valor dos outros apenas pela foça física, e nenhum homem pode iniciar o uso da força física contra os outros. O governo age somente como um policial que protege os direitos do homem; usa a força física apenas em retaliação e apenas contra aqueles que iniciam o seu uso, como criminosos ou invasores estrangeiros. Num sistema de capitalismo total, deve haver (ainda que historicamente nunca tenha havido) uma separação completa entre Estado e Economia, do mesmo modo e pelas mesmas razões da separação entre Estado e Igreja.

Saiba mais em: http://www.aynrand.org/