Aforismos reacionários

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colômbia, 18 de maio de 1913 – ibidem, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo conservador colombiano. Foi um dos críticos mais radicais da modernidade, traço notado pelo seu congênere alemão Ernst Jünger.

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colômbia, 18 de maio de 1913 – ibidem, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo conservador colombiano. Foi um dos críticos mais radicais da modernidade, traço notado pelo seu congênere alemão Ernst Jünger. Seu legado só foi reconhecido internacionalmente poucos anos antes do seu falecimento, graças às traduções alemãs de algumas de suas obras.

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A seguir publicamos uma seleção de alguns dos seus famosos aforismos, publicados na obra Escolios a un texto implícito.

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Alberto Oliva: quando a ideologia mata a filosofia

Reprodução do artigo de Rodrigo Constantino na Veja em 05/09/2013:

Alberto Oliva: quando a ideologia mata a filosofia

Meu amigo Alberto Oliva é um dos grandes filósofos liberais brasileiros, além de muito divertido. Professor da UFRJ (infelizmente com pensamento minoritário lá dentro), Oliva concedeu uma longa entrevista à revista Filosofia, sobre diversos assuntos, entre eles filosofia e política. Seguem dois trechos que merecem destaque:

A filosofia é plural por natureza. Por isso se pode aprender a argumentar filosoficamente com diferentes correntes de pensamento. O intercâmbio crítico entre as diversas vertentes da filosofia têm ficado aquém do desejável. O enclausuramento faz com que cada filosofia se transforme em uma espécie de mônada ideacional incapaz de entrar em interação crítica com as demais. No Brasil, em particular, não se debate a natureza das divergências entre as correntes de opinião e pensamento. Há um vazio intelectual resultante por quase tudo ser recitado, quase nada problematizado. Fora dos círculos de especialistas, as posições ideológicas vêm triunfando sobre as discussões filosóficas. Qualquer coisa que se proponha em nome de uma causa (supostamente) valorosa é vista como sacrossanta a ponto de só reacionários ousarem colocá-la em discussão. O questionador é calado como retrógrado ou conservador. Confunde-se posicionamento ideológico com exercício do pensamento crítico. Quando a ideologia escancarada prevalece, tem-se a morte do pensamento.

[…]

O que aconteceu é que diante do velho e arraigado patrimonialismo tupiniquim, o PT, por esposar uma visão estatista, quis fazer uma revolução “por dentro”, isto é, alavancada pelo próprio patrimonialismo. A consequência, ainda que não pretendida, é a de levar o patrimonialismo às últimas consequências. Com o agravante de que, por sua matriz de pensamento, o PT tende a confundir (seu) governo com Estado. A meu juízo, o debate sobre isso é urgente. Só que ninguém deseja fazê-lo. Os intelectuais brasileiros são tão ideologizados que acham que, dependendo de quem está no governo, precisam optar pelo silêncio obsequioso. Dada a força do PT, discutir seu projeto de poder é de extrema importância para o futuro de nossa sociedade. Infelizmente, no Brasil quase tudo fica artificialmente polarizado. Em parte, porque o nível intelectual é baixo. Além do mais, nossa longa tradição autoritária sempre, disfarçadamente, dá um jeito de penetrar no mundo das ideias. Os grupos intelectuais hegemônicos procuram desqualificar a alteridade, a visão contrária. Dá menos trabalho, além de servir para arregimentar grupos ideologizáveis, rotular o outro, satanizá-lo. Sem falar que é uma forma sutil de desprestigiar a liberdade.

O Brasil precisa de mais pensadores, filósofos e professores como Alberto Oliva! Se tivéssemos um Oliva para cada Marilena Chauí, o país seria outro!

A Abolição do Homem – Parte I: Homens sem Peito

C.S. Lewis, escritor e professor universitário, ateu por muitos anos, mas depois convertido, é conhecido principalmente pela série de livros As Crônicas de Nárnia. Apesar de seu sucesso, atualmente, se restringir à série anteriormente citada, principalmente pela adaptação ao cinema, Lewis foi também conhecido em parte de sua vida pela defesa dos valores cristãos e escritos não-ficcionais. Tratarei, em quatro artigos, sobre A Abolição do Homem, em que Lewis contrapõe a educação antiga à nova, destaca a necessidade de valores universais e, finalmente, chega à abolição do homem através da abolição dos valores. Cada um dos três primeiros artigos tratará sobre os capítulos individuais, e o quarto sobre o apêndice, em que o autor exemplifica o que chama de Tao. Começarei pelo Homens sem Peito.

Lewis
C.S. Lewis

Homens sem Peito

Lewis começa, nesse capítulo, falando sobre um livro que tem como objetivo ensinar a língua inglesa a crianças do ensino básico. Esse livro, em um exercício, conta uma conhecida história da visita de Coleridge a uma cachoeira. Chegando lá, se depara com dois turistas: Um deles diz que a cachoeira é sublime, outro diz que é bonita. Coleridge, mentalmente, concordou com o primeiro, discordando do segundo. O autor do livro didático, nesse momento, interpela dizendo que, na verdade, os turistas não teceram comentários sobre a cachoeira em si, mas sobre seus sentimentos em relação à cachoeira. Que, resumidamente, o que o turista quis dizer foi “Tenho sentimentos sublimes”.

Lewis aponta, aqui, uma contradição clara: se o turista considerava, de acordo apenas com seus sentimentos, que a cachoeira era sublime, seus sentimentos deveriam ser qualquer coisa abaixo de sublimes; humildes, quem sabe, destaca o autor. Mas aponta uma consequência mais grave, resultante de um entendimento que o aluno poderia tirar da história: Não existe algo bom em si, mas apenas em relação ao estado emocional momentâneo daquele que profere uma atribuição de valor qualquer. Chega, então, ao derradeiro lógico desse estranho raciocínio: Ao discordar de um sentimento que um dos turistas teve, seria equivalente ao caso de um deles dizer que sente-se mal, e Coleridge retrucar “Discordo, sinto-me muito bem”. Essa conclusão acerca da atribuição de valores permeia a educação atual.

Ao falar da educação, Lewis contrapõe a antiga à nova. A antiga tinha como objetivo abrir os olhos da pessoa para que perceba aquilo que é belo, bom, e aquilo que deve ser rejeitado. A nova procura vender, já pronta, uma visão de mundo, de acordo com o que alguns pretendem para a humanidade. Isso fica explícito no seguinte trecho:

Se eles optarem por esse caminho, a diferença entre a educação antiga e a nova será muito significativa. Enquanto a antiga promovia uma iniciação, a nova apenas “condiciona”. A antiga lidava com os alunos da mesma maneira que pássaros crescidos lidavam com os filhotes quando lhes ensinavam a voar; a nova lida com eles mais como o criador de aves lida com os jovens pássaros – fazendo deles alguma coisa com propósito que os próprios pássaros desconhecem. Em suma, a educação antiga era uma espécie de propagação – homens transmitindo a humanidade para outros homens; a nova é apenas propaganda.

Ao não mais saber pelo que é educado, o jovem tem seus valores tolhidos. E isso ocorre ao mesmo tempo em que a sociedade exige de seus integrantes esses mesmos valores. Lewis aponta a contradição em que acaba por incorrer a sociedade nesses moldes na seguinte passagem:

Mal podemos abrir um periódico sem topar com a afirmação de que nossa civilização precisa de mais ímpeto, ou dinamismo, ou auto-sacrifício, ou criatividade. Numa espécie de mórbida ingenuidade extirpamos o órgão e exigimos sua função. Produzimos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Caçoamos da honra e nos chocamos ao encontrar traidores entre nós. Castramos e ordenamos que os castrados sejam férteis.

Nesse primeiro capítulo, Lewis introduz também a noção de Tao, que apesar de ter origem no pensamento chinês, o autor utiliza para embarcar tudo aquilo que é verdadeiro, aquilo que é comum a todos. Um primeiro contato com esse termo é importante para entender o que se segue nos próximos capítulos. No Tao está aquilo que é correto e aquilo que não, independente do pensamento a que se recorra: platônico, cristão, aristotélico, oriental, estoico. A atribuição de um valor objetivo às coisas, ações. É importantíssimo para entender a defesa de valores universais, já que no Tao tudo está contido.

A Atualidade

A precariedade da nova educação, como dita por Lewis, é facilmente notada na atualidade. No Brasil, hoje, as pessoas tendem a sempre brigar pela melhora das estruturas que forneceriam a educação: investimento financeiro nas escolas, 10% do PIB para a educação, adiante. É impossível negar que a situação em que se encontram as escolas e universidades públicas é deplorável. Mas o maior dos problemas não se encontra aí. É possível fornecer uma boa educação mesmo sem cômodos.

O grande problema da educação atual está em seu modelo. O objetivo deixou de ser o de criar seres pensantes, indivíduos livres, motores de um crescimento não só econômico, mas também humano. Não é mais criar seres que, por onde passam, irradiam conhecimento e inspiram outros a conhecer e pensar, que transfiram seu conhecimento com naturalidade, em vários momentos da vida que não se restrinjam ao estudo ou à sala de aula. O objetivo hoje é massificar. Doutrinar.

Temos a democracia, hoje, como o melhor dos regimes: isso se enraizou em nossa cultura. Mas em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, Pondé destaca um dos grandes reveses desse tipo de regime, o de que “o conhecimento foi substituído pela opinião pública”. Não venho com isso bradar pelo fim da democracia, mas o de apontar um problema real que apenas existe, sem a menor sombra de dúvidas, para que venhamos a o superar.

Olavo de Carvalho, apesar de controverso, disse algo que provavelmente deve ser um pensamento compartilhado por todos (talvez não, as pessoas costumam me surpreender nesse sentido): “Oferecer essa educação para meia dúzia de pessoas é um insulto. Para milhares, é um crime”. 

Contra os comissários da ignorância

Abaixo segue um artigo QUASE IRRETOCÁVEL de Luiz Felipe Pondé na Folha de hoje.

Quase irretocável, pois no ultimo paragrafo ele menciona corruptos de direita no Brasil, sendo que não consigo identificar um corrupto sequer que defenda o ideário direitista (livre mercado, estado mínimo, propriedade privada, direitos e responsabilidades individuais, respeito integral as leis e a constituição democrática republicana, etc.)

Se identificarem um ou mais corruptos que não sejam populistas (pró-assistencialismo), que não sejam adeptos do estado inchado e intervencionista, que não apoiem nenhuma forma de terrorismo (MST, ONG’s indigenistas e afins) que não ataquem os direitos e liberdades individuais dos cidadãos dentre outros fatores similares, postem os nomes na área de comentários. Ressaltando que defender um ou dois desses aspectos apenas não enquadra ninguém no espectro da direita.

Contra os comissários da ignorância

O que é conservadorismo? Tratar o pensamento político conservador (“liberal-conservative”) como boçalidade da classe média é filosofia de gente que tem medo de debater ideias e gosta de séquitos babões, e não de alunos.

Proponho a leitura de “Conservative Reader” (uma antologia excelente de textos clássicos), organizada pelo filósofo Russel Kirk. Segundo Kirk, o termo começou a ser usado na França pós-revolucionária.

Edmund Burke, autor de “Reflexões sobre a Revolução na França” (ed. UnB, esgotado), no século 18, pai da tradição conservadora, nunca usou o termo. Tampouco outros três pensadores, também ancestrais da tradição, os escoceses David Hume e Adam Smith, ambos do século 18, e o francês Alexis de Tocqueville, do século 19.

Sobre este, vale elogiar o lançamento pela Record de sua biografia, “Alexis de Tocqueville: O Profeta da Democracia”, de Hugh Brogan.

Ainda que correta a relação com a Revolução Francesa, a tradição “liberal-conservative” não é apenas reativa. Adam Smith, autor do colossal “Riqueza das Nações”, fundou a ideia de “free market society”, central na posição “liberal-conservative”. Não existe liberdade individual e política sem liberdade de mercado na experiência histórica material.

A historiadora conservadora Gertrude Himmelfarb, no seu essencial “Os Caminhos para a Modernidade” (ed. É Realizações), dá outra descrição para a gênese da oposição “conservador x progressista” na modernidade.

Enquanto os britânicos se preocupavam em pensar uma “sociologia das virtudes” e os americanos, uma “política da liberdade”, inaugurando a moderna ciência política de fato, os franceses deliravam com uma razão descolada da realidade e que pretendia “refazer” o mundo como ela achava que devia ser e, com isso, fundaram a falsa ciência política, a da esquerda. Segundo Himmelfarb, uma “ideologia da razão”.

O pensamento conservador se caracteriza pela dúvida cética com relação às engenharias político-sociais herdeiras de Jean-Jacques Rousseau (a “ideologia da razão”).

Marx nada mais é do que o rebento mais famoso desta herança que costuma “amar a humanidade, mas detestar seu semelhante” (Burke).

O resultado prático desse “amor abstrato” é a maior engenharia de morte que o mundo conheceu: as revoluções marxistas que ainda são levadas a sério por nossos comissários da ignorância que discutem conservadorismo na cozinha de suas casas para sua própria torcida.

Outro traço desta tradição é criar “teorias de gabinete” (Burke), que se caracterizam pelo seguinte: nos termos de David Hume (“Investigações sobre o Entendimento Humano e sobre os Princípios da Moral”, ed. Unesp), o racionalismo político é idêntico ao fanatismo calvinista, e nesta posição a razão política delira se fingindo de redentora do mundo. Mundo este que na realidade abomina na sua forma concreta.

A dúvida conservadora é filha da mais pura tradição empirista britânica, ao passo que os comissários da ignorância são filhos dos delírios de Rousseau e de seus fanáticos.

No século 20, proponho a leitura de I. Berlin e M. Oakeshott. No primeiro, “Estudos sobre a Humanidade” (Companhia das Letras), a liberdade negativa, gerada a partir do movimento autônomo das pessoas, é a única verdadeira. A outra, a liberdade positiva (abstrata), decretada por tecnocratas do governo, só destrói a liberdade concreta.

Em Oakeshott, “Rationalism in Politics” (racionalismo na política), os conceitos de Hume de hábito e afeto voltam à tona como matrizes de política e moral, contra delírios violentos dos fanáticos da razão.

No 21, Thomas Sowell (contra os que dizem que conservadores americanos são sempre brancos babões), “Os Intelectuais e a Sociedade” (É Realizações), uma brilhante descrição do que são os comissários da ignorância operando na vida intelectual pública.

Conservador não é gente que quer que pobre se ferre, é gente que acha que pobre só para de se ferrar quando vive numa sociedade de mercado que gera emprego. Não existe partido “liberal-conservative” no Brasil, só esquerda fanática e corruptos de esquerda e de direita.

O propósito conservador de uma educação liberal

POR RUSSELL KIRK

Nosso termo “educação liberal” é bem mais antigo do que o uso da palavra “liberal” no sentido político. O que agora chamamos de “estudos liberais” remonta aos tempos clássicos, enquanto o liberalismo político surge apenas na primeira década do século XIX. “Educação liberal” significa ordenação e integração do conhecimento para o benefício do indivíduo livre – em contraste com a educação técnica ou profissionalizante, atualmente chamada, presunçosamente, “career education” – educação para a carreira.

A educação liberal é conservadora no seguinte sentido: defende a ordem contra a desordem. Em termos práticos, trabalha pela ordem na alma, e pela ordem na república. O ensino liberal habilita os que se beneficiam de sua disciplina atingir certo nível de harmonia interior. No dizer de John Henry Newman, no Discurso V de sua “Idea of a University”, através de uma disciplina intelectual liberal, “forma-se um hábito mental que dura por toda a vida, cujos atributos são liberdade, equanimidade, serenidade, moderação e sabedoria; o que… eu me arrisco a chamar de um hábito mental filosófico”.

O objetivo primário de uma educação liberal, então, é o cultivo do intelecto e da imaginação do próprio indivíduo, para o bem do próprio indivíduo. Não deve ser esquecido, nesta era massificada em que o Estado aspira a ser tudo em tudo, que a educação genuína é algo além de mero instrumento de política pública. A verdadeira educação deve desenvolver o indivíduo humano, a pessoa, antes de servir ao Estado. Tendemos a esquecer que o ensino não foi originado pelo moderno estado-nação. O ensino formal começou, de fato, como uma tentativa de tornar o conhecimento religioso – o senso do transcendente e as verdades morais – familiar à geração nascente. Seu propósito não era doutrinar os jovens em civismo, mas sim ensinar o que é ser um homem genuíno, que vive dentro de uma ordem moral. Na educação liberal, a pessoa tem primazia.

Contudo, um sistema de educação liberal também possui um propósito social, ou ao menos um resultado social. Ajuda a prover um corpo de indivíduos que se tornam líderes em muitos níveis da sociedade, em grande ou pequena escala. Os fundadores das primeiras faculdades americanas esperavam que, nestas instituições, se formassem jovens solidamente educados nas antigas disciplinas intelectuais, que nutririam o Novo Mundo com o patrimônio moral e intelectual recebido do Velho Mundo.

Russell Kirk, considerado um dos maiores intelectuais dos EUA do século 20.

E, geração após geração, as faculdades americanas de educação liberal (específicas da América do Norte), e posteriormente as escolas e os programas de artes liberais das universidades, realmente formaram jovens homens e mulheres que, tendo adquirido em algum grau uma mente filosófica, fermentaram a massa da nação, que se expandia com vigor.

Se todas as escolas, faculdades e universidades fossem abolidas amanhã, ainda assim, a maior parte dos jovens encontraria ocupações lucrativas; existiriam outros meios, ou seriam desenvolvidos, para treiná-los para cada tipo específico de trabalho. Por outro lado, um efeito altamente benéfico da educação liberal – mais uma vez, conservador – é que dá à sociedade um conjunto de jovens iniciados, em algum nível, na sabedoria e na virtude, que poderão se tornar líderes honestos em várias áreas da sociedade.

Nosso aparato educacional tem criado não uma classe de jovens liberalmente educados, com uma perspectiva humana, mas, ao invés, uma série de elites diplomadas, uma suposta meritocracia, de perspectivas limitadas e credenciais intelectuais e morais duvidosas, inchadas por aquele pequeno conhecimento acuradamente descrito por aquele mordaz Tory, Alexander Pope, como uma coisa perigosa.

Quanto mais pessoas humanamente educadas houver, melhor. Porém, quanto mais tivermos pessoas meio educadas ou superficialmente educadas, pior para elas e para a república. As que o são verdadeiramente, ao invés de formar elites presunçosas, penetrarão a sociedade, fermentando a massa através de suas ocupações, seus ensinamentos, suas pregações, sua participação no comércio e na indústria, na coisa pública em todos os níveis da comunidade. E, sendo educadas, saberão que não sabem tudo; que há outros objetivos na vida além de poder, dinheiro e gratificação sexual; enxergarão longe; anteverão a posteridade e olharão para trás, não esquecendo os antepassados. Para elas, a educação não terá fim no dia da formatura.

Se nos arrastamos com pretensão e apatia através de um mundo tombado, deixando a imaginação e o intelecto em estado latente, caímos presa da servidão do corpo e da mente. A alternativa à educação liberal é a instrução servil. E quando águas de tempestade inundarem o mundo, como acontece hoje, se deixar levar pela correnteza e cantar hinos ao deus rio não será o bastante.

Alguns anos atrás, o presidente Nixon, no decorrer de uma conversa de uma hora, perguntou-me, “qual é o livro que devo ler?”. Contou-me que havia feito a mesma pergunta, por mais de uma vez, a Daniel Patrick Moynihan e a Henry Kissinger – mas que em resposta recebera listas com uma dúzia de livros; e o presidente, premido por suas obrigações, só podia achar tempo para um livro essencial. Qual deveria ser?

“Leia as Notas para a Definição de Cultura, de T. S. Eliot”, eu disse a Nixon. Ele quis saber por quê. “Porque Eliot discute as questões sociais fundamentais”, eu respondi. “Lida com as relações que deveriam haver entre os homens de poder e os homens de idéias. E distingue melhor que ninguém entre uma “classe” de pessoas realmente educadas e uma “elite” de especialistas pretensiosos – observando o quão perigosos estes últimos podem se tornar”. O presidente Nixon descobriu, não muito depois, que a elite de sua administração era deficiente daquela sabedoria e daquela virtude tão necessárias aos EUA. Um homem que teve uma educação liberal aprende de Platão e de Burke que, num estadista, a mais alta virtude é a prudência. O tipo de elevada prudência necessária nos grandes assuntos de estado não tem sido comumente encontrada em Washington há várias décadas. Um motivo para tal deficiência foi a negligência dos EUA para com a educação liberal, como foi definida por John Henry Newman:

O treinamento pelo qual o intelecto, ao invés de ser sacrificado a, ou formado por, algum fim acidental ou particular – algum comércio específico, ou profissão, ou estudo, ou ciência – é disciplinado para os próprios fins, para a percepção de seu objeto próprio, e para sua cultura mais alta, é chamado Educação Liberal; e apesar de não haver quem tenha levado este ideal aos máximos limites concebíveis, praticamente não há quem não possa adquirir alguma noção do que é o treinamento autêntico, e ao menos tender a ele, e tornar tal padrão de excelência, e não outra coisa, seu verdadeiro escopo.”

A genuína educação liberal, aquela regra de excelência, aquela conservadora da civilização, é necessária não apenas em Washington, mas em toda a nossa sociedade. A maioria dos detentores de uma educação liberal jamais chega a ocupar os tronos do poder. Ainda assim, fermentam a massa da nação, a partir de muitas posições e ocupações; não conhecemos os nomes da maioria deles, mas cumprem seu trabalho conservador silenciosamente e bem.

Eu não sei em que os americanos poderíamos ter nos tornado, se não tivéssemos tais homens e mulheres entre nós. Não sei o que faremos se desaparecerem de nosso meio. Talvez sejamos deixados a celebrar “o sabá satânico de uma revolvente maquinaria”, supervisionados por especialistas – uma elite desprovida de imaginação moral, e deficiente no seu entendimento da ordem, da justiça e da liberdade. E, depois, o caos.

Muito precisa ser conservado nestas décadas finais do século XX, quando parece que o “Tumulto é rei, havendo deposto Zeus”. Um benefício de uma educação liberal é o entendimento do que Aristófanes quis dizer com esta expressão – e de como Aristófanes e Sócrates guardam grande importância para nós. Se você estudou Tucídides e Plutarco, terá apreendido muito sobre nossa problemática época; e se o estado não puder ser ordenado, ao menos uma educação liberal poderá ensinar como ordenar sua própria alma, neste vigésimo século depois de Cristo, assim como era feito no quinto século antes dele.

Russell Kirk foi um dos principais intelectuais do século XX. Seu livro, “The Conservative Mind”, é considerado um dos mais influentes livros de ideias políticas e sociais de sua época. Sua esposa, Annette, dá continuidade ao seu trabalho, no Russell Kirk Center (www.kirkcenter.org).

Tradução: Marcio de Paula S. Hack

Veja também:

Dez Princípios Conservadores, por Russell Kirk: https://direitasja.files.wordpress.com/2012/02/dez-principios-conservadores.pdf

The Conservative Mind (versão condensada), por Russell Kirk: http://www.alabamapolicy.org/pdf/kirkconservative.pdf

Russell Kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino, Diálogos Exemplares: http://dialogosexemplares.wordpress.com/2011/11/29/entrevista-com-alex-catharino/

Palestra sobre o livro “A Era de T. S. Eliot: a imaginação moral do século XX”, de Russell Kirk. Elaborada pela editora É Realizações tendo como palestrantes Alex Catharino e Annette Kirk:

John Locke

Ler fornece ao espírito materiais para o conhecimento, mas só o pensar faz nosso o que lemos.

John Locke nasceu em 29 de agosto 1632 em uma pequena aldeia inglesa chamada Wrington. Era filho de um pequeno proprietário de terras. Apesar de sua origem humilde, seus pais sempre se preocuparam em dar lhe uma boa formação educacional. Estudou na escola de Westminster e em Oxford na qual estudou Filosofia, Medicina e Ciências Naturais, o que mais tarde, em 1668 levou-o a ser admitido na academia científica da Sociedade Real de Londres.

Foi autor da doutrina filosófica chamada de Empirismo. De acordo com essa doutrina, as teorias científicas devem ser formuladas a partir da observação do mundo e das práticas, descartando portanto outras formas não científicas, como a fé, a intuição, as lendas e o senso comum.

Locke também acreditava que a mente humana era como uma “tábua rasa” ou uma folha em branco e é através das experiências pelas quais a pessoa passa em sua vida que sua personalidade e seus conhecimentos vão sendo formados. Acreditava que a sociedade interfere diretamente na formação dos indivíduos. Ideia também defendida por Jacques Rousseau, em sua famosa frase “O homem nasce bom, a sociedade é que o corrompe”.

Mesmo sabendo que John Locke foi um dos ideólogos do Liberalismo, logo quando começou a se interessar por política ele tinha ideias nada liberais. Inicialmente ele defendia uma estrutura de governo centralizada a fim de impedir uma desordem no interior da sociedade. Sua visão era conservadora e autoritária também no campo religioso. Ele chegou a acreditar que os monarcas poderiam interferir na liberdade religiosa dos indivíduos.

Mas, graças ao seu interesse pela filosofia, suas opiniões foram totalmente modificadas. A partir daí, Locke começa a questionar a Teoria do Direito Divino dos Reis, indo de encontro ao regime Absolutista. Para ele a soberania não vem do Estado e sim da população. Para ele o Estado só deveria existir a fim de garantir o respeito aos direitos naturais que seriam estes: a proteção à vida, à liberdade e à propriedade. A partir do momento que o Estado não esteja atendendo a essa necessidade, a população tem o direito de derrubá-lo e substituí-lo por outro mais competente.

No que se refere à questão da propriedade, Locke defendia que toda riqueza que o homem fosse capaz de obter por meio de seu esforço individual deveriam ser de sua propriedade desde que isso não prejudicasse a ninguém. Essa é uma das bases da ideia para uma sociedade sem interferência governamental, um dos princípios básicos do Liberalismo. Locke passou a defender também a separação da igreja do Estado e a liberdade religiosa. Pode-se dizer que Locke considerava bastante importante a tolerância.

John Locke defendia que o poder deveria ser dividido em três: legislativo, executivo e judiciário. Sendo que o Legislativo, por representar o povo, seria o mais importante deles. Apesar de afirmar que todos os homens fossem iguais, ele defendia a escravidão, mas não sendo ela imposta pela cor da pele. Para ele, a escravidão aconteceria com os prisioneiros de guerra, pois estes teriam tido suas vidas poupadas e como ônus deveriam dar em troca a sua liberdade. Porém, isso na época era irrelevante, por ser a escravidão uma prática comum e o próprio Aristóteles a defendia e nem por isso deixou de ser um filósofo brilhante.

As ideias dele ocasionaram a vitória da Revolução Gloriosa, em 1688 contra o Absolutismo. Ele exerceu também grande influência sobre todos os pensadores de sua época e foi um precursor do pensamento Iluminista.

John Locke nunca se casou, tampouco teve filhos e faleceu em 28 de outubro de
1704 aos 72 anos de idade e encontra-se sepultado em All Saints Churchyard, High
Laver, Essex na Inglaterra.

Algumas citações de John Locke:

A necessidade de procurar a verdadeira felicidade é o fundamento da nossa liberdade.

É mais fácil avaliar do espírito de qualquer pessoa pelas suas perguntas do que pelas suas respostas.

A influência do exemplo é penetrantíssima na alma.