Por que eu votaria no Bolsonaro se as eleições presidenciais fossem hoje?

Bolsonaro 1

Se as eleições de presidenciais de 2018 fossem hoje eu votaria em Jair Bolsonaro para presidente. Quero elencar abaixo oito razões. O texto é grande, mas importante.

1) Embora muitos critiquem Bolsonaro por, aparentemente, não entender muito de economia, devo lembrar que Lula não entende nada de nada. Seguramente foi o mais ignorante dos presidentes que tivemos. Aliás, num vídeo recente ele afirmou o disparate de que se você está com uma dívida, pega um empréstimo, paga a dívida e segue a sua vida. É um “ótimo” conselho econômico, não? Mesmo assim, sem qualquer habilidade em economia ele conseguiu fazer uma boa gestão econômica no seu primeiro mandato como presidente (2002-2006). Como isso foi possível? Convocando uma boa equipe para o seu ministério.

Lula, embora seja um completo imbecil em quase qualquer área do saber humano, é um exímio estrategista político. Quando subiu ao poder tratou de montar uma equipe razoavelmente liberal para dar segurança aos investidores, angariar a simpatia de empresários, criar um terreno econômico estável e, a partir daí, iniciar um processo de expansão de crédito, agigantamento do Estado e aparelhamento das instituições. Esses três últimos fatores foram, obviamente, o objetivo principal de Lula e do PT desde sempre. E foram os fatores que plantaram as sementes da atual crise pela qual passamos.

Em outras palavras, Lula soube usar de um capitalismo razoavelmente liberal para criar alianças, fazer muito dinheiro para o PT e desenvolver mais plenamente um Estado corporativista que FHC já havia iniciado. Lembre-se que um Estado corporativista (também chamado de capitalismo monopolista de Estado) é o estágio anterior ao Estado socialista (era o próprio comunista Lênin que afirmava isso em seus escritos).

Podemos buscar outro exemplo em Itamar Franco e seu sucessor na presidência, FHC. O primeiro era engenheiro civil. O segundo era sociólogo. Foi no final do governo do primeiro com o segundo como ministro da fazenda que o Plano Real foi formulado. E apesar de suas falhas, o plano cumpriu o que prometeu, acabando com a hiperinflação e estabilizando a moeda. O sucesso foi resultado do entendimento deles de economia? Não.

O sucesso foi resultado da equipe econômica escolhida para o ministério.
Em suma, o presidente não governa sozinho e as áreas que ele não domina podem ser perfeitamente geridas por boas equipes. Se até Lula conseguiu, não há motivo para crer que Bolsonaro não conseguiria. Claro que tudo é uma aposta. Contudo, usar apenas esse argumento para não votar em Bolsonaro é algo frágil.

2) O maior problema do Brasil hoje não é de ordem econômica, mas sim moral/cultural. Precisamos hoje de um nome que tenha ética e pulso firme para se opor à pautas culturais como desarmamento da população, centralização das polícias, financiamento público de passeatas gay, kit gay nas escolas, banheiro unissex também nas escolas, leis pró imigração, leis pró aborto, leis pró drogas, um MEC enviesado para o marxismo, obstruções à Operação Lava-Jato, e etc.

Essas pautas são de importância maior que as econômicas. Quem estudou um pouco das ideias de Antônio Gramsci (esse foi o tema do meu TCC¹, aliás) sabe que a guerra cultural se tornou primordial para a esquerda e que, a longo prazo, vitórias no campo cultural possibilitam hegemonia política. Se não houver quem combata firmemente essas pautas, a sociedade será engolida por problemas muito piores que os econômicos.

Aqui cabe uma reflexão sobre o prefeito de São Paulo, João Dória. Sem dúvida, ele está fazendo uma ótima gestão e, como prefeito, é um nome excelente. Talvez ele fizesse uma boa gestão como presidente. Mas pouco adiantaria ter uma sociedade bem gerida economicamente, porém homens-bomba explodindo pessoas, um povo desarmado contra traficantes e milicianos, um MEC financiando pornografia e ativismo gay nas escolas, um Estatuto da Criança e do Adolescente engessado criando jovens sem limites, a ONU nos empurrando em direção às suas pautas culturalmente destrutivas e, claro, um PSDB mais forte. Pensar só na economia é ignorar que um bom gestor pode deixar uma sociedade economicamente organizada e culturalmente destruída, o que é perfeito para um sucessor socialista fazer a festa e destruir tudo.

Essa é a grande diferença entre quem é só liberal em economia e quem é conservador. O conservador quer uma economia livre e uma boa gestão, mas entende que a guerra cultural/moral não pode ser deixada de lado. O liberal pensa que resolvendo a economia tudo o mais se resolve. Ignora que a guerra cultural é a arma mais poderosa do socialismo atual e que o capitalismo pode ser usado pela esquerda para ganhar dinheiro e agigantar o Estado.

Dória pode fazer um ótimo trabalho à curto prazo (como até o esquerdista FHC conseguiu no que diz respeito à estabilização da moeda). Mas se ela for limitada à parte econômica, Dória estará plantando as sementes para um terrível domínio esquerdista da sociedade, que poderá vir pelas mãos do próprio PSDB ou de algum partido pior (que foi exatamente o que FHC fez, ajudando a criar caminho para o PT de Lula e Dilma).

3) Bolsonaro não passa por cima de princípios por conta de partidos. Ele não se prende aos interesses de uma cúpula partidária. Daí temos mais uma diferença entre Dória e Bolsonaro. O prefeito de São Paulo tem forte amizade com Geraldo Alckmin e tem demonstrado grande fidelidade ao PSDB. Suas críticas ao PT são duras (o que é bom), mas parece estar bem comprometido com o PSDB. Isso não é bom. É um indício de que comprar Dória como presidente é comprar também FHC, Alckmin, Serra e Aécio. Já Bolsonaro é um político independente que pode construir alianças com quem possui princípios semelhantes e recusar alianças com quem é corrupto ou possui um projeto destrutivo de sociedade.

4) As opiniões mais radicais e reprováveis de Bolsonaro não possuem a mínima chance de serem aprovadas como lei e muitas não figuram como pretensão do candidato. Por exemplo, Bolsonaro é só elogios ao período do regime militar. Eu, embora reconheça que o regime não foi uma ditadura (foi um regime híbrido com características autoritárias e democráticas) e que possui méritos, não endosso o regime, creio que ele foi desnecessário e que cometeu muitas falhas.

Contudo, a opinião de Bolsonaro nesse aspecto é irrelevante para  um possível governo dele, já que ele não pretende instaurar um regime militar, tampouco teria apoio se pretendesse. Sua opinião refere-se ao passado, não ao presente. Ao contrário de comunistas, que possuem o mesmo projeto comunista de sociedade do passado, Bolsonaro não tem como meta uma ditadura.

5) Os projetos de lei já protocolados por Bolsonaro durante seu tempo de deputado até hoje são realmente muito bons. Você já viu? Cito onze aqui:

– PL 6944/2017: impede a limitação dos dados de internet proposta pela Anatel e as empresas concessionárias que prestam serviços de banda larga
– PL-4730/2016: torna hediondos os crimes de homicídio doloso praticados com arma de fogo;
– PL-1281/2015: permite bloquear celulares e radiotransmissores em presídios;
– PL-1824/2015: impõe pena mínima de dez anos de prisão para quem praticar três crimes;
– PL-2832/2015: permite não caracterizar como crime atos de defesa ao patrimônio
– PL-860/2015: obriga a revista pessoal aos visitantes de presídios
– PL-7421/2014: agrava a pena para crimes de pichação
– PL-5398/2013: aumenta a pena para crimes de estupro
– PL-367/2011: suspende o direito de dirigir de quem atingir quarenta pontos na CNH num período de doze meses
– PEC-5107/2007: concede imunidade tributária à produção e comercialização de programas de computador
– PL-6163/2005: autoriza órgãos de segurança pública a reaproveitarem armas e munições apreendidas ou encontradas

Além desses e de outros projetos de lei interessantes, Bolsonaro também é autor original do projeto de acoplar à urna eletrônica um sistema de voto impresso, a fim de que elas sejam auditáveis. Concorde-se ou não com tais propostas, elas sem dúvida versam sobre assuntos de grande interesse da população. E não é exagero afirmar que a maior parte da população dá apoio a todas essas ideias. Seria Bolsonaro tão inepto, então?

6) Há uma tendência nas pessoas de querer para a presidência ou um político ideal ou então ninguém. Ou tudo ou nada. Isso não faz muito sentido. Apoiar o Bolsonaro para a presidência não significa achar que ele é ideal ou colocar a mão no fogo por ele. É apenas reconhecer que ele pode ser a opção mais viável para o momento (ou a menos ruim, como preferir). Adotar a postura de “tudo ou nada” não é racional, pois a vaga de presidente não vai ficar sem ninguém. Alguém estará lá goste você ou não. Então, se não há político ideal (e eu questiono se em alguma parte do mundo existe um “político ideal”) você deve escolher o melhorzinho ou o menos ruim. Isso é óbvio.

Circulou por um tempo um meme de um carro numa estrada. Em dado momento do trajeto, a estrada se dividia em duas. Um caminho tinha uma placa escrito Bolsonaro e outro caminho tinha uma placa escrito Lula. O carro continuou direto e caiu no precipício por se recusar a escolher um dos dois. O sentido do meme é claro: igualar Bolsonaro a Lula. A piada é engraçada, mas não deve ser encarada como mais que isso: uma piada, um meme, jamais uma argumentação factual. Por quê? Porque ela falha totalmente no senso das proporções.

Bolsonaro pode ser considerado um político ruim se focarmos em suas falhas retóricas, em alguns de seus posicionamentos mais radicais e em alguns de seus discursos ambíguos em relação à economia. Mas ele não é (até onde sabemos) um bandido, nem o líder de uma facção criminosa gigantesca (o PT) que pretendeu instaurar um totalitarismo no Brasil, nem o homem que apoiou e financiou (com dinheiro público) grupos guerrilheiros, narcotraficantes e ditadores por toda a América Latina. Ele não é responsável pela miséria e a opressão que a Venezuela sofre hoje nas mãos de Nicolás Maduro, nem pelo quase desarmamento do povo brasileiro, nem pelo sucateamento da polícia, nem pela utilização das faculdades, sindicatos e movimentos em braços militantes de partidos marxistas e socialistas.

Comparar Bolsonaro e Lula é comparar um político limitado em alguns pontos com um bandido de dimensões continentais. A verdade é que não há comparação entre Bolsonaro e Lula, Dilma, FHC, Aécio, Serra, Alckimin, Temer, Renan ou Cunha. Jair Bolsonaro é, no máximo, um político mal preparado. Jogar todos no mesmo saco é comparar crimes com inabilidade política e concluir que não faz diferença colocar um inábil na presidência ou um bandido. Falta senso aqui.

Perceba que estou trabalhando com a narrativa de inabilidade de Bolsonaro, que é uma narrativa midiática. A grande mídia o vende como radical nos costumes/cultura e inábil em administração e economia. Mas devemos aceitar acriticamente o que a mídia nos vende como verdade? Não seria Bolsonaro capaz de se cercar de uma boa equipe e gerir bem as contas públicas? Não existem conselheiros para isso? Ele não conta com o apoio de seus filhos, que possuem um conhecimento econômico mais atualizado? Alguém com honestidade não pode acertar na condução do dinheiro público, cortando aquilo que é supérfluo e desnecessário? Será que outros presidentes eram tão gabaritados em economia e administração a ponto de Bolsonaro ser considerado um inepto?

É curioso, mas nas eleições de 2014, Aécio Neves foi visto por muita gente como uma opção razoável ou menos pior que Dilma. Não vi ninguém criticando Aécio por uma possível inabilidade econômica. Mas quem dos que votaram em Aécio se lembra das suas propostas econômicas? Quem possui conhecimento básico em economia para distinguir uma boa proposta de uma proposta ruim? Acho que conheço as respostas.

Aécio Neves foi muito bem votado e todos sabemos hoje o quão bandido ele é. Há alguma razão para considerá-lo melhor que Bolsonaro? Por que então o ceticismo em relação a Bolsonaro parece ser maior que o ceticismo em relação a Aécio em 2014? Creio que a razão é midiática. Aécio é bandido, mas tem uma aparência e um discurso mais moderados, mais mansos. Bolsonaro é honesto (até onde se sabe), mas tem uma aparência e um discurso mais brutos, mais radicais. Então, estamos nos deixando influenciar em alto grau por aparências.

7) Puxando um gancho nessa questão das aparências, devo lembrar que atos valem mais do que palavras. Bolsonaro fala besteiras por conta de seu comportamento explosivo. Mas vale lembrar que quem cuspiu em sua cara foi o socialista Jean Willis. Vale lembrar que o ator global José de Abreu, petista até os ossos, cuspiu em uma mulher por divergências políticas. Uma professora socialista e feminista defecou e urinou na foto de Bolsonaro, na rua, em um protesto outro dia. O MST e sindicatos tacam fogo em pneus, os Black Blocks depredam patrimônios públicos e privados, universitários de esquerda impedem rotineiramente palestrantes de direita de falarem em palestras. Devemos julgar mais pelas palavras ou pelos atos?

Talvez fosse interessante deixar a hipocrisia de lado e perceber que diariamente nós falamos besteiras horríveis que jamais faríamos de verdade. Todo mundo já disse algo como: “Eu vou matar aquele menino!”, ou “Se você fizer isso, acabo com você”. Quantos não disseram, em momentos de raiva, que determinado político ou determinado bandido deveria receber uma surra ou sofrer algo grave? Pessoas comuns do povo falam em fuzilar deputados, tacar uma bomba no congresso, espancar estupradores até a morte. Isso é algo rotineiro. E boa parte dessas pessoas não teria coragem de fazer 1% do que falam.

A sabedoria popular também diz rotineiramente que maus comportamentos são falta de cinto. Pessoas mais velhas geralmente dizem que apanharam muito na infância e hoje são pessoas honestas e felizes. Muita gente mais velha (muita gente mesmo, já ouvi o discurso dezenas de vezes) afirma que o período do regime foi tranquilo e que se caminhava na rua à noite sem medo.

Essas pessoas muitas vezes são duras em seus discursos e podem fazer parecer às vezes que defendem espancamento de crianças e a ditadura. Mas na maioria dos casos essas pessoas são bastante moderadas, honestas e bondosas. Suas falas estão repletas de hipérboles e exageros retóricos que expressam apenas posicionamentos favoráveis a um pouco mais de ordem e respeito, e um saudosismo de quando existia isso no passado. A maioria delas não quer realmente uma ditadura, não criou seus filhos com sessões de espancamento e nunca fizeram mal a ninguém.

Bolsonaro peca por falar diante das câmeras o que a maioria da população brasileira fala no cotidiano e que, quase sempre, não passa de exagero retórico e força de expressão. O deputado fala o que lhe vem à cabeça. Não necessariamente é o que faria. E se atos falam mais que palavras é digno de nota que o tão radical Jair Bolsonaro não revidou a cusparada que recebeu de Willis, nem mesmo se interessou em processá-lo. Para quem possui uma imagem de ser tão radical, bruto e violento não é estranho? Parece que Bolsonaro é mais louco nas falas do que nos atos.

O que a mídia faz com Bolsonaro aqui no Brasil, fez com Donald Trump nos EUA. Os jornalistas fizeram a sua caveira. Homofóbico, islamofóbico, contraditório nas propostas econômicas, radical, ditador, xenofóbico, bruto, misógino, psicologicamente instável, despreparado, etc. O homem se tornou presidente, escolheu uma boa equipe econômica, cortou financiamentos à ONGs abortistas, reduziu financiamento à ONU, fez frente ao governo da Síria, renovou os laços com Israel, intensificou a luta contra a pedofilia, o desemprego tem caído nos EUA… O mundo não acabou, a economia americana não entrou em colapso… E então? Cadê o Apocalipse? Percebe? Isso não é uma defesa do governo Trump, mas uma defesa contra a imagem radical que a mídia montou de Trump.

Aliás, a mídia, repleta de jornalistas de esquerda e progressistas, tem colado a pecha de radical em qualquer político que seja minimamente conservador. Desse modo, políticos de centro e de direita se transformam, para a mídia, em extrema-direita. Curiosamente, a mídia nunca aponta a existência de uma extrema-esquerda. Cria-se, então, uma áurea de radicalismo em quem é mais nacionalista, enérgico contra o crime e conservador.

Ademais, a mídia faz questão de explorar essa imagem radical das mais diversas maneiras possíveis, o que inclui a criação de entrevistas apenas com perguntas secundárias e que envolvam alguma potencial polêmica. Isso é interessante de se enfatizar. Em todas as entrevistas feitas ao Bolsonaro, sempre os temas referentes à homofobia, cotas, o suposto racismo contra Preta Gil (já explicado dezenas de vezes), o suposto machismo e etc. são evocados como as questões centrais. Questões econômicas, de gestão e educacionais não são enfatizadas. Isso não é só com Bolsonaro, nem só aqui no Brasil. Um dos candidatos republicanos à presidência nos EUA, em 2016, reclamou em uma entrevista da fixação dos jornalistas pelo tema “homossexualidade”. Ora, essa fixação é proposital. O jornalista vai sempre focar nos temas polêmicos que possam ajudar a criar uma imagem radical do candidato.

Assim, um candidato conservador se torna homofóbico, autoritário, fascista e xenófobo só porque ataca financiamento público de passeatas gay, kit gay nas escolas, doutrinação marxista, aceitação irrestrita de imigrantes; e defende porte de armas para o povo, redução da maioridade penal e leis penais mais rígidas. Basta defender essas pautas e elas serão distorcidas e pintadas com cores de radicalismo. É contra kit gay? Quer que os gays sejam espancados. É à favor do porte de armas? Quer que todos saiam se matando por aí. Se já é assim com um candidato que tenha bom domínio retórico, imagina o que a mídia não consegue fazer com alguém que fala como se estivesse numa roda pessoal de amigos e familiares? Pois é.

8) Finalmente, Jair Bolsonaro é um candidato que, até o momento, demonstra não estar envolvido em esquemas de corrupção, é independente dos partidos mais criminosos do Brasil (PT, PMDB e PSDB) e possui princípios rígidos. Em um país com tão elevados índices de corrupção, ter alguém limpo e com princípios sólidos deve ser levado em alta conta. Comparar Bolsonaro com corruptos ou, pior, preferir corruptos, faz cair todo o discurso de ser anticorrupção. Ele pode estar longe de ser um político ideal e ter pontos bastante negativos, mas não há como compará-lo com os vários bandidos que temos hoje como possíveis candidatos à presidência. Reconhecer isso não implica dizer que Jair, se eleito, fará um bom governo. Talvez não. É uma aposta. Mas é uma aposta muito melhor do que confiar o cargo a um Aécio Neves da vida ou a figuras como Marina e Ciro Gomes, que sempre apoiaram partidos marxistas e o próprio PT.

A exposição dessas razões não pretende ser, primordialmente, uma defesa de Bolsonaro, mas sim uma defesa da ideia de votar nele como uma opção racional e viável. Muitos tem enxergado a ideia como idiota, desprovida de senso e tão louca como a ideia de votar no Lula. E é isso que quero combater aqui. Você pode não gostar de Jair Bolsonaro e não querer votar nele. Mas deve repensar a ideia de que votar nele é algo absurdo. Talvez fosse se o Brasil estivesse muito bem. Na atual conjuntura, contudo, ele é uma opção muito viável e, possivelmente, a melhor que temos.

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  1. O TCC foi defendido no dia 18 de Maio de 2017. O título da obra é “A influência de gramscismo no pensamento e na atividade de jornalistas de esquerda no período do regime militar (1964-1985)”. Obra produzida para a obtenção do título de bacharel em jornalismo pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
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FHC, PSDB e a diferença entre a Social-Democracia e a Direita

Os dois maiores partidos políticos do Brasil atualmente são o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social-Democracia Brasileira (PSDB). Não por acaso, os cinco últimos mandatos de presidente da república foram exercidos por candidatos dos dois partidos: FHC (PSDB), Lula e Dilma Rousseff (PT). Não por acaso também, esses dois partidos apresentam grande rivalidade na política brasileira. Natural. Em qualquer lugar onde existem “grandes”, existe também uma grande rivalidade.

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Você tem certeza de que vai votar no PT?

Este texto também se encontra no blog “Mundo Analista“. Clique aqui para ler.

Las-FARC-niegan-ser-narcotraficantes-y-denuncian-complicidad-oficial-con-los-carteles

Você sabia que o PT é o fundador e integrante até hoje de uma afiliação internacional chamada “Foro de São Paulo”? Essa afiliação foi criada em 1990 com a finalidade de reunir vários partidos de esquerda da América Latina, juntamente com organizações revolucionárias terroristas e narcotraficantes como as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

E você sabia que chefes de estado esquerdistas participam regularmente das reuniões do Foro? As poucas pessoas que sabem disso costumam a dizer que o Foro é apenas um grupo inofensivo de debates. Mas você sabia que os integrantes desse Foro assinam atas e resoluções destas reuniões?

Aliás, a importância desse Foro é tão grande para seus integrantes que quando o Foro completou 15 anos, o sr. Luís Inácio Lula da Silva, então presidente do Brasil, fez um discurso (que chegou a constar na página oficial do governo) ressaltando a relevância do Foro na tomada de decisões e formulação de estratégias em cada governo esquerdista afiliado. Ele chegou a citar afirmar ainda que a eleição de Hugo Chávez na Venezuela muito se deveu ao que se confabulou no Foro (Ver: “Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na celebração dos 15 anos do Foro de São Paulo“).

Você sabia que apenas em 2005 o Foro proibiu formalmente a participação de organizações criminosas como as FARC? E você sabia que o sr. Lula já defendeu publicamente a ideia de as FARC se tornarem um partido político?

Você sabia que o PT é um partido de origem e orientação socialista e que, como todo bom socialista, simpatiza com qualquer país ou organização que odeie os EUA? É por isso que o PT não vê mal em dialogar com grupos terroristas islâmicos e governos autoritários mulçumanos. É por isso que a sra. Dilma Vana Rousseff manifestou extremo carinho e compreensão para com o Hamas quando o mesmo estava sendo atacado por Israel.

Você sabia que o PT é um partido que se originou baseando-se nas ideias de Antonio Gramsci? Sabe quem foi Antônio Gramsci? Foi um marxista italiano da primeira metade do século XX que pregava um novo tipo de revolução socialista. Ele acreditava que o melhor modo de os marxistas efetuarem chegarem ao poder e o manterem, a fim de garantirem a revolução, era através do alcance da hegemonia cultural. Em outras palavras, o partido deveria focar em fazer todas as pessoas pensarem e falarem dentro dos moldes marxistas e do partido. Na medida em que isso fosse se tornando parte da cultura, do cotidiano de cada um, do senso comum e do instinto, as ideias do partido se tornariam a suprema verdade e o mesmo se tornaria hegemônico. Para tal, toda e qualquer arma não-fisica era válida. Qualquer coisa que pudesse inculcar na cabeça das pessoas que o partido é bom e não pode ser tirado do poder poderia ser usado.

Antônio Gramsci, aliás, fez uma releitura da famosa obra “O Príncipe”, de Maquiavel, onde ele dizia que o partido marxista deveria ser o novo príncipe. Assim, ele aplicava as regras de Maquiavel para a manutenção de poder ao partido, legitimando para o mesmo a ideia de que os fins justificam os meios. A ética de Gramsci funcionava assim:

1. Há um sumo bem;
2. Este sumo bem é a revolução, que criará um mundo perfeito;
3. O partido é o agente capaz de implementar a revolução;
4. Logo, tudo o que beneficiar o partido pode ser feito e justificado, pois é em prol do novo mundo.

Se olhar para o PT, verá que é isso o que rege suas más ações. Lula, por exemplo, confessou em uma palestra que citava números mentirosos só para ganhar simpatia (Aqui tem o vídeo: “LULA FALA MAL DO BRASIL, DIZ QUE MENTE E RI DAS MENTIRAS“). Os escândalos de desvio de dinheiro publico em que o PT está envolvido não são para meramente enriquecer o bolso de seus integrantes, mas para financiar campanhas do partido. Ou seja, faz parte do projeto de manutenção do poder.

Você sabia ainda que o PT era contra programas assistencialistas? O PT considerava isso esmola e uma forma de dominação da classe politica aos pobres. Mudou de ideia ao chegar ao poder. Você sabia que os primeiros programas de assistência foram criados pelo PSDB e que o Bolsa Família é apenas uma continuidade, união e ampliação de antigos programas como Bolsa Escola e Vale Gás? Você sabia que oferecendo o Bolsa Família para 11 milhões de famílias, propagandeando ser o criador da assistência e fazendo terrorismo mentiroso de que o PSDB irá acabar com o programa, o PT consegue mais de 15 milhões de votos?

Você está ciente de que o PT apoia governos que estão afundando seus países, como o de Nicolas Maduro, da Venezuela, que mantém o país com escassez de produtos e inflação? Aliás, o PT é amigo de políticas inflacionarias, tal como todo partido socialista. Afinal, fazer dinheiro é una maneira simples de o governo saldar dividas de empresas publicas deficitárias. Simples para o governo, mas terrível para o povo, já que é a inflação da moeda que gera o descontrole dos preços e a perda do poder de compra. Era o que ocorria no Brasil antes do plano real, que o PT votou contra na época. É o que está perigando ocorrer de novo, ainda que com menor intensidade.

Você sabia que a maioria dos grandes nomes do PT que lutaram contra o regime militar (incluindo a sra. Dilma), queriam implantar uma ditadura comunista? É o que confessa, por exemplo, o ainda hoje esquerdista e socialista Eduardo Jorge, neste vídeo:
Eduardo Jorge admite o que Dilma sempre escondeu: ‘Éramos a favor da ditadura do proletariado‘”.

Você sabia que ditaduras comunistas levaram milhões de pessoas à morte em países como o Camboja, o Vietnã, a China, a Coreia do Norte e a URSS, por repressão e falhas em planos econômicos?

Você tem ciência de quantas mentiras o PT tem contado nestas eleições para vencer o PSDB? Por exemplo, a de que o FHC quebrou o Brasil três vezes, enquanto Lula saldou a divida com o FMI. A verdade é que FHC passou por quatro fortes crises internacionais que atingiram principalmente países emergentes. E em vez de recorrer a políticas inflacionárias para pagar dividas (algo que todos os governos anteriores faziam e que Lula faria em seu lugar), pegou empréstimo com o FMI, o que é muito menos pior para a população. Lula, por sua vez, quando resolveu pagar a divida com o FMI simplesmente vendeu títulos da divida para bancos brasileiros. Ou seja, ele saldou a divida com o FMI contraindo uma divida com bancos nacionais. Ele transferiu a divida externa para a interna. Só isso. Mas com um “detalhe”: os juros nacionais são mais altos que os juros do FMI.

Outro exemplo de mentira: a de que o desemprego no Brasil é de 5%• Para se chegar a esse numero o IBGE usa uma metodologia totalmente falha, que considera como não desempregado até quem fez um bico na semana da em que foi entrevistado. Veja com seus olhos no site do IBGE:

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme/pmemet2.shtm

É uma metodologia totalmente diferente da usada nos países europeus. O DIEESE, aliás, um instituto já antigo de pesquisa do Brasil, indica que o valor na verdade é de 10%. E pela metodologia europeia, seria mais de 20%. As seguintes leituras ajudam a entender melhor:

– A real taxa de desemprego no Brasil
– A farsa da taxa de desemprego no Brasil! 5,3% ou 22,1%?
 EXCLUSIVO: Desemprego no Brasil ultrapassa os 20%
– Governo manipula para baixo taxa de desemprego do Brasil

E por aí vai.

É realmente esse partido que você quer no poder? Um partido que acha que mentir para o seu bem é justificável, que tem um plano de se tornar hegemônico, que simpatiza com terroristas, ditadores e narcotraficantes, que discute estratégias e ações em um Foro com gente da pior espécie! É isso que você quer? Imagine esse partido conquistando a hegemonia que pretende! Imagina esse partido se tornando parte da cultura e da mentalidade da maioria dos brasileiros, incluindo até policiais, delegados e juízes! Imagina uma lei de controle de mídia nas mãos de um partido que alcança essa hegemonia! Tudo isso pode levar ao totalitarismo. Mas mesmo que isso nunca aconteça, você acha que um partido assim deve ficar no poder? Acha que um partido assim vai diminuir a horrenda taxa de 50 mil brasileiros assassinados todos os anos? Acha que esse partido vai conseguir limitar a corrupção? Acha que esse partido vai dar aos brasileiros a condição de andarem com as próprias pernas, sem a necessidade de um Estado-babá que toma conta de tudo, sufocando nossa autossuficiência?

Talvez você venha me dizer que o PSDB também tem um monte de erros. E tem mesmo! Tem corruptos, tem incompetentes, tem idiotas e tem um programa de governo falho em diversos aspectos. Mas não passa de um batedor de carteiras em comparação ao PT, que já é o traficante dono do morro e líder da facção.

A gestão do PSDB entre 1994 e 2002 e as razões da direita para escolher os social-democratas nessas eleições

Este texto também pode ser encontrado no blog “Mundo Analista“. Clique aqui para ver.

Aécio

Até onde sei, FHC e seu partido, o PSDB, governaram o Brasil em uma época complicada economicamente. O país já vinha quebrado com uma hiperinflação que perdurava desde a época da ditadura e com diversas empresas públicas prestando maus serviços, gerando déficits ou não lucrando o esperado. De quebra, aquele Brasil ainda viria a sofrer com os reflexos de crises internacionais que afetariam principalmente os países emergentes. Ou seja, a economia tupiniquim não vivia dias muito tranquilos.

É claro que existiam muitos outros problemas que afligiam os brasileiros. E é claro que, para o cidadão comum, economia não é algo muito interessante. O que ele quer é ver resultados práticos em sua vida. Práticos e rápidos. Mas é preciso dizer que a economia, essa coisa abstrata, difícil e chata, é um dos principais pilares para resolver os problemas de um país (senão o principal, já que tem outros pilares, como a formação do caráter de um filho, por exemplo, que cabem ao cidadão e não ao Estado). Somente quando acertamos os principais problemas da economia de um país, temos condição de começar a resolver outros problemas.

Pois bem, foi isso o que FHC e o PSDB se esforçaram para fazer em seu governo: dar um jeito na economia. E os resultados foram positivos. O plano real estabilizou a moeda, acabando com a hiperinflação e as privatizações de algumas empresas problemáticas fizeram com que os serviços melhorassem bastante, os lucros aumentassem (gerando mais receita para o governo sem onerar o cidadão) e o crescimento das mesmas, à longo prazo, gerasse mais empregos. O serviço de telefonia é o exemplo que mais se destaca, pois era realmente muito ruim e caro. Hoje qualquer um pode ter um celular.

O governo da época também procurou facilitar a entrada de empresas estrangeiras no país como uma forma de estimular a concorrência e diminuir preços de alguns produtos. Criou ainda a lei de responsabilidade fiscal, a fim de limitar um pouco a má gestão do orçamento público em estados e municípios.

Não podemos dizer que foi um governo perfeito e que todos os problemas econômicos foram sanados. Entretanto, as medidas econômicas tomadas deram ao Brasil a estabilidade necessária para começar a pensar na resolução de outros problemas. E nisso o PSDB, como um legítimo representante da social-democracia, também procurou fazer, ao criar programas sociais como o Bolsa Escola, o Vale Gás e o FIES.

O panorama, portanto, que o PT encontra no Brasil quando assume a gerência do país é o de uma economia centenas de vezes melhor do que quando o PSDB assumiu e com vários programas sociais que poderiam continuados (e, de fato, foram. O Bolsa Escola, o Vale Gás e outros programas acabaram sendo reunidos no Bolsa Família pelo PT, que, vale lembrar, não concordava com a existência deles, chamando-os de esmola). Em outras palavras, o PT entra com a faca e o queijo na mão, já não necessitando focar tanto na questão econômica, mas podendo pensar na resolução de outros problemas.

Do meu ponto de vista, a gestão do PSDB foi positiva. Em primeiro lugar, porque os problemas econômicos do Brasil eram bem graves e o contexto não ajudava nem um pouco. Ainda assim, a gestão os atacou com eficiência. Em segundo lugar, porque nenhum governo é capaz sanar todos os problemas de um país enorme como o Brasil em apenas oito anos de gestão. Pensar que o governo FHC conseguiria, além de resolver problemas econômicos graves, resolver completamente os problemas de saúde, educação, segurança pública, miséria, infraestrutura e etc. do Brasil em oito anos é exigir o impossível. Não estamos falando de um país com o tamanho de uma Suíça.

Assim, não vejo sentido em julgar o governo do PSDB como um governo que deveria ter feito mais e sim como um governo que preparou um bom terreno para o governo que o sucedeu. Não vejo sentido em ver a gestão de FHC como uma gestão que falhou em resolver outros problemas além da economia e sim como uma gestão que deixou as coisas mais arrumadas para o governo seguinte. Isso não significa dizer que a gestão foi perfeita, que não tomou decisões ruins e que foi isenta de erros, mas é apenas reconhecer que ela fez muito pelo Brasil em uma época complicada e que o saldo final foi positivo.

Quaisquer que sejam as comparações entre os governos PT e PSDB, portanto, precisam levar em conta elementos básicos como o contexto nacional e internacional em que cada gestão assumiu o Brasil, os problemas prioritários que precisavam ser resolvidos em cada época e os resultados conquistados em relação um ao outro e em relação ao seu contexto. Esse tipo de comparação é mais complexa, demanda mais tempo e paciência, porém é mais justa.

Das análises que tenho feito, tenho chegado à conclusão de que o governo PSDB foi superior ao do PT e que, assumindo em um contexto econômico mais tranquilo em comparação ao de outrora, tem boas chances de atuar bem em muitas das áreas às quais, naquela época, não era possível fazer grandes coisas e/ou não foram dadas tanta atenção.

Não obstante, deve-se ter em mente que isso não quer dizer que uma nova gestão do PSDB irá acabar com os problemas na saúde, educação, segurança pública e etc. Primeiro, porque, como já dito, não se muda grandes problemas em alguns poucos anos. Segundo, porque, o PSDB não é um partido de direita. Ele é de esquerda moderada. Oscila entre esquerda e centro. Como um legítimo representante da social-democracia, sabe o valor do capitalismo, mas não abre mão dos cacoetes esquerdistas de querer domar a economia como um cavalo adestrado e de enxergar o Estado como uma mãezona que deve educar seus filhos. O primeiro cacoete inviabiliza o surgimento de novas ideias que integrem a iniciativa privada às resoluções de problemas sociais. Um governo assim, por mais que abra algumas concessões ao livre mercado para que a economia cresça e respire, sempre continuará crendo que pode abraçar o mundo e resolver a maioria das coisas através da ação direta do Estado, o que sempre acaba gerando má administração, corrupção e autoritarismo.

O segundo cacoete inviabiliza a criação de leis penais mais rígidas, melhores sistemas de fiscalização e o respeito às leis. Um governo assim, dificilmente conseguirá combater com eficiência a corrupção (seja nos altos ou nos baixos escalões), o sentimento de impunidade, o desrespeito à autoridade, a reincidência de crimes que poderiam ser evitados e etc.

Num país de dimensões continentais como o Brasil, com um péssimo passado econômico, um horroroso histórico de corrupção e uma sucessão de governos autoritários, isso tudo desde que passou a existir como país independente, é praticamente impossível que um governo social-democrata consiga transformá-lo em uma Suécia, por exemplo, que o que é hoje justamente porque tem uma história oposta a do Brasil em tudo o que acabei de falar.

Meu voto nesse segundo turno (como foi no primeiro) vai para o Aécio Neves, do PSDB, não porque eu pense que ele dará jeito em tudo (nem se ele fosse de direita eu acharia isso, aliás), mas porque a social-democracia está mais próxima daquilo que eu acho que seria o melhor para o Brasil. Meu voto vai para o Aécio porque não acredito em governos de esquerda e, na falta de um candidato e um partido de direita, o melhor é votar em social-democratas.

Há quem diga que esse tipo de voto é voto pelas elites, que não ser de esquerda é ser contra o pobre. Mas não é verdade. Ser de direita é simplesmente entender que dá para sentar e pensar em maneiras mais eficientes de cuidar do país e dos pobres sem precisar fazer do Estado uma mãezona. Para quem gosta de programas sociais, não é sequer necessário abandoná-los. Convido-o a pensar, por exemplo, em um governo que em vez de gastar rios de dinheiro com escolas públicas, transferisse aos poucos os alunos para bons colégios privados, financiando a mensalidade de cada um e dando aos pais a oportunidade de transferir o aluno de colégio se achar necessário? É difícil? Há possíveis problemas? Pode ser, pode ser. Mas como eu falei, é necessário pensar. Sentar e pensar.

No mais, qualquer pessoa sensata sabe que se um país estimula a iniciativa privada e a concorrência, os produtos tendem a ficar mais baratos e melhores, mais empresas tendem a surgir e, com isso, mais empregos. Isso, à longo prazo, é o melhor tipo de programa social existente.

Qualquer pessoa sensata sabe também que violência e corrupção só podem ser controladas com leis rígidas, que imponham respeito ao criminoso, ou que, no mínimo, o mantenha impossibilitado de cometê-lo novamente contra o cidadão honesto. A taxa de cinquenta mil assassinatos anuais no Brasil só irá diminuir se o sujeito que matar uma vez não puder matar de novo. E para isso é necessário haver leis rígidas.

Ser de direita é simplesmente tentar melhorar as coisas sem depositar confiança em esperanças utópicas como um governo repleto de homens de ótimo caráter e perfeita noção de administração. É tentar melhorar as coisas reconhecendo que ninguém é perfeito, que alguns são corruptos, que outros são maus gestores e que é preciso criar mecanismos inteligentes para limitar ao máximo os prejuízos que a imperfeição humana causa a nós mesmos.

Aqui ficam expostas, portanto, as minhas razões para votar no candidato e no partido social-democrata. Em suma, eles são os que, atualmente, mais se aproximam do que julgo ser bom para o Brasil. Mas também há motivos para simplesmente não votar no PT, tais como o fato de este ser um partido de origem/orientação marxista (ideologia que só causou genocídios, miséria e perseguição nos países onde tentou ser implantada), de ter ajudado a criar no início dos anos 90 (e fazer parte até hoje) do Foro de São Paulo – uma organização que reúne vários partidos de esquerda da América Latina, juntamente com organizações terroristas e narcotraficantes como as FARC -, de não apresentar qualquer preocupação com os 50 mil mortos assassinados no Brasil anualmente, de defender terroristas islâmicos, de aparelhar empresas estatais, de ser a favor de um Estado altamente interventor e eteceteras.

Além de tudo isso, há o fator democracia. Não é bom para a democracia que um partido fique eternamente no poder. É perigoso. Está na hora de mudar. Entrando, porém, o PSDB na gestão brasileira, certamente não cessarei de fazer minhas críticas, tampouco considerarei ideal que social-democratas estejam no poder. Esta é a minha posição.

Os quatro perfis de esquerdista (Ou: por que não acredito em governos de esquerda?)

Este texto também foi publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler o texto original, clique aqui.
Líderes de Esquerda
Tenho uma amiga comunista. Ela acredita tão sinceramente no comunismo que não consegue entender como eu posso ser antimarxista e, pior ainda: de direita. Para ela, dentro do marxismo e da esquerda em geral, não existe uma diferença entre teoria e prática, discurso e ação. Ou seja, se a esquerda afirma que sua intenção é ajudar os pobres, então é exatamente isso o que ela está tentando fazer e é exatamente isso que ela fará quando chegar ao poder. A conseqüência desse pensamento é que qualquer um que se oponha a esquerda é alguém insensível às necessidades humanas, egoísta, malvado, injusto e, claro, muito rico. É no que ela acredita. Por isso, teve dificuldade de entender como eu poderia ser de direita. Ela realmente não entende essa “incoerência”.

O objetivo desse texto, portanto, é deixar claro que não foi por insensibilidade, egoísmo, malvadeza, injustiça ou riqueza (sobretudo riqueza!) que eu me tornei opositor da esquerda (e defensor da direita), mas sim porque tenho a sincera convicção de que as belas teorias esquerdistas não são capazes de serem colocadas em prática. Que o leitor tenha em mente que não é minha intenção falar mal de minha amiga. Afinal, nós somos bons amigos. A idéia é aqui é escrever um texto bem light, feito especialmente para os amigos do peito que acreditam sinceramente na esquerda.

Abandonando o maniqueísmo

O primeiro ponto que precisamos entender é que honestidade e desonestidade, competência e incompetência, êxito e fracasso são fatores que independem do espectro político. Há esquerdistas honestos e desonestos, competentes e incompetentes, bem sucedidos e mal sucedidos. E o mesmo se dá com centristas e direitistas. O caráter, a conduta pessoal, a competência e a habilidade não podem ser usados para se definir qual é a posição política de uma pessoa.

Então, é evidente que dizer, por exemplo, que o objetivo da esquerda é melhorar a vida dos pobres e que ela conseguirá fazê-lo não é uma afirmação que está dentro do campo da política. É uma afirmação de cunho pessoal e até especulativa. Tem a ver com o objetivo, a competência e a sorte de cada político, bem como com a possibilidade real da teoria ser posta em prática. Nenhum desses fatores é inerente à ideologia. São fatores que estão além do que é ser de esquerda.

Entender isso é essencial para que não se adentre numa visão maniqueísta da política, na qual adeptos de ideologia são maus e os adeptos de outra são bons. Tal visão maniqueísta, que tem sido utilizada por muitos esquerdistas e direitistas, inviabiliza o debate e leva uma questão que é política para o campo pessoal.

Redefinindo o objetivo primordial

Feitas as considerações acima, devemos redefinir os objetivos da direita e da esquerda à luz de fatores inerentes à direita e à esquerda, em vez de fatores de ordem pessoal e/ou especulativa. Como se dá isso? Através da identificação de um objetivo primordial concreto de cada uma dessas posições em qualquer de seus governos. A começar pela esquerda, esse objetivo primordial é aumentar as funções e a presença do Estado. Qualquer governo esquerdista buscará isso. É uma inerência. Em contrapartida, o objetivo primordial de um governo de direita é exatamente o oposto: diminuir as funções e a presença do Estado.

Mas por que motivo a esquerda pretende inchar o Estado e a direita pretende desinchar? Aqui entra a teoria (que pode ser totalmente diferente da intenção pessoal de cada político e/ou da realidade, conforme veremos mais a frente): para a esquerda o mal da sociedade não está no ser humano, mas sim no modo como essa nossa sociedade está estruturada. E o Estado não só é plenamente capaz de reestruturar a sociedade como é a melhor ferramenta para fazê-lo. Por isso, a esquerda deseja inchar o Estado. Já para a direita, a sociedade é imperfeita porque o ser humano é imperfeito. E, sendo o ser humano imperfeito, inchar o Estado gera incompetência governamental, corrupção e totalitarismo. Por isso, a direita deseja desinchar o Estado.

Estas são as teorias básicas da esquerda e da direita. Mas, como já mencionado, uma teoria básica nem sempre está de acordo com a intenção pessoal do político, ou com a sua eficiência, ou com o seu êxito, ou com a realidade prática. É neste ponto que eu começo a me tornar um opositor da esquerda.

A teoria esquerdista é bonita. Um Estado capaz de dar jeito nos problemas do mundo, tornando a sociedade justa e todas as pessoas felizes seria algo desejável. Qualquer indivíduo que tenha sensibilidade e bom caráter reconheceria isso. Contudo, esta teoria se baseia justamente naquelas duas premissas falsas: (1) que não há diferença alguma entre teoria e prática dentro do esquerdismo (por isso, inevitavelmente a teoria dará certo na prática) e (2) que todo político esquerdista é honesto, eficiente e terá êxito. É óbvio que as duas premissas não se sustentam.

Então, ficamos com um problema: não é possível ter certeza (ou mesmo alguma indicação) de que um governo esquerdista conseguirá, através do inchamento do Estado, reestruturar a sociedade. Tampouco é possível ter certeza (ou alguma indicação) de que um governo esquerdista conseguirá colocar sua teoria em prática da maneira como foi pensada. Na verdade, as diversas experiências de governos esquerdistas que temos visto, (sobretudo, comunistas) nos têm oferecido fortes evidências de que o inchamento do Estado sempre conduz a um caminho radicalmente oposto àquele que os esquerdistas afirmam desejar e àquele que suas teorias intencionam. Uma observação apurada dos diversos tipos de políticos esquerdistas que existem e de como eles agem, nos ajuda a entender melhor porque tal fenômeno acontece.

Os quatro tipos de políticos esquerdistas

1) PEH, o político esquerdista honesto

O primeiro tipo de político esquerdista que devemos analisar é o honesto. Vamos chamá-lo de PEH. Este é o tipo de político que acredita sinceramente nos ideais da esquerda e pretende realmente fazer reformas para mudar a sociedade. Logo que ele chega ao poder começa a perceber um grande problema: a democracia. Por mais que uma pessoa seja favorável à democracia é indiscutível que esta organização de governo apresenta dificuldades à implementação de quase qualquer projeto ou reforma. Afinal, as pessoas não são unânimes. Elas discordam não apenas no que deve ser feito, mas em quando deve ser feito e, principalmente, em como deve ser feito. Isso não é verdade só entre partidos e movimentos rivais, mas dentro do próprio partido ou movimento.

É exatamente isso que PEH começa a perceber. Ele tem a plena convicção de que suas idéias são boas e que dariam muito certo. No entanto, não consegue colocá-las todas em prática, tampouco da maneira como gostaria, pois o regime é democrático; as pessoas não entram em acordo unânime. E o problema não está apenas na falta de unanimidade entre os políticos. Antes fosse. Mas PEH percebe que a mídia em uma democracia é uma grande pedra no sapato. Afinal, sempre há meios de comunicação que se opõem ao governo. Alguns desses, de grande influência.

Há outros inconvenientes. Em um regime democrático, o poder é tripartido. A tripartição dos poder político dificulta ainda mais a vida de PEH, porque ele fica na dependência de várias pessoas e grupos de pessoas diferentes para colocar em prática os seus planos. Por exemplo, se determinado projeto de PEH só é viável se determinadas pessoas forem condenadas (ou se determinadas pessoas forem absolvidas), ele não tem como fazer nada, a não ser esperar pelo julgamento do poder judiciário. Se PEH acha que o judiciário é corrupto e não julgará direito, então seu projeto corre risco de não sair do papel. Enfim, PEH começa a perceber que o regime democrático limita muito os seus passos na política.

Mas PEH é um idealista. Ele crê na progressividade da história, na evolução do ser humano, na perfectibilidade da nossa espécie. Ele crê na total reestruturação dessa sociedade corrupta. Ele acredita em um governo feito apenas de boas pessoas. Assim, ele começa a apoiar o partido na idéia de “redemocratizar” a sociedade. Como assim? É simples. Para PEH e seu partido, uma democracia plena é aquela em que o povo é, de fato, representado pelos seus políticos (a ponto de poder dizer: “Somos nós mesmos que estamos no poder”). Evidentemente, PEH e seus companheiros de partido acreditam ser os verdadeiros representantes do povo, sobretudo PEH, que é honesto mesmo. Assim sendo, redemocratizar a sociedade é limitar a voz da oposição (sobretudo nas mídias) e centralizar o poder.

Como as duas atitudes mencionadas acima estão intimamente relacionadas ao inchamento do Estado (que é um objetivo básico para qualquer governo esquerdista), a busca pela “redemocratização” torna-se um tanto natural para PEH e seus companheiros de partido. Ele não consegue enxergar que o que está propondo não é democracia, mas totalitarismo. Ele não se vê como autoritário, pois acredita que quem tem uma opinião diferente da sua é um mau caráter. Então, limitá-los é fazer justiça.

PEH é o tipo de político que pouco a pouco vai se tornando padrão de moral para si mesmo. Em prol de seus ideais (que é o que salvará o mundo), ele começa a se sentir no direito de fazer qualquer coisa. Ele “sabe” que não pode esperar pela lentidão da democracia e que precisa tomar uma atitude. Atitude! O povo precisa de alguém de pulso firme, que acabe com a injustiça sem precisar esperar. Os inimigos do povo não devem ser respeitados. Não há tempo para combatê-los dentro da democracia. Não há tempo para esperar pelas demoradas deliberações dos três poderes. O que é correto é óbvio e não precisa de deliberação. O bom político, o bom partido, o bom líder, o bom governo sabe o que o povo precisa. A coisa é mais fácil do que parece. Basta ter boa intenção e boa vontade. E PEH tem esses atributos de sobra.

Uma vez que o partido de PEH consegue o poder e a hegemonia no pensamento político, o Estado vai se tornando cada vez mais autoritário. Opositores são acusados de crimes que não cometeram e condenados, os meios de comunicação são controlados e a economia passa para as mãos do Estado. Supondo que o partido consiga fazer o Estado chegar à total centralização política, criando um enorme governo totalitário, PEH terá sido bem sucedido. Agora, todas as reformas que seu partido quiser fazer poderão ser feitas à força, sem problema algum.

A partir desse ponto, duas coisas podem acontecer ao nosso querido político iluminado. Ele pode se dar conta de que criou um Estado detestável (que suprimiu as liberdades individuais, passou a prender e matar pessoas indiscriminadamente e ainda não conseguiu resolver diversos problemas sociais) e se tornar um opositor de como as coisas estão sendo feitas. PEH, neste caso, não está se colocando contra o “progresso” que seu partido conquistou, mas contra um suposto desvio. Afinal, sua idéia era uma ditadura democrática (o que ele tem certeza absoluta que é possível, por mais que tal concepção seja contraditória).

Tornando-se um opositor, PEH terá que ser muito habilidoso e bem sucedido para se tornar o líder do governo. Se não conseguir (ou não quiser isso), seu destino será uma vida fugitiva, ou uma prisão política, ou mesmo, a pena de morte. Não podemos dizer aqui que o governo se tornou vilão e PEH é o mocinho da história. O governo apenas segue a lógica da própria revolução iniciada por PEH. Alguém tem que tomar uma atitude para mudar as coisas. Divergências não podem travar a ação do governo em mudar a sociedade. Então, não há mesmo espaço para a democracia.

Além do mais, se na liderança do governo está alguém honesto como PEH, este líder sabe que precisa proteger o regime de cisões internas e a revolução de qualquer limitação que possa vir a enfraquecê-la. Deve-se ter em mente que manter uma ditadura requer muitos cuidados. O governo precisa se engajar muito na manutenção do poder, pois se isto não é feito, tudo pode ser perdido. E o líder honesto do governo, por “saber” que a reestruturação da sociedade depende dele, não pode correr o risco de perder o cargo e pôr a salvação do mundo a perder.

A segunda coisa que pode acontecer ao nosso iluminado político é ele continuar sem perceber que criou uma ditadura (ou passar por cima disso, justificando para si mesmo que “isso é necessário, mas há de ser temporário”). Neste cenário, ele tem mais chances de se tornar líder do regime (se já não for). E uma vez sendo o líder do regime, ele alcançou seu grande objetivo, pois agora nada o impedirá de mudar o mundo.

Bem, na verdade, algumas coisas o impedirão o líder PEH de mudar o mundo. A primeira, já citada, é a necessidade de manter o seu poder, o regime e a revolução. Já que toda a ditadura gera oposições ideológicas e gente querendo se beneficiar do poder absoluto, o líder não poderá dormir em paz em seu travesseiro. Ele terá que agir como um tirano desconfiado e gastar muito tempo, dinheiro e esforços para não colocar tudo a perder. Não só ele, claro, mas os principais integrantes do governo. Isso, obviamente, impede que a “transformação da sociedade” receba total atenção.

A segunda é a dificuldade de um governo administrar tantas áreas e setores de um país. Em um país pequeno isso já é complicado. Se o país for grande, como uma URSS da vida, é impossível manter tudo em ordem. Vai haver má administração de recursos, má alocação de verbas, desvios de dinheiro público, esquemas ilegais entre alguns grupos de interesses, morosidade na produção, escassez de alguns produtos, superabundância de outros, inflação, serviços e produtos de baixa qualidade, falta de fiscalização em determinados setores, excesso de fiscalização em outros e etc. Tudo o que poderia ser administrado diretamente por diferentes empresas, agora estará sob a administração do governo. Não é tarefa simples.

Em outras palavras, mesmo contando com um político honesto como PEH e um partido que o apóia, parece inevitável que um governo esquerdista, se bem sucedido em sua empreitada de aumentar as funções e a presença do Estado para mudar o mundo, se tornará um governo totalitário e repleto de problemas que não consegue resolver.

2) PEHAD, o político esquerdista honesto e amigo da democracia

Surge, então, o iluminado PEHAD. Este é o político esquerdista honesto e amigo da democracia. Tal como seu amigo PEH, PEHAD é um idealista sincero, que deseja realmente mudar a sociedade para melhor e que acredita na presença do Estado como solução para todos os problemas sociais. A diferença é que PEHAD se apresenta como alguém que está acima daquela velha política ultrapassada do séc. XX, onde diversos governos de esquerda se tornaram totalitários para alcançar seus objetivos. Para ele, a democracia é um bem intocável e foi um grande erro esses governos se permitirem abrir mão dela. É claro que tais governos não devem ser crucificados por isso. Se erraram foi por desejarem um mundo melhor. Por isso, PEHAD não esconde sua admiração por esses regimes ditatoriais que se esforçaram tanto por seus ideais.

Logo que PEHAD chega ao poder, ele se depara com um problema. As empresas públicas e os sistemas públicos de saúde, educação, transporte e prisões são bastante ineficientes, pois há muito desvio de dinheiro e má administração. Como ele “sabe” que a solução para os problemas é a presença do Estado, ele apóia, junto aos seus camaradas de partido, que o governo invista mais dinheiro nessas áreas. O dinheiro é investido, mas, para a sua surpresa, o desvio de dinheiro e a má administração aumentam.

Uma pessoa realista logo perceberia que investir mais dinheiro em setores públicos não é a solução, pois se o problema está na corrupção e na má administração, aumentar a verba só aumenta o problema. Mas, para PEHAD, tudo se resolve com mais presença do Estado e, claro, com mais presença do partido. Assim, as duas soluções encontradas por PEHAD para lidar com o problema é continuar defendendo cada vez mais investimentos no setor público e, concomitantemente, inculcar na cabeça do povo que existe uma luta de classes na sociedade; do lado dos oprimidos está PEHAD e seu partido e do outro lado estão os outros partidos e os empresários, que se alinham contra o povo. Criar mentalidades vitimistas, semear o ódio ao setor privado e implementar lutas entre várias subclasses faz parte de toda a dinâmica.

A estratégia é bem simples e típica de qualquer partido de esquerda: inchar o Estado, fazer o povo apoiar o inchamento e colocar o partido como o defensor supremo dos necessitados e acima do bem e do mal. Se lograr êxito nessa estratégia, o resultado é simplesmente fenomenal: a mentalidade de inchamento do Estado se torna parte da cultura, o povo cria dependência do governo, o poder de atuação do Estado aumenta e o partido de PEHAD ganha grande representação no governo. Na visão de PEHAD isso é suficiente para resolver os problemas constatados, pois uma vez que o governo esteja repleto de seus camaradas de partido (que são os verdadeiros representantes do povo) e com maior poder de atuação, a corrupção e a má administração “logicamente” irão diminuir gradualmente até não mais existirem. Ele e seu partido reeducarão toda a sociedade.

Dois cenários são possíveis a partir daqui. O primeiro é o de estagnação. Uma vez que não é fácil administrar um país, que quanto mais inchado é um Estado, maiores são os desafios administrativos e maiores as chances de má gestão e corrupção, que nem todo político é eficiente, que não há unanimidade na democracia e que no partido de PEHAD não há só políticos altruístas e bem intencionados, mas muitos egoístas e desonestos, o projeto de PEHAD simplesmente fica estagnado. O seu país permanece com sérios problemas de corrupção e má alocação de verbas e PEHAD permanece na luta por inchar o Estado e demonizar outros partidos políticos e empresários de maneira democrática.

O segundo cenário é o de progressão para o totalitarismo. O projeto de PEHAD dá certo e o Estado se torna cada vez mais repleto de funções e poderes. Como as coisas continuam ruins, vê-se cada vez mais a necessidade de centralizar mais o poder e tomar medidas mais drásticas. Alguns PEH’s defendem com ardor a “redemocratização” do país. E então o totalitarismo começa a entrar em cena gradualmente. Se nosso amigo PEHAD continuar fiel a sua visão democrática, ele se tornará um opositor do regime. E seu destino provavelmente não será a liberdade de expressão. Mas é bem possível que PEHAD se renda aos “avanços” do regime em “tirar o poder das mãos dos inimigos do povo”. Neste caso, ele defenderá o regime com unhas e dentes, achando-o justo.

3) PED, o político esquerdista desonesto

Vimos como é possível um político esquerdista honesto se tornar um ditador e como é possível um político esquerdista honesto e amigo da democracia não conseguir alcançar as maravilhas que achava que alcançaria, deixando o Estado do mesmo modo decrépito (ou pior) ou até colaborando (consciente ou não) para uma ditadura.
Preferi começar pelos honestos para ninguém dizer que acho os esquerdistas um bando de mau caráter. Contudo, nem só de gente honesta vive a esquerda. Talvez a maioria das pessoas comuns que são de esquerda seja honesta, mas tenho sérias dúvidas quanto aos políticos. Porque, afinal de contas, o pensamento de esquerda fornece muito mais benefícios ao político do que o pensamento de direita. É exatamente pensando nisso que surge o político esquerdista desonesto. Vamos chamá-lo de PED.

PED é o tipo de político que não difere muito do PEH e do PEHAD em seus métodos de se fazer política. Ele também age como um idealista, falando em aumentar a presença e as funções do Estado para reestruturar a sociedade. Ele também luta para livrar o governo das amarras de uma “falsa democracia”, a fim de ter mais liberdade de ação. Ele também se coloca como a favor dos pobres e da “coisa pública”. Ele também tem um discurso inflamado e apaixonado. Ele grita contra a mídia manipuladora quando esta persegue injustamente o seu partido. Ele exalta o Estado, fala sobre “soberania nacional” e discursa a favor do trabalhador. Mas há uma diferença. PED sabe ser mais pragmático. Afinal, o que importa para PED é conseguir chegar ao poder e, uma vez nele, lutar para mantê-lo.

Uma vez no poder, PED se empenha ao máximo em se beneficiar do inchamento do Estado defendido por seus companheiros de partido e toda a esquerda. Para PED é fundamental que o Estado esteja presente em todos os locais da vida social e que tenha uma miríade de funções. Desta forma, é muito mais fácil desviar verbas de diversos setores públicos, fechar parcerias com empresas privadas e praticar o superfaturamento dos preços, usar empresas públicas como cabrestos de emprego, usar bolsas-auxílio para arrecadar votos, fazer propagandas de obras públicas em épocas de eleição, doutrinar as crianças nas escolas e os jovens na faculdade, centralizar o poder, tomar medidas autoritárias, sair impune de julgamentos, gastar dinheiro público com futilidades, posar de “pai dos pobres”, aumentar a dependência das pessoas pelo Estado, dificultar as fiscalizações, inflacionar a moeda e etc.

Por essas razões, PED se opõe frontalmente a valores direitistas como um Estado limitado e descentralizado, baixa carga tributária, poucos setores públicos, incentivo a competição entre empresas privadas e etc. Todas essas idéias se constituem obstáculos complicados ao projeto corrupto de PED. Ele pode até moderar a sua defesa do Estado inchado e centralizado, a fim de fechar alianças com partidos mais conservadores. O apelo a idéia de centrismo, de uma visão equilibrada, de uma visão sem extremos é bem comum no discurso de PED. Em muitos momentos pode até ser considerado de direita por esquerdistas mais radicais. Mas, no fim das contas, ele deseja a mesma coisa que todos os partidos de esquerda: inchar o Estado ao máximo que puder.

4) PEMI, o político esquerdista medroso e/ou incompetente

Finalmente, temos o PEMI. Este é o tipo de político que bem intencionado, mas que não tem capacidade e/ou coragem para fazer qualquer coisa. Ele entra na política de gaiato, defendendo que o governo precisa fazer alguma coisa pelos pobres e todo aquele discurso já conhecido. Uma vez na política, no entanto, ele literalmente não faz nada, a não ser ganhar dinheiro. Mas apesar da inatividade, o PEMI é essencial para os projetos da esquerda, pois ele não se opõe ao inchamento do Estado. Ao contrário, ele acha algo positivo. Então, o partido não precisa se preocupar com uma oposição vinda por parte do PEMI e pode contar com o seu apoio sempre que precisar. O PEMI é uma marionete do partido.

É interessante ressaltar que para o PED, o PEMI tem uma importância mais especial que para os outros políticos porque, sendo incompetente, não será uma ameaça para os esquemas corruptos de PED e, sendo medroso, não falará nada se descobrir alguma falcatrua. Na verdade, é até bem possível que ele se corrompa e tome parte na sujeira. Assim, o PEMI tem grande participação no problema da corrupção e da má administração do país.

Avaliação dos quatro tipos de esquerdistas

Os quatro tipos de esquerdista foram baseados na realidade. Com pouco esforço, o leitor poderá encontrar exemplos desses políticos de esquerda tanto na história como na atualidade. O que essas observações sistemáticas nos ensinam é que não importa que tipo de esquerdista um político é (se honesto, ou democrático, ou desonesto, ou medroso ou incompetente), suas atitudes sempre caminharão rumo ao ideal de inchar o Estado o máximo possível; e o inchamento do Estado, por sua vez, sempre levará a corrupção, má administração e totalitarismo.

Esta é a razão pela qual não acredito na esquerda. Se alguém conseguir me provar que estou errado, que a esquerda consegue transformar o mundo em um paraíso e que esses quatro tipos de esquerdistas não colaboram com seus atos para os problemas descritos acima, me torno esquerdista e abandono a direita.

Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?

Autor: ALEXANDRE BORGES *

Uma das maldições da segunda-feira é o Roda Viva da TV Cultura, em quase todas as edições um convescote de esquerdistas que atestam a debilidade da alta cultura e do jornalismo no país. Há duas semanas, o convidado foi o ex-presidente e imortal Fernando Henrique Cardoso, que estufa o peito e se autodeclara “progressista”, um intelectual iluminista acima das ideologias que busca apenas o bem comum.

Não é de hoje que o progressismo é a bandeira dos que entendem a história como uma locomotiva que segue em direção a um futuro glorioso, racional, em que as ideologias são superadas, assim como as religiões, o nacionalismo, e uma sociedade próxima da perfeição emerge. Quem se coloca contra essa visão progressista da vida é um inimigo do futuro, um obstáculo a ser removido, uma pedra no caminho, uma inquietante voz do passado a ser calada. Quando FHC diz no Roda Viva que progressista é quem “olha para frente”, meus caros, é isso que ele quer dizer.

O progressismo pode ser entendido como um fenômeno típico do final do século XIX até os anos 30 do século XX, mesmo que suas raízes possam ser traçadas nas décadas e até séculos anteriores e muitos esquerdistas até hoje, como FHC, prefiram se apresentar assim.

Muitos enxergam no progressismo também um desdobramento do socialismo fabiano, a vertente criada pelo grupo britânico fundado há 130 anos que contou com intelectuais como H.G. Wells, Bertrand Russell e George Bernard Shaw, e que defendia que o socialismo seria uma evolução natural e inexorável do capitalismo e que, portanto, não seria necessário pegar em armas para que seu tempo chegasse. Para os fabianos, reformas graduais seriam o caminho indicado para a implementação do socialismo – como, por exemplo, a esterilização dos “povos inferiores” para não se ter que matá-los, já que bastava impedir que se reproduzissem.

Mesmo tendo um parentesco próximo com a social-democracia européia, o progressismo americano trazia a ideia do encantamento arrogante e quase religioso com a razão, com a ciência e o deslumbramento com a tecnologia, embalado pela época que traz descobertas como as do telefone (1876), do fonógrafo (1877), da lâmpada elétrica (1879), do gramofone (1887), do cinematógrafo (1895), do avião (1906), entre outros. Em 1889, comemorando o centenário da revolução francesa, acontece também a Exposição Universal de Paris, visitada por 28 milhões de pessoas e que construiu nada menos que a Torre Eiffel para a entrada.

O termo progressismo é entendido hoje como um contraponto ao conservadorismo, mas é, para todos os efeitos, um descendente legítimo do Positivismo “original”, aquele da escola de pensamento fundada pelo inventor da sociologia, o francês Augusto Comte (1798-1857), que traz a ideia do “governo científico” liderado por uma aristocracia intelectual que possui todas as respostas do mundo e que pode cuidar de tudo enquanto você, pobre mortal, vai tocando sua vida bovina e ruminante, obedecendo o grande plano traçado pelos guardiões da sociedade, sem questionar nada para que o governo não tenha que se livrar de você.

A ideia de um governo de reis-filósofos pode ser encontrada em tempos tão remotos quanto em “A República” de Platão (427-347 a.C.), que imagina a “cidade ideal”, uma pretensa sociedade justa e saudável em que o estado provê as necessidades básicas do cidadão enquanto ele é destinado a realizar tarefas simples baseadas nas suas habilidades. O indivíduo abre mão da sua liberdade e aceita ser parte integrante de um plano maior estatal, desenhado e gerenciado por uma aristocracia de notáveis. Sedutor para alguns na teoria, é na prática um regime totalitário.

Mais prisões políticas que Mussolini

Um dos mais poderosos e influentes políticos “progressistas” da história, abertamente entusiasta da visão política de que “seres superiores” deveriam governar sem limites em nome do bem estar social, foi Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA de 1913 a 1921, um dos políticos que, quanto mais você conhece, mais se assusta com o fato de que alguém como ele tenha ocupado a Casa Branca. Um presidente americano que encarcerou mais inimigos políticos por delito de opinião que Benito Mussolini merece atenção.

Wilson foi uma criança disléxica que só aos 10 anos de idade aprendeu a ler mas que viria a ser um ensaísta, autor de livros políticos influentes, além de um acadêmico que se tornou reitor da Universidade de Princeton e o primeiro PhD a chegar a presidência dos EUA. Em resumo, o primeiro intelectual a comandar o país.

Woodrow Wilson era, como os fascistas, assumidamente racista e comprometido intelectualmente com teses de supremacia branca e eugenia. Criado num lar de pais sulistas e confederados que pegaram em armas em defesa dos escravistas contra Abraham Lincoln, o voto dos negros para ele foi “o pior mal que aconteceu na história do país”. Ele era um defensor, por exemplo, da “purificação darwiniana das raças inferiores”.

Os pais fundadores da nação e a Constituição, para ele, eram motivo de chacota e desprezo por serem “antiquados”. A Declaração da Independência e o Bill of Rights eram recheados de “nonsense” e um eco do século XVIII que precisava ser superado. Para ele, nada deveria limitar os poderes do presidente, apenas sua própria capacidade e vontade. A própria divisão da república em três poderes seria um anacronismo incômodo, já que o Congresso não deveria atrapalhar o caminho inexorável para o futuro que o presidente representaria. “Se você não é um progressista, é melhor você tomar cuidado”, ameaçou Wilson já no seu discurso de posse.

Este intelectual também acreditava, como comunistas e fascistas, que havia povos atrasados que mereciam ser subjugados e ter seus territórios invadidos para que sociedades “adultas” pudessem cuidar destes que estavam na “infância” do desenvolvimento. Como presidente, invadiu a Nicarágua, o México, o Panamá e o Haiti e foi o comandante-em-chefe do país na Primeira Guerra Mundial.

Sua visão do povo era tão autoritária quanto possível e quase inimaginável para um presidente americano. Chegou a afirmar que a população, para um verdadeiro líder, era uma “ferramenta do estado”, numa simbiose perfeita que fazia do governo um organismo vivo e inseparável na nação, entre outras ideias típicas de um rei absolutista. Dizia também, quando presidente, que sua gestão representava a “mão de Deus” e que ser contra ele, portanto, era não só ser contra o estado mas ser contra Deus.

Segundo ele, que enquanto presidente montou uma das maiores máquinas de propaganda política que se tem notícia, o povo não precisava saber de toda verdade, com todas as visões e lados da questão, que isso confundiria o cidadão comum. Uma meia verdade, que mais apelasse para a emoção do que para a razão, e que motivasse o povo a seguir o caminho traçado pelo governo, era o mais recomendável. Seu ídolo e líder inspirador era ninguém menos que Otto von Bismarck.

Do positivismo ao progressismo e, depois, fascismo.

Poucos termos são tão desgastados quando “fascista”, que hoje em dia virou nada mais que um xingamento. Mesmo assim, o entendimento do fenômeno fascista ainda desafia os historiadores: o que é, afinal, esse tal de fascismo?

Mesmo com diferenças pontuais, é possível traçar como características comuns dos regimes fascistas italiano e alemão:

  1. A identificação clara de inimigos internos e externos do estado, que deveriam ser perseguidos, calados, presos e, em última instância, eliminados.
  2. A criação ou fomento de mitos que encarnassem os “valores nacionais” e que simbolizassem o orgulho da nação.
  3. Um projeto de reeducação da sociedade, que deveria aceitar um novo conjunto de valores culturais e morais impostos pelo estado.
  4. Liderança política exercida de forma carismática e personalista, com forte apelo ao culto à autoridade maior do regime.
  5. Militarização da sociedade, com a criação de milícias apartadas das forças armadas tradicionais do país e comandadas diretamente pelo líder do regime.

Em maior ou menor grau, diversos ditadores além de Mussolini e Hitler poderiam ser classificados como fascistas – ou como você definiria, por exemplo, o Getúlio Vargas do Estado Novo, o general argentino Leopoldo Galtieri ou o coronel Hugo Chávez? Mas colocar essa pecha num governo americano, do Partido Democrata, é ser politicamente incorreto, mesmo que essa seja totalmente defensável.

Woodrow Wilson não entrou para a história como um fascista (em parte, um erro resgatado por Jonah Goldberg em “Liberal Fascism”), mas seu governo puxou a democracia americana até o limite e além, quase duas décadas antes de Mussolini e Hitler chegarem ao poder.

Para resumir o que esse progressista fez na Casa Branca, ele foi o primeiro presidente americano a:

  • Ridicularizar os pais fundadores e a Constituição, lutando ferozmente para apagar o legado de ambos.
  • Criar um departamento estatal de propaganda política e controle da imprensa
  • Prender opositores por crime de opinião como em qualquer estado policial
  • Criar milícias para espionar cidadãos comuns e descobrir “traidores da nação” (quase 200 mil americanos foram presos por acusações de traição)
  • Inaugurar uma política de intervenção e controle estatal da economia e controle de preços
  • Instituir a famigerada Lei Seca
  • Last but not least, idealizou o conteúdo do que viria a ser o Tratado de Versailles, que humilhou a Alemanha no final da Primeira Guerra e que, em última instância, causou a Segunda Guerra Mundial.

Em 1933, o ex-ministro de Wilson, Franklin Delano Roosevelt, devolve a presidência ao Partido Democrata depois de três gestões republicanas seguidas. Com FDR, parte do kit fascista é reeditado, especialmente no cenário econômico caótico do que viria a ser a Grande Depressão, que afundou a economia americana até o final dos anos 30 e deu aos anticapitalistas Mussolini e Hitler o discurso que precisavam para demonizar a economia de mercado e subir ao poder.

Os regimes fascistas de Mussolini e Hitler, a despeito do governo de Woodrow Wilson, foram devidamente condenados pelo tribunal da história. Tanto a Alemanha quanto a Itália aprenderam tão duramente a lição que é difícil imaginar que políticos com as mesmas características consigam novamente densidade eleitoral. Mas os EUA, aprenderam com a sua própria experiência fascista?

É possível garantir que hoje o povo americano está livre para sempre de aventuras que incluam presidentes festejados em cultos populistas à personalidade em regimes que demonização adversários, têm relações promíscuas com a imprensa, constroem de grandes aparatos de espionagem e controle dos cidadãos com forte intervenção e regulação estatal da economia?

Respostas para a Avenida Pensilvania, 1600.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

A Dog Whistle To The Left

Babilônia Política

Contribuição espontânea do nosso leitor Davi Caldas, em resposta ao artigo “A Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo” do nosso articulista Rodrigo Viana. O artigo original foi publicado no blog Mundo Analista. Para ler o artigo original, clique aqui.

Recomenda-se a leitura prévia dos artigos:

O presente artigo, “Babilônia Política”, de Davi Caldas, é portanto uma tréplica.

Há cerca de um mês publiquei um texto intitulado “Confusões clássicas sobre direita e esquerda” aqui no blog. O mesmo texto foi avaliado pelo site “Direitas Já” a pedido meu (o “Direitas” costuma a avaliar e postar textos de leitores) e postado por lá no dia 28 de fevereiro. Ironicamente, um dos administradores do próprio site, Rodrigo Viana, postou, no dia 6 de março, um texto intitulado “Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo”, onde expõe sua discordância com aquilo que eu disse em meu texto.

Digo “ironicamente” não pela discordância ter partido de um administrador do site, já que um site feito por várias pessoas pressupõe a pluralidade de idéias. Porém, a ironia está no fato de Rodrigo Viana se propor, em seu texto, a dizer que Esquerda e Direita são conceitos que não servem para definir muita coisa. Não é o que eu esperaria de uma pessoa que administra um site que leva em seu nome justamente um desses dois rótulos.

Mas, enfim, o texto de Rodrigo, embora bem escrito, me deu a impressão de que ele não entendeu muito bem os meus argumentos. Assim, me sinto na obrigação de tirar aqui algumas dúvidas e de responder a algumas objeções levantadas por ele. Eu o farei de maneira construtiva e educada, mas serei incisivo, ok?

As Cinco Mentalidades Contextuais
Logo no começo de sua postagem, Rodrigo Viana cita um texto de outro administrador do site, Renan Felipe, intitulado “As Cinco Mentalidades Políticas”.

Neste texto, Renan adota um modelo de classificação das ideologias políticas, no qual existem cinco mentalidades: Reacionária, Restauradora, Moderadora (conservadora), Reformadora e Revolucionária. Com base nesse modelo do administrador Renan Felipe, Rodrigo Viana afirma que em sua visão

o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa, porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.

Observando esse trecho é possível averiguarmos que o entendimento de Rodrigo sobre o que é Direita e Esquerda tem algumas falhas pequenas, porém expressivas. Para começar, ele afirma que a mentalidade reformadora, que visa mudanças significativas e pragmáticas, é normalmente dita como Esquerda. Isso é questionável, porque depende muito do contexto político vivido pelo Estado.

O Brasil, por exemplo, vive há muito tempo num contexto de domínio ideológico esquerdista. Então, propostas direitistas como o fim de programas assistencialistas, a redução de impostos, a diminuição do Estado na economia e o investimento no setor privado em vez do público são, sem dúvida, propostas de mudanças muito significativas e de cunho bem mais pragmático (no bom sentido que essa palavra pode oferecer) do que o utopismo apregoado pelo nosso governo de esquerda.

Ou seja, nesse contexto, a mentalidade reformadora é a mentalidade de direita; e a esquerda, curiosamente, passa a ter a mentalidade reacionária, por querer manter tudo como está (ou até mesmo uma mentalidade conservadora, por não almejar mudanças muito bruscas no modo de governo atual, a fim de preservar o status quo).

Rodrigo também afirma que a mentalidade moderada (conservadora) é aquela que pode até aceitar algumas mudanças, desde que não sejam abruptas. Ora, mas essa definição só funciona quando pressupomos que aquilo que o moderado quer conservar ainda existe. Mas em um contexto onde toda a tradição e experiência que valiam à pena ser guardadas foram destruídas por um Estado autoritário, o conservador se transforma no agente que mais apregoa e luta pela mudança. Ele quer de volta os pilares da sociedade que foram derrubados pelo autoritarismo, o mais rápido possível; e talvez seja capaz até de utilizar a força bruta para tal (a depender do contexto). Um perfil bem semelhante ao de um revolucionário, não é mesmo?

Portanto, na realidade, é esse modelo das cinco mentalidades políticas que não diz muita coisa. Tais mentalidades me parecem um tanto contextuais e, por esse motivo, não servem para conceituar Direita e Esquerda, como faz o nosso amigo Rodrigo.

Rodrigo continua o texto, desenvolvendo o seu argumento de que Direita e Esquerda não são bons rótulos, já que muitas de suas ideologias se baseiam em mentalidades que, segundo sua visão, são tanto de Esquerda quanto de Direita. Tal ambigüidade, para Rodrigo, torna impossível saber à qual das duas tais ideologias pertencem, já que elas bebem em fontes opostas uma a outra. Ele diz:

O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal.

Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada é sempre de Direita e que a mentalidade reformadora é sempre de Esquerda. Moderação e Reforma, do modo como Rodrigo define, podem pertencer tanto à Direita como à Esquerda, dependendo de como se encontra a política do Estado. Essas mentalidades não definem o espectro político da ideologia. Em um Estado comunista, por exemplo, os “moderados” podem ser aqueles que querem a conservação do regime comunista, aceitando apenas pequenas mudanças de vez em quando. Nesse mesmo Estado, contudo, o “reformador” é aquele agente que deseja a substituição do sistema comunista por outro sistema. É uma questão puramente de contexto político.

Então, o fato do liberalismo clássico beber tanto em fontes moderadas como em fontes reformadoras, não significa que ele não possa ser definido como uma ideologia de Direita ou de Esquerda.

Quanto à corrente anarquista, seus adeptos podem ser tanto de Direita como de Esquerda, sem termos problema algum quanto à classificação [1]. Porque o anarquismo em si não pertence a nenhum dos lados. Ele é apenas a idealização de uma sociedade sem um governo e sem uma hierarquia estatal. E em uma sociedade assim, não há nem Esquerda, nem Direita, evidentemente.

Então, o que define se um anarquista é de Direita ou Esquerda não é o anarquismo em si, mas (1) como o anarquista acredita que essa sociedade funcionaria; (2) o que o anarquista considera empecilhos para a concretização dessa sociedade; (3) como o anarquista acha que esses empecilhos poderiam ser ultrapassados.

Embora haja algumas diferenças entre os anarquistas de Esquerda, em geral eles concordam que a sociedade anarquista funcionaria naturalmente sem problemas, porque o mal da sociedade não está no ser humano, mas nas instituições do Estado e, sobretudo, no próprio Estado. Isso já seria o suficiente para classificar um anarquista como sendo de Esquerda, já que o principal pilar da Esquerda é o otimismo antropológico.

Como o sonho de uma sociedade anarquista é um sonho muito distante é comum que os atuais anarquistas acabem se alinhando com marxistas. É sabido que marxistas e anarquistas tinham muita rivalidade na época de Marx, mas isso não anula o fato de que ambos tinham um objetivo final em comum: uma sociedade sem Estado. Por isso, o alinhamento é normal. Assim, anarquistas de Esquerda freqüentemente se tornam ferrenhos críticos do capitalismo, da burguesia, da religião e, claro, da Direita. Esses acabam sendo os seus principais inimigos.

E como destruir esses inimigos? Aqui, outra vez o alinhamento com marxistas e demais esquerdistas se torna proveitoso. Afinal, todos juntos vão “descer o cacete” em seus inimigos em comum. Tenho um colega anarquista, por exemplo, que adora ler a Carta Capital e o Observatório da Imprensa. Ele também segue páginas virtuais como “Che Brasuca”, “Direitistas Caricatos” e mais uma dúzia de páginas esquerdistas que criticam a direita, a burguesia, o capitalismo, a religião e as igrejas, tratando-os como a raiz de todos os males do mundo.

Já os anarquistas de Direita (Anarco-Capitalistas) são totalmente diferentes. Eles não acreditam que o ser humano é bom e que o mal da sociedade está em um fator ex-terno à espécie. Tendo como base o pessimismo antropológico, que é o principal pilar da Direita, esses anarquistas acham que o Estado é ruim porque, como o ser humano é inclinado ao mal, o Estado sempre será, de alguma maneira, opressor.

Liberais clássicos e conservadores burkeanos não discordam totalmente disso. O mundo não é bom mesmo e a luta do ser humano deve ser para torná-lo melhor e não perfeito. A diferença reside no fato de que o anarquista de Direita acredita que o Estado pode ser abolido sem que a sociedade se torne uma desordem. Isso porque, para o anarquista de Direita, instituições como tribunais, polícia, exércitos e bombeiros (com suas hierarquias internas) continuariam existindo, mas como empresas privadas e cada um podendo criar a sua, se quiser. A busca dos consumidores pelos melhores serviços iria garantir a melhoria na qualidade dos serviços que, por sua vez, garantiria a ordem da sociedade sem Estado. Utópico, por certo, mas baseado no pessimismo antropológico da Direita política.

Percebe-se, portanto, que dentre os inimigos do Anarco-Capitalismo não estão a burguesia, o capitalismo, o livre mercado, as políticas de Direita e a religião, como é o caso da maioria dos anarquistas de Esquerda. Os inimigos dos Anarco-Capitalistas são justamente o marxismo, a social-democracia e todas as ideologias que pretendem fortalecer o Estado ou lutar contra o livre mercado e o capitalismo.

Como destruir esses inimigos? Alinhando-se com liberais clássicos e conserva-dores burkeanos. É extremamente comum ver esse alinhamento. Porque por mais que existam grandes diferenças entre eles, há muito mais semelhanças. Portanto, não há (ou, pelo menos, eu não consigo ver) nenhuma dificuldade em se classificar um anarquista como sendo de Direita ou de Esquerda. Embora ambos não acreditem na manutenção do Estado, as diferenças entre eles são gritantes.

Compreendendo o processo histórico
Continuando o seu texto, Rodrigo mostra que não compreende bem o processo histórico da passagem entre a antiga política absolutista e nova política iluminista (da qual fazem parte, principalmente, o iluminismo britânico, que influenciou também os EUA e o iluminismo francês). Para Rodrigo, conservadores da antiga política caminham lado a lado com conservadores da nova política. Diz ele:

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentidos a certos setores da sociedade.

O que Rodrigo Viana entende como “conservadorismo europeu” é, na verdade, o conservadorismo absolutista, uma mentalidade muito comum nos séculos XVIII e XIX, em pessoas que não se conformavam com a derrubada dos modelos absolutistas de governo. Essa mentalidade, evidentemente, sofreu algumas variações ao longo do tempo e não é mais tão comum. Porém, ainda há alguns desses conservadores que se baseiam em aspectos de um sistema que já foi derrubado há séculos.

Este tipo de conservador, conforme deixo claro em meu texto, não consegue se enquadrar no modelo de classificação Direita x Esquerda porque essa classificação não faz parte da antiga política. Falar em Direita e Esquerda em uma sociedade absolutista não só seria um anacronismo como não faria nenhum sentido lógico. Ou seja, um conservador absolutista não só não faz parte da Direita como também pensa de maneira diametralmente oposta a um conservador burkeano. Não se pode colocá-los lado a lado como se o conservadorismo de ambos fosse o mesmo.

E é de se ressaltar que a maioria dos que eram opositores da igualdade jurídica entre indivíduos e da abolição de privilégios de determinadas classes eram justamente os absolutistas. É certo que os primeiros direitistas também não eram tão respeitadores dos indivíduos como são hoje. Havia muita discriminação entranhada na sociedade. Mas isso era uma questão mais cultural e pessoal do que ideológica. Conforme o contexto foi mudando, os direitistas foram percebendo a verdadeira essência do individualismo.

Então, essa idéia de colocar liberais clássicos e conservadores burkeanos juntos com conservadores absolutistas, todos dentro da Direita, não é muito coerente. Quando se faz isso, aí realmente fica impossível de afirmar, por exemplo, que a Direita defende o individualismo e que a Esquerda defende o coletivismo. Afinal, absolutistas não são respeitadores do indivíduo, como os burkeanos e os liberais. Rodrigo continua:

Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.

Aqui Rodrigo Viana cita alguns exemplos para provar que nem todas as Direitas são individualistas. Não é nenhuma surpresa constatar que os três primeiros nomes cita-dos são de pensadores que foram extremamente simpáticos ao regime absolutista (o terceiro começou como um liberal clássico, mas desistiu por achar que o Estado deveria ser forte). Mais uma vez, não dá para chamar essas figuras de representantes do pensa-mento de Direita. Eles eram representantes da velha política.

Benjamin Disraeli era de Direita? Questionável isso. Ele podia até ter algumas características de um conservador de Direita, mas isso não significa muito. Não se pode classificar uma pessoa por algumas características apenas. É necessário ver o panorama geral. Por exemplo, um aluno que tirou cinco notas baixas em química é bom ou ruim nessa matéria? Depende. Se ele fez apenas cinco provas, é um aluno ruim, pois foi mal em todas as provas que fez; se fez dez ou doze, ele é mediano; se fez vinte ou trinta, então ele é bom e suas notas baixas foram apenas exceções. É uma questão numérica.

Do mesmo modo, alguém pode ter algumas (ou até muitas) características de um conservador de Direita, mas também ter um número semelhante de características que são próprias da Esquerda. Este indivíduo acaba, portanto, ficando no centro do espectro, o que o torna um centrista. Rodrigo continua:

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia).

O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita.

Rodrigo continua fazendo confusão entre diferentes tipos de conservadorismo. É justo explicar aqui: quase todas (senão todas) as pessoas são conservadoras. Tanto as de Direita como as de Esquerda. Afinal, todos desejam conservar algo que acham positivo para sociedade. E naquilo que se deseja conservar, reformas são sempre leves, graduais e vistas até com ceticismo. No caso da Esquerda, por exemplo, temos aqueles que querem conservar o regime socialista cubano (que já tem mais de cinqüenta anos). Eles são conservadores socialistas de Esquerda, portanto.

Então, quando vamos falar de conservadorismo, é muito importante fazer distinção entre os diversos tipos de conservadorismo existentes. É isso que Rodrigo não faz em seu texto. Para ele só existe um tipo de conservadorismo, que engloba absolutistas, teocratas, burkeanos e nacionalistas. E para ele, todos esses formam a Direita. Não me admira que alguém com essa visão, ache inconsistente o rótulo de Direita.

Quanto a Burke, Rodrigo está certo ao dizer que ele não é o único representante do conservadorismo. Existem outros representantes, assim como também existem outros conservadorismos. O conservadorismo de Burke é também chamado de conservadorismo moderno e é invenção da nova política iluminista, da onde surgem também a Direita e a Esquerda. E a Direita se baseia justamente nesse conservadorismo, em oposição ao conservadorismo absolutista. Ficou claro?

Então, no fim das contas, a Direita que existe nos EUA é a mesma Direita que existe na Europa, pois a Direita nasceu baseada no liberalismo e no conservadorismo defendido por homens como Burke, Alexis de Tocqueville e Bastiat. E essa tal “Direita” clássica européia, coletivista e regressista, que Rodrigo menciona, na verdade, é a antiga política absolutista (não a Direita).

Quanto ao “socialismo de Direita”, isso não existe. Quando um partido político dito de Direita se rende ao socialismo, a conclusão a que devemos chegar não é a de que Direita e Esquerda são rótulos ineficientes, mas sim a de que aquele partido abriu mão de princípios direitistas e se moveu em direção à Esquerda. As definições de Direita e Esquerda continuam as mesmas, o que muda é a postura de partidos e de seus políticos.

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade, porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.

Ora, como eu falei antes, se o anarquismo não pertence nem a Esquerda, nem a Direita, podendo ser tanto de um quanto de outro, então é perfeitamente plausível afirmar que um anarquista também pode ficar no meio do espectro. Por que não? Eu não trabalho com uma divisão binária. Para mim, uma pessoa pode ser de Esquerda, ou de Direita, ou de Centro, ou de Centro-Esquerda, ou de Centro-Direita. São cinco posições diferentes. Dá para enquadrar todo mundo em algum lugar (a exceção dos absolutistas, que não fazem parte desse esquema político moderno).

Compreendendo o meu paradigma
Chegando ao fim de seu texto, Rodrigo começa a mostrar que não entendeu nada do que escrevi na postagem “Confusões Clássicas sobre Direita e Esquerda”. Ele diz:

Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança.

Não, cara, não! Foi exatamente essa confusão que eu tentei desfazer durante todo o meu texto. Direita e Esquerda são duas vertentes ideológicas que começaram a se desenvolver muito antes do advento da Revolução Francesa (embora não com esses nomes ainda). Duas vertentes que, embora desde o início tenham sido antagônicas, têm algo em comum: ambas surgiram como parte integrante da nova política iluminista, contrária à velha política absolutista.

O que surge na Revolução Francesa não são essas vertentes ideológicas, mas sim a idéia de se chamar políticos mais radicais de Esquerda e políticos mais conservadores de Direita. Entretanto, como tais definições são muito vagas e não conseguem definir uma linha de pensamento específica para cada termo, não demorou muito para que as duas palavrinhas começassem a ser utilizadas para nomear as duas vertentes das quais acabamos de falar. A vertente humanista passou a ser chamada de Esquerda e a vertente não-humanista passou a ser chamada de Direita. Só a partir daí, os termos Esquerda e Direita passaram a ter um significado fixo e concreto.

Pode-se perguntar aqui: “Mas não existem outras acepções das palavras Direita e Esquerda? Por que apenas uma delas pode estar correta?”. É uma ótima pergunta. Eu a respondi no outro texto, mas vou detalhá-la melhor agora. Existem quatro acepções que são possíveis:

  1. Direita = Absolutistas e Esquerda = Revolucionários;
  2. Direita = Conservadores e Esquerda = Radicais;
  3. Direita = Defensores do status quo e Esquerda = Defensores da mudança;
  4. Direita = Amiga da elite e Esquerda = Amiga dos oprimidos.

A primeira acepção é falha porque se você considera os absolutistas como sendo de Direita e os revolucionários anti-absolutistas como sendo de Esquerda, terá que dizer que a Direita e Esquerda sempre existiram, já que reis com poderes absolutos e pessoas contrárias a esses reis são bem anteriores a 1789. E se consideramos esta acepção, então nunca fez sentido chamar, por exemplo, Marx, Gramsci, Lênin, Stalin, Lula e Dilma de Esquerda, assim como também nunca fez sentido chamar Churchill, Reagan e Thatcher de Direita. São termos nulos para um contexto pós-absolutista.

Então, se alguém quer usar essa acepção, deve respeitar essas regras: parar de usar esses termos para nomear ideologias e movimentos dos últimos cento e cinqüenta anos de história e passar a usá-los para nomear ideologias e movimentos de todos os anos anteriores em que houve reis com poderes absolutos e revolucionários contrários ao absolutismo do rei. Bem, não conheço ninguém que tenha utilizado os termos dessa maneira. Nem mesmo os primeiros que os utilizaram.

A segunda acepção também é falha porque é contextual. Como já expliquei, ser conservador ou ser radical depende muito do contexto político. Burke talvez fosse um radical para os integrantes do partido Tory, mas era um conservador para os radicais da Revolução Francesa (tanto que é chamado o Pai do conservadorismo). Ora, se o mesmo cara é conservador (“Direita”) e radical (“Esquerda”), então essa acepção também não serve para definir coisa alguma. E terminologias que não definem nada, são inúteis.

A terceira acepção também é contextual e inútil. Se ser de Direita é ser defensor do status quo e ser de Esquerda é ser defensor da mudança, então Fidel Castro, Lula e o PT são de Direita atualmente, e Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o partido Republicano dos EUA são de extrema-esquerda até o momento atual (e no futuro pode mudar tudo de novo, pois é uma questão de contexto). Não preciso dizer mais nada, né?

Por fim, a quarta acepção, também não presta. Colocar a Direita como amiga da elite e a Esquerda como amiga dos oprimidos é criar uma visão maniqueísta da política e fazer com que creiamos que um lado sempre está certo e o outro sempre está errado, não importando o que façam. É evidente que essa visão é preconceituosa e, do ponto de vista histórico, totalmente falsa.

É interessante ressaltar que todas essas acepções, quando utilizadas por alguma pessoa, costumam ser misturadas com a acepção mais concreta e definidora das palavras Direita e Esquerda. Trocando em miúdos, o mesmo cara que afirma que Lula, Chávez, Fidel, Moralez e Kirchner são de Esquerda (acepção mais concreta), afirma que ser de Esquerda é ser anti-absolutista, radical, defensor da mudança e amigo dos oprimidos, em oposição a ser de Direita, que significa ser absolutista (ou, pelo menos, ter a mesma ideologia de um absolutista), ser conservador (o mesmo conservadorismo da época do absolutismo), defensor do status quo (mesmo que o status quo do contexto esteja sendo defendido pela esquerda) e ser amigo da elite (ainda que a elite seja de esquerda e você seja contra ela).

O leitor consegue ver a confusão? É uma mistura de várias acepções diferentes, falhas, inúteis e auto-excludentes, que são agregadas umas as outras com o intuito de fazer todo mundo acreditar que Direita é coisa de gente ruim e que Esquerda é coisa de caras legais. E tem um monte de ingênuo dos dois lados que acreditam.

Portanto, entendam: há uma confusão na definição do espectro político. Usa-se acepções diferentes todas juntas. Não pode. Usa-se definições contextuais e definições fixas juntas. Também não pode. Ou você entende Direita e Esquerda como palavras que definem vertentes específicas, anti-absolutistas (as duas), que ainda são válidas nos dias de hoje, ou você escolhe uma daquelas quatro acepções possíveis, que ou não definem nada ou já não servem para nada há mais de cento e cinqüenta anos.

Se você escolhe a primeira opção (vertentes específicas), não pode, por exemplo, dizer que os absolutistas eram de Direita, assim como liberais e burkeanos. Eles podiam ser de Direita espacialmente falando (sentavam-se nas cadeiras que ficavam à Direita do monarca), mas enxergando Direita e Esquerda no sentido de duas vertentes específicas válidas até hoje, você não pode fazer essa mistura. São dois sentidos diferentes.

Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar. Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês, mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada.

Não, Rodrigo! Como eu falei, quando definimos Direita e Esquerda como duas vertentes que se opuseram ao absolutismo e que duram até hoje, os absolutistas, embora se assentassem na Direita, devem ser classificados apenas como absolutistas; e radicais, embora se assentassem na Esquerda, devem ser classificados como opositores do absolutismo, alguns desses de Esquerda e outros de Direita. Entende? Usando esta definição, a questão espacial se torna irrelevante (mesmo tendo servido de base para a adoção dos termos pelas duas novas vertentes posteriormente).

Então, sim, Bastiat, um liberal, estava do lado de anarquistas e socialistas. Isso não o faz um esquerdista, mas um iluminista de orientação direitista, opondo-se a velha política, ao lado de iluministas de orientação esquerdista que, apesar das diferenças para com os liberais, estavam juntos contra o absolutismo. Expliquei isso no outro texto. Não estou fazendo revisionismo histórico aqui. Apenas usando a acepção mais concreta das palavras Direita e Esquerda e não as misturando com outras acepções.

E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.

Não, eu não disse isso. O que eu disse foi que absolutistas não formam a Direita, se definimos a Direita como uma das vertentes da política iluminista, que existe até os dias de hoje. E, nesse sentido, é claro que absolutistas não estavam defendendo valores direitistas; eles não eram direitistas. Entretanto, se definimos Direita e Esquerda como termos da época, usados para definir quaisquer outras coisas e que não servem hoje ou cujos significados dependem do contexto político, então, esquece tudo o que falei. Só peço, mais uma vez, que não misture as duas coisas.

Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?

Isso tudo só prova o que eu falei. O que se tinha na Inglaterra da época não era um partido de Direita (Tory) e um partido de Esquerda (Whig). O que se tinha era um partido absolutista e um partido iluminista. Dentro do partido iluminista, é que havia os que eram de Direita e os que eram de Esquerda (os termos não existiam ainda, porém as vertentes sim). Burke era de Direita. E os absolutistas? Eram absolutistas. Só.

Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.

Aqui Rodrigo apenas continua argumentando dentro de seu de raciocínio. Como ele mistura acepções diferentes das palavras Direita e Esquerda, e não faz distinção entre os diferentes tipos de conservadorismo, acredita que a Direita “deu” contribuições para nazistas e fascistas. Mas ainda que o nazismo e o fascismo tenham realmente uma idéia ou outra provenientes da Direita, isso não faz deles movimentos de Direita. Como já disse, não se pode classificar algo se baseando apenas em algumas características. É preciso ver o panorama geral.

Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.

Na real, o Brasil nunca teve um governo realmente de Direita. Pode ter tido um governante ou outro de Direita, mas uma andorinha só não faz verão. O que tivemos no Brasil foram governos de Esquerda, de Centro-Esquerda, de Centro e talvez, quem sabe, de Centro-Direita. A ditadura foi centrista (vou explicar mais abaixo). Ela se valeu de elementos tanto de Direita como de Esquerda.

A razão pela qual a ditadura militar do Brasil é vista como de Direita é que (1) ela adotou uma aparência de conservadorismo moral e religioso; (2) ela se posicionou contra o comunismo (e todo mundo que se posiciona contra o comunismo é taxado de direitista); (3) muitas pessoas que eram realmente de Direita apoiaram o golpe porque acreditaram mesmo que este era apenas uma defesa contra o comunismo e que, dentro em breve, a política do país iria voltar ao normal (ingenuidade mesmo); (4) os militares se consideravam (pelo menos se diziam) representantes da Direita. Mas, evidentemente, nada disso prova que essa ditadura foi de Direita.

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas, mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada.

Esse já é o final do texto de Rodrigo. Perceba que a conclusão dele é de que os termos Direita e Esquerda são imprecisos. Na verdade, não são. Imprecisos são termos como Reacionário, Moderado, Conservador, Reformador e Revolucionário. Imprecisas também são algumas acepções possíveis das palavras Esquerda e Direita, que, de modo errôneo, ainda são misturadas à acepção mais fixa e concreta que é comumente utilizada por todos. Também podemos dizer que são imprecisos os políticos e os partidos, porque se desviam de seus princípios muitas vezes. Porém, nenhuma dessas imprecisões altera o significado fixo e concreto dos termos Direita e Esquerda.

Enfim, sinceramente, a argumentação de Rodrigo não conseguiu me convencer quanto a pouca utilidade dos termos Direita e Esquerda. Creio que, se eles forem usados corretamente, sem misturas de diferentes acepções das duas palavras e primando por significados fixos e específicos, não vejo dificuldades na classificação.

A Questão do Centrismo e a classificação geral
Resta uma questão pendente. O que é centrismo? Não cheguei a definir com exatidão esse termo em nenhum texto meu. Eu já pretendia fazer isso há um bom tempo, mas até então não tinha percebido que era tão necessário.

Enfim, como eu falei, eu não vejo o espectro político como uma divisão binária, na qual só se pode ser de Esquerda ou de Direita. Pelo contrário, reconheço que entre os dois pólos existem muitos posicionamentos diferentes, alguns mais inclinados para a Esquerda, outros mais inclinados para a Direita e outros que, de fato, ficam exatamente no meio do espectro. Todos esses posicionamentos intermediários são o que chamo de Centrismo.

Isso não é novidade. Não fui eu que inventei a idéia. A diferença da minha visão de centrismo para a visão comum das pessoas é que não entendo que ser de Centro signifique “ser moderado”. Todo mundo acha que um governo, partido ou pessoa centrista é aquele que é meio capitalista, meio socialista; meio individualista, meio coletivista; meio livre mercado, meio interventor; e, claro, que não faz uso de violência e repressão, porque violência e repressão são coisas de extremistas, e o centrista não está no extremo de nada.

Mas essa definição não é lógica. É só raciocinar: se o centrista é centrista porque está no centro do espectro, entre um lado e outro, isso significa que ele adotou tanto idéias de Direita como idéias de Esquerda, em número semelhante. Por isso é que não dá para defini-lo em um dos lados. Moderação de idéias e moderação de violência nada tem a ver com ser de Centro.

Primeiro, porque a maioria das idéias de Direita e de Esquerda não pode ser adotada pela metade. Não se pode ser meio individualista e meio coletivista. Não se pode ser meio livre mercado e meio interventor. Não se pode ser meio pró-aborto e meio pró-vida. Não se pode ser meio a favor da legalização da venda de armas e meio contra a mesma. Você pode até ser moderado em cada uma dessas idéias, mas não pode adotar as duas, já que são excludentes.

Segundo, porque o espectro político não é um gráfico de violência e repressão nos diferentes regimes, no qual os extremos representam os regimes mais agressivos e violadores dos direitos humanos. Não! O espectro político é um gráfico de ideologias, no qual os extremos representam os regimes que adotaram um grande número de idéias do pólo em que estão e que seguem essas idéias com mais afinco. Assim, extremista não quer dizer violento e repressivo (a não ser sua idéia extremada implique em violência e repressão), tal como centrista não quer dizer moderado e democrático.

Ser centrista é seguir idéias de Direita e de Esquerda em número parecido, não importando quais sejam essas idéias. Todo mundo tem alguma idéia do pólo oposto que adota para si. Sou de Direita, mas concordo com uma coisa ou outra de Esquerda. Isso não muda em nada minha posição no espectro, pois a maioria esmagadora das idéias que sigo são de Direita. O mesmo serve para alguém de Esquerda que concorda com uma coisa ou outra de Direita. Isso é normal. Contudo, o centrista é aquele que concorda com muitas posturas da Direita e muitas posturas da Esquerda, o que o tira de ambos os pólos, deixando-o no centro.

Deve-se ressaltar ainda, que um centrista não tem um perfil definido. Justamente por ter idéias de ambos os pólos, há uma maior flexibilidade. Um centrista pode ser bem diferente de outro, em função disso. Um pode ser anticomunista, mas crer na intervenção estatal. Outro pode ser contra a legalização da venda de armas, mas a favor de um governo que intervenha pouco. Outro já pode ser a favor de um governo muito intervencionista, mas também a favor da legalização das armas. É claro que só essas características não definem se uma pessoa é de Centro. Entretanto, o que quero mostrar é que, diferentemente de esquerdistas e direitistas, os centristas formam um grupo muito mais amplo e heterogêneo.

Aí entra a questão das ditaduras centristas. O termo pode causar estranheza, mas por que não seria possível uma ditadura centrista? Se já vimos que centrismo nada tem a ver com moderação de violência, não faz sentido achar que há contradição entre esses dois termos. De fato, procurando por alguém que pensasse parecido comigo, encontrei um belo artigo do senhor Plínio Corrêa de Oliveira, intitulado “Ditatorialismo Publicitário Centrista” [2]. Embora, o artigo não tenha como objetivo principal definir o que é o centrismo político, ele lança uma tremenda luz sobre o tema. Diz a introdução do artigo:

A dignidade da abertura consiste na neutralidade. Com efeito, ela é o contrário da ditadura. E esta última não consiste em fechamento para todos, mas sim para um dos lados do tabuleiro político. Isto é, abertura para o lado em que se encontra o Poder, e fechamento para os que discordam do Poder. Não vem ao caso se a abertura é para a esquerda e o fechamento para a direita, ou vice-versa o contrário. Não é o colorido político do ditador que caracteriza a ditadura. E, por isto mesmo, a palavra ditadura se aplica tanto aos governos que fazem fechamento para a direita quanto aos que o fazem para a esquerda: “ditadura de direita”, “ditadura de esquerda” são expressões que se encontram a qualquer momento em todos os lábios, se lêem em todos os jornais e se ouvem em todos os rádios e televisões.

Reduzindo a essa clareza elementar e óbvia conceitos já tão conhecidos, tenho a intenção de levar ao último grau da evidência a relação entre neutralidade e abertura. Uma abertura não neutra – disfarce-se como se queira – não é senão uma ditadura. As correntes de pensamento e os órgãos de comunicação social favoráveis à abertura lucrariam muito tendo continuamente em vista esta verdade tão elementar.

Digo-o especialmente com referência a personalidades, emissoras e folhas que se ufanam de intitular-se centristas. Pois mais de uma vez violam a neutralidade “aberturista”, julgando que ficam a salvo da pecha de ditatoriais pelo simples fato de usarem a etiqueta de centrista. Como se uma ditadura centrista constituísse uma contradição nos termos.

A mais ligeira análise revela ser isto inexato. Se um governo, para executar seu programa centrista, praticasse um fechamento tanto para a direita quanto para a esquerda, ele apresentaria evidentemente a grande característica ditatorial, a qual consiste em trancar a voz dos discordantes.

E não se julgue que a hipótese de uma ditadura centrista constitua uma quimera, um simples ente de razão. Para prová-lo, cito um exemplo histórico característico. Em função da política interna da França de seu tempo, Napoleão foi essencialmente um centrista. A França estava então esquartejada em duas facções irredutíveis: os republicanos e os monarquistas partidários dos Bourbons. Instalado no poder, o Corso perseguiu e reduziu ao silêncio os líderes de uma e outra França. E, pela força bruta, impôs seu regime centrista, mescla violentamente contraditória de vulgaridade revolucionária e de aparato régio, justapostos pelas garras da águia imperial nimbada de glória militar. No tempo, era esta a forma praticável de centrismo. De centrismo ditatorial.

Embora, Plínio utilize as palavras Direita e Esquerda, neste artigo, como termos mais contextuais (como se Direita e Esquerda sempre fossem duas facções opostas entre si, em determinado contexto, não importando a ideologia que sigam), o artigo é maravilhoso. Ele mostra de maneira muito clara que (1) ser centrista é ter características tanto de Direita como de Esquerda e que (2) ser um ditador centrista é se fechar tanto para um lado como para o outro, afinal, quem não é de nenhum dos lados, não cumpre a agenda de ninguém.

Pois bem, é exatamente isso que o período ditatorial do Brasil fez. Ele procurou calar a voz da Esquerda, mas agiu como esquerdista ao fortalecer estatais e colocar o governo como gestor da vida individual e do progresso. Ele agiu como direitista ao criar uma cultura de conservadorismo moral-religioso e tentar abrir o mercado brasileiro para indústrias estrangeiras, mas rechaçou uma política mais direitista, que minimizasse a ação do governo na economia e na vida das pessoas, deixando o mercado mais livre e respeitando o individualismo.

Se tal regime foi de Centro-Direita ou de Centro-Esquerda, só uma análise mais profunda de suas diversas características pode nos dizer. Tenho para mim que em sua maior parte, a ditadura do Brasil foi de Centro-Esquerda, diferentemente da ditadura de Pinochet, no Chile, que pode ter sido de Centro-Direita (ou de Direita, talvez).

Quanto a outros representantes do Centro, podemos mencionar o ex-presidente FHC e seu partido, o PSDB. A Social-Democracia é originalmente de Esquerda (uma Esquerda moderada), mas, a depender do contexto, pode se deslocar para o Centro, tornando-se um governo de Centro-Esquerda (como no caso do PSDB mesmo). Entretanto, a Social-Democracia quase sempre é mais bem enquadrada na Esquerda.

O DEM é um partido de Centro que às vezes se desloca para Centro-Direita, por ter alguns integrantes com propostas liberais. Entretanto, o vício esquerdista do nosso país coopta este partido para Centro-Esquerda na maioria das vezes. Recentemente, seu deputado Rodrigo Maia se candidatou à prefeitura do Rio. Suas propostas não tinham nada que o diferisse de propostas do PSDB e PMDB (este último, também de Centro e Centro-Esquerda).

O PT é de Esquerda. Sempre foi. Sempre será. Mas, estando no poder, é muito difícil um partido, de Esquerda ou de Direita, não se deslocar ao menos um pouco em direção ao Centro. Primeiro, em função da pressão da oposição. Segundo, em função da necessidade de ser pragmático às vezes. E, por fim, por causa da mídia. A mídia é e sempre foi centrista. Porque tanto a visão extrema da Esquerda como a visão extrema da Direita são prejudiciais aos interesses das grandes empresas midiáticas. Nenhum grande empresário da mídia quer um governo comunista, porque sua empresa vai rodar. Mas também nenhum grande empresário da mídia quer um governo laissez-faire, pois a concorrência vai aumentar (e ela pode engolir sua empresa).

Com relação à política dos EUA, muitos costumam a dizer que lá não existe uma Direita e uma Esquerda; que o partido Republicano e o partido Democrata são ambos de Centro. Mas a verdade é que a luta entre Direita e Esquerda nos EUA é uma das mais visíveis do mundo. Os dois partidos são sim de Esquerda e Direita. Agora, é claro que no interior de cada partido existem políticos que são mais extremos e políticos que são mais centristas. Um político pode mudar para o pólo contrário, entrando em contradição com a ideologia do próprio partido. Mas isso, penso, é mais raro. Creio ser mais fácil passar do extremo de seu pólo para o Centro. E como a mídia é muito centrista, então é comum que, ao chegar ao poder, muitos políticos ajam de um modo parecido, embora de pólos opostos.

Por fim, o nacional socialismo alemão (nazismo), o fascismo italiano, fascismo espanhol (franquismo) e o populismo getulista no Brasil, não são de Direita. O nazismo é indubitavelmente de Esquerda, tanto por sua plataforma teórica, como pelo que fez na prática. O fascismo italiano teve diferentes fases. Como Mussolini era um político bem pragmático, podemos dizer que em alguns momentos sua política foi de Centro-Direita e em outros, de Esquerda. Contudo, o conjunto da obra não nos permite apontar o fascismo de Mussolini como um regime de Direita.

O franquismo, por zelar por uma aparência conservadora, no âmbito moral religioso, talvez tenha chegado a ser de Centro-Direita em alguns momentos. Mas dificilmente poderia ser chamado de regime de Direita, já que o fascismo não é um regime de Direita em sua essência. O populismo getulista, por fim, não só foi de Esquerda como é um dos melhores exemplos de como um ditador de Esquerda pode ser um exímio estrategista, conseguindo conter as tensões entre diversos grupos de interesse e manter uma imagem positiva com o povo. A política de Getúlio é uma coluna para ditadores como o falecido Hugo Chávez, Evo Moralez e Cristina Kirchner.

Conclusão
Esta postagem ficou maior do que eu gostaria que ficasse. E o pior é que alguns assuntos foram apenas pincelados, já que merecem postagens individuais. Mas creio que consegui mostrar um panorama geral de uma definição concreta, fixa, lógica e historicamente coerente de Direita e Esquerda. A idéia foi mostrar que existem acepções dos termos que são falhas, e que há mistura entre acepções diferentes, o que gera incoerências nas definições.

Não intentei provar que sei mais. Apenas desejei dar minha contribuição sobre um assunto que julgo interessante. Talvez eu tenha errado em algum ponto, mas busquei não me afastar da lógica. Por fim, não intentei ofender Rodrigo Viana e Felipe Renan, cujos textos acompanho e admiro. A discussão aqui visa somente uma livre, construtiva e saudável troca de idéias. Só isso.


Notas:
[1] Uma crítica possível e que não tratei no texto é a de que o anarquismo não pode ser de Direita porque seria muito incoerente colocar Anarco-Capitalistas e Conservadores direitistas lado a lado. De fato, um Anarco-Capitalista não pode ser um Conservador (e vice-versa), já que o conservador preza pelas instituições antigas e uma das instituições mais antigas do mundo é justamente o Estado, o qual o Anarco-Capitalista deseja tirar de cena. Entretanto, acredito que mesmo o Anarco-Capitalista não sendo Conservador, ele apresenta idéias conservadoras que estão entranhadas no liberalismo. Idéias como o pessimismo antropológico (que é base das religiões tradicionais, inclusive); o respeito à religião; a visão de que os seres humanos são diferentes e que, por isso, é normal haver diferença de resultados na vida; a responsabilização do indivíduo pelos seus atos; uma moral não-relativista; a valorização da coletividade espontânea; o direito de escolha; e até mesmo a valorização das instituições, já que, embora o Anarco-Capitalista queira acabar com o Estado, ele não se opõe às demais instituições, apenas quer que tudo passe a ser propriedade privada. Em vista disso, é plausível dizer que o Anarco-Capitalista não está tão distante do Conservador. Pelo menos, ele está mais perto do Conservador do que dos esquerdistas.

[2] Oliveira, Plínio Corrêa de. Ditatorialismo Publicitário Centrista. São Paulo: Folha de São Paulo (09/08/83). Presente no link abaixo:
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/MAN_19830809_Ditatorialismopublicitariocentrista.htm

Leituras Recomendadas:
1. Ayan, Luciano. Reacionários e Conservadores de Esquerda?! Claro que sim! São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/09/27/reacionarios-e-conservadores-de-esquerda-claro-que-sim/
2. Ayan, Luciano. Será o Nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior… São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/07/15/sera-o-nazismo-de-extrema-direita-not-so-fast-junior/
3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.
4. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).
5. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intel-lectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.<