Masculinidade em Crise

Algum tempo atrás escrevi um artigo parodiando os masculinistas do “Movimento da Real”, que trouxe até o blog vários comentários enfurecidos na defesa do movimento. Não porque eu menospreze o movimento, mas porque acho sua abordagem bastante superficial.

Dying Gaul

Não é segredo para ninguém que o Ocidente passa por uma crise de masculinidade. E isso pode ser associado a vários fatores: queda alarmante nos níveis de testosterona nos homens, queda do desempenho escolar e acadêmico entre a população masculina, crises dos setores econômicos que mais afetam os homens (como a indústria), propagação de valores androfóbicos na sociedade.

Alguns sintomas desta crise são os números alarmantes da evasão escolar e acadêmica entre a população masculina, a proporção e o impacto do desemprego sobre os homens, o número crescente de homens que simplesmente abandonam a paternidade ou são alienados de seus filhos, a queda de seu desempenho profissional em um ambiente cada vez mais voltado para o público feminino.

Não é um problema que a sociedade abra mais possibilidades para as mulheres. É um problema que os ganhos para as mulheres representem perdas para os homens. O problema maior é que a sociedade acuse os homens de se desmotivarem porque estão apenas “perdendo privilégios” e exija deles um esforço masculino para construir uma sociedade na qual eles terão ainda menos “privilégios”. Como motivar uma pessoa a fazer parte daquilo que lhe é prejudicial senão por chantagem ou coerção?

Enumerarei aqui apenas algumas das preocupações que uma militância “masculinista” (não gosto do termo e explicarei mais adiante por quê) deve ter em mente:

1. Os homens são um grupo com interesses próprios
Frequentemente exige-se que um homem “seja homem” em prol da sua mulher, da sua família, dos fracos e oprimidos, etc. O problema é que não se pode exigir o sacrifício de uma pessoa que foi educada segundo uma ética hedonista ou utilitária. Ninguém sacrifica-se por sacrificar-se, ou sem a certeza e percepção de uma relação direta entre seu sacrifício e o benefício de seus amados: para exigir sacrifício, primeiro se necessita uma ética que o valorize com prestígio, honra, recompensas, etc.

No cenário atual, há de se contentar com aceitar que o homem prioriza seus próprios interesses egoístas: jogar futebol, beber cerveja, assistir o UFC, comer bacon, transar, malhar, etc. O primeiro passo, portanto, é assumir o homem como homem, fim de si mesmo, e não como uma ferramenta para o trabalho ou sustento de outras pessoas. E isso significa, também, dar a ele o direito de ser como ele é: deve-se tolher o assalto moral de ideólogos que querem moldar o seu comportamento, emasculando-o ou tornando um “gênero neutro”. Gostamos de esportes de contato (“violentos”) sim, e ninguém vai proibir. Sentimos mais necessidade de sexo, sim, e ninguém tem o direito de nos desmoralizar ou condenar por isso. E por aí vai.

2. Os homens não admitem, mas estão em situação de vulnerabilidade social
A nossa economia é cada vez menos industrial e mais voltada a serviços, o que significa que muitos homens com pouca formação acadêmica estão sendo empurrados para o abismo do desemprego, especialmente em períodos de crise onde os homens são as vítimas preferenciais das demissões massivas. Também os homens são as maiores vítimas de acidentes de trabalho, principalmente os fatais.

Os homens, também, são mais vulneráveis a cair no mundo do crime ou ser vítimas de crimes violentos. São eles também que compõem as fileiras dos exércitos de mendigos e usuários de drogas. Enquanto entre as mulheres o crime é tratado como um “desvio” patológico que requer um tratamento praticamente médico, assume-se que entre os homens a criminalidade é “normal” e a resposta mais adequada é a punitiva.

O homem, também, está sendo gradualmente expulso da célula familiar: o divórcio fácil, apesar de representar um avanço para algumas mulheres, para a maioria dos homens significa um aumento injustificado e abusivo na já arriscada tarefa de casar. Com a relação risco-benefício do casamento pendendo cada vez mais para o lado do risco, não é de admirar que o casamento esteja se tornando um fenômeno raro e estejamos nos tornando a sociedade das mães solteiras.

E não venham imputar a culpa da mãe solteira toda ao homem porque qualquer homem divorciado e com filhos sabe que a Justiça brasileira praticamente o mata como pai e o reduz a uma conta bancária. A alienação paterna é um verdadeiro crime que se comete não só contra o homem que perde seu filho mas também contra a criança que é privada de um pai. Neste novo arranjo familiar, composto por mãe, filho e um assistente social (ou advogado), não há espaço para o pai. Lembremos que a maioria dos criminosos foram criados em famílias onde a figura paterna é ausente. Portanto, o combate à criminalidade e à miséria se faz com a paternidade.

A situação mais grave imaginável, neste quesito, é a discussão sobre o aborto que, em vez de focar no filho ou no casal que o gera, tem sido desviada por feministas até girar completamente em torno da mulher e excluir por completo o direito de um pai interceder pela vida de seu filho.

3. Existem valores masculinos que não devem ser comparados com os femininos
Os homens são frequentemente ridicularizados por seu comportamento mais agressivo: diz-se que eles querem compensar em agressividade a “masculinidade” que não tem. Curiosamente, esta “masculinidade” que afirmam que não temos é justamente uma artificial e concebida por sociólogos enviesados e de honestidade duvidosa (não raramente feministas). Para quem abandonou os valores tradicionalmente masculinos, como a honra e a coragem, não faz sentido nenhum a demonstração de vigor físico (“agressividade”) exceto quando ela coincide com a ética utilitária: quando a coragem rende lucros ao turismo de aventura, quando a honra serve à segurança nacional, quando a agressividade serve para capturar estupradores.

Deve-se perguntar: o homem é agressivo? Em comparação a quem? À mulher? A mulher não pode ser a medida para o homem, e vice-versa. Do mesmo modo, comparar a dissimulação feminina com o comportamento masculino (como faz o pessoal “da real”) é incabível.

Deve-se combater, portanto, a ridicularização dos valores que estimamos. Não fazê-lo é conceder o monopólio moral à androfobia, segundo a qual nosso vigor, honra e coragem só servem para proteger mulheres e crianças, vender filmes de ação, e sacrificar nossos divertimentos para financiar através de impostos o feminismo universitário. Quem acha que honra, coragem e sacrifício são valores ridículos, machistas e patriarcais, que abra mão dos serviços da polícia, do exército e dos bombeiros.

4. O homem precisa saber e sentir que é homem
Enquanto as feministas afirmam querer libertar homens e mulheres dos papéis sociais “opressores” de gênero, elas criam uma verdadeira identidade de gênero e um ativo lobby feminino sem equivalente masculino. Isto porque “masculino” é encarado como “padrão” e “neutro”: política masculina é apenas política. Só a feminina leva os adjetivos identitários. Isto precisa mudar, e os homens também precisam acordar para defender seus interesses e direitos. Enquanto aborto, divórcio, violência doméstica e empowerment (acadêmico e empresarial) forem só questão de “direitos das mulheres”, nós seremos os prejudicados porque tudo isso também nos diz respeito e somos arbitrariamente excluídos das discussões. Nosso direito político, em questões como essas, é nulo hoje: a nós cabe apenas obedecer o que foi decidido por um punhado de sociólogos e lobistas.

As mulheres tem um rito de passagem, que é a festa de debutante aqui no Ocidente. É um rito, com símbolos e cerimônias, para apresentar à sociedade uma nova mulher. Nós homens já não temos rito de passagem algum, e por isso os adolescentes ficam desorientados e se portam como crianções mesmo após os 20 anos: nos contentamos com substitutos pobres em rito, simbologia, prestígio ou identidade como a aquisição da licença para dirigir, a formatura, ir morar sozinho. Todos estes substitutos podem ser e são obtidos por mulheres também, então de que servem? Qual foi o último homem “apresentado” à sociedade? Retomar a prática da passagem é urgente: não se pode exigir homens de uma sociedade que não produz nenhum.

5. Um bom homem depende de uma boa mulher, e vice-versa
Os gêneros (os dois que existem na nossa sociedade) não são conflitantes, mas complementares. Se os homens vão mal, as mulheres vão mal. Se as mulheres vão bem, os homens vão bem. É por isso que a mulher tem cuidado tão bem da casa e dos filhos enquanto o homem tem governado e morrido nos campos de batalha com gosto nos últimos 10.000 anos. O homem se sente mais homem porque tem uma mulher a quem dedicar-se, a mulher se sente mais mulher porque tem um homem a quem dedicar-se. Uma mulher promíscua não pode exigir dos homens um comportamento reto. Um homem covarde não pode exigir de uma mulher dedicação.

Não só a qualidade dos homens em nossa sociedade deve nos preocupar, mas também das mulheres. Criticá-las, sem instruí-las, é uma atividade improdutiva e que só rega a semente do ódio sexista. Instruam as mulheres, as filhas e irmãs, as esposas e namoradas, as tias e primas, colegas e amigas. É preciso remover a erva daninha do “sextremismo” e da androfobia, e também do machismo e da misoginia, enquanto se planta a semente para uma sociedade onde masculinidade e feminilidade trabalhem em sinergia.

Deste meu último ponto vem a objeção ao nome “masculinismo” para a busca dos direitos da população masculina. Não é o caso de garantir direitos a um gênero às custas do outro, ou de afirmar a identidade de um em oposição à do outro: é uma questão de entender e aceitar a complementariedade dos gêneros em termos morais e identitários, e reconhecer a necessidade do equilíbrio entre ambos nas questões familiares e sociais.

Conclusão
Um movimento “masculinista” que se preze não pode ficar limitado a uma fraternidade que ajude homens com a carreira e os relacionamentos. É necessário combater ativamente o viés androfóbico na mídia, nas escolas e universidades, nas artes, bem como afirmar-se politicamente e assegurar que os homens tenham voz onde hoje são silenciados por aqueles que estão comprometidos com a destruição da nossa identidade de gênero, o que prejudica a todos nós, homens ou mulheres.


Leitura recomendada:

No Man’s Land – Donovan, Jack

Sítios de interesse:

A Voice for Men
Wikipedia – Men’s Rights Movement
Art of Manliness

A Não-Identidade

Os movimentos de esquerda fazem questão de mesclar todas as minorias numa só massa amorfa para obter sua força política através do número e usar do conflito interno para paralisar minorias dissidentes. Resumidamente ela pega um negro, um gay, um ateu e uma mulher, mutila suas identidades e molda-os naquilo que ela quer: o não-branco, o não-hétero, o não-cristão e o não-homem. Ela os valoriza não pelo que eles são, mas pelo que eles não são.

O que há em comum entre um imigrante latino nos EUA e um negro? São não-brancos. Entre um gay e uma mulher? São ambos a negação de um homem hétero. Nenhum deles tem, de fato, valor identitário para a esquerda. Seu valor é utilitário. É um meio para um fim. Um negro, um gay, um ateu, uma mulher que não é militante socialista não tem valor algum.

Isto é facilmente verificável. Qualquer negro que se declare, por exemplo, liberal ou conservador, será ostracizado como um alienado. Para usar um termo mais racista que já ouvi, será chamado de Kinder Ovo (negro por fora e branco por dentro). Se for gay então, será considerado algum tipo de aberração em serviço da sociedade que o oprime, como o foram Clodovil e Andy Warhol. Se for uma mulher, bastará levantar uma simples crítica à histeria do feminismo revolucionário para ser tachada de machista. Se for ateu, será acusado de “criptocristianismo” se não engolir sem reclamar a histeria anticlericalista que desrespeita não só a liberdade de culto e chega ao ponto de invadir propriedade alheia.

Mas Renan, o que você está querendo dizer com isso? Estou querendo dizer que as pessoas devem se preparar para resistir aos discursos identitários que nos separam usando como padrão qualquer coisa que não seja as idéias e os valores. Coloquemos os princípios no seu lugar, que é o princípio, o ponto de partida de todos nossos julgamentos, escolhas e decisões.

A liberdade individual é a única coisa que garante que você continue vivendo em paz sendo você mesmo em vez do “não-outro”.


Leia também

Mentalidades Coletivistas

O maior desafio de um individualista ao tentar esclarecer as pessoas sobre os benefícios de uma sociedade mais livre é tentar, primeiramente, livrá-las dos cacoetes mentais coletivistas que povoam suas cabeças. Não é tarefa fácil: as pessoas são treinadas, educadas e adestradas para pensar e comunicar-se sempre em “coletivês” de modo que parece as vezes até impossível pensar de modo diferente.

Desta mentalidade coletivista brotam jargões do tipo “Brasil para os brasileiros”, “dívida histórica/social”, “luta de classes” e outros absurdos. Eu arriscaria dizer que a mentalidade coletivista é a mãe de todos os preconceitos, do racismo ao sexismo passando pela xenofobia e pelo preconceito de classe. O artigo de hoje propõe uma divisão “taxonômica” da mentalidade coletivista.

Supremacismo
É a mentalidade coletivista que hierarquiza os coletivos humanos (gêneros, etnias, classes, nacionalidades, grupos religiosos) e declara abertamente a supremacia de um sobre os demais. Este que fica no topo tem o direito de dominação sobre os demais. Os exemplos mais claros são o racismo e suas variantes (supremacismo branco, supremacismo negro, etc.), mas também se aplica ao ultranacionalismo, ao sexismo (machismo, femismo) e ao sectarismo religioso.

A contraparte do supremacismo é o submissivismo que reconhece a si e ao coletivo com que se identifica como uma parte da hierarquia que está abaixo daquela dominante. Um submissivista, por exemplo, seria como um racialista negro que acredita que os negros são cidadãos de segunda classe e que deveriam se espelhar e imitar os brancos para melhorar sua condição.

Igualitarismo
É a mentalidade coletivista que reconhece os diferentes coletivos humanos mas propõe que a relação de valor entre eles é a de igualdade, ainda que as características naturais ou sociais deles não sejam. Do igualitarismo também vem a noção de igualdade formal, embora prejudicada pela sua impossibilidade de conceber os seus membros como indivíduos transcendentes que ora estão em um grupo, ora em outro, ou mesmo em mais de um grupo ao mesmo tempo. A relação de igualdade entre os grupos, sem o reconhecimento do indivíduo como ente primário e necessário, força a incorporação arbitrária deste a um grupo.

Vitimismo
É a mentalidade coletivista que identifica nos coletivos humanos uma relação conflitiva entre explorados e exploradores, da qual não raro brota o revanchismo histórico (“dívida social”, “dívida histórica”) ou o irredentismo. O vitimista que se crê parte do coletivo “explorado” demanda políticas compensatórias das quais é beneficiário. Exemplos claros são o protecionismo (vitimismo econômico), a xenofobia (vitimismo nacionalista), o racismo (vitimismo étnico), o feminismo (vitimismo sexista), etc.

Por uma nova revolução sexual

A primeira revolução sexual ocorreu na Terra há centenas de milhões de anos, tendo à sua frente os invertebrados artrópodes, que passaram dezenas de milhões de anos sendo oprimidos por um ambiente hostil, preconceituoso e assexonormativo.

Celenterados: os contrarrevolucionários.

A revolução foi fortemente rechaçada, rejeitada pelos setores mais conservadores da sociedade – como os celenterados. Os revoltosos foram taxados pejorativamente de ‘sexuados’ (nome que acabou pegando). Os setores mais reacionários, maioria absoluta, já adiava a revolução a milhões de anos, negando ao restante da população terráquea seus direitos reprodutivos. Diziam que o sexo era coisa de depravados, e que levaria à degeneração da espécie por causa da imprevisibilidade da miscigenação. Poderíamos estar criando monstros, diziam. O decoroso era a divisão celular, o brotamento, etc. Não esta sem-vergonhice de sair por aí fertilizando os outros.

Entre os cavalos-marinhos, são os machos que engravidam. Sem dúvida o animal mais progressista do mundo, será o navio quebra-gelo da revolução sexual.

Felizmente a revolução deu certo e hoje garantimos os direitos reprodutivos para inúmeros terráqueos que não teriam a oportunidade de nascer e ter uma evolução digna. Mas ainda há muito o que fazer, pois ainda vivemos numa sociedade machista onde as fêmeas são obrigadas a gestar – o que é vergonhoso, além de desigual. Mas a próxima revolução sexual já está se levantando contra os setores reacionários, sendo encabeçada pelos cavalos-marinhos – a espécie mais progressista do planeta. Hasta la Victoria!

Bandeira do Movimento