Sobre a Crise Financeira de 2008

too-big-to-failFiz há alguns dias um pequeno artigo, bem resumido e simples, falando sobre as verdadeiras causas da crise financeira americana de 1929. Em um dos compartilhamentos do texto vi uma discussão entre dois rapazes na qual um deles dizia concordar com o fato de que a crise de 29 não foi causada pelo liberalismo, mas que acredita que a crise de 2008 foi. A fim de esclarecer também esta questão, resolvi compartilhar um ótimo texto que já li sobre o assunto, no site do IMB. O texto é grande, mas vale à pena a leitura. O texto originalmente foi publicado neste link.

Como ocorreu a crise financeira americana

por Leandro Roque, quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Segundo a imprensa mundial, este mês de setembro de 2013 marca o aniversário de 5 anos da crise financeira americana.  Mas a crise, no entanto, começou realmente um ano antes, em agosto de 2007, quando correntistas correram ao banco britânico Northern Rock para sacar seu dinheiro, levando o banco à falência.  Esta foi a primeira corrida bancária em grande escala ocorrida desde 1930.

São inúmeros os analistas, comentaristas e, principalmente, acadêmicos que já se aventuraram a dar seus vaticínios sobre a crise financeira americana.  No entanto, ausente de todos os comentários está aquele componente indispensável para toda e qualquer análise econômica minimamente séria e sensata: a imparcialidade.  E presente em todos os comentários está aquele componente do qual, hoje em dia, ninguém abre mão: a propaganda ideológica.

A melhor maneira de se entender corretamente e de modo fácil todas as nuanças da crise financeira americana é fazendo uma narração cronológica e desideologizada dos eventos.  Caberá ao leitor, no final, concluir qual dos dois lados tem razão: se aqueles que dizem que tudo foi causado por uma falta de regulamentação ou se aqueles que dizem que tudo foi causado por excesso de intervenção estatal.

A tempestade perfeita

A crise financeira americana — a qual foi gerada pelo estouro de uma grande bolha imobiliária — teve características grandiosas e espetaculares simplesmente porque ela apresentou uma combinação de elementos até então inédita na história de qualquer economia mundial.  Nem mesmo a colossal crise financeira japonesa do início da década de 1990 — que também foi gerada pelo estouro de uma bolha imobiliária — apresentou uma conjunção tão harmoniosa de elementos a ponto de produzir um estrago semelhante.

Comecemos nossa análise com um gráfico que mostra o histórico da evolução dos preços dos imóveis americanos.  Mais especificamente, o gráfico mostra a mediana dos preços de venda de imóveis novos.

Gráfico 1: mediana dos preços de venda de imóveis novos

Gráfico 1

O gráfico traz vários detalhes interessantes.  Até o início da década de 1970, quando os EUA ainda viviam sob alguns resquícios de padrão-ouro, os preços dos imóveis permaneceram praticamente constantes.  Durante a década de 1970, os preços praticamente duplicaram, mas isso foi efeito da alta inflação monetária ocorrida naquela década (que ficou conhecida como a década perdida dos EUA), e não especificamente de uma bolha.  Já durante a década de 1980 houve um mini-bolha, a qual estourou no início da década de 1990 (aficionados por economia podem pesquisar sobre a retração do mercado imobiliário americano nesta época).

A partir de 1993, início do governo Clinton, os preços voltaram a subir continuamente.  E aceleraram vertiginosamente a partir de 2001 até entrarem em colapso em 2008.

Logo, partindo-se deste gráfico, dois eventos devem ser analisados:

1) O que gerou a ascensão de preços a partir de 1993?

2) O que gerou a súbita aceleração a partir de 2003?

A década de 1990

Foi na década de 1990 que duas políticas governamentais voltadas exclusivamente para o setor imobiliário — mais especificamente, para aumentar o número de proprietários de imóveis — foram intensificadas.  Digo “intensificadas” porque estas políticas já existiam desde a década de 1970, mas foi somente na década de 1990 que elas ganharam poder total.

Quais foram estas políticas?

Fannie Mae e Freddie Mac

De um lado, havia duas empresas nominalmente privadas, mas que atendiam exclusivamente aos desejos do governo federal.  Estas duas empresas se tornaram mundialmente conhecidas em 2008, quando houve a quebradeira: trata-se da Federal National Mortgage Association (popularmente conhecida como Fannie Mae) e a Federal Home Loan Mortgage Corporation (popularmente conhecida como Freddie Mac).

Essas duas empresas foram criadas pelo Congresso americano e são oficialmente conhecidas como “empresas apadrinhadas pelo governo”, pois usufruem vários privilégios concedidos pelo governo.  Primeiro, vamos entender o que elas fazem; depois, veremos por que elas são assim conhecidas.

Fannie Mae e Freddie Mac são empresas voltadas exclusivamente para o mercado imobiliário.  Mais especificamente, elas são empresas que existem para garantir liquidez ao mercado de hipotecas.  Elas não emprestam dinheiro para compradores de imóveis; elas apenas compram estes empréstimos dos bancos.

Funciona assim: um americano vai a um banco comercial qualquer e pede um empréstimo para comprar um imóvel.  Ato contínuo, o banco cria dinheiro eletrônico e acrescenta estes dígitos eletrônicos na conta do tomador de empréstimo, que agora utilizará este dinheiro para comprar um imóvel.  Por uma questão de regra contábil, sempre que um banco concede um empréstimo, ele está criando um ativo e um passivo: o ativo é o valor do empréstimo, o passivo é o dinheiro que ele deu ao tomador de empréstimo.

Atenção, pois esta parte é crucial: se um banco concede um empréstimo, o valor do seu ativo aumenta.  Quanto mais empréstimos ele concede, maior o valor do seu ativo (e, consequentemente, do seu passivo).  Por uma questão de regulamentação bancária (tanto do Banco Central americano quanto do Banco da Basileia), há um limite para o crescimento destes ativos.  Em termos técnicos, os ativos têm de manter uma proporção máxima em relação ao patrimônio líquido do banco.  Portanto, um banco não pode sair concedendo empréstimos a rodo, pois ele rapidamente atingiria este limite determinado.

E é exatamente nesse ponto que Fannie e Freddie entram em cena.  A função destas empresas era comprar dos bancos comerciais exatamente estes empréstimos (títulos hipotecários) que eles concediam para compradores de imóveis.

Ou seja: quando um banco comercial concedia um empréstimo imobiliário, ele colocava em seus ativos o valor total do empréstimo.  Mas se ele vendesse esse ativo (título hipotecário) para uma terceira parte, este ativo sairia de seus livros contábeis, ele receberia de volta a quantia que emprestou (na verdade, receberia um valor mais alto) e, em seguida, estaria livre para voltar a fazer novos empréstimos sem ultrapassar aquele limite entre ativos e patrimônio líquido estabelecido pelo Banco Central.

Em resumo: Fannie e Freddie, ao comprarem as carteiras de empréstimos imobiliários dos bancos, permitiam que os bancos dessem continuidade aos seus empréstimos.  Em outras palavras, após um banco conceder um empréstimo para um comprador de imóveis, ele podia vender este empréstimo para Fannie ou Freddie.  Ato contínuo, este empréstimo não mais estaria nos livros contábeis do banco, o qual estaria agora livre para fazer novos empréstimos.

Uma vez em posse dos títulos hipotecários, Fannie e Freddie agora eram as responsáveis pelos empréstimos.  A relação agora era entre elas e os tomadores de empréstimos imobiliários.  Enquanto estes continuassem pagando suas hipotecas, Fannie e Freddie continuariam tendo um fluxo de caixa.  Se os tomadores de empréstimos dessem o calote, Fannie e Freddie teriam enormes prejuízos.  Seus títulos hipotecários seriam remarcados para um valor zero e o patrimônio líquido de ambas seria severamente afetado.

Observe que os bancos que fizeram os empréstimos originais estão fora da jogada.  Eles não mais são os responsáveis pelo empréstimo e não mais lidam com o tomador do empréstimo.  Eles estão livres para voltar ao mercado imobiliário e conceder novos empréstimos.  Era uma espécie de moto-perpétuo.

Fannie e Freddie tinham duas opções: elas podiam manter em suas carteiras os empréstimos que compraram dos bancos (e, assim, aufeririam as receitas) ou podiam empacotar esses empréstimos e vender para investidores ao redor do mundo.  Esses empréstimos imobiliários vendidos por Fannie e Freddie para os investidores ao redor do mundo ficaram conhecidos como “títulos lastreados em hipotecas” (as famosas mortgage-backed securities).

Tradicionalmente, quando uma pessoa pega um empréstimo para comprar um imóvel, cria-se uma dívida entre ela e o banco.  Se a pessoa irá honrar sua dívida ou não, é problema do banco.  No cenário americano, Freddie e Fannie fizeram com que os bancos não mais se preocupassem com nada disso, pois eles sabiam que, tão logo concedessem um empréstimo imobiliário, Fannie e Freddie estavam lá para comprar este empréstimo a um valor acima do montante concedido.

Desnecessário dizer que todo este processo — ao facilitar enormemente a compra de imóveis — gerou muito mais empréstimos imobiliários do que normalmente ocorreria.  Este direcionamento artificial de recursos para o mercado imobiliário aditivou os preços dos imóveis.

Freddie e Fannie usufruíam uma linha especial de crédito junto ao Tesouro americano, no valor de US$2,25 bilhões.  Esta garantia implícita de proteção conseguiu atrair um contínuo financiamento de investidores — que investiam dinheiro nestas empresas e compravam seus títulos lastreados em hipotecas —, pois estes investidores sabiam que, caso a coisa degringolasse, Fannie e Freddie seriam socorridas pelo governo americano.

(Para se ter uma ideia da amplitude destas empresas, em setembro de 2008, quando o governo americano efetivamente nacionalizou ambas as empresas, elas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas.)

Por fim, vale ressaltar que Fannie e Freddie estavam profundamente envolvidas em politicagem.  A Fannie, mais especificamente, foi utilizada por políticos democratas que queriam diminuir as exigências que a empresa impunha para conceder empréstimos a pessoas de mais baixa renda.  Tudo em nome de estar ajudando os “necessitados”.  Em setembro de 1999, ninguém menos que o próprio The New York Times publicou uma reportagem dizendo que a Fannie Mae estava afrouxando as exigências de crédito para as hipotecas que ela comprava dos bancos.  Segundo o próprio Times, a iniciativa era perigosa porque iria

estender hipotecas para indivíduos cujo histórico de crédito não são bons o suficiente para se qualificarem para empréstimos convencionais. […]  A Fannie Mae tem estado sob intensa pressão do governo Clinton para dar sustentação a hipotecas de pessoas de renda baixa e moderada. […] [Embora] as novas hipotecas sejam estendidas para todos os potenciais tomadores de empréstimos, [um dos objetivos do programa é] aumentar o número de proprietários de imóveis entre as minorias e os indivíduos de baixa renda, os quais tendem a apresentar um histórico de crédito pior que os dos brancos não-hispânicos.

Ao se aventurar, mesmo que temporariamente, nesta nova área de empréstimos, a Fannie Mae está assumindo riscos consideráveis.  […] Esta corporação subsidiada pelo governo pode vir a enfrentar problemas caso haja uma recessão econômica, o que levará o governo a socorrê-la.

Ou seja, até mesmo o The New York Times já havia percebido o risco envolvido nessa nova empreitada.

Não é o intuito deste artigo entrar em detalhes sobre o funcionamento de Freddie e Fannie, pois isso tomaria o espaço de um livro.  Há uma ampla literatura dedicada exclusivamente ao assunto (neste site há inclusive um artigo dedicado exclusivamente a estas empresas) e nada do que foi dito aqui é controverso.  Políticos democratas utilizaram estas agências para garantir que minorias e pessoas de baixa renda, sem nenhum histórico de crédito, conseguissem empréstimos para comprar a casa própria.  Estas seriam as mesmas pessoas que, como veremos mais abaixo, começaram a dar calotes nos empréstimos.

CRA e ações afirmativas

Mas apenas Fannie e Freddie não seriam capazes de estimular todo o mercado imobiliário, e muito menos o mercado subprime (subprime se refere a tomadores de empréstimo com histórico de crédito ruim).  É aí que entra em cena a segunda política governamental: ação afirmativa para empréstimos.

Fannie e Freddie não eram as únicas entidades utilizadas para reduzir os padrões de empréstimos.  Agências governamentais de vários tipos começaram a pressionar os bancos a fazerem empréstimos mais arriscados, e tudo em nome da “igualdade racial”.  Caso se recusassem a assumir este comportamento temerário, os bancos poderiam ser legalmente processados por discriminação e racismo.

Em 1992, um estudo feito pela sucursal do Federal Reserve de Boston afirmou ter encontrado claras evidências de que, mesmo levando-se em conta as diferenças na capacidade creditícia de cada indivíduo, as minorias recebiam menos empréstimos do que os brancos.  Tal estudo foi considerado como definitivo por aqueles já dispostos a acreditar em sua conclusão: a saber, que os bancos americanos discriminavam negros e hispânicos — mas, curiosamente, não discriminavam os asiáticos, que recebiam ainda mais empréstimos do que os brancos.

Este estudo ressuscitou uma lei conhecida Community Reinvestment Act.  Trata-se de uma lei criada ainda no governo de Jimmy Carter, no final da década de 1970, e que foi plenamente revigorada no governo Clinton.  Esta lei deixou os bancos à mercê de processos por discriminação caso eles não emprestassem para minorias em um volume suficientemente alto, que satisfizesse as autoridades.

De acordo com as regras do Community Reinvestment Act (CRA), se um banco quisesse fazer qualquer alteração em suas operações comerciais — fusão, abertura de uma filial, entrada em uma nova linha de negócios —, ele deveria primeiro provar aos reguladores que ele, o banco, já fez uma quantidade “suficiente” de empréstimos aos mutuários preferidos do governo — no caso, minorias e pessoas de baixa renda.

E, a partir de 1995, o governo americano passou a pressionar os bancos para que fizessem empréstimos sem que pudessem verificar critérios minimamente prudentes, como histórico de crédito do tomador de empréstimo, seu histórico de poupança e a magnitude do pagamento da hipoteca em relação à sua renda.  Os bancos não podiam nem sequer verificar a renda do mutuário.  Adicionalmente, o Banco Central americano havia dito aos bancos que a simples participação deste mutuário em programas de aconselhamento de crédito, muitos dos quais são financiados com fundos federais, poderia ser usada como “prova” da capacidade desse mutuário de baixa renda honrar seus pagamentos hipotecários.  Em outras palavras, os reguladores bancários federais exigiram que os bancos fizessem empréstimos ruins baseando-se em padrões de crédito inexistentes.

Vale novamente enfatizar que nada do que foi escrito até agora é matéria de controvérsia ou de dúvidas.  Toda a literatura a respeito do CRA e das políticas de ação afirmativa impostas por este decreto são de conhecimento público.  Para detalhes mais profundos sobre o tema, recomendo este artigo, bem como todas as suas referências bibliográficas.

A década de 2000 — a intensificação de tudo

Até aqui, falamos apenas sobre duas políticas governamentais voltadas para estimular a aquisição de imóveis: as agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac, e o decreto CRA.

Estas duas políticas governamentais ajudam a explicar por que houve uma bolha imobiliária, mas elas por si sós não justificam toda a amplitude da bolha imobiliária.  Adicionalmente, como mostrado no gráfico 1, foi só a partir da década de 2000 que os preços dos imóveis realmente dispararam.  Por quê?

Incentivos à especulação

Em primeiro lugar, é crucial entender a questão dos incentivos.  A partir do momento em que os critérios exigidos para se conceder empréstimos imobiliários foram artificialmente relaxados por imposição do governo americano, e a partir do momento em que o próprio governo adotou políticas que estimulavam a aquisição de imóveis, foi apenas uma questão de tempo para que o setor imobiliário se tornasse um território propício à especulação.

O aumento na demanda por imóveis — estimulado pelo acesso artificialmente facilitado aos financiamentos — gerou um inevitável e contínuo aumento nos preços dos imóveis.  Este aumento contínuo, por sua vez, produziu o “inesperado” efeito de atrair especuladores para o mercado imobiliário.  Tornou-se extremamente comum um indivíduo adquirir um empréstimo, comprar uma casa, fazer alguns aprimoramentos nesta casa e, apenas um ano depois, revendê-la a um preço muito maior, entregando a hipoteca para o novo comprador que, seis meses depois, faria a mesma coisa que seu antecessor.  Ou seja, comprar um imóvel havia virado um investimento altamente rentável e de ganho certo.

Aqueles que não compravam com a intenção de revender passaram a utilizar suas casas como um caixa eletrônico: sempre que o imóvel se valorizava, o indivíduo ia ao banco e, utilizando o novo valor da sua casa como colateral, negociava um novo empréstimo para gastar em bens de consumo, como carros e televisores de plasma.

Um arranjo como este perdura enquanto os preços dos imóveis estiverem em ascensão.  Se os preços começarem a cair, duas coisas ocorrerão: a revenda do imóvel passará a dar prejuízo e o valor da hipoteca será maior do que o valor do imóvel, o que impedirá qualquer tipo de renegociação com os bancos e deixará o mutuário com um patrimônio negativo.  Em suma, todo o esquema especulativo virá abaixo.  E não apenas isso: dar o calote e abandonar o imóvel passará a ser a opção mais racional (e, como veremos mais abaixo, foi isso o que ocorreu no final da década.)

Agências de classificação de risco

Mas o que tornou possível essa contínua especulação?  O que fez com que Fannie e Freddie fossem capazes de comprar e revender títulos lastreados em hipotecas ininterruptamente?  Como dito acima, em setembro de 2008, ambas as empresas detinham metade das hipotecas do país e praticamente 75% das hipotecas recém-concedidas.  De onde vieram os fundos que permitiram isso?  Resposta: de duas fontes.

Em primeiro lugar, não se pode de modo algum ignorar a função deletéria exercida pelas agências de classificação de risco, como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s.  Sem elas, a bolha imobiliária certamente teria sido menor.  Qual foi o estrago que elas fizeram?

Para entender, voltemos àquele exemplo prático dado logo no início do artigo.  Um americano típico, John Smith, vai a um banco qualquer e consegue um empréstimo para comprar um imóvel.  Ato contínuo, este banco irá revender este empréstimo (que é um ativo) para Fannie e Freddie.  Ambas terão a opção de ou manter este ativo ou revender este ativo.  Na maioria das vezes, como mostram os números do parágrafo acima, elas mantinham este ativo em suas carteiras.  Porém, em vários casos, elas empacotavam estes ativos e revendiam para investidores de todo o mundo, em sua esmagadora maioria grandes conglomerados financeiros e grandes bancos de investimento.

Bear Stearns, Lehman Brothers, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Merril Lynch, Morgan Stanley, Citibank, Bank of America eram os compradores americanos mais famosos, ao passo que Barclays, Royal Bank of Scotland e Northern Rock (Reino Unido), BNP Paribas e Société Générale (França), Credit Suisse e UBS (Suíça), e Deutsche Bank (Alemanha) eram os mais famosos compradores da Europa.

Esta prática de empacotar ativos e revendê-los é chamada de securitização.  O principal problema com esta securitização é que ela misturava ativos bons (mutuários com bom histórico de crédito) com ativos ruins (mutuários sem nenhum histórico de crédito) no mesmo pacote.  Logo, quem comprava um pacote contendo ativos bons também acabava por tabela adquirindo ativos ruins.  Qualquer calote dos ativos ruins afetaria sobremaneira os balancetes destas instituições.

Portanto, a pergunta inevitável é: como estes grandes bancos foram seduzidos a comprar estes ativos (tecnicamente chamados de derivativos de crédito) contaminados?  Resposta: porque agências de classificação de risco, como Moody’s, Fitch e Standard & Poor’s, deram classificação máxima (AAA) para estes ativos.

O que nos leva à próxima pergunta: por que estas agências cometeram erros tão crassos?  As respostas variam.  Há quem diga que, como durante todo o período os preços dos imóveis só faziam subir e os títulos lastreados em hipotecas estavam gerando grandes retornos, com pouquíssimos calotes, as agências optaram pela decisão superficial de classificá-los de maneira extremamente favorável.  Há também quem diga que todos os departamentos do governo federal americano que possuíam ligações com o setor imobiliário e que estavam incentivando políticas de compra de imóveis fizeram pressão neste sentido.  Neste caso, as agências de classificação de risco simplesmente não quiseram se opor a iniciativas politicamente populares.

O que realmente se sabe é que estas três agências de classificação de risco são um cartel estritamente regulado pela SEC (a CVM americana).  É a SEC quem permite a existência destas três agências, e é ela quem regulamenta e decide quem pode e quem não pode entrar neste mercado.

Na prática, isso significa que não pode surgir concorrência externa, pois o governo não deixa. Quem vai ter cacife para bancar uma agência de classificação de risco que seja genuinamente independente neste cenário altamente regulamentado?  Há um longo e extenuante processo burocrático-regulatório, de modo que é impossível surgir uma agência para confrontar as classificações destas três grandes.

Portanto, é perfeitamente plausível imaginar que estas três agências não iriam querer criar turbulência política e se indispor com o governo americano rebaixando a classificação dos títulos hipotecários.  Isso poderia colocar em risco seu privilegiado cartel (totalmente protegido pelo governo americano) e, consequentemente, afetar seus portentosos lucros.  O fato é que estas agências merecem toda a culpa que lhes foi atribuída.  Elas estavam apenas fazendo o que o governo lhes mandava.

O principal culpado de tudo

No entanto — e este é o tema desta seção — absolutamente nada disso teria sido possível caso não houvesse uma entidade com o poder legal de criar dinheiro do nada e injetar este dinheiro no setor bancário para que os bancos pudessem continuamente criar mais empréstimos.  Sem uma entidade alimentando todo este sistema com dinheiro criado do nada, não teria sido possível que (1) os empréstimos bancários para a aquisição de imóveis aumentassem continuamente por 15 anos; (2) que os preços dos imóveis disparassem, alimentando todos os tipos de atividades especulativas; (3) que Fannie Mae e Freddie Mac fossem capazes de atrair um volume cada vez maior de dinheiro de investidores por contarem com a proteção implícita do governo; (4) que o decreto CRA fosse bem-sucedido em obrigar os bancos a continuamente fazer empréstimos para pessoas com histórico de crédito duvidoso.

Em suma: sem um Banco Central criando dinheiro e dando este dinheiro aos bancos para que estes concedessem empréstimos — e, com isso, fizessem com que a quantidade de dinheiro na economia americana aumentasse continuamente —, não teria como haver uma bolha imobiliária.  Certamente, não uma bolha destas proporções.

Todo este novo dinheiro criado pelo Banco Central americano (Fed) e multiplicado pelo sistema bancário por meio do processo de reservas fracionárias foi majoritariamente canalizado para o setor imobiliário.  E, para intensificar ainda mais as distorções, os critérios excessivamente frouxos para a concessão de empréstimos — critérios estes gerados por políticas governamentais criadas exatamente com este propósito — fizeram com que especulações e compras imobiliárias excessivas parecessem investimentos geniais.

Portanto, eis o resumo: as medidas governamentais visando à redução dos padrões de empréstimos em conjunto com os privilégios usufruídos pelas para-estatais Fannie Mae e Freddie Mac desviaram para o setor imobiliário uma fatia extremamente volumosa de todo o dinheiro que o Banco Central e o sistema bancário do EUA estavam criando.  Para tornar a tempestade ainda mais perfeita, as agências de classificação de risco contribuíram para a bagunça concedendo classificação máxima para todos os títulos imobiliários oriundos deste arranjo, principalmente aqueles títulos de emprestadores sem nenhum histórico de crédito.  Isso fez com que os grandes bancos americanos, e também os grandes bancos estrangeiros, comprassem títulos hipotecários em quantias volumosas, permitindo que Fannie e Freddie continuassem dando liquidez ao mercado imobiliário, perpetuando a bolha.

Mas foi o Fed, em última instância, quem tornou possível todo o boom artificial do setor imobiliário, e foi todo o dinheiro por ele criado quem forneceu o principal estímulo à subida estrondosa dos preços dos imóveis vista na década de 2000.

Anatomia do colapso

Tendo em mente todo este arranjo, e sabendo como tudo funcionava, podemos agora ver como tudo ocorreu.

A bonança

Todo o processo começou a ser desencadeado no final do ano 2000, quando houve o estouro da bolha das empresas de tecnologia.  Temendo uma iminente recessão, o Fed aumentou suas injeções de dinheiro no sistema bancário para gerar uma redução nos juros.  Estas injeções de dinheiro foram intensificadas logo após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.  Durante este período, a taxa básica de juros da economia americana caiu de 6,5% para 1%.  E assim ficou até meados de 2004.

O gráfico abaixo ilustra este período.  A linha azul, eixo da esquerda, mostra a evolução da taxa básica de juros da economia americana.  A linha vermelha, eixo da direita, mostra a evolução da base monetária, que é uma variável sob total controle do Banco Central, e que representa todo o dinheiro criado pelo Banco Central.  Observe a aceleração ocorrida a partir de 2001.

Gráfico 2: evolução da taxa básica de juros (linha azul, eixo da esquerda) e evolução da base monetária (linha vermelha, eixo da direita).

Gráfico 2

Este aumento na base monetária deixou os bancos repletos de dinheiro para ser emprestado.  E emprestar foi o que eles fizeram, e majoritariamente para o setor imobiliário.

O gráfico abaixo mostra os empréstimos totais feitos pelo setor bancário (linha azul).  E mostra também os empréstimos exclusivamente voltados para a aquisição de imóveis (linha vermelha).  Observe a evolução desde 1980, e a grande aceleração ocorrida na década de 2000.

Gráfico 3: evolução do crédito total concedido pelo setor bancário (linha azul) e evolução do crédito total concedido à compra de imóveis (linha vermelha).

Gráfico 3

Vale observar que, de 2000 a 2008, o crédito total aumenta incríveis 100%, de US$3,5 para US$7 trilhões.  Isso significa que o sistema bancário, estimulado pelo Fed, jogou US$3,5 trilhões na economia americana em apenas 8 anos.  Para a aquisição de imóveis foram direcionados “módicos” US$2 trilhões (de US$1,5 trilhão para US$3,5 trilhões).

Ou seja, dos US$3,5 trilhões jogados na economia, US$2 trilhões foram para o setor imobiliário.  Acrescente a isso todas as medidas governamentais citadas ao longo deste artigo, e realmente não há absolutamente nenhum motivo para se estranhar a bolha imobiliária que foi formada.

Isso explica toda aquela elevação de preços observada no gráfico 1.  De 1993 a 2006, os preços dos imóveis se apreciaram acentuadamente.  Em alguns mercados específicos, até mesmo os preços das moradias mais simples se tornaram astronomicamente altos.  Esta subida nos preços estimulava novos investimentos em mais construções de imóveis, o que gerava um aumento na oferta de imóveis.  E este aumento na oferta de imóveis viria, mais à frente, a exercer uma pressão baixista nos preços dos imóveis.

O colapso

A partir de meados de 2004, com a economia americana já recuperada da recessão de 2001, o Fed começou a reduzir o ritmo de injeções de dinheiro no sistema bancário.  Consequentemente, os juros começaram a subir.

O gráfico abaixo mostra esta correlação entre desaceleração do crescimento da base monetária e aumento da taxa básica de juros.

Gráfico 4: evolução da taxa básica de juros (linha azul, eixo da esquerda) e evolução da base monetária (linha vermelha, eixo da direita).

Gráfico 4

Este aumento da taxa básica de juros de 1% para 5,25% afetou as taxas de juros dos empréstimos imobiliários.  Os juros das hipotecas com taxas ajustáveis (linha vermelha) saem de uma mínima de 3,5% no início de 2004 e vão para quase 6% em meados de 2006.  Já os juros das hipotecas convencionais, de 30 anos (linha azul), vão de 5,5% para quase 7% neste mesmo período.

Gráfico 5: evolução das taxas de juros das hipotecas com taxas ajustáveis (linha vermelha) e evolução das taxas de juros das hipotecas convencionais, de 30 anos (linha azul)

Gráfico 5

Este aumento dos juros esfriou a demanda por imóveis.  Uma redução na demanda por imóveis em conjunto com um acentuado aumento na oferta de imóveis gerou o inevitável: no final de 2006, os preços começaram a cair.

A queda nos preços — na realidade, a percepção de que os preços não mais iriam aumentar — arrefeceu toda a atividade especulativa.  Pessoas que haviam comprado imóveis para especular viram que a festa havia acabado.  O que elas fizeram?  Simplesmente pararam de pagar suas hipotecas.  Deram o calote.  Por quê?  Porque elas haviam pegado empréstimos extremamente generosos, que não exigiam absolutamente nenhum pagamento de entrada.  Elas simplesmente abandonaram seus imóveis.  Não perderam nada.

Já outras pessoas pararam de pagar suas hipotecas simplesmente porque o aumento dos juros havia tornado impossível continuar honrando suas prestações.

A combinação destes dois fatores fez com que os calotes totais nos empréstimos imobiliários disparassem.  Começou timidamente em 2006.  Disparou em 2007.  Foi para a estratosfera em 2008.

De 2005 até o final de 2008, os calotes pularam de US$20 bilhões para US$170 bilhões.  Um aumento de 750% em 4 anos.

Gráfico 6: Inadimplência total dos empréstimos garantidos por imóveis

Gráfico 6

A partir daí, o resto é história.  O aumento nos calotes fez com que todos os bancos de investimento que haviam comprados títulos lastreados em hipotecas repentinamente não mais auferissem essa receita.  O valor destes ativos caiu para zero.  Uma redução nos ativos sem uma concomitante redução nos passivos fez com que vários destes bancos sofressem uma brutal redução em seu capital (patrimônio líquido).  Com o capital afetado, os bancos simplesmente pararam de conceder novos empréstimos, inclusive entre eles próprios no mercado interbancário.  Isso gerou o famoso problema do congelamento do mercado de crédito. (Veja no gráfico 3 como a linha azul se torna plana no primeiro semestre de 2008).  Consequentemente, vários bancos começaram a enfrentar sérios problemas de liquidez.

Essa crise começou a se tornar mundialmente visível em agosto de 2007.  No dia 9 daquele mês, o banco francês BNP Paribas anunciou que estava suspendendo saques em dois dos seus fundos que haviam investido volumosamente em títulos lastreados em hipotecas americanas.  Isso afetou o banco britânico Northern Rock, que dependia exatamente destes fundos de investimento para conseguir liquidez.  Incapaz de conseguir um empréstimo de curto prazo no mercado bancário, o Northern Rock recorreu ao Banco Central da Inglaterra para pedir um empréstimo de 3 bilhões de libras.  Tudo parecia estar indo bem, exceto por um detalhe: um informante dentro do Banco da Inglaterra alertou a BBC sobre a operação no dia 13 de setembro de 2007.  A notícia de que o banco estava insolvente se espalhou como fogo na pólvora e, na manhã seguinte, houve uma corrida bancária ao Northern Rock, com correntistas ávidos para sacar seu dinheiro.  Foi a primeira corrida bancária em larga escala desde 1930.  O governo britânico anunciou que iria garantir todos os depósitos do banco.  No dia 17 de fevereiro de 2008, após o governo recusar várias ofertas de aquisição pelos outros bancos, o Northern Rock foi nacionalizado.

Daí por diante, todo o castelo de cartas começou a desabar.

O banco de investimentos Bear Stearns se tornou insolvente em março de 2008.  O Tesouro americano orquestrou sua aquisição pelo JP Morgan.

No dia 7 de setembro, Fannie Mae e Freddie Mac foram nacionalizadas completamente.

Na semana seguinte, o Fed orquestrou a aquisição do Merril Lynch pelo Bank of America.

No dia 15 de setembro, o Lehman Brothers anunciou sua falência.  Não houve socorro.

No dia seguinte, a seguradora AIG, de alcance global, também anunciou que estava sem dinheiro.  O caso da AIG é interessante.  Ela repentinamente se descobriu sem dinheiro não porque havia investido em títulos lastreados em hipotecas, mas sim porque havia emitidos seguros contra o calote de hipotecas (os chamados “credit default swaps”).  Sempre que uma instituição era caloteada por algum devedor, ela recorria à AIG, que havia emitido apólices contra esses calotes hipotecários.  Com a súbita disparada nos calotes, a AIG repentinamente foi para o vermelho.

E por que a AIG havia emitido tantas apólices de seguro contra calotes de hipotecas?  Porque ela havia sido informada pelo governo de que os preços dos imóveis jamais cairiam, e havia também sido informada pelas três agências de classificação de risco e que os títulos lastreados em hipotecas eram AAA — isto é, extremamente confiáveis e seguros.  Ou seja, em troca desta segurança prometida, a AIG emitiu várias apólices e coletou uma boa soma em prêmios.  Até que tudo se reverteu, e todos os bancos foram correndo reclamar suas indenizações.

No total, até o fim do ano de 2008, o Fed viria a emprestar US$125 bilhões para a AIG em troca de 80% da empresa.  Segundo o The New York Times, esta foi “a mais radical intervenção no setor privado em toda a história do Banco Central”.

Após todas estas intervenções, o Fed assumiu uma postura totalmente inaudita em toda a sua história: ele simplesmente passou a comprar todos os títulos hipotecários em posse dos bancos.  Ou seja, ele passou a imprimir dinheiro e dar aos bancos em troca dos títulos hipotecários em posse destes bancos.  Isso limpou o balancete dos bancos e fez com que a base monetária explodisse.  No entanto, e felizmente, todo este aumento da base monetária não se converteu em expansão do crédito.  Ou seja, os bancos não jogaram este dinheiro na economia.  A quase totalidade do aumento da base monetária transformou-se em “reservas em excesso”.  “Reservas em excesso” são as reservas que os bancos mantêm voluntariamente depositadas junto ao Fed, além do volume determinado pelo compulsório.

O gráfico abaixo mostra a evolução da base monetária (linha azul) e das reservas em excesso (linha vermelha), que representa o dinheiro que os bancos não emprestaram ao público porque preferriam mantê-lo voluntariamente depositado junto ao Fed, que está pagando juros de 0,25% ao ano sobre este montante.

Gráfico 7: evolução da base monetária (linha azul) e evolução das reservas em excesso (linha vermelha)

Gráfico 7

Toda esta nova política adotada pelo Fed resultou em um generoso e gratuito subsídio para o sistema bancário.  No final, não apenas seus lucros dos tempos da bonança foram mantidos, como os prejuízos ainda foram socializados.  Atualmente, os bancos de Wall Street operam em um regime de risco quase nulo: eles fazem empréstimos hipotecários, revendem os títulos das hipotecas para o Fed, recebem o dinheiro de volta (com um lucro), e ainda deixam boa parte deste dinheiro recebido do Fed depositado no próprio Fed, que está pagando 0,25% ao ano sobre este montante.

Por causa de toda a intervenção governamental, toda a lambança acabou valendo a pena para os bancos.

Conclusão

Não é o escopo deste artigo fazer digressões sobre como o governo americano e seu Banco Central deveriam ter atuado durante a crise.  Crises bancárias é um assunto vasto e complexo, e merece um artigo à parte (um esboço pode ser visto aqui e um mais completo aqui).  Tampouco houve o intuito de fazer algum juízo de valor.  A única intenção foi mostrar, sem ideologias ou partidarismos, como realmente se desenrolou todo o processo que levou à formação de uma bolha imobiliária, como se deu seu estouro e como isso afetou todo o sistema bancário.

De posse de todas as informações aqui contidas, o leitor deve se fazer as três seguintes perguntas:

1) Todo este arranjo apresentado configura um sistema totalmente desregulamentado, um genuíno laissez-faire, ou, ao contrário, representa um sistema fortemente intervencionista, no qual políticos, burocratas e reguladores determinavam regras e agitavam em prol de suas conveniências?

2) Um sistema bancário que goza de uma garantia implícita dada pelo governo — de que haverá socorro caso as coisas deem erradas — tende a apresentar comportamentos mais temerários ou mais prudentes?

3) Sem um Banco Central criando dinheiro e permitindo aos bancos manterem suas expansões creditícias de modo crescente, será que tudo isso teria sido possível?

As respostas a estas perguntas têm de estar claras antes de se iniciar qualquer debate a respeito da crise.

A culpa da crise em terceiros

Quando se tem um problema e não se tem lá muita honestidade, nada como jogar a culpa em terceiros. O governo americano aprovou esta ideia recentemente ao acusar a agência financeira Standard & Poor’s de fraude. Segundo o governo, a empresa apresentou ratings (algo como classificações) que configuravam títulos de investimento lastreados em hipotecas de forma inflada, ou seja, seriam títulos extremamente confiáveis de se investir, o que não se concretizou, como se pode verificar com a crise de 2008.

Entretanto, até que ponto empresas como a S&P seriam responsáveis pela crise?

As acusações tomam como base o final do ciclo econômico, quando os títulos eram lastreados em um mercado fadado ao abismo: o imobiliário. A questão principal é, portanto, o próprio mercado em que os títulos tinham lastro, que se tratava de uma bomba-relógio. Independente da classificação que agências dessem este mercado acabaria por ruir. Muito provavelmente, caso sequer estes títulos de investimento existissem, os estragos seriam próximos do mesmo, talvez alterando-se apenas a intensidade (tanto para mais quanto para menos) e/ou as pessoas envolvidas, mas a possibilidade de não haver problemas econômicos não existia naquele momento, e ainda sendo algo completamente distante dos alcances das agências.

A bolha

A economia americana não passava por bons momentos no começo da década de 2000. Com o peso do estouro da bolha da internet e dos atentados terroristas, entre outras coisas, a economia tinha dificuldades para crescer. Então, que tal usar a suposta fórmula mágica de crescimento do expansionismo monetário?

O gráfico acima informa sobre a taxa básica de juros nos EUA, que chegou ao 1% nominal em meados de 2003 e 2004; se descontada a inflação, as taxas de juros reais eram negativas.

A quantidade de dinheiro na economia acompanhou esta expansão orquestrada pelo banco central americano (o FED, Federal Reserve).

Consequentemente, os empréstimos ao setor privado explodiram. Em meados de 2001, estavam na casa dos 3,5 trilhões de dólares. Em 2008, já eram praticamente o dobro. Porém, não obstante toda esta expansão insustentável, boa parte do crédito fornecido foi para pessoas com capacidade de pagamento duvidosa. Isso ocorreu graças ao Decreto de Reinvestimento Comunitário (CRA, Community Reinvestment Act), que faz com que bancos forneçam crédito mais arriscado caso queiram, por exemplo, expandir suas atividades, com o objetivo final de “reduzir o preconceito no fornecimento de crédito”.

Uma consequência direta e importante para o entendimento da crise é a inflação de preços. Esse aumento na quantidade de dinheiro – que foi a base para o crescimento em meados da década – gera inflação de preços. Como bem sabem os burocratas, frear expansões monetárias do tipo funciona como um freio para esses aumentos.

O índice de preços ao produtor, que é mais abrangente, mostra um caminho de aumentos parecido.

O governo intensificou uma política monetária expansionista em meados da última década. No início, os efeitos dessas políticas aparentam ser bons: com o aumento na quantidade de dinheiro, ocorre um “estímulo à demanda”, algo muito aclamado por alguns. Entretanto, muitos investimentos serão feitos graças a apenas esse aumento crescente na quantidade de dinheiro; caso esse aumento crescente estanque, fica evidente uma nova dificuldade econômica.

A crise

Esses investimentos podem incluir contratação de mais funcionários, compras de mais máquinas, construção de novas unidades, entre outros. Com o inicial aumento no consumo, a mensagem que se passa ao empreendedor é que existe uma demanda em alta por seus produtos, que ele pode investir mais e que bons lucros poderão dar as caras. Mas quando a política econômica muda – os aumentos nos preços estão incomodando -, o aumento na quantidade de dinheiro passa a frear. Este aumento foi o que possibilitou aqueles investimentos insustentáveis citados no início deste parágrafo.

Agora, aqueles trabalhadores que foram contratados no boom econômico não são mais necessários; pelo contrário, representam custos extras. Aquelas máquinas, não mais são tão necessárias, mas o empreendedor ainda tem que arcar com os custos de manutenção e pagar as parcelas caso não tenha se tratado de uma compra à vista – crédito farto era regra. Surge somente agora algo parecido com a tal da “superprodução”, algo que não é causa de crises, e sim uma das consequências de políticas monetárias irresponsáveis.

Mas se mantida a expansão na quantidade de dinheiro, não haveria recessão, pois, em tese, não haveria o declínio na atividade econômica? Os preços passam a incomodar cada vez mais. Se não revertida, os aumentos nos preços – que se distribuem de forma desigual na economia – desequilibrará cada vez mais a estrutura de produção, cessando os supostos benefícios da expansão.

No mercado imobiliário, as mesmas regras são válidas.

Segundo o gráfico, os preços das casas decolaram em meados da última década. Todos aqueles investimentos que tinham como base o mercado imobiliário decolaram junto. Entretanto, quando a expansão monetária diminuiu e o mercado imobiliário voltou à realidade, estes investimentos ficam com seus dias contados. Estes são os investimentos que supostamente seriam seguros.

As causas da crise estão completamente distantes de agências como a S&P. Com as políticas monetárias expansionistas orquestradas pelo banco central americano, muitas oportunidades de ganhos financeiros surgiram. Porém, quando os inevitáveis desequilíbrios surgiram, muitas perdas ganharam espaço. Como a S&P diz em sua defesa, as informações que a agência tinha eram as mesmas que as do resto do mercado – incluindo até mesmo o fato do próprio governo então também ter estado cético quanto a existência de um crise iminente. De fato, na época, a S&P era tão inocente sobre aos fatos vindouros quanto o governo e economistas que defendiam ideias incoerentes.

Defendendo Reagan de Paul Krugman

Artigo escrito originalmente por William L. Anderson, postado no Instituto Ludwig von Mises Brasil, com tradução de Leandro Roque.

Paul Krugman, em sua interminável busca por novas interpretações históricas que finalmente confirmem suas mais disparatadas teorias, aparentemente acredita ter finalmente feito a descoberta do milênio: ele declarou que Ronald Reagan era na realidade mais keynesiano do que Barack Obama.  Por quê?  Eis suas palavras:

Reagan, e não Obama, foi o grande gastador.  Embora tenha havido um breve surto de gastos governamentais no começo da gestão Obama, isso já passou faz tempo.  Na verdade, a esta altura, o gasto público está caindo rapidamente, com o gasto real per capita encolhendo ao longo do último ano em um ritmo que não era visto desde a desmobilização que se seguiu à Guerra da Coreia.

E ele continua:

Por que o governo gastava muito mais sob Reagan do que na atual crise?  O “keynesianismo bélico” — a grande expansão militar feita por Reagan — teve algum papel.  Mas a grande diferença eram os gastos reais per capita em níveis estadual e local, que continuaram crescendo sob Reagan, ao passo que caíram significativamente desta vez.

E isso, por sua vez, reflete a mudança ocorrida no ambiente político.  Em primeiro lugar, os estados e os municípios costumavam se beneficiar do ‘compartilhamento de receitas’ — auxílios automáticos repassados pelo governo federal, um programa que Reagan acabou abolindo, mas somente depois que a recessão do início de seu governo já havia acabado.  Mais importante, durante a década de 1980, o dogma anti-impostos ainda não possuía o mesmo apelo de hoje, de modo que os governos estaduais e municipais eram muito mais dispostos do que hoje a cobrir déficits temporários por meio de aumentos de impostos, desta forma evitando profundos cortes de gastos.

É claro que isso estava demorando.  Algum dia, quando seu repertório de desculpas terminasse, Krugman iria finalmente entregar os pontos, “sequestrar” a agenda de Reagan e dizer: “Esse cara é dos meus!”.  Mas o problema é que há um caminhão de confusões neste trecho, algo em que Krugman é especialista em criar por meio de sua destreza em manipular estatísticas, as quais ele distorce até que finalmente elas confessem aquilo que ele quer ouvir.  Além desta sua prestidigitação estatística, típica de um mágico manipulando um baralho, há a sua total recusa em examinar o real cenário em que se encontrava a economia americana em 1982, e que permitiu que a economia finalmente saísse da recessão iniciada em 1980.

Primeiro, a ideia de que os programas do governo federal de ‘compartilhamento de receitas’ realmente ajudaram a tirar o país da recessão é um genuíno uivo krugmaniano.  As reais quantias de dinheiro distribuídas em forma de doações com mínima supervisão regulatória federal (algo que Krugman sem dúvidas alegaria ser maléfico) eram uma ninharia se comparadas ao tamanho total dos orçamentos de cada estado.

Segundo, e ainda mais importante, na última frase do trecho destacado acima, Krugman está alegando que aumentos de impostos feitos pelos governos estaduais tiveram um importante papel na recuperação da economia.  Em outras palavras, dinheiro confiscado de cidadãos e empresas privadas e transferido para funcionários públicos e empresas em conluio com o estado de alguma forma efetuou a mágica de finalizar uma penosa recessão.

A menos que Krugman queira recorrer à simplória teoria do “multiplicador orçamentário“, não estou muito certo de que sua “lógica” faça sentido.  (A teoria do “multiplicador orçamentário” se baseia na ideia de que, dado que o governo irá gastar absolutamente todo o dinheiro tomado das famílias e empresas em vez de apenas uma fração dele, um aumento dos impostos irá gerar um aumento de receitas e consequentemente um aumento dos gastos do governo, o que por sua vez irá deixar a economia mais robusta.  Obviamente, esta “lógica” inevitavelmente leva à defesa daquele esquema que seria a Mãe de Toda a Prosperidade: uma carga tributária de 100%).  Afirmar que roubar de Pedro para dar a Paulo é uma medida que gerará recuperação econômica é uma teoria que não passa nem no teste da risada.

Krugman recorre a novos truques quando afirma que o “keynesianismo bélico” também ajudou a gerar recuperação econômica.  É verdade que Reagan aumentou substancialmente os gastos do Pentágono, algo que sem dúvidas deixou as empresas fornecedoras de armas e suprimentos militares, bem como seus funcionários, pra lá de satisfeitas e em melhor situação financeira; porém, se elevar os gastos militares representasse um genuíno benefício — e não um custo — para uma economia, então a chave para a prosperidade eterna seria fazer com que todos os países do mundo entrassem em guerra permanente e gerassem o máximo possível de destruição.  Quanto maior os estragos, mais rica estaria a economia mundial.

(Assim como em sua afirmação de que aumentos nos impostos tiveram um papel decisivo para a recuperação econômica, Krugman jamais poderia reclamar de qualquer aventura militar americana em outros países, uma vez que elas inevitavelmente demandam mais gastos governamentais.  E, como todo bom keynesiano sabe, mais gastos governamentais significam mais prosperidade para todos.)

Mas há algo substancial que Krugman não aborda em seu artigo, e que foi de suprema importância para a recuperação da economia americana no início da década de 1980: a quantidade de liquidações, falências e mudanças na estrutura de produção da economia americana que ocorreu naquela época.  Dado que Krugman e eu nascemos no mesmo ano, nós dois nos lembramos bem das coisas que ocorreram durante a recessão de 1982 — bem como todas as lamúrias midiáticas que foram feitas à época.

Vários agricultores americanos que haviam se endividado enormemente (seguindo conselhos de burocratas do Ministério da Agricultura) prevendo mais inflação e um contínuo aumento nos preços das safras repentinamente se descobriram falidos e tiveram de ver suas fazendas sendo levadas a leilão quando os preços das safras despencaram em decorrência dos esforços do Banco Central americano (sob o comando de Paul Volcker) em reduzir a taxa de crescimento da oferta monetária.  Várias pessoas se lembram de Dan Rather [famoso âncora americano] fazendo matérias ao vivo direto destes leilões de fazendas, bem como vários filmes de Hollywood retratando as agruras de agricultores cronicamente endividados.

Uma grande quantidade de siderúrgicas e usinas de fundição de ferro e aço foi abandonada, e cidades como Pittsburgh, na Pensilvânia, passaram por substanciais alterações econômicas, uma vez que setores industriais inteiros, que eram a base das economias destes lugares, faliram e fecharam.  Igualmente, várias fábricas automotivas ao redor do país fecharam permanentemente, o que abriu espaço para que montadoras de outros países fossem para os EUA e construíssem fábricas e contratassem mão-de-obra não sindicalizada, apresentando, desde então, um desempenho muito melhor do que suas rivais americanas.

Houve também mudanças fundamentais no setor de transportes.  A Comissão Interestadual de Comércio — agência reguladora que controlava os preços de transportes ferroviários e de carga, e que havia criado vários cartéis nestes setores — passou por uma série de transformações, o que posteriormente levou à sua total abolição.  Vários esquemas regulatórios foram abolidos, o que levou ao surgimento de novas empresas nestes setores, bem como mais concorrência.

Profundas desregulamentações também no setor de telecomunicações acabaram com os cartéis, quebraram empresas obsoletas e permitiram o surgimento e o rápido crescimento de novas indústrias de alta tecnologia, o que acabou pavimentando o caminho para o moderno uso da internet.

Em outras palavras, embora haja várias críticas a serem feitas a Reagan, principalmente no que concerne ao aumento dos gastos militares, o fato é que ele, ao menos durante o seu primeiro mandato, permitiu que várias coisas boas pudessem ocorrer.  Ele permitiu que enormes setores da economia americana quebrassem e fossem liquidados, um termo que é anátema para keynesianos como Krugman.  Foi esta liquidação, como bem explica a teoria austríaca, que expurgou os investimentos ruins e insustentáveis da economia americana, permitindo que recursos escassos fossem direcionados para novos e mais modernos setores, de acordo com a nova demanda dos consumidores.

Não obstante várias e clamorosas demandas do Congresso para que o governo adotasse “políticas industriais” que estimulassem indústrias decadentes e falidas, e concedesse mais subsídios para aqueles setores favoritos dos Democratas (que controlavam o Congresso), o que houve na realidade foi um substancial crescimento econômico conduzido pelo livre mercado, de modo que, já no início de 1984, era nítido que a economia americana estava forte processo de recuperação.

Agora, de acordo com Krugman, tudo isso que ocorreu naquela época é na realidade impossível de ocorrer.  Sim, houve um crescimento no tamanho do governo, mas certamente nada comparável — principalmente nos dois primeiros anos de Reagan, seus melhores — aos maciços gastos que os keynesianos alegam serem necessários para que haja uma real e sustentável recuperação econômica.  Adicionalmente, os keynesianos de hoje nos fariam crer que a quantidade de liquidações ocorrida em 1982 arrastaria a economia americana para um atoleiro do qual ela jamais sairia sem acentuados gastos governamentais, subsídios, pacotes de estímulos, impressão maciça de dinheiro, juros extremamente baixos e afins.  E nada disso ocorreu.

Pessoas bem treinadas em métodos estatísticos sabem que sempre há maneiras espertas de se apresentar e interpretar números, e Krugman sabe como jogar este jogo.  Um grande número de pessoas já abordou esta maneira krugmaniana de lidar com números e não é minha intenção se juntar a elas.  Pretendo lidar com Krugman na base da teoria.

De acordo com Paul Krugman, considerando-se todas as liquidações e falências ocorridas em 1982, a recuperação econômica americana de 1983-1984 não poderia ter acontecido.  Mas ela ocorreu.  E ocorreu sem maciças doses de pacotes de estímulos, subsídios, impressão de dinheiro e aumento de gastos.  Consequente, Krugman se vê obrigado a criar fantasias sobre como o “compartilhamento de receitas”, o “keynesianismo bélico”, e o aumento de impostos dos governos estaduais foram na realidade os grandes agentes da prosperidade.  Adicionalmente, vale ressaltar que a taxa de inflação caiu acentuadamente durante aquela época, algo que os keynesianos argumentariam não ser possível durante uma recuperação econômica.

Infelizmente, Krugman é muito influente e várias pessoas acreditam em suas tolices — e são tolices —, o que dá aos governos a desculpa perfeita para confiscar mais riqueza da economia, asfixiá-la com mais regulamentações, aumentar seus gastos e seu controle sobre todos nós.  E ainda fazer os ingênuos acreditarem que este caminho da servidão é na realidade o caminho da prosperidade.

Para complemento de leitura e facilitação de entendimento, são recomendáveis também o artigo Liberalizar gera desemprego? e a biografia de Ronald Reagan.

Ronald Reagan, de ator para presidente.

Ronald Regan foi com certeza uma das figuras políticas mais importantes dos últimos tempos, conservador, guiou os Estados Unidos da América em plena Guerra Fria e teve participação direta no seu fim. Os dircusos de Reagan, que era bastante carismático, eram marcados por uma forte crítica ao comunismo e frequentemente, abordava o tema com humor contando piadas e fazendo ironias. Além desta grande aversão ao comunismo, Reagan defendia um estado pequeno e pouco interventor. Até hoje, Reagan é venerado e respeitado pela maioria dos Norte-Americanos, conservadores ou não, pelos seus feitos.

Biografia

O comunismo foi a pior maldição do século XX. O nazismo durou doze anos, o fascismo italiano vinte anos, e o comunismo soviético setenta e quatro anos. Estima-se que o líder soviético Joseph Stálin tenha matado três vezes mais pessoas do que Hitler, e a quantidade total de mortes do comunismo está estimada em mais de 150 milhões de pessoas. Os soviéticos escravizaram milhões de pessoas no leste europeu após a Segunda Guerra Mundial, roubaram segredos americanos para construir armas nucleares e instalaram milhares de mísseis nucleares apontados para os Estados Unidos, alguns até mesmo em Cuba – e os EUA não teriam como interceptar um único míssil, fora lançado intencional ou acidentalmente. Durante os anos 70, os soviéticos trabalharam na expansão de sua influência na Ásia, na África e nas Américas.

Enquanto isso, os Estados Unidos e outros países ocidentais pareciam estar em declínio. A inflação e as taxas de juros atingiam dois dígitos, e o desemprego permanecia alto. Os intelectuais rendiam-se à inevitabilidade da ascensão soviética e do declínio do Ocidente. John Kenneth Galbraith, professor de Economia, escreveu em The New Yorker (1984): “O sistema russo tem sucesso porque, em contraste com as economias industriais ocidentais, ele faz pleno uso do seu poderio humano”. Paul A. Samuelson afirmou em Economics, seu influente livro didático, que “não se pode duvidar do fato de que os sistemas de planejamento soviético têm sido um motor poderoso para o crescimento econômico”. O professor de Economia Lester Thurow saudou em 1989 “a notável performance da União Soviética”. E o historiador Arthur M. Schlesinger Jr. dizia o seguinte: “Aqueles nos EUA que pensam que a União Soviética esteja à beira de um colapso econômico e social… [estão] apenas enganando-se a si próprios”.

O Presidente Ronald Reagan provou que todos eles estavam errados. Ele fez muito para reviver os ânimos americanos e mudar os termos do debate sobre políticas públicas. Ele insistiu que o livre mercado funciona melhor que os burocratas, e que o individualismo americano e a liberdade são coisas de que se orgulhar. Em vez de incentivar o Federal Reserve [o Banco Central americano] a imprimir dinheiro, como seu predecessor Jimmy Carter, Reagan apoiou os esforços do FED para frear a oferta monetária; em dois anos, a inflação havia deixado de ser uma questão nacional. Reagan reduziu e fixou um teto para a alíquota do imposto de renda, incentivando um crescimento econômico que, com exceção dos nove meses de recessão nos dois anos após deixar o cargo, continuaram no milênio seguinte, e o desemprego crônico deixou de ser uma questão de interesse nacional. Reagan acabou com as agressões soviéticas em curso e intensificou as pressões sobre a União Soviética, contribuindo para seu atordoante colapso. Como disse a Primeira-Ministra da Grã-Bretanha Margaret Thatcher, “Ronald Reagan venceu a Guerra Fria sem disparar um tiro”.

Reagan despontou como grande defensor da paz. Apoiou o desenvolvimento de um sistema de defesa focado na interceptação de mísseis nucleares disparados contra os Estados Unidos, e se dispôs a compartilhar a tecnologia de sua Iniciativa de Defesa Estratégica, uma vez que se provasse eficaz, para que os riscos de uma guerra nuclear fossem reduzidos. Presidentes anteriores haviam buscado a estratégia SALT (Strategic Arms Limitation Talks) [“Diálogos para a limitação de armamentos estratégicos”] para reduzir o número de armas nucleares instaladas. Seu governo negociou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, o primeiro a mencionar a eliminação de toda uma categoria de armas nucleares.

Muitos dos críticos de Reagan afirmaram que já que a economia soviética demonstrou estar em piores condições do que se imaginava, suas políticas tiveram pouca ou nenhuma influência no colapso. No passado, entretanto, regimes como o da China Imperial e o Império Otomano (“Homem doente da Europa”) se seguraram por décadas. Além do mais, os comunistas ainda dão as cartas em países miseravelmente pobres, como China, Cuba e Coréia do Norte.

O ex-Secretário de Estado Henry Kissinger observou, “A performance de Reagan foi surpreendente – e quase incompreensível para os observadores acadêmicos… Um presidente com uma base acadêmica altamente superficial iria desenvolver uma política externa de extraordinária relevância e coerência. Reagan pode muito bem ter tido apenas algumas idéias básicas, mas essas acabaram por tornar-se as questões centrais de política externa do seu tempo, o que demonstra que senso de direção e convicções fortes são ingredientes-chave para a liderança”.

O analista de políticas públicas Martin Anderson escreveu nos anos 80 que “quando você encontra Ronald Reagan, a primeira coisa que você nota é como ele é grande. Tem 15 centímetros a mais que a maioria das pessoas, pesa quase 90 quilos, é esguio e forte. Ainda guarda os movimentos e a aparência do salva-vidas que foi por sete anos durante os anos 20, quando salvou 77 pessoas de afogar-se no Illinois Rock River.

Reagan tornou-se especialmente querido pelo público americano após sua recuperação da tentativa de assassinato sofrida do lado de fora do Washington Hilton Hotel em 30 de março de 1981. Uma bala disparada por John Hinckley Jr. Parou a menos de uma polegada do coração de Reagan, mas do hospital da George Washington University vieram gracejos cômicos que fizeram com que todos soubessem que ele ficaria bem.

Teantiva de Assasinato à Ronald Reagan em 1981, apenas 69 dias após assumir a presidência. Reagan e mais 3 pessoas foram alvejadas por John Hinckley, Jr em Washington D.C.

“Nós estávamos especialmente conscientes da coragem de Ronald Reagan”, afirmou Thatcher. “Era fácil para seus contemporâneos ignorarem isso; ele sempre parecia tão calmo e relaxado, com um charme natural, uma confiança espontânea e um incansável bom humor … Ronald Reagan apareceu para desafiar tudo o que a elite política de esquerda americana aceitava e pretendia difundir. Eles acreditavam que a América estava fadada ao declínio; ele acreditava que estava destinada a uma grandeza ainda maior. Eles imaginavam que cedo ou tarde haveria uma convergência entre o sistema ocidental e o sistema socialista oriental, e que algum tipo de resultado social democrático seria inevitável. Ele, em contraste, considerava o socialismo um grande fracasso que deveria ser relegado à lata de lixo da História. Eles pensavam que o problema da América eram os americanos, ainda que não gostassem de dizê-lo abertamente. Ele pensava que o problema da América era o governo americano, e deixou isso bem claro”.

Ronald Wilson Reagan nasceu em 6 de fevereiro de 1911, em um apartamento na sobreloja de um banco em Tampico, Illinois. Seu pai, John Edward Reagan, um vendedor de sapatos cujos antepassados haviam vindo da Irlanda, se tornou o bêbado da cidade. Nelle Wilson, a mãe de Ronald, cujos antepassados eram anglo-escoceses, irradiava otimismo.

Ronald Reagan com seus pais, Jack e Nelle Reagan e seu irmão, Neil Reagan.

Muito cedo, Reagan aproveitou oportunidades para aprender a falar em público, no rádio e a atuar. Durante a transmissão de um evento esportivo na Califórnia, conseguiu um contrato como ator com a Warner Brothers. Ele ascendeu de filmes B para participar de filmes como Knute Rockne – All-American , no qual interpretou o falecido herói do futebol americano George Gipp. Reagan foi eleito presidente da Screen Actors Guild [Sindicato de Atores de Cinema] por cinco vezes e aprendeu a ser um negociador duro com os grandes estúdios.

Após o seu divórcio de Jane Wyman, Reagan conheceu a atriz Nancy Davis, que compartilhava de muitas das suas idéias. Casaram-se em 4 de março de 1952, e tiveram dois filhos, Patricia Ann (1952) e Ronald Jr. (1958).

Durante os anos 1950, Reagan trabalhou como apresentador no General Eletric Theater, programa que foi ao ar durante oito anos na televisão. Ele deu palestras sobre os problemas do governo e os benefícios da livre-empresa nas instalações da GE em trinta e nove estados. Como viria a fazer por anos, escrevia seus discursos à mão em blocos de papel amarelo e depois os transcrevia para cartões de 10cm X 15cm, usando letras de fôrma e o seu próprio sistema de taquigrafia. Esta técnica lhe permitia captar o conteúdo de cada cartão em uma olhada e manter contato visual com a audiência.

Para ajudar Barry Goldwater, candidato Republicano à presidência, Reagan gravou um discurso de trinta minutos para a televisão que foi ao ar em 27 de outubro de 1964, e subsequentemente mostrado em eventos de arrecadação de fundos, gerando US$8 milhões para a campanha de Goldwater. Após a derrota de Goldwater para Lyndon Johnson, Reagan entrou na corrida pelo governo da Califórnia contra o então governador Democrata Pat Brown. Os comerciais de TV da campanha de Brown comparavam Reagan com o ator John Wilkes Booth, o assassino de Abraham Lincoln, mas Reagan venceu com 58% dos votos. Durante seu mandato, ele elevou impostos para cobrir os déficits deixados por Brown e, quando o orçamento do estado chegava a um superávit, devolvia dinheiro aos pagadores de impostos – o que aconteceu em quatro ocasiões.

Reagan ganhou a presidência em sua segunda tentativa, em 1980. O então presidente Jimmy Carter havia herdado uma inflação crescente e decidiu pressionar o FED para que expandisse a oferta monetária, o que tornou a inflação ainda pior. Quando ele impôs controles de preços para manter o preço da gasolina abaixo dos níveis do mercado, os resultados foram escassez crônica e filas irritantes nos postos de gasolinas. Carter foi duro com governos pró-Ocidente sobre violações de direitos humanos, mas ignorou a opressão muito pior dos regimes comunistas. Seu dúbio conselho ao Xá do Irã, um autocrata pró-Ocidente, contribuiu para a queda deste. Milícias islâmicas anti-ocidentais invadiram a embaixada americana em Teerã e mantiveram cinquenta e dois americanos reféns por um ano.

Ronald Reagan, já presidente em 1981.

Reagan, em contraste, concentrou-se em algumas poucas prioridades. Acabou com as filas nos postos de combustível ao abolir os controles sobre os preços de petróleo e gasolina, já que o aumento de curto prazo nos preços atraiu novos fornecedores ao mercado, ao mesmo tempo em que encorajou os consumidores a economizarem. A maior questão era a inflação, que havia levado a taxa de juros para 21,5%, supostamente o nível mais alto desde a Guerra Civil. Reagan apoiou as políticas do presidente do FED Paul Volcker para frear a oferta monetária, e a inflação caiu dramaticamente. Ao mesmo tempo, Reagan estava determinado a reviver a economia. Sua reforma tributária de 1981 foi um projeto de três anos que reduzia o imposto de renda de pessoa física em 10% no primeiro ano, outros 10% no segundo, e 5% mais no terceiro ano. Na época, as alíquotas de impostos eram indexadas para que evitar que a inflação empurrasse as pessoas para categorias mais altas de impostos. A legislação tributária de 1986 de Reagan eliminou todas as alíquotas de imposto de renda federal exceto duas, 15% e 28%.

Reagan, entretanto, não cortou os gastos do governo federal. Os Democratas controlavam o Congresso, e Tip O’Neill, presidente da Câmara, rejeitou os cortes porque gastos federais são o modo primordial de retribuição a eleitores importantes e doadores de campanha. Em 1983, Reagan concordou em acabar com isenções fiscais no valor de US$98 bilhões se os Democratas aprovassem um corte de US$280 bilhões nos gastos, mas eles recusaram. A maioria dos Republicanos se opunha aos cortes de gastos, também, já que eles tinham de responder a seus próprios eleitores. Seria ideal se Reagan houvesse concentrado seus amplos poderes de persuasão nos cortes de gastos, mas não havia apoio político.

O crescimento e as agressões soviéticas permaneceram uma questão importante. “Como assunto fundamental da minha política externa”, Reagan explicou, “eu decidi que tínhamos que mandar aos russos uma mensagem o mais forte possível demonstrando que não iríamos mais ficar parados enquanto eles armavam e financiavam terroristas e subvertiam governos democráticos … Se não houvéssemos começado a nos modernizar, os negociadores soviéticos saberiam que estávamos blefando sem cartas boas, porque eles sabem as cartas que temos tanto quanto nós sabemos o que eles têm em mão”. Reagan fez um apelo moral ao povo americano: em um discurso em 8 de março de 1983, ele chamou a União Soviética de “um império do mal”, epíteto que ecoou por todo o mundo.

Reagan ignorou a doutrina predominante de destruição mútua assegurada (MAD) – de que a paz estaria melhor protegida com ambos os lados armados com mísseis nucleares mortais. A teoria dissuadiria um lançamento internacional de mísseis contanto que os dois lados acreditassem que não poderiam vencer uma guerra nuclear. Mas há indícios de que alguns generais soviéticos acreditavam que poderiam vencer uma guerra nuclear, e de qualquer maneira a MAD não protegia contra um lançamento acidental de mísseis nucleares. Apesar dos bilhões pagos em forma de tributos pelos americanos para a defesa nacional, eles estavam desamparados. Os soviéticos tinham 6 mil ogivas, e os EUA tinham outros 2 mil; quanto maior a quantidade de mísseis, maior era o risco de que oficiais mal-treinados ou despreparados pudessem lançar um míssil, sem chances de voltar atrás. Um míssil soviético poderia atingir Washington, DC, em cerca de trinta minutos. Neste sentido, Reagan buscou desenvolver um sistema de defesa que interceptaria mísseis lançados intencional ou acidentalmente.

Em 23 de março de 1983, fez um discurso em busca de apoio para o sua Iniciativa de Defesa Estratégica (SDI). “Deixem-me compartilhar com vocês uma visão do futuro que ofereça esperança”, disse ele. “Voltemo-nos à força tecnológica que gerou a nossa grandiosa base industrial e tem nos dado a qualidade de vida de que desfrutamos hoje. (…) A tecnologia atual alcançou um nível tal de sofisticação que é razoável que iniciemos este esforço. Vai levar anos, provavelmente décadas de esforços em diversas frentes. Haverá fracassos e contratempos, assim como haverá sucessos e avanços. (…) Mas não é válido todo investimento necessário para livrar o mundo da ameaça de uma guerra nuclear?”.

No salão oval, Reagan se prepara para o dircurso sobre o SDI – Iniciativa Estratégica de Defesa em português.

A União Soviética condenou a proposta. O dirigente soviético Yuri Andropov, que havia chefiado a polícia secreta, chamou a SDI de “insana”. Muitos americanos não acreditaram na viabilidade do projeto e ridicularizaram-no como “Guerra nas Estrelas”. Quando alguns críticos avisaram que a SDI iria provocar os soviéticos a expandir seu próprio sistema de defesa antimísseis ou mesmo a lançar um primeiro ataque preventivo contra os Estados Unidos, Reagan se dispôs a compartilhar tecnologias de defesa antimísseis com os soviéticos.

Conforme o biógrafo Dinesh D’Souza explicou, “a SDI teve duas consequências políticas não antecipadas pelos críticos de Reagan. Ela destruiu a base do movimento de não-proliferação, pois Reagan se mostrou mais comprometido do que sua liderança em reduzir o perigo representado pelo arsenal nuclear soviético para os americanos. Reagan parecia ter encontrado uma maneira mais criativa para que os EUA se aproximassem unilateralmente da eliminação da ameaça nuclear. A SDI era o desarmamento por meio da tecnologia em vez da diplomacia. Além disso, para o completo espanto do establishment em defesa do controle de armas, o mero conceito de SDI realizou exatamente o que Reagan disse que faria: trouxe a União Soviética de volta à mesa de negociações”. Os soviéticos temiam que não pudessem acompanhar o desenvolvimento americano de um sistema de defesa antimísseis.

Os eventos mudaram de rumo em 31 de agosto de 1983, quando os soviéticos abateram um avião comercial sul-coreano que havia adentrado o espaço aéreo soviético. O número de mortos foi de 269, incluindo 61 americanos. Reagan condenou o incidente como “um ato de barbarismo”. Mikhail Gorbachev, atuando em lugar do Secretário Geral Andropov, afirmou que o avião sul-coreano era um avião espião, e a imprensa soviética comparou Reagan a Hitler. Reagan refletiu: “Se, como algumas pessoas especularam, os pilotos soviéticos simplesmente se enganaram, pensando que um avião de passageiros fosse um avião militar, não seria difícil imaginar um militar soviético com seu dedo próximo de um botão de ativação de uma bomba nuclear cometendo um erro ainda mais trágico. (…) Ainda, se alguém cometesse tal erro – ou se um louco estivesse em posse de um míssil nuclear – nós estaríamos indefesos. Uma vez que um míssil nuclear fosse lançado, não se poderia voltar atrás, e até que tivéssemos a Iniciativa de Defesa Estratégica operando, o mundo estaria indefeso contra mísseis nucleares”. Enquanto isso, Reagan pressionou pela instalação de mísseis Perishing II de médio-alcance e Tomahawk na Europa, e eles foram aceitos pela Grã-Bretanha, pela Itália e pela Alemanha Ocidental para contrabalancear os mísseis soviéticos SS-20 apontados para cidades da Europa Ocidental.

Reagan jurou ajudar pessoas dispostas a resistir à União Soviética – democratas na Polônia e Tchecoslováquia, fundamentalistas islâmicos no Afeganistão, autocratas tribais em Angola, direitistas na Nicarágua. Alguns destes não eram verdadeiramente amigos da liberdade, mas a estratégia de Reagan inegavelmente pressionou os soviéticos, fazendo com que eles abandonassem posições conquistadas nos anos 1970. O sucesso mais dramático veio após Reagan ter fornecido mísseis antiaéreos Stinger às guerrilhas afegãs. Conforme o ex-Secretário de Estado George P. Schultz explicou, “Os Stingers, mesmo quando divididos com cuidado, fizeram uma diferença enorme, quiçá decisiva. Os soviéticos não mais dominavam áreas usando helicópteros ou por meio dos bombardeios precisos de aviões de vôo baixo. Bombardeiros de alto nível não funcionavam contra as forças dos guerreiros da liberdade afegães, móveis e dispersas”. Os soviéticos saíram do Afeganistão em 1989. O Vietnã saiu do Camboja em 1990. Naquele ano, os sandinistas, apoiados pelos soviéticos, concordaram em realizar eleições na Nicarágua, e perderam. As forças cubanas deixaram Angola em 1991.

O único equívoco sério da administração Reagan em política externa foi o escândalo Irã-contra – a venda de US$30 milhões em armamentos ao Irã para garantir a libertação dos reféns americanos mantidos por terroristas pró-Irã no Líbano, violando uma política de longa data contrária ao pagamento de resgate por reféns. Os ganhos deste negócio foram canalizados aos contras que lutavam contra o regime comunista na Nicarágua, e que haviam recebido vários bilhões de dólares em armamentos soviéticos. A ajuda aos contras violou a Emenda Boland de 1984, um esforço do Congresso dominado pelos Democratas para restringir a política externa de Reagan. O promotor independente Lawrence E. Walsh não encontrou evidências de que Reagan houvesse violado a lei, e as condenações de pessoas envolvidas foram reformadas, mas o governo havia posto em risco prudentes impedimentos constitucionais.

O sucessor de Andropov, Konstantin Chernenko, morreu em março de 1985, e os figurões soviéticos aparentemente perceberam que necessitavam de alguém que fosse melhor em lidar com Reagan. Escolheram Mikhail Gorbachev, de cinquenta e quatro anos. O biógrafo Lou Cannon creditou melhores habilidades analíticas a Gorbachev que a Reagan, ainda que ele pensasse que o principal problema no comunismo fosse a corrupção e não a coerção. Ele pensava que o problema central fosse o alcoolismo generalizado. Ele aumentou os gastos governamentais em maquinário e indústria pesada, como Stalin havia feito, mas isso agravou a escassez de bens de consumo. Então ele lançou sua reforma chamada perestroika, mas, como o historiador Martin Malia explicou em The Soviet Tragedy [“A tragédia soviética”] (1994), “não havia mercado nacional, preços reais ou agricultura livre; ademais, 90% da economia permaneceu nacionalizada e diretamente gerenciada por órgãos estatais sob a supervisão do Partido”. Gorbachev cobriu déficits orçamentários imprimindo dinheiro, o que levou à inflação incontrolável. Ele lamentou que “a ciência econômica ainda não tenha oferecido um plano detalhado de como realizar a transição para uma economia dinâmica e altamente eficiente”. Gorbachev parecia ignorar a existência de A riqueza das nações, de Adam Smith, que havia oferecido justamente este plano dois séculos antes. Ele era igualmente ignorante da vasta literatura que documentava que pessoas livres são muito mais produtivas do que burocratas.

Reagan encontrou Gorbachev em sua cúpula em Genebra, em novembro de 1985. Gorbachev defendeu a agressão soviética ao Afeganistão, mas Reagan, que havia visto fotos de crianças afegãs mutiladas pelos bombardeios soviéticos, condenou a agressão. Gorbachev afirmou que a SDI tornaria a guerra mais provável. Reagan atacou a doutrina MAD, que dizia que a esperança de paz era ter as superpotências apontando mísseis uma para a outra. Gorbachev concordou em visitar a América, e Reagan concordou em visitar a União Soviética. O jornalista Robert G. Kaiser noticiou que Gorbachev e seu ministro de relações exteriores, Eduard Shevardnadze, de certa maneira “decidiram que Reagan não era terrivelmente inteligente ou versado sobre assuntos específicos – eles poderiam lidar com ele”.

Ronald Reagan e Gorbachev em Genebra, 1985.

Então, conforme o jornalista Peter Sweizer noticiou, os assessores de Reagan encorajaram a Arábia Saudita a aumentar sua produção diária de petróleo, e eles o fizeram – de 2 milhões de barris para 9 milhões. Os preços do petróleo cru mergulharam de trinta dólares por barril para doze dólares em meados de 1986. Isto foi catastrófico para a União Soviética, já que 80% de seus ganhos em moeda forte vinham do petróleo. O dinheiro era desesperadoramente necessário para comprar comida e tecnologia. Os sauditas estavam produzindo tanto petróleo que lucravam mais do que antes, mas outros produtores de petróleo, como Irã, Iraque e Líbia foram severamente pressionados, tendo de cortar suas compras de armamentos soviéticos, uma grande fonte de renda para a União Soviética.

A explosão na usina Nuclear de Chernobyl, Ucrânia, em abril de 1986, deu razões para que pessoas por todo o mundo desconfiassem de Gorbachev. Embora tenha propagandeado a glasnost – um grau limitado de abertura – , ele escondeu a verdade. Quando os europeus ocidentais detectaram uma nuvem radioativa vinda da União Soviética, Gorbachev bloqueou informações. Sessenta e sete horas após a explosão, os soviéticos emitiram uma nota. Uma nuvem radioativa chegou ao Japão em 3 de maio. Então, em 14 de maio, em meio a imensas críticas, Gorbachev vociferou contra uma “campanha de irrestrita propaganda anti-soviética”.

Em outubro de 1986, Reagan e Gorbachev realizaram um encontro em Reykjavik, Islândia. Após os dois homens oferecerem dramáticas reduções armamentistas, Gorbachev exigiu que Reagan abandonasse a SDI, e Reagan deixou o diálogo. A imprensa americana condenou-o por recusar-se a negociar, mas Reagan insistiu. “Não havia como eu pudesse dizer ao nosso povo que o seu governo não o protegeria de uma destruição nuclear”. Os soviéticos ficaram chocados.

Gorbachev desistiu de tentar impedir a SDI. Em dezembro de 1987, foi a Washington e assinou o Tratado de Forças Nucleares Intermediárias, que estabelecia que os dois países deveriam destruir os mísseis nucleares de alcance intermediário. Os soviéticos concordaram em destruir quatro vezes mais armas nucleares do que os Estados Unidos. Reagan citou um provérbio russo: Dovorey no provorey – “confie, mas verifique”.

Reagan manteve a pressão. Seu momento mais dramático ocorreu em Berlim. O governo comunista da Alemanha Oriental havia começado a construir o Muro de Berlim em um domingo, 13 de agosto de 1961, para impedir que as pessoas fugissem do comunismo. Muitos alemães orientais foram baleados tentando quebrar o muro, cavando túneis por baixo dele ou voando por cima. Em junho de 1987, Reagan fez um discurso no Muro de Berlim perto do Portão de Brandemburgo. Disse: “Secretário Geral Gorbachev, se você quer a paz, se você quer prosperidade para a União Soviética e para a Europa Oriental, se você quer liberalização: venha a este portão! Senhor Gorbachev, abra este portão! Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. Posteriormente, viajou a Moscou para mais conversas com Gorbachev. Em 31 de maio de 1988, disse aos estudantes da Universidade Estatal de Moscou: “A chave é a liberdade – liberdade de pensamento, liberdade de informação, liberdade de comunicação. … Povos não fazem guerras; governos fazem. E nenhuma mãe jamais vai estar disposta a sacrificar seus filhos por ganhos territoriais, por vantagem econômica, por ideologia. Um povo livre para escolher sempre escolherá a paz”. Dusko Doder e Louise Branson, biógrafos de Gorbachev, noticiaram que os discursos de Reagan aos estudantes russos “foram talvez suas performances mais espetaculares e tocaram profundamente a psique russa. (…) Os russos amaram-no”.

Gorbachev anunciou em 7 de dezembro de 1988 que a União Soviética, em sérios apertos financeiros, iria reduzir suas forças armadas em 10 mil tanques e 500 mil soldados, e indicou que não tentaria semear regimes comunistas em nenhum outro lugar. Em 9 de novembro de 1989, a Alemanha Oriental começou a derrubar o Muro de Berlim, um evento eletrizante que inspirou revoluções de sucesso contra os odiados opressores comunistas por toda a Europa Oriental.

Gorbachev, entretanto, continuou defendendo o monopólio político do Partido Comunista. Insistiu em manter o Plano Quinquenal, e não gostou da idéia de uma eleição presidencial, já que ele perderia, e então rejeitou as demandas russas por soberania. Mas em 25 de dezembro de 1991 a bandeira soviética foi abaixada no Kremlin, e a URSS deixou de existir. Incrivelmente, a revista Time escolheu Gorbachev como o Homem do Ano, e ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz, embora Reagan tenha prevalecido.

“O que ocorreu”, escreveu Martin Malia, “foi uma revolução de consciência, e não apenas no ex-bloco soviético, mas por todo o mundo. De repente havia um consenso geral de que o mercado, a propriedade privada e a democracia formavam um todo orgânico; que não se podia ter Estado de direito, direitos humanos, governo constitucional e pluralismo político sem uma ‘base’ material para a sociedade civil na propriedade pessoal e na liberdade de escolha econômica” – tudo o que Reagan havia defendido.

Ronald e Nancy foram celebrados por milhares quando fizeram um tour triunfal pela Europa Oriental: visitaram o que havia sobrado do Muro de Berlim e trabalharam nele com um formão. Ele discursou no parlamento polonês em Varsóvia e para estivadores poloneses em Gdansk, e foi saudado entusiasticamente em Moscou.

Após dircurso, Ronald e Nancy Reagan acenam para a platéia no Muro de Berlim em 1987.

Ironicamente, a SDI caiu nas preferências assim que grupos de interesse relacionados à defesa batalharam por verbas do Congresso. O presidente Bill Clinton presumiu que o colapso do império soviético significava que a SDI não era mais necessária, embora alguma pesquisa continuasse em menor escala, conhecida como National Missile Defense [“Defesa Nacional contra Mísseis”]. Mas o General Lee Butler, do Comando Aéreo Estratégico, avisou: “O comando russo e o sistema de aviso de aproximação de mísseis estão em estado de declínio. … Eles têm alarmes falsos de maneira rotineira, e eu estremeço ao pensar sobre a moral e a disciplina de suas forças encarregadas de foguetes”. Em janeiro de 1995, por exemplo, oficiais militares russos estiveram perto de lançar um ataque nuclear contra os Estados Unidos por pensarem que um míssil americano estaria vindo em sua direção; descobriu-se que era um foguete norueguês lançando um satélite meteorológico. Além disso, muitas bombas russas foram supostamente vendidas para países que não acatam as leis internacionais. Acredita-se que cerca de vinte países possuam mísseis de alcance intercontinental. Há uma crescente preocupação em relação à Coréia do Norte e à China, especialmente após comunistas chineses terem roubado segredos militares dos EUA; em 1999 o Congresso votou pelo avanço no desenvolvimento de um sistema de defesa anti-míssil.

Assim, a experiência ressaltou a sabedoria de Reagan. Ele demonstrou a visão e a coragem para ajudar a fazer deste um mundo mais livre e pacífico.

Artigo publicado originalmente no site Ordem Livre.

Batalha Épica: Keynes versus Hayek

O pessoal da Econstories (econstories.tv) bolou vídeos muito criativos para falar de Economia. Neles, dois famosos economistas se confrontam através de rimas num vídeo de rap enquanto um critica a teoria do outro.

John Maynard Keynes defende um Estado intervencionista para acabar com o desemprego e estimular o consumo para fazer crescer a Economia.

Friedrich August von Hayek defende que o Estado não deve intervir ativamente na Economia, pois ele próprio é o causador dos males que propõe combater.

Assista!

O Sonho Americano

De 2008 pra cá, muita coisa foi dita a respeito da crise financeira, mas pouco foi explicado. Quando alguém se metia a explicar, dizia que o vilão era Capitalismo e que a culpa era do Estado não estar controlando a economia, e outras mentiras. Mentiras? Você deve estar se perguntando e eu respondo para você leitor: Sim, mentiras.

O que não mostram, talvez por ignorância ou má fé, é que a crise começou não por falta de controle Estatal na economia, e sim por excesso dele. A animação The American Dream (O Sonho Americano) explica de forma simples, bem humorada e prática o que a mídia não conseguiu desde 2008: explicar de uma forma correta como e porquê surgiu a bolha e quem a fomentou.

The American Dream foi produzido por Tad Lumpkin e Harold Uhl e lançado em 2010, mas só ganhou destaque esse ano, apesar de ser um desenho que mostra como é perigoso a relação Estado-Bancos, o mal que o Federal Reserve (Banco Central americano) faz aos EUA e quem está por trásdele. Também aponta soluções de viés libertário, fonte da qual os Founding Fathers beberam.

Parte 1: http://www.youtube.com/watch?v=UzyyUKXE_N4

Parte 2: http://www.youtube.com/watch?v=d_8SXZxPWq0

Parte 3: http://www.youtube.com/watch?v=-ot7juRuPVY